Octavia: Tragedia em 5 Actos
Seneca.
Ao entrar de novo neste palacio, perdi a esperança de viver mais tempo. Não penses que eu não receie a morte; debil mulher, como poderia eu ter tal coragem? Temo-a, é certo, e no entanto chamo-a de todo o coração, e, entre gemidos, volto os olhos para ti, meu mestre, que tão bem ensinas a morrer!
SENECA.
Ah! cala-te; assim me despedaças o coração... Ai de mim!...
OCTAVIA.
Tu só podes salvar-me, pelo menos da infamia! E vê quem me accusa... É ella, Poppéa, quem me exprobra semelhantes amores!
SENECA.
Ó digna esposa do feroz Néro!
OCTAVIA.
Não é a virtude de certo que mais agrada a Néro; o gesto desenvolto, a audacia são o jugo que a domina; a ternura, a meiguice, parecem-lhe fastidiosas... Oh! quanto não fiz por agradar-lhe! Seus menores desejos erão leis para mim, sua vontade foi-me sempre sagrada. Chorei occultamente a morte de meu irmão, se não felicitei Néro por este crime, tambem não ousei lançar-lh'o em rosto. Chorei longe delle; em sua presença calei-me. Fingi acreditar que não fôra elle quem derramára o sangue dos meus: foi tudo em vão... O meu cruel destino quer que eu lhe desagrade sempre!
SENECA.