Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira
4. O culto à memória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Em 1900, o Barão de Pedro Afonso – por indicação do diretor do Instituto Pasteur, Emile Roux – convidara Oswaldo Cruz para trabalhar como técnico na produção de vacina antipestosa no Instituto Soroterápico Federal, que iria construir. Consta que, após uma série de desentendimentos de natureza técnico-científica quanto à fabricação da vacina, Oswaldo Cruz pediu demissão. Não se sabe como, ao final do caso, ele conseguiu que o chefe da Diretoria Geral de Saúde Pública, Nuno de Andrade, decidisse empossá-lo como diretor do Instituto, exonerando uma figura de
prestígio como o Barão de Pedro Afonso 44.
A omissão ou o não esclarecimento de determinados fatos da vida de Oswaldo Cruz demonstram uma tendência dos memorialistas a despolitizá-los. Esta disposição, no entanto, não é gratuita. Como já se assinalou, esta forma de encarar os fatos permite enfatizar os dons pessoais de Oswaldo Cruz, que prevalecem como fator de explicação neste como em outros casos, de acordo com a interpretação dos memorialistas.
Reforça-se a singularidade de Oswaldo Cruz no cenário médico daquele momento. O anonimato é referido como uma condição louvável, na medida em que significava independência em relação a qualquer grupo político. Assim, Oswaldo Cruz não se confundia com a “politicalha vigente” no serviço público.
Em que pesem o poder e o prestígio do cargo de diretor da Saúde Pública, os memorialistas afirmam que Oswaldo Cruz aceitara o convite do ministro movido por sentimentos altruístas voltados para a causa pública. Esta ascensão é tratada como se fosse destituída de ambições pessoais, sentimento identificado nos outros, mas de que ele estaria imune. Por outro lado, frisam os relatos, a carreira pública de Oswaldo Cruz não contara com o concurso de articulações políticas, tidas de maneira geral como espúrias, que, se ocorreram, eram da responsabilidade de um terceiro, nunca
envolvendo ele próprio45.
Pressente-se nesta posição uma representação negativa da política: os textos desejavam preservar a imagem do cientista das características atribuídas à atividade política, como corrupção, clientelismo, ineficiência, entre outros conceitos pouco meritórios.
O próprio serviço público, como assinala Sales Guerra, sofria as conseqüências desta situação. Tornara-se um instrumento de suborno eleitoral, admitindo “indolentes, caçadores de emprego, parasitas que só queriam um emprego em que não trabalhassem” (Guerra, 1940:59).
Na comparação entre política e ciência, esta última passa a configurar o ideal em termos de administração, mostra-se capaz de conferir regras para a instauração da moralidade no serviço público. Sales Guerra afirma que o provimento de cargos deveria obedecer ao critério da eficiência técnica e a admissão deveria fazer-se através de concurso público, em que se recrutariam “especialistas que colaborariam com reformas úteis” (Guerra, 1940:59). Evidentemente o médico está se referindo a Oswaldo Cruz como um modelo da probidade, o qual foi introduzido em sua gestão na saúde pública.
Dentro desta linha de interpretação que procura marcar a singularidade de Oswaldo Cruz como o motivo principal de sua ascensão profissional, os memorialistas destacam outra questão. Se Oswaldo Cruz era um médico anônimo no Brasil, no exterior era um cientista renomado. Não fora o prestígio de que gozava junto ao Instituto Pasteur o responsável por sua indicação ao Barão de Pedro Afonso?
Segundo os memorialistas, o episódio demonstrava de forma indiscutível o reconhecimento da competência científica de Oswaldo Cruz, que recebia o aval de uma instituição européia consagrada. O depoimento de Phocion Serpa é representativo desta posição:
É o professor Roux quem fala, é a autoridade incontestável de
um cientista eminente quem designa e aponta Oswaldo Cruz ao
respeito de seus patrícios. O diretor do Instituto Pasteur é uma
personalidade universal, sua palavra não permite dúvidas, sua
indicação foi aceita imediatamente (Serpa, 1937:76).
Em outros termos, os memorialistas promoveram uma compensação para o anonimato de Oswaldo Cruz no país. Deram-lhe como prêmio o reconhecimento científico no estrangeiro, este sim, causa eficiente de seu sucesso profissional. O ingresso de Oswaldo Cruz no serviço público e sua ascensão à dupla direção da Diretoria Geral de Saúde Pública e do Instituto Soroterápico, que lhe era subordinado, deveu-se ao mérito e não à “mediocridade apadrinhada” (Barbosa, 1972).
Quem mais naquela momento poderia ostentar tal distinção?
A imagem do saneador do Rio de Janeiro e do Brasil construída pelos memorialistas compõe-se de alguns traços que enfatizam determinados aspectos da trajetória profissional de Oswaldo Cruz. Entre suas variadas ações à frente da Diretoria de Saúde Pública, onde permanece de 1903 a 1909, o combate à febre amarela é o tema realçado. A queda nas taxas de mortalidade e morbidade da doença no Rio de Janeiro, em menos de três anos, foi considerada uma façanha extraordinária, pela qual o higienista fez jus ao título de saneador.
Alguns textos chamam a atenção para o fato, afirmando que a obra saneadora de Oswaldo Cruz não se restringia a esta campanha: abrangia igualmente o combate à peste em Santos em 1899, e, posteriormente, no Rio de Janeiro.
Outras ações não menos importantes são relacionadas pelos memorialistas: a campanha em favor da obrigatoriedade da vacina antivariólica; os planos de profilaxia da tuberculose, enviados ao Congresso Nacional em 1907; a implantação da higiene domiciliária; o serviço de agressão e defesa profiláticas; a reorganização dos serviços sanitários dos portos. Estas e uma série de outras medidas que constavam do projeto de reforma da saúde pública elaborado por Oswaldo Cruz, em 1903, instituíram o primeiro código sanitário do país (Fraga, 1917).
Note-se que, apesar da importância do projeto de vacinação obrigatória – que teve conseqüências políticas graves, culminando no episódio conhecido como Revolta da Vacina – , a maior parte dos textos não se detém na polêmica suscitada por aquele projeto, quando a postura assumida por Oswaldo Cruz foi amplamente contestada, quer seja cientificamente, quer seja por diferentes setores sociais.
A menção ao fato é utilizada para configurar o contraste existente entre as propostas inovadoras do cientista e o contexto social avesso a elas. A rebelião popular contra o projeto da vacina obrigatória, capitaneada pelos positivistas, é apresentada como uma atitude obscurantista e irracional, reveladora da incompreensão e da ignorância vigente, responsáveis pela violência que dominou a cidade do Rio de Janeiro.
Embora Oswaldo Cruz tenha orientado e dirigido uma campanha contra a febre amarela na cidade de Belém do Pará, em 1910, de fato o assunto preferencial é a vitória sobre a febre amarela no Rio de Janeiro, que, consideram os biógrafos, representou um marco no progresso e na civilização do Brasil.
A matéria da revista Brasil Médico – o mais importante periódico médico da época, de propriedade do prestigioso clínico e professor Azevedo Sodré – publicada em homenagem a Oswaldo Cruz após a sua morte, sintetiza o significado conferido a esta campanha:
O que isto é, o que isto foi, a geração de amanhã nunca saberá
bastante, ou exatamente: a nossa geração, a que nos precedeu
e apesar dos anos crescidos guarda memória, poderá dizê-lo
ainda com vergonha e horror. Havia mais de meio século,
desde 1849, que se apossara de nós a febre amarela. Todos os
anos, quase sem interrupção, neste menos, mais naquele,
inexoravelmente, o flagelo nos ceifava impiedosamente
milhares de vítimas: em média, só na cidade do Rio de Janeiro
morreram, desde este tempo, cerca de 60 mil pessoas, ou
exatamente, até 1908, 59.069 amarelados, o que dá mil vítimas
por ano. Esses os que morreram; cifra muito mais numerosa a
dos que escaparam mal feridos com o horror de ter fugido à
morte inevitável. E essas vítimas eram a flor da nacionalidade:
eram crianças, moços em plena robustez da mocidade,
incautos provincianos, que vinham na capital do país achar a
morte certa. Eram, principalmente, os estrangeiros fortes e
válidos, em má hora buscando a vida numa atividade profícua
que trabalhava pela prosperidade do Brasil, aos quais dávamos
a recompensa fatal da febre amarela. E o círculo do terror que
se ampliava dentro, além das praias e das serranias do país,
para fugirem de nós e nos evitar lá fora, no estrangeiro, se
difundia com o labéu de país pesteado que cumpria isolar da
civilização. Paquetes cruzavam os nossos mares, sem parar
diante da cidade infectada, prevenidos pelo horror da febre
amarela; legislações contra a imigração foram editadas na
Europa para defender os nacionais contra a nação matadouro
(Brasil Médico, 1917:51).
Tanto maior a celebração de Oswaldo Cruz quanto imenso era o estigma que pesava sobre o país desde o século passado em decorrência da febre amarela. A revista destaca as conseqüências desastrosas para a imagem do país no exterior, que afetavam as relações políticas e econômicas, ressaltando a modificação da situação após a intervenção de Oswaldo Cruz.
Os depoimentos são todos nesse sentido: realçam o papel de Oswaldo Cruz e afirmam que a campanha trouxera benefícios não apenas para a cidade do Rio de Janeiro; na prática, o Brasil inteiro havia lucrado, pois a febre amarela representava “uma negra barreira” ao progresso do país (Seidl, 1917:312). Considerava-se que só a extinção da febre amarela havia sancionado de fato a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, medida inspirada pelo Visconde de Cairu em 1808 (Neiva, 1972:11; Barbosa, 1972).
Oswaldo Cruz inaugurou uma nova fase na história da administração pública brasileira: representou a ruptura entre o Brasil pesteado e o Brasil desinfetado, tornando-se o símbolo do Brasil moderno (Barbosa, 1917).
Segundo estas interpretações, sob o impacto da ação saneadora de Oswaldo Cruz, a cidade do Rio de Janeiro transformara-se totalmente. Percebe-se nos relatos uma certa idealização das mudanças sofridas pela cidade, que, de pocilga inabitável e pestilenta, tornou-se uma das cidades mais salubres, mais limpas e habitáveis do mundo. Antes conhecida como espantalho dos estrangeiros, agora os atraía em face do progresso objetivado em avenidas e construções fartas de luz, banhadas de sol. O Rio de Janeiro, sob a ação redentora do saneamento, transformara-se na cidade “mais bela do mundo” (Fraga, 1917).
O vencedor da febre amarela é saudado como “um jovem anônimo” que surgira num momento propício em que “reinava a resignação”, e os governos e a classe médica eram impotentes diante da moléstia (Guerra, 1940:65).
Ao presidente Rodrigues Alves reservam-se elogios especiais. Foi considerado um estadista inigualável, exemplo de puro civismo e republicanismo, pois nomeara e sustentara um desconhecido, indicado apenas por seus méritos pessoais. O presidente demonstrou seu caráter, permanecendo “surdo diante da gritaria oposicionista, e nos momentos mais críticos, sustentou politicamente as reformas de Oswaldo Cruz” (Dias, 1972; Fraga, 1917). O Brasil tem uma dívida de gratidão com a obra de benemerência que Oswaldo Cruz e Rodrigues Alves realizaram juntos: a redenção sanitária da capital do país.
A era oswaldiana revelou um administrador público ímpar, que promovera uma ruptura nos padrões político-burocráticos vigentes até então.
Assim, discorrem as biografias longamente sobre os atributos de Oswaldo Cruz como o condutor de homens, o homem de ação, o administrador inigualável, que agia com firmeza e serenidade, sobrepondo-se às influências dos poderosos. Nesse sentido, louva-se a atitude de independência ante as injunções políticas, que pressionavam para a indicação de médicos apadrinhados aspirantes a um emprego na Diretoria Geral de Saúde Pública. Porém, Oswaldo Cruz não cedia. No dizer dos memoralistas, ele cercou-se de gente capaz, que fora submetida a concurso público, prática pouco usual na época.
Oswaldo Cruz orientava a sua administração pelo lema que adotara quando assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública: Justiça e Trabalho. Ele próprio “dava o exemplo do trabalho ininterrupto e da justiça com isenção” (Pena, 1922:23).
Conforme a opinião de Clementino Fraga, Oswaldo Cruz implantou, na administração pública, “a força dos princípios salutares, o rigor das fórmulas idôneas, a coerência das normas moralizadoras” (Fraga, 1972).
Funcionário idôneo e exemplar, Oswaldo Cruz colocava sempre o interesse público acima das contrariedades administrativas e dos melindres pessoais. Ele conseguiu cumprir o temerário compromisso que assumira com o governo de Rodrigues Alves – exterminar a febre amarela em três anos –, pois era um homem de “fé e de vontade” (Serpa, 1937:133).
O amigo Sales Guerra desenha o perfil exemplar do administrador:
Oswaldo Cruz revelou-se então habilíssimo condutor de
homens. Dirigia com doçura, mas com firmeza. Não ordenava,
recomendava ou pedia. Aos hesitantes procurava convencer
pelo raciocínio, pela razão, à meia voz; desse modo em pouco
tempo o seu ascendente sobre os auxiliares era absolutamente
oracular (Guerra, 1929:293).
De acordo com estas interpretações, por ter implantado novas diretrizes, a administração de Oswaldo Cruz foi polêmica, atraindo contra si uma oposição implacável, jamais vista.
Um ponto central da oposição feita a Oswaldo Cruz quando assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública foi o método que utilizou contra a febre amarela, baseado no modelo cubano de combate aos mosquitos. A controvérsia científica que instaurou-se no meio médico e político teve como objeto central de discussão a teoria da transmissão da febre amarela por mosquitos, desenvolvida por Finlay em 1881.
Os memorialistas tratam da questão procurando demonstrar o grau de intransigência e de ignorância vigente no meio científico brasileiro. “Não parecia estarmos na aurora do século XX”, exclama Sales Guerra, referindo-se à reação que se formara contra a aplicação da teoria havanesa, que acabara de demonstrar sua
eficácia numa campanha realizada nos anos de 1901-1902 46.
Um dos principais motivos dos ataques contra Oswaldo Cruz era a defesa intransigente que ele fazia da teoria havanesa. Acusando-o de exclusivista, por só combater os mosquitos, a oposição reclamava o abandono dos antigos métodos empregados contra doença, de desinfecção de roupas, de objetos e do ambiente onde se achava o amarelento. Por não confiarem numa teoria que consideravam ainda em fase experimental, ou totalmente errônea, exigiam o uso de uma profilaxia mista que utilizasse os dois métodos.
Os defensores de Oswaldo Cruz mobilizaram inúmeras manifestações de apoio ao cientista, publicando na imprensa artigos e declarações favoráveis às medidas que ele adotava, o que significava, de certa forma, avalizar a teoria de Finlay.
Uma importante manifestação nesse sentido foi a divulgação dos resultados da experiência realizada no Rio de Janeiro pelos pesquisadores Marchoux e Simond, que compunham uma comissão enviada pelo governo francês para realizar estudos sobre a febre amarela e que permaneceu na cidade, aproximadamente, durante 20 meses. Todos os pesquisadores da comissão, assim como o diretor do Instituto Pasteur, Emile Roux, concluíram pela correção da teoria da transmissão pelos mosquitos, declarando apoio a Oswaldo Cruz através dos jornais.
Os partidários de Oswaldo Cruz acusavam a oposição de defender interesses escusos, ou porque pretendiam atacar o governo ou porque a posição conquistada por Oswaldo Cruz despertava a inveja de muitos médicos e burocratas. Além disso, as medidas que este adotara visando ao saneamento da cidade feriram interesses econômicos, atraindo contra si a ira dos proprietários de casas de cômodos e de comerciantes de alimentos, que passaram a ser fiscalizados.
Assim, segundo os memorialistas, a reação despertada pelas ações sanitárias de Oswaldo Cruz foi generalizadamente qualificada como uma atitude em defesa de interesses mesquinhos. Afirmam que Oswaldo Cruz foi condenado pelos acertos, e não pelos erros. Pagou um preço muito alto por manter uma conduta irrepreensível,
pautada em nobres interesses voltados para o bem-estar coletivo47.
Sabe-se que a campanha oposicionista não restringia-se às camadas cultas, mas tomou conta de toda a cidade. Os jornais da época publicam artigos, crônicas e séries de caricaturas francamente hostis ao cientista. Oswaldo Cruz inspirou a criatividade de intelectuais e dos habitantes da cidade, que manifestavam sua opinião crítica de diferentes maneiras, como quadrinhas cantadas nas ruas, chistes e motes, pelos quais popularizou-se a figura de diretor da Saúde Pública.
A referência dos memorialistas a estas manifestações é sempre pejorativa: em geral, são elas descritas como a expressão da ignorância vigente na sociedade, incluindo as classes altas. Vale reproduzir um destes textos que expressa tal posição e retrata a reação que se criou contra Oswaldo Cruz:
Das diferentes armas, contudo, arremessadas como o
responsável-mor pela infrene matança dos mosquitos, uma
havia que era a preferida. Era o ridículo, o ridículo em todas as
suas modalidades: ora o epigrama acerbo ora o mordaz
remoque; a chacota insulsa, ou a chufa de recoveiro; a
maliciosa caricatura; a ironia sutil, tendenciosa; e até o
convencido, grosserias, e a própria calúnia infanda. Tudo
servia. Poetas e poetaços prestavam ótimo serviço à causa.
Versos picantes não rarearam nas colunas humorísticas dos
periódicos. (...) Tudo servia. A música, assim como a caricatura,
cumpriu cabalmente o seu dever; e o gênero “modinha” ganhou
mais de uma composição, que fazia as delícias até dos cordões
carnavalescos. (...) De modo que a oposição não lhe dava
tréguas nem quartel. Qualquer medicastro embelecado com
ciência de fancaria, qualquer ignaro labrego, um parvajola
qualquer se arrogava direitos de críticos, e assumia atitudes
catedráticas, e compenetrava-se de que era homem para
desfazer na reputação alheia ou idônea para derrocar noções,
fatos científicos, que nem por sombras lhe passavam no
alcance do peco bestunto (Dias, 1972:115).
O texto de Ezequiel Dias descreve bem a proporção que assumiu a reação provocada pelas idéias e a ação de Oswaldo Cruz entre a população carioca. Sem dúvida, as fontes a que Ezequiel Dias faz referência constituem material privilegiado para a compreensão do espírito que animava a crítica da época. Verificamos, contudo, que a hagiografia oswaldiana produziu um interessante fenômeno. Percebe-se que as qualidades atribuídas a Oswaldo Cruz – exaustivamente arroladas –, se lidas às avessas, constituem a antítese da imagem que foi difundida na época por parte de seus críticos. Como no processo fotográfico, os memorialistas revelaram o retrato de Oswaldo Cruz a partir de uma imagem negativa. Assim, criaram um paradoxo: ao mesmo tempo em que procuram fixar imagens idealizadas, pode-se compreendê-las como o oposto do que se dizia a seu respeito.
Através desta leitura ao contrário, é possível compreender e conferir um sentido às qualidades que foram atribuídas ao saneador do Rio de Janeiro, principalmente, no que se referia à sua atitude ante a campanha oposicionista que intentava desmoralizá-lo. Exaltam-se a impassibilidade e a firmeza com que enfrentou a radicalização e a violência crescente que assumiram os ataques contra ele, não recuando em momento algum das medidas que adotara e demonstrando com isso uma convicção inabalável na teoria de Finlay, e, sobretudo, na ciência.
Enquanto a oposição o chamava de prepotente e qualificava de autoritário o código sanitário – apelidado de Código de Torturas –, os defensores de Oswaldo Cruz o retratam como um homem resoluto que agia com serenidade e calma. Como a oposição o acusava de estar realizando uma experiência científica tendo a população como cobaia, os partidários de Oswaldo Cruz afirmavam que suas ações eram “refletidas, não era afoito, e, tampouco, leviano”.
Oswaldo Cruz era um cientista competente; como afirma o biógrafo Phocion Serpa, “ele tinha a noção exata do que podia e não podia fazer; tinha consciência de suas atitudes” (Serpa, 1937:133).
A atitude determinada de Oswaldo Cruz demonstrava a sua superioridade. Ele extraiu, da fé que possuía na ciência, forças necessárias para resistir às adversidades que se lhe antepunham. Henrique Autran resume estas qualidades de um ser que parecia pertencer a um mundo extraterreno:
Num estoicismo digno dos mais vivos e justos aplausos, soube
esse nos-so grande amigo, numa sublimidade e grandeza de
espírito, dando mostras de inexcedível coragem... vencer as
resistências que se lhe antolhavam e, como bom timoneiro,
seguiu certo a rota que se traçara pondo aos olhos do mundo o
término de uma campanha de cuja vitória resultava, sem
dúvida, um dos motivos de orgulho de nossa nacionalidade.
Não lhe faltaram oposições e nem tampouco desgostos, e tudo
ele encarava com aquela serenidade, própria dos convencidos
na doutrina que professam e de que tantas vezes deu provas
Aquele que passou pelo mundo... Do mesmo modo que aquele
espírito, estava identificado com as exigências da ciência de
mãos dadas com as magnificências e esplendores da justiça,
tinha ele o seu coração aberto aos que lhe cercavam, num
distribuição parca mas sincera de afetos, representados por um
gesto simples, ressumbrando a singeleza daquela alma pura,
que parecia estar fora do âmbito dos homens (Autran, 1917:59).
Oswaldo Cruz tornou-se o símbolo da vitória da ciência sobre a ignorância. Como herói, Oswaldo Cruz assemelha-se a diferentes personagens históricos, mitológicos e literários que igualmente realizaram feitos espetaculares. Além da ousadíssima equiparação estabelecida, comparam-no com Teseu, porque nos emancipou do Minotauro; ou o consideram como o jovem Davi, que lutou contra o gigante do erro; e muitas outras imagens que simbolizam a força aliada à inteligência, como a de Napoleão da medicina indígena, e a de Hércules que executou o primeiro de seus trabalhos ao extinguir a febre amarela. E, decerto, uma identificação primordial comumente referida é a que o reconhece como o Pasteur brasileiro.
Associadas a estas imagens, conferem-se, pelo uso excessivo de variada linguagem metafórica, significados à ação de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, como por exemplo: a luta contra o dragão, o bravo domador da morte, intrépido herói do saneamento do Brasil, portaestandarte de uma era de regeneração, triunfador incruento etc.
Nesse sentido, observa-se um consenso entre os memorialistas: a trajetória de Oswaldo Cruz é considerada uma verdadeira via crucis, que aceitou com abnegação em nome da beleza das obras que imaginara. “À ridicularia e à chacota vulgar ou à mofina desrespeitosa divulgada na imprensa”, reagia de acordo com o lema que adotara: “Não esmorecer para não desmerecer”. Agüentou todos os sacrifícios em face da “vergonha nacional” que representavam “as pestes que grassavam no país” (Serpa, 1937:146).
Assim, para além das imagens de herói guerreiro, imprime-se um sentido religioso à sua ação: tanto porque orientava-se segundo uma doutrina, como porque a sua atitude demonstrava uma disposição monástica e consagrada à ascese.
Oswaldo Cruz transformara o “cargo de sacrifícios em posto de abnegação e heroísmos, resistindo com a serenidade própria dos grandes homens ao ambiente de inveja, de despeito, de arrogância e dos potentados” (Autran, 1917:59).
O comportamento adotado por Oswaldo Cruz tinha um modelo inspirador: Pasteur. A biografia de Pasteur era “lida e relida” por Oswaldo Cruz, que procurava seguir o seu exemplo em termos de postura científica. Assim como Pasteur, ele demonstrava a dignidade da ciência, criando uma nova ética científica desconhecida entre os brasileiros. Referindose a esta questão, afirma o biógrafo Sales Guerra que Oswaldo Cruz “(...) detestava o preconício, condenava os discursos científicos pela imprensa profana, assim como os discursos enfáticos nas associações médicas” (Guerra, 1940:64).
Oswaldo Cruz instaurava uma nova maneira de pensar e agir de acordo com preceitos de natureza exclusivamente científica.
Podemos indagar, ao contrário do que fazem os memorialistas, a respeito da certeza que Oswaldo Cruz demonstrou ter da teoria culicidiana, se, de alguma forma, as reivindicações da oposição, que reclamava uma profilaxia mista, não representavam uma atitude sensata. Como poderia ele alimentar tão firme convicção sobre uma teoria que passara, recentemente, por seus primeiros testes?
Para os memorialistas, no entanto, a atitude de Oswaldo Cruz justificava-se como coerente com as suas convicções e como a expressão da mais pura racionalidade científica. Não se esclarece, porém, a maneira pela qual ele tomou contato com o assunto e com a teoria de Finlay. Menciona-se vagamente que Oswaldo Cruz teria acompanhado a experiência cubana, pois sempre manifestara interesse pelo assunto. Não é, contudo, esta explicação suficiente para que se possa compreender como ele adquiriu certezas inabaláveis a respeito da veracidade da teoria sobre a transmissão dos mosquitos.
Fica-se com a impressão de que o seu interesse era uma decorrência da sua posição de cientista, que deveria estar atento a todos os assuntos referentes à ciência.
Muitos anos mais tarde, Henrique Rocha Lima – amigo e discípulo que, como vimos anteriormente, ficou afastado de Oswaldo Cruz após um sério desentendimento –, escrevendo sobre o assunto, fornece algumas informações, que, de certa forma, relativizam as versões que vimos resumindo até aqui.
Nas palavras de Rocha Lima, um século atrás era mais fácil aceitar, como causa do contágio das doenças, a influência de espíritos malignos ou a cólera divina, as emanações astrais ou ainda os miasmas atmosféricos, do que cogitar-se a respeito da existência de minúsculos organismos invisíveis e específicos a cada doença que, passando de um indivíduo doente a um indivíduo são, a transmitissem. “Mais fantástica ainda pareceria à imaginação a passagem de tais micróbios pelo corpo dos insetos sugadores de sangue que veiculassem o contágio” (Lima, 1952:16).
Rocha Lima explica que, no início do século, conheciam-se poucas bactérias, sendo a microbiologia ainda muito nova. Não havia uma diferenciação entre os tipos de agentes causadores das doenças; sob o mesmo título, classificavam-se uma série de manifestações patogênicas, como por exemplo a denominação de febres para designar doenças variadas.
Com relação à febre amarela, havia um debate científico que se desenrolava há décadas; muitas hipóteses e teorias haviam sido elaboradas, sem que, contudo, se chegasse a conclusões definitivas sobre a forma de transmissão da doença. Na passagem a seguir, Rocha Lima comenta a posição de Oswaldo Cruz neste contexto de maneira, ao que parece, bastante esclarecedora:
De acordo com os conhecimentos e com o pensamento
dominante ao tempo de minhas primeiras confabulações sobre
o assunto com Oswaldo Cruz, este, embora não convencido,
por falta de provas, do papel etiológico do bacilo de Sanarelli,
menos ainda se inclinava no sentido de uma solução para o
lado da hipótese, então sem fundamento algum, levantada por
Finlay, de que a febre amarela seria transmitida por mosquitos
(Lima, 1952:16)48.
Rocha Lima situa este momento como o da véspera da experiência da comissão norte-americana em Cuba, que atuou em 1901-1902. Para ele, Oswaldo Cruz soube discernir e interpretar corretamente esta experiência assim que teve conhecimento dela, o que se deveu ao espírito científico clarividente que o caracterizava.
Apesar de incorrer na mesma idealização, evocando o espírito científico de Oswaldo Cruz para explicar sua adesão à teoria dos mosquitos, ao menos esta versão tem o mérito de introduzir uma certa relativização nas opiniões predominantes. Enquanto na maioria das interpretações insiste-se em apresentar a posição de Oswaldo Cruz como se se tratasse de uma questão de fé e clarividência, ou de intruição de sua parte sobre aquilo que é verdadeiro, Rocha Lima afirma que em um dado momento ele chegou a duvidar da teoria de Finlay. Encarado por este ângulo, Oswaldo Cruz passa a ser visto como um homem de seu tempo, e quem lhe fazia oposição como personagens menos demonizados, todos mais coerentes com o conhecimento existente na época. Fica-se, porém, sem saber qual o motivo que o levou a adotar, intransigentemente, a posição em defesa da teoria dos mosquitos, suportando os altos custos que envolveu esta decisão.
É plausível imaginar que as convicções de Oswaldo Cruz firmaram-se em decorrência de um processo de observação das experiências que realizavam-se naquele momento, não apenas a de Cuba, mas as que ocorriam no Rio e em São Paulo e que tinham como objetivo testar as hipóteses de Finlay. Assim, poder-se-ia concluir que a posição que assumiu resultou do amadurecimento coletivo de um determinado grupo de cientistas que se dispôs a verificar a teoria, pondo em prática as suas hipóteses. Criou-se, desse modo, um certo consenso científico que não foi, contudo, compartilhado por toda a comunidade científica da época. Mas como poderia ser de outra forma em se tratando de uma questão ainda circunscrita ao terreno da experimentação?
Além disso, parece legítima a composição de que, no processo de convencimento por que passou Oswaldo Cruz, influiu poderosamente o feeling político que o caracterizava. Por que não ousar experimentar algo novo? O que era mais arriscado: fracassar com o emprego de métodos provadamente ineficazes ou apostar numa possibilidade de sucesso?
Visivelmente, tais indagações não fazem parte do horizonte das análises disponíveis do papel que Oswaldo Cruz terá desempenhado no cenário científico brasileiro, cujas preocupações se dirigem para um outro propósito: organizar a defesa da imagem de Oswaldo Cruz. Com este feito organizou-se um argumento insistentemente repetido até mesmo na boa literatura atual sobre o assunto: o problema de Oswaldo Cruz foi o de sua inadequação ao contexto social em que viveu. Esta é a opinião prevalecente entre os memorialistas, de que Sales Guerra é o porta-voz:
(...) em um meio social ainda mal-educado, de pouco civismo,
em que dominam idéias falsas de liberdade, onde existem
apenas vagas noções de cumprimento do dever e de respeito à
lei; meio semi-anarquizado em que – para citar só uma das
práticas administrativas freqüentes – os dirigentes muitas vezes
preferem os incapazes para favorecer protegidos, firmando
assim a crença de não ser pelo trabalho, pelo preparo que se
conseguem colocações, mas valendo-se de pistolões, da lisonja
dos poderosos e da insistência desbriosa persistente (...) Em
semelhante ambiente, a força de trabalho, o espírito de ordem,
de disciplina de Oswaldo Cruz, suas atitudes dignas, a retidão
de suas decisões só podiam despertar antipatia, pelo irritante
contraste que formavam com as práticas relaxadas, e, não raro,
pouco decorosas existentes: eram censura viva, repreensão
constante. E a censura, mesmo involuntária e muda, não
agrada nunca (Guerra, 1940:432).
Ou seja, Sales Guerra descreve a sociedade em que Oswaldo Cruz viveu como a antítese do que representava sua administração e, sobretudo, do seu caráter.
Assim, defende-se a idéia de que havia um contraste entre o homem e o meio, caracterizado como mal-educado, tradicional, atrasado e avesso às inovações. Tal pátria merecia tal filho? indaga perplexo Belisário Pena ao constatar o que, para ele, significava a destruição da obra de saneamento feita por Oswaldo Cruz na cidade do Rio de Janeiro (Pena, 1972:13).
Entre os partidários de Oswaldo Cruz organizou-se um consenso absoluto: ele era um homem superior ao meio em que nasceu e viveu. Para Artur Neiva, ele foi “um precursor deslocado do ambiente, ele marchava adiante de muitos anos da cultura e da civilização reinantes no país que o viu nascer” (Neiva, 1972:14).
Comportaria o Brasil um homem como Oswaldo Cruz? Em que pesem estas avaliações acerca da insensibilidade da época para com a importância de Oswaldo Cruz, pelo menos nas palavras do Conselheiro Rui Barbosa – uma das figuras mais representativas do meio político e intelectual daquele momento – está expresso o reconhecimento tão desejado pelos discípulos. A conferência de Rui Barbosa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em junho de 1917, como já indicamos no capítulo 2, foi organizada pelos amigos de Oswaldo Cruz, que incumbiram-se de divulgá-la como a expressão do pensamento de uma parcela das elites da época:
Suponhamos que Deus não houvesse criado o sol... (...) Para o
nosso mundo toda a fecundidade, toda a beleza, toda a alegria
vêm do sol. Grande criador, porém, o sol é, ao mesmo tempo, o
grande putrefator (...) Aquece-nos o sangue; mas, ao mesmo
passo, aviventa os germes, que no-lo destroem. Entre essas
duas funções, a ignorância não sabe discernir e aproveitar. A
ciência as discrimina e utiliza. Com a ciência fecunda, preserva
e cria. Se Deus não nos suscitasse a missão de Oswaldo Cruz,
o Brasil teria o mesmo sol, com a mesma exuberância de
maravilhas, mas o sol com a peste, com o impaludismo, com a
febre amarela, com a doença do barbeiro, com todas essas
desgraças, até então irremediáveis, que esse homem superior
ao seu tempo e ao seu país deixou extintas ou em via de se
extinguirem. Dar o sol, e não dar a ciência, é deixar apenas
meio sol, ou um sol malogrado: o sol, com a doença, a
esterilidade e o luto. Deus nos havia dadivado o benefício do
sol tropical. Com Oswaldo Cruz nos acrescentou os da ciência
que o corrige. Podemos-nos congratular, agora, de termos o sol
estreme dos seus descontos, o sol sem as suas malignidades,
o bem-logrado sol dos países saneados (Barbosa, 1972:74).
Depreende-se destas palavras que pelo menos uma parcela das elites legitimava o discurso cientificista produzido pelos médicos, por meio do qual Oswaldo Cruz, após a sua morte, haveria de tornar-se portavoz deste símbolo da ciência nacional.
O fundador da medicina experimental
Se o saneamento do Rio de Janeiro é considerado uma obra patriótica, não esgota, contudo, o acervo de benefícios que Oswaldo Cruz concedeu ao Brasil. Tampouco constitui o seu principal legado. Os discípulos e memorialistas consideram como obra máxima de Oswaldo Cruz a fundação da medicina experimental, representada pelo instituto de pesquisas que criou, a sua filha predileta.
A importância de Oswaldo Cruz foi a de ter instituído uma escola de biologia voltada para o estudo etiopatogênico das doenças tropicais, inexistente até então no país, segundo o depoimento dos memorialistas. E tanto maior é o mérito quanto entendia-se que Manguinhos constituía um sonho, o ideal intangível de alguns cientistas brasileiros. Como afirma Carlos Chagas em artigo na revista Brasil Médico,
Era quase uma quimera, naquela época, levar tão longe
aspirações de ciência, e só a visão de um predestinado poderia
autorizar projeto de tanto ânimo. E foi, apesar disso, uma
jornada homérica, concebida com altos desígnios e realizada
sem desfalecimento (Chagas, 1917:53).
Os discípulos reconhecem que houve precursores notáveis, sobretudo no campo da parasitologia e patologia tropical, como, por exemplo, lembra Chagas: Pedro de Magalhães, Francisco Fajardo, Chapot-Prévost, para citar apenas os médicos da capital federal. Apesar da importância atribuída à chamada Escola Tropicalista Baiana, que já no século passado dedicava-se a estudos de patologia tropical, reunindo médicos como Wücherer, Pacífico Pereira, Silva Lima e Nina Rodrigues, os discípulos entendem que ninguém tentara romper com a importação dos métodos europeus para tratar destas questões.
Conforme alguns depoimentos, até a criação do Instituto Soroterápico Federal, em 1900, as atividades de laboratório eram escassas ou quase inexistentes. Poucos médicos tinham sido adestrados nas técnicas microbiológicas ou possuíam alguma intimidade com a teoria pasteuriana.
Henrique Rocha Lima afirma que a microbiologia e a anatomia patológica eram ciências, que no início do século, no Rio de Janeiro, só eram conhecidas através de literatura. Conforme este cientista, os primeiros cursos nesta área foram ministrados pelo Instituto Oswaldo Cruz, que, a partir de 1908, instituiu regularmente o chamado Curso de Aplicação (Lima, 1952:28).
O problema dos precursores, segundo estas interpretações, fora o isolamento e a dispersão das atividades. O mérito de Oswaldo Cruz fora contrariando um padrão de ciência vigente no Brasil, o de sistematizar e congregar aptidões. Em outros termos, o valor do trabalho empreendido por Oswaldo Cruz foi o de instituir uma escola de formação de pesquisadores, tarefa que a Faculdade de Medicina não cumpria.
Artur Neiva comenta que o problema das ciências no Brasil era a importação de pesquisadores, a quem se incumbia de formar escolas. Os brasileiros eram considerados incapazes de desenvolver autonomamente o trabalho científico. Segundo o cientista, Oswaldo Cruz criticava esta situação, pondo em dúvida a capacidade de estrangeiros tratarem de assuntos de que sequer possuíam algum conhecimento. Artur Neiva traduz a opinião de Oswaldo Cruz, manifestada em conversas em que haviam tratado sobre o assunto:
[Oswaldo] pensava com toda a razão que o estrangeiro, ao
tocar as nossas plagas, ficava influenciado pelas possibilidades
de ganhar fortuna e sempre estava disposto a empregar sua
atividade em outros campos científicos, sentindo-se com força
para pontificar em assuntos que pela primeira vez viera ouvir
falar nas nossas terras e isso com um desembaraço e energia
dignos de melhor causa (...) [considerava] estranho
especialistas neste ou naquele departamento do saber humano
transformarem-se de um dia para outro em autoridades sobre
assuntos que se não suspeitava pudessem saber,
simplesmente pelo fato de serem estrangeiros e reputados
sábios em determinada especialidade (Neiva, 1917:8).
Por este motivo, aventado por Oswaldo Cruz, não se formavam escolas e, tampouco, discípulos. Entre os cientistas importados, alguns eram realmente sábios, mas a maioria era composta de pseudo-sábios (Cf. Neiva, 1917:8).
Outra foi a atitude de Oswaldo Cruz, que, segundo Alcides Godoy, mostrou como se devia prezar os pesquisadores, consolidando o interesse pela investigação científica no Brasil. Godoy, que integrava a equipe inicial de pesquisadores desde a época do Instituto Soroterápico, fala da importância de Manguinhos para a ciência brasileira:
(...) e assim desta casa saíram os primeiros brasileiros que,
com brasileiros, aprenderam os métodos da pesquisa biológica
(...) Ao realizar sua obra destruiu velhos preconceitos: mostrou
a capacidade de nosso povo e dos latino-americanos em geral
para abordar e assimilar as ciências experimentais. Uma vez
vencida esta etapa, tornou-se possível, aqui e fora daqui, criar
novos centros de investigação que hoje prosperam (Godoy,
1929:306).
Por ter conseguido romper com o passado, instituindo uma nova tradição científica, Oswaldo Cruz recebeu o título de nacionalizador da medicina, que lhe foi atribuído após a morte pelo médico baiano
Oscar Freire, professor da Faculdade de Medicina da Bahia49.
A preocupação constante de Oswaldo Cruz sempre fora com o desenvolvimento de sua escola. Ele acreditava que ela era capaz de competir no terreno científico em condições equivalentes às dos especialistas do mundo civilizado. Conforme o depoimento de Rocha Lima, um dos temas prediletos de Oswaldo Cruz era traçar planos e fazer conjecturas sobre o futuro de Manguinhos, sua
projeção científica e a do Brasil (Cf. Lima, 1952:20)50.
Mas como Oswaldo Cruz logrou transformar uma tapera em palácio?, perguntam-se admirados os memorialistas.
O Instituto Soroterápico era muito precário. O local e as instalações da fábrica de vacinas contra a peste não proporcionavam qualquer conforto material. Encontra-se com freqüência nos textos o emprego de expressões depreciativas para descrever a pobreza do Instituto, tais como tapera, casarão, casebre, barracão, entre outras. Para os memorialistas, este tempo contrastava fortemente com o período da direção de Oswaldo Cruz, em que o Instituto sofreu transformações fundamentais e que o tornaram conhecido como o palácio da ciência, ou o palácio das mil e uma noites.
A perplexidade dos memorialistas expressa-se em longas descrições sobre a região da fazenda de Manguinhos, propriedade do governo municipal, onde o Barão de Pedro Afonso alojou o seu instituto. O assunto é explorado por quase todos os textos consultados, os quais, em relatos minuciosos, procuram realçar o impacto causado pelas transformações que o Instituto sofreu a partir da direção de Oswaldo Cruz. O trecho a seguir é apenas um entre muitos exemplos desta preocupação:
Logo após a chegada, todos os técnicos vestiam suas blusas
brancas e iam para seus postos; reinava silêncio e cada qual se
ocupava do trabalho que lhe competia realizar, visando o
preparo da vacina e do soro antipestoso. Ao soar do meio-dia,
suspendia-se o labor para o almoço na estreita varanda da
Casinha da Fazenda. A mesa estava posta sobre uma meia-
porta, que se apoiava sobre duas barricas vazias e era coberta,
parcialmente, por uma toalha grosseira, havendo dois longos
bancos de madeira de cada lado, para os convivas se
sentarem. Todos se apressavam porque a comida não era
muito abundante: um clássico ensopado de galinha com
batatas, arroz, pão e, para terminar, algumas bananas e café
ralo. Não havia motivo para que o repasto fosse demorado, e
uns vinte minutos depois o trabalho já recomeçava, embora os
estômagos não estivessem muito satisfeitos. Não havia jantar, e
quem tivesse de ficar até mais tarde no Instituto devia trazer
seu farnel ou então recorrer aos azares das frutas nas matas
adjacentes. As atividades deviam ser conduzidas com estrita
economia porque o minguado orçamento de sessenta mil
cruzeiros anuais de que dispunha o Instituto não permitia
larguezas, mas, apesar disso, podia-se trabalhar com relativa
facilidade porque havia o essencial. Todos se adaptavam com a
melhor boa vontade às circunstâncias e os trabalhos se
realizavam com muita perfeição sob a fiscalização econômica
do Barão que, se não admitia esbanjamentos, também não
impedia os dispêndios quando justificados e necessários. Todos
se sentiam satisfeitos e iam insensivelmente se apegando
àquele ambiente tão novo no nosso meio que era então o de
um laboratório de pesquisas (Aragão, 1972:195).
Neste cenário cuidadosamente composto, percebe-se a preocupação com certos detalhes e imagens, bastante explorados por esta literatura. Assim, valoriza-se a pobreza e os sacrifícios – inclusive alimentares – impostos àqueles homens que desejavam dedicar-se a uma atividade retratada como exótica naquele contexto. A idéia de ascese é permanente: perpassa o trecho inteiro, mas insinua-se em particular quando Aragão afirma que no trabalho de laboratório reinava o silêncio. É recorrente nos textos esta imagem da atividade científica como algo que colocavase fora do espaço e do tempo, sobre a qual pairava um mistério indecifrável e cujos significados somente aos poucos seriam compreendidos.
O relato minucioso de Henrique Aragão evidencia a idealização destes depoimentos sobre o trabalho científico, o qual impunha uma disposição quase religiosa aos pesquisadores. E, contraste com os sacrifícios que a atividade exigia, afirmam-se o altruísmo e a alegria com que estes encaravam a situação.
Neste contexto sobressai a figura de Oswaldo Cruz, retratado como um ser dotado de qualidades superiores ao comum dos mortais, que inspirava o ambiente a partir de seus atributos ímpares. A organização de Manguinhos deveu-se exclusivamente a ele, viabilizando-se graças aos seus dotes pessoais. A criação de um instituto de pesquisas era um projeto acalentado por Oswaldo Cruz mesmo antes de materializar-se.
É interessante notar a referência – a passagem de Carlos Chagas acima citada – entre muitas – a Manguinhos como produto de um sonho, algo próximo da fantasia, como se a sua instituição representasse uma ação extraordinária, impossível de se concretizar. Ao mencionar o assunto, Sales Guerra diz que a edificação daquele palácio encantado e a ampliação do programa de estudos para organizar a escola de medicina experimental era o sonho dourado de Oswaldo Cruz, que conseguiu implementar o seu projeto porque era dotado de máscula energia e possuía prestígio político (Cf. Guerra, 1929:298).
Outra idéia bastante explorada é a de que tudo já estava preconcebido por Oswaldo Cruz e dependia apenas de seu empenho. Assim, os textos, e em especial as biografias, analisam a história de vida como se se tratasse de uma profecia autocumprida.
Com esta observação, não fica descartada a possibilidade de que Oswaldo Cruz tivesse cogitado criar uma instituição de pesquisas. No entanto, a questão não é colocada nestes termos. Os memorialistas referem-se a esta ambição como se toda a vida de Oswaldo Cruz houvesse sido orientada para realizar este objetivo. No trecho a seguir, Henrique Aragão apresenta esta versão reportando-se ao período inicial do Instituto Soroterápico, quando Oswaldo Cruz era apenas o técnico responsável pela fabricação do soro antipestoso, mas em que já se percebia o destino que lhe estava reservado:
Esse Instituto de Manguinhos que surgia assim,
inesperadamente, sem decretos governamentais nem atos
jurídicos que tivessem legalizado sua existência e que, no
fundo, não passava de uma tênue exteriorização de um
grandioso sonho, estava fadado, no entanto, a ter, no futuro, a
mais profunda influência nos destinos científicos do Brasil. (...)
era a revelação a todos de que Oswaldo Cruz ia lançar-se,
decidida e corajosamente, na luta para a realização do
magnífico programa que se traçara, e que até então mantivera
em segredo, de dotar um dia o Brasil de uma prestigiosa escola
de Biologia e Medicina Experimental. E daí em diante [Oswaldo
Cruz] não teve mais um só momento de descanso, num
constante esforço para obter a integral realização de tão
elevado e patriótico objetivo, ao qual dedicou todas as energias
de sua vida até seu completo e definitivo esgotamento (Aragão,