Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 7 de 8 · parte 2/3

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Os Filhos de Duna

— Não vamos bebê-lo, Batigh — disse…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Pois mesmo aqui em Tanzerouft haveria muitas vezes mais umidade no ar do que qualquer verme jamais conhecera, exceto durante sua morte numa cisterna Fremen.

Ouviu Sabiha remexendo-se na choupana atrás dele. Estava inquieta, excitada por suas próprias visões reprimidas. Imaginou como seria viver fora de uma visão com ela, compartilhando cada momento quando viesse, por si mesmo.

O pensamento o atraía, muito mais forte que qualquer visão de especiaria. Havia certa pureza em enfrentar um futuro desconhecido.

“Um beijo num sietch vale por dois na cidade.”

A velha máxima Fremen dizia tudo. O velho sietch contivera uma selvageria reconhecida misturada com timidez. Havia traços dessa timidez na gente de Jacurutu/Shuloch, mas somente traços.

Isso o entristecia por lhe revelar o que fora perdido.

Lentamente, tão lentamente que o conhecimento do que acontecia estava pleno em sua mente antes que reconhecesse suas origens, Leto tornou-se consciente do suave sussurro de muitas criaturas à sua volta.

“Trutas da areia.”

Logo seria hora de passar de uma visão para outra. Sentia o movimento das trutas como um movimento dentro de si mesmo. Os Fremen tinham vivido com essas estranhas criaturas por gerações, sabendo que, se alguém arriscasse um pouco de água como isca, poderia atraí-las ao alcance da mão. Muitos Fremen, morrendo de sede, haviam arriscado suas últimas gotas de água nessa aposta, sabendo que o doce xarope verde extraído de uma truta da areia poderia fornecer uma pequena fonte de energia. Entretanto, as trutas da areia eram principalmente um brinquedo para as crianças que as apanhavam para o Huanui. E para brincar.

Leto estremeceu ante o pensamento do que aquela “brincadeira” lhe significaria agora.

Sentiu uma das criaturas escorregar sobre seus pés descalços. Ela hesitou e então prosseguiu, atraída pela maior quantidade de água no qanat.

Por um instante, entretanto, sentiu a realidade de sua terrível decisão.

“A luva de truta da areia.” Era uma brincadeira de crianças. Se alguém segurava uma truta com a mão, esticando-a sobre a pele, a criatura formava uma luva viva. Os traços de sangue nos capilares da pele poderiam ser sentidos por ela, mas alguma coisa misturada com a água do sangue as repelia. Cedo ou tarde, a luva escorregaria para a areia, para ser apanhada num cesto de fibra de especiaria. A especiaria as acalmava até serem jogadas num alambique da morte.

Podia ouvir as trutas se atirando no qanat e o redemoinho dos predadores a devorá-las. Água amolecia as trutas da areia, tornando-as flexíveis. As crianças aprendiam isso bem cedo. Um pouco de saliva fazia com que soltassem o xarope

doce. Leto escutou o agitar da água. Era a migração das trutas sobre o qanat aberto, mas elas não podiam conter o fluxo de um qanat patrulhado por peixes predadores.

Ainda assim, continuavam vindo, continuavam caindo.

Leto tateou a areia com a mão direita até seus dedos encontrarem a pele coriácea de uma truta. Era a grande que esperava encontrar. A criatura não tentou fugir dele, movendo-se avidamente em direção à sua carne. Ele explorou seus contornos com a mão livre - tinha aproximadamente a forma de um diamante. Não tinha cabeça, extremidades nem olhos, mas infalivelmente encontraria água. Uniria o corpo ao de suas companheiras, prendendo-se uma à outra pelo áspero entrelaçamento de cílios que se projetavam, até que o todo resultante se tornava um grande organismo em forma de saco, envolvendo a água e assim contendo o veneno que mataria o gigante em que as trutas um dia se transformariam: o ShaiHulud. A truta se contorcia em sua mão, alongando-se, esticando-se. Enquanto isso, ele sentia um alongamento e uma extensão equivalentes da visão que havia escolhido. “Este fio, não aquele.” Sentiu que a truta da areia se adelgaçava, cobrindo mais e mais sua mão. Nenhuma truta da areia jamais encontrara uma mão como essa, cada célula supersaturada de especiaria.

Nenhum outro ser humano jamais vivera ou raciocinara nessas condições.

Delicadamente, Leto ajustou seu equilibrio enzimático, contando com a certeza que obtivera do transe da especiaria. O conhecimento das incontáveis vidas que se fundiam dentro dele proporcionava a certeza com que escolhia os ajustes precisos, prevenindo a superdose mortal que o abateria se ele se relaxasse em sua vigilância durante apenas uma batida do coração. Ao mesmo tempo, ele se fundia à truta da areia, alimentando-se nela, alimentando-se e aprendendo. Sua visão proporcionava-lhe o padrão, e ele o seguia precisamente.

Leto sentiu a truta tornar-se fina, espalhando-se sobre uma área cada vez maior de sua mão, até chegar ao braço. Localizou outra e a colocou sobre a primeira. O contato ativou um contorcer frenético nas duas criaturas.

Seus cílios se trançaram e elas se tornaram uma única membrana que agora o envolvia até o cotovelo. A truta se ajustava à luva viva da brincadeira infantil, mas se tornava mais fina e mais sensível, na medida em que ele a atraía para o papel de pele simbiótica. Estendeu a mão com sua luva viva, sentindo a areia, cada grão distinto aos seus sentidos. Aquilo não era mais uma truta da areia, era mais resistente, mais forte. E iria tornar-se cada vez mais forte...

Apalpando, sua mão encontrou outra truta, que se uniu às duas anteriores, adaptando-se à nova função. Uma maciez coriácea insinuou-se por seu braço, até chegar ao ombro.

Com um terrível direcionamento de concentração, ele obteve a união da nova pele com seu corpo, evitando a rejeição. Nenhum recanto de sua percepção teve a permissão de divagar sobre as horrorosas consequências do que fizera. Só importavam as necessidades de seu transe-visão. Apenas o Caminho Dourado poderia resultar dessa provação.

Leto despiu o manto e se deitou nu sobre a areia, o braço enluvado estendido sobre a rota de migração das trutas. Lembrava-se de que certa vez ele e Ghanima haviam apanhado uma truta e a raspado na areia até que ela se contraísse numa criança-verme, um tubo rígido com o interior prenhe do xarope verde.

Mordia-se suavemente uma extremidade, sugando-a depressa, antes que o ferimento se fechasse, para obter alguma gotas de doçura.

Agora elas cobriam seu corpo. Podia sentir o pulsar de seu sangue contra a membrana viva. Uma delas tentou cobrir-lhe o rosto, mas ele a moveu asperamente, até que ela se alongou num fino rolo. A coisa cresceu mais que uma criança-verme, permanecendo flexível. Leto mordeu sua extremidade, provando um fino fluxo de doçura que continuou por muito mais tempo do que qualquer Fremen jamais experimentara. Podia sentir a energia daquele liquido doce fluindo através de si. Uma curiosa excitação tomou conta de seu corpo. Ficou ocupado por algum tempo, rolando a membrana para fora de seu rosto até construir uma borda ou orla rígida que lhe circundava a face desde a testa até o queixo, deixando as orelhas expostas. Agora era hora de testar a visão.

Ele se levantou, virando-se para correr em direção à choupana, mas ao andar sentiu que o movimento de seus pés era demasiado rápido para que se equilibrasse. Mergulhou na areia, rolando e saltando de novo para cair em pé. O

salto o levou a dois metros de altura e, quando caiu de volta, tentando caminhar, novamente se movia com demasiada rapidez. “Pare!”, ordenou a si mesmo. Entrou no relaxamento forçado pranabindu, unindo seus sentidos no redemoinho da consciência. Isso focalizou as ondulações interiores do constante-agora através do qual Leto vivencíava o Tempo, e ele permitiu que a exaltação da visão o aquecesse. A membrana funcionava precisamente como a visão havia previsto.

“Minha pele não é minha pele.”

Seus músculos precisavam de algum treinamento para se acostumarem a esse movimento ampliado. Quando caminhava, caía rolando. Daí a pouco ele se sentou. Na quietude, a orla abaixo de seu queixo tentou tornar-se uma membrana, cobrindo-lhe a boca. Ele cuspiu nela e a mordeu, sentindo a doçura do xarope. A coisa enrolou-se para baixo sob a pressão de sua mão.

Havia-se passado tempo suficiente para que se formasse a união com o corpo. Leto esticou-se no chão, rolando com o rosto para baixo. Começou a rastejar, raspando a membrana contra a areia. Podia sentir bem a areia, mas nada lhe feria a pele. Com apenas algumas braçadas, ele cruzou 50 metros de areia. A reação física a essa fricção induzida era uma sensação de aquecimento.

A membrana não mais tentava cobrir-lhe o nariz ou a boca, mas agora ele iria deparar-se com o segundo maior passo no Caminho Dourado. Seus exercícios o haviam conduzido além do qanat, para o canyon onde se encontrava o verme aprisionado.

Ele o ouviu assoviando em sua direção, atraído por seus movimentos.

Leto saltou para ficar de pé e esperar, mas a ampliação do movimento o lançou 20 metros para dentro do desfiladeiro. Controlando suas reações com um

terrível esforço, ficou de cócoras e endireitou o corpo. Agora, a areia começava a inchar diante dele, elevando-se numa monstruosa curva iluminada pelas estrelas.

Abriu-se a apenas dois corpos de distância, dentes de cristal cintilando à luz mortiça. Ele viu a caverna de uma boca se escancarando, com o pálido bruxulear de uma chama lá no fundo. O cheiro de especiaria derramou-se sobre ele, mas o verme parou. E permaneceu diante dele, enquanto a Primeira Lua se elevava sobre o penhasco. A luz, refletindo-se nos dentes do verme, delineava o brilho irreal dos fogos químicos que queimavam nas profundezas da criatura.

Tão forte era o temor inato aos Fremen que Leto se viu dividido pelo desejo de fugir. Sua visão, entretanto, o mantinha imóvel, fascinado por esse momento prolongado. Ninguém jamais se colocara tão próximo à boca de um verme vivo e sobrevivera. Suavemente, Leto moveu o pé direito, encontrou um monte de areia e, reagindo com muita rapidez, foi impulsionado em direção à boca do verme. Conseguiu parar de joelhos no chão.

Ainda assim, o verme não se moveu.

A criatura sentia apenas a presença da truta, e não atacaria o vetor da areia profunda pertencente à sua própria espécie. Atacaria outro verme em seu território e viria ao encontro de especiaria exposta ao ar livre.

Somente uma barreira de água poderia detê-lo e a truta da areia, como uma cápsula de água, era uma barreira.

Experimentalmente, Leto moveu uma das mãos em direção àquela boca espantosa. O verme recuou um metro.

Com a confiança restaurada, Leto se afastou do verme e começou a ensinar os músculos a viverem com o novo poder. Cautelosamente, caminhou de volta ao qanat. O verme permaneceu imóvel atrás dele. Quando se encontrou além da barreira de água, Leto saltou com alegria, cruzando 10 metros sobre a areia, caiu esparramado, rolou e riu.

Uma luz projetou-se para fora quando o selo da porta da choupana foi aberto. Sabiha olhava para ele, delineada pelo brilho amarelo e roxo da lâmpada.

Rindo, Leto tornou a correr para o outro lado do qanat, parou em frente do verme, virou-se e a encarou de braços abertos.

— Olhe! — gritou. — O verme faz o que eu mando!

Enquanto a moça ficava imóvel pelo choque, ele girou, saiu correndo em torno do verme e para dentro do canyon. Ganhando experiência com a nova pele, descobriu que podia correr com um ligeiro flexionar dos músculos. Quase sem esforço. Quando se esforçava para correr, voava sobre a areia, com o vento a lhe queimar o círculo de pele exposta no rosto. No beco sem saída do final do canyon, saltou em vez de parar, subiu 15 metros, arrastou-se penhasco acima, agarrando-se às pedras, subindo como um inseto, e afinal chegou à crista acima de Tanzerouft.

O deserto estendia-se diante dele, uma vasta ondulação prateada sob a luz do luar.

A alegria maníaca que o dominara refreou-se.

Agachando-se, sentiu como seu corpo lhe parecia leve. O esforço produzira uma delgada película de transpiração que um traje-destilador teria

absorvido e dirigido através do tecido de transferência, que removeria os sais.

Enquanto relaxava, a película desapareceu, absorvida pela membrana mais rapidamente do que o seria por um traje-destilador. Pensativo, Leto fez rolar um trecho da membrana sob seus lábios, puxou-o para a boca e bebeu o liquido doce.

Sua boca, contudo, não estava mascarada. Com a sabedoria dos Fremen, ele sentia a umidade de seu corpo sendo desperdiçada a cada respiração. Então colocou uma seção da membrana sobre a boca, enrolando-a para trás ao tentar fechar as narinas, e manteve-a assim até que a barreira enrolada permaneceu no lugar. À maneira do deserto, ele assumiu a respiração automática: inspirar pelo nariz, expirar pela boca. A membrana sobre sua boca formou numa pequena bolha, mas permaneceu no lugar. Nenhuma umidade se coletava sobre seus lábios e as narinas permaneciam abertas. A adaptação prosseguia, então.

Um tóptero voou entre Leto e a Lua, curvou-se e desceu para um pouso com as asas estendidas sobre o topo do rochedo, talvez 100 metros à sua esquerda.

Leto olhou para ele e se virou para ver por onde viera, subindo o canyon. Muitas luzes podiam ser vistas lá embaixo, além do qanat, o movimento de uma multidão.

Ouviu gritos fracos, sentiu histeria nos sons.

Dois homens do tóptero se aproximavam dele, o luar cintilando em suas armas.

“O Mashhad”, pensou Leto, e foi um pensamento triste. Ali estava o grande salto para o Caminho Dourado. Vestira o traje-destilador vivo e automantenedor de uma membrana de truta da areia, coisa de valor imensurável em Arrakis... até que se entendesse o preço. “Não sou mais humano. As lendas a respeito desta noite vão crescer e ampliar-se além de qualquer coisa reconhecível por seus participantes. Mas a lenda se tornará real.”

Olhou para baixo do penhasco, estimando que o solo do deserto se encontrava a 200 metros. A lua delineava fendas e saliências na face íngreme do rochedo, mas nenhuma trilha. Leto ficou de pé, inalou profundamente, olhou para os homens que se aproximavam e então caminhou para a beira do abismo e se lançou no espaço. Uns 30 metros abaixo, suas pernas flexionadas encontraram uma estreita saliência. Os músculos ampliados absorveram o choque e o lançaram num salto para o lado, em direção a outra saliência, onde ele agarrou uma estreita projeção de rocha com as mãos, caiu mais 20 metros, saltou para outro apoio, e uma vez mais caiu, saltando, pulando, agarrando estreitas saliências na pedra. Os últimos 40 metros foram atravessados num único salto, com os joelhos dobrados e rolando, que o fez mergulhar pela face escorregadia de uma duna, num chuveiro de areia e pó. No fundo, ele ficou de pé e se lançou para a crista da próxima duna num único pulo. Podia ouvir gritos roucos do topo do penhasco, mas os ignorou, concentrando-se em pular do topo de uma duna para outro.

Enquanto se acostumava à ampliação dos músculos, sentiu uma alegria sensual que não antecipara nesses movimentos devoradores de distâncias.

Era um balé no deserto, um desafio a Tanzerouft que ninguém mais experimentara.

Quando achou que os tripulantes do ornitóptero já se haviam recuperado do choque para persegui-lo uma vez mais, mergulhou na face sombreada de uma duna e se enterrou nela. A areia era como um líquido denso ante sua nova força, mas a temperatura se elevava perigosamente quando se movia com muita rapidez.

Saiu livre no outro lado da duna e descobriu que a membrana lhe cobrira as narinas. Removeu-a, sentindo a nova pele pulsando sobre seu corpo em seu trabalho de absorver a transpiração.

Leto moldou um tubo em sua boca e bebeu o xarope enquanto observava o céu estrelado. Estimou que percorrera uns 15 quilômetros desde Shuloch. Daí a pouco, um tóptero lançou sua sombra através das estrelas, como uma grande silhueta de pássaro, seguida por outra e mais outra. Ele ouviu o suave sussurro de suas asas, o assovio abafado de seus jatos.

Sugando pelo tubo vivo, ele esperou. A Primeira Lua passou por seu caminho, e depois a Segunda.

Uma hora antes da aurora, Leto subiu ao topo da duna e examinou o céu.

Não havia mais caçadores. Agora, sabia ter embarcado numa jornada sem retorno. Adiante se encontrava a armadilha do Tempo e do Espaço que fora preparada como uma lição inesquecível para ele mesmo e para toda a humanidade.

Voltou-se para nordeste e atravessou outros 50 quilômetros antes de se enterrar na areia para passar o dia, deixando somente um minúsculo orifício de comunicação com a superfície, que mantinha aberto com o tubo de truta da areia.

A membrana estava aprendendo a viver com ele, assim como ele aprendia a viver com ela. Tentou não pensar nas outras coisas que aquilo estava fazendo à sua carne.

“Amanhã, atacarei Gara Rulen”, pensou. “Destruirei seu qanat e farei sua água perder-se na areia. Então, irei para Windsack, Old Gap e Harg. Num mês, a transformação ecológica ficará atrasada uma geração inteira. Isso nos dará espaço para desenvolver um novo cronograma.”

E a culpa recairia nas tribos selvagens, é claro. Alguns reviveriam memórias de Jacurutu. Alia ficaria com as mãos cheias. Quanto à Ghanima...

Silenciosamente, para si mesmo, Leto relembrou as palavras que lhe restaurariam a memória. Haveria tempo para isso, depois... se eles sobrevivessem a essa terrível mistura das linhas.

O Caminho Dourado o atraía lá fora, no deserto, quase como uma coisa física que pudesse ser vista de olhos abertos. E ele imaginou como era: tal como os animais se movem através da terra, suas existências dependiam do movimento da alma da humanidade bloqueada durante eras, precisando de uma trilha sobre a qual pudesse caminhar.

E então pensou em seu pai, dizendo para si mesmo: “Logo disputaremos de homem para homem, e somente uma visão emergirá...”

Os limites de sobrevivência são estabelecidos pelo clima, as longas mudanças que uma geração pode deixar de notar. E são os extremos do clima que estabelecem o padrão. Os seres humanos, solitários e finitos, podem observar províncias climáticas, flutuações anuais, e ocasionalmente observar coisas como: “Este foi o ano mais frio que já tivemos. “ Tais coisas são sentidas. Mas os humanos raramente tomam consciência de uma alteração na média que leve um longo período de tempo. E é precisamente com essa consciência que eles aprendem a sobreviver em qualquer planeta.

Eles devem conhecer o clima.

- Arrakis, a Transformação segundo Harq al-Ada

Alia estava sentada com as pernas cruzadas em sua cama, tentando recompor-se recitando a Litania contra o Medo. Entretanto, uma risonha zombaria ecoava dentro de seu crânio, bloqueando cada um de seus esforços. Ela podia ouvir a voz que controlava seus ouvidos e sua mente.

— Que tolice é essa? Que é que você tem a temer?

Os músculos da barriga da perna se contraíram quando seus pés tentaram fazer movimentos de corrida. Não havia para onde correr.

Ela usava apenas uma beca dourada, da mais pura seda Paliana, e isso revelava a gordura que começava a lhe inchar o corpo. A Hora dos Assassinos acabara de passar, a aurora estava próxima. Relatórios cobrindo os últimos três meses encontravam-se diante dela, sobre o cobertor vermelho. Podia ouvir o zumbido do condicionador de ar, e a ligeira brisa agitava as etiquetas dos rolos de shigafio.

Ajudantes haviam-na despertado temerosamente, duas horas antes, trazendo notícias sobre a última infâmia, e Alia pedira os rolos de relatórios, buscando um padrão inteligível.

Desistiu da Litania.

Esses ataques tinham de ser obra dos rebeldes. Obviamente. Mais e mais dentre eles voltavam-se contra a religião do Muad'Dib.

— E o que há de errado nisso? — a voz zombeteira indagou dentro dela.

Alia sacudiu a cabeça violentamente. Namri lhe falhara. Fora uma tola em confiar numa faca de dois gumes tão perigosa. Suas ajudantes sussurravam que Stilgar era o culpado, que ele era secretamente um rebelde. E o que acontecera com Halleck? Oculto entre seus amigos contrabandistas?

Possivelmente.

Pegou um dos rolos do relatório. “E Muriz!” O homem estava histérico.

Essa era a única explicação possível. De outro modo, ela teria de acreditar em milagres. Nenhum ser humano, muito menos uma criança (nem mesmo uma criança como Leto), podia saltar do penhasco de Shuloch e sobreviver para fugir pelo deserto, em saltos que o levavam da crista de uma duna para outra.

Alia sentia na mão a frieza do shigafio.

Onde estaria Leto, então? Ghanima recusava-se a acreditar que ele não estivesse morto. Uma Reveladora da Verdade confirmara-lhe a história:

Leto morto por um tigre Laza. Então, quem seria a criança dos relatos de Namri e Muriz?

Ela estremeceu.

Quarenta qanat s haviam sido fendidos, suas águas perdidas na areia. Os Fremen leais e mesmo os rebeldes não passavam de caipiras supersticiosos, todos eles! Seus relatórios estavam cheios de ocorrências misteriosas.

Trutas da areia saltando nos qanat s e se dividindo para se tornarem bandos de pequenas réplicas. Vermes afogando-se deliberadamente. Sangue gotejava da Segunda Lua e caía em Arrakis, onde formava grandes tempestades. E a frequência das tempestades estava aumentando!

Pensou em Duncan, incomunicável em Tabr, angustiado com os impedimentos que ela conseguira de Stilgar. Ele e Irulan quase só falavam do significado real por trás desses augúrios. Tolos! Até mesmo seus espiões revelavam a influência dessas histórias infames!

Por que Ghanima insistia em seu relato do tigre Laza?

Alia suspirou. Somente um dos relatórios no shigafio a tranquilizava.

Faradin enviaria um contingente de sua guarda palaciana “para ajudá-la a enfrentar os problemas e preparar o caminho para o Rito Oficial do Noivado”. Alia sorriu para si mesma e compartilhou a gargalhada que lhe estremeceu o crânio.

Aquele plano, pelo menos, permanecia intacto.

Explicações lógicas seriam encontradas para afastar todas as bobagens supersticiosas.

Enquanto isso, ela usaria os homens de Faradin para ajudá-la a fechar Shuloch e prender os dissidentes conhecidos, especialmente entre os Naib s. Pensou num movimento contra Stilgar, mas a voz interior a advertiu contra isso.

— Ainda não.

— Minha mãe e a Irmandade têm algum plano, elas próprias — sussurrou Alia. — Por que ela está treinando Faradin?

— Talvez isso a excite — disse o Velho Barão.

— Não aquela geladeira.

— Não está pensando em pedir a Faradin que a mande de volta?

— Sei dos perigos que isso encerra.

— Ótimo. Enquanto isso, e aquele jovem criado que Zia trouxe? Creio que seu nome é Agarves Buer Agarves. Se o convidasse para vir aqui esta noite...

— Não!

— Alia...

— Está quase amanhecendo, seu velho tolo e insaciável! Vai haver um Conselho Militar esta manhã, os sacerdotes terão...

— Não confie neles, querida Alia.

— É claro que não!

— Muito bem, agora esse Buer Agarves...

— Eu disse não!

O Velho Barão permaneceu em silêncio dentro dela, mas Alia começou a sentir uma dor de cabeça. Uma dor lenta que subia de sua face para o lado

esquerdo do crânio. Uma vez, ele a fizera correr pelos corredores com esse truque.

Agora ela resolveu resistir.

— Se persistir, tomarei um sedativo — ela disse.

Ele percebeu que era sério. A enxaqueca começou a diminuir.

— Muito bem — disse ele, insolente. — Em outra ocasião, então...

— Em outra ocasião — concordou ela.

“Tu dividiste a areia com tua força, tu quebraste a cadeia dos dragões no deserto. Sim.

Eu te vi como a besta caindo das dunas, tu possuis os dois chifres do cordeiro, mas falas como o dragão. “

- Bíblia Universal Laranja Revisada Arran 11:4

Era a imutável profecia, as linhas tornando-se uma corda, coisa que Leto agora parecia ter conhecido por toda a vida. Ele olhava através das sombras do entardecer em Tanzerouft. Cento e setenta quilômetros ao norte estava Old Gap, a Velha Fenda, aquela abertura profunda e tortuosa através da Muralha Escuro pela qual os primeiros Fremen haviam emigrado para o deserto.

Leto já não tinha dúvidas. Sabia por que se encontrava ali, sozinho no deserto, e no entanto cheio de um sentimento como se essa terra inteira lhe pertencesse e fosse executar a sua vontade. Tinha aquele desejo que o ligava a toda a humanidade, aquela profunda necessidade de um universo de experiências que fizessem sentido lógico, um universo de regularidades reconhecíveis dentro de suas perpétuas mudanças.

“Eu conheço este universo.”

O verme que o levara até ali fora atraído pelas batidas de seu pé e se erguera diante dele, parando como um animal obediente. Leto saltara-lhe no dorso e, apenas com as mãos, ampliadas pela membrana, levantara a borda anterior de um anel do verme para mantê-lo na superfície. O verme se esgotara nessa corrida noturna para o norte. Sua fábrica interna, movida a silício e enxofre, havia funcionado a plena capacidade, exalando abundantes jorros de oxigênio que um vento de cauda lançara em redemoinhos em torno de Leto. Às vezes os sopros quentes o deixavam tonto, enchendo sua mente de estranhas percepções. A subjetividade circular e reflexiva de suas visões voltava sobre ele sua ancestralidade, forçando-o a reviver porções de seu passado terreno e então comparar essas porções com o seu atual eu mutável.

Já podia sentir o quanto se afastara de qualquer coisa reconhecível como humana. Seduzida pela especiaria que ele engolira a cada vestígio que encontrara, a membrana que o cobria não era mais truta da areia, tal como ele não era mais humano. Cílios haviam penetrado em sua carne, formando uma nova criatura que buscaria sua própria metamorfose, nas eras que viriam pela frente.

“Você viu isto, pai, e o rejeitou”, pensou ele. “Era uma coisa terrível demais para se encarar.”

Leto sabia o que se acreditava de seu pai e por quê.

“O Muad'Dib morreu de presciência.”

Mas Paul Atreides passara do universo da realidade para o alam al-mythal enquanto ainda vivia, fugindo dessa coisa a que seu filho se atrevera.

E agora havia apenas o Pregador.

Agachado na areia, Leto manteve a atenção voltada para o norte. O verme viria daquela direção, e em seu dorso cavalgariam duas pessoas: um jovem Fremen e um homem cego.

Um bando de pálidos morcegos passou sobre sua cabeça, mudando seu curso para sudeste. Eram pontos casuais no céu que escurecia, e o olho treinado de um Fremen poderia refazer seu caminho para descobrir onde se encontrava o abrigo naquela direção. Mas o Pregador evitaria esse abrigo.

Seu destino era Shuloch, onde não se permitia a existência de morcegos selvagens que pudessem guiar estranhos até o lugar secreto.

O verme surgiu primeiro como um movimento escuro entre o deserto e o céu do norte. Matar, a chuva de areia caindo de grandes altitudes, levada por um vento de tempestade que passava, obscureceu sua visão por alguns minutos, depois ela retornou, mais nítida e mais próxima.

A linha fria na base da duna onde Leto se abaixara começou a produzir sua umidade noturna.

Ele saboreou essa frágil umidade em suas narinas e ajustou sobre a boca a bolha da membrana. Não havia mais necessidade de procurar “esponjas” ou

“poços de sugar”. Dos genes de sua mãe, possuía o grande intestino dos Fremen, mais longo e mais largo para retirar água de tudo que surgisse pelo caminho. Esse traje-destilador vivo captava e retinha cada partícula de umidade que encontrava. E

mesmo enquanto ele estava sentado ali, a parte da membrana que tocava na areia emitia cíliospseudópodes para caçar frações de energia que pudesse armazenar.

Leto observou o verme que se aproximava. A essa altura, sabia que o jovem guia o tinha visto, notando o ponto no topo da duna. A distância, o cavaleiro do verme não discerniria qualquer característica nesse objeto, mas esse era um problema que os Fremen já tinham aprendido a enfrentar.

Qualquer objeto desconhecido era perigoso. As reações do jovem guia seriam bem previsíveis, mesmo sem a visão.

Correspondendo à previsão, o curso do verme mudou ligeiramente, apontando na direção de Leto. Os vermes gigantes eram uma arma que os Fremen haviam empregado muitas vezes. Tinham ajudado a derrotar Shaddam, em Arrakeen.

Mas esse verme deixou de cumprir a vontade de seu cavaleiro. Parou a 10

metros de distância e nenhum estímulo o faria cruzar outro grão de areia.

Leto levantou-se, sentindo os cílios tornarem a entrar na membrana atrás de si. Livrou a boca e clamou:

— Achlan, wasachlan! — “Bem-vindo, duas vezes bem-vindo!”

O homem cego levantou-se atrás de seu guia, no topo do verme, uma das mãos sobre o ombro do rapaz. O homem mantinha o rosto erguido, o nariz apontado acima da cabeça de Leto como se tentasse farejar essa interrupção. O

poente pintava sua testa de laranja.

— Quem está aí? — indagou o cego, sacudindo o ombro de seu guia. —

Por que paramos? — Sua voz era anasalada pelos tampões do traje-destilador.

Temeroso, o jovem olhou para Leto e disse:

— É apenas uma pessoa sozinha no deserto. Uma criança, pela aparência.

Tentei lançar o verme sobre ele, mas o verme se recusa.

— Por que não me disse? — quis saber o cego.

— Pensei que era apenas uma pessoa sozinha no deserto! — protestou o jovem. — Mas é um demônio.

— Fala como um verdadeiro filho de Jacurutu — disse Leto. — E o senhor é o Pregador.

— Sim, sou. — E havia medo na voz do Pregador, pois afinal havia encontrado seu próprio passado.

— Este não é um jardim — disse Leto, — mas o senhor é bem-vindo para compartilhar este lugar comigo esta noite.

— Quem é você? Quis saber o Pregador. Como parou nosso verme? —

Havia um sombrio tom de reconhecimento na voz do Pregador. Agora ele relembrava as memórias de sua visão alternativa... sabendo que poderia chegar e terminar nesse lugar.

— É um demônio! — protestou o jovem guia. — Devemos fugir deste lugar ou nossas almas...

— Silêncio! — rugiu o Pregador.

— Sou Leto Atreides. Seu verme parou porque eu ordenei — respondeu Leto.

O Pregador gelou em silêncio.

— Venha, pai — insistiu Leto. — Desmonte e passe a noite comigo. Eu lhe darei o mais doce xarope para sugar. E vejo que possui estojos Fremen com comida e jarros de água. Compartilharemos nossas riquezas aqui na areia.

— Leto ainda é uma criança — protestou o Pregador. — E dizem que está morto, vítima da traição dos Corrino. Não existe infância em sua voz.

— O senhor me conhece — disse Leto. — Sou pequeno para minha idade, assim como o senhor foi, mas minha experiência é ancestral e minha voz tem aprendido.

— Que faz aqui no Deserto Interior? — perguntou o Pregador.

— Bu ji — disse Leto. “Nada por nada.” Era a resposta de um caminhante Zensunni, alguém que estava apenas em posição de repouso, sem esforço e em harmonia com o ambiente ao redor.

O Pregador sacudiu o ombro de seu guia.

— É uma criança? Verdadeiramente uma criança?

— Alya — respondeu o jovem, mantendo uma atenção temerosa sobre Leto.

Um grande e estremecido suspiro sacudiu o Pregador e ele disse:

— Não.

— É um demônio em forma de criança — disse o guia.

— Vai passar a noite aqui — disse Leto.

— Faremos como ele diz — concordou o Pregador.

Soltou o ombro do guia e escorregou por um anel ao longo da lateral do verme, saltando para longe quando seus pés tocaram na areia. Virando-se, disse:

— Leve o verme para longe e mande-o de volta para a areia. Está cansado e não nos irá incomodar.

— O verme não se move! — protestou o jovem.

— Ele irá — disse Leto. — Mas se você tentar fugir nele, deixarei que o coma.

Caminhou para um lado, fora do campo sensorial do verme, e apontou na direção pela qual eles tinham vindo.

— Vá por lá.

O jovem bateu com um agulhão contra o anel atrás dele e mexeu num gancho onde mantinha o anel aberto. Lentamente, o verme começou a escorregar sobre a areia, virando-se quando o jovem mudou o gancho para um lado.

O Pregador, seguindo o som da voz de Leto, subiu pela encosta da duna e ficou a dois passos de distância. Fez isso com uma segurança que revelou a Leto que essa não seria uma disputa fácil.

Aqui as visões se separavam. Leto disse: — Remova sua máscara facial, pai.

O Pregador obedeceu, deixando cair a dobra de seu manto e retirando a cobertura bucal.

Conhecendo sua própria aparência, Leto estudou esse rosto, vendo as linhas de semelhança como se elas estivessem delineadas com luz forte.

Formavam uma reconciliação indefinível, uma trilha de genes sem fronteiras nítidas, e nelas não havia engano. Aquelas linhas vinham até Leto desde os dias florescentes, dos dias repletos de água, dos mares milagrosos de Caladan.

Mas agora se encontravam num ponto divisório em Arrakis, enquanto a noite aguardava para se desdobrar sobre as dunas.

— Aqui, pai — disse Leto, olhando para a esquerda, onde podia ver o jovem guia caminhando de volta, do ponto onde o verme fora abandonado.

— Mu zein! — disse o Pregador, fazendo um gesto de corte com a mão direita. “Isto não é bom!”

— Koolish zein — disse Leto com voz suave. “Este é todo o bem que poderemos ter.” E acrescentou, falando na linguagem Chakobsa, a linguagem de batalha dos Atreides: — Aqui estou, aqui permaneço! Não nos podemos esquecer disso, pai.

Os ombros do Pregador se curvaram. Levou ambas as mãos às órbitas vazias num gesto que há muito não fazia.

— Eu lhe dei a visão dos meus olhos, uma vez, e peguei suas memórias —

disse Leto. — Conheço suas decisões e estive no lugar onde se escondeu.

— Eu sei. — O Pregador abaixou as mãos. — Vai permanecer?

— Você me balizou com o nome do homem que colocou em seu brasão

“Jyruisy reste!”.

O Pregador suspirou profundamente.

— Até onde já foi essa coisa que você fez consigo mesmo?

— Minha pele não é mais a minha, pai.

O Pregador estremeceu.

— Então, sei como me encontrou aqui.

— Sim, prendi minha memória a um lugar que minha carne nunca conhecera — disse Leto. — Preciso de uma noite com meu pai.

— Não sou seu pai. Sou apenas uma pobre cópia, uma relíquia. — Voltou a cabeça na direção do guia que se aproximava. — Não busco mais meu futuro em minhas visões.

Enquanto ele falava, a escuridão cobriu o deserto. Estrelas saltaram acima deles e Leto também se voltou para o guia que se aproximava.

— Wubakh ul kuhar! — gritou Leto para o jovem. “Saudações!” De volta veio a resposta:

— Subakh un nar!

Falando num sussurro rouco, o Pregador disse:

— Esse jovem, Assan Tariq, é perigoso. — Todos os Banidos são perigosos — concordou Leto.

— Mas não para mim. — Falou em tom baixo e calmo.

— Se essa é sua visão, não a compartilharei — disse o Pregador.

— Talvez não tenha escolha. Você é o filhaguiga, a Realidade. Você é Abu Dhur, Pai das Indefinidas Estradas do Tempo.

— Não sou mais que uma isca numa armadilha — disse o Pregador, a voz cheia de amargura.

— E Alia já comeu dessa isca — disse Leto. — Mas eu não aprecio o seu gosto.

— Você não pode fazer isso — sussurrou o Pregador.

— Já fiz. Minha pele não é mais a minha.

— Talvez não seja tarde demais para você...

— É tarde demais.

Leto inclinou a cabeça para um lado. Podia ouvir Assan Tariq subindo pela encosta da duna em direção a eles, vindo ao encontro do som de suas vozes.

— Saudações, Assan Tariq de Shuloch — disse Leto.

O jovem parou na encosta, logo abaixo de Leto, uma sombra negra sob a luz das estrelas. Havia indecisão na posição de seus ombros, no modo como inclinava a cabeça.

— Sim — disse Leto. — Eu sou aquele que escapou de Shuloch.

— Quando eu ouvi... — começou a dizer o Pregador. E novamente: —

Você não pode fazer isso!

— Estou fazendo. Que importa se ficou cego uma vez mais?

— Pensa que tenho medo disso? indagou o Pregador. — Não vê o ótimo guia que me forneceram?

— Eu o vejo. — Novamente, Leto encarou Tariq. — Não está me ouvindo, Assan? Sou aquele que escapou de Shuloch.

— Você é um demônio — disse o jovem, trêmulo.

— Seu demônio — disse Leto. — Mas você é o meu demônio. — E Leto sentiu que a tensão crescia entre ele e seu pai. Era um jogo de sombras em torno deles, uma projeção de formas inconscientes. E Leto sentia as memórias de seu pai, uma forma de profecia às avessas, que buscava visões da realidade familiar desse momento.

Tariq também sentia a batalha de visões. Recuou vários passos duna abaixo.

— Você não pode controlar o futuro — sussurrou o Pregador, e o som de sua voz revelava um esforço, como se estivesse levantando um grande peso.

Então, Leto sentiu a dissonância entre eles. Era um elemento do universo com o qual sua vida inteira havia lutado. Ele ou então seu pai seria forçado a agir logo, tomando uma decisão nesse ato, escolhendo uma visão.

E seu pai estava certo: tentar um controle final sobre o universo faz com que você construa armas com as quais o universo acabará por derrotá-lo.

Escolher e dominar uma visão exige que você se equilibre numa linha tênue fazendo o papel de Deus equilibrado num arame muito alto, com a solidão do cosmo de ambos os lados. Nenhum dos competidores podia retirar-se para a morte-como-fim-do-paradoxo. Ambos conheciam as visões e as regras. E todas as antigas ilusões estavam morrendo. Quando um competidor se movia, o outro devia fazer um movimento em oposição. A única verdade real que lhes importava agora era a que os separava do cenário da visão. Não existia um lugar seguro, apenas uma mudança transitória de relacionamentos marcados dentro de limites que eles agora se impunham e aos quais se prendiam com vistas às mudanças inevitáveis. Cada um deles só podia contar com uma coragem solitária e desesperada, mas Leto tinha duas vantagens: entregara-se a um destino do qual não havia retorno e aceitara as terríveis consequências que resultariam para si mesmo. Seu pai ainda esperava que houvesse outro caminho de volta, e não tomara essa decisão final.

Continuar: parte 3 de 3