Os Filhos de Duna
Agarves podia aceitar a escolha através da…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Alia podia ver refugiados no meio da multidão, remanescentes dos sietches abandonados, seus mantos esfarrapados. Ficaria perigoso lá embaixo, erros poderiam ser cometidos.
— Senhora?
A voz vinha de trás de Alia. Ela se virou e viu Zia de pé sob o arco da porta que dava para a câmara exterior. A Guarda Armada da Casa encontrava-se atrás dela.
— Sim, Zia?
— Minha Senhora, Faradin está lá fora pedindo audiência.
— Aqui? Em meus aposentos?
— Sim, Minha Senhora.
— E ele está sozinho?
— Com dois guarda-costas e Lady Jessica.
Alia levou a mão à garganta, relembrando o último encontro com sua mãe.
Mas os tempos haviam mudado. Novas condições governavam esse relacionamento.
— Como ele é impetuoso — disse Alia. — Que razão ele deu?
— Ele ouviu a respeito do Pregador — Zia apontou para a janela sobre a praça. — Diz que lhe contaram que a Senhora tem o melhor ponto de observação.
Alia franziu a testa.
— Você acredita nisso, Zia?
— Não, Minha Senhora. Penso que ele ouviu os rumores. Quer observar sua reação.
— Minha mãe o levou a isso!
— Muito possivelmente, Minha Senhora.
— Zia, minha querida, quero que você cumpra um conjunto específico de ordens muito importantes para mim. Venha cá.
Zia aproximou-se até um passo de distância.
— Minha Senhora?
— Faça com que Faradin, sua guarda e minha mãe sejam admitidos. Em seguida, prepare-se para trazer Ghanima. Ela deve ser vestida como uma noiva Fremen em todos os detalhes, todos.
— Com uma faca, Minha Senhora?
— Com uma faca.
— Minha Senhora, isso é...
— Ghanima não representa ameaça para mim.
— Minha Senhora, há razões para crer que ela fugiu com Stilgar mais para protegê-lo do que por qualquer outra...
— Zia!
— Minha Senhora?
— Ghanima já fez seu apelo pela vida de Stilgar, e Stilgar permanece vivo.
— Mas ela é a herdeira presumível!
— Apenas execute minhas ordens. Que Ghanima esteja preparada.
Enquanto estiver fazendo isso, mande cinco auxiliares do clero do Templo para a praça. Eles devem convidar o Pregador para vir até aqui. Faça com que eles aguardem uma oportunidade e falem com ele, nada mais. Não devem fazer uso da força. Quero que eles façam um convite educado. Nada de força. E, Zia...
— Minha Senhora? — como ela parecia mal-humorada agora.
— O Pregador e Ghanima devem ser trazidos à minha presença simultaneamente. Devem entrar juntos ao meu sinal. Está entendendo?
— Eu conheço o plano, Minha Senhora, mas...
— Então execute-o! Juntos. — E Alia acenou para que sua amazona saísse. Enquanto Zia se virava para sair, ela disse: — Quando sair, mande o grupo de Faradin entrar, mas cuide para que eles sejam precedidos por 10 dos nossos elementos de maior confiança.
Zia olhou para trás, mas continuou andando em direção à saída.
— Será feito como ordenou, Minha Senhora.
Alia voltou-se para olhar pela janela. Em mais alguns minutos, o plano produziria seu fruto sangrento. E Paul estaria ali quando sua filha desse o coup de grace em suas sagradas pretensões. Alia ouviu a guarda de Zia entrando. Logo, tudo estaria acabado. Tudo acabado. Olhou para baixo com um sentimento crescente de triunfo, enquanto o Pregador tomava sua posição no primeiro degrau. Seu jovem guia agachara-se ao lado dele. Alia viu os mantos amarelos dos sacerdotes do Templo aguardando à esquerda, mantidos a distância pela pressão da multidão. Mas eles eram experientes com multidões, e encontrariam um meio de se aproximarem de seu alvo. A voz do Pregador trovejou sobre a praça, e a multidão aguardou, ouvindo com arrebatada atenção. Que eles escutem! Logo suas palavras ganhariam significados diferentes do que ele pretendera. E não haveria Pregadorpara protestar.
Ouviu o grupo de Faradin entrar e a voz de Jessica.
— Alia?
Sem se voltar, Alia disse:
— Bem-vindos, Príncipe Faradin, mamãe. Venham e apreciem o espetáculo.
Olhou para trás, então, e viu o enorme Sardaukar, Tvekanik, olhando carrancudo para a guarda que lhe bloqueava o caminho.
— Mas isso não é hospitaleiro — disse Alia. — Deixem que eles se aproximem.
Dois guardas, obviamente agindo sob as ordens de Zia, vieram até junto de Alia, colocando-se entre ela e os outros. O resto da guarda moveu-se para o lado. Alia recuou para o lado direito da janela e fez um sinal.
— Este é verdadeiramente o melhor ponto de vista.
Jessica, usando o tradicional manto aba negro, olhou furiosa para Alia e escoltou Faradin para junto da janela, colocando-se entre ele e a guarda de Alia.
— Isso é muita bondade de sua parte, Lady Alia — disse Faradin. — Ouvi falar tanto a respeito desse Pregador.
— E lá está ele em carne e osso — disse Alia.
Ela notou que Faradin usava o traje cinzento de um comandante Sardaukar, cheio de condecorações. Caminhava com uma graça esguia que Alia admirava.
Talvez houvesse mais que um fútil divertimento nesse Príncipe Corrino.
A voz do Pregador ribombava na sala através dos fones amplificadores ao lado da janela. Alia sentia estremecerem seus ossos e começou a ouvir suas palavras com crescente fascinação.
— Eu me encontrei no deserto de Zan — gritou o Pregador, — naquela vastidão uivante. E Deus me ordenou que tornasse limpo aquele lugar. Pois nós fomos provocados no deserto, e ofendidos no deserto, e fomos tentados naquela vastidão desolada para que abandonássemos os nossos costumes.
“Deserto de Zan”, pensou Alia. Esse era o nome dado ao lugar da primeira provação dos Caminhantes Zensunni, dos quais se dizia que os Fremen se haviam originado. Mas suas palavras! Estaria ele assumindo o crédito pela destruição dos baluartes sietch das tribos leais?
— Bestas selvagens estendem-se sobre nossas terras! — gritou o Pregador, sua voz ribombando pela praça. — Criaturas aflitas enchem suas casas. Vocês, que fugiram de seus lares, não mais multiplicam seus dias sobre as areias. Sim, vocês, que esqueceram nossos costumes, vocês vão morrer num ninho corrompido se continuarem nessa trilha. Mas, se seguirem meu conselho, o Senhor os levará através da terra das covas até as Montanhas de Deus. Sim, Shai-Hulud os levará.
Fracos gemidos ergueram-se da multidão. O Pregador fez uma pausa, virando suas órbitas vazias de um lado para o outro e ouvindo o som. Então, abriu os braços, esticou-os e gritou:
— Oh Deus, minha carne anseia por teu rumo numa terra seca e sedenta!
Uma velha na frente do Pregador, obviamente uma refugiada pela aparência remendada e gasta de suas vestes, estendeu as mãos para ele e suplicou:
— Ajude-nos, Muad'Dib. Ajude-nos!
Sentindo um aperto de medo no peito, Alia se perguntou se a aquela velha realmente conhecia a verdade. Olhou para sua mãe, mas Jessica permanecia impassível, sua atenção dividida entre a guarda de Alia, Faradin e a vista da janela.
Faradin permanecia imóvel em fascinada atenção.
Alia olhou para a janela, tentando enxergar os sacerdotes do Templo. Não pôde vê-los e suspeitou que eles abriam caminho abaixo dela, junto às portas do Templo, buscando uma rota direta através dos degraus.
O Pregador apontou a mão direita sobre a cabeça da velha e gritou:
— Vocês são a única ajuda remanescente! Vocês são rebeldes. Vocês trazem o vento seco que não limpa nem refresca. Vocês transportam a carga do nosso deserto e o redemoinho se lança daquele lugar, daquela terra terrível. Eu estive naquela vastidão. A água corre sobre a areia, saída dos qanat s rompidos.
Arroios sulcam o solo. Agua que caiu do céu no Cinturão de Duna! Ah, meus amigos, Deus me ordenou. Cave no deserto uma rodovia que leve diretamente ao nosso Senhor, pois eu sou a voz que os chama da desolação.
Ele apontou para os degraus abaixo de seus pés, com o dedo trémulo.
— Esta não é uma djedida perdida, que nunca mais será habitada! Aqui nós comemos o pão celestial. E aqui o ruído dos estrangeiros nos tirou de nossas casas!
Eles criaram para nós a desolação, uma terra que nenhum homem habita, em que nenhum homem passará.
A multidão se agitava desconfortavelmente, refugiados e Fremen da cidade, olhando para os peregrinos do Hajj que se destacavam entre eles.
“Ele pode começar um distúrbio sangrento!”, pensou Alia. “Bem, deixe-o, meus sacerdotes podem agarrá-lo na confusão.”
Então ela viu os cinco sacerdotes, um nó apertado de mantos amarelos abrindo caminho nos degraus por trás do Pregador.
— As águas que derramamos sobre o deserto converteram-se em sangue
— dizia o Pregador, sacudindo os braços abertos. — Sangue sobre nossa terra!
Olhem nosso deserto que podia desabrochar e nos alegrar. Ele atraiu o estrangeiro e o seduziu em nosso meio. Eles vêm para a violência! Seus rostos se fecham como se esperassem o último vento do Kralizec! Eles coletam a escravidão das areias.
Eles sugam a abundância da areia, o tesouro escondido em suas profundezas.
Olhem para eles enquanto prosseguem em seu trabalho maligno. Pois está escrito:
“E eu me coloquei sobre a areia e vi a besta se erguer, e sobre a cabeça dessa besta estava o nome de Deus!”
Murmúrios furiosos ergueram-se da multidão. Punhos levantaram-se e se sacudiram.
— Que ele está fazendo? — sussurrou Faradin.
— Eu queria saber — disse Alia.
Ela levou a mão ao peito, sentindo a temerosa excitação desse momento.
A multidão ia voltar-se contra os peregrinos se ele continuasse com isso!
Mas o Pregador se virou e apontou as órbitas vazias na direção do Templo, erguendo a mão para a alta janela de onde Alia observava.
— Uma blasfêmia permanece! — gritou. — Blasfêmia! E o nome da blasfêmia é Alia!
Um silêncio chocado dominou a praça.
Alia ficou imóvel, consternada. Sabia que a multidão não poderia vê-la, mas se sentiu exposta, dominada por um sentimento de vulnerabilidade. Os ecos das palavras tranquilizadoras dentro de seu crânio competiam com as batidas de seu coração. Só podia olhar para aquela cena incrível. O Pregador permanecia com a mão apontada para a janela.
Mas suas palavras haviam sido demasiadas para os sacerdotes. Eles quebraram o silêncio com gritos furiosos e desceram os degraus, lançando as pessoas para os lados. Enquanto eles se moviam, a multidão reagia, quebrando-se como uma onda sobre os degraus, arrastando as primeiras linhas de observadores e levando o Pregador à sua frente. Ele tropeçava cegamente, separado de seu jovem guia. Então, um braço com a manga amarela elevou-se no aperto da massa, na mão uma faca cristalina. Ela viu a faca golpear para baixo, enterrando-se no peito do Pregador.
O estrondo trovejante das gigantescas portas do Templo sendo fechadas tirou Alia do estado de choque. A guarda, obviamente, tinha fechado as portas contra o assalto da multidão. Mas as pessoas já estavam recuando, abrindo espaço em torno da figura caída sobre os degraus. Um silêncio estranho desceu sobre a praça. Alia via muitos corpos, mas somente esse se destacava por si mesmo.
Então, uma voz gritou no meio da multidão:
— Muad'Dib! Mataram o Muad'Dib!
— Deus! — exclamou Alia, trêmula. — Deus do céu!
— Um pouco tarde para isso, não acha? — indagou Jessica. Alia virou-se bruscamente, notando a reação espantada de Faradin ao ver a ira em seu rosto.
— Aquele que eles mataram era Paul! — gritou Alia. — Aquele era seu filho! Quando confirmarem isso, sabe o que vai acontecer?
Jessica permaneceu imóvel por um longo momento, pensando haver escutado alguma coisa que já sabia. A mão de Faradin sobre seu ombro destruiu o momento.
— Minha Senhora — ele disse, e havia tamanha compaixão em sua voz que Jessica pensou que poderia morrer disso ali mesmo.
Seus olhos correram da raiva fria no rosto de Alia para a tristeza e a compaixão nas feições de Faradin, e pensou: “Talvez eu tenha feito meu trabalho bem demais.”
Não havia como duvidar das palavras de Alia. Jessica lembrava-se de cada entonação na voz do Pregador, ouvindo nela seus próprios truques, os longos anos de instrução que ela consumira com um jovem destinado a ser o Imperador, mas que agora se reduzira a um monte destroçado de trapos sangrentos sobre os degraus do Templo.
“Ghafla cegou-me”, pensou Jessica.
Alia gesticulou para uma de suas auxiliares.
— Tragam Ghanima, agora.
Jessica forçou-se a identificar o significado dessas palavras: “Ghanima?
Por que Ghanima agora?”
A ajudante voltou-se para a porta externa, fazendo sinal para que fosse aberta, mas antes que se pudesse pronunciar uma palavra a porta inchou, as dobradiças saltaram. Uma barra se partiu e a porta, uma espessa massa de plasteel, feita para aguentar energias terríveis, caiu dentro do aposento. Guardas saltaram para evitar-lhe o impacto, sacando suas armas.
Jessica e os guarda-costas de Faradin reuniram-se em torno do Príncipe Corrino.
Mas a abertura revelava apenas duas crianças: Ghanima à esquerda, vestida em seu manto negro de noivado, e Leto à direita, o cinza brilhante de um traje-destilador abaixo de um manto branco sujo pelo deserto.
Alia olhou para a porta derrubada e para as crianças, e descobriu-se tremendo incontrolavelmente.
— A família está aqui para nos saudar — disse Leto. — Vovó — ele acenou para Jessica e voltou sua atenção para o Príncipe Corrino. — E este deve ser o Príncipe Faradin. Bem-vindo a Arrakis, Príncipe.
Os olhos de Ghanima pareciam vazios. Ela mantinha a mão direita sobre a faca cerimonial em sua cintura, e parecia estar tentando escapar de Leto, que lhe segurava o braço. Leto sacudiu-lhe o braço e todo o seu corpo tremeu.
— Olhem para mim, membros da família — disse Leto. — Eu sou Ari, o Leão dos Atreides. E aqui... — Novamente sacudiu o braço de Ghanima com aquela poderosa facilidade que fazia todo o corpo dela estremecer... — aqui está Aryeh, a Leoa Atreides. Viemos para colocá-los no Secher Nbiw, o Caminho Dourado.
Ghanima, absorvendo as palavras-chaves, Secher Nbiw, sentiu a consciência fluir solta em sua mente. Foi um fluxo de precisão linear, com a consciência interior de sua mãe flutuando, ao lado dela, uma guardiã no portal. E Ghanima soube naquele instante que havia conquistado seu passado vociferante. Tinha um portal através do qual poderia olhar, quando necessitasse, para aquele passado. Os meses de supressão auto-hipnótica haviam construído para ela um lugar seguro do qual podia dominar a própria carne. Começou a se voltar para Leto, com a necessidade de explicar isso que estava a impulsioná-la, quando se tornou consciente de onde estava e com quem. Leto soltou-lhe o braço.
— Nosso plano funcionou? — sussurrou Ghanima.
— Suficientemente bem — respondeu Leto. Recuperando-se do choque, Alia gritou para um grupo da guarda à sua esquerda:
— Prendam-nos!
Mas Leto se abaixou, pegou a porta caída com uma das mãos e a lançou, escorregando através do aposento, em direção aos guardas. Dois deles foram esmagados contra a parede. Os outros fugiram, aterrorizados. A porta pesava meia tonelada e aquela criança a tinha jogado.
Alia, tornando-se consciente de que o corredor além da porta continha guardas caídos, percebeu que Leto devia ter cuidado deles, que aquela criança havia destruído uma porta inexpugnável.
Jessica também vira os corpos, o espantoso poder de Leto, e chegara a conclusões similares, mas as palavras de Ghanima tocavam um núcleo de disciplina Bene Gesserit que forçava Jessica a manter a compostura. Esse neto falava de um plano.
— Que plano? — indagou Jessica.
— O Caminho Dourado, nosso plano imperial para o nosso Império —
respondeu Leto, e então acenou para Faradin. — Não pense mal de mim, primo.
Estou agindo por você também. Alia esperava que Ghanima o matasse. Prefiro que você viva a sua vida com algum grau de felicidade.
Alia gritou para seus guardas encolhidos na passagem:
— Eu ordeno que os prendam!
Mas os guardas recusaram-se a entrar no aposento.
— Espere por mim aqui, mana — disse Leto. — Tenho uma tarefa desagradável a realizar.
E caminhou em direção a Alia.
Ela recuou para um canto e se agachou, sacando sua faca. As jóias verdes de seu cabo faiscavam à luz que vinha da janela.
Leto apenas continuou a avançar, as mãos vazias, mas preparadas.
Alia saltou com a faca.
Leto pulou quase até o teto e golpeou com o pé esquerdo. Atingiu Alia com um golpe de raspão na cabeça que a lançou ao chão com uma marca sangrenta na testa. A faca escapou-lhe da mão e deslizou pelo piso. Alia correu atrás da faca, mas encontrou Leto de pé à sua frente.
Alia hesitou, reunindo tudo que sabia do treinamento Bene Gesserit.
Levantou-se com o corpo frouxo e preparado.
Uma vez mais, Leto avançou sobre ela.
Alia fingiu que golpeava para a esquerda, mas seu ombro direito se ergueu e o pé direito lançou-se num chute preciso, que teria estripado um homem se o acertasse com precisão.
Leto aparou o golpe com o braço e agarrou-lhe o pé, erguendo-a por ele e girando Alia acima de sua cabeça. A velocidade com que a girava no ar, segura pelo pé, produziu um som de panos batendo e assoviando através do aposento, enquanto o manto dela golpeava seu próprio corpo.
Os outros se abaixaram, afastando-se.
Alia gritava e gritava, mas ainda assim ele continuava a girá-la. Daí a pouco ela silenciou.
Lentamente, Leto reduziu a velocidade dos giros e a abaixou gentilmente até o chão. Ela caiu encolhida e ofegante.
Leto inclinou-se sobre ela.
— Eu poderia tê-la atirado através de uma parede — ele disse. — Talvez isso tivesse sido melhor, mas agora nos encontramos no centro da luta. Você merece a sua chance.
Os olhos de Alia moviam-se loucamente de um lado para o outro.
— Eu conquistei aquelas vidas interiores — disse Leto. — Olhe para Ghani. Ela também pode...
Ghanima interrompeu:
— Alia, posso mostrar a você.
Não.
A palavra foi arrancada de Alia. Seu peito subia e descia, arfante, e vozes começaram a sair de sua boca. Eram desconexas, praguejando e suplicando.
— Você viu! Por que não ouviu?
E novamente:
— Por que está fazendo isso? Que está acontecendo?
E outra voz:
— Detenha-os! Faça-os parar!
Jessica cobriu os olhos e sentiu a mão de Faradin a apoiá-la. Alia ainda delirava:
— Eu vou matá-lo!
Maldições terríveis escapavam de sua boca.
— Vou beber o seu sangue!
E os sons de muitos idiomas começaram a sair dela, todos misturados e confusos.
Os guardas apinhados na passagem externa fizeram o sinal do verme, em seguida levaram os punhos fechados à orelha. Ela estava possuída!
Leto levantou-se, sacudindo a cabeça. Caminhou até a janela e, com três rápidos golpes, espatifou o vidro reforçado com cristal, supostamente inquebrável, de sua moldura.
Uma aparência matreira surgiu no rosto de Alia. Jessica ouviu alguma coisa como sua própria voz partindo daquela boca contorcida, uma paródia do controle Bene Gesserit.
— Todos vocês! Fiquem onde estão!
Abaixando as mãos, Jessica encontrou-as úmidas de lágrimas. Alia rolou de joelhos, ficando de pé.
— Não sabem quem eu sou? — perguntou ela. Era sua antiga voz, aquela voz suave e musical da jovem Alia que não mais existia. — Por que estão todos olhando para mim desse jeito? — Voltou os olhos suplicantes para Jessica. — Mãe, faça-os parar.
Jessica só conseguia sacudir a cabeça de um lado para o outro, consumida pelo derradeiro horror. Todas aquelas antigas advertências da Bene Gesserit eram verdadeiras. Olhou para Leto e Gham, lado a lado, junto de Alia. O que tais avisos significariam para esses pobres gêmeos?
— Vovó — disse Leto, e havia uma súplica em sua voz. — Devemos ter um julgamento de Possessão?
— Quem é você para falar em julgamento? — perguntou Alia, e sua voz era a de um homem queixoso, um homem autocrático e sensual, profundamente mergulhado na auto-indulgência.
Leto e Ghanima reconheceram a voz. O Velho Barão Harkonnen.
Ghanima ouviu a mesma voz começando a ecoar em sua própria cabeça, mas o portal interior foi fechado, e ela sentiu sua mãe de guarda lá dentro.
Jessica permaneceu em silêncio.
— Então, a decisão é minha — disse Leto. — E a escolha é sua, Alia.
Julgamento de Possessão ou... — Ele acenou em direção à janela aberta.
— Quem é você para me oferecer uma escolha? — perguntou Alia, e sua voz ainda era a do Barão.
— Demônio! — gritou Ghanima. — Deixe ela fazer sua própria escolha!
— Mamãe — suplicou Alia com sua voz de garotinha. — Mamãe, o que eles estão fazendo? O que você quer que eu faça? Ajude-me.
— Ajude-se você mesma — ordenou Leto, e por um instante ele viu a presença fragmentada de sua tia nos olhos dela, um olhar de desesperança que o fitou e se foi.
Mas o corpo dela se movia rígido, forçado. Ela oscilou, tropeçou, afastou-se de seu caminho, mas retornou a ele, cada vez mais perto da janela aberta.
Agora, a voz do Velho Barão escapava-lhe dos lábios:
— Pare! Pare, eu digo! Eu lhe ordeno! Pare! Sinta isto! — Alia levou as mãos à cabeça e cambaleou mais próxima da janela. Tinha a sacada contra suas coxas, então, mas a voz ainda delirava.
— Não faça isso! Pare e eu a ajudarei. Tenho um plano. Escute-me. Pare, eu digo. Espere! — Mas Alia afastou as mãos da cabeça, agarrou a moldura da janela e, num movimento convulsivo, empurrou o corpo sobre o parapeito e se foi.
Nem mesmo um grito lhe escapou enquanto caía.
Na sala, eles ouviram a multidão gritar, a pancada úmida quando Alia atingiu os degraus lá embaixo. Leto olhou para Jessica.
— Nós lhe dissemos para ter pena dela.
Jessica se virou e mergulhou o rosto na túnica de Faradin.
O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido frequentemente a abordagem ignorante daqueles que Chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos.
- O Jihad Butleriano por Harq al-Ada
— Ele corre à noite, primo, — disse Ghanima. — Ele corre. Já o viu correndo?
— Não, — respondeu Faradin.
Ele esperava com Ghanima fora do pequeno salão de audiências do Castelo, para onde Leto os convocara. Tvekanik encontrava-se a um lado, desconfortável junto a Lady Jessica, que parecia distante, como se sua mente vivesse num outro lugar. Passava pouco mais de uma hora dá refeição matinal, mas muitas coisas já tinham sido colocadas em movimento. Uma chamada à Corporação, mensagens para a CHOAM e a Landsraad.
Faradin achava difícil entender esses Atreides. Lady Jessica o havia advertido, mas a realidade deles ainda o deixará intrigado. Eles ainda falavam em noivado, embora a maioria das razões políticas para isso parecesse se haver dissolvido. Leto ia assumir o trono, poucas dúvidas pareciam restar quanto a isso.
Sua estranha pele viva teria de ser removida, é claro... mas, com o tempo...
— Ele corre para se cansar — disse Ghanima — É o Kralizec personificado. Nenhum vento jamais correu como ele corre. Ele é um borrão no topo das dunas. Já o vi. Ele corre e corre. E quando fica exausto, finalmente retorna e repousa a cabeça no meu colo “Peça à nossa mãe, dentro de você, para que ela ache um meio de eu morrer”, ele suplica.
Faradin olhou para ela. Na semana que se passara, desde o distúrbio na praça, o Castelo agitava-se com estranhos ritmos, misteriosas idas e vindas. Havia histórias sobre lutas violentas além da Muralha Escudo, que chegavam a ele através de Tvekanik, cuja assessoria militar fora solicitada.
— Eu não entendo você — disse Faradin. — Encontrar um meio para ele morrer?
— Ele me pediu que o preparasse — respondeu Ghanima. Não era a primeira vez que ela se impressionava com a curiosa inocência desse Príncipe Corrino. Seria algo que Jessica fizera ou alguma coisa nata nele?
— Para o quê?
— Ele não é mais humano — explicou Ghanima. — Ontem você me perguntou quando ele ia remover a pele viva. Nunca. É parte dele agora, e ele é parte dela. Leto calcula que talvez tenha 4 mil anos de vida antes que a metamorfose o destrua.
Faradin tentou engolir, sentindo a garganta seca.
— Percebe por que ele corre? — indagou Ghanima.
— Mas se ele vai viver tanto tempo e ser tão...
— Porque a memória como ser humano é muito rica dentro dele. Pense em todas aquelas vidas, primo. Não. Você não pode imaginar o que é porque não tem experiência disso. Mas eu sei. Eu posso imaginar sua dor. Ele deu mais que qualquer um antes dele. Nosso pai caminhou para o deserto, tentando fugir disso.
Alia tornou-se uma Abominação pelo medo que sentia. Nossa avó possui apenas uma infância indistinta nessa condição, e no entanto deve usar cada ardil Bene Gesserit para viver com isso que é para o que serve o treinamento de Reverenda Madre. Mas Leto! Ele está completamente só, nunca haverá nada igual.
Faradin sentia-se atordoado por essas palavras. Imperador por 4 mil anos?
— Jessica sabe — disse Ghanima, olhando para a avó. — Ele contou a ela na noite passada.
— Chamou a si mesmo de primeiro autêntico planejador a longo prazo na história humana.
— O que... ele planeja?
— O Caminho Dourado. Ele lhe explicará depois.
— E ele tem um papel para mim... nesse plano?
— Como meu marido — disse Ghanima. — Ele está assumindo o programa de procriação controlada da Irmandade. Tenho certeza de que minha avó lhe falou a respeito do sonho da Bene Gesserit de uma Reverenda do sexo masculino com poderes extraordinários. Ele está...
— Você quer dizer que nós vamos ser apenas...
— Não apenas. — Ela segurou-lhe o braço, apertando-o com calorosa familiaridade. — Ele vai ter muitas tarefas de grande responsabilidade para nós.
Isto é, quando não estivermos produzindo filhos.
— Bem, você é um pouco jovem ainda — disse Faradin, retirando o braço.
— Nunca mais cometa esse erro — ela disse, e havia um tom gelado em sua voz.
Jessica aproximou-se deles com Tvekanik.
— Tvek contou-me que a luta se espalhou para fora do planeta — disse Jessica. — O Templo Central de Biarek encontra-se sitiado.
Faradin achou-a estranhamente calma ao fazer tal declaração. Ele revira os relatórios com Tvekanik durante a noite. O fogo selvagem da rebelião estava se
espalhando pelo Império. Seria apagado, é claro, mas Leto teria um triste Império para restaurar.
— Aí vem Stilgar — disse Ghanima. Eles estavam esperando por ele. E
uma vez mais segurou o braço de Faradin.
O velho Naib Fremen havia entrado pela porta mais afastada, escoltado por dois antigos Comandos da Morte, companheiros de seus dias no deserto.
Todos estavam vestidos com mantos negros formais, com fímbrias brancas e tiras amarelas na cabeça, em sinal de luto. Aproximaram-se com passos firmes, mas Stilgar mantinha sua atenção sobre Jessica. Parou diante dela e inclinou a cabeça, atencioso.
— Você ainda se preocupa com a morte de Duncan Idaho — disse Jessica.
Não apreciava essa preocupação em seu velho amigo.
— Reverenda Madre — ele disse.
“De modo que vai ser desse jeito!”, pensou Jessica. “Tudo formal e de acordo com o código Fremen, com sangue difícil de eliminar.”
Ela disse:
— Do nosso ponto de vista, você apenas desempenhou o papel para o qual Duncan o escolheu. Não é a primeira vez que um homem dá a sua vida pelos Atreides. Por que eles o fazem, Stil? Você esteve pronto para isso mais de uma vez.
Por quê? Será que vocês sabem o quanto os Atreides dão em troca?
— Fico feliz pelo fato de a senhora não buscar desculpa para a vingança
— respondeu Stilgar. — Mas esses são assuntos que devo discutir com seu neto.
Esses assuntos podem separar-nos de vocês para sempre.
— Quer dizer que Tabr não irá homenageá-lo? — perguntou Ghanima.
— Quero dizer que reservo meu julgamento. — Olhou friamente para Ghanima. — Não gosto daquilo em que meus Fremen se tornaram — resmungou.
— Voltaremos aos nossos velhos costumes. Sem vocês, se for preciso.
— Por algum tempo, talvez — disse Ghanima. — Mas o deserto está morrendo, Stil. O que vocês vão fazer quando não houver mais vermes, não houver mais deserto?
— Não acredito nisso!
— Dentro de mais 100 anos — disse Ghanima, — haverá pouco mais de 50 vermes, e estes serão doentes, mantidos em reservas cuidadosamente preservadas. Sua especiaria será apenas para a Corporação Espacial, e o preço... —
Ela sacudiu a cabeça. — Vi os números de Leto. Ele esteve pelo planeta inteiro. Ele sabe.
— Esse é outro truque para manter os Fremen como seus vassalos?
— Quando é que você foi meu vassalo? — indagou Ghanima. Stilgar franziu a testa. Não importava o que ele fizesse ou dissesse, esses gêmeos sempre faziam parecer um erro seu!
— Na noite passada ele me contou a respeito de seu Caminho Dourado
— disse Stilgar intempestivamente. — Não gostei dele!
— Isso é estranho — comentou Ghanima, olhando para a avó. — A maior parte do Império vai lhe dar as boas-vindas.
— Destruição para todos nós — murmurou Stilgar.
— Mas todos anseiam pela Idade de Ouro — disse Ghanima. — Não é assim, vovó?
— Todos — concordou Jessica.
— Eles desejam o Império Faraônico que Leto lhes proporcionará —
continuou Ghanima.
— Desejam uma paz rica, com colheitas abundantes, comércio pleno e igualdade para todos, exceto o Governante Dourado.
— Será a morte dos Fremen! — protestou Stilgar.
— Como pode dizer isso? Não vamos precisar de soldados e homens de bravura para enfrentar uma insatisfação ocasional? Por quê, Stil? Você e os bravos companheiros de Tvek serão duramente pressionados para fazerem o trabalho.
Stilgar olhou para o oficial Sardaukar e uma estranha luz de compreensão passou entre eles.
— E Leto controlará a especiaria — relembrou-lhes Jessica.
— Ele a controlará totalmente — acrescentou Ghanima.
Faradin, ouvindo com a nova percepção que Jessica lhe ensinara, sentiu uma coisa ensaiada, um espetáculo preparado entre Ghanima e a avó.
— A paz vai perdurar, perdurar e perdurar — continuou Ghanima. — A memória da guerra quase desaparecerá. Leto conduzirá a humanidade através desse jardim por pelo menos 4 mil anos.
Tvekanik lançou um olhar indagador para Faradin e pigarreou.
— Sim, Tvek? — perguntou Faradin.
— Eu queria falar com o senhor em particular, Meu Príncipe. — Faradin sorriu, conhecendo a pergunta que estaria na mente militar de Tvekanik, sabendo que pelo menos dois outros entre os presentes também reconheceriam essa questão.
— Eu não vou vender os Sardaukar — ele disse.
— Não é preciso — disse Ghanima.
— Escutou essa criança? — perguntou Tvekanik.
Estava indignado. O velho Naib ali entendia os problemas trazidos por toda essa trama, mas ninguém mais conhecia nada da situação!
Ghanima sorriu severamente e disse:
— Diga-lhe, Faradin.
Faradin suspirou. Era fácil esquecer a estranheza dessa criança que não era criança. Podia imaginar uma vida inteira casado com ela, as reservas ocultas em cada intimidade. Não era uma perspectiva totalmente agradável, mas ele estava começando a reconhecer sua inevitabilidade. O absoluto controle dos suprimentos de especiaria, que se estavam reduzindo! Nada se moveria no universo sem a especiaria.
— Depois, Tvek — disse Faradin.
— Mas...
— Depois, eu disse! — Pela primeira vez ele usou a Voz com Tvekanik, viu o homem piscar, surpreso, e ficar em silêncio.
Jessica controlou um sorriso.
— Ele fala de paz e morte ao mesmo tempo — murmurou Stilgar. —
Idade de Ouro!
Ghanima disse:
— Ele vai liderar os seres humanos através do culto da morte até o ar livre da vida exuberante! Ele fala de morte porque isso é necessário, Stil. É uma tensão através da qual os vivos saberão que estão vivos. E quando seu Império cair... Oh, sim, ele cairá. Você pensa que isto agora é o Kralizec, mas o Kralizec ainda virá. E
quando vier os seres humanos terão renovada sua memória de o que é estar vivo. E
a memória persistirá enquanto existir um único ser humano vivo. Nós passaremos por essa prova uma vez mais, Stil. E sairemos dela. Sempre nos erguemos de nossas próprias cinzas. Sempre. Faradin, ouvindo suas palavras, agora entendia o significado do que ela dissera a respeito de Leto correndo. “Ele não será humano.”
Stilgar ainda não se convencera.
— A extinção dos vermes — resmungou.
— Ah, os vermes voltarão — assegurou Ghanima. — Todos estarão mortos dentro de 200 anos, mas retornarão.
— Como... — Stilgar não terminou a frase.
Faradin sentiu sua mente inundada pela revelação. Ele sabia o que Ghanima ia dizer, antes que ela falasse.
— A Corporação apenas sobreviverá nos anos mais difíceis, e somente por causa de suas reservas e das nossas — explicou ela. — Mas haverá abundância após o Kralizec. E os vermes retornarão depois que meu irmão voltar às areias.
Como aconteceu com tantas outras religiões, o Elixir Dourado da Vida do Muad'Dib degenerou numa mágica exterior. Seus signos místicos tornaram-se meros símbolos para profundos processos psicológicos, e esses processos, é claro, descontrolaram-se. O que eles necessitavam era de um deus vivo, e não possuíam um. Uma situação que o filho do Muad'Dib tem corrigido.
- Declaração atribuída a Lu Tungpm (Lu, o Hóspede da Caverna) Leto estava sentado no trono do Leão para aceitar a homenagem das tribos.
Ghanima encontrava-se ao seu lado, um degrau abaixo. A cerimônia no Grande Salão prosseguiu por horas. Tribo após tribo, os Fremen passaram diante dele, através de seus delegados e seus Naib s. Cada grupo trazia presentes adequados a um deus dotado de terríveis poderes. Um deus da vingança que lhes prometia a paz.
Ele os assustara até a submissão na semana anterior, realizando seus feitos para a arifa reunida de todas as tribos. Os juizes o tinham visto caminhar através de um fosso de fogo e emergir ileso para demonstrar que sua pele não tinha marcas,
convidando-os a observá-lo de perto. Ordenara então que eles o golpeassem com facas, e sua pele impenetrável cobrira-lhe o rosto enquanto eles o esfaqueavam inutilmente. Ácidos escorreram sobre ele deixando apenas uma leve névoa. Ele tomara seus venenos e rira deles.
No final, chamara um verme e ficara em frente a ele, olhando-o na boca.
Caminhara então até o campo de pouso de Arrakeen, onde atrevidamente derrubara uma fragata da Corporação, erguendo-a por uma de suas aletas de pouso.
A arifa relatara tudo isso com uma admiração temerosa, e agora os delegados tribais vinham para selar sua submissão.
O espaço abobadado do Grande Salão, com seus sistemas de isolamento acústico, tendia a absorver ruídos agudos, mas um constante arrastar de pés se movendo insinuava-se nos sentidos, juntamente com a poeira e ,os odores de pedra pulverizada trazidos do exterior.
Jessica, que se recusara a participar, observava de um alto orifício de espionagem atrás do trono. Sua atenção fora captada por Faradin e pela compreensão de que ambos, ela e Faradin, haviam sido manobrados. É claro que Leto e Ghanima haviam previsto as ações da Irmandade! Os gêmeos podiam consultar dentro de si próprios um conjunto de Bene Gesserit s maior do que todas as que agora viviam no Império.
Ela sentia uma amargura especial pelo modo como a mitologia da Irmandade havia levado Alia à destruição. “Medo erguido sobre o medo!” Os hábitos de gerações haviam imprimido nela o destino da Abominação. Alia não conhecera qualquer esperança e é claro que havia sucumbido. O destino dela tornava a conquista de Leto e Ghanima ainda mais difícil de aceitar.
Não apenas um escapara à armadilha, mas dois. A vitória de Ghanima sobre suas vidas interiores e sua insistência em que Alia só merecia piedade eram a coisa mais amarga de todas. A supressão hipnótica sob tensão, aliada ao namoro de um ancestral benigno, tinha salvado Ghanima. Isso podia ter salvo Alia, mas, sem esperanças, nada fora tentado, até que fosse muito tarde. A água de Alia fora derramada na areia.
Jessica suspirou e voltou sua atenção para Leto, no trono. Um gigantesco canopo, contendo a água do Muad'Dib, ocupava um lugar de honra à sua direita.
Ele se gabara para Jessica de que seu pai dentro dele rira desse gesto, ainda que o admirasse.
A jarra e a ostentação haviam firmado sua resolução de não participar da cerimônia. Enquanto vivesse, sabia que nunca aceitaria Paul falando pela boca de Leto. Estava alegre pelo fato de a Casa Atreides ter sobrevivido, mas as coisas-que-podiam-ter-sido eram demais para que pudesse suportar.
Faradin estava sentado com as pernas cruzadas ao lado da jarra com a água do Muad'Dib. Era a posição do escriba real, honraria recentemente concedida e aceita.
Faradin sentia que se ajustava muito bem a essa nova realidade, embora Tvekanik ainda estivesse furioso e previsse terríveis consequências.
Tvekanik e Stilgar haviam formado uma sociedade na desconfiança que parecia divertir Leto.
Nas horas da cerimônia de homenagem, Faradin passara da admiração ao tédio, e de volta à admiração. Eram um interminável fluxo de humanidade, esses inigualáveis combatentes. Sua lealdade renovada ao Atreides no trono não podia ser questionada. Colocavam-se em submisso terror diante dele, totalmente amedrontados pelo que a arifa tinha relatado.
A cerimônia foi atingindo o seu término. O último Naib colocou-se diante de Leto Stilgar, na “posição de honra à retaguarda”. Em vez de cestos carregados de especiaria, jóias de fogo ou qualquer outro presente caro, como os que se encontravam em montes ao redor do trono, Stilgar trazia uma faixa de pano para a testa, feita de fibra de especiaria trançada. O Falcão Atreides fora bordado nela em verde e ouro.
Ghanima o reconheceu e olhou de lado para Leto.
Stilgar deixou a faixa no segundo degrau abaixo do trono e se curvou.
— Eu lhe trago a faixa usada por sua irmã quando a levei para o deserto a fim de protegê-la, — ele disse.
Leto controlou um sorriso..
— Sei que você atravessou um período difícil, Stilgar — disse Leto. —
Existe alguma coisa aqui que você deseje receber como pagamento? — E indicou as pilhas de dispendiosos presentes.
— Não, Meu Senhor.
— Eu aceito seu presente, então — disse Leto. Inclinou-se para diante, pegou a bainha do manto de Ghanima e lhe arrancou uma fina tira. — Eu lhe dou em troca uma tira do manto de Ghanima. O manto que ela usava quando foi raptada de seu acampamento no deserto, forçando-me a salvá-la.
Stilgar aceitou o pano com a mão trêmula.
— Zomba de mim, Meu Senhor?
— Zombar de você? Por meu nome, Stilgar, eu nunca zombaria de você.
Eu lhe dei uma dádiva sem preço. Eu lhe ordeno que a leve sempre junto a seu coração, como uma lembrança de que todos os seres humanos são sujeitos a erro e que todos os lideres são humanos.
Um fino riso escapou de Stilgar.
— Que Naib o senhor teria dado!
— Que Naib eu sou! Naib dos Naib s. Nunca se esqueça disso!
— Como diz, Meu Senhor! — E Stilgar engoliu em seco, relembrando o relatório da arifa. E pensou. “Uma vez eu pensei em matá-lo. Agora, é muito tarde.”
Seu olhar voltou-se para a jarra, de um dourado opaco e gracioso, com o topo verde.
— Aquela é água da minha tribo.
— E da minha — disse Leto. — Eu lhe ordeno que leia a inscrição. Leia alto, para que todos possam ouvir.
Stilgar lançou um olhar indagador para Ghanima, mas ela o devolveu erguendo o queixo, uma fria resposta que o fez sentir um arrepio.
Estariam esses moleques Atreides tentando pegá-lo para responder por sua impetuosidade e seus enganos?
Leia insistiu Leto, apontando.
Lentamente, Stilgar subiu os degraus e se curvou para olhar a jarra. Daí a pouco ele leu em voz alta:
— Esta água é a derradeira essência, fonte de criatividade fluindo para o exterior. Embora imóvel, simboliza todo o movimento. — E sussurrou para Leto:
— O que isto significa, Meu Senhor?
Sentia-se admirado com as palavras, tocado dentro de si próprio num lugar que não podia entender.
— O corpo do Muad'Dib é uma concha oca, como a que é abandonada por um inseto — explicou Leto. — Ele dominou o mundo interior enquanto desprezava o exterior, e isso levou à catástrofe. Ele dominou o mundo exterior enquanto excluía o mundo interior, e isso entregou seus descendentes aos demônios. O Elixir Dourado desaparecerá de Duna, e no entanto a semente do Muad'Dib prossegue, e sua água move o nosso universo.
Stilgar curvou a cabeça. Coisas místicas sempre o deixavam confuso.
— O início e o fim são unos — continuou Leto. — Você vive no ar, mas não o vê. Uma fase terminou. E desse término se desenvolve o início do seu oposto. Assim, nós teremos o Kralizec. E tudo retornará depois, de uma forma alterada. Você sente pensamentos em sua cabeça, seus descendentes os sentirão em seus estômagos. Volte para o Sietch Tabr, Stilgar. Gurney Halleck se reunirá a você lá, como meu assessor em seu Conselho.
— Não confia em mim, Meu Senhor?
A voz de Stilgar era baixa.
— Totalmente, de outro modo não lhe mandaria o Gurney. Ele começará a recrutar a nova força de que logo necessitaremos. Aceito seu juramento de fidelidade, Stilgar. Está dispensado.
Stilgar se curvou e recuou, descendo os degraus e se voltando para o lado esquerdo do Salão. Os outros Naib s o seguiram, de acordo com o princípio Fremen de que “os últimos serão os primeiros”. Mas algumas de suas perguntas podiam ser ouvidas do trono, enquanto se afastavam.
— Do que estavam falando lá em cima, Stil? E o que significam aquelas palavras na água do Muad'Dib?
Leto disse a Faradin:
— Pegou tudo isso, Escriba?
— Sim, Meu Senhor.
— Minha avó me diz que o treinou bem nos processos mnemónicos da Bene Gesserit. Isso é bom. Não o quero escrevendo ao meu lado.
— Como ordenar, Meu Senhor.
— Venha e fique ao meu lado — disse Leto.
Faradin obedeceu, grato, mais do que nunca, pelo treinamento de Jessica.
Quando se aceitava o fato de que Leto não era mais humano e não mais podia pensar como os pensam os humanos, o curso de seu Caminho Dourado se tornava ainda mais assustador.
Leto olhou para Faradin. Os guardas encontravam-se muito longe para poderem ouvir. Somente os conselheiros da Presença Interior permaneciam no piso do Grande Salão, e eles se reuniam em grupos subservientes, bem além do primeiro degrau. Ghanima aproximara-se para repousar um braço no recosto do trono.
— Ainda não concordou em me entregar seus Sardaukar — disse Leto. —
Mas o fará.
— Eu lhe devo muito, mas não tanto — disse Faradin.
— Você acha que eles não se casarão bem com os meus Fremen?
Tão bem quanto aqueles dois novos amigos, Stilgar e Tvekanik.
— E no entanto recusa?
— Eu aguardo sua oferta.
— Então, eu devo fazer a oferta, sabendo que nunca irá repeti-la. Rezo para que minha avó tenha feito bem a sua parte e que você esteja preparado para entender.
— O que devo entender?
— Existe sempre uma mística predominante em qualquer civilização —
disse Leto. — Ela se ergue como uma barreira contra a mudança, e isso sempre deixa as gerações futuras despreparadas ante a traição do universo. Todas as místicas são iguais ao construírem essas barreiras: a mística religiosa, a mística do herói-líder, a mística do messias, a mística da ciência-tecnologica, ou a própria mística da natureza. Nós vivemos num Império moldado por essa mística, e agora esse Império está desabando porque a maioria das pessoas não distingue entre a mística e o seu universo. Está vendo, a mística é como uma possessão demoníaca, ela tende a dominar a consciência, tornando-se todas as coisas para o observador.
— Eu reconheço a sabedoria de sua avó nessas palavras — disse Faradin.
— Muito bem, primo. Ela me perguntou se eu era uma Abominação e eu respondi negativamente. Essa foi minha primeira traição. Percebe? Ghanima escapou disso, mas eu não. Fui forçado a equilibrar as vidas interiores sob a pressão de doses excessivas de melange. Tive de buscar a cooperação ativa dessas vidas dentro de mim. Fazendo isso, evitei as mais malignas e escolhi uma ajuda dominante, um auxiliar lançado sobre mim pela consciência interior, que era meu pai. Não sou, em verdade, meu pai ou esse auxiliar. E então, novamente, não sou o Segundo Leto.
— Explique-me.
Você tem um modo direto admirável. Eu sou uma comunidade dominada por alguém que era o mais antigo e o mais poderoso. Ele foi o pai de uma dinastia que perdurou por 3 mil dos nossos anos. Seu nome era Harum, e até que sua linhagem desaparecesse, nas fraquezas congênitas e superstições dos descendentes, seus súditos viveram numa grandeza rítmica. Eles se moviam inconscientes às mudanças das estações. Geravam indivíduos que tendiam a ter vida curta, ser
supersticiosos e facilmente liderados pelo deus-rei. Tomados como um todo, eram um povo poderoso. Sua sobrevivência como espécie transformou-se num hábito.
— Eu não gosto do jeito disso — disse Faradin.
— Nem eu, realmente, mas é o universo que vou criar.
— Por quê?
— É uma lição que aprendi em Duna. Nós mantemos a presença da morte como um espectro dominante entre os que vivem aqui. Com essa presença, os mortos mudam os vivos. As pessoas de tal sociedade voltam-se para seus próprios ventres. Mas quando vier a época do oposto, quando eles se erguerem, serão grandes e belos.
— Isso não respondeu a minha pergunta — protestou Faradin.
— Não confia em mim, primo?
— Nem a sua avó confia.
— E com boa razão. Mas ela aquiesce porque deve. As Bene Gesserit s são pragmáticas, no final. Eu compartilho a visão que elas têm de nosso universo, você sabe. Você traz as marcas desse universo. Você retém os hábitos do governo, catalogando tudo à sua volta em termos de sua possível ameaça ou valor.
— Concordei em ser seu escriba.
— Porque o divertia e lisonjeava seu verdadeiro talento, que é o de historiador. Você é um gênio para ler o presente em termos do passado. Você me antecipou em várias ocasiões.
— Não gosto de suas insinuações veladas.
— Bom. Você veio da ambição infinita até o seu presente estado inferiorizado. Será que minha avó não lhe advertiu quanto ao infinito? Ele nos atrai como um farol na noite, cegando-nos para os excessos que pode inflingir sobre o que é finito.
— Aforismos da Bene Gesserit! — protestou Faradin.
— Mas muito mais precisos — continuou Leto. — A Bene Gesserit acreditava poder prever o curso da evolução. Mas deixou de levar em conta suas próprias mudanças no curso dessa evolução. Elas presumiram que ficariam estáticas enquanto seu plano de procriação evoluía. Não tenho tal cegueira reflexiva. Olhe cuidadosamente para mim, Faradin, pois não sou mais humano.
— Assim me assegurou sua irmã. — Faradin hesitou, e então perguntou:
— Abominação?
— Pela definição da Irmandade, talvez. Harum é cruel e autocrático. Eu compartilho sua crueldade. Marque-me bem: tenho a crueldade de um lavrador, e este universo humano é a minha fazenda. Os Fremen um dia tiveram águias domesticadas como animais de estimação, mas eu terei um Faradin domesticado.
O rosto de Faradin ficou vermelho.
— Cuidado com minhas garras, primo. Bem sei que meus Sardaukar cairiam diante de seus Fremen. Mas iríamos feri-los gravemente, e existem chacais esperando para pegar os fracos e feridos.
— Vou usá-lo bem, isso eu prometo — disse Leto. Inclinou-se para diante. — Não lhe disse que não sou mais humano? Acredite-me, primo. Eu não
gerarei nenhum descendente, pois não possuo mais órgãos genitais. E isso força minha segunda traição.
Faradin esperou em silêncio, percebendo afinal a direção dos argumentos de Leto.
— Devo me voltar contra cada preceito dos Fremen — disse Leto. —
Eles irão aceitar, pois não podem fazer mais nada. Eu o mantenho aqui sob a atração do noivado, mas não haverá noivado entre você e Ghanima. Minha irmã se casará comigo!
— Mas você...
— Casar-se, eu disse. Ghanima deve continuar a linhagem Atreides. Existe também a questão do programa de procriação Bene Gesserit, que agora é o meu programa de procriação.
— Eu recuso — disse Faradin.
— Recusa-se a ser o pai de uma dinastia Atreides?
— Que dinastia? Você ocupará o trono por milhares de anos.
— E moldarei seus descendentes à minha imagem. Será o mais intensivo e abrangente programa de treinamento em toda a história. Nós seremos um ecossistema em miniatura. Percebe? Seja qual for o sistema que um animal escolha para sobreviver, deve basear-se num padrão de comunidades interligadas, interdependentes, trabalhando juntas para o objetivo comum que é o sistema. E
esse sistema produzirá os governantes mais inteligentes jamais vistos.
— Você usa palavras extravagantes na mais desagradável...
— Quem irá sobreviver ao Kralizec? — perguntou Leto. — E eu lhe prometo, o Kralizec virá.
— Você é um homem louco! Vai destruir o Império.
— É claro que vou... e não sou um homem. Mas criarei uma nova consciência em todos os homens. Eu lhe digo que debaixo do deserto de Duna existe um lugar secreto com o maior tesouro de todos os tempos. Eu não minto.
Quando o último verme morrer e a última colheita de melange for extraída de nossas areias, esses tesouros profundos saltarão pelo nosso universo. E enquanto o poder do monopólio da especiaria se apaga e as reservas ocultas deixam sua marca, novos poderes surgirão através de nosso reino. É tempo de os humanos aprenderem uma vez mais a viver seus instintos.
Ghanima tirou o braço do recosto do trono, veio para junto de Faradin e segurou-lhe a mão.
— Como minha mãe não era esposa, você não será marido — disse Leto.
— Mas talvez haja amor, e isso será o bastante.
— Cada dia, cada momento, traz a mudança — disse Ghanima. — Nós aprendemos ao reconhecer esses momentos.
Faradin sentiu o calor da mãozinha de Ghanima como uma presença insistente. Reconheceu os recuos e fluxos dos argumentos de Leto, mas nem uma vez a Voz fora usada. Era um apelo às entranhas, não à mente.
— É isso que oferece por meus Sardaukar? — indagou ele.
— Muito, muito mais, primo. Eu ofereço aos seus descendentes o Império. E a você ofereço a paz.
— E qual será o resultado de sua paz?
— O oposto — disse Leto, a voz calmamente zombeteira. Faradin sacudiu a cabeça.
— Acho muito alto o preço para meus Sardaukar. Mas devo permanecer como o Escriba, o pai secreto de sua linhagem real?
— Deve.
— Vai tentar forçar-me a seu hábito de paz?
— Vou.
— Resistirei a você em cada dia de minha vida.
— Mas isso é o que espero de você, primo. Foi por isso que o escolhi. E
vou fazê-lo oficialmente. Vou lhe dar um novo nome. A partir deste momento, você será Chamado Aquele que Quebra o Hábito, que em nossa língua é Harq alAda. Vamos, primo, não seja obtuso. Minha mãe o ensinou bem. Dê-me seus Sardaukar.
— Dê-os a ele — ecoou Ghanima. — Ele os terá, de um jeito ou de outro.
Faradin sentiu o medo pela primeira vez na voz dela. Amor, então? Leto apelava, não à razão, mas a um salto intuitivo.
— Leve-os — disse Faradin.
— Por certo — disse Leto.
Ele se ergueu do trono num movimento curiosamente fluido, como se mantivesse seu terrível poder sob o mais delicado controle. Desceu até o nível em que Ghanima estava e moveu-a gentilmente, até que ela olhasse na direção oposta a ele. Voltou-se e colocou as costas contra as dela.
— Observe isto, primo Harq al-Ada. Este é o modo como sempre será conosco. Permaneceremos assim quando estivermos casados. Costas contra costas, um olhando para longe do outro a fim de proteger a única coisa que sempre fomos.
— Voltou-se, olhando zombeteiramente para Faradin e abaixando a voz: —
Lembre-se disso, primo, quando estiver face-a-face com Ghanima. Lembre-se disso quando sussurrar o amor e as coisas suaves, quando estiver mais tentado pelos hábitos de minha paz e de meu contentamento. Suas costas permanecerão expostas.
Afastando-se deles, Leto desceu os degraus para os cortesãos que esperavam, arrastando-os em sua esteira, como satélites, e deixando o salão.
Ghanima uma vez mais tomou a mão de Faradin, mas seu olhar ainda fitava além da extremidade do salão, muito depois de Leto ter partido.
— Um de nós tinha de aceitar a agonia — ela disse. — E ele sempre foi o mais forte.
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Você terminou Os Filhos de Duna
Frank Herbert