Octavia: Tragedia em 5 Actos
Scena II. Néro
Quando é preciso, o sabio muda de parecer e de linguagem; e tu és sabio. Vai, aproveitar-me-hei de teus conselhos no dia em que possa dizer que o imperio é só meu. Por emquanto sou eu senhor; o teu dever é executar as minhas ordens; agora sou eu o mestre e tu o discipulo; mostra-te, pois, docil. Não te ameaço com a morte, bem sei que ella não te assusta; mas o nome de que ainda gozas, a consideração que te rodêa, tudo isso depende de mim. Posso destruir tudo. Cala-te, pois, e faze o que mando; vai.
SENECA.
Acabo de ouvir as tuas ordens tyrannicas, odiosas e sanguinarias; mas esperarei os acontecimentos quaesquer que elles possão ser: Todo o auxilio de minha parte seria inutil para os teus projectos, e eu ainda mais criminoso. Pois que! Néro ja não basta para derramar sangue? Quem o crêra?!
SCENA II.
NÉRO
Vai, soberbo stoico, de uma vez porei termo á tua vida e a esta virtude que alardêas. Até hoje tenho te punido cobrindo-te de dons, mas no dia em que te houver rebaixado e reduzido á condição dos mais vis e despreziveis d'entre os homens, então te darei a morte. Que vale este meu poder soberano, immenso, absoluto, quando tantas difficuldades me contrarião? Odeio Octavia, amo Poppéa mais do que posso dizê-lo; e terei de occultar este amor e este odio? O que não prohibem as leis ao mais vil de meus escravos, prohibir-me-hão a mim, Néro, as murmurações do povo?
SCENA III.
NÉRO E POPPÉA.
POPPÉA.