Octavia: Tragedia em 5 Actos
Tigellino.
Ainda não chegou a hora em que convem derramar sangue, mas está proxima. Entretanto cumpre usar de astucia; mandei espalhar por entre o povo falsos boatos; ora dizia-se que estavas disposto a chamar para junto de ti Octavia, se ella pudesse justificar-se dos crimes de que é accusada; ora que as affrontas insensatas de que tem sido victima Poppéa, indignárão o nobre coração da propria Octavia, que volta a Roma para restabelecer a ordem e a tranquilidade, e não para dar causa a tumultos populares.
POPPÉA.
E a plebe ignara julga que eu preciso da compaixão de Octavia?
NÉRO.
Sempre a astucia, sempre, e o ferro nunca?
TIGELLINO.
O povo aceita como verdade ainda mesmo o que é inverosimil. Ou fatigado, ou convencido por esses boatos, abrandou a criminosa alegria que o transportava. Mas já vai cahindo o dia, e a noite verá bem diversos acontecimentos. Já em segredo se reunem os pretorianos; já muitas cabeças illustres estão designadas para o desterro. O sol de amanhã allumiará scenas de sangue, e, quando descambar, reinará o silencio. Mas se queres que amanhã cesse o tumulto, que á falsa alegria passageira succedão longas e verdadeiras dôres, torna evidentes os graves crimes que se attribuem a Octavia; se assim não fizeres, jámais tocarás o almejado fim. Não pódes assassina-los a todos...
É