O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 1 de 6 · parte 3/4

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Lenço encarnado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Não carecia tanto luxo — murmurou. — Afinal de contas, é tempo de guerra. Qualquer caixão de pinho servia.

Aderbal fumava em silêncio, pensando no diálogo que mantivera havia pouco com o Chico Pedro da olaria, que encontrara entre os feridos do Hospital Militar.

— Mas que é isso, vivente? Eu não sabia que eras maragato.

— Qual maragato! — respondeu o oleiro com voz débil. Fora ferido no peito. Estava pálido, a testa rorejada de suor. — Nunca me meti em política. Só sei fazer tijolo.

— Bala perdida?

Chico Pedro sacudiu a cabeça negativamente e depois, entre gemidos, contou:

— Estavam brigando... ai-ai-ai! dentro da minha propriedade. Eu não podia ficar... ai!... todo o tempo parado... de bra-braços cruzados... Quando vi aquela rapaziada linda de lenço colorado... caindo e morrendo, fiquei meio incomodado... Vai então... ai!... peguei uma espingarda e comecei também a dar uns tirinhos...

Olhando agora para o corpo de Miguel Ruas, Aderbal recordava as palavras do oleiro. “Fiquei meio incomodado...” Decerto o que havia levado o ex-promotor à revolução tinha sido um sentimento idêntico ao do Chico Pedro. Fazendo com a cabeça um sinal na direção do morto, Maria Valéria murmurou:

— Será que tem pai e mãe vivos? Ou alguma irmã? Precisamos avisar os parentes...

Babalo sacudiu lentamente a cabeça. A velha soltou um suspiro breve e exclamou:

— Pobre do Antônio Conselheiro!

28

Laurinda reuniu a negrada da vizinhança e à meia-noite em ponto romperam todos num terço em intenção às almas dos mortos. Rezavam de pé, com os rosários nas mãos.

Um vento gelado entrava pela porta entreaberta, fazendo oscilar a chama das velas. Havia uma ao lado de cada defunto. Os corpos estavam estendidos no chão de terra batida, em duas fileiras iguais.

Roque Bandeira e Arão Stein, que tinham passado boa parte da noite a ajudar os médicos na Casa de Saúde, achavam-se agora junto do corpo do ex-promotor. Cerca da uma da madrugada, quando, terminado o terço, Laurinda subiu, Maria Valéria mandou-a servir um café, que o judeu e Tio Bicho tomaram ali ao pé do morto, comendo pão quente trazido pelo Chico Pais, de sua padaria. Babalo dormia deitado no sofá da sala de visitas, enrolado num poncho. Maria Valéria de quando em quando subia para “espiar” Flora e as crianças: depois voltava para o escritório, ficava sentada a um canto, os braços cruzados sob o xale, um braseiro aceso aos pés.

Desde que haviam chegado ao Sobrado, Stein e Bandeira discutiam a personalidade de Miguel Ruas.

— Não compreendo — disse o primeiro pela décima vez. — Palavra que não compreendo.

Aproximou-se do defunto, como se esperasse dele uma explicação. Roque Bandeira sorriu:

— Mas quem compreende?

— Este homem nunca foi político, não era pica-pau nem maragato... Vinha de outro estado. Não tinha nada a ganhar com essa revolução... No entanto meteu-se nela, lutou com bravura e acabou perdendo a vida.

— Fale mais baixo — repreendeu-o Maria Valéria.

— É verdade que o Madruga mandou dar-lhe uma sova... — prosseguiu Stein, num cochicho. — Se levássemos a coisa pra esse lado, talvez encontrássemos uma explicação.

Tio Bicho ria o seu riso meio guinchado de garganta.

— E por que não pensar num ato gratuito? Ou num puro gesto de cavalheirismo... ou de cavalaria? É porque essas coisas não cabem no teu esquema marxista?

— Ora! Elas não passam de invenções dos literatos pequeno-burgueses.

Stein começou a esfregar as mãos e a caminhar dum lado para outro. Da praça vinham vozes. O vento, soprando agora com mais força, sacudia as vidraças: era como se o casarão batesse dentes, com frio.

— Bem dizia a velha Bibiana — murmurou Maria Valéria, mais para si mesma que para os outros: — “Noite de vento, noite dos mortos”.

Seguiu-se um silêncio. Stein pôs-se a andar ao redor do ataúde.

— De que serviu o sacrifício deste homem? — perguntou, parando na frente de Roque. — Não achas que ele podia ter usado melhor a sua vida e a sua morte?

O outro deu de ombros. O judeu continuou:

— Quando é que todos esses pica-paus, maragatos, borgistas, assisistas, monarquistas vão descobrir que estão se matando e se odiando por causa de mitos?

— Mas a coisa não foi sempre assim, desde que o mundo é mundo?

— O que não é razão para a gente achar que não pode mudar tudo.

Tio Bicho abriu a boca num prolongado bocejo. Stein tirou do bolso um caderno e entregou-o ao amigo.

— Aqui está outro mistério. Encontrei este negócio no bolso do doutor Ruas. Pensei que era um diário de campanha.

— E não é? — perguntou Roque, aproximando o caderno da chama de um dos círios e folheando-o sem muita curiosidade.

— Não. É um amontoado de bobagens, quadrinhas mundanas, pensamentos. Olha o título: Ao ouvido de mlle. X. Há uma página que foi escrita ontem, vê bem, na véspera do ataque à cidade. Escuta: Atacaremos Santa Fé amanhã. Penso em ti, nos teus olhos de safira, ó lírio de Florença. Olho para as estrelas e relembro a noite em que te enlacei pela cintura e saímos rodopiando ao som duma valsa de Strauss. Nenhuma palavra sobre os horrores da guerra, as durezas da campanha, a possibilidade da morte...

Stein cruzou os braços, olhou para o defunto e depois para o amigo.

— Agora quero que me expliques. Como é que esse moço fútil, que usava pó de arroz, que vivia preocupado com bailarecos, roupas, gravatas, brilharetes sociais foi se meter nessa revolução e brigar como um homem? Está tudo errado.

— Está tudo certo — sorriu o Bandeira, devolvendo o caderno ao outro. — E, seja como for, o homem está morto. Devemos respeitá-lo.

— Pois eu prefiro respeitar os vivos enquanto estão vivos, já que podemos impedir que eles morram em guerras insensatas como essa. Ou que vivam uma vida indigna, mais como bichos do que como seres humanos, como é o caso da maioria da nossa gente. Esse é o respeito que todos devem ter. O resto é superstição, obscurantismo, conversa fiada de padre.

No seu canto Maria Valéria estava agora de cabeça atirada para trás, sobre o respaldo da cadeira, os olhos cerrados, a boca entreaberta. A seus pés as brasas morriam.

Stein aproximou-se da janela e olhou para fora. Havia tíbias luzes amarelentas em algumas das janelas da Intendência. Na praça moviam-se vultos. O vento continuava a sacudir as vidraças.

— Pensa naqueles homens mortos lá no porão — murmurou o judeu. — Ninguém sabe quem são. O tenente não conseguiu identificar mais que três ou quatro. Amanhã vão ser enterrados na vala comum, enrolados em trapos. Esse é o destino de todos os lutadores anônimos que morrem estupidamente para servirem os interesses políticos e econômicos da minoria dominante.

Fez uma pausa, abafou um bocejo, depois prosseguiu:

— E as diferenças de classes continuam mesmo na morte. O doutor Ruas está aqui em cima, tem velório especial, caixão de primeira. A escória jaz atirada lá embaixo, no porão. Não é um símbolo do que acontece no edifício social?

Bandeira levantou para o amigo um olhar que o sono já embaciava:

— Só não compreendo — murmurou — é como a esta hora da noite, com um frio brabo destes, ainda tens ânimo e calor para discutir essas coisas!

 

Pouco depois das cinco, Babalo acordou, encaminhou-se para a cozinha e pediu a Laurinda que lhe preparasse um mate. Galos começavam a cantar. Os círios extinguiam-se ao pé do esquife.

Desde as duas da madrugada Stein encontrava-se no porão, sentado a um canto, fazendo companhia aos revolucionários mortos. As velas ali se haviam extinguido por completo, e a escuridão parecia aumentar o frio e a umidade. Quando o dia começou a clarear o judeu saiu para o quintal, encolhido, apanhou uma laranja meio verde de uma das laranjeiras, partiu-a e começou a chupá-la. Estava azeda. Jogou-a fora. Enfiou as mãos nos bolsos e ficou a olhar para o horizonte, onde uma barra carmesim anunciava o nascer da manhã.

Maria Valéria despertou pouco antes de aparecer o sol. Ergueu-se da cadeira, aproximou-se do calendário do escritório, sob o retrato do Patriarca, e olhou a data. Maio, 8. Terça-feira. A seguir, como costumava fazer todas as manhãs, arrancou a folhinha, leu o que estava escrito no verso, amassou-a entre os dedos e atirou-a dentro da cesta de papéis velhos.

29

Uns dez dias mais tarde os ares de Santa Fé foram de novo agitados pelos rojões que o cel. Madruga mandara soltar na praça. Curiosos correram para a Intendência, amontoaram-se e acotovelaram-se na frente do quadro-negro no qual o maj. Amintas Camacho, havia pouco, afixara um papel com a notícia sensacional. A Terceira Divisão do Exército Libertador, comandada pelo gen. Estácio Azambuja, fora surpreendida nas pontas do arroio Santa Maria Chico pelas forças combinadas dos coronéis Claudino Pereira, Flores da Cunha e Nepomuceno Saraiva. Depois dum combate de quase quatro horas, em que sofreram pesadas baixas, os revolucionários haviam debandado, deixando em poder dos legalistas, além de muitos prisioneiros, armas, munições, carroças com víveres e cerca de dois mil cavalos. O comunicado terminava assim:

Os bandoleiros fugiram rumo da fronteira, internando-se no Uruguai. Ficou entre seus

mortos o famigerado Cel. Adão Latorre, negro de sinistra memória, um dos maiores

degoladores maragatos da Revolução de 93.

Aderbal Quadros leu a notícia meio céptico e ao entrar no Sobrado disse à filha:

— Se a coisa é verdade, foi uma derrota feia pra nossa gente. Mas essa chimangada mente muito!

Os jornais oposicionistas que chegaram mais tarde a Santa Fé mal conseguiam atenuar as proporções da derrota. Ficava claro que, conquanto a divisão de Estácio Azambuja reunisse a fina flor de Bagé, São Gabriel e Dom Pedrito, seu armamento era deficiente, a munição pouca, o serviço de vigilância péssimo, isso para não falar na falta de unidade de vistas entre seus diversos comandantes.

A Voz da Serra apareceu aquela semana trazendo um relato mais ou menos minucioso do combate do Santa Maria Chico. Terminava assim:

[...] e a mortandade nas fileiras dos revolucionários teria assumido as proporções duma

verdadeira chacina não fosse a generosidade do Cel. Claudino Nunes Pereira, cujas

tropas, disciplinadas e aguerridas, dispunham de duas metralhadoras colocadas em

posição vantajosa. No entanto esse bravo militar, comprovando as tradições de bondade

e cavalheirismo do povo gaúcho, mandou erguer a alça de mira dessas mortíferas

armas, de maneira que as balas passavam sobre as cabeças dos maragatos

espavoridos, que fugiam em todas as direções, enquanto os projéteis ceifavam os

ramos superiores das árvores dum capão próximo.

— Já lhe disse que não quero ver essa porcaria dentro desta casa! — exclamou Maria Valéria, apontando para o número do jornal do Amintas que Camerino tinha na mão.

O médico sorriu.

— Está bem — disse, rasgando a folha em vários pedaços e atochando-os no bolso do casaco —, mas acho que a gente deve ler tudo o que o inimigo escreve...

Fosse como fosse, os moradores do Sobrado ficavam sobressaltados toda a vez que ouviam as detonações dos foguetes do Madruga. A primeira pergunta que Flora fazia a si mesma era: “Será alguma coisa com a nossa gente?”.

Não se tivera mais nenhuma notícia certa da Coluna Revolucionária de Licurgo Cambará desde o malogrado ataque à cidade. Sabia-se vagamente que andava pelo interior do município de Cruz Alta, onde tivera encontros de patrulha com forças governistas. Havia até quem afirmasse que muitos de seus oficiais haviam já emigrado para a Argentina.

— Potocas — dizia Babalo. — Ninguém sabe.

As notícias do Madruga só anunciavam vitórias para os borgistas: Honório Lemes e seus “bandoleiros” viviam em fuga constante, perseguidos pela tropa de Flores da Cunha; a divisão de Zeca Neto fugia também aos combates; Felipe Portinho continuava imobilizado em Erechim, de onde Firmino de Paula esperava desalojá-lo em breve...

— E a intervenção não vem! — suspirava Aderbal.

O governo federal havia mandado ao Rio Grande um ex-ministro, o dr. Tavares de Lira, para que ele servisse de mediador entre revolucionários e legalistas. Os jornais anunciavam que o emissário do presidente da República agora voltava para o Rio. Tudo indicava o malogro de sua missão de paz.

Flora agora fazia parte da Cruz Vermelha do Exército Libertador, recentemente fundada em Santa Fé. Passava várias horas do dia na Casa de Saúde a ajudar os médicos. Era-lhe difícil vencer a repugnância que lhe despertavam aqueles homens barbudos e sujos para os quais tinha de dar remédios a horas certas. O pior, porém, eram os curativos: desfazer ataduras encardidas recendentes a iodofórmio (cheiro que ela associava a sórdidas “doenças de homem”), passar pomadas nas feridas ou banhá-las com líquido de Dakin... Fazia tudo isso de testa franzida, contendo a respiração, os lábios apertados. Em geral a lembrança daqueles feridos e daquelas cenas a acompanhava quando ela tornava à casa, persistia quando ela ia para a cama à noite e cerrava os olhos para dormir. Os cheiros de fenol, éter, água da guerra e pus — ah! o pior mesmo era o cheiro agridoce de pus misturado com o de iodofórmio! — não lhe saíam das narinas. Sob as cobertas, depois de rezar e pedir a Deus pela saúde dos ausentes e presentes e pelo restabelecimento dos feridos, ela procurava esquecer o hospital e os doentes, pensar no marido, imaginar que ele estava ali a seu lado com a sua presença quente, amorosa e limpa. Em vão! Aos poucos se ia esquecendo das feições dele, sentia necessidade de olhar para o Retrato, lá embaixo, a fim de recompor a imagem querida, que em sua memória se perdia numa espécie de nevoeiro. Na escuridão do quarto (de quando em quando um dos filhos falava no sono) Flora pensava naquelas caras lívidas e peludas, nos algodões purulentos, nas gazes ensanguentadas, nos hálitos pútridos. Ah! Outra lembrança que com frequência lhe vinha à mente era a do olhar dos feridos. Havia olhos empanados pela dor ou pelo medo da morte. Ou então animados dum brilho cálido de febre. Viam-se também olhos doces, com expressão entre humilde e grata, quase canina. Mas os havia também orgulhosos, com algo de feroz. E olhos que fitavam as pessoas e as coisas em derredor num meio espantado estupor, como que não compreendendo direito o que acontecia. Um dia Flora teve um arrepio desagradável ao se sentir alvo da atenção de um dos feridos, um caboclo de cara morena e larga, a cabelama do peito a escapar-lhe pela abertura da camisa. Era um olhar carregado de desejo. Ela se sentiu despida e com a impressão de que aqueles olhos a haviam lambuzado dum visgo insuportável. Ao voltar à casa tomara um prolongado banho. Mas, enquanto estava dentro da banheira, teve a impressão de que aqueles olhos sujos e implacáveis a observavam, grudados no teto...

Sempre que chegava ao hospital pela manhã era invariavelmente saudada com as mesmas palavras pelo dr. Carbone, que nunca perdia o bom humor, nem quando o tiravam da cama no meio da noite para atender um caso de urgência:

— Ah! A nossa piccola Florence Nightingale! Bom dia, carina.

Flora admirava não só a coragem como também a eficiência de Santuzza, a quem o marido dera o cognome de la regina dell’autoclave. Movia-se no hospital com uma facilidade feliz e maternal de quem está em sua própria casa. Era sempre chamada quando havia algum “caso difícil”. As damas da sociedade local — algumas das quais faziam parte da Cruz Vermelha para efeitos apenas de prestígio social — recusavam-se a fazer curativos (e Carbone não as forçava a isso) nos casos em que ficassem expostas as partes do corpo dos feridos que Maria Valéria costumava designar pelo nome de “vergonhas”. Santuzza, porém, não hesitava. Arregaçava as mangas, crescia sobre a cama com os seios faraônicos, e dizendo: “Deixa a mamma ver”, ia arriando com a maior naturalidade as calças do paciente. E aqueles homenzarrões se entregavam a ela quase com uma naturalidade de meninos.

Flora levava doces e cigarros para todos os feridos da Casa de Saúde, mas tinha atenções especiais para com Neco Rosa, que lá estava imobilizado sobre um leito, a coxa envolta em ataduras, magro e lívido, uma barba de profeta a negrejar-lhe contra a palidez do rosto. Soltava suspiros, queixava-se da sorte, falava nos companheiros distantes, perguntava aos médicos quando iam dar-lhe alta... O dr. Carbone não o iludia. Antes de quarenta dias não o poderia mover dali.

— Que porcaria! — exclamou Neco.

Um dia, depois de verificar-lhe a temperatura e o pulso, Dante Camerino sentou-se na cama e murmurou:

— O Madruga sabe que foste tu quem comandou o grupo que atacou a Intendência pela retaguarda. Anda dizendo a Deus e todo o mundo que degolaste com tuas próprias mãos dois prisioneiros provisórios...

— Mentira! — vociferou Neco, soerguendo-se bruscamente como se lhe tivessem aguilhoado as costas. — É uma infâmia! Tu sabes que não sou bandido.

— Eu sei. Mas o Madruga anda furioso, não ignora que estás aqui e jurou te pegar. “Aquele barbeiro canalha não me sai com vida do hospital.” É o que vive dizendo.

Neco permaneceu em silêncio por um instante, fumando e olhando para a ponta dos próprios pés, metidos nas meias de lã que Maria Valéria lhe fizera.

— Preciso então ir pensando num jeito de fugir daqui.

Camerino ergueu-se.

— Não te preocupes. Enquanto continuares neste hospital estás garantido. Uma patrulha do Exército se mantém de guarda aí fora, dia e noite.

Neco olhava ainda, taciturno, para a ponta dos pés. Foi com voz grave que tornou a falar:

— Vou te pedir um favor. Não me leves a mal.

— Que é?

— Pelo amor de Deus, me arranja um violão!

30

O inverno entrou rijo, com geadas. Certa manhã, ao acordar os filhos mais velhos para mandá-los à escola, Flora olhou para fora e, vendo os telhados esbranquiçados, pensou no marido e sentiu um aperto no coração.

Laurinda todas as manhãs acompanhava Alicinha, Floriano e Jango até a casa onde funcionava a Aula Mista Particular de d. Revocata Assunção. Era perigoso — achava Flora — deixar a menina andar só com os irmãos por aquelas ruas “infestadas de provisórios mal-encarados”.

Aderbal Quadros e Laurentina vinham agora com muita frequência ao Sobrado, numa aranha puxada por um alazão, que era o último amor de Jango. Babalo entrava, distribuía caramelos e barras de chocolate entre os netos, sentava-se, fazia Edu montar-lhe na coxa e balançava-o num ritmo que imitava o trote dum cavalo. Fumigava o rosto do menino com a fumaça azul e acre de seu cigarrão. Eduardo franzia o nariz, apertava os olhos, mas continuava a rir e a pedir: “Galope! Galope!”.

A um canto da sala, Laurentina e Maria Valéria retomavam seu antigo diálogo de silêncio onde o haviam interrompido no último encontro.

Quando os Carbone apareciam, o italiano queria cantar ou pôr o gramofone a funcionar, mas Flora mostrava-se indecisa. Seria direito? Os homens da casa andavam pela campanha, enfrentando agruras e perigos. Ninguém sabia ao certo onde estavam nem o que lhes havia acontecido. Era possível até que àquela hora... Calava-se, engasgada, já com lágrimas nos olhos. Maria Valéria, porém, decidia a situação: “Não se toca nem se canta. É tempo de guerra”. Carbone fazia um gesto teatral, mas resignava-se, apanhava um baralho, sentava-se a uma mesa e ali ficava a cantarolar baixinho e a jogar paciência, enquanto Santuzza, no andar superior, entretinha-se com i bambini.

Roque Bandeira e Arão Stein visitavam o Sobrado pelo menos três vezes por semana. Tomavam café com bolinhos de coalhada e comiam a pessegada que Maria Valéria fizera durante o verão para ser consumida no inverno.

Os dois amigos em geral ficavam separados dos outros, ocupados com suas polêmicas. Interessava-se Bandeira pelas figuras daquela revolução que aos poucos se iam definindo a uma luz de epopeia.

— É curioso — disse uma noite Tio Bicho, mastigando com prazer um pedaço de pessegada no qual havia nacos de fruta inteiros — a gente observar o nascimento dum herói.

— Devias dizer dum mito — interrompeu-o Stein, repondo no seu lugar, com um gesto nervoso, a mecha de cabelo que lhe caíra sobre os olhos.

— E por que mito? Não são realmente heróis? Tome Honório Lemes... Já é uma figura lendária.

— Então? Que é uma figura lendária senão um mito?

— Não me amoles. Sabes o que quero dizer.

— Sei mas não concordo. Morrem dezenas, centenas de soldados anônimos nesses combates, mas quem leva a fama e a glória é o general que na maioria dos casos raramente ou nunca aparece na linha de fogo.

— Mas que é o herói senão uma síntese, um símbolo, o homem que em determinado momento da história dum povo ou dum grupo encarna não só os sonhos e aspirações desse povo ou desse grupo como também suas qualidades marcantes de coragem, espírito de sacrifício e lealdade? De certo modo o herói é o seu povo. Tivemos em 1835 Bento Gonçalves. É possível que seja Honório Lemes quem melhor encarne o espírito revolucionário de 1923...

Stein limitou-se a estender as mãos ressequidas e arroxeadas por cima do braseiro que Maria Valéria mandara pôr entre ele e o amigo. Tio Bicho contemplava o judeu, sorrindo, com um ar de tranquila e adulta superioridade.

— Por que estás rindo?

— Porque, apesar de todas as tuas teorias, os heróis aparecem, crescem aos olhos do povo e não há nada mais a fazer senão aceitar o veredicto popular por mais errado que ele seja. A verdade está com as massas. Não é essa a essência mesma do teu bolchevismo?

Stein ficou a mastigar pensativo uma fatia de queijo caseiro. Estava deprimido. No dia anterior, um delegado atrabiliário, acompanhado de dois brutamontes da Polícia Municipal, lhe havia invadido a casa, rebuscando-lhe gavetas, malas, armários... Depois de queimar--lhe todos os livros, havia-lhe levado a caixa de tipos e a impressora. E, como ele tivesse esboçado um protesto contra a arbitrariedade, o bandido sem dizer palavra lhe aplicara um soco na cara, derrubando-o.

Stein tocou com as pontas dos dedos a marca que lhe escurejava na face esquerda.

— Cavacos do ofício — murmurou Bandeira. — A polícia te tirou a tipografia, te queimou a biblioteca mas não podes negar que enriqueceu a tua folha de serviços ao Partido.

— Estúpidos! São violências como essa que fortalecem nosso ânimo, ajudam a nossa causa. Eles estão condenados. É questão de tempo.

Aderbal Quadros não entendia aquelas conversas. Sobre o que se passara na Rússia, tinha apenas ideias nebulosas: ouvira falar numa “reviravolta braba” em que revolucionários tinham “feito o serviço” na família imperial, instituindo um regime em que tudo era de todos. Mas como podiam aqueles dois moços tão instruídos perder tempo com problemas dum país distante, quando ali nas ventas deles fervia uma guerra civil em que irmãos se tiroteavam uns com os outros?

Pelas notícias dos jornais, o velho acompanhava fascinado as proezas de Honório Lemes e seus guerrilheiros. Muitas vezes entrava no Sobrado erguendo no ar, como uma rósea bandeira de guerra, um número do Correio do Sul, e lia para a gente da casa e para os que lá se encontrassem o editorial assinado por Fanfa Ribas, que na opinião de Babalo era o maior jornalista vivo do Brasil. — Que estilo! Que coragem! Que côsa!

Os jornais do governo estadual procuravam ridicularizar o general da Divisão do Oeste, apresentando-o como um homem de poucas letras, um simplório, um “mero tropeiro”.

Uma tarde Aderbal irrompeu no Sobrado e, sem tirar o chapéu, de pé no meio da sala, leu em voz alta todo um editorial do Correio do Sul, que era um hino à profissão de tropeiro e ao caráter de Honório Lemes. Ao chegar às últimas linhas, fez uma pausa, lançou um olhar para as duas mulheres que o escutavam, apertou os olhos e, pondo um tremor teatral na voz seca e quadrada, leu o final: “De joelhos, escribas! É o Tropeiro da Liberdade que passa!”.

Soltou um suspiro, murmurou: “Que côsa!”, atirou o jornal em cima duma mesa e saiu rengueando da sala, como num final de ato.

 

E por todo o Rio Grande, nos meios assisistas, o cognome pegou. Retratos do “Tropeiro da Liberdade” apareciam em jornais e revistas, ilustrando a narrativa de seus feitos militares. Era um homem de estatura meã, ombros caídos — “um jeito meio alcatruzado”, como dizia Maria Valéria —, bigodes pretos escorridos pelos cantos da boca. Na fita do seu chapéu de abas largas, lia-se esta legenda: LIBERDADE INDA QUE TARDE!

Só oferecia combate quando lhe convinha. Sua tropa, duma mobilidade prodigiosa, desnorteava o inimigo, que o perseguia com um encarniçamento irritado. E, quando a situação se fazia feia ou duvidosa para suas armas, o caudilho se refugiava com seus soldados na serra do Caverá, que conhecia palmo a palmo, de olhos fechados, e aonde ninguém ousava ir buscá-lo.

Com o passar do tempo, sua legenda enriquecia. Faziam-se versos inspirados em seus feitos. E as mulheres jogavam-lhe flores quando ele desfilava com sua tropa pelas ruas das vilas e cidades que ocupava.

31

No quinto mês da revolução, outra figura — essa do campo oposto ao do Leão do Caverá — já se delineava e impunha, também com visos de legenda: a do dr. José Antônio Flores da Cunha. O intendente de Uruguaiana comandava os Fronteiros da República. Era um homem bravo e afoito, duma vitalidade tremenda. De estatura mediana, tinha uma bela e máscula cabeça. Em seu rosto, de fronte alta e feições nobres, bondade e energia se mesclavam. A barba, que usava à nazarena, era dum castanho com cambiantes de bronze, como o dos cabelos, e seus olhos, dum claro azul, exprimiam às vezes uma inocência que o resto do corpo varonilmente renegava. Homem de língua solta e choro tão fácil quanto o riso, era capaz de grandes violências, que em geral depois compensava com generosidades ainda maiores. Suas palavras e atos raramente eram calculados, mas produtos de impulsos.

Contava-se que duma feita, encontrando, numa de suas marchas pela campanha, um rancho à beira da estrada, fez parar o cavalo e, sem apear, pediu de beber à cabocla que viu à porta. A criatura deu-lhe água numa caneca de folha e, enquanto o caudilho bebia, ficou a observá-lo com uma expressão de espantado encanto. E, quando o guerreiro se afastou ao trote do cavalo, um de seus homens ouviu a mulher murmurar: “Parece Nosso Senhor Jesus Cristo. Que Deus me perdoe!”.

Murmurava-se que Flores da Cunha não se entendia muito bem com o cel. Claudino Pereira, comandante da brigada governista do Oeste, à qual o primeiro também pertencia. É que tanto ele como o seu companheiro de armas Oswaldo Aranha lutavam com a impaciência e o ímpeto que nascem da paixão: queriam liquidar depressa o inimigo, ao passo que o outro, soldado profissional e experimentado, preferia proceder com cautela e método, temperados pelo seu desejo de evitar inúteis sacrifícios de vidas. Contava-se que um dia — referindo-se aos dois bacharéis — o cel. Claudino dissera a um caudilho borgista que encontrara numa de suas marchas: “Trago comigo dois homens impossíveis”.

 

Foi na manhã de 19 de junho que chegaram a Santa Fé pelo telégrafo as primeiras notícias do violento combate travado nos arredores de Alegrete entre as tropas de Honório Lemes e as de Flores da Cunha. Mas só dois dias mais tarde é que a cidade ficou ao corrente dos pormenores. Os revolucionários haviam tomado posição à margem direita do Ibirapuitã, junto a uma das pontes de pedra do Matadouro Municipal. Da cidade de Alegrete saíram as forças legalistas comandadas por Flores da Cunha e pelo caudilho Nepomuceno Saraiva. Este último achava temerário levar um ataque frontal à ponte. Como, porém, conhecia bem o comandante da tropa, disse a um dos companheiros: “El doctor al llegar mandará cargar. Es una barbaridad!”. Não se enganava. Arrancando a espada e esporeando o cavalo, Flores da Cunha gritou: “Os que tiverem vergonha, que me acompanhem!”. E, sob a fuzilaria do inimigo, precipitou-se rumo da ponte, seguido de um punhado de companheiros. Viu tombar nessa carga um irmão seu, já na outra margem do rio, transposta a ponte. E ele próprio foi ferido por um estilhaço de bala, que lhe penetrou no ilíaco direito. Pouco depois, Oswaldo Aranha, que lutava com a mesma bravura, era também atingido por um projétil no ápice do pulmão esquerdo. Nenhum dos dois, porém, abandonou a luta.

O combate durou mais de três horas. E, como anunciava o cel. Laco Madruga, sob o estrondo dos seus foguetes, “as bravas forças governistas tomaram a ponte do Ibirapuitã, numa das mais renhidas refregas desta campanha, e Honório Lemes e seus bandoleiros fugiram para o Caverá, deixando no campo treze mortos e vinte e sete feridos”.

Começaram então a circular notícias sombrias. Contavam os jornais da oposição que depois do combate “os mercenários de Nepomuceno Saraiva” se haviam entregue a “orgias de sangue”, degolando feridos e prisioneiros. A Voz da Serra revidou: degoladores eram os assisistas. E citava fatos e nomes próprios, denunciando banditismos.

Aderbal Quadros ficou indignado ao saber que as forças borgistas agora empregavam contra os revolucionários um aeroplano pilotado por dois alferes. Achou isso um ato de covardia inominável, indigno das tradições do Rio Grande, cuja paisagem mesma parecia sugerir aos homens a luta franca, frente a frente, em campo aberto, sem emboscadas nem traições. E, quando circulou a notícia de que da “engenhoca” haviam lançado três bombas sobre a vila de Camaquã, então em poder dos revolucionários, Babalo ficou com os olhos inundados de lágrimas, que exprimiam a um tempo sua pena, sua vergonha e sua indignação. “Que côsa bárbara!”, exclamou. Montou a cavalo, saiu a andar pelos campos, nos arredores do Sutil, falando sozinho. Foi longe. Ficou por algum tempo no alto duma coxilha, contemplando as invernadas verdes de horizontes largos e claros, respirando fundo, como se quisesse limpar não somente os pulmões como também a alma. Voltou depois para casa, já ao anoitecer, ao tranco do cavalo, assobiando uma toada que aprendera no Paraguai, nos seus tempos de tropeiro.

 

Mas circulavam também por todo o estado histórias de heroísmo, lealdade e abnegação. Conheciam-se agora pormenores da morte de Adão Latorre. Sob o fogo das metralhadoras, o velho caudilho, com apenas trinta homens, estendera linha e, para proteger a retirada dos companheiros, ficara tiroteando contra uma coluna inimiga de quase mil soldados. Mais tarde, quando tentava salvar a cavalhada de sua coluna, seu próprio ginete foi ferido de morte por uma bala. O cel. Latorre desembaraçou-se dele e, no meio da fuzilaria, começou a encilhar com toda a calma o cavalo que um de seus filhos lhe trouxera. Foi nesse momento que uma bala o derrubou. Tinha oitenta e cinco anos.

Um provisório de Firmino de Paula — contava-se —, ao cair sob os golpes dos três cavalarianos inimigos que o cercavam, teve ainda tempo para exclamar: “Morre um homem!”.

Um piá de dezessete anos, soldado da tropa de Zeca Neto, no meio dum combate deu o seu tobiano a um companheiro já idoso cujo cavalo tinha sido morto. E, enquanto o outro se punha a salvo, a galope, fincou pé onde estava e abriu fogo contra os soldados da cavalaria inimiga que se aproximavam, e que finalmente o envolveram e liquidaram a golpes de lança.

Foi em fins de julho que chegou a Santa Fé, trazida por um tropeiro da Palmeira, a história duma proeza de Toríbio Cambará. Seu piquete de cavalaria — contava o homem — caíra numa emboscada, perdendo nos primeiros momentos três soldados. Diante da superioridade numérica do inimigo, Toríbio gritou para os companheiros: “Retirar!”. Os outros deram de rédeas e fugiram a todo o galope. Bio, porém, ficou onde estava, atirando sempre contra os provisórios. De repente, atingido por uma bala, seu cavalo baqueou, lançando-o ao chão. Toríbio ergueu-se, meio estonteado, mas sempre de revólver na mão, e viu que se aproximava dele a toda a brida um cavaleiro inimigo de lança em riste. Não se moveu de onde estava. Ergueu a arma, fez pontaria e atirou... O cavaleiro tombou do cavalo com um tiro na cabeça, mas o animal continuou a galopar. Quando ele passou pela frente de Toríbio, este se lhe agarrou às crinas e saltou-lhe sobre o lombo e, em meio dum chuveiro de balas, conseguiu escapar ileso, reunindo-se mais tarde à sua Coluna.

— Esse rapaz tem o corpo fechado pra bala — disse alguém na roda da Casa Sol, ao ouvir a história.

Quando se conheceu no Sobrado o feito de Toríbio, Flora ficou de lábios trêmulos e olhos úmidos. Floriano escutou a narrativa fascinado. E Maria Valéria, balouçando-se lentamente na sua cadeira, quedou-se por algum tempo num silêncio reflexivo. Por fim murmurou com um meio sorriso:

— O Bio não é deste mundo. Sempre achei que esse menino tinha queda pra burlantim.

32

Não fosse a presença dos soldados do corpo provisório nas praças e nas ruas, nos seus uniformes de zuarte e seus ponchos reiunos, poder-se-ia dizer que a paisagem humana de Santa Fé pouco ou nada mudara desde o começo da revolução.

Como um sinal de que, apesar da guerra civil, a vida continuava; como um símbolo da capacidade humana de sobreviver e manter-se fiel aos hábitos, Quica Ventura, que jamais trabalhara em toda a sua existência, continuava a picar fumo, parado à frente do edifício do Clube Comercial. Desde que entrara o inverno, usava botas de sanfona e uma capa espanhola negra, com forro nas três cores da bandeira rio-grandense. Mesmo quando dentro do Comercial, mantinha na cabeça o chapéu de feltro de aba puxada sobre os olhos, como para sugerir que era “de poucos amigos”. E de fato era. Pessimista, maldizente, não acreditava no gênero humano; seu melhor amigo era o perdigueiro que o acompanhava por toda a parte, e que de certo modo já se parecia com o dono. Esse solitário conservava, no entanto, uma curiosa lealdade à ideia do federalismo. Não tirava o lenço colorado do pescoço, embora se tivesse recusado a votar em Assis Brasil e vivesse a dizer a todo o mundo que era gasparista mas não estava de acordo com “essa revolução esculhambada”.

Todos os dias, pouco antes das seis da manhã, com uma mantilha negra em torno da cabeça, o livro de reza em punho, d. Vanja atravessava a praça com seus passinhos rápidos e entrava na igreja para assistir à primeira missa.

A essa mesma hora Marco Lunardi, metido num macacão de mecânico, entrava no seu caminhão, e José Kern — que se mudara de Nova Pomerânia para Santa Fé — abria a sua nova casa de comércio, e os Spielvogel punham em movimento a máquina de sua serraria a vapor, cujo apito costumava soar exatamente às seis. Era às vezes por esse apito pontual que Maria Valéria acertava o relógio grande do Sobrado e d. Revocata saía da cama para ler o seu Voltaire e o seu Diderot, antes de ir para a escola.

Às sete, José Pitombo — que nunca tivera empregado porque não confiava em ninguém — abria a casa, espanava os caixões, ajeitava artisticamente na vitrina as velas e os anjos de cera, borrifava d’água o chão e punha-se a varrê-lo, enquanto na cozinha fervia a água para o primeiro chimarrão.

Às oito, Cuca Lopes descia a rua do Comércio em zigue-zague, duma calçada para outra, chamado pelos conhecidos que encontrava — “Então, Cuca velho, quais são as novidades?” — e ele parava, desinquieto, cheirava as pontas dos dedos, soltava o boato, rodopiava sobre os calcanhares e continuava seu caminho, rumo da Intendência. Já a essa hora d. Revocata entrava na sua escola, pisando duro.

Era por volta das dez da manhã que Ananias, o aguateiro (vivia maritalmente com duas mulheres, dormia com ambas na mesma cama, era conhecido como o Zé do Meio), parava a carroça com a pipa na frente do Sobrado, entrava com duas latas cheias d’água e enchia com elas a grande talha de barro a um canto da cozinha. Às vezes conversava com Laurinda, queixava-se de pontadas nas cadeiras, e acabava pedindo “um traguinho de qualquer coisa pra esquentar o peito”. A mulata, quando estava de bom humor, dava-lhe um cálice de licor de pêssego.

Ao meio-dia era quase um ritual para certos habitantes da cidade ir à estação da estrada de ferro, esperar o trem que vinha de Santa Maria trazendo os jornais, e espiar para dentro dos carros, para ver se descobriam algum conhecido.

À tardinha Mariquinhas Matos debruçava-se na sua janela, na rua do Comércio, os braços morenos apoiados sobre uma almofada de veludo grená, e ali ficava à espera dum transeunte que pudesse namorar. Sua esperança eram os caixeiros-viajantes em trânsito pela cidade, e os tenentinhos novos que vinham servir na Guarnição Federal, e que os moços do lugar por despeito chamavam de Fordzinhos. E, quando algum deles passava pela calçada, ela armava o seu sorriso de Mona Lisa, já demasiadamente conhecido e um tanto desprestigiado entre os nativos.

À noite havia função no Cinema Recreio, em cuja fachada não raro se via um cartaz em cores, no qual William S. Hart, o caubói carrancudo, ameaçava os passantes com duas pistolas em punho. Anunciavam-se filmes — agora em sua quase totalidade feitos nos Estados Unidos com os artistas mais famosos de Hollywood. O Calgembrininho, que ajudava o pai a redigir os programas e os letreiros dos cartazes, fazia a sua literatura. Referia-se à “endiabrada Bebe Daniels”, ao “correto galã Wallace Reid, que faz palpitar o coração das donzelas”, ao “hilariante Charles Chaplin, vulgo Carlitos”, à “divina Norma Talmadge” e à “trêfega Gloria Swanson”.

No clube continuavam as rodas de pôquer, frequentadas principalmente por senhores do comércio, de relógio com corrente de ouro no bolso do colete, e muitos deles com duas famílias — a legítima no centro da cidade e a ilegítima do outro lado dos trilhos. No salão maior, mocinhos jogavam bilhar e, como um prelúdio às farras nas pensões de mulheres, certos empregadinhos do comércio nas noites de sábado se davam o luxo de fumar um charuto, depois do jantar.

O inverno havia espantado das praças as retretas, os pássaros e os namorados.

Pelas ruas andavam à noite homens encolhidos sob seus ponchos e capotes, pigarreando, tossindo, escarrando. Entravam nos cafés, no clube, no Centro Republicano, nos bordéis. Bebiam, comiam bifes com ovos e batatinhas fritas, discutiam política, mulheres e futebol. E por essas coisas muitas vezes brigavam, arrancavam os revólveres, gritando: “Pula pra fora, canalha!” ou “Atira, bandido!”. Alguns atiravam mesmo.

Cerca das onze horas escapava-se da Padaria Estrela-d’Alva uma fragrância de pão recém-saído do forno, que dava ao ar da noite um buquê doméstico. E Chico Pais, seguindo um hábito antigo, ia levar ao Sobrado um cesto cheio de pães quentinhos. E, como agora não encontrasse Rodrigo e Toríbio no casarão, punha-se a choramingar e a falar deles como de gente falecida, o que comovia Flora e irritava Maria Valéria.

Muitas daquelas noites eram pontilhadas de tiros. A coisa quase sempre acontecia no Purgatório, no Barro Preto ou na Sibéria: rixas entre as patrulhas do Exército e as do corpo provisório; ou então eram os guardas municipais que acabavam à bala algum baile de chinas.

Mas, em muitas noites, pelas ruas desertas de Santa Fé vagueava apenas o vento, “uivando como um cachorro louco”, como dizia Maria Valéria.

Certa manhã a velha arrancou mais uma folhinha do calendário — Julho, 31. Sexta-feira — e pensou: “Agosto, mês de desgosto”.

As laranjeiras e bergamoteiras do quintal do Sobrado estavam pesadas de frutos.

Foi na primeira semana daquele mês que Neco Rosa, completamente restabelecido, fugiu do hospital à noitinha, travestido de mulher, graças às roupas que d. Santuzza lhe emprestara. Levava na cabeça um chapéu de feltro verde: um véu lhe cobria o rosto. Entrou no Ford do dr. Carbone, que o levou para fora da cidade até o Sutil, onde Babalo o esperava com um cavalo encilhado.

Também no princípio daquele mês, num dia torvo, de nuvens baixas, Floriano, postado atrás das vidraças duma das janelas do Sobrado, viu dois provisórios espancarem na rua um homem que, sob pranchaços de espada, caiu na sarjeta, gritando e sangrando. O menino ficou lívido, uma náusea lhe convulsionou o estômago, uma tremedeira gelada lhe tomou conta do corpo.

 

Chegou por essa época ao Sobrado o primeiro bilhete de Rodrigo, trazido por um portador de confiança. Era lacônico. Dizia que tanto ele como todos os amigos estavam bem. E que as saudades eram muitas.

Não raro Maria Valéria saía a andar pelas peças da casa, alta madrugada, com uma vela acesa na mão, a ver se tudo e todos estavam bem. Na noite do dia em que chegou o bilhete de Rodrigo, ao passar pelo quarto de Flora, ouviu soluços lá dentro. Parou, indecisa. Entro ou não entro? Não entro. É melhor que ela chore, desabafe. Amanhã vai se sentir aliviada.

Meteu-se debaixo das cobertas, pensando: “Só tenho pena de quem, de tão seca, não tem lágrimas para chorar”. E soprou a vela.

33

Durante dois dias e duas noites andou Neco Rosa pelo interior do município, em busca de seus companheiros de armas. Evitava encontros com as patrulhas governistas, era cauteloso nas perguntas. (Começava geralmente assim: “Como vão as coisas por aqui, patrício? Tem aparecido muito revolucionário por estas bandas?”.) Passava as noites dentro de capões ou cemitérios campestres, comia o charque com farinha que levava num saco na garupa do cavalo e, de quando em quando — dizem que cachaça é o poncho do pobre —, pegava a garrafa de Lágrimas de Santo Antônio que Camerino lhe dera, e tomava uma talagada.

Continuar: parte 4 de 4