Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira
4. O culto à memória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
1972:199).
Os relatos enfatizam o plano pessoal como uma instância decisiva dos acontecimentos, sempre definidos como ocasionais, advindo por graça do destino. Mesmo antes de existir como instituto de pesquisa, Manguinhos já estaria fadado a se tornar uma instituição bem-sucedida que influenciaria decisivamente a ciência brasileira. Por sua vez, Oswaldo Cruz lançava-se à luta para cumprir o “programa que traçara em segredo” (Aragão, 1972:191-200).
Conforme a interpretação de Henrique Aragão, “a empolgação com este ideal magnífico” foi o motivo pelo qual Oswaldo Cruz aceitou o convite de Emile Roux para permanecer no Instituto Pasteur de Paris (Aragão, 1972:191).
Na rota de realização de seu ideal, Oswaldo Cruz não mediu esforços, e era indiferente aos obstáculos que se opunham ao projeto.
Avaliam os memorialistas que tanto maior foi o seu esforço quanto imaturo e inculto era o ambiente à sua volta, exigindo sacrifícios e abnegação para que a ciência se desenvolvesse. O seu mérito foi maior porque “ele começou só, partindo do nada, à maneira do Gênesis” (Fraga, 1917:6).
Estas interpretações têm como fundamento a idéia de destino e predestinação que os memorialistas tentaram evidenciar focalizando aspectos e episódios da história de vida de Oswaldo Cruz, onde estavam manifestos os sinais de suas aptidões para a ciência. Em outros termos, debruçam-se sobre a trajetória de Oswaldo Cruz com o intuito de demonstrar que ele desenvolvera um talento especial para a ciência, na medida em que manifestara uma vocação nesse sentido. Sem dúvida, este foi um componente central da imagem do cientista que desejaram construir, extensamente explorado nesta literatura, em especial pelas biografias.
Como já disse acima, a vida de Oswaldo Cruz é analisada como se se dividisse em duas fases: o anonimato e a vida pública. Em ambas, pro-cura-se comprovar o argumento de que ele era um predestinado.
Assim, na primeira fase, o foco é a vida privada. Assume papel de destaque o círculo familiar, a que os memorialistas atribuem um papel decisivo no futuro destino do cientista. Nesse sentido, dois pontos são assinalados. Em primeiro lugar, valoriza-se a extração social da família Cruz, em que contrastavam fortemente a condição de classe média modesta com a riqueza espiritual e moral que identificam no pai e na mãe de Oswaldo Cruz. Estas qualidades constituíram, segundo os biógrafos, os melhores ensinamentos que Oswaldo Cruz recebeu, forjando um caráter sólido preparado para enfrentar “sem desfalecimentos os embates e a injustiça dos homens e da sociedade, que o impeliu a lutar sempre pela verdade”. Além disso, a família legou-lhe como uma das principais heranças o amor ao trabalho, que só ele confere “nobreza, dignidade e independência ao homem” (Serpa, 1937:25).
Em segundo lugar, sobressai a figura paterna, cujo traço biográfico é a carreira de higienista de Bento Cruz. No final do século, ele foi indicado para o cargo de chefe da Inspetoria de Higiene, posto equivalente ao que mais tarde Oswaldo Cruz ocupou na Diretoria Geral de Saúde Pública.
Conforme o depoimento de Carlos Seidl – que trabalhara com Bento Cruz na Inspetoria de Saúde –, poucas pessoas conferiam importância à influência do pai sobre a vocação de Oswaldo Cruz para a carreira pública. Seidl afirma que ele estimulava o filho a se interessar pelos problemas de saúde pública e de higiene. Desejava que o filho cursasse o Instituto Pasteur de Paris, habilitando-se a ocupar o seu cargo na administração sanitária para “proporcionar ao Brasil maiores benefícios do que ele e os seus antecessores já haviam prestado”. Seidl completa o seu depoimento falando desta previsão auto-cumprida: “Do filho ouvi, certa vez, a confissão de bem conhecer esta antevisão paterna, onze anos depois realizada” (Seidl, 1917:319).
De acordo com os seus biógrafos, Oswaldo Cruz, revelara atração pelos infinitamente pequenos já na Faculdade de Medicina, onde ele fora convidado pelo professor Martins Teixeira para assumir a função de ajudante de preparador no laboratório de bacteriologia da cadeira de Higiene e Mesologia em 1888. Desenvolveu estas atividades até maio de 1890, quando o médico e catedrático Rocha Faria o convidou para trabalhar no Instituto Nacional de Higiene, que
ele criara como um anexo à Inspetoria de Higiene51.
No prefácio de sua tese de doutoramento intitulada A veiculação microbiana pelas águas, Oswaldo Cruz explica que o tema escolhido era pertinente com a sua formação no laboratório de microbiologia da Faculdade. Conta-nos como interessou-se pela microbiologia a partir do fascínio que o microscópio lhe despertou:
Desde o primeiro dia que nos foi facultado admirar o panorama
encantador que se divisa quando se coloca os olhos na ocular
de um microscópio, sobre cuja platina está uma preparação;
desde que vimos com o auxílio deste instrumento maravilhoso,
os numerosos seres vivos que povoam uma gota de água;
desde que aprendemos a lidar, a manejar com o microscópio,
enraizou-se em nosso espírito a idéia de que os nossos
esforços intelectuais de ora em diante convergiriam para que
nos instruíssemos, nos especializássemos numa ciência que se
apoiasse na microscopia. De fato, desde a primeira série do
nosso curso começamos a ler e manusear livros de
microscopia, procuramos exercitar-nos no manejo do
microscópio, na técnica de preparações etc. Assim que
adquirimos uma certa instrução nestes assuntos resolvemos
estudar a microbiologia e desde logo metemos mãos à obra
(Cruz, 1892).
Oswaldo Cruz permaneceu no Instituto de Higiene até completar o curso médico em 1892. O falecimento do pai levou-o a ocupar o lugar deste numa clínica no bairro operário da Gávea. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar na Policlínica Geral, a convite de Sales Guerra, que conhecera nesta época de sua vida. Na Policlínica, Oswaldo Cruz organizou e dirigiu o serviço de análises de laboratório, atividade que executava paralelamente ao atendimento ambulatorial.
Esta fase anônima é considerada como o período da preparação de Oswaldo Cruz para o desempenho de suas tarefas posteriores e, sobretudo, o momento em que a sua vocação foi sendo aprimorada através do encaminhamento que deu aos seus estudos.
Conta Sales Guerra que Oswaldo Cruz “abominava a clínica domiciliária”. Ele a exercia apenas como um meio de sustento indispensável para a família, já que sua grande paixão, a adorada bacteriologia, não garantia a sobrevivência (Guerra, 1940:31).
De qualquer maneira, quando Oswaldo Cruz foi para o Instituto Pasteur de Paris, onde permaneceu de 1893 a 1896, procurou organizar um programa de estudos em que privilegiou as técnicas microscópicas e a bacteriologia, como havia se proposto ao defender a tese de doutoramento.
Sales Guerra conta que amigos o aconselharam a fazer alguma especialidade clínica paralelamente aos estudos de microbiologia, pois insistiam com ele sobre as limitações deste campo de trabalho no Brasil. Por isso, Oswaldo Cruz denominava a bacteriologia de ingrata, tendo sido obrigado a especializar-se em urologia em Paris (Cf. Guerra, 1940:31).
A fase de Paris é considerada sumamente importante. Ela é vista não apenas como parte da preparação de Oswaldo Cruz, mas sobretudo porque foi neste período, ainda muito jovem, com 23 anos, que Oswaldo Cruz obteve o reconhecimento científico externo, pelo desempenho que demonstrou no Instituto Pasteur. Os memorialistas indicam como evidência deste reconhecimento os convites que recebera de Roux e de Metchnikoff para trabalhar com eles.
Nos comentários sobre este período, os biógrafos ressaltam não apenas o desempenho, mas a disposição de Oswaldo Cruz de dedicar-se integralmente ao estágio de estudos, demonstrando uma virtude ímpar, vez que permaneceu três anos “sem distrair a atenção e os pensamentos”, logo em Paris, onde a maioria procurava divertir-se (Serpa, 1937:52).
Ao regressar ao Brasil em 1896, Oswaldo Cruz estava pronto para cumprir o seu destino. Como salienta o médico Olímpio da Fonseca, ele tivera a oportunidade de estudar na mais pura tradição pasteuriana, privilégio que poucos podiam ostentar no Brasil
(Fonseca, 1972)52.
À consagração no exterior, num primeiro momento, não correspondeu o reconhecimento imediato no Brasil. Após o seu regresso, continuou Oswaldo Cruz a ser um obscuro clínico, pouco conhecido no meio médico do Rio de Janeiro. Porém, assinalam os memorialistas, a sua estada no Instituto Pasteur valeu-lhe a indicação para trabalhar no Instituto Soroterápico.
Já nesse momento Oswaldo Cruz demonstrava habilidade e qualidades técnicas raras, prova do talento que possuía para a atividade científica. Os testemunhos assinalam que ao chegar no Instituto Soroterápico, Oswaldo Cruz sobressaiu entre os demais técnicos. No trecho a seguir, Henrique Aragão explica por que isto aconteceu:
Logo que foram iniciados os trabalhos, naqueles pequenos
laboratórios improvisados em velhas casinhas, patentearam-se
aos olhos de todos a personalidade rara, o alto saber e as
exímias qualidades de chefe que possuía Oswaldo e que o
conduziriam, seguramente, no futuro, a feitos e vitórias sem par
nos anais científicos brasileiros. Suavemente, mais pedindo do
que mandando, ele ia conduzindo com segurança e método o
ritmo do trabalho e instruindo os seus primeiros auxiliares que
ele preferia ignorantes em bacteriologia ou outro assunto de
pesquisa, mas inteligentes e prestimosos, fossem eles médicos,
estudantes ou simples serventes. Exigia o maior rigor de
técnica em todos os trabalhos (...) Ele próprio os executava
primeiro, desde uma simples lavagem do material, uma
esterilização, o preparo de um meio de cultura, um trabalho em
vidro, ao maçarico, uma coloração, uma pesada, um exame de
microscópio. (...) Não permitia simplificações prejudiciais ao
rigor do trabalho (...) Resolvia as dificuldades com decisões
seguras e sem precipitação; animava e encorajava o trabalho
de cada um dos seus auxiliares (...) E ele era ao começo quase
um desconhecido, foi-se aos poucos impondo ao respeito e à
consideração de todos os demais que, lhe apreciando as raras
qualidades de um perfeito condutor de homens, anteviam que
seria um dia chefe de alguma coisa maior e muito mais
importante do que aquele modesto laboratório de preparação
de soro profilático (...) No seu íntimo, Oswaldo também pensava
assim, mas até então não exteriorizara sua convicção a esse
respeito (Aragão, 1972:198).
É interessante notar que, além das qualidades técnicas ímpares, Henrique Aragão chama a atenção para o fenômeno visionário que tomava conta daqueles que se acercavam de Oswaldo Cruz, por força do qual todos pressentiram que ele seria um grande homem. A capacidade científica de Oswaldo Cruz ficou plenamente demonstrada somente quando ele assumiu a direção do Instituto, que sofreu uma transformação qualitativa tanto em termos físicos, com a construção de novos prédios, como na implementação de um programa de pesquisa que ele organizou e conduziu. A partir desse momento, Oswaldo Cruz promoveu, na opinião dos memorialistas, uma inflexão na história científica brasileira, fazendo jus ao título de fundador da medicina experimental.
Todas as interpretações sobre o papel do Instituto Oswaldo Cruz no desenvolvimento das ciências biomédicas, em certa medida, internalizaram esta avaliação, que passou a integrar a ideologia científica que os discípulos de Oswaldo Cruz difundiram após a sua morte. Com esta afirmação não se pretende, de maneira alguma, questionar o valor intrínseco do trabalho científico realizado, mesmo porque tal julgamento está além das limitações analíticas desse trabalho. Entretanto, o que se deseja frisar é o forte conteúdo ideológico da literatura analisada, depois amplamente reproduzido.
Estudos recentes sobre o desenvolvimento de atividades científicas no campo médico começam a relativizar as interpretações vigentes até pouco tempo, que conferem a Oswaldo Cruz e ao Instituto Oswaldo Cruz a prerrogativa de estudos nessa área. Logo, o que significa a afirmação de que Oswaldo Cruz é o fundador da medicina experimental, como que-rem os discípulos? Na verdade, o que os textos estão assinalando, sem explicitar, é sobretudo a capacidade de intervenção política de Oswaldo Cruz, o que lhe permitiu construir e sustentar a instituição. Porque, como eles próprios reconhecem, o campo de estudos a que se dedicaram – as doenças endêmicas – não constituía novidade, existindo uma tradição brasileira anterior a Manguinhos. Nem mesmo a prática de pesquisa científica foi prerrogativa do Instituto. Não apenas existiam pesquisadores como instituições que se situavam no mesmo campo de atividades. Nesse sentido, Oswaldo Cruz deve ser encarado
como um continuador, e não fundador53.
Os depoimentos sobre a face da notoriedade da trajetória de Oswaldo Cruz, em que a vida privada e o anonimato cederam lugar à vida pública, constroem uma narrativa marcada pela idéia da predestinação. Após o período da preparação para assumir as tarefas que lhe estavam destinadas, os textos procuram mostrar como Oswaldo Cruz efetivou o que estava previsto e assim conseguiu alcançar a celebridade. Tratam de Oswaldo Cruz como se ele se houvesse dedicado a colecionar vitórias ao longo da vida. Era desta maneira que cumpriria o seu destino: estava fadado ao sucesso.
Nesse sentido, quando voltam-se para essa segunda fase da vida de Oswaldo Cruz, seus biógrafos apresentam os acontecimentos que o envolveram e ao Instituto, como se tudo fizesse parte de um plano preestabelecido que fora sendo executado por ele. O depoimento de Henrique Aragão, acima reproduzido, é ilustrativo desta concepção vigente entre os memorialistas. É curioso notar que, até mesmo quando fazem menção ao desenvolvimento das pesquisas, esta idealização está presente. Ao afirmarem que Oswaldo Cruz preconcebera um programa de pesquisa que passou a dirigir, tem-se a impressão de que querem fazer crer que ele sabia de antemão dos resultados fadados ao sucesso, que, de fato, em algumas áreas, os cientistas de Manguinhos obtiveram. Assim, ao ler este conjunto de textos, facilmente se depreende o seu desiderato: construir uma interpretação sobre a vida de Oswaldo Cruz como se ela fosse um caminho ascencional de glórias.
Em que pesem, nas explicações sobre o êxito de Oswaldo Cruz, os dons pessoais com que fora brindado, curiosamente uma contrapartida revelou-se fundamental para a realização de seu projeto: a presença dos discípulos. Estes referem-se assiduamente a si próprios como responsáveis por parte do êxito alcançado por Manguinhos e pelo cientista.
Comentando o assunto, logo após a morte de Oswaldo Cruz, em solenidade no Instituto, Carlos Seidl – que apelava à união dos discípulos em torno do sucessor Carlos Chagas – legitimava esta posição, afirmando que o próprio Oswaldo Cruz reconhecera esta contribuição em seu discurso na Academia Brasileira de Letras em 1913, quando definiu-se como o porta-bandeira de uma missão coletiva, exercida por “higienistas e experimentadores abnegados” que foram “os verdadeiros fatores da obra” (Seidl, 1917:324).
Boa parte dos textos é dedicada a elogiar o trabalho dos discípulos e o reconhecimento com que sempre contaram da parte de Oswaldo Cruz. Assim, os depoimentos estendem-se relatando aspectos e peculiaridades da relação do mestre com os seus discípulos.
Todos mencionam a atitude de renúncia de Oswaldo Cruz em favor do aperfeiçoamento dos discípulos. O depoimento de Chagas é característico desse modo de ver:
E é de salientar, neste ponto, a abnegação do mestre, que, ao
interesse coletivo e à grandeza da nova escola, na missão
absorvente de educar e orientar discípulos, sempre dispensou o
melhor de seu esforço, em prejuízo, às vezes, de sua fama de
pesquisador. Poderia ele, de preferência, aproveitar em
benefício do próprio nome, ainda mais o enaltecendo, os
superiores privilégios de sua rara mentalidade; julgou, porém,
melhor servir a altos desígnios, na ação impessoal de organizar
esforços, criar iniciativas, orientar inteligências, designar
métodos científicos, proporcionar, enfim, aos experimentadores
da sua escola, todos os elementos seguros de êxito. E
procurava ocultar-se na obra realizada, aí sempre exaltando a
valia exclusiva do discípulo, de cujo sucesso aproveitava as
mais puras e compensadoras alegrias (Chagas, 1917:24).
A atitude de Oswaldo Cruz é louvada como um desprendimento consciente em nome dos seus filhos intelectuais. Como “Cristo, Ele cercou-se de discípulos, aumentando a centelha de seu gênio”. Demonstrava um altruísmo invulgar, abdicando da sua carreira individual em nome do desenvolvimento coletivo e de seus assistentes, “um pugilo de moços que, desvinculados, ficariam à
mercê do primeiro golpe da adversidade” (Dias, 1972:121)54. Ezequiel Dias relembra que todos os estudos feitos em Manguinhos receberam a influência Dele; ninguém como “Ele sabia entrever as causas de erro, as aparências enganosas, as conclusões ilógicas” (Dias, 1972:121).
Os discípulos consideram que o grau de interferência de Oswaldo Cruz nas pesquisas era tão grande que a ele devia ser dada a co-autoria de quase todos os trabalhos, pois ele, despojando-se de “suas idéias, dando-as aos outros, auxiliava-os na tarefa de
desenvolvê-las” (Godoy, 1929:305)55.
Henrique Aragão compartilha dessa opinião. A atitude voluntária de Oswaldo Cruz de pôr-se na penumbra não se devia a que lhe faltassem requisitos intelectuais. Ele podia ter realizado as mesmas descobertas que os discípulos fizeram. Aragão considera que esta atitude resultou de uma decisão conscientemente tomada a partir do momento em que ele percebeu existir em Manguinhos um grupo de pesquisadores treinados pelos seus métodos e capazes de
desenvolver o trabalho56.
Rocha Lima também confirma esta posição assumida por Oswaldo Cruz em favor da escola de ciência que desejava construir, entregandose a ela com idealismo. De acordo com Rocha Lima, foi este o motivo pelo qual Oswaldo Cruz desenvolveu apenas poucos trabalhos originais de pesquisa, todos de “excelente qualidade”, mas que não tiveram continuidade (Lima, 1952:33). Sugere o cientista que Oswaldo Cruz, de certa forma, compensava a sua atividade científica inexistente com a dos discípulos:
Se a Oswaldo Cruz não sobrava tempo para entregar-se à
pesquisa, identificava-se com as de seus discípulos, e exaltava
com justo orgulho diante de cada achado e de cada trabalho
original realizado em Manguinhos como se fossem seus. Pois
era conquista nossa. Do nosso pequeno grupo de pesquisa
brasileiro que ele criara nesse instituto; era um passo adiante
na realização de seu maior ideal patriótico, o de emparelharmos
com os grandes centros de ciência (Lima, 1952:34).
Rocha Lima, contudo, acrescenta em seu depoimento que esta atitude pode ser considerada natural, condizente com um chefe de escola que confiou aos discípulos aquilo que não tinha “inclinação nem tempo para fazer”. Aqui, de certa forma, fica relativizado o altruísmo que os outros discípulos atribuem a Oswaldo Cruz, bem como minimizada a sua disposição para o trabalho de pesquisa, tão insistentemente propalado.
Como verificamos, a definição desta identidade coletiva construída a partir da relação mestre/discípulos, é um dos temas preferencialmente abordados nestes textos. Através destes depoimentos, percebemos de que maneira os jovens pesquisadores consideram o seu papel como agentes de um trabalho que, se na origem deveu-se ao gênio criador de Oswaldo Cruz, foi desenvolvido no âmbito da esfera coletiva.
Nas representações que fazem de si próprios, os discípulos apresentamse de forma não menos idealizada do que aquela com que projetam o mestre. Ao mesmo tempo em que realçam o papel de Oswaldo Cruz, destacam o aspecto coletivo do trabalho, chamando a atenção sobre si próprios.
O depoimento de Carlos Chagas, reproduzido na biografia escrita por Phocion Serpa, é representativo desta postura:
Fizemos, finalmente, todos os que aqui trabalham, a nossa
aprendizagem geral em assuntos de microbiologia, sob as luzes
emanadas de Oswaldo Cruz, de cuja técnica perfeita, de cuja
capacidade de interpretação e de iniciativa aproveitavam todos
os pesquisadores, quaisquer que fossem as suas
especialidades. E fizeram, meus senhores, mestres e
discípulos, destes excetuado apenas quem vos fala, toda a
grandeza da obra de ciência que hoje vindes prestigiar, em
honra à memória de um consagrado da nossa pátria (Chagas
apud Serpa, 1937:359).
Inicialmente Carlos Chagas destaca a competência técnica de Oswaldo Cruz, para imediatamente associá-la à dos discípulos que tiveram a sua formação em decorrência desta relação. Por conseguinte, a perfeição realçada no mestre significava um sinal de distinção para os discípulos.
Assim, grande parte dos textos é dedicada a lembranças dos primeiros tempos de Manguinhos, considerados os melhores por todos. Com esta visão edênica, de um tempo perdido, retratam idealmente o passado e sobretudo a si próprios, apresentando-se como jovens animados por “um ideal de ciência, ingênuos e despreocupados com o futuro”. Henrique Aragão afirma que se comportavam como se fossem uns enfants de bohème da ciência, indiferentes à nossa instabilidade e satisfeitos com parcos proventos ou mesmo sem eles” (Aragão, 1972:204).
Ao altruísmo do mestre correspondia o dos discípulos. Um determinado atributo do mestre constituía uma qualidade dos discípulos. Como num espelho, miravam-se na imagem de Oswaldo Cruz que eles próprios construíram; ao projetar a imagem do outro afirmavam a sua identidade. Assim, podemos compreender que elogiá-lo significava, ao mesmo tempo, uma forma de enaltecimento de si próprios.
Melhor se entende a relevância conferida pelos discípulos ao coletivo, porque este envolve a questão da sua própria identidade. Artur Neiva define o grupo, sugestivamente, como uma seita, imagem muito explorada pela ideologia cientificista:
Ao escrever estas linhas, crônicas impregnadas de pungente
saudade dos dias raidantes da formação de Manguinhos, eu
dilacero fibra a fibra o meu coração de ardente patriota ao
evocar os gloriosos momentos de trabalho e de felicidade em
companhia dos ditosos companheiros do Instituto, onde, à
porfia, cheios de ventura e alegria sob a orientação superior de
Oswaldo Cruz, talvez déssemos a impressão de uma nova
seita, de tal forma, dentro de nós, ardia a chama de um puro e
elevado ideal (Neiva, 1927:7).
Manguinhos não constituía apenas uma seita. Segundo Henrique Aragão, o Instituto possuía um ar misterioso, até o nome Manguinhos lembrava “um terreno salitrado e lamacento, povoado de caranguejos e capaz de atacar o afoito que naquele solo se aventurasse” (Aragão, 1972:212). Aquele ambiente de laboratórios de pesquisa, segundo Aragão, era muito novo e desconhecido. Apesar da originalidade dos trabalhos, não havia quem pudesse avaliá-los. Por algum tempo existiu apenas uma intuição de que eles representavam uma “nova era para o Brasil no campo científico”; ninguém podia se “dar conta do que eles representavam” (Aragão, 1952:201).
De fato, para os discípulos não era apenas o mestre que se destacava por sua singularidade, mas todos eles eram igualmente especiais no cenário médico-científico brasileiro.
É interessante notar o contraste criado pelos discípulos, entre a sua atitude por assim dizer pueril – dotada de uma certa irresponsabilidade que consideram sadia e elogiável – e a seriedade com que caracterizam o trabalho que faziam. A atividade científica é comumente envolta por um ar solene e grave, como se fosse um culto sagrado.
A época da educação científica, como a nomeia Carlos Chagas, foi crucial para a carreira e a formação dos discípulos, que aprenderam com Oswaldo Cruz métodos e normas da atividade científica:
E quantos de seus discípulos lhe devemos, de modo exclusivo,
a felicidade do próprio destino profissional? Quantos para aqui
viemos numa fase de incertezas e vagas aspirações encontrar
na longanimidade de Oswaldo Cruz a diretriz exata de um
futuro propício? (Chagas, 1972:26).
Mas como Oswaldo Cruz poderia ser um grande mestre, indaga-se Rocha Lima, se ele não se notabilizou nem como professor nem como pesquisador?
Reconhecendo a idealização com que Oswaldo Cruz foi retratado, Rocha Lima procura retificar a impressão de que Oswaldo Cruz fosse um ser superior, tão difundida pelos panegíricos. Afirma que as relações entre Oswaldo Cruz e seus discípulos não eram solenes e que tampouco estes o tratavam como um sábio. Peremptório, diz que a realidade era bem diferente, que, embora fosse pouco expansivo, Oswaldo Cruz era alegre, gostava do contato com os estudantes e adorava anedotas. Além disso, nunca assumiu ares superiores para fazer valer sua autoridade.
Oswaldo Cruz nunca tomava atitudes de mestre e nem poses
de sábio, não pontificava, não fazia preleções, não levantava a
voz, nunca nos chamou para focalizar nossa atenção sobre sua
pessoa, seus feitos ou seus atos. Ensinava pelo exemplo de
suas realizações e atitudes, de seu interesse pela ciência, sua
dedicação abnegada à conquista do saber, sua exatidão nas
observações, nos relatos, rigor na técnica, sinceridade na crítica
e firmeza na sua conduta como chefe e como companheiro de
trabalho (Lima, 1952:31).
Rocha Lima assinala, ao contrário da imagem difundida de Oswaldo Cruz como um sábio onipotente, que ele era modesto, aberto à contribuição dos auxiliares nos estudos e nas aulas, em que ocorria uma verdadeira troca de conhecimentos. Admitir este fato, frisa Rocha Lima, não desmerecia o papel de destaque que ele efetivamente possuía como o único mestre entre eles. Para Rocha Lima, Oswaldo Cruz possuía grande habilidade em orientar os trabalhos devido à formação que tivera, voltada para a pesquisa aplicada.
Mas se é possível dizer que o depoimento de Rocha Lima é singular neste conjunto de textos, por pretender relativizar certas idealizações, de maneira geral os discípulos não poupam elogios às qualidades de mestre reveladas por Oswaldo Cruz. Nesse sentido, alguns traços mostram-se reiteradamente assinalados.
Uma de suas maiores virtudes, segundo os testemunhos, era a de despertar vocações. Arthur Neiva sintetiza as opiniões:
Uma de suas mais espantosas qualidades era o dom mágico
com que sabia despertar, no ânimo da pessoa que dele se
acercava com o desejo de estudar, a ânsia de saber. Muitos de
seus discípulos, cuja inclinação para as investigações
científicas apenas existia latente, viram-se transformados ao
maravilhoso influxo daquele ser, portentoso galvanizador de
homens, abençoado criador de almas, em discípulos
devotados, até ao sacrifício, à imensa obra de patriotismo e de
ciência que ele tinha se proposto desenvolver em nossa terra
(Neiva, 1917:13).
Esta capacidade de transformar homens é constantemente assinalada e elogiada. Ela remete à outra que acima já mencionamos, que é a da afirmação da dimensão coletiva do trabalho. Para os discípulos, configurar o trabalho como o produto de um esforço coletivo lhes permitiu definir e garantir o seu lugar. Da mesma maneira, podemos compreender o destaque que conferem à convivência com o mestre, pois a esta relação deveu-se a formação de uma comunidade especial de indivíduos, homens transformados sob o influxo orientador de um gênio.
Os discípulos ressaltam a confiança que Oswaldo Cruz lhes inspirava através de uma orientação segura e decidida, amparando-os nas horas difíceis. Afirmam que ele revelara dons de psicólogo, pois que sabia penetrar na alma humana. Esta habilidade o capacitava a reconhecer os defeitos de seus discípulos, procurando compensá-los ao explorar as virtudes de cada um. Outra qualidade destacada é a de que o mestre não era autoritário: demonstrava carinho e tolerância para com as impertinências e a inexperiência dos jovens pesquisadores (Chagas, 1972).
Habilidade e bom senso caracterizavam a direção de Oswaldo Cruz, que selecionava as aptidões dos assistentes, procurando orientá-los de acordo com as melhores doutrinas. A declaração de Carlos Chagas expressa a imagem exemplar que todos os memorialistas procuram traçar:
Não só incalculáveis benefícios de trabalho devemos ao carinho
do querido mestre; muitos dos que hoje veneramos sua
memória tivemos a rara ventura de completar nossa formação
moral sob a influência decisiva daquele espírito magnânimo,
que pôde modificar, sempre aperfeiçoando, o caráter e os
sentimentos de alguns de seus melhores discípulos. E nada
resistia à força de seu exemplo e à segurança de seus
princípios; além de que, educava pelo coração, falando às
consciências aquela linguagem sempre singela e de belezas
infinitas, que fascinava e convencia, orientando para o bem
(Chagas, 1917:26).
Vale mencionar uma última representação constituinte do mito do fundador da medicina experimental que nos pareceu primordial.
Constantemente se tem visto indicada a relação entre Oswaldo Cruz, Manguinhos e o país. Definem-se Oswaldo Cruz e Manguinhos como o marco culminante da civilização brasileira, o símbolo do futuro da nacionalidade. Para Belisário Pena, o homem e a instituição eram responsáveis pela construção dos “alicerces do edifício nacional” (Pena, 1922:44, 75, 55).
O Instituto Oswaldo Cruz é representado através de imagens como templo de ciência, porta-voz da civilização, documento perpétuo do progresso do país, cenáculo da ciência, farol iluminante dos que buscam a verdade, entre muitas outras. Por exemplo, Belisário Pena considera o Instituto Oswaldo Cruz como “um possante farol que vai indicando à nau da nação brasileira a rota segura pra chegar a salvamento ao porto da independência econômica, da saúde, da riqueza, do progresso, da moralização, do respeito e do prestígio (Pena, 1922:81).
É interessante notar como este discurso de extração cientificista, com freqüência, recorre a comparações entre a atividade científica e o comportamento religioso, como se a primeira se aproximasse de um rito sagrado. Por seu lado, o lema que Oswaldo Cruz adotara e propagava – e é sempre evocado – possui uma conotação religiosa: “Fé eterna na ciência”. Freqüentemente encontramos a definição de que Oswaldo Cruz e, por conseguinte, cientistas e higienistas desempenhavam uma missão apostólica, representada por sua dedicação à ciência.
Em alguns textos, a metáfora religiosa é explicitada através da relação entre a vida de Oswaldo Cruz e a de Jesus Cristo. Compara-se a origem social modesta de ambos, passando pela idéia de um largo período de anonimato que correspondeu à preparação para o desempenho de suas missões, até relacionarem-se as perseguições e o calvário de Cristo às dificuldades e oposições que Oswaldo Cruz enfrentou. Encontramos várias referências à vida de Oswaldo Cruz como uma trajetória de sacrifícios, assim como fora a do “mártir do Gólgota”. Nas palavras dos seus discípulos, Oswaldo Cruz transformou-se no mártir brasileiro da ciência.
É curioso como esta idéia foi explorada pelos memorialistas. Argumentam que, apesar da doença de que sofria e que, com o passar dos anos, agravou-se, Oswaldo Cruz nunca esmoreceu. Como prova a análise de sua trajetória de vida, é constante e contínuo o seu interesse pela coisa pública. Após o período de sua gestão na Diretoria Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz não apenas dedicou-se a Manguinhos, mas pas-sou a “olhar para o Brasil”. Ou seja, pretendia estender o saneamento do Rio de Janeiro para todo o país.
Na opinião de Belisário Pena, Oswaldo Cruz amava o Brasil e por isso ofereceu a sua vida em “holocausto” para o “bem da pátria e a serviço da ciência”. “Todas as suas horas eram consagradas ao serviço da ciência e da pátria, na constituição de um núcleo de mestres e operários do progresso e da civilização” (Pena, 1922:57).
Todos os memorialistas consideram que o excesso de trabalho tinha esgotado as energias de Oswaldo Cruz, já combalidas pela doença que o minava. Afirmam que seu trabalho em prol do Brasil provocou o envelhecimento precoce e a morte prematura, pois ele não conferia a importância devida à gravidade de seu estado de saúde.
O mártir revelara-se na ação patriótica representada pelo desejo de ver o Brasil saneado, atingindo o progresso e a civilização. Movido pelo ideal científico e patriótico de sanear o Brasil, Oswaldo Cruz não hesitou em comprometer a sua própria vida, fazendo inúmeras viagens por vários estados brasileiros a partir de 1910. Destacam os biógrafos, especialmente, a viagem à Amazônia, quando, a serviço da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, organizou um plano de profilaxia da malária que dizimava os trabalhadores na extensão da linha férrea.
Avaliam os memorialistas que a obra de Oswaldo Cruz, como marco histórico, equivalia ao episódio das entradas e bandeiras que desbravavam o interior do Brasil no século XVII. Diferentemente destas, os novos bandeirantes não estavam à cata de ouro e tampouco de pedras preciosas. Esboçando objetivos mais nobres, almejavam conquistar o território e estabelecer a nacionalidade através da civilização que deveria ser estendida a todo o país, principalmente ao interior.
Oswaldo Cruz organizou verdadeiras bandeiras científicas, espalhando por todos os recantos do país os peregrinos da saúde. Foi responsável pela criação de uma consciência sanitária nacional, revelando diante da nação atônita as doenças que massacravam a população. Atribuiu importância às doenças coletivas, até então marginalizadas, diante da prioridade que era conferida às doenças individuais (Pena, 1922, passim).
A articulação de ciência, religião e pátria resultou numa eficiente ideologia que elevou a figura de Oswaldo Cruz, no plano do imaginário social, ao panteão dos heróis nacionais, em que ele figura solitariamente como o expoente máximo da ciência brasileira. Da mesma forma, a heroificação de Oswaldo Cruz representou um importante elemento definidor da auto-imagem do grupo de discípulos e foi amplamente explorada pelo movimento sanitarista, organizado a partir da Liga Pró-Saneamento do Brasil.
39 A relação entre ciência e religião, explorada pelo positivismo, não é objeto deste trabalho. Para uma análise do tema, ver: Ferreira, 1989 e Porto, 1985.
40 Como o de Olímpio da Fonseca, todos os textos destacam a figura do conselheiro Rodrigues Alves e a importância da política para as realizações de Oswaldo Cruz. O curioso é que a política aparece sempre nesses textos como uma instância contaminada pela corrupção, como se estivesse desvirtuada de seus fins verdadeiros, servindo apenas à satisfação de interesses particularistas e mesquinhos. No discurso cientificista, a política deveria subordinar-se aos interesses coletivos de que os cientistas eram os legítimos representantes, devendo estes substituir os políticos profissionais comprometidos com a “politicalha” e os burocratas, que não passavam de apadrinhados do clientelismo vigente. A dimensão política é referida como uma instância de ratificação e legitimação dos projetos de intervenção social dos médicos.
41 Consta, ainda, que Francisco de Castro, quando Oswaldo Cruz regressou de Paris, convidou-o para trabalhar com ele na Faculdade de Medicina, convite que foi recusado. A referência a esta relação com Francisco de Castro pode ser compreendida como uma entre outras maneiras que foram encontradas para legitimar a carreira profissional de Oswaldo Cruz: conferia-se-lhe a chancela de um ilustre representante de Faculdade de Medicina, instituição a que ele pertenceu somente como aluno. A relação entre esta instituição e o Instituto, conforme mencionamos no capítulo 1, foi marcada pela tensão própria à competição entre uma escola tradicional de formação dos médicos e uma instituição que se organizou não como um lugar alternativo, mas como um espaço superior e complementar que se dedicava à formação de um tipo de profissional que, diziam, a faculdade não tinha competência para fazê-lo. Segundo Henrique Rocha Lima, ao desenvolver-se como um instituto de pesquisas, Manguinhos ameaçava a posição de certas “sumidades médicas” da época, “habituadas a doutrinar segundo conceitos da era pré-bacteriológica”. Tais médicos não raro deixavam transparecer a aversão que sentiam pela “revolução em marcha” provocada por Oswaldo Cruz e Manguinhos, que “abalavam os alicerces em que se assentavam as suas doutrinas” (Lima, 1974:28). Neste mesmo trabalho, Rocha Lima cita uma carta em que Oswaldo Cruz faz inúmeras restrições à Faculdade de Medicina, afirmando que “a faculdade é um ambiente limitado, sufocador das legítimas aspirações de quem trabalha com um intuito prático. A falta de recursos materiais, as lutas internas, a indisciplina e a natureza mesma do cargo de professor, como é encarado entre nós, fecham por completo a porta a qualquer tentativa profícua para o levantamento do nível científico de nosso caro Brasil. No fim de algum tempo, o professor, que não é cercado do bem-estar a que tinha direito, limita-se a preparar as lições mais ou menos teoricamente e vai procurar na clínica ou alhures os meios de proporcionar, não conforto à sua família, mas os indispensáveis meios de subsistência”. (Cruz apud Lima, 1974:34). Por esta carta vê-se que Oswaldo Cruz não nutria qualquer simpatia pelo ambiente da faculdade, desacreditando, inclusive, de que ele fosse um lugar propício à produção de conhecimento.
42 De certa forma, o médico Carlos Seidl constitui exceção a esta tendência generalizada. Para ele, Oswaldo Cruz, apesar da morte prematura, “soubera viver”. “O que outros só após muitos anos e fadigas muitas vezes conseguem ele alcançou em curto tempo”. Oswaldo Cruz realizara os seus ideais, atingindo como nenhum outro no país “os píncaros da vida administrativa”. Com indisfarçável inveja do poder alcançado por Oswaldo Cruz, Seidl, que ocupava o cargo de diretor da Saúde Pública quando ele morreu, explicita, numa atitude rara, esta questão: “Diante de sua opinião inclinavam-se presidentes e ministros; dissipavam-se, à vista do seu nome, rabiscado num desalinho de letras indecifráveis, todos os obstáculos burocráticos; ante a sua proclamada impassibilidade ruíam inanes os quotidianos ataques de imprensa adversa; desmanchavam-se intrigas; invejosos desarticulavam-se em mesuras lisonjeadoras; o Parlamento não media dispêndios; ele era onipotente; não pedia, mandava e era obedecido” (Seidl, 1917:318).
43 Na época das campanhas, a oposição contra Oswaldo Cruz pejorativamente o chamou de poeta sonhador por querer implantar reformas que consideravam-se absurdas, destituídas de critérios técnicos e científicos, produtos de uma mente fantasiosa. Achavam que ele não tinha competência para tratar dos assuntos sanitários, não apenas por sua juventude, mas também porque não tinha qualquer experiência administrativa anterior. Mais tarde, seus partidários apropriaram-se desta interpretação, atribuindo-lhe uma conotação positiva, isto é, ser poeta era um atributo elogiável. Admira-se em Oswaldo Cruz a capacidade rara de reunir duas expressões especificamente humanas, que são a ciência e a arte. É freqüente citarem o prédio principal do Instituto com a maior expressão desta relação entre ciência e arte, desenvolvida perfeitamente por Oswaldo Cruz. Para eles, o prédio só podia ser produto da mente de um artista. O médico Afrânio Peixoto – em discurso na Academia Brasileira de Letras em 1913, quando Oswaldo Cruz tomou posse na cadeira do poeta e romancista Raimundo Correia – cunhou uma expressão para definir Oswaldo Cruz, que foi muito utilizada: a de que ele era “um poeta desgarrado na ação”. Divulga-se esta interpretação da perplexidade que Oswaldo Cruz provocou em seus contemporâneos: tratam-no como excêntrico, julgando extemporâneo o que conseguiu fazer em termos de ciência.
44 Note-se que, na versão dada ao caso pelos memorialistas, o barão é retratado como um médico atrasado, antigo, que não possuía conhecimentos científicos modernos sobre o processo de fabricação da vacina antipestosa. Afirmam que, após a posse de Oswaldo Cruz no cargo de diretor, ele introduziu novas técnicas que revolucionaram o processo de produção da vacina, considerada a partir de então como uma das melhores do mundo em termos de eficácia e pureza.
45 Vale lembrar, nesse sentido, a versão sobre a nomeação de Oswaldo Cruz para a prefeitura de Petrópolis em 1916, citada no capítulo 2. Sabe-se somente que seu amigo e pesquisador do Instituto, Figueiredo de Vasconcelos, negociou a indicação junto ao governador do estado do Rio, Nilo Peçanha.
46 A título de esclarecimento dos debates da época, pode-se dizer que a opinião médica dividira-se, basicamente, entre três correntes. A que considerava possível ser o mosquito um dos vetores de transmissão da doença, pelo menos o único até então comprovado pela experiência inaugural de Havana e na experiência realizada em São Paulo, coordenada pelo médico Pereira Barreto, que chegara às mesmas conclusões que os médicos norte-americanos. A outra corrente recusava determinantemente a teoria culicidiana, afirmando a impossibilidade de tal causação. Uma terceira corrente, composta de um grupo minoritário, como admitem os relatos, defendia a teoria e apoiava as medidas empregadas por Oswaldo Cruz para combater a doença, centrada especificamente nos expurgos, os quais visavam à eliminação dos mosquitos. Essa dissidência no meio médico forneceu elementos que embasavam e fortaleciam a oposição política promovida no Congresso Nacional e difundida pela imprensa.
47 Sales Guerra é um dos que bem expressa a indignação sentida pelos amigos e discípulos diante da oposição que se levantou contra Oswaldo Cruz: “homens da têmpera de Oswaldo Cruz não podem ser populares por mais que realizem. Popular é quem lisonjeia o povo, exalta-lhe defeitos e fraquezas como se virtudes fossem. Não o é o funcionário correto que, no exercício do cargo de diretor de higiene, aplica processo científico com o necessário vigor. Embora observe os ditames da justiça, ferirá fatalmente interesses e preconceitos, suscitará protestos indignados e poderá dar pretextos à revolta, como aconteceu. (...) Parece que o grave defeito do higienista como administrador para os críticos vulgares era a falta de flexibilidade, a rigidez das normas administrativas que adotou, quando apenas fazia observar prescrições regulamentares com exatidão, sem o que não pode haver higiene. Tinha ainda o senão, segundo eles, de não usar das habilidades em voga para se tornar popular, não afagava panegiristas, não empregava lubrificantes. Inacessível a engrossamentos, insensível à lisonja, não provocava, direta ou indiretamente, as tão apreciadas manifestações de apreço, espontâneas, com que os nulos ou os medíocres imaginam suprir o próprio desvalor” (Guerra, 1940:433).
48 Giovanni Sanarelli era um médico italiano que dirigiu o Instituto de Higiene de Montevidéu, onde, em junho de 1897, isolou o bacilo icteróide, considerado o micróbio da febre amarela. Segundo Benchimol, a teoria de Sanarelli era a mais respeitada internacionalmente, mas o enigma levaria ainda algum tempo para ser decifrado (Cf. Benchimol, 1990:20).
49 Vale assinalar que, antes mesmo de Oscar Freire cunhar esta expressão, Oswaldo Cruz reivindicava para Manguinhos o reconhecimento que lhe cabia por ter livrado o Brasil “da tutela científica estrangeira a que nos havíamos acostumado”. Esta posição foi manifestada pelo cientista em discurso pronunciado no VII Congresso de Medicina e Cirurgia realizado em Belo Horizonte em 1912 (Cf. Guerra, 1940:635)
50 Em carta datada de 1906 e endereçada a Rocha Lima, Oswaldo Cruz manifesta a disposição de trabalhar nesse sentido, utilizando, como explica o destinatário, uma expressão alemã, que exorta a marchar para a frente: “Meu caro, continuemos a preparar material sólido para nosso edifício futuro. Nada há que resista ao trabalho. Havemos de mostrar que nossa pátria não é inferior à dos outros. Vorwaerts!” (Lima, 1952:22).
51 Neste instituto, trabalhavam Barros Barreto, Antônio Fajardo e Henrique Tanner de Abreu, que mais tarde participaram, com Oswaldo Cruz, das reformas que empreendeu na Diretoria Geral de Saúde Pública. Abreu e Barreto foram figuras proeminentes da saúde pública, ocupando importantes posições nos órgãos de saúde a partir dos anos 20. Note-se que Rocha Faria foi um dos principais protagonistas da campanha oposicionista que se formou contra Oswaldo Cruz a partir de 1903, tendo organizado palestras na Faculdade de Medicina em que procurava demonstrar o erro da teoria culicidiana.
52 Quanto a este ponto, vale assinalar, os biógrafos divulgaram uma informação que não corresponde à verdade: a de que ele fora o primeiro brasileiro a freqüentar o Instituto Pasteur. Sabe-se que, antes dele, outros médicos brasileiros tinham estado lá. É evidente que conferir-lhe esta prerrogativa tem como objetivo atribuir um sinal de distinção à sua formação científica no cenário médico brasileiro.
53 Estas afirmações são baseadas nas pesquisas desenvolvidas na Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, em que se está verificando a importância de pesquisadores e instituições anteriores a Oswaldo Cruz no sentido da difusão e institucionalização da medicina experimental e mesmo da teoria pasteuriana.
54 Cabe assinalar que Ezequiel Dias, neste texto escrito em 1922 e recorrentemente citado pelos memorialistas como o primeiro esboço biográfico que foi feito sobre Oswaldo Cruz, nomeia-o sempre utilizando maiúsculas, como se pode observar no trecho citado. Este procedimento, como é sabido, está reservado ao Deus das religiões cristãs e a seu Filho em todos os textos das línguas ocidentais em que se Os mencionam, estendendo-se o uso das maiúsculas aos pronomes retos, oblíquos, possessivos etc.
55 Vale lembrar a polêmica, mencionada no capítulo 3, a respeito da descoberta da doença de Chagas. Estas interpretações sobre a participação de Oswaldo Cruz nas pesquisas contribuíram para reforçar a posição dos opositores de Chagas, e, acredito, deixaram sempre alguma dúvida sobre a questão.
56 Segundo Aragão, “retraiu (Oswaldo Cruz) completamente suas atividades de investigador consumado, considerando mais úteis ao desenvolvimento de sua escola as vitórias de vários de seus discípulos àquelas de que ele próprio poderia facilmente, neste terreno, colher isoladamente todos os louros” (Aragão, 1972:210).