Obras Completas de Adolfo Bioy Casares: Volume I

Adolfo Bioy Casares · Capítulo 7 de 27

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Obras Completas de Adolfo Bioy Casares: Volume I

dos reis futuros

 

i

Talvez convenha começar esta narração com a lembrança de um espetáculo de circo ocorrido em 1918. Lá meus deslumbrados olhos viram pela primeira vez — em trabalhos certamente humildes, mas que na época me pareceram prodigiosos — os animais que merecem nosso mais decidido respeito: as focas. Quanto à felicidade que vinculo involuntariamente a essas lembranças, agora a atribuo (mas não se pode esquecer que vivemos todos obcecados nestes dias infaustos) à nobre, à santa embriaguez da vitória; no entanto, quando tento reviver com mais pureza meus sentimentos de então, entendo que no centro do meu júbilo, como símbolos de mistérios futuros, estavam a enorme tenda embandeirada e três crianças — Helena, Marcos e eu — de mãos dadas diante de uma soleira funesta.

Quando o número das focas terminou, Marcos saiu do camarote. Na rubra circunferência do picadeiro apareceu um chimpanzé pedalando uma bicicleta. O bicho pedalava sem olhar para seu estreito caminho; tinha os olhos fixos em Helena. De repente as coisas se precipitaram. Helena chorou; Marcos voltou e disse que tinha conseguido autorização para visitar as focas e os animais; Helena implorou e ameaçou: se eu fosse, ela nunca mais falaria comigo; segui Marcos.

Já naquele tempo Marcos era o secreto e tenaz agente que organizava tudo em nossas vidas. Era muito inteligente, muito enérgico, muito rico. Boa parte de nossa infância transcorreu em suas casas: na sua casa da cidade ou em Saint Remi, a extensa quinta nos arrabaldes.

Só Helena parecia resistir à sua influência. Contrariando a opinião universal, com uma insistência tranquila e espontânea que, de certo modo, o contestava, Helena continuava preferindo a mim, acreditando em mim e não nele.

Quando terminamos o segundo grau entrei na Faculdade de Direito. Durante quatro anos segui regularmente os cursos. Quando me falavam de estudantes que tinham se formado em um ou dois anos, eu ouvia com desdém. Que fruto podem deixar — perguntava imediatamente — centenas de milhares de páginas percorridas com tal precipitação?

Marcos não estudava. Lia para si mesmo e orientava nossas leituras. Seguindo-o, indaguei com frivolidade e com proveito a história da quadratura do círculo, os progressos dos navegantes árabes, as possibilidades da logística, a natureza e a multiplicação dos cromossomos, os trabalhos de Resta sobre as cosmografias comparadas.

Por fim, Marcos entrou na Escola de Ciências Naturais. Isso parecia uma confirmação — como observou um comentador amistoso — de que não encarava a vida com seriedade. No entanto, o curso é longo e difícil. Marcos se formou em um ano.

— Vou me dedicar aos estudos — disse-me uma noite. — E me isolar em Saint Remi. Quero uma companheira: uma moça inteligente, que more comigo e me ajude.

Inexplicavelmente, fiquei alarmado. Entendi que eu teria de procurar essa moça para ele. Sem vontade, sem método, comecei a buscá-la na memória. Desisti rapidamente dessa busca.

Helena foi com ele. Eu larguei a faculdade e embarquei para a Austrália. Não houve despedidas. Eles já estavam morando na quinta; não tive tempo de telefonar nem de visitá-los.

Na Austrália fui ajudante de administrador, e depois administrador, de uma propriedade rural. Na hora da sesta eu contava as lajotas alaranjadas do pátio e cada lajota representava uma das mulheres da minha vida. Duas recordações não me eram indiferentes: a excessivamente dolorosa de Helena e a de Luisa, a filha do dono da venda, que morava em frente à quinta. Brincávamos com ela todas as tardes, e era uma doce, embora não vívida, lembrança daquela época. Gostaria de saber alguma coisa dessa moça. Tivemos a infância em comum e depois a esqueci. O que me restava de Luisa? Esta lapiseira, que ela me deu de aniversário e que sempre levo comigo, e uma ou outra desesperada e terna repreensão, que surge nos sonhos ou na Austrália.

Para dissipar o tédio das tardes, eu escrevia romances de espionagem. Com o pseudônimo Speculator, publiquei meia dúzia de livros, em Melbourne. Chegaram a ter várias edições, mas a crítica foi desfavorável.

Passei nove anos entre as planícies e as manadas, até que começou a guerra e voltei para a pátria. Fui considerado velho para a frente de batalha e, não sei como, entrei para o serviço de contraespionagem. Talvez o tema de meus livros tenha sugerido a alguém a ideia absurda de que eu daria um bom espião.

Uma tarde, conversando com um colega, soube que em nosso escritório desconfiavam dos moradores de Saint Remi. Falei com o chefe. Ele suspeitava que na quinta alguém orientava os aviões inimigos que bombardeavam aquela zona da cidade. Consegui que me encarregasse da investigação.

 

ii

Saí de manhã do Quartel Oeste, atravessei a rua estrepitosa debaixo de um céu puro e desci até as cavernas do metrô. Tive que esperar na plataforma: ainda saíam dos túneis, carregando sacos e colchões, as pessoas que tinham se refugiado de noite. Já passava das dez horas quando o serviço metroviário foi restabelecido. Fui até a última estação e finalmente emergi, através de um labirinto de escadas de ferro, no subúrbio silencioso, escurecido pelas árvores. Lá estavam, como um grupo de indiferentes lembranças materializadas, a garagem com os baixos-relevos da cavalariça anterior, o parque de quermesses, o clube de tênis, verde, vermelho e branco. Procurei em vão um carro ou um coche que me levasse à quinta. Um pouco cansado adentrei uma alameda de árvores muito altas e frondosas, com troncos escuros, folhagem nítida e flores alaranjadas, que não coincidia exatamente com as minhas lembranças. Quando as árvores terminaram, comecei a reconhecer o lugar; tive a impressão de que o bairro tinha sido bastante castigado pelos bombardeios (no entanto, o bombardeio que sofremos agora deve ser mais forte que todos os anteriores). Continuei andando: vi casas intactas, ruas não esburacadas. Cheguei, depois, ao ruinoso paredão que rodeia a quinta Saint Remi. De fora não se podia ver se o lugar tinha sido atingido pelos bombardeios. Caminhei ladeando o paredão, como em um sonho de cansaço interminável.

O bairro havia mudado. No entanto, bem em frente ao portão de Saint Remi ainda estava a venda dos pais de Luisa. Ao entrar naquele espaço sombrio, ao sentir sob meus pés as suaves tábuas de carvalho (que antes haviam pertencido à sala de jantar da quinta), senti que irrompia em minha alma uma sensação de ternura, a primeira em muitos anos. Fui atendido por um homem e uma mulher desconhecidos. Entendi que eram os novos donos. Perguntei se podia almoçar.

— Não muito — respondeu o dono da venda. Era um homem verdacho e desgrenhado.

— Não menos que em outro lugar — corrigiu, sonhadoramente, a mulher. Foi preparar o almoço.

Falei dos bombardeios, da escassez de mercadorias, do aumento dos preços, do mercado negro, de que o homem descendia do macaco e de que devíamos ser indulgentes com o governo, de que a guerra era um sacrifício comum, dos ganhadores no último domingo e, por fim, da quinta Saint Remi.

— Essa gente de lá sempre deu o que falar — comentou o dono da venda. — Agora, ainda mais.

De um cômodo vizinho ouviu-se a voz da mulher:

— O pessoal fala.

— Não saem nunca nem deixam ninguém entrar lá — explicou o dono da venda.

A mulher respondeu:

— O pessoal do bairro, o verdadeiro pessoal do bairro, não se queixa. São os revoltados dos subúrbios…

— Não sabemos nada do que acontece no outro lado do paredão — comentou o homem, sombriamente. Após uma pausa, continuou: — Faz muito tempo que não sabemos nada.

— Nós não sofremos nenhum prejuízo — disse a mulher.

Pôs na mesa um volumoso prato de repolho e me convidou para sentar. Depois me trouxe um copo de vinho azedo e uma fatia de pão.

Tomei coragem e perguntei:

— Quem está informado sobre o assunto?

— Ninguém — sussurrou a mulher, entrecerrando os olhos.

— O peixeiro — afirmou o homem.

Voltando do seu trajeto, cerca de uma da tarde, o peixeiro passaria pela venda. Era o único fornecedor que abastecia a quinta.

— Ele entra lá todos os dias? — inquiri.

— Nunca — disse, sorrindo, a mulher.

— Eles o recebem no portão — explicou o dono da venda.

Pouco depois da uma e meia o peixeiro apareceu. Vinha em um caminhão puxado por um cavalo.

— Os moradores de Saint Remi são seus fregueses? — perguntei a ele.

— Claro — disse o homem. — Já os atendo há anos.

— Viu o dono ultimamente?

— Todo dia.

— É verdade que nenhum outro fornecedor trabalha com o pessoal da quinta?

— Para que vai trabalhar? Lá só se come peixe. Consomem mais peixe que um exército. Graças a eles comprei primeiro o caminhão, agora o cavalo.

Resolvi entrar em Saint Remi só ao entardecer. Pedi ao dono da venda um quarto para fazer uma sesta. Ele me levou para o andar de cima. O quarto era comprido e estreito, com uma porta em cada extremo.

Acordei com a sensação de que tinha dormido muito tempo. Olhei o relógio. Eram dez para as cinco. Temi ter dormido um dia e uma noite inteiros, e já ser a manhã do dia seguinte. Ainda confuso por causa do sono, fui à porta para chamar o dono da venda. Mas me enganei de porta; abri… Em vez da escada desconjuntada que esperava encontrar, havia um quarto bem arrumado, com retratos, estantes, abajures, cortinados, tapetes. Uma moça estava sentada em frente a uma escrivaninha. Levantou a cabeça e me olhou, com uns olhos doces e honestos. Era Luisa. Pronunciou o meu nome.

— Mas, os seus pais…? — perguntei.

Ela disse que os pais tinham vendido o estabelecimento para uns parentes e ido morar no campo. Ela alugava aquele quarto. Creio que estava tão emocionada e tão feliz quanto eu.

Talvez devido à impressão de estar sonhando, eu me atrevi a dizer que tinha pensado muito nela.

A moça me interrompeu com uma pergunta súbita e ansiosa:

— Não vai entrar na quinta?

Nesse momento ouvimos passos na escada.

— Não quero que nos vejam juntos. Eles não podem saber quem eu sou — murmurei. — Volto entre oito e nove da noite.

Fechei a porta. Pela outra apareceu o dono da venda.

— Com licença — disse. — Preciso falar com o senhor. Sei qual é sua missão. Eu o ajudarei.

— Minha missão?

— Os bombardeios — respondeu. — Arrasaram o bairro todo, mas isto aqui é uma ilha.

— Não caem bombas?

— Ultimamente, sim. Algumas. Por obrigação ou por engano, uns aviões que voavam muito alto as jogaram.

— Bem — respondi. — E que informações me dá sobre os moradores da quinta?

— O pessoal vai dizer que o dono da casa mantém a esposa sequestrada. Não acredite nessa história.

— Ela não está sequestrada?

— Os dois estão sequestrados.

— Vamos para baixo — ordenei. — Quem são os sequestradores?

— Desconfio que ninguém sabe. O pessoal dá explicações fantásticas.

— Mas todos moram na quinta?

— Sim. Todos moram na quinta.

O homem disse mais alguma coisa, porém não esclareceu nada. Supus que uma percepção, repentina e secreta, da minha inaptidão para a aventura que me esperava, ou da índole incomunicável ou atroz de suas confidências, o convencera de que era inútil falar comigo. Não insisti muito com minhas perguntas: não convinha demonstrar avidez. Logo depois nos despedimos. Pedi que não comentasse nossa conversa com ninguém.

Saí de lá tentando me manter fora da vista de um possível observador que estivesse nas janelas do andar de cima. Caminhei por uns dez minutos; parei num lugar onde o paredão estava meio desmoronado; certifiquei-me de que ninguém estava me olhando; escalei o paredão e pulei para dentro da quinta.

O estado de abandono em que se achava aquele nobre e bonito jardim me impressionou profundamente. Não quero dizer que assim — insetos e plantas entregues, como em uma selva, à livre luta evolutiva — o jardim parecesse menos nobre ou menos bonito. Um quiosque semidestruído; uma árvore cuja folhagem cinzenta se perdia, no céu de verão, atrás das folhas brilhantes da trepadeira que a sufocava; uma Diana caída; um chafariz seco; um arbusto, encravado em um formigueiro monstruoso, cheio de flores amarelas e perfumadas; bancos que pareciam esperar, nos caminhos solitários, por pessoas de outro tempo; árvores muito altas, com os últimos galhos sem folhas; vibráteis muros de sebes cinzentas, de sebes verdes e de sebes azuis… Agora, depois do que vim a saber, vejo nessa combinação de abundância e decrepitude, nessa beleza imensamente triste, um símbolo do transitório reino dos homens.

Olhei o relógio. Restavam-me três horas de luz para investigar. Depois veria Luisa. Sabia onde encontrá-la. Minha impaciência — pensei — era injustificável.

De onde eu estava não se via a casa. Avancei cautelosamente, escondendo-me atrás das árvores. Exceto por um zumbido contínuo de abelhas e, de vez em quando, uma lufada de vento que estremecia as folhas, o silêncio era quase perfeito. Dei alguns passos e me escondi junto a um busto de Fedro. Tive a impressão de estar sendo observado. Olhei em volta. Não havia ninguém. Quis começar a correr. Não consegui. Eu tinha a sensação de estar me movendo, de estar me ocultando, diante de uns olhos invisíveis; estava aterrorizado, mas tinha certeza — e isso vai parecer um indício do meu desequilíbrio — de que nesses olhos secretos não havia hostilidade.

(Entendo que este relato é confuso. Escrevo automaticamente; quem escreve, através de meu cansaço e de minhas dores, é o hábito da composição literária. Dizem que quando nos afogamos lembramos de toda a nossa vida. Mas uma coisa é lembrar; outra, escrever.)

Então me joguei no chão. Começava, bem perto, um bombardeio. Sei que em determinado momento pensei que devia aproveitar o bombardeio para entrar na casa. Sei que em outro momento voavam, bem alto, uns aviões verdes, e que em outro ainda eu estava espiando entre a folhagem de uma árvore e divisava, no fundo de uma avenida, a casa, interminável de alas e pavilhões. Não sei quanto tempo transcorreu. Agora imagino essa visão, mais escura do que deve ter sido, quase noturna, e penso no edifício como um extenso animal antediluviano, deitado entre as árvores. Protegendo-me, arrastando-me, correndo quando não conseguia controlar os nervos, cheguei ao pátio externo. Entrei no que havia sido, no meu tempo, a sala de jantar das crianças. Tudo estava como antes, só que coberto de poeira e teias de aranha. Empurrei a janela; entrei. Nas paredes estavam pendurados os mesmos quadros com manadas de cavalos selvagens. Acalmei-me um pouco. Continuei avançando pelos corredores; atravessei o pavilhão dos quartos de hóspedes; já ia entrar na sala de bilhar… Estava cheia de pequenos montes de terra, como se fossem ninhos de vespa, e uma infinidade de formigas negras a percorria. Nas paredes e nos móveis do salão de baile havia umas lagartas brancas, parecidas com bichos-da-seda, mas muito maiores; tinham uma pelagem branca e rosto quase humano, e me contemplavam em atenta imobilidade, com seus olhos redondos e esverdeados. Fugi escada acima. Já era de noite; o luar entrava pelos buracos do telhado; e pelos buracos do piso vi os móveis escuros, forrados de damasco amarelo, da sala de música; vi que faltavam as paredes que antes separavam esse cômodo da sala de jantar, do salão de baile e da saleta vermelha; vi, onde devia estar a saleta vermelha, uma espécie de pântano, ou lago, com juncos, e umas formas viscosas nadando na água escura; vi, ou julguei ver, na margem lamacenta, uma sereia.

Soaram passos muito perto dali. Desci a escada, fui ao jardim de inverno, escudei-me atrás de um vaso de porcelana azul. Alguém andava pesadamente na sala de música. Se me arrastasse até a porta, poderia espiar. Ouviu-se um chapinhar, um som como de águas agitadas, e depois um longo silêncio; os passos voltaram. Olhei cautelosamente. A princípio não vi nada de estranho: meus olhos, deslizando pelos móveis forrados de damasco amarelo, pela imitação da Enriqueta de Netscher, pela tapeçaria com os dois Erídanos, pelo harmônio, pela estátua de Mercúrio com as pedras de bronze, chegaram ao pântano dos juncos. Lá descobri uma foca (certamente a sereia de pouco antes); depois, um grupo de focas comendo peixe. À minha esquerda voltaram a soar passos. Uma mulher maltrapilha avançava — Helena, envelhecida, suja —, levando nas costas uma rede com peixes.

Deixou a carga no chão. Olhamos nos olhos um do outro. Depois eu disse:

— Vamos fugir.

Pronunciei essas palavras por lealdade a sentimentos anteriores, a sentimentos da vida inteira. Pensei com rancor: “Deve essa ao Marcos” — e não devo, como teria pensado antes. — “Marcos a arrastou para esta ignomínia.”

Uma porta se abriu. Entrou Marcos, vestido com farrapos, tão sujo e tão envelhecido quanto Helena. Com a mais pura misericórdia estendi as duas mãos em sua direção. Em contrapartida, a ruidosa alegria e a expressão de alívio e de interesse com que me cumprimentou tinham (agora, pelo menos, acredito) um sentido oculto. Trocou olhares de compreensão com Helena.

— O que está acontecendo? — perguntei.

— Nada — respondeu Marcos.

— Estávamos esperando por você — explicou Helena. — Sempre estivemos.

— Vim buscá-los — declarei.

Marcos se dirigiu a Helena:

— Você tem de levar o peixe.

— Precisamos fugir — falei.

Como se não tivesse me ouvido, Marcos pôs a carga nos ombros dela. Helena se afastou.

— Aonde ela vai? — perguntei.

— Levar peixe para as focas.

— Por que você lhe impõe esses trabalhos?

— Não lhe imponho nada — replicou vagamente.

Olhei o relógio. Tive a impressão de que nesse instante ele havia parado. “Já devem ser quase nove da noite”, pensei. “É hora de ir embora. Luisa está me esperando.” De repente me vi pensando a frase “Preciso ir porque Luisa está me esperando” em termos algébricos. Percebi jubilosamente que dominava a lógica simbólica. Quis continuar as operações mentais. E me vi outra vez em minha pobreza habitual, sentindo, como acontece depois de um sonho, que com um esforço veemente da memória poderia recuperar os tesouros perdidos. Estava sozinho.

Senti um íntimo peso nos braços e nas pernas. Avancei às apalpadelas, como se não enxergasse. Minhas mãos tremiam. Cheguei a uma galeria de mosaicos, com claraboias no teto e quadros da escola flamenga nas paredes. No fundo da galeria, sob o resplendor da lua, estava Marcos. Chamei-o. Perguntei aonde ia.

— Levar outra redada de peixes — respondeu.

— Vocês viraram empregados das focas — observei.

Ele me olhou sorrindo. Depois respondeu:

— Não pedimos nada melhor.

— Para você, talvez. Mas não pode obrigar Helena… — Depois prossegui, implorando: — Vamos fugir.

— Não — respondeu lentamente. — Não. Você também vai ficar.

Nesse momento, anunciando a proximidade de aviões inimigos, os alarmes ulularam três vezes. Injustificavelmente, eu me senti reconfortado.

— Vão me sequestrar? — perguntei.

— Você mesmo vai querer ficar. Estamos interessados no que já conseguimos e no que as focas vão conseguir agora. Você também vai se interessar. Lembra nosso entusiasmo quando descobri Darwin? A infinidade de livros sobre a evolução que li em poucos dias? Rapidamente concebi essa esperança: a evolução imposta a uma espécie através de milênios, pela cega ação da natureza, poderia ser obtida em poucos anos por meio de uma ação deliberada. O homem é um resultado provisório num caminho evolutivo. Há outros caminhos: os de outros mamíferos, o dos pássaros, o dos peixes, o dos anfíbios, o dos insetos… Nas formigas venci o instinto gregário; elas agora fazem formigueiros individuais. Mas nossa obra-prima são as focas. Torturamos animais jovens — para determinar o que se podia esperar de uma atenção sempre alerta —, trabalhamos sobre células e embriões, comparamos os cromossomos dos fósseis congelados da Sibéria. Mas não era suficiente atuar sobre indivíduos; tínhamos de estabelecer hábitos genéticos.

Perguntei ironicamente:

— Pelo menos ensinou suas focas a falar?

— Elas não precisam falar. Já se comunicam com o pensamento. E me censuram por não ter transformado suas barbatanas em mãos. Mas são infinitamente benévolas e não têm nenhum rancor de mim. Estão interessadas nas possibilidades evolutivas do homem; não quiseram nos obrigar a fazer nada, porque um de nós teria de atuar sobre o outro, e sabem que nos amamos. Mas repetiam: “Esperem até que venha alguém de fora”.

“E agora cheguei eu”, pensei com inquietação. Em seguida me vi pensando que as focas, ajudadas por Marcos e Helena, haviam chegado a uma extrema evolução nas lagartas brancas do salão de baile. As lagartas eram animais quase irreais, desprovidos das defesas indispensáveis para levar uma vida ativa. Agora estavam em um mundo como o que idealismo supõe; tinham uma grande capacidade de projetar ideias nítidas e minuciosas, e, entre elas, viviam.

Começaram a cair bombas, bem perto. Marcos correu para a sala de música.

Ouviu-se um estrondo. Senti uma dor aguda nas costas. Tossi, meio sufocado. Eu estava estendido no chão. Soluçava. Um pó — talvez cal do reboco — pairava no ar.

Fora do alcance da minha vista, algo que parecia ter vida própria continuava caindo.

Marcos apareceu. Disse:

— Vou lhe dar uma injeção.

Eu não tinha como resistir. Minhas pernas estavam paralisadas. A dor era intolerável.

Voltaram a cair bombas. Pensei que a casa inteira estava desabando. Senti cheiro de lama, cheiro de peixe.

Pensei: “Esses aviões voam alto demais para que as focas possam afastá-los daqui”.

Olhei em volta. Marcos não estava. Talvez todos tivessem morrido na casa. Quis me lembrar de Helena. Imaginei Luisa perguntando-me se eu ia entrar na quinta, Luisa dizendo-me que alugava aquele quarto, Luisa sorrindo tristemente quando saí.

O efeito da injeção foi quase imediato. A dor havia cessado. Tive medo de estar perdendo sangue. Com dificuldade, olhei meu corpo e me apalpei. Não havia sangue.

Pensei: “Esta noite não tenho tempo de ver Luisa”.

Depois me ocorreu que talvez nunca mais voltasse a vê-la, ou que seria um inválido para o resto da vida.

Fiquei deitado por algum tempo, perplexo, ocupado em regularizar a respiração, em me resignar, em fortalecer a alma. Lembrei que tinha no bolso a lapiseira que ganhara de Luisa e a minha caderneta de anotações. Enquanto durasse o efeito da anestesia, eu redigiria este relatório.

E o escrevi com uma rapidez extraordinária, como se uma vontade superior me impulsionasse e me ajudasse.

Começou novamente o bombardeio. Não tenho mais forças… De repente me senti muito sozinho.