O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 1 de 6 · parte 4/4

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Lenço encarnado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Encontrou, finalmente, a Coluna de Licurgo Cambará acampada nos arredores duma chácara, na divisa do município de Santa Fé com o de Cruz Alta. Teve uma recepção festiva. Foi pouco para os abraços. Comeu um churrasco gordo, empanturrou-se de laranjas e bergamotas. Deu aos Cambarás notícias da gente do Sobrado, narrou sua odisseia no hospital, que os sicários do Madruga rondavam, e a sua fuga rocambolesca, vestido de mulher, imaginem! Contou o que sabia, por ouvir dizer ou pelos jornais, da revolução no resto do estado.

Rodrigo escutou-o no mais absoluto silêncio. Ia fazer-lhe perguntas específicas sobre sua família. Nos últimos tempos vivia preocupado principalmente com Alicinha, cuja imagem não lhe saía da mente. Não perguntou nada. Era como se, abandonando a família para seguir outra mulher, agora não se sentisse com o direito de saber dela. Tinha a impressão de que havia cortado por completo as amarras com sua gente, com sua cidade e com o mundo... Voltara do ataque malogrado a Santa Fé com uma sensação não só de derrota como também de culpa. A ideia e o plano tinham sido seus. Considerava-se responsável por todos os mortos e feridos daquele dia negro.

— Não sejas besta — disse-lhe Toríbio uma tarde em que cavalgavam lado a lado. — Estamos na guerra.

— Notaste o desânimo do Velho?

Toríbio sorriu:

— “Esse foi sempre o gênio seu”, como disse o poeta.

— Envelheceu dez anos nestes últimos cinco meses. Anda magro, encurvado, mais calado e solitário que nunca. E o que mais me impressiona nele é a tristeza... Se a coisa dependesse de mim, ele emigrava hoje mesmo para a Argentina.

— Não conheces teu pai.

— Mas é que ele não aguenta esta campanha até o fim, Bio! Alguma coisa está roendo o homem por dentro. Depois, agosto é um mês brabo para todo o mundo, principalmente para os velhos...

Toríbio assobiava, de dentes cerrados, o “Boi barroso”. Ao cabo de um curto silêncio, Rodrigo tornou a falar.

— O culpado de ele estar metido nisto sou eu.

— Ora vá...

Engoliu o palavrão. Substituiu-o por uma palmada jovial e encorajadora nas costas do outro.

A Coluna, havia menos de uma semana, fora surpreendida em pleno descampado por um minuano que soprara durante três dias e três noites, sob o céu limpo, dum azul metálico. Um dos homens — um velho de Santa Bárbara, pequeno criador — caíra com pneumonia dupla. Posto dentro da carroça, entre sacos de carne-seca, farinha e sal, ali ficara ardendo em febre. Os médicos pouca coisa podiam fazer por ele além de abrigá-lo em ponchos e pelegos, dar-lhe aspirina e aplicar-lhe cataplasmas de farinha de mandioca. A Coluna continuara a andar. Os homens tiritavam sob os ponchos. O vento navalhava-lhes a cara, gelava-lhes as orelhas. O suprimento de cachaça se acabara. Pela manhã os campos estavam brancos de geada. O próprio céu sem nuvens parecia uma planície gelada.

Uma tarde encontraram um capão, onde se meteram para esperar que passasse a ventania. O doente delirou durante toda a noite, deu ordens de combate, agitou os braços como num duelo de espada: pelo que ele dizia, os companheiros compreenderam que o moribundo ainda peleava em 93... Morreu ao raiar do dia, quando o minuano cessou de soprar. Enterraram seu corpo à beira do mato e continuaram a marcha.

— É como a retirada de Napoleão da Rússia, em 1812 — murmurou um dia José Lírio.

Estava encolhido de frio; seu narigão era um bulbo arroxeado.

— Mas não estamos nos retirando, Liroca! — protestou um companheiro.

— Pior que isso, menino — retrucou o velho. — Não sabemos pra onde vamos nem o que nos espera por detrás daquele coxilhão.

— Está um frio de renguear cusco! — gritou um sargento, que não tinha poncho mas estava teso e risonho em cima do cavalo.

— Estou tirando a maior lechiguana da minha vida — exclamou outro.

Chiru olhou para Neco.

— E esse barbeiro burro deixou a cama quente do hospital!

— Pra fugir da faca fria do Madruga — replicou Neco sem pestanejar.

Ouviram-se risadas. Aqueles homens ainda brincavam! Alguns, é verdade — uma meia dúzia — já resmungavam que talvez fosse melhor bandearem-se para o Uruguai. A maioria daqueles guerreiros, porém, andava ansiosa por um combate, “pra esquentar o corpo”. O que os desnorteava e irritava um pouco era não saberem nunca para onde iam ou por que iam. A ordem era marchar, marchar sempre, aceitando combate quando o inimigo não era muito numeroso, recusando quando era. A munição de guerra da Coluna escasseava: tinham gasto muita bala no assalto a Santa Fé, depois do qual não se haviam mais remuniciado. Os Macedos eram os mais difíceis de conter. Tinham o sangue quente, ansiavam por uma oportunidade a mais para mostrarem que eram machos.

— O importante é durar — explicou Rodrigo um dia a um deles, para justificar aquelas marchas que pareciam fugas.

E, como o tenente que o interpelara sorrisse de maneira equívoca e perguntasse: “Mas durar pra quê, doutor?”, Rodrigo teve ímpetos de esbofeteá-lo e gritar: “Pensas que tenho medo, guri?”. Conteve-se e desconversou. Mas não esqueceu o incidente. Ficou ruminando, ressentido, as palavras do tenente. Não lhe saía da cabeça aquele sorriso entre desdenhoso e pícaro. “Eu ainda mostro”, dizia a si mesmo. E mostrou, da maneira mais irracional.

Uma certa manhã — em que cavalgava com um piquete de lanceiros na vanguarda, distanciado quase um quilômetro do grosso da tropa (Toríbio naquele momento estava ao lado do pai) — Rodrigo avistou no alto duma coxilha, a uns seiscentos metros de onde se encontrava, uma patrulha que lhe pareceu inimiga. Assestou o binóculo: reconheceu os uniformes. Eram provisórios armados de mosquetões. Contou-os. Dez. Olhou em torno. Tinha dez homens, não refletiu mais. “Vamos acabar com aqueles chimangos!”, gritou. Esporeou a montaria e precipitou-se encosta acima, seguido pelos companheiros. No alto da coxilha os provisórios apearam, estenderam linha, ajoelharam e abriram fogo. Rodrigo continuava à frente do piquete, as narinas palpitantes, uma alegria nervosa a queimar-lhe o peito como o ar frio lhe ardia as faces. Atirava de revólver. O companheiro que cavalgava a cinco passos atrás dele rodou do cavalo, ferido, mas o animal continuou a correr com os outros. Mais cem metros e estariam entreverando! Os provisórios, entretanto, cessaram fogo, tornaram a montar e se lançaram a todo o galope, descendo a encosta do outro lado, deixando um soldado estendido no chão. Rodrigo continuava a perseguir o inimigo, como se quisesse dizimá-lo sozinho a golpes de espada. Os companheiros empunhavam agora as suas lanças, prontos para o entrevero. Os provisórios afastavam-se cada vez mais, na direção duns matos. De repente, lá de baixo rompeu uma fuzilaria cerrada. Vinha dum barranco, aberto no sopé da coxilha e meio escondido por trás das árvores. Uma cilada! — compreendeu Rodrigo. Fez seu cavalo estacar e gritou aos companheiros que fizessem alto.

— A la fresca! — exclamou Pedro Vacariano, ouvindo o sibilar das balas sobre sua cabeça.

Um revolucionário tombou do cavalo que uma bala atingira. Ficou onde tinha caído e, dali mesmo, começou a atirar com sua Winchester na direção do barranco.

— Carregamos? — perguntou Vacariano.

— É suicídio — respondeu Rodrigo. — Vamos buscar reforços.

A fuzilaria continuava, nutrida. Rodrigo ordenou a retirada. Seus homens lançaram os cavalos a todo o galope, coxilha acima. Ele os seguiu, voltando-se de quando em quando para atirar. De súbito sentiu que seu alazão estremecia, diminuía a velocidade da corrida, dobrava as pernas dianteiras... Compreendendo, rápido, o que tinha acontecido, saltou para o chão. Segundos depois o animal baqueou, o sangue a jorrar-lhe do ventre como água dum manancial. Já os demais companheiros haviam desaparecido do outro lado da colina. A fuzilaria lá embaixo cessara. Rodrigo viu então que os cavalarianos que se haviam refugiado no mato, agora se tocavam a toda a velocidade na sua direção. Olhou em torno e sentiu-se perdido. Estava sozinho. O remédio era morrer brigando. Começou a atirar, de joelho em terra. Ouviu um grito: “Doutor!”. Voltou a cabeça e avistou um de seus cavaleiros que descia a encosta a galope. Era Pedro Vacariano, que se aproximou dele, apeou do cavalo e disse: “Monte, doutor!”. Rodrigo montou, exclamando: “Suba pra garupa!”. O outro, de Winchester em punho, sacudiu negativamente a cabeça, sem tirar os olhos dos inimigos que se acercavam cada vez mais.

— Eu fico.

— Monte! É uma ordem!

Como única resposta, o caboclo ergueu a perna e fincou a espora na ilharga do animal, que disparou coxilha acima. Os cavalarianos legalistas começaram a atirar também. Uma bala silvou rente à orelha de Rodrigo, que, voltando a cabeça para trás, viu o capataz do Angico deitado a fazer fogo contra o inimigo, como numa espécie de “combate particular”. Volto? Tentou sofrenar o animal mas não conseguiu. Estava agora do outro lado da colina e já avistava o grosso de sua coluna. Começou a fazer sinais frenéticos para os companheiros.

 

Voltou com duzentos homens, minutos mais tarde, e pôs em debandada o inimigo, que deixou no campo três mortos e seis feridos. Um destes informou que, a cinco quilômetros dali, estava uma força governista da Divisão de Firmino de Paula.

— Quantos homens? — interrogou-o Toríbio.

— Uns quinhentos.

— Vejam só onde a gente ia cair! — comentou o Liroca, com uma sombra de susto nos olhos.

Era evidente que o piquete de cavalaria dos provisórios e o pelotão entrincheirado no barranco estavam fazendo o papel de isca. A intenção deles era atrair a Coluna Revolucionária de Santa Fé para um lugar em que as tropas de Firmino de Paula, bem armadas e municiadas, pudessem liquidá-la.

Licurgo mandou recolher e medicar os feridos e enterrar os mortos. Entre estes se encontrava o ten. Pedro Vacariano, com três balázios no corpo. Licurgo contemplou longamente o cadáver, antes de mandar baixá-lo à sepultura, aberta ali mesmo onde o caboclo caíra. A face do morto estava serena. Rodrigo teve vontade de fazer um gesto que exprimisse sua gratidão. Mas não achou nenhum que não pudesse parecer ridículo ou feminino. Não disse nem fez nada. Mandou-se lavrar uma ordem do dia em que se promovia Pedro Vacariano a capitão, por ato de bravura.

— Era um homem — disse Licurgo.

O caboclo não teve outro epitáfio.

34

Para evitar um encontro com as tropas governistas que guarneciam Santa Bárbara, a Coluna tornou a entrar no município de Santa Fé, rumando para noroeste.

— É engraçado — disse Rodrigo ao irmão, quando o pai determinou o roteiro da marcha. — Parece que o Velho quer seguir na direção do Angico. Será que vai tentar retomar a estância?

— Não é má ideia.

— Mas se vai, por que não diz claro?

— Ainda não aprendeste a lidar com o teu pai?

Marchavam agora com a vigilância redobrada, com um piquete de vanguarda e patrulhas de reconhecimento nos flancos. Levavam os feridos amontoados na carroça de víveres.

Destacamentos inimigos os seguiam de longe. Não eram numerosos mas estavam bem montados, tinham boa mobilidade e, como observou Juquinha Macedo, pareciam mestres na arte de “futricar a paciência do próximo”. Quando menos se esperava, surgiam pela frente, pelos flancos ou pela retaguarda da Coluna, tiroteavam, sem se aproximarem demais, sem encarniçamento, mas com uma insistência de ralar nervos. “Como mutuca em lombo de mula”, dizia o Liroca, que vivia alarmado. “Agora a gente não pode mais nem dormir em paz.”

Rodrigo andava cansado e deprimido. Carregava ainda o peso de seus mortos. Não podia esquecer a cara lívida de Miguel Ruas, que expirara em seus braços. A imagem risonha e pachorrenta de Cacique Fagundes perseguia-o também como um fantasma bonachão, mas nem por isso menos perturbador. Cinco filhas. Vinte netos... Pensava com igual remorso em todas as vezes em que, durante a campanha, hostilizara Pedro Vacariano com gestos ou palavras. No entanto o caboclo viera a morrer por ele... Sabia que tinha o dever de ser-lhe reconhecido por isso, mas não podia evitar que com o seu relutante e meio envergonhado sentimento de gratidão se mesclasse uma certa irritação, que se poderia traduzir assim: “Não lhe pedi que se sacrificasse por mim”.

Perdera as luvas durante o assalto a Santa Fé e agora tinha as mãos ulceradas de frieiras. Seus lábios estavam ressequidos e queimados pelo vento frio. Sentia pontadas nas costas e no peito. Aqueles ataques esporádicos das patrulhas inimigas deixavam-no apático. Quem se encarregava de os repelir era Toríbio, que gritava: “Vou dar um corridão naqueles chimangos!”, e precipitava-se contra eles com seus cavalarianos, de lança em riste. Em geral o inimigo fugia, e Bio voltava risonho e feliz.

Um dia as patrulhas inimigas desapareceram por completo.

A marcha continuou. E uma manhã chegaram à encruzilhada da Boa Vista, onde havia uma venda e alguns ranchos.

— Devemos estar a umas dez léguas do Angico — observou Toríbio.

Licurgo Cambará reuniu a oficialidade para decidirem o destino da Coluna. Juquinha Macedo achava que deviam atacar Nova Pomerânia, distante poucas léguas dali, e que, segundo informavam os rancheiros da Encruzilhada, estava desguarnecida. A Coluna precisava urgentemente de mantimentos. Durante a última jornada um dos feridos tivera uma hemorragia e seu sangue empapara o último saco de farinha e o último saco de sal de que a Coluna dispunha. Já no dia anterior os soldados haviam comido carne insossa.

— Precisamos levar o quanto antes esses feridos para um hospital — disse o médico da Coluna. — Acho que um deles já está com a perna quase gangrenada.

Rodrigo notou que, enquanto os outros falavam, o pai olhava com certa ansiedade na direção dos campos do Angico. Compreendeu a luta que se travava no espírito do Velho.

— Está bem — disse este por fim. — Acho que devemos atacar a colônia...

Deixaram a Encruzilhada pouco depois do meio-dia, tomando a estrada de sueste. O frio havia diminuído, o céu estava limpo, o ar parado.

Ao cabo de uma hora de marcha batida, Toríbio deixou seu piquete e acercou-se de Rodrigo.

— A ideia de atacar a colônia me agrada — disse. — Estou muito precisado de mulher. Já não aguento mais.

Rodrigo mostrou-se pessimista.

— Não te iludas. Mal vamos ter tempo de levar os feridos para o hospital e fazer umas requisições...

— Não preciso mais de quinze minutos. Dez pra achar a fêmea. Cinco pro resto.

Ao entardecer daquele dia, estavam a duas léguas de Nova Pomerânia. Fizeram alto a uns duzentos metros duma serraria, onde se erguia a casa dum colono, um chalé de tipo suíço, com um alpendre na frente, uma roda de moinho d’água a um dos lados. O céu, àquela hora duma fria transparência de vidro, aos poucos tomava uma tonalidade rósea. Os verdes do pomar do colono se fundiam em sombras dum azul arroxeado, que se degradava em negro — tudo muito recortado e nítido no ar cristalino. O som da roda e da água que a movia era quase uma música.

Havia, porém, em tudo ali uma quietude que deixou Toríbio e seus vanguardeiros intrigados. Não se via vivalma. As portas e janelas da casa estavam fechadas. Bio olhou desconfiado para um capão, a uns trinta metros da casa. Em cima do cavalo Licurgo pitava, olhando fixamente para a roda do moinho.

— Vou deslindar esse mistério — disse Toríbio, apeando do cavalo e convidando três companheiros para acompanhá-lo.

— Cuidado, meu filho — murmurou Licurgo. — Podem estar de tocaia.

Os quatro avançaram meio agachados, por entre árvores, na direção do chalé. A uns trinta metros dele, fizeram alto e esconderam-se atrás de troncos de ciprestes, de onde ficaram a observar com todo o cuidado a casa, o pomar e o mato próximo. A roda do moinho parecia ser o único elemento vivo e móvel naquela paisagem fria e parada de cartão-postal.

— Ó de casa! — berrou Toríbio.

Ficou à escuta... Nenhuma resposta. Só o som fofo e ritmado da roda, e o chuá da água.

Deixando o esconderijo, de espingarda em punho, Toríbio aproximou-se, cauteloso, olhando para todos os lados. Os companheiros o imitaram. De repente abriu-se uma das janelas da casa e dela partiram dois clarões seguidos de detonações. Toríbio e os amigos atiraram-se ao solo.

— Feriram o Bio! — exclamou Licurgo.

E, cuspindo fora o cigarro, esporeou o cavalo e, seguido de Rodrigo, precipitou-se para o lugar onde vira o filho cair.

Nesse momento rompeu uma fuzilaria de dentro do capão.

Juquinha Macedo ordenou a seus homens que tomassem posição de combate. Rodrigo, que cavalgava a poucos metros atrás do pai, viu este tombar do cavalo e ouviu o baque surdo e ominoso que seu corpo produziu ao bater no chão. Sofrenou sua montaria, apeou e correu para o Velho, gritando: “Um médico! Depressa! Um médico!”. Sua voz, porém, se perdeu em meio das detonações. Ajoelhou-se ao pé do ferido e compreendeu logo que o tiro o havia atingido no tórax. Ergueu-lhe a cabeça, estonteado, exclamando insensatamente: “Que foi, papai? Que foi?”. Licurgo descerrou os lábios como para dizer alguma coisa, mas de sua boca só saiu uma golfada de sangue. Desnorteado, Rodrigo olhava em torno, sem saber a quem apelar. A intensidade do tiroteio havia redobrado, e de onde ele estava podia ver os companheiros que se aproximavam de rastos do mato e do chalé, atirando sempre. “Um médico, pelo amor de Deus!”, tornou a gritar. O rosto do velho estava horrivelmente pálido. Gotas de suor brotavam-lhe na testa, escorriam-lhe pelas faces. Sua respiração era um ronco estertoroso. Seus olhos começavam a vidrar-se. Rodrigo desabotoou-lhe o casaco e o colete, rasgou-lhe a camisa. Descobriu o buraco da bala no lado direito do peito. O projétil devia estar alojado no pulmão... Segurou o pai nos braços, ergueu-o e ficou a olhar atarantado dum lado para outro, sem saber para onde ir. O sangue continuava a manar da boca do ferido, cujo lenço branco aos poucos se tingia de vermelho. Rodrigo sentiu faltarem-lhe as forças. Suas pernas se vergavam. Tornou a pousar o corpo no chão e, indiferente às balas que cruzavam por ele, sibilando, rompeu a correr na direção da carroça, onde esperava encontrar pelo menos algodão e gaze.

Quando voltou, minutos depois, Licurgo Cambará estava morto.

35

Ao cair da noite a casa estava tomada e os matos varejados. O inimigo, pouco numeroso, fugira na direção de Nova Pomerânia, deixando para trás um morto e três feridos.

O cadáver de Licurgo Cambará achava-se agora estendido em cima da mesa da sala de jantar, no chalé do colono. Liroca choramingava a um canto. Rodrigo e Toríbio rondavam o corpo do pai, quase tão pálidos como o defunto, mas ambos de olhos secos. De quando em quando olhavam para Bento, que estava inconsolável. Nunca tinham visto o caboclo chorar. Era um choro feio, de boca aberta, de sorte que a baba que lhe escorria pelas comissuras dos lábios, se misturava com as lágrimas e juntas lhe entravam pelas barbas grisalhas.

Fazia pouco, numa rápida reunião da oficialidade, ficara resolvido que Juquinha Macedo assumiria dali por diante o comando geral da Coluna. Sua primeira decisão foi a de contramarchar para o norte. Um dos inimigos aprisionados informara que Nova Pomerânia estava guardada por um destacamento legalista pequeno mas bem armado e municiado. O cel. Macedo mandou contar as balas de que dispunham e verificou que havia apenas uma média de cinco tiros para cada soldado. Era o diabo...

— Agora um assunto desagradável... — murmurou, aproximando-se de Rodrigo. — Onde vamos enterrar o corpo?

O filho de Licurgo fitou nele um olhar tranquilo e respondeu:

— No Angico.

— Como? — surpreendeu-se o outro.

— Já combinei tudo com o Bio. Não te preocupes.

— Mas estamos muito longe. Umas dez ou doze léguas...

— Oito. Não precisamos mais de quatorze ou quinze horas para ir e voltar.

— Mas a estância está ocupada por forças do Madruga! É uma temeridade.

— É um assunto de família, coronel. Eu e o Bio levamos o corpo. O Bento também faz questão de ir. Vamos os três por nossa conta e risco.

Uma sombra passou pelo rosto do outro.

— Não posso permitir que se arrisquem.

— Sinto muito. Mas temos de te desobedecer...

Juquinha Macedo mastigava o cigarro apagado. Pôs a mão no ombro do amigo:

— Me deixem mandar um piquete com vocês...

Rodrigo sacudiu negativamente a cabeça.

— Não. Quanto menos gente, melhor. Vamos sozinhos, não queremos que ninguém mais se arrisque por nossa causa. O Bio conhece esses campos de olhos fechados.

Macedo não parecia ainda convencido.

— Por que não enterramos o coronel aqui, marcamos a sepultura, e depois, quando essa revo...?

— Não adianta, Juquinha. Está resolvido.

O novo comandante deixou escapar um suspiro de impaciência.

— Levem então o corpo na carroça.

Toríbio repudiou a ideia. Pretendia evitar as estradas reais. Teriam de cortar invernadas, vadear rios... não podiam levar nenhum veículo.

— Está bem — resignou-se o cel. Macedo, fazendo um gesto de desalento. — Meu dever era prender vocês e impedir essa loucura. Mas também compreendo. Sei o que o Angico representava para o coronel Licurgo. Nesta hora prefiro agir como amigo e não como chefe. Sejam felizes!

Ficou combinado que, na volta, Rodrigo, Toríbio e Bento se encontrariam com o resto da Coluna na Encruzilhada.

— Se amanhã até esta hora não tivermos voltado — disse Bio —, toquem para a frente: não nos esperem.

Amarraram o morto em cima do cavalo, de bruços. Partiram pouco depois das nove. Era uma noite sem lua, mas de céu mui estrelado. Toríbio puxava a cabresto o cavalo que carregava o defunto. Rodrigo levava presa à cela uma pá que encontrara no porão do chalé. Cada um possuía um revólver, uma Winchester e um facão: trinta e cinco tiros ao todo.

Não haviam andado meio quilômetro quando perceberam que estavam sendo seguidos. Fizeram alto e esperaram. Três cavaleiros galopavam na direção deles: Chiru, Neco e o velho Liroca.

— Que é que querem? — perguntou Rodrigo, quando os amigos os alcançaram.

— Vamos com vocês — disse Chiru. — O coronel Macedo nos deu licença.

— Mesmo que ele não desse — acrescentou Neco — eu vinha.

— Não sejam bobos. Voltem.

— Se vocês são loucos — disse o barbeiro —, nós também temos o direito de ser.

Toríbio desinteressou-se da discussão, pôs seu cavalo em movimento.

— E tu, Liroca? — perguntou Rodrigo.

— Também sou amigo.

— Um homem da tua idade! Vai ser uma puxada braba, numa noite de frio abaixo de zero. Se o inimigo nos pega, estamos liquidados.

— Paciência. Ninguém fica pra semente.

Neco e Chiru seguiram Toríbio. Rodrigo não teve outro remédio senão dizer:

— Vamos.

E os seis amigos entraram numa invernada, cabresteando o cavalo do morto à luz das estrelas.

 

Andaram por mais de três horas num silêncio cortado apenas pelos pigarros do Liroca, pela tosse nervosa do Chiru, ou por uma ou outra observação de Neco, que ficava sem resposta, como se suas palavras se tivessem congelado no ar.

Rodrigo deixara-se ficar para trás. Não tirava os olhos do cavalo que levava o defunto. Tinha a inquietadora, misteriosa impressão de que aquilo já acontecera. Onde? Quando? Como? As mãos, os pés, as orelhas doíam-lhe de frio. As silhuetas daqueles seis cavaleiros (o velho Licurgo fazia a sua última viagem na Terra), a quietude transparente e glacial dos campos, o ruído das patas dos cavalos... tudo aquilo tinha para ele algo de irreal, de fantasmagórico... Sentiu uma pontada forte nas costas. Levou a mão à testa e teve a impressão de que ela escaldava. Decerto apanhara uma pneumonia e ardia em febre. Talvez aquela madrugada o Bio tivesse de enterrar dois defuntos em vez de um. Bastava fazer uma cova maior... Era o que ele, Rodrigo, merecia.

Mataste teu pai. Quem dizia isto em seus pensamentos era ele próprio. Sim, matei meu pai.

— Queres um trago? — perguntou o Neco, aproximando-se.

Rodrigo pegou a garrafa e bebeu um gole de parati.

Nunca a figura e a voz de Neco Rosa lhe haviam parecido tão estranhas e improváveis.

— Vamos ter uma geada braba — disse o barbeiro.

Rodrigo não respondeu. Matei meu pai. O Velho não queria vir... Eu insisti. Agora é tarde, não há mais remédio, está tudo acabado. Imaginou a reação da gente do Sobrado ao receber a notícia... Matei meu pai. Mas todos morrem! Por que me culpam? Quantas centenas de pessoas estão morrendo neste mesmo instante no Rio Grande? Não te iludas. Não confundas teu caso particular com os outros. Mataste o teu pai. Tu sabes. Mataste também o Miguel Ruas. O Cacique Fagundes. O Jacó Stumpf. O Pedro Vacariano. O Cantídio dos Anjos. Das outras vítimas tuas nem os nomes sabes...

Dobrou-se na sela, a uma pontada mais forte. Quis chamar o irmão, que continuava amadrinhando o grupo. Não chamou. Matei meu pai. Tinha o que merecia. Tossiu com força, escarrou. Sangue? Invadiu-o então uma súbita, trêmula pena de si mesmo. As lágrimas começaram a escorrer-lhe geladas pelas faces. Foi-se deixando ficar para trás para poder chorar à vontade, sem que os outros vissem. E já não sabia ao certo se chorava de pena do pai ou de si mesmo.

 

E o grupo continuou a andar madrugada adentro. Três vezes tiveram de cortar aramados. Toríbio havia pensado num lugar para enterrar o corpo: ao pé da corticeira grande, situada atrás dum caponete e à beira dum lajeado, no fundo da invernada do Boi Osco. Era um sítio bonito, fácil de guardar na memória. Além disso, ficava bastante longe da casa da estância. Era improvável que os soldados do Madruga os surpreendessem. Precisavam fazer tudo e voltar antes de raiar o dia. Consultou o relógio à luz da chama do isqueiro: três e vinte.

Passava um pouco das quatro quando fez alto e disse aos companheiros: “Chegamos”. Ergueu a mão e apontou... Rodrigo avistou o caponete e começou a ouvir um rumor de água corrente.

Cortaram o arame da cerca e entraram nos campos do Angico. Apearam, tiraram o morto de cima do cavalo e puseram-no ao pé da corticeira. Os cinco amigos começaram a abrir a cova com uma pá, revezando-se, enquanto, acocorado junto do corpo de Licurgo Cambará, o velho Liroca montava-lhe guarda, como um cão fiel que ainda não se convencera de que seu dono não era mais deste mundo.

36

Estavam agora de luto as mulheres do Sobrado. Fora Aderbal Quadros quem lhes levara a notícia. A manhã estava nublada e o vento sacudia as vidraças do casarão. O pai de Flora entrou, parou no vestíbulo, a cara triste, sem saber como começar.

Maria Valéria antecipou-se.

— Não precisa dizer. Já sei. Mataram o primo Licurgo.

Babalo fez com a cabeça um lento sinal afirmativo. Flora rompeu a chorar. A velha ficou onde estava, de braços cruzados, o olhar fito em parte nenhuma.

Quando, um pouco mais tarde, Aderbal lhe perguntou quem havia dado a triste notícia, ela murmurou apenas:

— O vento.

E o vento soprou ainda por dois dias, levando as nuvens para as bandas do mar. E o céu de novo ficou limpo, o sol reapareceu e a vida no Sobrado continuou como antes.

Maria Valéria não falava nunca no cunhado, fechava-se em prolongados silêncios e ninguém sabia no que pensava quando se deixava ficar ali ao balouço da cadeira da velha Bibiana, o xale sobre os ombros, o olhar no braseiro. À hora do primeiro chimarrão, antes de clarear o dia, Laurinda suspirava olhando para o banco onde o patrão costumava sentar-se com a cuia na mão. E à noite, quando vinha trazer os seus pães quentes, Chico Pais metia-se num canto e, com olhos úmidos, ficava olhando ora para Maria Valéria ora para Flora, com uma tristeza bovina nos olhos injetados. Outro que naqueles dias não podia entrar no Sobrado sem chorar era o dr. Carlo Carbone. Quanto a Aderbal Quadros, passava longos instantes no escritório do amigo morto, tocando em objetos que lhe haviam pertencido — a caneta, o tinteiro, a espátula de cortar papel — e olhando um retrato tirado em 1912 e no qual Licurgo aparecia, excepcionalmente risonho, em cima dum cavalo. De vez em quando Babalo murmurava para si mesmo: “Que côsa bárbara!”, sacudia a cabeça, penalizado, e saía a andar pela casa, meio sem rumo, envolto na fumaça de seu cigarrão.

No oratório havia sempre uma vela acesa. O prato e o copo de prata de Licurgo continuavam a ser postos na mesa à hora das refeições. Flora mandou rezar uma missa de sétimo dia em intenção à alma do sogro. E por muitos dias tiveram visitas de pêsames, gente que ali ficava na sala, entre suspiros e silêncios, perguntas ociosas, referências elogiosas ao morto, e novos suspiros e silêncios.

O inverno continuava. Naqueles dias de agosto os telhados amanheciam cobertos de geada. A água que passava a noite ao relento, em baldes ou tinas, amanhecia coberta por uma camada de gelo da grossura dum vidro de vidraça. E o frio parecia também congelar o tempo, tornando mais dura ainda a espera.

 

Pelos jornais as mulheres do Sobrado acompanhavam a marcha da revolução, com a qual bem ou mal se haviam habituado a viver. Para elas existiam nomes claros e nomes escuros. Honório Lemes era um nome dourado. Nepomuceno Saraiva, um nome sombrio. Um era o herói, outro o bandido. Felipe Portinho era uma combinação de letras e sons que lhes produziam uma sensação de conforto e esperança. Madruga era um símbolo noturno, que as levava a pensar em sangue e brutalidades. A figura de Firmino de Paula provocava em Maria Valéria uma mixórdia de sentimentos. Lembrava-se da Revolução de 93, em que vira o chefe político de Cruz Alta — um homem de ar severo — a confabular no Sobrado com Licurgo. Contavam-se dele crueldades em que ela não queria acreditar, pois naquele tempo sua gente brigava contra os maragatos. Agora, como o homem estivesse do lado dos chimangos, começava a alimentar dúvidas... Mas era sempre uma coisa boa para a alma da gente ver num jornal a cara honesta e simpática de Zeca Neto, com suas barbas de patriarca. (O safado do Camacho só lhe chamava “Zeca Veado”, porque — dizia — o general de Camaquã não fazia outra coisa senão correr...) E Maria Valéria não podia compreender como “moços tão bem-apessoados” como o dr. Flores da Cunha e o dr. Oswaldo Aranha pudessem estar do outro lado...

Os jornais em geral chegavam ao Sobrado às duas da tarde, trazidos por Dante Camerino, que ia buscá-los na estação. Processava-se então ali na sala de jantar todo um cerimonial. Maria Valéria sentava-se na sua cadeira, traçava o xale, acavalava os óculos no nariz, abria o Correio do Sul, lendo primeiro o editorial e depois as notícias. Flora, a seu lado, tinha nas mãos o Correio do Povo. A velha interrompia-lhe a leitura de quando em quando, com observações.

— O general Estácio voltou, reorganizou a coluna dele e anda fazendo o diabo pras bandas de São Gabriel.

— Ahã — fazia Flora, sem prestar muita atenção.

Continuava a ler, mas lá vinha de novo a velha:

— O Zeca Neto tomou Lavras... O Honório Lemes entrou em Dom Pedrito. — Uma careta, um estalar de língua e depois: — Alegria de pobre não dura muito. Tiveram de abandonar a cidade porque a força do Flores da Cunha andava nas pegadas deles...

 

Floriano aos poucos se ia interessando também pelas notícias da revolução. Certas palavras e frases — nomes de pessoas, lugares, expressões militares — tinham para ele um mágico poder sugestivo. No princípio da campanha ouvira falar que os soldados de Portinho se haviam emboscado no desvio Giaretta para atacar o trem em que Firmino de Paula passava com suas tropas... Esse combate excitara-lhe a imaginação pelo que tinha de evocativo das histórias de faroeste que ele via no cinema. E, quando ouviu o avô materno anunciar que a mortandade tinha sido “uma côsa bárbara”, passara a emprestar à palavra Giaretta uma conotação trágica. Leu um dia: “Honório Lemes e suas forças atravessaram o Ibicuí da Armada”. A frase de certo modo lhe soou como irmã gêmea de outras que lera num livro de história universal, “César atravessou o Rubicão” e “Napoleão cruzou os Alpes com seus exércitos”. Ibicuí da Armada era um nome de ferro, duro, frio e heroico. Caverá, o nome da serra onde Honório costumava refugiar-se periodicamente, tinha para o menino algo de macabro pela sua semelhança com caveira. O que, porém, mais o impressionou naqueles primeiros dias de setembro foi a notícia do combate do Poncho Verde, em que os soldados de Honório Lemes haviam infligido uma derrota séria aos de Nepomuceno Saraiva. Contavam-se histórias negras. “Os maragatos pegavam um prisioneiro, mandavam o bicho dizer ‘pauzinho’, e se o homem pronunciava ‘paussinho’, viam logo que era castelhano e passavam-lhe a faca nos gargomilos.” “Tu sabes”, dizia-se como justificativa, “os assisistas estavam com a marca quente por causa das barbaridades que o Nepomuceno e seus mercenários cometeram no combate do Ibirapuitã.”

Outra notícia que estimulou a fantasia de Floriano, tão nutrida pela leitura dos romances de Júlio Verne, foi a de que o aeroplano que os legalistas empregavam na luta contra os revolucionários havia sido destruído por uma explosão em que um dos pilotos morrera e o outro ficara gravemente ferido.

37

Uma manhã de setembro, ao erguer a vidraça de uma das janelas dos fundos da casa, Flora viu os pessegueiros do quintal todos cobertos de flores rosadas. Era o primeiro recado que lhes mandava a primavera, e isso a deixou um tanto animada. Havia no vento uma frescura úmida e doce, que recendia a flores de cinamomo. Flora pensou em Rodrigo e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Fosse como fosse, o inverno tinha acabado! Não iria acabar também aquela guerra cruel? Comunicou sua esperança a Maria Valéria, que lhe disse:

— Não se iluda.

A velha tinha razão. A revolução continuou. Durante todo aquele mês chegaram notícias de combates em cima da Serra, na zona da fronteira do sul e na região missioneira, por onde andava agora o Leão do Caverá com sua divisão.

Cidades e vilas eram tomadas hoje pelos revolucionários e retomadas no dia seguinte ou poucas horas depois pelos legalistas.

Foi no primeiro dia de outubro — o vento pastoreava no céu um rebanho de grandes nuvens brancas — que Aderbal Quadros chegou ao Sobrado com a notícia de que o gen. Zeca Neto havia entrado com sua tropa na cidade de Pelotas. Flora exultou. Maria Valéria permaneceu impassível. Aquilo — declarou — não significava nada para ela, já que havia perdido todo o interesse na revolução... Era como se com essa atitude de indiferença a velha esperasse forçar “aquela gente louca” a terminar a luta, voltar para casa e “sossegar o pito”.

 

Foi em fins daquele mesmo outubro que um próprio trouxe a Flora este bilhete de Rodrigo:

Minha querida: Retomamos ontem o Angico, sem perder uma vida! Juro-te que daqui

ninguém mais nos tira. Demos uma sepultura decente ao corpo do papai. Ficou no alto

da Coxilha do Coqueiro Torto, junto com o Fandango. De lá os dois podem avistar a

casa da estância e os campos que tanto amavam.

Não te inquietes. Estamos todos bem, e já se ouvem boatos de paz. A grande hora

não tarda. Que Deus te abençoe e guarde, a ti, à Dinda e aos nossos queridos filhos.

 

Efetivamente, desde fins de outubro, o gen. Setembrino de Carvalho encontrava-se no Rio Grande do Sul, como emissário do presidente da República, tratando da pacificação.

E durante aqueles dias de novembro — em que as últimas ventanias da primavera sopravam lá fora, despetalando flores, arrepiando o arvoredo, fazendo bater portas e janelas — as mulheres do Sobrado acompanharam pelos jornais os passos do pacificador.

Quando soube que as hostilidades haviam sido suspensas, Flora sentiu um súbito alívio: foi como se lhe tivessem tirado um peso do coração.

Noticiava-se que o gen. Setembrino de Carvalho confabulava com os chefes de ambas as facções, procurando uma fórmula para consolidar a paz.

Fosse como fosse — refletia Flora —, o importante era que Rodrigo estava vivo e fora de perigo!

Um dia, vendo a filha de novo com cores nas faces e uma alegria nos olhos, o velho Babalo olhou para Laurentina e murmurou:

— Nossa filha refloriu. Está bonita que nem os pessegueiros do Sutil.

— É...

* * *

Naquela noite de 15 de novembro havia no Sobrado um nervosismo alegre que contrastava com as roupas negras das duas mulheres, ainda de luto fechado. Muito daquela excitação de expectativa feliz se havia comunicado às crianças, que estavam também alvorotadas. Rodrigo e Toríbio chegariam no dia seguinte! Ambos se haviam recusado a deixar o Angico sem primeiro terem a certeza de que todos os seus companheiros seriam respeitados depois que tornassem a suas casas. Nenhum deles confiava no Madruga. Juquinha Macedo, que participara pessoalmente das discussões em torno do tratado de paz, insistia em entrar em Santa Fé com todos os soldados de sua Coluna, desfilar com eles pelas ruas da cidade e dissolver a tropa ali na praça da Matriz, ao som de discursos, foguetes e música.

Santa Fé preparava-se agora para recebê-los. Mulheres e crianças, das janelas de suas casas, jogariam flores sobre as cabeças dos guerreiros de lenço encarnado. O telefone do Sobrado, durante todo aquele dia, tilintava de instante a instante: gente que queria saber a hora certa em que os revolucionários entrariam em Santa Fé, o programa dos festejos, os nomes dos oradores...

Laurentina contava a Maria Valéria as dificuldades e sustos que passara no Sutil durante o inverno, sempre a temer que o corpo provisório lhe requisitasse o gado leiteiro, os poucos cavalos que tinham e as suas ricas galinhas de raça. Maria Valéria prestava-lhe pouca atenção, pois tinha o ouvido assestado para a conversa dos homens. Aderbal referia-se ao pacto que fora firmado em Pedras Altas, no Castelo de Assis Brasil, por este último, pelo gen. Setembrino de Carvalho e pelos principais chefes revolucionários.

— Esse pacto — (Babalo dizia páqueto) — representa uma vitória das tropas do assisismo!

Arão Stein, que havia alguns minutos o escutava em silêncio, fez uma careta de dúvida.

— Mas o doutor Borges, segundo entendo, permanece no poder.

O velho chupou o cigarrão e soltou uma baforada na cara do interlocutor.

— Menino, não se trata de homens, mas de ideias!

Tio Bicho escutava a conversa de olhos meio fechados, num silêncio de quem não tinha opinião sobre o assunto.

Aderbal procurou provar seu ponto de vista. Segundo o tratado, a Constituição do estado devia ser reformada no sentido de incluir-se nela uma cláusula que proibisse terminantemente a reeleição do presidente do estado para o período presidencial imediato.

— É o fim do Borjoca! — exclamou. — Se isso não é vitória, então não sei o que é!

Havia mais ainda — continuou o velho. O tratado autorizava a reforma judiciária, que, entre outras coisas, daria competência à justiça ordinária para julgar os recursos referentes às eleições municipais. Ia acabar-se também o abuso da nomeação dos famosos “intendentes provisórios”. Teria o Rio Grande conseguido tudo isso sem a revolução?

— E o senhor acha — perguntou Stein — que o doutor Borges de Medeiros vai ratificar o tratado?

— Deve ser ratificado hoje — replicou Babalo.

Maria Valéria alçou a cabeça e interveio:

— Cale essa boca, muçulmano. Vacê não entende desse negócio.

Mas, arrependendo-se em seguida de sua rudeza para com o judeu, foi até a cozinha e trouxe de lá um prato com uma fatia de pessegada e outra de queijo. Entregou-o ao rapaz, dizendo:

— Coma. É o último pedaço da última caixeta. Acabou-se a pessegada e a guerra.

Por volta das oito e meia daquela mesma noite, a banda de música do Regimento de Infantaria entrou na praça ao som dum dobrado. Moleques descalços enxameavam como moscas ao redor dos músicos, marchando e pulando. Pouco depois que a banda se aboletou no coreto, do pátio da Intendência subiram foguetes, que explodiram sobre a praça, em rápidos clarões.

Flora estremeceu e por um instante seus olhos se velaram de medo. Dante Camerino, que entrava naquele momento, explicou:

— O doutor Borges de Medeiros ratificou esta tarde o tratado de Pedras Altas. Não sei por que o Madruga está festejando o acontecimento. Decerto pensa que os chimangos ganharam a parada...

Era finalmente a paz — sorriu Flora. — E no dia seguinte Rodrigo estaria em casa! Subiu as escadas quase a correr, foi acender as velas do oratório e ali ficou por alguns momentos ajoelhada a rezar.

Os Carbone chegaram, pouco depois, numa alegria em que alternavam risadas com lágrimas. As explosões dos foguetes haviam cessado e agora a banda de música tocava uma valsa. A praça, aos poucos, se enchia de gente. Ouviam-se vozes alegres sob as árvores. Os namorados tinham voltado.

Maria Valéria aproximou-se lentamente de Camerino, que estava debruçado numa das janelas.

— Parece mentira — murmurou a velha. — Dez meses de guerra. Sabe Deus quanta gente morreu!

— Mas o tratado de Pedras Altas é uma vitória — replicou o médico. — Nossos companheiros não morreram em vão.

— Mas morreram.