O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 1 de 6 · parte 2/4

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Lenço encarnado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Não achas melhor tirar esse poncho? — perguntou-lhe Rodrigo. — Ficas com os movimentos mais livres.

— Se tiro este negócio, morro de frio — disse o ex-promotor.

Rodrigo largou por um instante a Winchester e esfregou uma na outra as mãos geladas. Tirou do bolso o relógio. Seis e quinze. Ergueu-se e fez um sinal.

O primeiro grupo que se movimentou foi o do Neco Rosa, que desceu com seus homens a encosta da colina em passo acelerado, numa linha singela. Sumiram-se entre casebres e árvores, mas pouco depois tornaram a aparecer no alto da coxilha fronteira, já na boca duma rua. Rodrigo estava convencido de que o resultado final da operação dependeria principalmente do sucesso daquele assalto à retaguarda da Intendência.

Cinco minutos depois, Chiru e seus homens saíram da olaria na direção da rua dos Farrapos, ao mesmo tempo que Rodrigo conduzia os seus para a do Poncho Verde.

Toríbio e seus cavalarianos foram os últimos a deixarem a propriedade de Chico Pedro que, da soleira de sua casa, gritou:

— Deus le acompanhe!

De cima do cavalo, Toríbio voltou-se e disse:

— É melhor que Deus fique onde está. E que se cuide das balas perdidas.

A estrela matutina aos poucos esmaecia. Um cachorro latiu para as bandas do Purgatório.

23

Rodrigo chegou um pouco ofegante ao topo da colina. Pesava-lhe incomodamente a sacola cheia de balas que trazia a tiracolo. Olhou para trás. O dr. Ruas seguia-o, rengueando. Bento acompanhava-o de perto.

Com um gesto, Rodrigo ordenou aos companheiros que fizessem alto. Que estaria acontecendo com Neco e sua gente? Esperaram, escondendo-se como podiam... Os galos continuavam a amiudar. As casas vizinhas estavam todas de janelas e portas cerradas. De sua posição, Rodrigo viu a fachada do casarão dos Amarais. Um pensamento cruzou-lhe a mente. Meu bisavô Rodrigo foi morto num assalto àquela casa. Quem sabe se eu...

O tiroteio que irrompeu naquele momento atrás da Intendência cortou-lhe os pensamentos.

— Começou a inana! — gritou. — Avançar!

Precipitou-se na direção da praça. Ouviu-se uma detonação e uma bala passou zunindo perto de sua orelha direita. Uma outra rebentou o vidro duma vidraça próxima. Um soldado os alvejava de uma das calçadas da praça, a uma distância de meia quadra. Bento ajoelhou-se, levou a arma à cara e fez fogo. O inimigo tombou de costas e rolou para a sarjeta. Mas outros provisórios apareceram, dois... três... mais dois... — estenderam linha na rua, agachados, abriram fogo contra os atacantes. Um destes soltou um grito, largou a espingarda, baqueou, e o sangue começou a manar-lhe do peito. Os outros companheiros, deitados ou ajoelhados, cosidos às paredes ou abrigados atrás dos troncos dos plátanos que orlavam as calçadas, atiravam sempre. O tiroteio de súbito recrudesceu. Chiru e seu destacamento deviam também ter entrado em ação. Dos fundos da Intendência vinham gritos e gemidos, de mistura com as detonações. Seria já o entrevero? — pensou Rodrigo, descarregando com gosto sua Winchester. Mais dois provisórios lá estavam caídos no meio da rua. Três outros, porém, surgiram. Balas cravaram-se nos troncos dos plátanos ou batiam nas pedras da calçada, ricocheteando. O duelo continuou por uns dois ou três minutos.

— Cessa fogo! — gritou Rodrigo.

Repetiu muitas vezes a ordem, aos berros. Tinha avistado o piquete de Toríbio, que naquele momento entrava na praça pela retaguarda do inimigo. Rodrigo aproveitou o momento de confusão entre os legalistas e avançou uns dez passos. Alguns companheiros o imitaram e, da nova posição, presenciaram uma cena que lhes encheu os peitos duma feroz exultação. Numa rapidez fulminante, dez cavalarianos precipitavam-se a galope e caíram gritando sobre os soldados legalistas, golpeando-os com lanças, espadas e patas de cavalo. Um dos provisórios deixou tombar o fuzil, recuou na calçada, colando-se à parede duma casa e erguendo os braços na postura de quem se rende. Um cavaleiro precipitou-se sobre ele e com toda a sua força somada à do impulso do cavalo cravou-lhe a lança no estômago. Apeou em seguida, ergueu a perna, meteu a sola da bota no ventre do inimigo, apertou-o contra a parede e arrancou-lhe a lança do estômago com ambas as mãos. Enquanto isso, seus companheiros liquidavam os provisórios que restavam. Um deles tinha o crânio partido pelas patas dum cavalo, outro revolvia-se no chão, espadanando como um peixe fora d’água, ao mesmo tempo que procurava proteger a cabeça. Um cavalariano tirou o revólver, apontou para baixo e meteu-lhe uma bala na nuca. O último provisório que ainda resistia conseguiu disparar o fuzil e atingir um dos revolucionários, que tombou nas pedras da rua já manchadas de sangue, mas teve ele próprio o ventre rasgado por um golpe de espada e saiu cambaleando na direção da calçada, segurando com ambas as mãos as vísceras que lhe escapavam pelo talho.

Toríbio esporeou o cavalo e aproximou-se do irmão. A ponta de sua lança — uma lâmina de tesoura de tosquiar — estava viscosa de sangue. E havia em seu rosto uma tamanha e tão bárbara expressão de contentamento, que foi com certa dificuldade que Rodrigo conseguiu encará-lo.

— O caminho está limpo, minha gente! — gritou Bio. — Toquem pra diante, mas cuidado, que tem uma patrulha de chimangos na frente da Intendência!

Puxou as rédeas do cavalo, fê-lo dar uma meia-volta e sair a galope na direção do piquete.

— Avançar! — bradou Rodrigo.

E pôs-se em movimento, seguido dos companheiros. Não havia tempo para hesitações ou excessivas cautelas. Precipitaram-se a correr rumo do centro da praça e tomaram posição atrás de árvores. De rastos e sob as balas, Rodrigo avançou uns quinze metros, por cima dum canteiro de relva, e abrigou-se atrás da base de alvenaria do coreto. Olhou para trás e viu dois companheiros feridos... ou mortos? Os outros estavam bem abrigados e atiravam, como ele, contra a patrulha de provisórios que se encontrava no meio da rua, à frente da Intendência, sob o comando dum tenente. Rodrigo estudou a situação. Teve a impressão de que o Neco e seus homens haviam conseguido mesmo pular para dentro do quintal do casarão, onde a fuzilaria e a gritaria continuavam. Vislumbrou lenços vermelhos em ambas as torres da igreja, de onde uns três ou quatro revolucionários atiravam contra as janelas do segundo andar da cidadela do Madruga, cujas vidraças se partiam em estilhaços.

O inimigo mais próximo encontrava-se a uns cinquenta metros, protegido pelo busto do fundador da cidade, em cuja cabeça de bronze duas balas já tinham batido. Havia ainda outros soldados — uns cinco ou seis — entrincheirados atrás dos bancos de cimento ao longo da calçada. Essa, parecia, era uma posição vulnerável, visto como já estavam sendo atingidos pelos revolucionários que atiravam das torres da igreja e por uns dois ou três atacantes — com toda a certeza gente do Chiru — que os alvejavam do alto do telhado duma casa, à esquina da rua dos Farrapos.

O tenente legalista gritou para seus homens que recuassem. E ele próprio, de pistola em punho e sem interromper o fogo, começou o movimento de retirada. Rodrigo procurou derrubá-lo, mas sem sucesso. As janelas e portas da fachada da Intendência continuavam cerradas, o que dava a entender que a maioria de seus defensores estava engajada na luta que se travava na retaguarda e no flanco esquerdo do edifício.

Rodrigo ouviu um tropel e voltou a cabeça. O piquete de Pedro Vacariano atravessava a praça, a todo o galope. Baleado, um dos cavalos testavilhou, atirando o cavaleiro longe, para cima duns arbustos.

— Cessa fogo! — berrou o Vacariano.

Mesmo naquele momento de confusão e perigo, Rodrigo não pôde evitar um sentimento de irritação. “Quem é esse caboclo para me dar ordens?” Mas parou de atirar. Viu Cantídio dos Anjos de lança em riste tomar a dianteira do piquete. Ao passar por ele, o negro gritou:

— A coisa está mui demorada, doutor. Vamos liquidar esses mocinhos!

E, seguido de Toríbio e de mais dois cavalarianos vindos do outro setor da praça, lançou-se contra os provisórios, que se achavam agora na calçada da Intendência, atirando sempre, mas já sem pontaria, tomados de pânico ante a inesperada carga.

— Abram a porta! — gritou o tenente.

Repetiu o pedido três vezes. A porta abriu-se, o oficial entrou correndo, um de seus soldados tombou sobre o portal, enquanto os outros companheiros caíam sob golpes de lança e espada. E, antes que a porta se fechasse, Cantídio entrou a cavalo, casarão adentro, derrubou com um pontaço de lança na nuca o chimango que corria na sua dianteira e, sem deter a marcha, levou o cavalo escada acima — três, quatro, cinco degraus... Do alto do primeiro patamar, ao lado dum busto do dr. Borges de Medeiros, o tenente legalista parou, voltou-se, ergueu a Parabellum e fez fogo. Cantídio tombou de costas e ficou estatelado no pavimento do vestíbulo. O tenente subiu mais quatro degraus e lá de cima, já quase no segundo andar, meteu duas balas no corpo do cavalo, que rolou escada abaixo, sangrando, e caiu em cheio sobre o corpo do preto.

Toríbio e Rodrigo entraram juntos na Intendência, a pé, seguidos de quatro companheiros. Saltaram por cima dos cadáveres do cavaleiro e do cavalo e galgaram os degraus ensanguentados.

— Cuidado! — disse Rodrigo. — Pode haver muita gente lá em cima.

Toríbio estacou, murmurando:

— O tenente matou o Cantídio. Preciso pegar esse bichinho.

Rodrigo quebrou com a coronha da Winchester o vitral em forma de ogiva que havia por trás do busto e espiou para o quintal, onde o combate tinha cessado. O chão estava juncado de corpos. Em muitos deles viam-se lenços colorados. Avistou também o Neco, que dava ordens a seus homens para alinharem contra o muro os inimigos que acabavam de aprisionar. Cobria o chão um lodo sangrento.

Toríbio subiu mais três degraus e gritou para cima:

— Entreguem-se! — Sua voz foi amplificada pela boa acústica do vestíbulo. — O combate terminou! Larguem as armas e desçam de braços levantados!

Seguiu-se um silêncio durante o qual só se ouviu o pipocar dum tiroteio longínquo. Toríbio repetiu a intimação. Vieram vozes do corredor do segundo andar.

— S’entreguemos.

— Pois venham! — gritou Rodrigo.

E preparou a Winchester. Outros companheiros estavam ali no primeiro patamar também de armas em punho. Ouviram-se passos. No primeiro soldado que apareceu, Rodrigo reconheceu o Adauto. Não pôde conter a indignação:

— Cachorro! — vociferou.

O homenzarrão baixou os olhos e todo o seu embaraço se revelava num ricto canino. Apareceram mais três provisórios, todos descalços e de braços erguidos. Por fim surgiu com passos relutantes um capitão. Toríbio e Rodrigo o conheciam. Era o Chiquinote Batista, um subdelegado do Madruga.

— Alguém mais lá em cima?

— Só o tenente — respondeu Chiquinote com voz fosca.

— Onde?

— No gabinete do intendente.

Toríbio mediu o capitão de alto a baixo:

— Pois é uma pena que não seja o próprio Madruga quem está lá...

— Não faltará ocasião — replicou o subdelegado com rancor na voz e no olhar.

— Nessa esperança vou viver, capitão — suspirou Toríbio.

Depois, voltando-se para os companheiros, disse:

— Tomem conta desses valientes, que eu tenho uma entrevista marcada com o tenente, lá em cima...

Recarregou o revólver, fez girar o tambor com uma tapa, engatilhou a arma e subiu os degraus que faltavam para chegar ao segundo piso. Como Rodrigo o seguisse, Bio voltou-se e pediu:

— Me deixa. Dois contra um é feio.

Parou diante da porta entreaberta do gabinete do intendente e bradou:

— Quem fala aqui é o Toríbio Cambará. A Intendência foi tomada, não adianta resistir. Entregue-se, tenente!

De dentro veio uma voz rouca de ódio:

— Pois vem me buscar se és homem, maragato filho duma puta!

Toríbio não hesitou um segundo. Meteu o pé na porta e entrou, agachado. Ouviram-se quatro tiros em rápida sucessão. Depois, um silêncio. Rodrigo ergueu a Winchester e correu para dentro. Encontrou o irmão de pé incólume, junto da parede, sob o grande retrato do dr. Júlio de Castilhos.

— O menino era valente mas tinha má pontaria — disse Toríbio. — Foi a minha sorte.

O tenente estava morto, caído atrás da escrivaninha do intendente, com uma bala na testa.

— Sabes quem é? — perguntou Rodrigo.

Bio sacudiu a cabeça lentamente.

— O Tidinho da dona Manuela. Nunca dei nada por ele. Parecia um bundinha como tantos. No entanto...

Naquele momento surgiu à porta um dos cavalarianos de Toríbio, que contemplou o cadáver com ar grave e, depois de olhar longamente para os próprios pés descalços, perguntou:

— Major, posso ficar com as botas do moço?

Rodrigo gritou que não. Seria uma indignidade, uma profanação.

— Deixa de bobagem! — replicou Bio. — Nosso companheiro anda de pé no chão, o inverno está chegando. E depois, no lugar para onde foi, o tenente não vai precisar de botas. Nem de poncho. No inferno não faz frio.

24

Rodrigo abriu uma das janelas. Na praça agora clara de sol, alguns de seus companheiros andavam a recolher os feridos e a contar os mortos. Jazia no meio da rua o cadáver dum provisório, e de sua cabeça, partida como um fruto podre, os miolos escorriam sobre as pedras. O tiroteio continuava nas duas extremidades de Santa Fé. Alguém acenava com um lenço vermelho, no alto duma das torres da Matriz. Em contraste com aquele espetáculo de violência e absurdo, o céu era dum azul puro e alegre, e a brisa fria, que soprava de sueste, trazia uma fragrância orvalhada e inocente de manhã nova.

Rodrigo olhou então para o Sobrado pela primeira vez desde que entrara na sua cidade. Não sentiu o menor desejo de rever a família, de voltar à casa. Estava barbudo, fedia a suor e sangue. O combate não lhe causara nenhum medo, mas sim uma exaltação que, cessado o fogo, se transformara em asco e tristeza. Não se sentia com coragem para entrar em casa naquele estado. Tinha a impressão de que era um pesteado: não queria contaminar a mulher e os filhos com a sordidez e a brutalidade da guerra.

A cabeça lhe doía duma dor rombuda e surda; era como se o sangue estivesse a dar-lhe socos nas paredes do crânio. E, no meio desse pulsar aflito, começava agora a ouvir, absurdamente, a melodia fútil do “Loin du Bal”.

Seus olhos continuavam fitos no Sobrado. “Naquela casa, por trás daquelas paredes estão tua mulher e teus filhos. Basta que atravesses a praça, batas àquela porta e digas quem és... E terás nos braços as pessoas que mais queres neste mundo.” Era estranho, mas permanecia frio ante aquela possibilidade. A violência que presenciara e cometera deixava-o como que anestesiado.

Fez meia-volta e desceu. O “Loin du Bal” continuava a soar-lhe na cabeça, obsessivamente. Estacou no primeiro patamar da escadaria, mal acreditando no que seus olhos viam. Uns trinta e poucos provisórios completamente nus subiam as escadas, de mãos erguidas, e guardados por um tenente e quatro soldados revolucionários de pistolas em punho. Ao avistar Rodrigo, o tenente gritou:

— Vamos encerrar estes anjinhos na sala do júri! Ideia do capitão Neco.

Entre os provisórios Rodrigo vislumbrou caras conhecidas. Os prisioneiros passavam de cabeça baixa, uns três ou quatro mal continham o riso, mas os restantes estavam todos sérios, entre constrangidos e indignados. Era deprimente ver aqueles homenzarrões peludos passarem assim despidos, numa aura de bodum, com os órgãos genitais a se balouçarem passivos e murchos num grotesco espetáculo de impotência, que para muitos deles devia equivaler a uma espécie de castração branca.

Recostado ao busto do presidente do estado, Rodrigo por alguns instantes ficou assistindo ao desfile, enquanto o gramofone infernal continuava a tocar o “Loin du Bal” dentro de seu crânio. Desceu depois para o primeiro andar e lançou um rápido olhar para o corpo de Cantídio. O cavalo lhe havia esmagado o tórax e os membros inferiores. O rosto do negro ganhara uma horrenda cor acinzentada, seus olhos estavam exorbitados e dos cantos da boca saíam dois filetes de sangue coagulado.

Rodrigo encontrou Neco no quintal. Ao vê-lo, o barbeiro veio a seu encontro, abraçou-o e disse:

— Foi uma beleza, menino! Pegamos a chimangada meio dormindo, muitos deles de calças arriadas. Se não fossem uns sacanas que estavam acordados e armados dentro da Intendência, eu tinha tomado esta joça a pelego, sem disparar um tiro!

— Quantos homens perdemos?

Neco enfiou os dedos por entre a barba.

— Da minha gente? Morreram quatro. Uns dez estão feridos, mas só dois em estado grave, que eu saiba.

Apontou para os mortos, que mandara estender debaixo duma ramada, a um canto do quintal. Rodrigo reconheceu dois de seus companheiros. Lá estava Jacó Stumpf, a cara lívida, a boca aberta, os dentes de ouro à mostra... Estendido a seu lado, o caboclo João tinha ainda no pescoço o trapo que tingira em sangue de boi. E seus pés enormes e encardidos de terra erguiam-se como duas entidades que tivessem vida própria — duas coisas sinistras na forma, na cor e no sentido, um misto de animal e vegetal. Aqueles pés pareciam ainda vivos e tinham uma qualidade singularmente ameaçadora. Rodrigo olhava para eles como que hipnotizado.

Passou o lenço pelo rosto que um suor frio umedecia e, sem prestar atenção ao que Neco Rosa lhe dizia, encaminhou-se para fora da Intendência. Parou na calçada, estonteado. A luz do sol lhe doía nos olhos. Para onde quer que se voltasse, via corpos caídos. Aos poucos ia calculando o preço daquela aventura. O cadáver do provisório continuava tombado sobre a soleira da porta. Ninguém se havia lembrado de removê-lo dali. Era mais fácil passar por cima daquela coisa.

Ajudado por um companheiro, Bento vinha trazendo nos braços um ferido. Era o dr. Miguel Ruas. O ex-promotor tinha já uma palidez cadavérica e de sua boca entreaberta escapava-se um débil gemido.

— Um balaço na barriga — murmurou Bento. — Pelo rombo acho que foi bala dundum.

Entraram no vestíbulo da Intendência e depuseram o ferido no chão, sobre um poncho aberto. Com outro poncho Rodrigo improvisou-lhe um travesseiro.

Naquele momento ouviu-se uma risada e, pouco depois, passos precipitados na escada. Rodrigo ergueu os olhos. Era Toríbio, que exclamava:

— Vem ver que espetáculo!

Puxou o irmão pelo braço e levou-o para fora. Apontou para o centro da praça. Um homem dirigia-se para a Intendência, tendo numa das mãos um pau com uma bandeira branca na ponta, e na outra uma maleta. O dr. Carbone! Vinha metido no uniforme cor de oliva dos bersaglieri. As plumas de seu romântico capacete fulgiam ao sol. Ao avistar os irmãos Cambarás, apressou o passo. Ao chegar à calçada, largou a bandeira, atravessou a rua correndo, caiu nos braços de Rodrigo, beijou-lhe ambas as faces e, de olhos enevoados, no seu cantante dialeto ítalo-português, deu notícias do Sobrado — ah! carino, iam todos bem, a Flora, a vecchia, os bambini, todos! e como era belo ver os dois fratelli juntos e vivos e fortes. Toríbio puxou-o para dentro da Intendência, dizendo:

— Está bem, doutor, depois falamos nisso. Não temos tempo a perder. Há muitos feridos, alguns em estado grave.

Carbone explicou que deixara Dante Camerino, Gabriel e Santuzza na farmácia preparando tudo. Sugeriu que os feridos fossem removidos o quanto antes para a Casa de Saúde, onde poderiam ser atendidos com mais eficiência. Ergueu a bolsa e declarou que ali trazia apenas o necessário para o primo socorro.

— Veja então primeiro o Miguel — pediu Rodrigo.

Conduziu-o até onde estava o ferido. O dr. Carbone tirou o capacete, pô-lo em cima duma cadeira, despiu o casaco, arregaçou as mangas e ajoelhou-se junto do doente, erguendo o poncho que o cobria. Miguel Ruas abriu os olhos, reconheceu o médico e murmurou:

— É o fim, doutor!

— Ma che!

O ferido balbuciou que estava com sede e com frio.

O suor escorria-lhe da testa para as faces muito brancas, cuja pele se retesara de tal maneira sobre os ossos, que se tinha a impressão de que o ex-promotor havia emagrecido de repente. O nariz estava afilado e como que transparente, e os lábios pareciam apenas riscos arroxeados.

Toríbio apanhou o capacete de bersagliere, galgou o primeiro lance da escadaria, e enfiou-o na cabeça do busto do presidente. Voltou depois para a praça e ordenou a seus soldados que levassem os feridos para a Casa de Saúde.

— Chimango também? — perguntou um sargento.

— Claro, homem! Mas levem os nossos, primeiro.

O dr. Carbone chamou Rodrigo para um canto do vestíbulo e murmurou-lhe ao ouvido:

— Poverino! Uma violenta hemorragia interna. Um caso perdido.

— Quanto tempo pode durar?

O médico encolheu os ombros. Depois tirou da bolsa uma seringa e preparou-se para dar uma injeção de morfina no paciente. Sob o poncho, o ex-promotor batia dentes, e seus olhos aos poucos se embaciavam. Rodrigo ajoelhou-se junto do amigo e segurou-lhe a mão gelada e úmida. E ficou ali até o fim.

25

Eram quase oito horas da manhã quando o último ferido foi removido para a Casa de Saúde, onde o dr. Dante Camerino ajudava o dr. Carbone a fazer os curativos. O hospital tinha apenas doze leitos e, entre revolucionários e legalistas, havia mais de trinta feridos. Três deles morreram antes de poderem ser atendidos.

Houve um momento em que Dante, desesperado, gritou:

— Por amor de Deus, tragam mais médicos!

Suas palavras morreram sem eco. E ele continuou a trabalhar. O ar cheirava a éter, iodofórmio, suor humano e sangue. Gabriel, o prático de farmácia, andava pálido dum lado para outro, como uma mosca tonta, e não sabia para onde ir, porque se o dr. Carbone lhe pedia uma coisa — “Gaze! algodão! iodo! subito, Gabriele!” —, o dr. Camerino gritava por outra — “Depressa, homem! Categute! Outra ampola de óleo canforado!”. De instante a instante Gabriel saía para a área da farmácia e ficava por alguns segundos encostado à parede, a um canto. Um revolucionário que o observava, cochichou para outro:

— O moço, de tão assustado, ficou com as orina frouxa.

O corpo do ex-promotor continuava no mesmo lugar onde expirara, a um canto do vestíbulo de mármore da Intendência, cujas escadarias tantas vezes ele subira nos dias de júri, no seu passo leve de bailarino. Ninguém tentou sequer remover os cadáveres de Cantídio dos Anjos e de seu cavalo. Havia coisas mais urgentes a fazer.

— Que é que há por aí pra gente comer? — perguntou Toríbio a Vacariano no quintal, no meio dos provisórios mortos que ainda atravancavam o chão.

— Charque e farinha.

— Pois mande preparar essa porcaria e sirva pra nossa gente. Devem estar com uma broca medonha.

Depois saiu a procurar o irmão pelas dependências do palacete municipal. Como não o encontrasse, imaginou que ele tivesse ido bater à porta do Sobrado. Chiru, porém, lhe informou:

— O Rodrigo está ajudando o Carbone e o Camerino a cuidar dos feridos. Descobriu de repente que também é médico.

Vendo o irmão assim tão preocupado com os mortos e os feridos, Toríbio resolveu tratar dos vivos e dos válidos. Contou os homens que lhe sobravam. Dos cento e cinquenta que haviam atacado a Intendência, restavam ainda noventa e nove em condições de continuar peleando. A coisa não tinha sido tão feia assim...

Despachou duas patrulhas de reconhecimento, uma para o norte e outra para o sul. Queria saber exatamente o que se estava passando naqueles dois setores. Chegara à convicção de que não poderiam manter por muito tempo as posições tomadas.

Mandou arrombar uma loja de secos e molhados ali mesmo na praça e tirou dela várias dezenas de latas de conserva, sacos de açúcar e sal, queijos, salames, mantas de charque e alguns ponchos e chapéus. Deixou em cima do balcão uma requisição firmada com seu próprio nome. Meteu todas essas coisas e mais os cinquenta fuzis e os dez cunhetes de munição tomados aos provisórios dentro duma carroça que havia no quintal da Intendência. Atrelou-lhe dois cavalos e destacou dois de seus homens não só para montarem guarda à preciosa carga como também para conduzirem o veículo em caso de retirada.

 

Pouco depois das nove, Rodrigo foi procurado na Casa de Saúde pelo cel. Barbalho. Apertaram-se as mãos num grave silêncio e a seguir fecharam-se no consultório.

— Estou aqui como comandante da praça... — começou o militar.

— Compreendo, compreendo — disse Rodrigo com impaciência, procurando evitar um introito inútil.

— Tenho ordens de manter a Guarnição Federal na mais rigorosa neutralidade...

Calou-se. Na pausa que se seguiu, Rodrigo ouviu o tiroteio longínquo, agora mais ralo.

— Doutor Rodrigo, sou seu amigo, que diabo! Não vou negar, cá entre nós, que a sua causa me é muito mais simpática que a do governo do estado.

Calou-se de novo. Rodrigo tinha já engolido três comprimidos de aspirina, mas a dor de cabeça continuava. E a hora que ele passara a coser barrigas, a pinçar veias, a tamponar hemorragias, só tinha contribuído para aumentar-lhe a dor e o mal-estar.

— Seu irmão — prosseguiu o cel. Barbalho — quis ocupar o telégrafo e cortar as linhas. Não permiti. É um próprio federal e portanto zona neutra.

— Compreendo.

Rodrigo tinha a impressão de que seu crânio estava forrado de dor. As têmporas latejavam-lhe com uma intensidade estonteadora.

— Quer que lhe fale com toda a franqueza? — perguntou o militar. — Acho que a posição dos senhores é insustentável.

Rodrigo sabia que o outro dizia uma verdade, mas perguntou:

— Por quê?

— O destacamento provisório que guarnece o setor sul resiste e seus companheiros, doutor, tiveram muitas baixas. Acho que em breve terão de retirar-se, se é que já não começaram...

— Não acredito que o coronel Cacique se retire sem antes me comunicar...

— Pois então prepare-se para uma má notícia. O coronel Cacique está morto. Foi dos primeiros que caíram num ataque frontal estúpido que fez contra uma trincheira de pedras.

Rodrigo franziu a testa. O outro sacudiu a cabeça lentamente:

— E no setor norte a coisa não vai melhor para os revolucionários, meu amigo. Os provisórios não cederam um metro de terreno. Tenho observadores de confiança em ambas as zonas de operações.

— E que é que o senhor quer que eu faça?

O outro encolheu os ombros:

— Não tenho nenhum direito de lhe ditar uma conduta. Só espero que não se sacrifique e não sacrifique seus companheiros inutilmente. Em poucas horas as forças legalistas de Cruz Alta podem chegar e então a superioridade numérica de seus inimigos será esmagadora.

Novo silêncio. Rodrigo teve ímpetos de gritar: “Já deu seu recado, não? Pois então vá embora!”. Limitou-se, porém, a olhar para o outro, mudo, e com um ar de quem declara finda a entrevista. O militar estendeu a mão, que Rodrigo mal apertou.

— Tem alguma coisa a me pedir, doutor Cambará?

Rodrigo meneou a cabeça: não tinha. O outro fez meia-volta e preparou-se para sair. Junto da porta, voltou-se:

— Pode ficar tranquilo. Farei que seja respeitada a vida e a dignidade dos feridos revolucionários que ficarem para trás. Já dei ordens a três médicos militares para virem ajudar o doutor Carbone e o doutor Camerino. Abrirei nosso hospital a todos os feridos sem distinção de cor política.

Rodrigo nada disse, não fez o menor gesto. E, quando o outro saiu, ele ficou a olhar fixamente para as pontas das próprias botas manchadas de barro e sangue.

Entre dez e meia e onze horas as patrulhas regressaram. A que explorara o setor do sul conseguira estabelecer contato com soldados de Cacique Fagundes, que haviam confirmado a morte do chefe e o malogro de três ataques contra as posições dos legalistas. As notícias do setor do norte eram também desanimadoras. Romualdinho Caré trouxe um recado de Juquinha Macedo. A munição escasseava, tinham tido muitas baixas, o pessoal estava cansado e o remédio era bater em retirada para evitar desastre maior.

Às onze e vinte o tiroteio cessou por completo em ambos os setores. Rodrigo congregou todos os seus homens no redondel da praça e ali combinou com eles a maneira como deviam retirar-se. O companheiro que estava de vigia numa das torres da Matriz anunciou que avistara um pelotão de provisórios que se deslocava da zona da charqueada e tomava a direção da olaria.

Ficou decidido que um pequeno piquete de cavalaria tomaria a dianteira, seguido da carroça, a qual seria protegida por quatro cavalarianos. Finalmente, os restantes se retirariam em grupos de dez. Toríbio com seu piquete ficaria para trás a fim de proteger-lhes a retaguarda. A primeira etapa seria a olaria. A segunda, o Potreiro do Padre. A terceira... só Deus sabia.

— Tomara que o caminho esteja desimpedido — murmurou Chiru quando o piquete de vanguarda se pôs a caminho, comandado por Pedro Vacariano.

Poucos minutos depois ouviu-se um tiroteio. Toríbio olhou para o homem que estava à boleia da carroça e gritou:

— Toque pra frente na direção da olaria. E não pare nem por ordem do bispo!

A carroça arrancou e se foi sacolejando sobre as pedras irregulares do calçamento. Toríbio deu de rédeas e juntou-se aos seus cavalarianos. Rodrigo, montado no cavalo que pertencera ao cap. Chiquinote, carregou a Winchester, lançou um rápido olhar na direção do Sobrado, esporeou o animal e saiu a galope.

O tiroteio continuava.

26

E prolongou-se durante todo o resto da tarde, com intermitências.

Por volta das quatro horas espalhou-se na cidade a notícia de que os revolucionários tinham tido sua retirada cortada por uma companhia de pés-no-chão, mas que, à custa de pesadas baixas, haviam conseguido romper as linhas inimigas e chegar à olaria. Era lá que estavam agora entrincheirados, resistindo...

Algumas pessoas arriscaram-se a sair de suas casas, vieram para a praça, onde ficaram a examinar os vestígios do combate: as manchas de sangue nas pedras, na grama, na terra; as vidraças estilhaçadas; os buracos de bala em muros e paredes... Ficaram principalmente na frente da Intendência a contemplar num silêncio cheio de horror os cadáveres do dr. Miguel Ruas, de Cantídio dos Anjos e do cavalo deste último, que haviam sido removidos do vestíbulo do palacete e atirados ali no meio da rua. O ex-promotor tinha cerrados os olhos, de pálpebras arroxeadas. Os do negro, porém, estavam arregalados e pareciam de gelatina. Um major do corpo provisório, homem retaco e de aspecto façanhudo, surgiu à porta da Intendência e dirigiu aos curiosos um pequeno discurso: “Esses bandoleiros tiveram o castigo que mereciam”. Apontou com a ponta da bota para o cadáver do dr. Ruas. “Aquele ali nem gaúcho era. Meteu-se na revolução só pra matar e roubar. O negro, esse degolou muito republicano em 93. Deus sabe o que faz. Agora precisamos pegar os Cambarás e os Macedos e os Amarais, trazer eles pra cá e degolar todos debaixo da figueira. Pra não serem bandidos. Já me encarreguei do Cacique Fagundes.” Deu uma palmada no cabo da Parabellum. “Um tiro na boca. A esta hora o velho está pagando no inferno as malvadezas que cometeu na terra.” O público escutou-o em silêncio. Moscas andavam em torno do focinho do cavalo. Uma delas pousou em cima do olho do negro. Outra passeava ao longo do nariz do ex-promotor.

Para as bandas da olaria o tiroteio continuava, mas débil, com longos intervalos. Na Casa de Saúde os médicos trabalhavam sem cessar. Os novos feridos que chegavam — recolhidos por praças do Exército — eram levados diretamente para o Hospital Militar, onde lenços de várias cores se misturavam. Vendo-os passar em padiolas, sangrando e gemendo, Cuca Lopes, que saíra de casa cosido às paredes, pálido, murmurou: “Credo! É o fim do mundo”. Algumas mulheres das redondezas entraram furtivas na igreja e ali ficaram a rezar o resto da tarde. De vez em quando um projétil rebentava a vidraça de alguma casa cujas janelas estavam voltadas para o poente. Correu a notícia de que uma bala perdida matara um velho que atravessava uma rua.

Pouco antes das cinco, Aderbal Quadros encilhou o cavalo, montou-o e contra todas as recomendações da mulher — tocou-se para a cidade ao tranquito do tordilho. Foi direito ao Hospital Militar, entrou e examinou todos os feridos, um por um. Fez o mesmo depois na Casa de Saúde, onde Camerino e Carbone, de tão ocupados, cansados e tontos, nem sequer deram por sua presença. Saiu aliviado. Não encontrara entre os feridos nenhum parente ou amigo chegado. Tornou a montar e dirigiu-se para o Sobrado. Um soldado do corpo provisório atacou-o, exclamando: “Alto lá!”. “Ora não me amole, guri”, disse o velho, “tenho mais o que fazer.” E continuou seu caminho, enquanto o soldado resmungava: “Esse seu Babalo é um homem impossível”. Sem descer do cavalo, Aderbal Quadros abriu o portão do Sobrado, entrou e apeou no quintal. Subiu a escada de pedra que levava à porta da cozinha, na qual bateu. “Sou eu, o Babalo!” A porta entreabriu-se e na fresta apareceu a cara da Laurinda. Aderbal entrou, perguntando: “Onde está essa gente?”. Encontrou as mulheres e as crianças reunidas na sala de jantar. Flora atirou-se nos braços do pai e desatou o pranto.

Maria Valéria contemplava a cena com o rosto impassível.

— Eu já disse pra ela que não adianta chorar.

Aderbal, porém, acariciava os cabelos da filha, murmurando:

— Adianta, sim. Chore, minha filha, chore que faz bem ao peito.

Bibi, Edu e Alicinha romperam também a choramingar. Esta última estava abraçada à boneca, em cujas faces suas lágrimas caíam e rolavam. Sentado a um canto, enrolado num cobertor, Floriano mirava o avô com olhos graves. Jango brincava distraído com um osso, debaixo da mesa.

— Essa menina não comeu nada o dia inteiro... — disse a velha. — Está nesse desespero desde o raiar do dia, quando o tiroteio começou.

Aderbal fez a filha sentar-se, e ela quedou-se a olhar para ele com uma expressão de medo e tristeza nos olhos machucados. Quando conseguiu falar, perguntou se o marido havia tomado parte no ataque.

Babalo, que agora tinha numa das mãos um pedaço de fumo em rama e na outra uma faca, respondeu:

— Acho que sim. O Rodrigo não é homem de ficar pra trás.

— Será que...? — balbuciou ela.

Mas não teve coragem de terminar a pergunta.

— Corri todos os hospitais — contou o velho. — Teu marido não está em nenhum deles. Nem o Licurgo. Nem o Bio. Nenhum de nossos amigos.

Ficou de cabeça baixa a picar fumo. Depois acrescentou:

— Por enquanto o que se sabe é que os revolucionários estão entrincheirados na olaria, cercados pelas forças do governo.

Maria Valéria tinha conseguido fazer cessar o choro das três crianças. Houve na casa um silêncio durante o qual se ouviu o tiroteio longínquo. Depois o velho amaciou com a lâmina da faca uma palha de milho, derramou sobre ela o fumo picado, enrolou-a e prendeu-a entre os dentes. Bateu o isqueiro, acendeu o cigarro, tirou uma baforada e disse:

— Preciso sair. Alguém tem de cuidar dos mortos.

27

O tiroteio cessou por completo ao anoitecer. Chegou então à cidade a notícia de que os revolucionários haviam conseguido romper o cerco e fugir para o interior do município.

O cel. Laco Madruga e duzentos homens voltaram de Cruz Alta, vindos num trem expresso, e desfilaram pela rua do Comécio ao som de tambores e cornetas. De muitas janelas, homens e mulheres acenavam para a soldadesca. Havia já então muita gente nas calçadas. Algumas casas, porém, permaneciam de portas e janelas cerradas.

Rojões subiram na praça e explodiram no alto, quando as tropas chegaram à frente da Intendência. Ouviram-se vivas e morras. Estrelas apontavam no céu pálido da noitinha.

As luzes da cidade, porém, continuavam apagadas. Um capitão veio contar ao cel. Madruga que, ao se retirarem, os revolucionários haviam depredado a usina elétrica, e que possivelmente Santa Fé teria de passar muitas noites às escuras.

— Vândalos! — exclamou o maj. Amintas Camacho ao ouvir a notícia. — Não se contentam com matar, saquear casas de comércio, roubar, assassinar pessoas indefesas! Destroem a propriedade do povo!

Na praça escura moviam-se vultos. Aos poucos voltavam ao centro da cidade as tropas legalistas que haviam cercado e atacado a olaria. Sabia-se agora com certeza que houvera baixas pesadas de lado a lado.

Nas ruas, quintais, telhados, terrenos baldios e valos entre a praça da Matriz e a propriedade de Chico Pedro, havia guerreiros de ambas as facções caídos, muitos ainda com vida. E na cidade às escuras saíram as patrulhas do Madruga, tropeçando nos mortos e localizando os feridos pelos gemidos. Em breve uma notícia espalhou-se por Santa Fé, num sussurro de horror, e chegou aos ouvidos do comandante da Guarnição Federal: provisórios degolavam os feridos que encontravam com um lenço vermelho no pescoço...

O cel. Barbalho irrompeu na Intendência, fardado, a cara fechada, os lábios apertados e, sem cumprimentar o cel. Madruga, foi logo dizendo:

— Responsabilizo o senhor pela vida dos feridos e dos prisioneiros revolucionários. Fui informado de que seus soldados estão degolando os inimigos que encontram. É uma monstruosidade que não permitirei!

Madruga cofiou o bigodão, puxou um pigarro nutrido e, com voz apertada, replicou:

— Sua obrigação, coronel, é ficar neutro.

— Neutro em face da revolução mas não do banditismo! Não esqueça que tenho forças para reprimi-lo.

— Quem degola são os maragatos. Saquearam a cidade, mataram gente, estragaram a usina.

Levou-o a ver o cadáver do ten. Aristides. Mostrou-lhe os corpos dos soldados legalistas estendidos no quintal.

O cel. Barbalho murmurou:

— É a guerra. Não me refiro a isso. Os prisioneiros e os feridos têm de ser respeitados. É uma lei internacional.

Fez-se um silêncio tenso.

— Pois o senhor fica avisado — tornou a falar o comandante da guarnição. — Já mandei patrulhas do Exército por essas ruas, para que a lei seja cumprida. Se seus homens criarem qualquer dificuldade, meus soldados têm ordem de abrir fogo...

— Pois veremos... — disse Madruga.

E ficou olhando para o outro num desafio.

Separaram-se sem o menor gesto ou palavra de despedida.

 

E nas horas que se seguiram, a busca de mortos e feridos continuou à luz das estrelas e de uma que outra lanterna elétrica. Os mortos do corpo provisório foram levados para a Intendência; os da Coluna Revolucionária trazidos para a praça, à frente do Sobrado, e estendidos sobre a relva dum canteiro. Chegavam aos poucos, em padiolas carregadas por soldados do Exército. Um tenente focava no rosto do morto a luz de sua lanterna e, ajudado por um sargento que tinha nas mãos um caderno e um lápis, tratava de identificá-lo. Revistava-lhe os bolsos na esperança de encontrar algum documento que lhe revelasse o nome. Era uma tarefa difícil. Em sua maioria aqueles homens não traziam consigo papéis de nenhuma espécie. Alguns possuíam retratos de pessoas da família com inscrições no verso. Na fivela de metal do cinturão de um deles, viam-se as duas iniciais dum nome. Em dois ou três corpos encontraram-se cartas pelas quais foi possível descobrir-lhes a identidade.

Maria Valéria saiu do Sobrado enrolada no seu xale, com uma lanterna acesa na mão e pôs-se a andar lenta e metodicamente ao longo das três fileiras de cadáveres. Parava diante de cada um, ajoelhava-se, erguia a luz para ver-lhe a cara, mirava-a longamente, depois sacudia a cabeça. Não o conhecia. Graças a Deus! E passava ao defunto seguinte. Na sua maioria estavam barbudos, o que lhe dificultava um pouco a identificação. Com uma das mãos a velha prendia as pontas do xale; com a outra segurava a lanterna: ambas estavam geladas. Soprava um ventinho frio, que vinha das bandas da Sibéria.

Outras mulheres andavam por ali a examinar os mortos. De vez em quando uma soltava um grito e rompia num choro convulsivo. Decerto tinha descoberto o cadáver do marido, do noivo, do irmão ou do filho...

Maria Valéria chegou ao último daqueles corpos sem vida com uma sensação de alívio. Não encontrara nenhum de seus homens.

Alguns dos cadáveres foram levados para as casas de parentes ou amigos. Chico Pão deixara a padaria e estava agora ao lado de Maria Valéria a resmungar: “Que desgraça! Que desgraça!”. E choramingou tanto, que a velha o repreendeu: “Pare com isso! Não precisamos de carpideira”.

Um vulto aproximou-se. Era Aderbal Quadros. Contou que vinha duma nova visita aos hospitais. Entre os revolucionários feridos encontrara apenas um conhecido: o Neco Rosa, que recebera um balaço na coxa e havia perdido muito sangue.

— Se salva? — perguntou a velha.

— Acho que sim.

Maria Valéria voltou para o Sobrado, onde Flora dormia placidamente, depois duma injeção sedativa que o dr. Camerino lhe aplicara.

Às onze da noite, a busca de mortos e feridos foi dada como finda. Babalo contou os assisistas mortos que jaziam ainda sobre o canteiro. Havia um total de vinte e dois. Os feridos estavam sendo atendidos nos hospitais, mas alguém precisava cuidar dos defuntos, dar-lhes um velório decente. Não podiam ficar atirados ali na praça, como cachorro sem dono...

Bateu à porta da casa do vigário, tirou-o da cama e perguntou-lhe se podiam velar os mortos na Matriz.

— Não — respondeu o sacerdote. — Não me meto em política.

Era um padre de origem alemã e falava com um sotaque carregadíssimo.

— Não é caso de política, vigário, mas de caridade cristã.

— Cumprirei minha obrigação encomendando os mortos amanhã, sem distinção de partido. Nada mais posso fazer.

Babalo contou a história a Maria Valéria, que, depois de breve reflexão, decidiu:

— Traga os defuntos pro nosso porão. Afinal de contas são gente do primo Licurgo.

Soldados do Exército ajudaram Babalo a transportar os corpos para o porão do Sobrado, onde Chico Pais, Laurinda e Leocádia acenderam todas as velas que encontraram no casarão.

Maria Valéria achou que o dr. Miguel Ruas, como “hóspede da casa”, merecia um velório especial, e mandou levar seu cadáver para o escritório. Chamou ao Sobrado Zé Pitombo e encomendou-lhe todos os “apetrechos” necessários para a câmara-ardente. Meia hora depois, encontrou o corpo do ex-promotor dentro dum fino ataúde, ladeado por quatro grandes castiçais, onde ardiam círios. À cabeceira do caixão erguia-se um Cristo de prata. A velha olhou tudo com seu olhar morno e depois chamou Pitombo à parte.

Continuar: parte 3 de 4