Octavia: Tragedia em 5 Actos
Poppéa.
Espero mostrar em breve o caso que della faço; mas não quero deixar erguida uma só cabeça dessa hydra furiosa; rolará, pelo chão a ultima em que Roma basêa sua esperança, e ao mesmo tempo cahirá abatida, muda, despedaçada, esta plebe orgulhosa. Roma ainda não me conhece, arrancar-lhe-hei do coração seus antigos e loucos prejuizos de liberdade. Octavia é a ultima descendente dos Claudios, seu nome está na boca de todos, chorão a sua sorte porque me odeião, não porque a amem: no coração do povo não ha lugar para o amor; mas a plebe insolente recorda-se saudosa da fraqueza do reinado de Claudio, inepto, e suspira pela licença de que hoje não póde gozar.
POPPÉA.
É certo; Roma não sabe conservar-se calada; mas o que poderão fazer hoje os Romanos mais do que murmurar; porventura os temes?
NÉRO.
Escolhi mal o lugar para exilio de Octavia; é ameno de mais, e pouco prudente seria conserva-la alli. Está nas vizinhanças da Campania o exercito, onde ainda se conserva memoria de Aggripina. No coração dos soldados agita-se ainda o espirito de revolta; perfidos, fingem-se doidos pela sorte da filha de Claudio; criminosa esperança ainda está enraizada em seus peitos. Fiz mal em escolher para seu degredo tal lugar, e maior imprudencia seria conserva-la alli.
POPPÉA.
Porque motivo esta mulher merece tanta solicitude? Porque não a envias para os confins do teu vasto imperio? Qual será o degredo mais seguro? Qual a praia deserta e remota que mais longe de ti conservará esta mulher que ousa gabar-se de te têr dado o throno?