Os Filhos de Duna

Frank Herbert · Capítulo 4 de 8 · parte 2/2

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Os Filhos de Duna

— Minha Senhora, ocorreu-me que pode não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Fomos mandados na frente por al-Fali para prepará-la — disse um dos jovens Fremen.

Jessica sentiu um súbito aperto no peito, mas sua voz permaneceu calma.

— Preparar-me para quê?

Stilgar enviou Duncan Idaho como seu mensageiro. Jessica puxou o capuz aba sobre os cabelos, num gesto inconsciente. “Duncan?” Mas ele era um instrumento de Alia.

O Fremen que falara deu meio passo adiante,

— Idaho diz que veio para conduzi-la a um lugar seguro, mas al-Fali não vê como isso possa acontecer.

— Parece muito estranho mesmo — concordou Jessica. — Mas existem coisas mais estranhas em nosso universo. Tragam-no.

Eles se entreolharam, mas obedeceram, saindo juntos com tanta pressa que causaram outro rasgo na cortina gasta.

Daí a pouco Idaho passava pela cortina, seguido pelos dois Fremen e com al-Fali à retaguarda, a mão na faca cristalina, Idaho parecia calmo.

Usava as vestes comuns de um Guarda da Casa Atreides, uniforme que pouco mudara em mais de 14 séculos. Arrakis havia substituído a lâmina de plasteel com punho de ouro por uma faca cristalina, mas esse era um detalhe menor.

— Disseram-me que deseja me ajudar.

— Embora possa parecer curioso — ele disse.

— Mas Alia não o enviou para me raptar? — perguntou Jessica.

Um leve soerguimento das sobrancelhas negras foi o único indício de sua surpresa. Os facetados olhos Tleilaxu continuaram a fitá-la com reluzente intensidade.

— Essas foram as ordens — dela confirmou ele.

Os nós dos dedos de al-Fali ficaram brancos sobre o punho da faca cristalina, mas ele não a desembainhou.

— Passei boa parte desta noite revendo os erros que cometi com minha filha — ela disse.

— Foram muitos — concordou Idaho. — E eu compartilhei da maioria deles.

Jessica percebia agora que os músculos do queixo de Idaho estavam tremendo.

— É fácil ouvir os argumentos que nos desviam de nosso caminho —

comentou Jessica. — Eu queria deixar este lugar... Você... você... desejava uma garota a quem via como uma versão mais jovem de mim mesma.

Ele aceitou essas palavras em silêncio.

— Onde estão meus netos? — ela quis saber, sua voz tornando-se dura.

Ele piscou e então disse:

— Stilgar acredita que rumaram para o deserto, a fim de se esconderem.

— Talvez tenham percebido a crise se aproximando.

Jessica olhou para al-Fali, que assentiu, reconhecendo que ela tinha previsto isso.

— O que Alia está fazendo? — indagou ela.

— Arrisca-se a uma guerra civil — ele respondeu.

— Acredita que vai chegar a esse ponto? — Idaho encolheu os ombros.

— Provavelmente não. Estes são tempos mais brandos. Há mais pessoas desejando ouvir argumentos agradáveis.

— Concordo. Bem, e quanto aos meus netos?

— Stilgar os encontrará... se...

— Sim, percebo. — Estava por conta de Gurney Halleck, então. Virou-se para olhar para a parede de rocha à sua esquerda. Agora, Alia agarra o poder com força.Olhou de novo para Idaho. — Você compreende? O poder deve ser seguro levemente e desse modo usado. Segurá-lo com muita força é ser dominado por ele e, assim, tornar-se sua vítima.

— Como o meu Duque sempre me disse — lembrou Idaho. De algum modo, Jessica sabia que ele se referia ao velho Leto e não a Paul. E perguntou.

— Para onde devo ser levada neste... sequestro?

Idaho olhou-a como se tentasse enxergar através das sombras criadas pelo capuz.

Al-Fali deu um passo adiante:

— Minha Senhora, não pensa seriamente em...

— Não é meu direito decidir meu próprio destino? — perguntou-lhe Jessica.

— Mas este... — A cabeça de al-Fali indicou Idaho.

— Este era meu leal guardião antes mesmo de Alia nascer. Antes de morrer, salvando a vida de meu filho e a minha. Nós Atreides sempre honramos certas obrigações.

— Então virá comigo? — perguntou Idaho.

— Para onde a levará? — quis saber al-Fali.

— É melhor que você não saiba — disse Jessica.

Al-Fali olhou zangado, mas permaneceu em silêncio. Sua face revelava indecisão, a compreensão da sabedoria implícita nas palavras dela, mas uma dúvida ainda não resolvida quanto à confiança em Idaho.

— Que será dos Fedaikin que me ajudaram? — perguntou Jessica.

— Terão a proteção de Stilgar se puderem chegar a Tabr — respondeu Idaho.

Jessica encarou al-Fali.

— Eu lhe ordeno que vá para lá, meu amigo. Stilgar pode usar os Fedaykin na busca de meus netos.

O velho Naib abaixou os olhos.

— Como ordena a mãe do Duaud'Dib.

“Ele ainda obedece a Paul”, ela pensou.

— Devemos sair daqui rapidamente — aconselhou Idaho. — A busca decerto incluirá este lugar, e bem cedo.

Jessica inclinou-se para a frente e se levantou com aquela graça fluida que nunca abandonava inteiramente uma Bene Gesserit, mesmo quando sentia as dores da idade. E Jessica se sentia velha agora, após uma noite de vôo. Mesmo enquanto caminhava, sua mente permanecia voltada para aquela determinada conversa com seu neto. Que estaria ele realmente fazendo?

Sacudiu a cabeça, ocultando o movimento ao ajustar o capuz. Era tão fácil cair na armadilha de subestimar Leto. A vida com crianças comuns condicionava a uma falsa visão da herança de que os dois gêmeos desfrutavam.

Sua atenção foi captada pela pose de Idaho. Ele se encontrava naquele relaxamento que serve de preparação para a violência, um pé adiante do outro, posição que ela mesma lhe ensinara. Jessica olhou rapidamente para os dois jovens Fremen e para al-Fali. Dúvidas ainda incomodavam o velho Fremen, e os jovens sabiam disso.

— Eu confio minha vida a este homem — disse ela, dirigindo-se a al-Fali.

— E não é a primeira vez.

— Minha Senhora — protestou al-Fali. — É que... — olhou furioso para Idaho. — Ele é o marido da Coan-Teen!

— E foi treinado pelo meu Duque e por mim.

— Mas ele é um ghola. — As palavras foram arrancadas de al-Fali. — O ghola de meu filho — lembrou Jessica.

Era demasiado para um antigo Fedaykin que um dia jurara apoiar o Muad'Dib até a morte. Ele suspirou, andou para o lado e gesticulou para os dois jovens abrirem as cortinas.

Jessica passou, com Idaho atrás dela. Voltou-se e, do portal, falou com al-Fali:

— Você deve ir ao encontro de Stilgar. Deve confiar nele.

— Sim... — Ela ainda percebia dúvidas na voz do homem. Idaho tocou-lhe o braço.

— Devemos seguir imediatamente. Há alguma coisa que deseje levar?

— Somente meu senso comum.

— Por quê? Teme estar cometendo um erro? — Ela ergueu o olhar para ele.

— Você sempre foi o melhor piloto de tópteros a nosso serviço, Duncan.

Isso não o divertiu.

Colocou-se à frente dela, caminhando rapidamente, percorrendo o mesmo caminho por onde viera. Al-Fali manteve-se um passo atrás de Jessica:

— Como sabia que ele veio num tóptero?

— Ele não está usando um traje-destilador — respondeu Jessica.

Al-Fali pareceu envergonhado ante essa óbvia percepção. Mas não se calou.

— Nosso mensageiro o trouxe aqui diretamente, desde o lugar onde está Stilgar. Eles podem ter sido vistos.

— Você foi visto, Duncan? — indagou Jessica, olhando para as costas de Idaho.

— Sabe muito bem que não. Voamos mais baixo que os topos das dunas.

Viraram por uma passagem lateral que descia em degraus espirais para finalmente desembocar numa vasta câmara, bem-iluminada por globos colocados no alto da rocha marrom. Um único ornitóptero voltava-se para a parede oposta, agachado como um inseto que espera o momento para saltar.

A parede podia ser rocha falsa: uma porta abrindo-se para o deserto.

Pobre como era esse sietch, ainda mantinha seus instrumentos de mobilidade e segredo.

Idaho abriu a porta do ornitóptero para ela, ajudando-a a subir para o assento do lado direito. Ao passar por ele, Jessica notou a transpiração em sua testa, onde caíra uma mecha de cabelo negro. Espontaneamente, Jessica se viu relembrando aquela cabeça a verter sangue numa caverna ruidosa. As bolinhas metálicas dos olhos Tleilaxu trouxeram-na de volta dessa recordação. Nada mais era aquilo que parecia. Ela se ocupou em prender o cinto de segurança.

— Faz um longo tempo desde que voou comigo, Duncan.

— Um tempo longo e distante — disse ele enquanto já verificava os controles.

Al-Fali e os dois jovens Fremen já aguardavam junto aos controles da rocha falsa, preparando-se para abri-la.

— Acha que ainda guardo dúvidas a seu respeito? — perguntou Jessica, falando suavemente com Idaho.

Ele mantinha sua atenção presa ao instrumental do motor, acionando os rotores e observando as agulhas movimentarem-se nos mostradores. Um sorriso surgiu em sua boca, um gesto rápido e duro de suas feições severas que se foi tão rapidamente quanto aparecera.

— Ainda sou uma Atreides — disse Jessica. — Alia não é mais.

— Não tema, eu ainda sirvo aos Atreides.

— Alia não é mais uma Atreides — repetiu Jessica.

— Não precisa me lembrar! — retrucou ele, furioso. — Agora, cale-se e deixe-me pilotar esta coisa.

O desespero em sua voz era totalmente inesperado, em desacordo com o Idaho que ela conhecera. Dominando um renovado sentimento de medo, Jessica indagou:

— Para onde estamos indo, Duncan? Você pode me dizer agora.

Mas ele acenou para al-Fali e a falsa rocha se abriu para a brilhante luz prateada do sol. O ornitóptero saltou para diante e para cima, suas asas pulsando com o esforço, os jatos rugindo, e eles galgaram um céu vazio.

Idaho tomou o curso sudoeste, em direção à cordilheira Sahava, que podia ser vista como uma linha negra sobre a areia.

Daí a pouco ele disse:

— Não pense em mim com severidade, Minha Senhora.

— Não penso em você com severidade desde aquela noite em que entrou em nosso grande salão de Arrakeen, rugindo, bêbado com a cerveja de especiaria, — ela disse, mas as palavras dele haviam renovado suas dúvidas, e Jessica assumiu a postura de relaxada preparação de uma completa defesa prana-bindu.

— Eu me lembro daquela noite muito bem — ele disse. — Eu era muito jovem e inexperiente.

— Mas o melhor mestre espadachim da comitiva do meu Duque.

— Não exatamente, Minha Senhora. Gurney podia superar-me seis vezes em cada 10. — Voltou-se para ela. — Onde está o Gurney?

— Cuidando de algo para mim. — Ele sacudiu a cabeça. — Sabe para onde nos dirigimos?

— Sim, Minha Senhora.

— Então me diga.

— Muito bem. Prometi que criaria uma trama possível contra a Casa Atreides. E só existe realmente um modo de se fazer tal coisa. — Apertou um botão no volante de controle e um casulo contentor saltou do assento de Jessica, envolvendo-a num invólucro macio, porém inquebrável, que deixava somente sua cabeça de fora. — Eu estou levando-a para Salusa Secundus, — ele disse. — Para Faradin.

Num raro espasmo incontrolado, Jessica lançou-se contra as placas que a envolviam e sentiu-as apertarem-se contra seu corpo, aliviando a pressão somente quando ela relaxou, mas não antes que sentisse o mortífero shigafio escondido nas bainhas protetoras.

— A liberação de shigafio foi desligada — disse Idaho sem olhar para ela.

— Oh, sim, não tente usar a Voz contra mim. Faz longo tempo desde aqueles dias em que a senhora podia movimentar-me desse modo. — Olhou para ela. — Os Tleilaxu me protegeram contra esses ardis.

— Você esta obedecendo a Alia — disse Jessica. — E ela...

— Não, Alia não, — respondeu ele. — Obedeço às ordens do Pregador.

Ele quer que a senhora ensine a Faradin como um dia ensinou a... Paul.

Jessica ficou gelada em silêncio, lembrando-se das palavras de Leto dizendo que ela iria encontrar um aluno interessante. Daí a pouco, perguntou:

— Esse Pregador... é o meu filho?

A voz de Idaho pareceu vir de uma grande distância:

— Eu desejaria saber.

O universo está apenas lá, só há um meio pelo qual um Fedaykin pode observá-lo e permanecer senhor de seus sentidos. O universo nem promete nem ameaça.

Ele contém coisas além do nosso controle: a queda de um meteoro, a erupção de um estouro de esedaria, o envelhecimento e a morte. Essas são as realidades do universo e elas devem ser encaradas, a despeito de como você se sinta em relação a elas. Não se podem afastar tais realidades com palavras. Elas lhe dão a visão do seu próprio modo não-verbal, e então, então você entenderá o que significa “vida e morte”. E ao entender isso se encherá de alegria.

- Muad'Dib aos seus Fedaykin

— E essas são as coisas que colocamos em movimento — disse Wensicia.

— Essas coisas foram feitas por você.

Faradin permaneceu imóvel, sentado diante da mãe em sua sala matinal. A luz dourada do sol vinha de trás dele, lançando sua sombra sobre o chão atapetado de branco. A luz refletida pela parede atrás de sua mãe lançava um halo em torno de seu cabelo. Ela usava o manto branco habitual, debruado em ouro, lembrança dos dias da realeza. Seu rosto em forma de coração parecia calmo, mas ele sabia que ela estava observando cada uma de suas reações. Sentia o estômago vazio, embora tivesse acabado de vir do desjejum.

— Você não aprova? — perguntou Wensicia.

— Que existe para ser desaprovado? — respondeu ele.

— Bem... que nós mantivemos isso oculto a você até agora.

— Oh, isso. — Ele observou a mãe, tentando refletir sobre sua posição complexa nessa questão. Só conseguia pensar em algo que percebera recentemente: Tvekanik não mais a tratava como “Minha Princesa”. Do que ele a chamava agora?

Rainha-Mãe?

“Por que tenho um sentimento de perda?”, perguntou-se. “Que estou perdendo?” A resposta era óbvia: estava perdendo os dias despreocupados, o tempo para aquelas atividades intelectuais que tanto o atraíam. Se essa trama revelada por sua mãe surtisse efeito, tais coisas estariam perdidas para sempre.

Novas responsabilidades exigiriam sua atenção. Descobriu que se ressentia disso profundamente. Como eles se atreviam a tomar tais liberdades com o seu tempo? E

sem ao menos consultá-lo!

— Ponha para fora — disse sua mãe. — Alguma coisa errada?

— E se esse plano falhar? — indagou ele, dizendo a primeira coisa que lhe viera à mente.

— Como pode falhar?

— Eu não sei... Qualquer plano pode falhar. Como vocês estão usando Idaho nisso?

— Idaho? Qual o seu interesse em... Oh, sim, aquele místico que Tvek trouxe aqui sem me consultar. Ele agiu errado. O místico falou em Idaho, não falou?

Era uma mentira desajeitada da parte dela, e Faradin percebeu-se a olhar para a mãe admirado. Ela sabia a respeito do Pregador o tempo todo!

— É apenas que eu nunca tinha visto um ghola — ele disse. Ela aceitou essa explicação, dizendo:

— Estamos poupando Idaho para alguma coisa importante. — Faradin mordeu silenciosamente o lábio superior.

Wensicia surpreendeu-se lembrando-se de seu falecido pai. Dalak agia assim às vezes, muito introvertido e complexo, difícil de se compreender.

Dalak, lembrou a si mesma, fora amigo do Conde Hasimir Fenring e houvera alguma coisa de afetado e fanático em ambos. Faradin seguiria nessa linha?

Começava a lamentar ter feito Tvek introduziu o rapaz na religião de Arrakeen.

Quem sabia aonde aquilo poderia levá-lo?

— Como é que Tvek a chama agora? — perguntou Faradin.

— O que? — Ela Ficou surpresa com sua mudança de pensamento. — Reparei que ele não mais a Chama de “Minha Princesa”.

“Como ele é observador”, pensou ela, perguntando-se por que isso a enchia de inquietação. “Será que ele pensa que eu tomei Tvek como amante?

Tolice, isso não importaria de um modo ou de outro. Então, por que essa pergunta?”

— Ele me Chama de “Minha Senhora” — ela disse.

— Por quê?

— Porque esse é o costume em todas as Grandes Casas.

“Inclusive a Atreides”, ele pensou.

— É menos sugestivo se por acaso ouvirem — explicou ela. — Poderiam pensar que havíamos desistido de nossas legítimas aspirações.

— Quem seria tão estúpido?

Ela comprimiu os lábios, resolvendo deixar aquilo passar. Uma coisa pequena, mas grandes campanhas se erguiam sobre muitos detalhes pequenos.

— Lady Jessica não devia ter deixado Caladan — ele disse. Ela sacudiu a cabeça abruptamente. Que era isso? Sua mente estava lançando-se a esmo como alguma coisa enlouquecida! Perguntou-lhe:

— Que quer dizer com isso?

— Que ela não devia ter retornado a Arrakis. Essa foi uma péssima estratégia. Faz pensar. Teria sido melhor se ela tivesse arranjado que seus netos a visitassem em Caladan.

“Ele está certo”, pensou ela, angustiada pelo fato de tal coisa nunca lhe haver ocorrido. Teria teria de examinar isso imediatamente. Uma vez mais, ela sacudiu a cabeça. “Não!” O que Faradin estava fazendo? Ele devia saber que o clero jamais se arriscaria a enviar ambos os gêmeos ao espaço.

Ela disse isso.

— É o clero ou Lady Alia? — perguntou ele, notando que os pensamentos da mãe haviam sido dirigidos para onde ele queria. Achava divertida sua nova importância, os jogos mentais disponíveis nas tramas políticas. Fazia muito tempo que a mente de sua mãe não o interessava desse modo. Ela era muito fácil de ser manobrada.

— Você acha que Alia deseja o poder para si mesma — perguntou Wensicia.

Faradin olhou para o outro lado. E claro que Alia queria o poder para si mesma! Todos os relatórios daquele amaldiçoado planeta concordavam nesse ponto. Seus pensamentos partiram em novo rumo.

— Estive lendo sobre o Planetologista deles — disse Faradin. — Há de haver uma chave para os vermes da areia e os haplóides lá em algum lugar, se ao menos...

— Deixe isso para os outros, agora! — disse ela, começando a perder a paciência com ele. — Isso é tudo que tem a dizer a respeito das coisas que fizemos por você?

— A senhora não as fez por mim.

— O quê??

— Fez pela Casa Corrino, agora mesmo a Senhora é a Casa Corrino. Não fui investido.

— Você tem responsabilidades! — ela disse. — E quanto a todas as pessoas que dependem de você?

Como se as palavras dela colocassem uma carga sobre si, Faradin sentiu o peso de todas aquelas esperanças e sonhos que seguiam a Casa Corrino.

— Sim — concordou. — Compreendo isso, mas acho desagradáveis algumas das coisas feitas em meu nome.

— Des... Como pode dizer tal coisa? Fazemos o que qualquer Grande Casa faria para promover sua própria prosperidade!

— É mesmo? Acho que foi um pouco brutal. Não! Não me interrompa.

Se vou ser Imperador, então é melhor que aprenda a me ouvir. Pensa que não posso ler nas entrelinhas? Como aqueles tigres foram treinados?

Ela permaneceu muda ante essa cortante demonstração de suas habilidades perceptivas.

— Muito bem — ele disse. — Vou conservar Tvek porque sei que foi a senhora que o levou a isso. Ele é um bom oficial na maioria das circunstâncias, mas só lutará por seus princípios numa arena favorável.

— Seus... princípios?

— A diferença entre um bom oficial e um medíocre reside na força de sua personalidade. Ele tem de ser fiel a seus princípios quando quer que estes sejam desafiados.

— Os tigres eram necessários — disse ela.

— Acreditarei nisso se obtiverem sucesso — ele disse. — Mas não perdoarei o que teve de ser feito para treiná-los. Não proteste. É óbvio. Eles foram condicionados. A senhora mesma disse isso.

— Que vai fazer?

— Vou esperar para ver. Talvez me torne Imperador.

Ela levou a mão ao peito e suspirou. Por alguns momentos, ele a aterrorizara. Quase acreditara que ia denunciá-la. Princípios! Mas agora ele estava comprometido, podia perceber isso.

Faradin levantou-se, foi até a porta e tocou a sineta, chamando os criados de sua mãe. Olhou para trás.

— Acabamos, não?

— Sim. — Ela ergueu a mão quando ele ia saindo. — Aonde vai?

— À biblioteca. Tornei-me fascinado ultimamente pela história de Corrino. — E a deixou, sentindo agora como carregava consigo aquele comprometimento.

“Maldita!”

Mas sabia que estava comprometido. Reconhecia haver uma profunda diferença emocional entre a história, tal como registrada num shigafio e lida calmamente, uma profunda diferença entre esse tipo de história e aquela que era realmente vivida pelas pessoas. Essa nova história vivida, que sentia ganhando forças a seu redor, transmitia-lhe um sentimento de mergulho num futuro irreversível. Faradin sentia-se agora impulsionado pelos desejos de todos aqueles cuja sorte cavalgava com ele. Achou estranho que não pudesse fixar seus próprios desejos sobre isso.

Conta-se que o Muad'Dib, certa vez, ao ver uma erva tentando crescer entre duas rochas, removeu uma das rochas. Mais tarde, quando a erva podia ser vista florescendo, ele a cobriu com a rocha remanescente. “Era o destino dela, explicou.

- Os Comentários Agora! gritou Ghanima.

Leto, dois passos adiante dela, chegando ao estreito corte nas rochas, não hesitou! Mergulhou na fenda, arrastando-se para dentro até que a escuridão o envolveu. Ouviu Ghanima entrar atrás dele, um súbito silêncio e a voz dela, nem apressada, nem temerosa.

— Estou presa.

Ele se levantou, sabendo que isso colocaria sua cabeça ao alcance das garras, virou-se dentro da estreita passagem e se arrastou de volta, até sentir a mão estendida de Ghanima.

— É o meu manto — ela disse. — Foi apanhado.

Ele ouviu rochas caindo diretamente abaixo, puxou a mão dela, mas sentiu-a ceder muito pouco.

Havia uma respiração ofegante abaixo deles, um rosnado.

Leto enrijeceu o corpo, prendendo os quadris como uma cunha entre as rochas, e puxou o braço de Ghanima. O tecido rasgou-se e ele sentiu que ela era

puxada em sua direção. Ela assoviou e ele percebeu que ela sentia dor, mas puxou mais uma vez, com mais força. Ela penetrou mais no buraco e finalmente completou o caminho, caindo a seu lado. Estavam muito próximos da entrada da fenda, contudo. Ele virou-se, caiu de quatro e se arrastou mais para o fundo.

Ghanima o acompanhou. Havia nos movimentos dela uma intensidade ofegante que lhe dizia que fora ferida. Chegou à extremidade da abertura e se virou, olhando para fora da estreita fenda de seu santuário. A entrada estava aproximadamente dois metros acima dele, cheia de estrelas. Alguma coisa grande cobriu as estrelas.

Um rugido trovejante encheu o ar ao redor dos gêmeos. Um som ancestral, profundo, ameaçador: o caçador falando à sua presa.

— Está muito ferida? — perguntou Leto, mantendo a voz calma.

Ela o igualou no tom de voz.

— Um deles me arranhou. Abriu meu traje-destilador ao longo da perna esquerda. Estou sangrando.

— Muito?

— Foi a veia. Não posso estancar o sangue.

— Use pressão — aconselhou ele. — Não se mexa. Cuidarei de nossos amigos.

— Tenha cuidado. São maiores do que eu esperava.

Leto desembainhou a faca cristalina e esticou-a para cima. Sabia que os tigres estariam sondando o que havia abaixo, garras varrendo o estreito espaço onde seus corpos não poderiam entrar.

Lentamente, bem lentamente, Leto foi estendendo a faca. De súbito, alguma coisa atingiu a ponta da lâmina. Ele sentiu o golpe ao longo de todo o braço, quase perdendo seu domínio sobre a faca. Sobre sua mão esguichou sangue, salpicando-lhe o rosto, e houve um imediato rugido que o ensurdeceu. As estrelas voltaram a ser visíveis. Alguma coisa se debateu e caiu das rochas em direção à areia, numa violenta cambalhota.

Uma vez mais, as estrelas foram obscurecidas e ele ouviu o rugido do caçador. O segundo tigre se colocara em posição, sem se importar com o destino de seu companheiro.

— Eles são persistentes — comentou Leto.

— Você pegou um com certeza — disse Ghanima. — Ouça. Os rugidos e convulsões abaixo deles estavam ficando mais fracos.

O segundo tigre permanecia, entretanto, como uma cortina tapando as estrelas. Leto embainhou a lâmina e tocou no braço de Ghanima. — Dê-me a sua faca. Quero uma ponta limpa para ter certeza de que pegarei este.

— Acha que eles terão um terceiro de reserva? — perguntou ela.

— Não é provável. Os tigres Laza caçam aos pares.

— Igual a nós.

— Igual a nós — concordou ele. Sentiu o punho da faca cristalina de Ghanima escorregar em sua mão e o segurou firme. Uma vez mais, iniciou aquela

cuidadosa sondagem para o alto. A lâmina encontrou apenas espaço vazio, mesmo quando ele se esgueirou, até um nível perigoso. Recuou, fazendo uma avaliação.

— Não pode encontrá-lo?

— Não está se comportando do mesmo modo que o outro.

— Ainda está aqui. Pode sentir o cheiro?

Ele engoliu com a garganta seca. Um hálito fétido, úmido com o odor almiscarado do felino, assaltou suas narinas. As estrelas continuavam bloqueadas à sua visão. Nada se ouvia do primeiro tigre o veneno da faca cristalina completara seu trabalho.

— Acho que vou ter que ficar de pé — disse Leto.

— Não!

— Ele tem de ser atraído ao alcance da faca.

— Sim, mas concordamos em que, se um de nós pudesse evitar ser ferido...

— E você está ferida, assim, você é que vai voltar — ele disse.

— Mas se você for gravemente ferido, não poderei deixá-lo.

— Tem uma idéia melhor?

— Me dê a faca de volta.

— Mas sua perna!

— Posso ficar de pé com a que está boa.

— Aquela coisa pode arrancar sua cabeça com uma patada. Talvez a maula...

— Se há alguém aí fora para ouvir, deve saber que viemos preparados para...

— Não gosto que assuma esse risco!

— Quem quer que esteja lá fora não deve saber que temos maulas. Não ainda. — Ela tocou-lhe o braço. Serei cuidadosa, manterei a cabeça baixa.

Como Leto permanecesse em silêncio, ela disse:

— Você sabe que sou eu que devo fazer isso. Devolva minha faca.

Relutantemente, ele sondou com a mão livre até encontrar a mão dela e lhe entregou a faca. Era a coisa lógica a fazer, mas a lógica entrava em choque com toda a emoção dentro dele.

Sentiu Ghanima afastar-se, ouviu o atrito do manto dela contra a rocha.

Ela ofegou e ele soube que ela devia estar de pé. “Tenha cuidado!”, pensou. E quase a puxou de volta para insistir no uso da pistola maula. Mas isso poderia prevenir qualquer um lá fora de que eles dispunham de tais armas. Pior, poderia afugentar o tigre para fora de alcance, e eles estariam presos ali dentro, com um tigre ferido esperando por eles em algum lugar desconhecido, lá fora nas rochas.

Ghanima respirou fundo e pressionou as costas contra a parede da fenda.

“Devo ser rápida”, pensou. Esticou a mão para cima, com a faca. A perna esquerda pulsava no lugar onde as garras a tinham arranhado. Sentiu a crosta de sangue coagulado em sua pele naquele ponto e o calor de um novo fluxo. “Bem depressa!” Mergulhou seus sentidos na calma preparação para crise que o Modo

Bene Gesserit proporcionava, colocando a dor e todas as outras perturbações fora de sua consciência. O felino deve estender a pata para baixo! Lentamente, passou a lâmina ao longo da abertura. Onde estava o maldito animal? Uma vez mais, golpeou o ar. Nada. O tigre teria de ser estimulado ao ataque.

Cuidadosamente, sondou com seu sentido do olfato. Um bafo quente vinha da esquerda. Posicionou-se, respirou fundo e gritou:

— Tagwa! — O antigo grito de guerra dos Fremen. Seu significado encontrava-se nas mais antigas lendas: “O preço da liberdade!”

Com o grito, inclinou a lâmina e golpeou ao longo da abertura escura da fenda. Garras atingiram-lhe o cotovelo antes que a lâmina tocasse a carne do animal e ela só teve tempo de inclinar o pulso na direção da dor, antes que a agonia lhe rasgasse o braço do cotovelo até o pulso. Através da dor, sentiu a ponta envenenada mergulhar no tigre. A lâmina foi arrancada de seus dedos entorpecidos.

Entretanto, novamente a estreita abertura da fenda se encontrava aberta para as estrelas, e o uivo do felino morrendo enchia a noite. Eles o acompanharam através de seus ruídos de agonia, debatendo-se em sua passagem pelas rochas. Daí a pouco veio o silêncio da morte.

— Ele pegou meu braço — disse Ghanima, tentando prender uma dobra solta de seu manto em torno da ferida.

— Muito ruim?

— Acho que sim. Não consigo sentir minha mão.

— Deixe-me acender uma luz e...

— Não, até que tenhamos cobertura.

— Vou me apressar.

Ela o ouviu se virando para alcançar seu estojo Fremen, sentiu o negrume escorregadio do escudo noturno sendo passado sobre sua cabeça e enfiado por trás.

Ele não se importara em torná-lo impermeável à umidade.

— Minha faca está deste lado — ela disse. — Posso sentir o cabo com o joelho.

— Deixe-a por enquanto.

Ele acendeu um pequeno globo luminoso e o brilho a fez piscar. Leto colocou o globo no piso arenoso, de um lado, e emitiu uma exclamação de espanto ao ver o braço dela. A garra havia aberto um longo ferimento, um corte que descia do cotovelo, ao longo da parte de baixo do braço, até quase chegar ao pulso. Um ferimento que descrevia o modo como ela girara o braço para apresentar a ponta da faca ao alcance da garra do tigre.

Ghanima olhou uma vez para o corte, fechou os olhos e começou a recitar a litania contra o medo.

Leto percebeu-se compartilhando dessa necessidade, mas colocou de lado o clamor de suas próprias emoções enquanto tentava fechar o ferimento.

Tinha de ser feito cuidadosamente para deter o fluxo de sangue, embora mantendo a aparência de um curativo desajeitado que a própria Ghanima pudesse ter feito. Ele a fez prender o nó da atadura com sua mão livre, segurando uma das extremidades da bandagem com os dentes.

— Agora, vamos ver essa perna — ele disse.

Ela se virou para apresentar o outro ferimento. Não era tão ruim. Dois cortes rasos ao longo da barriga da perna. No entanto, haviam sangrado com abundância no traje-destilador. Ele os limpou da melhor maneira que podia e enfaixou o ferimento por baixo do traje-destilador, selando o traje sobre a bandagem.

— Deixei cair areia neles — ele disse. — Devem ser tratados assim que você voltar.

— Areia em nossos ferimentos — disse ela. — Essa é uma velha história para os Fremen.

Ele conseguiu sorrir e sentou-se. Ghanima inspirou profundamente.

— Nós conseguimos.

— Ainda não.

Ela engoliu em seco, lutando para se recuperar do choque. Seu rosto parecia pálido à luz do globo luminoso. E ela pensou: “Sim, devemos movimentar-nos rapidamente, agora. Quem controlava aqueles tigres pode estar lá fora neste momento.”

Leto, olhando para a irmã, sentiu uma súbita e esmagadora perda. Era como uma dor profunda disparando através de seu peito. Ele e Ghanima deviam separar-se agora. Por todos esses anos, desde o nascimento, haviam sido como uma única pessoa. Mas agora seus planos exigiam que sofressem uma metamorfose, seguindo caminhos distintos numa individualidade onde o compartilhar das experiências diárias nunca mais os uniria como no passado. Refugiou-se nas coisas comuns e necessárias que precisavam ser feitas.

— Aqui está meu estojo Fremen. Tirei as bandagens de dentro dele.

Alguém pode olhar.

— Sim. Trocaram seus estojos.

— Alguém lá fora tem um transmissor para aqueles felinos — ele disse. —

E mais provável que esteja esperando perto do qanat para ter certeza de que nos pegou.

Ela tocou em sua pistola maula, apanhando-a de onde estava, em cima do estojo, para colocá-la no cinturão embaixo de seu manto.

— Meu manto está rasgado.

— Sim.

— Grupos de busca podem chegar aqui logo — advertiu ele. — Pode haver um traidor entre eles. É melhor você voltar sozinha. Fale com Hannah para escondê-la.

— Eu... eu começarei a busca do traidor assim que voltar — ela disse.

Fitou a face do irmão, compartilhando o doloroso conhecimento de que, desse ponto em diante, iriam acumular diferenças. Nunca mais seriam como um só, a partilhar conhecimentos que ninguém mais poderia compreender.

— Irei para Jacurutu — ele disse.

— Fondak — disse ela.

Ele acenou, concordando. Jacurutu/Fondak tinham de ser o mesmo lugar.

Era o único modo pelo qual o lugar lendário poderia ter sido oculto. Os contrabandistas haviam feito isso, é claro. Como era fácil para eles converter um rótulo em outro, agindo sob a cobertura da tácita convenção pela qual se permitia existirem. A família governante de um planeta deve ter sempre uma porta dos fundos pela qual possa escapar em casos extremos. E uma pequena quota nos lucros do contrabando mantinha o canal aberto. Em Fondak/Jacurutu, os contrabandistas se haviam apoderado de um sietch completamente operacional sem terem de se incomodar com uma população residente. E haviam escondido jacurutu em campo aberto, sentindo-se seguros graças ao tabu que fazia com que os Fremen o evitassem.

— Nenhum Fremen pensaria em procurar por mim em tal lugar — disse ele. — Eles farão perguntas aos contrabandistas, é claro, mas Nós faremos como foi combinado disse ela.É só que Eu sei.

Ouvindo a própria voz, Leto percebia que ambos estavam arrastando esses últimos momentos de identidade. Um sorriso amargo surgiu-lhe na boca, acrescentando anos à sua aparência. Ghanima percebeu que o estava observando através dos véus do tempo, olhando para um Leto bem mais velho. Lágrimas queimavam-lhe os olhos.

— Você ainda não precisa dar água aos mortos — ele disse, passando o dedo sobre a umidade em seu rosto. — Irei para um lugar suficientemente distante, onde ninguém me ouça, e chamarei um verme. — Indicou os ganchos de Produtor, desarmados e amarrados do lado de fora de seu estojo. — Estarei em Jacurutu antes da aurora, daqui a dois dias.

— Cavalgue rápido, meu amigo — ela sussurrou.

— Voltarei para você, minha única amiga — disse ele. — Lembre-se de ser cuidadosa no qanat.

— Escolha um bom verme — ela disse, repetindo a saudação de partida dos Fremen.

Com a mão esquerda, apagou o globo luminoso, e a cobertura noturna assoviou enquanto a puxava para o lado, dobrando-a e colocando-a embaixo do estojo. Ouviu quando ele partiu, sons suaves desfazendo-se rapidamente no silêncio, enquanto Leto se esgueirava pelas rochas até o deserto.

Ghanima preparou-se então para o que tinha de fazer. Leto devia estar morto para ela. Tinha de acreditar nisso. Não podia existir nenhum jacurutu em sua mente, nenhum irmão lá fora buscando um lugar perdido na mitologia Fremen.

Desse ponto em diante, não poderia pensar em Leto como numa pessoa viva.

Devia condicionar a si própria para reagir com a crença absoluta de que o irmão fora morto, morto nesse lugar pelos tigres Laza.

Não havia muitos humanos que pudessem enganar uma Reveladora da verdade, mas ela sabia que poderia fazer isso... poderia ter de fazê-lo. As multividas que ela e Leto compartilhavam lhes haviam ensinado o modo: um processo hipnótico que já era velho nos tempos da Rainha de Sabá, embora ela provavelmente fosse o único ser humano vivo que pudesse relembrar a Rainha de

Sabá como uma realidade. As profundas compulsões foram projetadas com cuidado, e por longo tempo depois que Leto partiu Ghanima reorganizou sua autoconsciência, construindo uma irmã solitária, a gêmea sobrevivente, até alcançar uma totalidade plausível. Ao consegui-lo, descobriu que seu mundo interior se tornava silencioso, impermeável a intromissões em sua consciência. Era um efeito colateral que não havia esperado.

“Se ao menos Leto tivesse vivido para aprender isto”, pensou, e não achou que o pensamento fosse um paradoxo. Ficando de pé, olhou para o ponto do deserto onde o tigre apanhara o irmão. Havia um som aumentando na areia lá fora, um som familiar a todos os Fremen: a passagem de um verme.

Embora se tivessem tornado raros nessas regiões, os vermes ainda apareciam. Talvez este tivesse sido atraído pela agonia do primeiro felino... Sim, Leto havia morto o primeiro antes que o segundo o pegasse. Era estranhamente simbólica a chegada de um verme. E tão profunda era sua compulsão que ela viu três pontos escuros, lá longe na areia: os dois tigres e Leto. Então, o verme veio e restou apenas a areia, com sua superfície quebrando-se em novas ondas pela passagem do ShaiHulud. Não tinha sido um verme muito grande... mas o suficiente. E sua compulsão não lhe permitiu ver a pequena figura montada no dorso anelado.

Lutando contra sua mágoa, Ghanima fechou o estojo Fremen e se arrastou cautelosamente para fora do esconderijo. Com a pistola maula na mão, observou a área. Nenhum sinal de um ser humano com um transmissor. Subiu as rochas e atravessou para o outro lado, esgueirando-se através das sombras do luar, esperando e esperando, até se certificar de que nenhum assassino espreitava em seu caminho.

Através do espaço aberto, podia ver tochas em Tabr, a ondulante atividade de uma busca. Uma mancha negra moveu-se através da areia em direção ao Criado.

Ela escolheu um caminho que a conduzia ao norte do grupo que se aproximava, desceu para as areias e caminhou ao longo das sombras das dunas. Cuidadosa em fazer com que seus passos mantivessem um ritmo quebrado, que não atrairia um verme, começou a atravessar a solitária extensão que separava Tabr do lugar onde Leto morrera. Teria de ser cuidadosa no qanat, sabia. Nada deveria evitar que contasse como o irmão morrera para salvá-la dos tigres.

Os governos, quando se mantêm, tendem cada vez mais a assumir formas aristocráticas.

Não se conhece nenhum governo na história que tenha fugido a esse padrão. E à medida que a aristocracia se desenvolve, o governo tende cada vez mais a agir exclusivamente no interesse da classe governante, da essa classe uma realeza hereditária, a oligarquia de um império financeiro ou a burocracia enraizada.

- “A Política como Fenómeno Cíclico”

Manual de Treinamento Bene Gererit

— Por que ele nos faz essa oferta? — perguntou Faradin. — Isso é essencial.

Ele e o Bashar Tvekanik encontravam-se na sala de estar dos alojamentos particulares do Príncipe. Wensicia sentava-se a um lado, sobre um divã azul baixo, quase como ouvinte em vez de participante. Reconhecia essa posição e se ressentia dela, mas Faradin passara por uma mudança aterrorizante desde aquela manhã, quando ela lhe revelara suas tramas.

Era o final da tarde no Castelo Corrino e a luz reduzida acentuava o conforto da sala, uma sala repleta de verdadeiros livros, reproduzidos em plastino, com prateleiras que revelavam uma horda de bobinas de reprodução, blocos de dados, rolos de shigafio, amplificadores mnemónicos. Por toda parte, indícios de que o aposento era muito usado: manchas de uso nos livros, metal brilhante nos amplificadores, cantos puídos nos blocos de dados. Havia apenas um divã, mas muitas cadeiras, todas elas flutuadores sensiformes projetados para o conforto discreto.

Faradin encontrava-se de pé, com as costas para uma janela. Usava uniforme de Sardaukar em cinza e negro, tendo como insígnias somente os símbolos da garra e do leão dourado no colarinho. Havia escolhido receber a mãe e o Bashar nessa sala esperando criar uma atmosfera de comunicação mais calma do que poderia conseguir num local mais formal. Mas Tvekanik, com seu constante “Meu Senhor isto”, “Minha Senhora aquilo”, mantinha a distância.

— Meu Senhor, não creio que ele fizesse essa oferta se fosse incapaz de entregá-la.

— É claro que não! — intrometeu-se Wensicia.

Faradin meramente olhou para a mãe, de modo a fazê-la calar-se, e indagou:

— Não fizemos qualquer pressão sobre Idaho, qualquer tentativa de fazê-lo concretizar a entrega devido à promessa do Pregador?

— Não, — respondeu Tvekanik.

— Então, por que Duncan Idaho, conhecido durante toda a sua vida por sua fanática lealdade aos Atreides, se oferece agora para entregar Lady Jessica em nossas mãos?

— Esses rumores sobre problemas em Arrakis... — arriscou Wensicia.

— Não-confirmados — cortou Faradin. — Seria possível que o Pregador houvesse precipitado tudo isso?

— Seria — respondeu Tvekanik. — Mas não consigo perceber o motivo.

— Ele fala em buscar asilo para ela — disse Faradin. — Isso seria lógico se os rumores fossem...

— Precisamente concordou sua mãe.

— Ou podia ser algum tipo de ardil — disse Tvekanik.

— Podemos fazer várias suposições e estudá-las — comentou Faradin. —

Que tal se Idaho caiu em desgraça com sua Lady Alia?

— Isso podia explicar a questão — disse Wensicia. Mas ele...

Faradin interrompeu-a:

— Nenhuma notícia ainda dos contrabandistas? Por que não podemos...

— A transmissão é sempre lenta nesta estação — respondeu Tyekanlk.

— As necessidades da segurança Sim, é claro, mas ainda assim... —

Faradin sacudiu a cabeça. — Não gosto dessa suposição.

— Não tenha pressa em abandoná-la — disse Wensicia. — Todas aquelas histórias a respeito de Alia e o tal sacerdote, qualquer que seja o seu nome...

— Javid — lembrou Faradin. — Mas o homem é obviamente...

— Tem sido valiosa fonte de informação para nós — disse Wensicia.

— Eu estava a ponto de dizer que ele é obviamente um agente duplo, —

disse Faradin. — Como ele pôde se envolver nisso? Não é digno de confiança. Há muitos indícios.

— Não consigo percebê-los ela disse.

Faradin ficou subitamente furioso com a ingenuidade da mãe.

— Aceite minha palavra nisto, mãe! Os indícios estão lá, eu os explicarei depois.

— Receio ter de concordar — disse Tyekanlk.

Wensicia mergulhou num silêncio magoado. Como eles se atreviam a colocá-la fora do Conselho desse modo? Como se ela fosse uma mulher de cabeça vazia, sem qualquer...

— Não devemos esquecer que Idaho já foi um ghola — lembrou Faradin.

— Os Tleilaxu... — Olhou de lado para Tyekanlk.

— Esse ângulo será explorado — disse Tyekanlk. Sentia-se admirando o modo como trabalhava a mente de Faradin: alerta, indagadora, perspicaz. — Sim, os Tleilaxu, ao restaurarem a vida de Idaho, podiam ter plantado nele algum condicionamento poderoso para seu próprio uso.

— Mas não consigo compreender os motivos dos Tleilaxu — confessou Faradin.

— Um investimento em nossa sorte — disse Tyekanlk. — Um pequeno seguro em troca de favores futuros.

— Um grande investimento, eu diria — disse Faradin.

— Perigoso — disse Wensicia.

Faradin tinha de concordar com ela. As habilidade de Lady Jessica eram notórias em todo o Império. Afinal, fora ela que treinara o Muad'Dib.

— Se ficarem sabendo que nós a prendemos... — advertiu Faradin.

— Sim, essa é uma espada de dois gumes — lembrou Tyekanlk. — Mas não é preciso que ninguém saiba.

— Vamos supor — disse Faradin — que aceitemos essa oferta. Qual seria o valor dela? Poderíamos trocá-la por alguma coisa de maior importância?

— Não abertamente — disse Wensicia.

— É claro que não! — Ele olhou para Tvekanik com expectativa.

— Isso terá de ser visto — respondeu Tyekanlk.

Faradin assentiu.

— Sim, acho que, se aceitarmos, devemos considerar Lady Jessica como dinheiro investido para uso indeterminado. Afinal, a riqueza não precisa necessariamente ser gasta em alguma coisa determinada. Ela é apenas...

potencialmente útil.

— Vai ser uma prisioneira muito perigosa — advertiu Tyekanlk.

— Isso deve ser considerado, de fato. Disseram-me que suas habilidades de Bene Gesserit possibilitam que manipule uma pessoa unicamente através de um sutil emprego da voz.

— Ou do corpo — disse Wensicia. — Irulan certa vez me revelou algumas das coisas que aprendera. Ela estava se exibindo naquela época e eu não vi qualquer demonstração conclusiva. Ainda assim, é bastante forte a evidência de que as Bene Gesserit s dispõem de meios para conquistar seus objetivos.

— Está sugerindo que ela poderia me seduzir? — perguntou Faradin.

Wensicia meramente encolheu os ombros.

— Eu diria que ela está um pouquinho velha para isso, não? — perguntou Faradin.

— Com uma Bene Gesserit, nada é certo — respondeu Tvekanik.

Faradin experimentou um arrepio de excitação temperada com medo.

Jogar esse jogo para recolocar a Casa Corrino no poder era algo que simultaneamente o atraía e repelia. Como permanecia atraente a vontade de abandonar esse jogo em troca de suas atividades preferidas: a pesquisa histórica e o aprendizado das tarefas de governo em Salusa Secundus. A restauração de suas forças de Sardaukar era uma tarefa em si... e para esse trabalho Tvek ainda era um bom instrumento. Um planeta era, apesar de tudo, uma enorme responsabilidade.

Mas o Império ainda era uma responsabilidade maior, muito mais atraente como instrumento de poder.

Quanto mais lia a respeito do Muad'Dib/Paul Atreides, mais fascinado se tornava Faradin com os usos do poder. Como chefe titular da Casa Corrino, herdeiro de Shaddam IV, que conquista não seria reconduzir sua linhagem ao trono do Leão. Ele o queria! Ele o queria! E Faradin descobrira que, ao repetir essa sedutora litania para si mesmo, várias vezes, conseguia superar dúvidas momentâneas. Tvekanik estava falando:

— ... e, é claro, a Bene Gesserit ensina que a paz encoraja as agressões, desse modo produzindo a guerra. O paradoxo da...

— Por que entramos nesse assunto? — perguntou Faradin, trazendo sua atenção de volta da arena das especulações.

— Porque — disse Wensicia docemente, ao notar a expressão de devaneio no rosto do filho — meramente indaguei se Tvek estava familiarizado com a filosofia que impulsiona a Irmandade.

— A filosofia deve ser abordada com irreverência — disse Faradin, virando o rosto para Tvekanik. — Quanto à oferta de Idaho, acho que devemos fazer mais consultas e investigações. Quando aChanios que sabemos alguma coisa, esse é precisamente o momento em que devemos examinar o assunto com maior profundidade.

— Será feito — comprometeu-se Tvekanik. Apreciava essa tendência cautelosa em Faradin, mas esperava que ela se estendesse às decisões militares que exigiam rapidez e precisão.

Com aparente irrelevância, Faradin comentou:

— Sabem o que eu acho mais interessante a respeito da história de Arrakis? Era costume entre os Fremen, em tempos primitivos, matar à primeira vista qualquer um que não estivesse usando um traje-destilador, que é facilmente visível com seu capuz característico.

— Por que esse fascínio pelo traje-destilador? — indagou Tvekanik.

— Então perceberam, hein?

— Como poderíamos deixar de notar? — disse Wensicia.

Faradin lançou um olhar irritado em direção à mãe. Por que ela o interrompia desse modo? Voltou a atenção para Tvekanik.

— O traje-destilador é a chave para a personalidade naquele planeta, Tvek.

É a marca registrada de Duna. As pessoas tendem a prestar atenção às características físicas: o traje-destilador conserva a umidade do corpo, reciclando-a, e torna possível a existência no planeta. Sabe, o costume Fremen era ter um traje-destilador para cada membro da família, com a excessão dos que saíam para buscar alimentos. Estes tinham trajes sobressalentes. Mas, por favor, notem, vocês dois...

— Faradin, com um movimento, incluiu a mãe na conversa... — como vestimentas que se parecem com trajes-destiladores, mas que realmente não o são, se tornaram alta moda em todo o Império. É característica dominante dos seres humanos copiaram o conquistador.

— Realmente, acha essa informação valiosa? — perguntou Tvekanik, num tom de voz intrigado.

— Tvek, Tyek, sem tais informações não se pode governar. Eu disse que o traje-destilador era a chave para a personalidade deles, e é! É uma coisa conservadora. E os enganos que eles cometerão serão enganos conservadores.

Tvekanik olhou para Wensicia que fitava o filho com expressão preocupada. Essa característica de Faradin ao mesmo tempo atraía e preocupava o Bashar. Era tão diferente do velho Shadam. Este fora essencialmente um Sardaukar: um matador militar com poucas inibições. Mas Shaddam fora derrotado pelos Atreides sob o comando daquele maldito Paul. De fato, o que ele lera a respeito de Paul Atreides revelara exatamente as características que Faradin agora exibia. Era possível que Faradin pudesse hesitar menos que o Atreides ante as

necessidades mais brutais, mas isso seria devido ao seu treinamento como Sardaukar.

— Muitos já governaram sem usar esse tipo de informação — comentou Tvekanik.

Faradin meramente olhou para ele por um momento, e então disse:

— Governaram e fracassaram.

A boca de Tvekanik traçou uma linha rígida ante essa óbvia alusão ao fracasso de Shaddam. Fora um fracasso dos Sardaukar, igualmente, e nenhum Sardaukar podia lembrá-lo de modo leviano.

Tendo estabelecido seu ponto de vista, Faradin disse:

— Como vê, Tvek, a influência de um planeta sobre o inconsciente coletivo de seus habitantes nunca foi inteiramente considerada. Para derrotar os Atreides, devemos compreender não apenas Caladan, mas Arrakis: um, um planeta suave, o outro, um campo de treinamento para decisões difíceis. A união dos Atreides com os Fremen foi um evento único. Devemos saber como isso funcionou, ou não seremos capazes de igualá-los, para não falar em derrotá-los.

— O que isso tem a ver com a oferta de Idaho? — quis saber Wensicia.

Faradin olhou para a mãe com pena:

— Começamos a derrotá-los através do tipo de tensões que introduzimos em sua sociedade. Esta é uma ferramenta muito poderosa: a tensão. E a ausência dela é importante, também. Notou como os Atreides contribuíram para que as coisas se tornassem fáceis e suaves aqui?

Tvekanik permitiu-se um curto aceno de concordância com a cabeça. Esse ponto de vista era interessante. Os Sardaukar não se podiam permitir que se tornassem muito brandos. A oferta de Idaho ainda os incomodava, contudo. E ele disse:

— Talvez fosse melhor se rejeitássemos a oferta.

— Ainda não — disse Wensicia. — Temos um espectro de escolhas abertas para nós. Nossa tarefa é identificar o máximo possível desse espectro. Meu filho está certo: precisamos de mais informações.

Faradin olhou para ela, medindo-lhe as intenções, bem como o significado superficial de suas palavras.

— Mas saberemos quando tivermos passado do ponto além do qual não há mais alternativas? — perguntou.

Uma risada amarga veio de Tvekanik.

— Se me perguntasse, eu diria que já passamos há muito do ponto em que não há retorno.

Faradin inclinou a cabeça para trás a fim de rir alto:

— Mas ainda temos alternativas, Tvek! Quando chegamos ao fim da corda, ficamos num lugar interessante para reconhecer isso!

Nesta era, quando os meios de transporte humanos incluem engenhos capazes de atravessar as profundezas do espaço em transtempo, e outros que podem transportar pessoas rapidamente cobrem superficies planetárias virtualmente intransponíveis, parece estranho pensar na tentativa de fazer longas jornadas a pé. E no entanto esse permanece o principal meio de se viajar em Arrakis, fato atribuído parcialmente à preferência e parcialmente ao tratamento brutal que esse planeta reserva a qualquer coisa mecânica. Pelas restrições de Arrakis, a carne humana permanece a fonte de recursos mais duradoura e fidedigna para um Hajj. Talvez da a consciência implícita desse fato que faz de Arrakis o derradeiro lar para a alma.

- Manual do Hajj

Lenta e cautelosamente, Ghanima retornou a Tabr, mantendo-se nas sombras mais profundas das dunas, agachando-se quieta enquanto a equipe de buscas passava ao sul de sua posição. Uma terrível consciência a oprimia: o verme que pegara os tigres e o corpo de Leto, os perigos pela frente. Ele se fora, seu irmão gêmeo estava perdido. Colocou de lado todas as lágrimas e alimentou o ódio.

E nisso ela era puramente Fremen. Sabia disso e se aproveitava.

Entendia o que diziam a respeito dos Fremen. Não se considerava que eles tivessem uma consciência, tendo-a perdido no fogo da vingança contra aqueles que os haviam arrastado de planeta em planeta numa longa peregrinação. Isso era tolice, é claro. Somente o primitivo mais bruto não possui consciência. A dos Fremen era altamente desenvolvida, voltada para seu próprio bem-estar como povo. Era apenas aos estrangeiros que eles pareciam brutos, exatamente como os estrangeiros pareciam aos Fremen. Cada Fremen sabia muito bem que poderia cometer um ato brutal sem sentir culpa. Os Fremen não se sentiam culpados pelos mesmos motivos que despertavam tais sentimentos em outros. Seus rituais proporcionavam-lhes a libertação de culpas que de outro modo poderiam tê-los destruído. Eles sabiam, nas profundezas de sua consciência, que qualquer transgressão poderia ser atribuída, ao menos em parte, a circunstâncias atenuantes bem conhecidas: “a falha da autoridade”, “uma natural tendência ao mal”

compartilhada por todos os seres humanos, ou a “má sorte” que qualquer criatura sensível deveria ser capas de identificar como a colisão entre a carne mortal e o caos exterior do universo.

Nesse contexto, Ghanima se sentia como pura Fremen, uma extensão cuidadosamente preparada da brutalidade tribal. Só precisava de um alvo, e esse era obviamente a Casa Corrino. Ansiava por ver o sangue de Faradin derramado no solo a seus pés.

Nenhum inimigo a aguardava no qanat. Até mesmo as equipes de buscas já se haviam deslocado para outros locais. Ela atravessou a água pela ponte de terra e se esgueirou através do capim alto, em direção à entrada secreta do sietch. De súbito, uma luz brilhou diante dela e Ghanima caiu deitada, olhando através das compridas hastes da alfafa gigante. Uma mulher havia penetrado na passagem, vinda do exterior, e alguém se havia lembrado de preparara passagem da maneira como se devia preparar qualquer entrada de sietch. Em tempos de crise, saudava-se qualquer

um que entrasse no sietch com uma luz brilhante, cegando temporariamente o recém-chegado e dando aos guardas tempo para decidir. Entretanto, tal saudação não devia ser transmitida ao deserto exterior. Uma luz visível dali significava que os selos externos haviam sido deixados de lado.

Ghanima sentiu amargura ante essa traição à segurança do sietch: a luz brilhando. Os costumes dos Fremen de camisas rendadas podiam ser encontrados por toda parte!

A luz continuou a projetar seu facho sobre o solo na base do penhasco.

Uma jovem saiu correndo da escuridão do pomar e entrou na luz, revelando algum temor em seus movimentos. Ghanima pôde ver o círculo brilhante de um globo luminoso dentro da passagem, um halo de insetos em torno dele. A luz iluminava duas sombras escuras na passagem: um homem e a garota.

Estavam de mãos dadas, olhando nos olhos um do outro.

Ghanima sentiu que havia alguma coisa suspeita naquele casal. Não era apenas um par de amantes escapando por um momento dos trabalhos de busca.

A luz estava suspensa acima e além deles na passagem. Os dois conversavam diante de um arco de luz que lançava suas sombras para a noite exterior, de onde qualquer um poderia observar-lhes os movimentos. De vez em quando, o homem deixava uma das mãos livre e gesticulava na luz, num movimento rápido e furtivo que, uma vez completo, conduzia a mão de volta às sombras.

Sons solitários de criaturas da noite preenchiam as sombras em torno de Ghanima, mas ela bloqueava tais distrações.

Que haveria de errado com aqueles dois?

Os movimentos do homem eram tão estáticos, tão cuidadosos.

Ele se voltou e a luz refletida pelo manto da mulher o iluminou, revelando um rosto vermelho com um nariz grande e manchado. Ghanima levou um susto ao reconhecê-lo. “Palimbasha!” Era o neto de um Naib cujos filhos haviam morrido a serviço dos Atreides. O rosto e uma outra coisa revelada pelo giro aberto de seu manto, enquanto ele se voltava traçou para Ghanima uma imagem completa. Ele usava um cinturão por baixo do manto e, presa nesse cinturão, havia uma caixa que brilhava com mostradores e chaves. Era um instrumento dos Tleilaxu ou ixianos, certamente. E tinha de ser o transmissor que controlara os tigres.

Palimbasha! Isso significava que outra família Naib ate passara para o lado da Casa Corrino.