Obras Completas de Adolfo Bioy Casares: Volume I
apêndices
Os namorados em cartões-postais[72]
Amavam-se em cartões-postais, mas ela não sabia.
Seu pai era fabricante de cartões-postais e adivinhou seu destino de estrela, mas, zeloso de sua virtude, sempre a fotografava de mãos dadas com ninguém e depois a unia mediante secretas sobreposições a um jovem declarado ao vazio.
Uma amiga lhe disse que a vira retratada com um homem em poses indecentes, e na noite seguinte ela desceu aos depósitos e começou a se procurar entre maços de cartões embrulhados em páginas de livros sempre inacabadas e repetidas para infernal castigo dos autores, e uma hora lá estava ela ausente, com a mesma bata de gaze verde sobre uma escadaria em um lago, sorrindo ao luar para um rapaz de pálpebras baixas aureoladas pelo lema
Penso em ti
ou com o lenço azul-claro de gaze contra um fundo castanho onde beijava o mesmo rapaz e brilhava a palavra
Eternamente
Temera encontrar o abraço alcoólico e hirsuto de um homem e agora estremecia na esperança de achar um modo de anunciar-lhe seu amor.
Rebelou-se; iniciou uma contínua mudança de poses cada vez mais forçadas; mas ignorava se o rapaz atribuía algum significado àquelas mudanças ou se nem sequer as notava: as remessas de postais o mostravam neutralizando-as. Mas depois os dois começaram a aparecer em poses inconciliáveis e distanciados por um vazio rígido que agrada às pessoas que não compram cartões-postais. A alegria não foi duradoura: a pose mais carregada de reconhecimento amoroso foi colhida por um brusco bigodudo afeminado. Voltou a se deixar dirigir pelo pai, mas resolveu publicar um anúncio na seção “procura-se” e percorrer os estúdios, porque um namorado de cartão-postal fica impotente para outros ofícios, mas dali a poucos anos os postais voltaram a mostrá-la abraçada a seu namorado. Não cometeram mais imprudências: contentaram-se com o permanente namoro em imagens em que ela teve de novo a iniciativa nas poses.
Como perdi a visão[73]
Pouco depois do armistício de 1918, fui nomeado cônsul em Havana.
Passei os primeiros dias em um hotel. O piso de meu quarto era de lajotas vermelhas, as janelas não tinham vidros: detalhes que não me espantaram por serem, talvez, os únicos que eu retinha de minha outra estadia lá, doze anos antes, com meus pais. Olhando agora para aquela semana que inaugurou minha segunda estadia tenho a impressão de que transcorreu na recordação da anterior, com cadeiras de balanço de palhinha nas calçadas, movendo-se como pêndulos de esquecer o tempo, casas coloridas e casas de madeira colorida, rodeadas por beirais floridos e pequenas colunas de madeira dos bairros dos negros, e muito lindas moças morenas que nos sonhos me ofereciam a cabeça para que eu tirasse dentre seus cachinhos brilhantes as cerejas de que tanto gosto.
Um grupo de velhos amigos cubanos, que eu via pela primeira vez, mas que tinham recebido meus livros e me mandado os deles, contribuiu com sua companhia por demais contínua e estrondosa para que eu não conseguisse tomar pé, para que as coisas penetrassem na tonalidade vaga da recordação de um sonho, em que tudo se passa sem tocar fundo.
Assim chegamos à noite em que me ofereceram um jantar no cabaré de uma feira de negros, com multidão de barraquinhas de madeira, repetidíssimas ofertas de mercadorias e uma gritaria concentrada no cabaré de madeira transpassada de luz e nas rumbas que os negros e as negras dançavam.
Foi bastante gente. Elvira Montes estava lá. Tinham me falado dela, de sua literatura, seus desenhos, seu canto e seus amores brevíssimos. Com cegueira de recém-nascido nasço a todo instante, mas dessa vez pressenti que, se minha personalidade e seus atributos não se intrometessem — apesar dos anéis de Saturno de todos aqueles méritos que poderiam me afastar dela —, Elvira já estava comigo no futuro.
Fomos apresentados. Em seguida, dei meia-volta e mergulhei em conversas com aqueles que tinham me levado lá. Lembro que minha companheira de mesa foi uma moça de sobrenome Burgos, talvez Irene, que só agora saiu do esquecimento. Ficamos de pernas entrelaçadas durante o jantar. À medida que minha perna ia adormecendo, eu tinha mais vontade de me livrar de minha companheira, que não me deixava participar de nada, nem olhar para Elvira, que me retinha em uma exigente cumplicidade de malícias.
Elvira cantou admiravelmente. Mas entre uma canção e outra falava demais, fazia-se de rogada e protestava modéstia em um tom impressionantemente contraditório às suas palavras. Aquilo me dava vergonha, impaciência furiosa.
Minha companheira me imitava nas manifestações de irritação, e isso a tornava cada vez mais insuportável.
Elvira veio falar comigo. A cada frase que ela dizia jorrava um “colega” como um triunfal repuxo de seu pedantismo. Comecei a sentir uma ternura com carícias como mãos por segurar sua cabeça contra meu peito e lhe dizer coitadinha, descansa, descansa, coitadinha.
De repente se transfigurou, ficou lívida, afundada em volta de seus olhos enormes de lágrimas. Ia lhe oferecer um copo de água, perguntar-lhe se não estava se sentindo bem. Minha companheira a perturbou insistindo para que tomasse um gole de vinho, dizendo que antes ela era muito perseguida por essas ondas de vertigem. Ouvindo-a, senti que tinha feito bem em me calar, eu a vi inoportuna. Fingi distrair-me e logo me distraí. Depois Elvira já não estava. Disseram-me: Foi embora chorando. Tenho uma raiva danada das pessoas histéricas, então a tirei de onde ela havia entrado e sem hesitações a senti fora.
Por esses dias me mudei para uma casa térrea com terraço e profusão de coluninhas gordas, de alvenaria, e com um jardim habitado por flores de um vermelho escuro que me parecia velho. Arrumei os papéis e se passaram as únicas horas de trabalho no consulado. Elvira telefonou, várias vezes. O criado dizia: Não está, ou eu me escudava em inúmeros resfriados; mentia como se não mentisse, porque naquele tempo pegava dois resfriados por mês.
No final da tarde saía para caminhar. Tinha pensado que meus passeios tranquilos me mostrariam Havana. Mas no primeiro dia andei por uma esplanada que margeia o mar. Depois foi impossível sair das vias que esse passeio me impôs e o repeti diariamente.
Uma vez me encontrei com Elvira. Caminhamos juntos. Depois de um tempo, ela me segurou pelo braço. É estranho, mas ao recordar essa tarde sinto que íamos abraçados. Eu tinha vontade de beijá-la. Não lhe dizia isso por medo de romper aquela comunhão pela qual acabávamos de nascer para um mundo onde éramos irmãos e porque as comunhões estão envoltas em estrelas como ampolas do vidro volúvel dos reflexos na água e todos os movimentos não podem abri-las, mas um movimento as abre. Elvira me anunciou de repente: Não seremos amigos; parece que não podemos conversar. Senti uma alegria que me fez saber que devia agradecer-lhe; apertei seu braço e a aproximei de mim.
Esses pormenores são um pouco ridículos, mas, ao recordar o episódio, não posso esquecê-los; é claro que eu tinha beijado outras mulheres, mas minha tradição e as presunções que tenho de mim, apesar do que disse que pressentia para o futuro, não me permitiam receber sem extraordinário espanto aquelas provas de afeto de uma pessoa sentida tão fora do alcance, tão inesperada predileção de Deus.
Essa noite subia dando voltas, dando gritos a uma alegria que não se podia conter. Porém mais tarde estive em meio a uma crescente aglomeração de ansiedade por falar com Elvira. Quando nos separarmos, percebi que não combinávamos nada para voltarmos a nos ver. Mas pensei que fazer preparativos para depois negaria a eternidade ao momento, mais do que a própria separação. Mas à medida que a alegria se apagava e que me penetrava a volta a mim, aumentava uma insuportável vontade de abrir os canais que podiam me dar um novo banho do milagre do dia. Uma discrição de poucas semanas de idade ia me contendo. Avancei indecisamente pela noite, pela espera que Elvira me telefonasse. Liguei. Atendeu uma voz que formava palavras no topo do incisivo guincho de um rato e que aí se estilhaçava em uma desagradável masculinidade; surgiu a voz de Elvira, houve um estrondo e caiu a ligação. Enquanto eu esperava a campainha anunciadora de explicações o sono chegou subindo pelas mantas.
No dia seguinte, inibido como em um frasco de álcool, escalei até as três da tarde, até a chamada de Elvira.
Ela ia chegar às quatro e eram cinco e eu estava espremido contra o vidro da minha janela, com um livrinho preto na mão, que tinha encontrado em algum móvel da casa nova, querendo que seus hinos fossem escadas para obter de Deus a vinda de Elvira.
Não lhe perguntei o que havia acontecido na outra noite. Primeiro tive a grande tentação que inquieta os alfinetes perto do ímã. Depois o efêmero alívio que eu teria sentido fazendo a pergunta foi compensado por uma alegria alimentada por me ver cruzar aquela região e por suposições da surpresa que, em Elvira Montes, iria sucedendo à expectativa. Então minha imaginação foi ocupada pela ideia de que estava apresentando Elvira a muitas coisas que vinham de minha infância e minha casa natal por um único lado da vida, que a partir desse momento me acompanhariam com uma mudança de luz definitiva porque teriam sido testemunhas da realidade do incrível milagre. Depois me retirei de toda parte e um abandono que aos poucos me apagava passos aperfeiçoou meu isolamento em um pairar no encanto de Elvira. Mas ela rompeu esse invólucro e me fez andar pelo doloroso ambiente exterior. Falou-me do horror de sentir-se esquartejada entre dois carinhos e de temer a perda do meu, inevitável no dia em que eu conhecesse sua vida que não podia me esconder. Atinei a pedir-lhe que não me contasse nada e, quando ela se foi, pude reparar o invólucro e dormir dentro dele.
Tínhamos ficado de nos ver no dia seguinte, às cinco. Às cinco comecei uma espera de uma hora depois da qual vivi três ou quatro voando como um corpúsculo em um raio de felicidade. Mas na hora de nos separarmos, Elvira desatou a chorar. Não lembro o que eu tinha que fazer depois do nosso encontro, mas lembro que seu choro me afogou em impaciência e, enquanto a acariciava com ternura estendida às palavras, dizia-lhe em silêncio palavrões que a confusão me fazia repetir. Porém mais tarde a ternura que havia fingido se espalhou por mim e minha alma se ateve à imagem de Elvira chorando.
Às vezes me acometiam inquietações. Qual era o segredo dos acessos de choro, da vozinha de rato que atendera o telefone? Qual era o segredo que lhe esquartejava a vida e lhe fazia temer que eu me afastasse no dia em que o conhecesse? A abominável sombra do Outro começou a me visitar.
Além disso, os caminhos de sua casa estavam fechados. Depois daquela catástrofe telefônica, as barreiras tinham crescido sem que falássemos no assunto. Não conseguia entender a causa dessa inacessibilidade. Se com ela morasse alguém de fora, eu teria sabido. Morava sua mãe, mas passeando pelos corredores estreitos do andar de serviço, de camisola, com amplo chapéu de palha e sombrinha, completamente louca. Pensei que não me levava lá por respeito à mãe, mas estranhava que Elvira pudesse considerar minha presença como uma falta de respeito: nosso carinho já absorvera todas as formas de carinho, era santo. Posteriormente por desgraça me lembrei de Madame de Warrens, amante da criadagem.
Talvez devido à falta de palavras (não falava disso com Elvira nem com ninguém), minha cisma não era contínua, esquecia as conclusões e não me obcecava; além disso a presença de Elvira a dissipava imediatamente, e quando estávamos juntos a felicidade não tinha falhas, era a mais absoluta que já vivi.
Verdade que não foi assim no dia em que pensei surpreendê-la falando sozinha no Kiek in die Welt…
O Kiek in die Welt é um bar alemão carregado de artesoados, ferros forjados e frisos de carvalho. Cheguei lá às sete da noite, com certo atraso, e, no entanto, fiquei surpreso ao me deparar com Elvira. Quase me comovi ao ver que ainda esperava por mim. Fui até ela com desculpas que se espojavam na alegria de vê-la. Estava em uma mesa dos fundos, de costas para a entrada… Devo ter me aproximado ruidosamente, mas Elvira não me ouviu, não se virou. De repente me detive… Tive a impressão de que ela estava falando sozinha… Falava em tom de súplicas desesperadas, como mãos que se retorcem e com uma exasperação por ter que falar baixo que lhe aumentava a voz. Cheguei a ouvir: … são coisas tão diferentes… por isso que eu não minto ao dizer que só amo você, mais do que nunca… e, por mais que exista outra coisa, ao amar você, é só você que eu amo… Uma alegria cheia de gratidão, uma vontade de me erguer nos braços e me entregar a Elvira para sempre, como se eu valesse alguma coisa, impediu que eu continuasse postergando o instante de me perder no encanto de estar envolto em seu olhar olhando para ela. Gritei: Minha vida! E não lembro se acrescentei: Falando sozinha! Ela me olhou. Tinha uma cara que eu não via desde a infância, nos espelhos, depois de chorar por horas a fio, trancado no banheiro. Tirou um lenço minúsculo, passou-o pelos olhos, assoou-se um pouquinho e o guardou na bolsa, que fechou com gesto de engolir as lágrimas. Depois baixou a vista, fixou-a em um pratinho com azeitonas que havia sobre a mesa. A mãe era louca, eu pensava, uma louca dos infernos, e as esquisitices da filha me pareciam consequências de uma má educação que se devia sufocar com um vazio sem pena. Não converterás, o primeiro mandamento de Lawrence da Arábia, é meu primeiro mandamento. Mas há certas coisas que não posso suportar. Por outro lado, deve ser o que acontece com os grandes pregadores… Mas eu sentia que nosso carinho ainda era um pouco jovem para me autorizar a agir sem riscos. Resignei-me a deixar cair minha alegria tão cheia de impulso generoso.
Com ternura extraordinariamente indene, Elvira me pediu que a desculpasse. Continuou chorando. Eu estava um tanto perplexo, travado como se de repente tivesse sobre os ombros longas varas que se chocassem contra tudo. Tive a ideia de recorrer ao demoníaco poder das mudanças. Convidei-a a dar uma volta de automóvel. Aceitou.
Parecia que Elvira ia enlouquecer, e no entanto não parava de me tratar com amorosa consideração; eu sentia seu carinho como se sente corporalmente o fundo do mar em um navio que vai tocando o fundo, mas, como não conseguira me acostumar à ideia de que alguém me amasse (muito menos a pessoa de quem eu mais gostava), ia tendo uma surpresa maior a cada sinal desse amor e a alegria da confiança que enche bem o vazio da alma, santa e inatingível para os homens. Mas naquele momento tudo isso foi minha perdição e peguei a lhe fazer perguntas. Ela me respondeu: — Por favor, me leve para casa. Envergonhei-me de minha insensibilidade, obedeci. De repente, gritou: Meu Deus, meu Deus, como pode ser tão cruel, e chorou com aquele tranco que raspa contra o fundo do desespero das crianças quando começam a chorar; então me disse: Adeus; disse meu nome no diminutivo e abriu a porta para se jogar. Agarrei-a de um braço, mal consegui segurá-la. Confesso que me veio, rápido como um sorriso de desprezo, o pensamento de que a exclamação e o choro e a despedida haviam sido avisos para que a salvasse da queda. Parei o automóvel; estávamos perto de sua casa; desceu e a vi afastar-se chorando, correndo, abrir o portão, correr pelo jardim, procurar a chave na bolsa e finalmente entrar correndo, deixando a porta entreaberta… Eu estava postado em frente ao portão do jardim, com as pernas afastadas e o coração batendo cada vez mais dentro da inesperada carícia que me fizera meu nome dito no diminutivo…
Não tinha vontade de me atrever a entrar, mas tomei uma decisão investindo-a das palavras: custe o que custar, devo evitar um suicídio.
Pulei o portão e me vi naquele interior desconhecido, povoado de objetos e escuridões, mundo temível. Gritos e gemidos que se espalharam pelo alto me tomaram de pressa e me introduziram em um elevador recoberto de ovelhas, pastores e pastoras e céu de nuvens celestes e um bandolim e que subia com uma lentidão que rodeava com a monstruosa indiferença das coisas minha pressa cheia de tampas loucas de ebulições.
Então a vi no batente de uma porta, fazendo gestos de um pateticismo que eu então imaginava restrito às óperas. Elvira devia estar muito dentro da cena, não me ouviu. Tive uma surpresa: estava sozinha, completamente sozinha, não contando suas muitas imagens em um espelho trifásico.
Sem dúvida eu estava muito confuso: não ouvira ou ouvira sem registrar as palavras daqueles gestos, mas depois, quando Elvira me viu, senti o silêncio e a quietude.
Mas nessa hora fui despertado por um movimento ocorrido na borda do meu olhar, como de uma lagartixa que se tivesse enfiado por baixo da almofada sobre a cama. Eu me arremessei por entre detenções que Elvira tentava me impor de longe, joguei a almofada pelos ares e uma nova paralisia nos transpassou, a Elvira, a mim… e a um homenzinho muito preto, curtido e enrugado, de uns dez centímetros, que estava de pé sobre os lençóis. Gritou como um rato: Eu me mato, eu me mato, e se atirou da cama com gesto de se atirar de um terraço; não sei como fiz, mas o aparei; em seguida senti a satisfação de ter feito algo importante; mas isso se cortou, uma mordida velozmente cortou o que eu estava pensando; com uma sacudida que parecia querer soltar os dedos, soltei o homenzinho; por sorte para ele, caiu sobre a cama; deitou-se de bruços e começou a chorar com gemidos diminutos, estranhos, pastores de arcadas. Eu lhe disse várias vezes que se virasse, que não chorasse.
Olhei para Elvira; estava santificada por olhos enormes de dor. Então nos metemos pela noite caminhando silenciosamente pelo quarto ao redor da imensa cama onde estava o homenzinho.
Horas depois ele me chamou e me estendeu os braços. Entendi que devia lhe dar um dedo como quem dá a mão, senti aquele gesto como algo estabelecido e natural. Ficou por um tempo longo demais segurando meu dedo e depois me disse as palavras que eu menos esperava: Está perdoado. Virou-se e logo pareceu adormecer congestionadamente.
Elvira me suplicou: Não vá embora esta noite. Sentei em um divã amarelo, na sala, e ela se retirou por um momento que durou a noite toda, portanto dormi no divã amarelo.
Não perguntei nada, nem sequer a mim mesmo, para não ter respostas que pudessem desviar minha penetração naquele acúmulo de novidades, e no dia seguinte me falaram em uma linguagem estendida sobre subentendidos que me fez compreender tudo imediatamente, mas que, por me transmitir a confiança de que não havia mais nada a esconder de mim, não me permitia ter uma única surpresa.
Para não deixar um ponto em que eles pudessem sentir a alteração do ambiente e em seguida suspeitas que me assustariam como a aparição do diabo em um teatrinho de fantoches, procurei pôr minha alma no mesmo mundo, exatamente o mesmo mundo em que a deles estava, a fim de despojá-la de tudo o que lhes fosse estranho e assimilar tudo o que lhe faltava para que a sentissem irmã. Para conseguir isso, despertei minha prudência: falava pouco, ouvia muito, silenciava minhas opiniões (fui não tendo opiniões), tive uma insondável tolerância com Elvira e Atanapa (era assim que o homenzinho se chamava), que aumentava a preferência de Elvira por mim, irritava Atanapa e o amigava comigo (foi ele quem pediu que eu me instalasse na casa de Elvira), deixava-me gostar dela sem crueldade, sem recriminações, sem ciúmes, fazia-me acreditar que eu gostava do homenzinho, que os costumes de sua alma eram respeitáveis, e, finalmente, usei de uma tolerância que por seus frutos não me deixava sair daquela passividade fecunda mas da qual desejava sair como de uma postura, uma perna muito tempo parada.
Essa postura me fazia ouvir com o coração apertado as banalidades que Atanapa gemia por sua desgraça de ser tão minúsculo, viver sobressaltado entre suas ameaças de suicídio e aceitar uma infinidade de sofismas pelos quais as premeditadas ruindades que o tempo todo fazia a Elvira e a mim deviam aumentar nosso carinho por ele (que nos quisesse mal devia obrigar-nos a querê-lo melhor e a nos entregarmos mais porque ele gostava de nós e, com a desgraça de aprontar alguma, sua ostensiva maldade e todos seus defeitos eram calamidades piores para ele do que para qualquer outra pessoa e culpá-lo seria uma baixeza).
Elvira acreditava em tudo isso porque preferia morrer a deixar de amar a quem ela entregara seu carinho; porque seu carinho era independente do que fizesse a pessoa que ela amava e porque sua ternura era insondável.
Ignoro se como um idiota ou se no único acerto da vida contribuí para justificar aquele amor tão errado e tão sublime.
Mas ao reler o que escrevi até agora vejo que acabo agindo imantado por motivos. Isso é falso. Posso jurar que entre mim e os motivos do que faço sempre há muita névoa.
É verdade que minha postura aumentava incessantemente o amor de Elvira por mim, e que isso me importava; mas também justificava seu carinho por Atanapa, e isso era contrário à minha felicidade, feito com a de Elvira.
O segredo da existência de Atanapa mantinha fechadas as portas da casa de Elvira e invariável e mínima a criadagem. Um velho chacareiro era porteiro, péssimo empregado, e sua mulher, a cozinheira, péssima empregada. Eles, Elvira, eu e a mãe de Elvira, a quem Atanapa enlouquecera fazia uns bons anos, éramos os únicos conhecedores de sua existência. Sua identidade permanecia oculta para todos, com exceção, talvez, de Elvira ou talvez só dele mesmo. Havia uma lenda que é negar ou acreditar: Deus estava ocupado na Criação e de repente ouviu uma voz em seu nariz, que lhe gritava lentamente: A-ta-na-pa! Sim, Atanapa era o primeiro homem que Deus havia feito quando ainda não tinha uma ideia muito clara do que seriam os homens. Construído com bons materiais, estava quase fixado na imortalidade e, já há muitos séculos, ia contraindo-se com uma moderação incomparável em toda a natureza. Havia perdido grande parte de sua memória, só se lembrava do acontecido em seus primeiros anos e nos últimos. Uma tarde, o Senhor lhe trouxe Eva. Atanapa continuou cultivando inundações e desbarrancando pedras sobre o Paraíso Terrestre. Deus percebeu que Atanapa não prestava e fez Adão, para que ficasse ao lado de Eva; depois foi dar uma volta; mas Eva não perdeu a solidão, e o Senhor, ao regressar, perguntou-lhe por que Adão não estava com ela. Eva retrucou: Os dois sempre estão juntos. Deus pôs Atanapa no meio de um areal, e a cada passo que ele dava, enchia suas botas de areia. Foi assim a criação dos desertos. Mas Atanapa, depois de muitos séculos, chegou às margens da Terra. Foi como um incêndio portador de calamidades aos rebanhos e às igrejas como navios carregados de fiéis. Foi perseguido. Desde então, viveu escondido, vigiando os homens. Nos momentos mais sossegados se lembram dele e estremecem. Por quê? Sempre atrás das costas indefesas, o olho de Atanapa sempre alerta, o ouvido de Atanapa sempre alerta, o rancor de Atanapa sempre alerta, para cair como um abismo. Fora perdendo tudo menos a memória de sua ofensa, a astúcia para vingá-la. Mas eis que então apareceu Elvira, e Atanapa esqueceu também estas últimas coisas.
Elvira gostava dele porque o encontrara no sótão de seu antigo casarão, quando era menina, e Atanapa havia sido seu brinquedo secreto e seu amor inocente quando tinha oito anos e todas as tardes ficava sentada sozinha em um banco do jardim, chorando atormentada por poder chegar, um dia, a perder a mãe e a infância.
O homenzinho tinha terríveis amores com a mãe de Elvira e amores intermitentes com a criadagem e às vezes também me assediara. Cada fracasso comigo aumentava seu ódio. Eu teria feito qualquer coisa para evitar isso. Naquele tempo, tudo o que acontecia me abalava muito e não poderíamos ter feito nada de muito tremendo. Mas eu sabia que Elvira esperava de mim uma completa prescindência sentimental do resto do mundo.
Lembro dos passeios que fazíamos os três juntos e das horas que passávamos em um escritório de Elvira, no último andar. A esperança de alcançar a felicidade de estar em paz com ele e comigo expandia o estado de graça no semblante de Elvira. Santa venerada por seitas inimigas, você repartia seus dons com estrita justiça e nos mimava com voz de criança aprendendo a falar. Mas enquanto isso Atanapa fazia as contas e sempre encontrava um beijo ou uma carícia em seu prejuízo, o que justificava uma cena levada a um extremo sempre inesperado de dramatismo para vencer a ridicularia que, do contrário, as repetições teriam revelado. E Atanapa nos impunha essas reuniões: dizia que a discórdia se alimentava nos esconderijos do nosso trato e nos exortava a prolongar em sua presença o abandono de quando ele não estava. Em uma mudança tão lenta que foi invisível, cheguei a me dar conta de que o motivo desses conjuros estava na sua impossibilidade de suportar que uma parte da vida de Elvira andasse na prescindência dele. Lutava sem descanso. Confidenciava-se com um e com outro e com mentiras, tentando extrair informações. Quando precisava que eu lhe fizesse uma concessão, entregava-me os segredos mais íntimos, dizia-me: Agora ela só ama você, tentava promover ora uma generosidade recíproca, ora a sensação de que a pessoa era o único socorro para um moribundo que, portanto, esperava tudo dela.
Não acredito que a maior ou menor expressão de um sentimento indique seu tamanho, mas sim que o sentimento maior há de ser o seguinte do maior que se possa afogar na ilha da alma.
Por isso eu respeitava Atanapa. Chegara a acreditar no inacreditável, que Atanapa amava Elvira mais do que eu. Mas embora seja inegável que se deve prescindir da enganosa escritura da conduta, às vezes isso é difícil: eu não sabia o que fazer com as subidas de Atanapa ao andar dos empregados, depois de ter estragado para sempre um momento da vida de Elvira.
Depois, e sem a violência das resoluções, estacionei na convicção de que o amor de Elvira e Atanapa devia acabar. Fui destruindo os sofismas de Elvira, desiludindo-a. Tive de agir muito prudentemente porque minha benevolência continuou se impondo e a maldade de Atanapa continuou assolando o amor de Elvira. Às vezes sentia remorso de ajudar na perda daquele amor absurdo, tão sublime amor. Mas logo sentia que estava diante das duas insondáveis possibilidades de Elvira: sua alegria e os domínios de Atanapa, tristezas complicadas em longas perspectivas de entrecruzamentos que determinavam escuras e duras lacunas, exasperações e o rancor.
Finalmente eu me pus a exigir de Elvira sua ruptura com Atanapa. Avançava devagar, entre imponentes inibições: — Seria cortar uma das últimas amarras com que retenho a infância e a época em que eu vivia ausente no milagre da companhia de minha mãe.
Eu dormia com Elvira. Seu corpo punha minhas noites em uma felicidade de outro lugar.
Nesses dias, Atanapa se dedicava a um estranho trabalho: fazer uma espécie de tridente de duas pontas, com um sinete e duas agulhas de tapeceiro.
Uma noite, duas fisgadas nos olhos me cortaram o sono e as vigílias; acho que vi o brilho de um líquido preto que saía copiosamente dos meus olhos; depois senti as córneas como duas natas enrugadas.
Os médicos disseram que não recuperararia a visão. Decidimos, Elvira e eu, embarcar para cá: ela queria se afastar definitivamente de Atanapa, minha estadia em Cuba não tinha mais objetivo, já que eu não podia continuar nas funções de cônsul. Elvira decidiu que sua mãe ficaria com duas tias solteiras e bondosas.
Não quero calar minha gratidão a Elvira por seus cuidados enquanto durou minha doença e convalescência; talvez devesse até agradecer a Atanapa por ter sido tão perverso, por ter-me permitido desfrutar desse bálsamo de ternura; suavidade de ternura que as crianças recebem do cuidado da mãe: Elvira, minha namorada, mulher, amiga, mãe, irmã.
Chegou a data de nossa partida. Posso assegurar que, desde o dia em que Atanapa me cravou as agulhas, Elvira não voltou a vê-lo.
A gritaria das pessoas e a música de bordo que parecia querer ajudar a empreender uma catástrofe e os gongos e as sirenes teriam me desamparado irremediavelmente, não fosse pela mão de Elvira na minha, constante dotação de ternura.
Chegamos ao camarote. Elvira teve de soltar-se de mim para orientar a acomodação de nossas coisas. Eu a ouvia, mas de repente não a ouvi, esperei e saí da espera gritando: Elvira! Elvira! E estendendo os braços para não tropeçar em tudo. Alguém me deu um empurrão; levantaram-me e muitas vozes carinhosas me cercaram de atenções, mas esse cerco de pessoas gentis sufocou minha procura por Elvira, e meus chamados “Elvira! Elvira!” e meu choro foram se calando em meio ao obstinado chiado das ondas.
Resumo do argumento de “Em memória de Paulina”[74]
O narrador foi criado com María Luisa, mas nenhuma familiaridade conseguiu diminuir sua veneração por essa moça maravilhosa (e, no entanto, dona de uma alma afim com a sua). Pensa que ambos têm uma sensibilidade parecida (embora muito mais delicada a dela), que ambos se alegram ou se ofendem com as mesmas coisas e que, de um modo milagroso, mas também muito natural, dedicam-se um ao outro e que inevitavelmente se casarão e viverão juntos.
De repente aparece Drucker, um homem pelo qual o narrador sente, primeiro, indiferença e depois inimizade mortal. Drucker se apaixona por María Luisa e María Luisa por Drucker. Com certa crueldade — imposta pelos ciúmes imperiosos de Drucker — María Luisa rompe com o narrador. Depois, uma tarde, sub-repticiamente, mas com infinita pureza de intenções, visita-o, para pedir que o perdoe e para assegurar-lhe que em seu coração sempre o amará e que de algum modo sempre o amará mais que a qualquer outro; apesar de estar apaixonada por Drucker e não querer dizer nem pensar que em nada o deixa atrás do outro.
Quando sai de casa, o narrador vê, atrás de um vidro, a rosto de Drucker transtornado pelo ódio e a dor. Não torna a ver María Luisa. Viaja para esquecer. Não esquece.
Quando volta, na hora em que María Luisa o visitou, María Luisa também volta. Está ligeiramente mudada, mas o ama. Está feliz. Depois sabe que Drucker matou María Luisa nessa noite.
1 a solução. Paulina morta vem cumprir com o que devia ser seu destino, nosso destino.
2 a solução. Paulina veio, mas não era ela que me amou, e sim um fantasma projetado pela paixão de Javier. Confirmações: no espelho ela estava nítida, eu apagado. Só se viam alguns pontos do cômodo. Havia, na mesa, o cavalinho chinês que dei para Paulina há doze anos; que não está na casa.
Ciúmes: a princípio não sinto. Javier é ciumento. No final — quando lembro frases que Paulina empregou que são de Javier, quando lembro o amor e penso em seus detalhes — sinto ciúmes.
Admiramos uma mulher que parece conosco, e que é perfeita: porque somos como esboços dessa perfeição. Todos somos esboços de alguma perfeição.
Resumo do argumento de “Dos reis futuros”[75]
Carta de X. Era companheiro de estudos de Y. Este é nobre, rico e se interessava por biologia, e tinha uma grande capacidade para conseguir em pouco tempo de concentração o que exigiria de outros estudantes mais do que o dobro do tempo. X estava apaixonado por Z. Z. o deixa para seguir Y. X abandona os estudos e o país — vai para a Argentina criar ovelhas, ou para Java plantar chá —. A guerra é declarada e ele volta para a pátria. Por razões de idade, só consegue ingressar na aviação noturna; seu aeroplano é derrubado. Depois de convalescência, não pode voltar a voar e entra no serviço de contraespionagem. Trabalha nos escritórios. Sabe que alguém será mandado para investigar a propriedade de Y. Depois de dúvidas, consegue que o encarreguem do trabalho.
A propriedade é um casarão suburbano, uma casa enorme e desconjuntada. Sabe, pelas pessoas do bairro, que Y não sai dela há anos. Diz-se que mantém ali, sequestrada, sua mulher (Z?). Outros afirmam que Y e sua mulher estão sequestrados em poder de outras pessoas. O certo é que ninguém sabe de outras pessoas que vivam na chácara além de Y e sua mulher.
X penetra cautelosamente: enormes quartos com montanhas de terra; lagos com juncos e praias barrentas, em cujas águas a luz da lua se reflete pelos buracos do teto. Nos lagos, ou pântanos, nadam formas viscosas. Em outros cômodos, enormes formigueiros que fazem zumbidos de abelhas. Depois descobre que focas nadam nos lagos. Em seguida, Y e Z – envelhecidos, sujos, doentes – são como servos dessas focas. Indigna-se contra Y, porque arrastou Z para essa situação. Mas já não consegue sentir amor por Z. Tampouco consegue sentir ódio por esse Y tão derrotado. Diz a eles para partirem com ele; respondem que não podem. Assegura-lhes que os ajudará a fugir; mudam de assunto; parecem não ter interesse… Insiste. Explicam-lhe: Y, com as formigas, sobretudo com as focas, conseguiu, em poucos anos, a evolução que trariam milênios; o homem é o resultado provisório de um caminho evolutivo; há muitos outros caminhos: o dos pássaros, o dos insetos, o dos animais que vivem na água. E fez as focas chegarem a um grau de evolução muito superior ao dos homens como ele. “Mas elas não falam?”, pergunta X. Y explica: a princípio sentia, de repente, que pensamentos que vinham de fora controlavam sua vontade. Eram as focas. Comunicam-se pelo pensamento. Já aprenderam nosso idioma. Sabem o que falamos e o que pensamos. São infinitamente mais complexas que nós. A crueldade não é possível nelas; são boas e justas… Então, por que vocês não podem vir comigo? Foi a última pergunta que X se atreveu a fazer. Y lhe respondeu: não queremos. Que mais poderia responder? X se pergunta o que o esperará por escrever essa carta — diz que a escreve pelo interesse científico, por respeito à ciência, que é o respeito mais compartilhado entre seres evoluídos, e que não quer fugir.
Essa carta foi encontrada entre os escombros da chácara; como se lembrará, todo esse bairro de ______ foi destruído pela aviação inimiga.
Resumo do argumento de “O outro labirinto”[76]
A história acontece em Praga, no final do século xix. Para os protagonistas, a cidade apresenta o aspecto familiar, quase diríamos alegre, de sempre. No entanto, está ocorrendo uma mudança sinistra. O governo central mandou um novo Chefe de Polícia para a cidade. Os patriotas tchecos são detidos e torturados. A espionagem aumenta.
O narrador — um romancista pobre — comenta a propensão que todos temos de dar importância a tudo o que nos diz respeito: uma ideia, porque é nossa, parece-nos um argumento interessante; um antepassado, porque é nosso, parece-nos uma honra… “Meu amigo X passou sua vida atento à história de uma morte ocorrida há trezentos anos em uma pousada localizada no lugar onde agora fica sua casa; acredita que essa história pobríssima daria um apaixonante romance policial e não entende por que não a aproveito.
“No dia em que pode começar este relato, recebi a visita de X, mais gordo, mais ofegante, mais perdido do que nunca, e mais uma vez me falou da história de sua pousada: um homem, de quem nada se sabia, apareceu morto em um quarto trancado, dessa casa.
“A despeito dessa obsessão, X não é uma pessoa tola. É inteligente; orientado, é capaz de trabalhos intelectuais; e mais: talvez se possa afirmar que tem um poder sobrenatural…
“Fui colega de estudos dele. Os pais de X (pessoas ricas) sempre me protegeram. Intelectualmente, talvez também socialmente (não associar a ideia de classes sociais), eu, em retribuição, protejo X. Este é imensamente gordo; é fraco de caráter; é melancólico (é vividamente consciente de sua gordura e da fraqueza de seu coração, que lhe provocará uma morte não muito distante). Quanto a seu poder sobrenatural, conheci-o anos atrás, quando estudávamos para umas provas. Arrebatado por um problema do qual queria falar, entrei no escritório onde estava X e mal notei seu olhar fixo, a desordem de livros sobre a mesa e uma pedra que eu talvez tenha afastado com a mão. Logo parei de falar. Já não consegui ignorar aquele olhar fixo. Perguntei a X, talvez com certa aspereza, o que ele tinha. Respondeu que ele não tinha nada e em seguida me perguntou se eu não tinha notado a presença de uma pedra sobre a mesa. Procurei-a: já não estava. X me explicou que tinha descoberto nele o poder de projetar suas imagens mentais. Por ora, limitava seus experimentos à projeção de objetos simples — uma pedra, um pedaço de madeira etc. Esperava, no futuro, poder projetar objetos mais complexos. Por enquanto, já havia conseguido uma projeção perfeita do ponto de vista visual e uma projeção tátil imperfeita. Não conseguia projetar temperaturas, cheiros, pesos.
“Algumas pessoas consideram que os trabalhos aos quais X se dedica agora são indignos dele; ou pelo menos, injustificáveis em um homem rico. Consistem em biografias de personagens tchecos ou que viveram na Boêmia durante a primeira metade do século xvii; ele os realiza por encomenda da editora que está preparando a gigantesca Enciclopédia Tcheca. Discordo de que, por ter sido quem o indicou para esse trabalho, eu não esteja em condições para julgá-lo. É evidente que X não precisa do dinheiro que ganha desse modo: por outro lado, seria uma ingratidão minha negar que quase todo esse dinheiro acaba nas arcas do Partido Patriótico. Mas embora esse trabalho não seja tão sublime como aqueles que lhe reserva nosso querido amigo professor Beck, constitui uma excelente disciplina para X e o afasta de muitas preocupações nas quais resvalaria seu caráter frágil e obcecado. Além disso, o próprio X, em nossas frequentes reuniões de amigos, manifesta o interesse com que mergulha nesse trabalho. Diz, por exemplo, que seus séculos prediletos sempre haviam sido o de Péricles, na Grécia; o de Augusto, em Roma; o xviii, na Inglaterra ou na França. Agora a Antiguidade lhe parece fantasiosa; a Idade Média, miserável; o século xviii, grosseiramente moderno. O início do século xvii lhe parece a época natural para a vida de um homem. Quando começa a estudar os dados de uma pessoa para elaborar sua biografia, ele logo olha as datas de nascimento e morte; se compreendem um período longo, pensa: este talvez me convenha. Tem a impressão de que ele pode ter sido uma dessas pessoas.
“Reconheço que o interesse de X no passado é ligeiramente obsessivo. Mas isso não deve ser imputado à natureza das ocupações de X, e sim ao caráter de X.
“Na casa ou no escritório de X, nós, seus amigos, costumamos nos reunir. Além de X e de mim, nunca falta o professor Beck. Os demais são estudantes, literatos ou membros do Partido Patriótico tcheco que, injustificadamente, querem ouvir meus conselhos e, justificadamente, esperam o dinheiro de X.
“O professor Beck é um homem velho, muito doente, com muito pouco futuro. Sempre conheceu uma única paixão: o estudo, a pesquisa histórica. Agora parece ter outra: o futuro de X. Quer que X seja seu discípulo, o continuador de seu trabalho. Beck está ligeiramente desalentado com a contínua guerra política em que vivem seus colegas, os professores da universidade. Essa guerra política, à qual ele jamais condescendeu, começa a ser uma terceira e não menos permanente paixão de sua vida. Às vezes me pergunto se essa nova preocupação de Beck não é indigna dele. Às vezes me pergunto se não encobre uma senil paixão de poder. Logo me arrependo dessas interrogações. A devoção de Beck pelo estudo é um dos melhores exemplos que temos para nossa conduta e é uma das provas mais irrefutáveis de que a vida merece ser vivida.
“O escritório de X onde nós, seus amigos, costumamos nos reunir, está situado no primeiro andar de sua casa e tem uma janela para a rua. Entra-se nele por uma porta situada na parede da direita; na parede da esquerda há outra, que dá para um quarto que está quase permanentemente fechado. Na casa de X, esse quarto é denominado “o museu”, porque ali se guardam incontáveis objetos — antigos órgãos pintados, caixinhas de música com bonecas, teatros em miniaturas, estátuas, antigos aparelhos de óptica — acumulados por um antecessor desequilibrado. X diz que, quando está abstraído em suas biografias, imagina que o mundo de Praga, no início do século xvii, está nesse quarto. Pela janela do escritório vemos um terreno baldio que fica do outro lado da rua.
“Falávamos, como sempre, da situação política. Falávamos, meio de brincadeira, meio a sério, em assassinar o Chefe de Polícia. Eu disse que ele devia ser morto por uma pessoa muito pobre e cansada de trabalhar; porque a pobreza tirava todos os atrativos da vida. X se indignou; replicou que o assassino devia ser uma pessoa frágil; uma pessoa incapaz de agir por si mesma: porque o futuro de uma pessoa assim era, inevitavelmente, horroroso; convinha que esse horror fosse útil. Acrescentou que jamais se devia sacrificar uma pessoa pobre se fosse também inteligente. O professor Beck sustentou que era preciso empregar para esse assassinato uma pessoa que tivesse um futuro muito limitado: um doente que os médicos tivessem desenganado. Isso seria não apenas caridoso, seria também econômico. Uma pessoa que não tem de temer a morte, não tem nada a temer. Podia haver um agente mais eficaz?
“Insensivelmente, algo sinistro tinha invadido a reunião. Para mudar de assunto, descrevi o poder sobrenatural de X. Olhando para o terreno baldio, disse que X poderia projetar uma casa ali. Beck se perguntou se as pessoas do bairro parariam para olhá-la, surpresas, ou se não a olhariam, convencidas de que a casa sempre estivera lá. Um dos estudantes disse que essa casa poderia servir para armarmos uma emboscada contra o Chefe de Polícia e matá-lo com mágica segurança. Fizemos piadas e nos divertimos muito com esse e outros projetos baseados no poder de X de projetar suas imagens mentais. Ninguém teve o mau gosto de pedir-lhe que projetasse, no ato, algum objeto.
“X me visitou. Estava feliz. Encontrara um livro sobre o homem que apareceu morto no quarto fechado da pousada que estava no lugar de sua casa, em 1600 e tantos. Era uma biografia sobre esse homem, um tanto incompleta mas rica em sugestões para X. Estava entusiasmado com alguns paralelismos entre esse personagem e ele mesmo. Esse personagem estava apaixonado por uma mulher chamada Irene; ele acreditara por algum tempo estar apaixonado por Marta Benes; agora percebia que estava apaixonado por sua prima Irene.
“Pedi para ele levar até o Comitê Central de Resistência um dinheiro que eu trouxera; pensava, então, que X não teria problema em levar aquele dinheiro; mesmo que as autoridades descobrissem, não o incomodariam, porque X é uma pessoa rica e a polícia sabe que os ricos não expõem sua fortuna à toa. Se me pegassem, sem dúvida me prenderiam e me torturariam. Por outro lado, a entrega do dinheiro obedecia às ordens do nosso querido professor Beck. Ele me sugere esses atos de um modo vago e não quer saber detalhes sobre como os cumpro.
“Passei uns vinte dias sem ver X; quando o encontrei de novo, estava mais abstraído do que nunca em suas pesquisas, mais obcecado com seu personagem e muito nervoso. Disse-me coisas estranhas, que então me pareceram sintomas de perturbação espiritual. Esclareceu-me que o livro sobre o personagem era um manuscrito que ele tinha descoberto na biblioteca da universidade. Que ele o lia nas horas em que a biblioteca estava aberta e que nunca podia levá-lo para casa. Também me esclareceu o seguinte ponto: todos seus conhecimentos sobre o personagem tinham como única fonte aquele manuscrito. Pois bem, ele pergunta, como se explica que houvesse discrepâncias naqueles conhecimentos? Um dia ele sabia que tal fato era de tal modo; depois, ao ler o livro, via que era de outro modo. Se isso tivesse acontecido só uma vez, ele poderia pensar que os conhecimentos anteriores continham erros ou confusões dele próprio. Mas isso acontecia muitas vezes. Ele sabia de uma coisa, e depois lia outra no livro. Sempre tinha a sensação de que aquilo que constava no livro era falso. No entanto, de onde podia provir aquele seu conhecimento anterior? Do manuscrito, pois era a única fonte de seus conhecimentos sobre o personagem. No entanto, o livro agora dizia outra coisa. Como explicar isso? O manuscrito era velho e estava cheio de rasuras. Novas correções e rasuras, se fossem habilmente feitas, não seriam notadas. Portanto, alguém mexia nesse livro, quando a biblioteca estava fechada, para introduzir aquelas alterações. A única pessoa que podia fazer isso era o diretor da biblioteca, nosso querido professor Beck. Talvez fizesse isso para impedir que X triunfasse rápido demais; para evitar que fizesse um importante trabalho historiográfico e o eclipsasse antes de sua morte. Tudo isso me pareceu fantasioso. Eu achava que seria mais provável os próprios homens de 1600 ressuscitarem para corrigir aquele livro do que Beck ser o autor de um ato como aquele.
“Minha opinião sobre esse assunto parecia ser confirmada pela aparência geral que X apresentava. Em poucos dias, emagrecera a olhos vistos; estava nervoso, obcecado, assustado. Disse-me que estava sendo perseguido de todos os lados. Que a universidade estava minada de espiões do governo; que Beck se vendera ao governo; que Beck queria que ele publicasse uma obra absurda para que sua reputação rapidamente destruída (por essa época, X já decidira publicar a biografia do personagem que o obcecava).
“Poucos dias depois, os pais de X me procuraram. A polícia havia entrado na casa deles quando X estava em seu escritório, escrevendo. X desaparecera. A polícia dizia que estar realizando todas as buscas. Para os pais dele, isso era mais uma prova da hipocrisia das autoridades. Contudo, ainda tinham esperança de encontrar o filho. Essa esperança me fazia odiar ainda mais as autoridades.
“Agora ninguém mais espera rever X. Seus pais me adotaram. De certo modo, eu era a pessoa mais próxima de X. É natural que para eles, ainda que de um modo assaz imperfeito, eu represente seu filho. Minhas incertezas econômicas desapareceram. Mas não quero tomar o lugar de X só no que seja agradável para mim; sinto que o modo de pagar minhas muitas dívidas de gratidão para com X é tomar seu lugar em tudo: no agradável e no desagradável. Estou escrevendo suas notas biográficas na Enciclopédia Tcheca. Também me assumi a biografia do personagem que apareceu morto em 1600. Com surpresa, comprovei que o manuscrito de que X falava com tanto entusiasmo é um romance.
“Beck deu uma conferência dedicada quase que exclusivamente ao elogio do governo. Alguns dizem que ele fez isso porque não queria acabar a carreira com uma exoneração. Outros afirmam que seu entusiasmo parecia sincero. Em todo caso, agora é interventor na universidade e sempre mantém contato com os membros da polícia secreta.
“Para meus trabalhos devo recorrer à biblioteca e aos arquivos da universidade. O ambiente, ali, é desagradável. A pessoa sente que é vigiada, vista com desconfiança, acusada.
“Agora entendo o que aconteceu com X. Por que o personagem assassinado não tinha espada. Quanto à caixa de rapé com personagens e iluminados, que apareceu no bolso do sujeito, eu a tive muitas vezes em minhas mãos. Sobre a magreza do indivíduo há uma explicação clara: as preocupações de X, que agora são minhas preocupações, o obcecaram. Nos últimos tempos, X perdeu quase metade de seu peso. Quanto à morte do indivíduo, que alguns de seus contemporâneos do século xvii julgaram obra de algum assassino, só devo lembrar o frágil e doente coração de X.
“De todo modo, ele foi mais feliz do que eu. Herdei tudo dele, posso afirmar com equanimidade. Herdei algumas das satisfações de sua vida, quase todos seus trabalhos, todas suas persecuções. A polícia suspeitava de mim. Agora que estou no quarto de X, olho pela janela e vejo que a polícia vem me buscar. X viu isso mesmo: a polícia que entrava em sua casa, quando ele estava trabalhando nesta escrivaninha. Mas ele pôde fugir. Ele tinha o passado, o século xvii, no quarto da esquerda, do outro lado da porta. Aterrorizado, alcançou essa porta, abriu-a e conseguiu se trancar do outro lado, fora do alcance da polícia, no século xvii. Uma vez ali, o coração falhou, e morreu. Evidentemente, eu não tenho essa escapatória.”
Resumo do argumento de “A navalha do morto”, c. 1939.[77]
Em um apartamento de Buenos Aires, aparece o cadáver de um certo Eguren, viajante entusiasta mas empobrecido, que regressara de Copenhagen em um navio de carga. O detetive Silvano Bruno, seu ajudante Weiss/Watson e a Polícia tentam sem sucesso achar o culpado e descobrir seu motivo. Quando a investigação chegou a um ponto morto, alguém — um senhor Ahumada — entrega-lhes uma longa carta que propõe uma trama — fantástica — em que Ahumada, inspetor de impostos na Patagônia, faz as vezes de Villafañe, e Eguren, o assassinado, as de Oribe. Transcreve-se o esboço da segunda parte, que Bioy Casares não chegou a escrever.
[d. m.]
Segunda parte (fantástica): carta do senhor Ahumada.
O pai de vítima, para corrigi-la, conseguiu que a nomeassem inspetor de impostos. vítima partiu com Ahumada, também inspetor, para a Patagônia.
Uma noite, no armazém de um povoado falou-se de uma fazenda vizinha que há anos permanecia impenetrável — com ameaça de morte a tiros a possíveis invasores. — Ninguém havia entrado nem saído fazia anos. As pessoas da fazenda viviam do que ela produzia. Na mata circundante, guardas postados com fuzis — dizia-se.
vítima disse que iria. Na noite seguinte, quando voltou, não se referiu ao que havia visto. Estava com os olhos brilhantes, como que bêbado, e queria — desagradavelmente — falar de façanhas eróticas. Ahumada se recolheu a seu quarto, enfastiado.
No dia seguinte, notícia de que uma das moças da fazenda havia morrido. Fazenda não mais vedada. vítima impressionadíssima. Foi ao velório. Voltou com urgentíssimos propósitos de fuga, mas antes de fugir contou para Ahumada:
— Se me matarem, o senhor sabe quem é o assassino. Eu entrei lá, nos outros dias, por uma janela. Encontrei a moça agora morta, uma linda moça. Disse que estava esperando por mim; tratou-me como se realmente me esperasse. Hoje fui ao seu velório e, involuntariamente, durante uma conversa, dei sinais de saber algo da casa que não poderia saber se a presente ocasião de velório fosse minha primeira visita à casa. Larsen me interpelou e não achei que não havia motivo para negar que eu tinha estado lá e que conhecido a irmã dele. Ele se transformou e me disse que me devia, antes de mais nada, uma explicação:
Médico disse há anos que morta morreria em poucos dias. morta, como que inspirada, disse: parece incrível que eu possa morrer (porque, embora vocês o neguem, sei que assim será); e, no entanto, parece impossível que, se nossa rotina de vida continuar igual, possa ocorrer esse ato tão novo, essa interrupção, minha morte. Eu — disse Larsen — considerei que ela dizia isso inspirada e mantive com firmeza esse, ao que parece, inconcebível sistema na casa: todos dia se faria a tudo igual, nada de novo, nenhum estranho, seria tolerado. E a força da repetição das coisas não tolerou que a morta morresse, até que o senhor, frivolamente, se intrometeu em nossa casa, desobedecendo às minhas ordens, e minha irmã morreu. Naturalmente, pode-se considerar meu inimigo mortal. Amanhã, depois do enterro, duelaremos.
Um homem, acaba a carta de Ahumada, capaz de manter a múltipla vida de uma casa invariável, por mais de um ano, é capaz de guardar o propósito de vingança e de cumpri-lo, depois de vários anos.
Resumo do argumento de “As vésperas de Fausto”[78]
História de um homem que em 1670 vende sua alma ao diabo e promete o pagamento para 1730. Com os poderes mágicos adquiridos, cada novo dia de sua vida vive um dia para trás; chega assim, em 1700, a viver em 1640. Quando o diabo o procurou em 1730, ele estava em 1610. O diabo disse: “Terei de esperar”.
Resumo do argumento de “História prodigiosa”[79]
Esteta, amateur, sentimental, no sentido de que exerce a emoção na experiência alheia, cortês como o eram os senhores do século xviii, capazes de desmentir a imputação de afeminado, primeiro, desafiando e, depois, matando em duelo.
Inimigo do cristianismo, opina que há razões estéticas para lamentar seu império; fealdade do Cristo doloroso (que deus é esse?), das virgens cobertas de roupas, de santos sedentários e mansos, da sagrada família, grupo de hipócritas que posam para o fotógrafo do povo (de todos os deuses cristãos resgataria somente o espírito santo, essa grande pomba inobjetável e os anjos).
Porque vai contra a própria vida, é preciso deplorar o triunfo do cristianismo; quer estreitar e sufocar a vida, quer apagar os impulsos (não despovoou o mundo dos deuses antigos, que eram os impulsos vitais, as forças que ajudavam a viver?); é mórbido: ama a doença, a morte, a pobreza (deve-se enriquecer os pobres, não regozijar-se com sua pobreza).
Moral imbecil da fábula de Fausto. Castigo por querer viver e por querer saber, por querer compartilhar mais plenamente o universo. A Igreja e Goethe querem que os homens sejam pobres que saibam se colocar em seu devido lugar, sem questionar nem pretender.
Há razões morais para lamentar esse triunfo: impôs uma moral grosseira, com prêmios e castigos. O que é mais grosseiro do que despachar para o inferno aqueles que não creem?
Lamenta a derrocada do panteão grego. Em algumas ocasiões, sentiu a presença dos deuses: flauta de Pã e epifanias; bosques, ninfas dos rios, amor, amor.
Seus desafios aos deuses cristãos trazem verdadeiros milagres adversos, que golpeiam ao seu redor. Doa a quem doer — sempre outros —, continua. Reflete: se no céu como na terra governam os piores, eu não transijo. E sem transigir continua, até que por fim os milagrosos golpes o alcançam e lhe deparam a morte: heroica, espécie de duelo desigual, seguido de fumaça, cheiro de enxofre e barulho de correntes: foi para o inferno.
Os probatórios milagres cristãos: mesquinhos e ridículos; mas probatórios.
Mestre das artes literárias: dá aulas e é servido pelas alunas. Nunca falta a seu lado uma moça loira, uma espécie de Lili mais leve. Especialista em decoração e assessor de compradores. Conheço-o por intermédio de um primo Jorge, atlético e católico. Vamos para seu casarão de break; na praça do povoado, descemos na confeitaria para comprar Bay Biscuits (insosso alimento que come com voracidade), nas árvores, inscrições da A[ção] C[atólica]. O primo, sonhadoramente, explica: são os rapazes do padre O’Grady.
Morte poderia acontecer: acometido por uma doença X, o primo insiste em que veja O’Grady. Ele se recusa; finalmente concorda se primo o vencer em duelo de florete. Duelo pode significar morte, mas mais vale tentar já que O’Grady poderia chegar a tempo (e se não, não haveria O’Grady).
Resumo do argumento de “O Deus”[80] Uma misteriosa comunidade, oriunda da Ásia Menor ou da Rússia, estabeleceu-se em uma planície ao pé dos Andes. No alto, ergueu um templo que seus membros visitam periodicamente. Esse templo é dedicado a um deus desconhecido, que seus remotos antepassados veneraram e cujo culto, depois de séculos de esquecimento, foi revivido por León Terapeuta, mestre e condutor do rebanho. É fama que essa colônia escondeu um tesouro; suspeita-se que esse tesouro provenha da incompreensão de uma metáfora. Toda essa gente, durante uma cerimônia religiosa no alto da montanha, foi exterminada por uma tempestade de neve.
Passam-se os anos; um grupo de estudiosos, desejosos de estudar in situ a religião perdida e atraídos pela tradição de que o deus certa vez apareceu entre seu povo, organizam uma expedição ao templo abandonado. Entre eles há dois personagens que se detestam; mais adiante, estes se revelam aventureiros que se somaram à expedição por pensarem que ela procura um tesouro concreto.
Chegam ao templo. Uma tempestade de neve sitia o grupo. Os expedicionários reagem de diferentes maneiras; ao final conjectura-se que o deus foi encarnando neles. Descobre-se também que a tradição da antiguidade do deus é uma invenção do Terapeuta, que o deus foi inventado por ele e depois criado pela fé dos fiéis. Em um momento da ação, o tesouro que se supunha metafórico de fato aparece. Esse tesouro causou a ruína moral da primitiva comunidade; por isso o deus os abandonou. Agora causa a perdição dos pesquisadores.
Um dos aventureiros, no momento em que não quer trair o outro e parece seu cúmplice, é visitado pelo deus.
Uma moça, quando lhe é revelada a verdade, compreende e se entristece; não foi amada pelo homem que está com ela, e sim pelo transitório deus. Quem explica a história, em compensação, está muito feliz por ter decifrado a antiga situação, mas não sente a tristeza de que o deus os tenha deixado.
Não se mostra o fim da aventura; pressente-se que todos eles perecerão.
De princípio os aventureiros falam do tesouro como real, mas entendem que estão enganados. Depois o tesouro aparece e estimula a cobiça e o egoísmo.
Resumo do argumento de “A serva alheia”[81]
Enrique Valerga é um rapaz de Rosario que vem a Buenos Aires. Conhece Elvira. Ela tem uma reação que lhe parece histérica. Ele detesta histeria. É liberal e aberto. Depois a conhece melhor. Ele chega a se sentir um pouco ridículo, um pouco histérico, um pouco impuro, totalmente indefeso diante de seu absoluto bom senso, sua boa-fé, sua ausência de histeria, sua absoluta pureza.
Quando telefona para a casa dela, às vezes atende uma voz horrível. Enrique pensa que talvez seja a mãe de Elvira, que está louca ou caduca. À existência dessa mãe, atribui o fato de que Elvira recuse todas as tentativas que ele faz de ir à sua casa. Se ela quisesse levá-lo, ele não iria.
Um dia encontra Elvira falando sozinha. Outras coisas espantosas em seu comportamento. Enrique as atribui à sinistra presença de “outro”. O leitor pode atribuí-la a uma transmissão hereditária da loucura da mãe.
A instabilidade no comportamento de Elvira — leve, mas irredutível — continua. Valerga decide entrar na casa.
Tudo muito bem. Elvira não está. Enrique conhece o tio de Elvira. Conhece duas amigas da casa. Elvira chega. Evidentemente assustada. Clima de que vai acontecer alguma coisa. Cada vez melhor. Mas Elvira sobe e não volta. E não volta. Ouve gritar: Suba. Elvira sozinha, gesticulando diante do espelho. Finalmente, homenzinho.
Cena com homenzinho. Homenzinho é velho alquimista.
Paulatino afastamento de Elvira do homenzinho. A equanimidade e falta de pressão dele, uma tática. Mas seu triunfo, cada dia mais seguro, não o faz perder sua equanimidade, seu excessivo respeito por esse amor que diz ser sagrado — talvez em tudo isso, uma ardilosa altivez, uma astúcia.
Descobre que todo mundo sabe da existência do homenzinho.
Tridente. Perde a vista.
Enrique e Elvira querem se afastar, decidem ir para a Europa.
No barco, espera Elvira, com música e pessoas agitada por despedida. Elvira não chega.