Obras Completas de Adolfo Bioy Casares: Volume I

Adolfo Bioy Casares · Capítulo 13 de 27

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Obras Completas de Adolfo Bioy Casares: Volume I

orfeu

 

Com o coração dilacerado, Orfeu viu Eurídice desaparecer no abismo. Entretanto (conta Virgílio), ele percebeu a terrível importância desse momento e quis dizer muitas coisas: multa volentem dicere. Outros autores recordam as palavras que teria pronunciado o herói; seriam estas: “Desde o instante em que deixamos de ver uma pessoa, ela entra no passado. Todo passado está igualmente longe. Se eu espiasse seus profundos corredores, antes de encontrar Eurídice, contemplaria talvez o rapsodo Anfião, que conseguiu verdadeiros prodígios com a lira, ou surpreenderia Mercúrio no processo de inventar a música, ou me deslumbraria com o sol da primeira manhã”. Porque seu amor era muito grande, Orfeu não esmoreceu, e os deuses, que premiam a perseverança, deixaram-no chegar até as portas do passado. Para cruzá-la devia-se adivinhar uma fórmula. O herói exclamou: “Todo passado está igualmente perto”. (Varões antigos lhe disseram que as coisas, como o deus Jano, têm duas faces e que o último termo é, em certo sentido, o primeiro). Empurrou a pesada porta. Abriu. Esperando-o estava Eurídice.