Participação e responsabilidade no jornalismo público
4. As dimensões empíricas da porosidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Houve uma ruptura com a queda do Conselho Curador, [da] figura de referência para o debate da produção de conteúdo, e também houve certo anestesiamento. "Ah, acabou o Conselho Curador, agora é assim, agora é a chefia que define e tal", e aí as pessoas passaram a brigar menos por essa participação do público. (EBC B)
Segundo as entrevistas, a mudança no arranjo organizacional da empresa impactou também a efetivação de outras estratégias de responsabilidade, como documentos e normativas que não encontram mais efetivação prática. A lacuna entre o que está previsto nos documentos e o conteúdo produzido pela emissora pode ter gerado a discrepância entre os princípios identificados nas práticas da EBC, como, por exemplo, a ausência de mecanismos complexos na programação da TV Brasil. A análise de documentos editoriais revela uma empresa estruturada para porosidade, responsabilização e participação, mas o histórico recente de intervenções políticas pode ter impedido a identificação de canais e dispositivos efetivos na EBC.
Hoje você não tem mais o contraditório nas informações jornalísticas da EBC e a participação do público praticamente em nenhum programa da empresa, sequer às vezes você tem participação ao vivo. Isso altera drasticamente a lógica que vinha sendo construída de comunicação pública na EBC, e o presente hoje é de descumprimento da própria lei. (EBC A)
Ainda que a medida provisória 744/2016 tenha impactado negativamente as estratégias de participação do público na emissora e da efetividade de mecanismos de controle social, sugerimos que, se houvesse na sociedade brasileira o reconhecimento da legitimidade da importância do sistema público de radiodifusão, a medida provisória teria encontrado resistências além daquela organizada em setores específicos. Nesse sentido, argumentamos, partindo da ótica da accountability, um alinhamento entre as perspectivas de Bertrand (2002) e McQuail (2000): a sustentabilidade, a independência e a obediência aos aspectos públicos e de qualidade do conteúdo dependem não somente da adoção de instrumentos de accountability internos, externos e cooperativos, mas também da estrutura política e midiática da sociedade e do setor de radiodifusão. E essa relação foi aparentemente percebida por este entrevistado:
Quando a comunicação pública com responsabilidade social da mídia e com prestação de contas traz o público para fazer parte desses processos e para participar dessa empresa, ela ganha relevância, comprometimento das pessoas, defesa do projeto, audiência, e passa a ter um alcance maior. Você vai ter menos força política com teu meio de comunicação quanto menos responsabilidade social ele tiver. Quanto menos prestação de contas fizer, ele vai se tornando irrelevante, menos visto, e vai perdendo impacto. Sem prestação de contas, sem responsabilidade social da mídia, a comunicação pública morre. (EBC A)
Medidas interventoras encontram resistência em setores específicos da sociedade. Existem grupos organizados pela democratização da comunicação, e há reverberação e resistência entre os profissionais da EBC. Os entrevistados descrevem que os servidores compartilham um senso de defesa da empresa e da comunicação pública. Empregados da EBC, grupos que lutam pela democratização da comunicação, especialistas e acadêmicos se organizaram para a criação de uma instância independente de responsabilização, denúncia de censura e uma Ouvidoria Cidadã da EBC. Esses atores registram o processo de enfraquecimento da EBC, denunciam processos de censura que os jornalistas vinham sofrendo e defendem a existência de uma empresa de comunicação pública no país.
Com o passar do tempo, todas essas relações que vinham sendo feitas de observação direta do Conselho Curador vão ser esvaziadas. A programação da TV Brasil vai sofrendo censura, como demonstra o documento publicado pela Comissão de Empregados com mais de sessenta casos em um ano, e o presidente da empresa vai sendo trocado de ano em ano. Todas essas realidades convergem para um cenário, hoje, onde o entendimento de comunicação pública ou de radiodifusão pública que se tem na empresa é extremamente submisso à comunicação governamental. (EBC A)
Você tem algumas formas de organização e grupos específicos de organização da luta política cotidiana, onde a gente vai falar sobre a censura cotidiana, como que isso está acontecendo, e isso dá uma fortalecida para que se faça disputa com as chefias, mas em menor grau, porque as pessoas têm medo, estão sendo ameaçadas, a gente não está mais lidando no jogo democrático. (EBC C)
A EBC não está morta. As pessoas estão lá ainda dispostas a gerar conteúdo para a sociedade, maior participação do público na TV, aumentar a pluralidade e a representatividade, e isso pode ser retomado. Hoje está o processo de sobrevivência, a gente está muito na defensiva, num momento de falando bem da gente para ninguém numa canetada acabar com a EBC. (EBC B)
Esses depoimentos sugerem que entre os servidores da EBC há resistência pela manutenção dos princípios do jornalismo público e da independência da empresa. Mesmo que os espaços institucionalizados tenham sido dissolvidos, e que haja um descolamento entre o que é normativo e o que é exercido, há dentro da EBC a organização de servidores para defesa da comunicação pública e pela manutenção de mecanismos não institucionalizados de prestação de contas. Esse movimento, conforme destacado no depoimento de EBC B, valoriza os recursos humanos da empresa, que reconhecem e estão aptos a cumprir seu papel de produtor de conteúdo de jornalismo público.
Avaliamos que, assim como os movimentos de democratização podem ter deixado um legado de adoção de compromisso organizacional com a porosidade e responsabilidade nas emissoras públicas brasileiras, esses mesmos movimentos podem ter inspirado as organizações de servidores na manutenção e criação de espaços de responsabilização não institucionalizados.
Na próxima seção, são analisadas as estratégias de credibilidade jornalística que impactam e são impactadas por mecanismos de porosidade.
A porosidade e as estratégias de
credibilidade jornalística
A relação entre o fortalecimento da credibilidade do jornalismo e a participação e interação com o público não é tida como certa para os profissionais. Parte das estratégias citadas é mencionada como possibilidade, e não prática efetivada pelas organizações.
A identificação, com base nas entrevistas, das relações entre dimensões de porosidade e estratégias de credibilidade foi percebida em cinco modos, a saber: sustentabilidade dada por estratégias de responsabilidade social para as estratégias de credibilidade; definição de parâmetros editoriais para jornalismo participativo; atribuição ao profissional e ao jornalista da aplicação de práticas institucionalizadas; concepções de jornalismo cívico; e conversão de credibilidade da emissora em audiência para sustentar sua legitimidade.
O primeiro modo advém da relação de sustentabilidade entre estratégias de responsabilidade social e de credibilidade do jornalismo revelada em decisões sobre mecanismos de porosidade. Estratégias de responsabilização asseguram a manutenção e o fortalecimento de estratégias de credibilidade do jornalismo, como retratado neste trecho:
Havia uma participação indireta da sociedade brasileira por meio do Conselho Curador na prestação de contas dos veículos da EBC e na TV Brasil, mas também num acompanhamento para uma formação de programas, para uma formação editorial e para uma fiscalização do cumprimento do Manual de jornalismo junto da TV Brasil. (EBC A)
Na EBC, a construção do debate sobre a importância da participação do público no jornalismo como estratégia de credibilidade ocorreu em espaços institucionalizados de responsabilidade social, como o Conselho Curador, e desdobrou-se na elaboração do Manual de jornalismo, identificado como prática de porosidade. O documento fomenta estratégias de responsabilidade social, define parâmetros editoriais para jornalismo participativo e atribui ao profissional a aplicação de práticas institucionalizadas.
Sem dúvida o debate mais forte sobre a necessidade de requisitos e padrões para radiodifusão pública foi na construção do Manual de jornalismo. Em 2011, a construção do Manual de jornalismo envolveu o Conselho Curador, [em] que existem representações da sociedade civil, do Congresso Nacional e dos trabalhadores, mais um grupo da direção da empresa, um grupo de especialistas convidados para definir de fato quais linhas gerais deviam ser condicionadas ao jornalismo da EBC. [...] O jornalismo tinha especificidades que é a garantia de trazer a pauta com um olhar diferente da mídia privada, a necessidade de buscar o contraditório, de fazer que espaços sociais e grupos políticos não muito vistos com seus pontos de vista nos outros veículos de mídia privada tivessem espaço na TV Brasil. (EBC A)
O Manual de jornalismo da TV Brasil informa o público sobre os deveres da empresa, subsidiando processos de responsabilização em canais como a Ouvidoria e o Conselho Curador. O documento implica decisões editoriais de credibilidade jornalísticas ligadas à concepção e a mecanismos de porosidade por colocar parâmetros editoriais de jornalismo participativo.
Uma vez que o Conselho Curador da EBC foi extinto, houve também a dissolução do que foi previsto para as estratégias de credibilidade do jornalismo ligadas aos requisitos de comunicação pública e de participação, como o Manual de jornalismo. As entrevistas reforçam a avaliação sobre o papel de instâncias de responsabilização na manutenção do compromisso com a porosidade.
Os depoimentos de EBC B sugerem que a extinção do Conselho Curador da empresa dissolveu as estratégias de credibilidade desenvolvidas naquele espaço, o que se refletiu no conteúdo produzido pela emissora e na dinâmica entre os jornalistas. As discussões no âmbito do Conselho Curador reverberavam na redação. À luz de Bertrand (2002), avaliamos que as instâncias institucionalizadas dentro de uma organização são essenciais para a garantia, funcionamento e aderência ao compromisso organizacional. Estratégias de responsabilidade social respaldam estratégias de credibilidade, que, por sua vez, impactam decisões que fortalecem e subsidiam mecanismos de porosidade.
A TV pública não é só o jornalismo comum. Você tem uma exigência de que o público tenha uma participação muito maior, é como premissa, conceito de TV pública. Isso caiu muito de fato com o Temer, quando ele assume e acaba com o Conselho Curador em uma canetada, no dia seguinte após a posse. Vou dar um exemplo prático para você, teve mais de uma vez que em reuniões de pauta a chefia virava pra gente "Mas olha, gente, isso aí o Conselho Curador abordou na última reunião, acho melhor a gente dar". É uma influência absoluta, muito próxima da produção do conteúdo. O Conselho Curador tinha esse papel muito forte ali dentro da EBC e muito importante. [...] A gente usava como argumento quando tinha debate racial, ou das mulheres, ou LGBT, LGBTQI+, todos os temas, a questão indígena. Usava muito do falado no Conselho Curador sobre a programação e sobre jornalismo nas nossas reuniões diárias, sobre a importância de como isso deve [se] refletir ou deveria [se] refletir na nossa programação. (EBC B)
Nas entrevistas, os profissionais da EBC não denunciam somente os efeitos da dissolução do Conselho Curador sobre as estratégias de credibilidade da empresa, mas também a disfuncionalidade do papel da Ouvidoria. Reiteramos a avaliação de que há uma discrepância entre o que afirmam os documentos editoriais da emissora e o conteúdo produzido. Ainda que esses documentos previssem concepções de jornalismo participativo, não foram identificados na TV Brasil programas jornalísticos, de debates ou de entrevistas com aproveitamento dos inputs do público. A dissolução de estratégias de responsabilidade social também impactou a sustentabilidade de estratégias de credibilidade e mecanismos de porosidade.
É nítida uma completa disfuncionalidade do papel da Ouvidoria no que se refere a uma cobrança mais crítica, mais profunda, mais cotidiana e tensa de desvios da EBC com relação à lei e ao Manual de jornalismo. Hoje ficou tudo mais brando. Os manuais existem e a Ouvidoria continua trabalhando, mas você percebe uma quase infantilização dos relatórios diante da gravidade dos descumprimentos que têm sido feitos na EBC. [...] O próprio Conselho Curador funcionava como um ente da sociedade civil que fiscalizava o cumprimento da lei da EBC e do Manual de jornalismo. Essa atmosfera me trazia a importância da participação da sociedade na TV. (EBC A)
As entrevistas sugerem que o Conselho Curador e a Ouvidoria da EBC abrigavam debates, fiscalização e cobrança do jornalismo público e da participação do público na empresa. Sem mecanismos de responsabilização, as estratégias de credibilidade, como o Manual de jornalismo, foram enfraquecidas, e o conteúdo da emissora teve seu caráter público reduzido. A sustentabilidade trazida pelas estratégias de responsabilidade social é sugerida por EBC A, destacado a seguir. Quando a EBC não cumpre o papel para o qual foi criada, perde relevância, audiência, interesse e credibilidade. Instâncias de controle social estão conectadas à independência editorial e à credibilidade jornalística, fundamentando a legitimidade das emissoras públicas.
[Sem responsabilidade social] deixa de ganhar credibilidade de uma comunicação pública, passa a assumir a postura de um órgão de comunicação governamental e consequentemente deixa de ter interesse pela sociedade. Esse é um grande problema. Se uma empresa como a EBC hoje deixa de fazer comunicação pública, deixa de ter interesse na população, perde audiência, deixa de ser relevante. [...] Se, por um lado, eu acho que a participação direta na produção de informação, por si só, não garantiria aumento da credibilidade, a instalação de conselhos ou de mecanismos de fiscalização dos órgãos de comunicação com certeza garantiriam maior credibilidade. (EBC A)
Quando deixa de existir o Conselho, é uma perda irreparável dentro dos critérios de existência da comunicação pública, deixa de existir espaço legítimo para esse debate. (EBC C)
A abertura à participação e interação com o público depende de critérios editoriais do jornalismo e papéis autoatribuídos pelos jornalistas. Tal aspecto revela o terceiro modo de relação e impacto entre dimensões de porosidade e estratégias de credibilidade: atribuição ao jornalista da utilização de práticas institucionalizadas. As entrevistas sugerem a valorização do papel do jornalista no contexto, tanto no Brasil quanto no Reino Unido:
O jornalismo supõe uma vocação, [de] um grupo que é representativo da sociedade, que filtra o debate social das notícias de interesse público ao longo do seu processo de produção, [e] decide o que é mais importante do que o outro, em termos de notícias. Isso é uma técnica jornalística relacionada com o modo de produção da notícia no jornalismo. E o jornalismo produzido pelo espectador não é consoante a isso que eu estou chamando de jornalismo, que é o que tem vocação de intervenção na esfera pública. (TV Cultura B)
Acho que é sobre ter a compreensão de um especialista. O controle vem das pessoas que têm experiência. Você não consegue ser o editor de um programa a menos que tenha o conhecimento, a experiência. (ITV)
Acho que é daí que vem nossa credibilidade. Temos o conhecimento e a experiência. Eles estão assistindo ao programa porque querem aproveitar nosso conhecimento e experiência. Eu acho importante ter gente como a gente, porque você tem que fazer as perguntas certas, você tem que fazer da maneira certa, porque é uma área especializada, você precisa conhecer e entender o esporte para poder fazer as perguntas certas. (ITV)
O que nós defendíamos é que o público não necessariamente tinha que fazer jornalismo, o público tinha que demonstrar sua visão daquilo que era notícia, e nós na EBC deveríamos correr atrás do outro lado da informação. Quando essa unilateralidade era política, questionando ações do governo federal, temas difíceis como religião, como drogas, interrupção da gravidez, esses temas eram quase sempre bloqueados. (EBC A)
Há entre os profissionais entrevistados a valorização das práticas institucionalizadas para atribuição de credibilidade, seja em formatos participativos, seja em não participativos. Nos trechos destacados anteriormente, podemos identificar funções autoatribuídas que aproximam o jornalista de um papel especialista, como descrito pela entrevista da ITV; de mediador e editor da realidade, relatado em TV Cultura B; e de responsável pela atribuição de equilíbrio, em EBC A.
Sobre esse aspecto, em particular no Reino Unido, a objetividade aparece nas entrevistas como estratégia de credibilidade que protege a empresa e o jornalista de críticas do público, corroborando Tuchman (1972) e Schudson (2001), que veem a objetividade como escudo e disciplina profissional, e em resposta a pressões de instâncias de responsabilização e regulação. A valorização da objetividade e do equilíbrio como definição do jornalismo que cumpre expectativas sociais está presente nos trechos de Channel 4, a seguir.
O noticiário tem que ser objetivo. É quase como uma parte sagrada do broadcasting. Não tanto para a Sky (emissora comercial). Quando você sai dessa missão de serviço público, é muito diferente. Mas, para as emissoras de serviço público, as notícias são literalmente sacrossantas. Você tem que ser objetivo [e] equilibrado. Você não pode arriscar trazer alguém [do público] que pode ter uma visão totalmente diferente e influenciar os julgamentos dos espectadores. Eles [o público e o Ofcom] nos atacariam. [...] O trabalho deles [a BBC] é entregar o noticiário. Então, de forma equilibrada, objetiva e bem pesquisada. O noticiário do Channel 4, às sete, é muito mais, é quase um programa de atualidades. Mas quando recebemos as reclamações dos telespectadores pela manhã, o Channel 4 News fala: "Eu não gostei disso, não gostei daquela entrevista. Essa pessoa, essa pessoa, essa pessoa". Esse é o risco que você corre. (Channel 4)
Argumentamos que, quando há instâncias de responsabilização externas, a objetividade figura como meio de proteção da sociedade. Isso tende a ocorrer no Reino Unido, onde há canais e dispositivos para reclamações do público. Nesse contexto, a objetividade não é estratégia de enfrentamento da crítica do público, mas sim um parâmetro verificado por agências reguladoras e instâncias de controle social.
Ainda sobre a objetividade no contexto britânico, identificamos nas entrevistas a pressão sobre os profissionais da BBC para assegurar a independência editorial da emissora, que seria percebida pelo público na forma da prática editorial de produção de matérias equilibradas, ou seja, objetivas. Os trechos destacados a seguir descrevem a pressão do público sobre o jornalismo da BBC.
Se você se coloca como um órgão objetivo e independente, pode ter certeza de que todo mundo vai te atacar por não ser independente e não ser objetivo, porque é tão fácil. Ocasionalmente, eles [a BBC] examinam uma reclamação específica e investigam se ela é justa. Eles têm toda uma estrutura de governança aonde chegam com um julgamento sobre se algo está certo ou errado. Acho que eles levam a responsabilidade muito a sério. (BBC B)
Sempre senti na BBC, você conhece a expressão "Você está condenado se fizer e você está condenado se não fizer". Qualquer que seja o caminho que você tenha ido, você será criticado. Eu penso que isso significa que estamos fazendo nosso trabalho. Seja você o governo tory ou o governo trabalhista, todos eles odeiam a BBC. (Channel 4)
Sempre que a BBC faz algo sobre o Brexit, 50% das reclamações dizem que são tendenciosas a favor dos contrários e 50% dizem que são tendenciosas a favor dos favoráveis. Eles simplesmente não podem fazer a coisa certa. Porque não existe coisa certa. É que todo mundo tem um senso distorcido das coisas. Portanto, para o procedimento de reclamação, basta escrever um e-mail de resposta para a maioria das pessoas dizendo: "Sinto muito, você sentiu isso". Mas, se você realmente cometeu um erro, ou se isso exigir uma resposta adequada, a BBC intervirá. (BBC A)
As entrevistas exemplificam instrumentos de responsabilização de práticas jornalísticas que incluem atribuição de objetividade. Em um contexto no qual essas instâncias de verificação estão disponíveis ao público, a sociedade apropria-se do valor da objetividade para cobrar qualidade jornalística. Quando há mecanismos de responsabilidade social para manter estratégias de credibilidade baseadas em objetividade, engendra-se um processo de verificação de qualidade jornalística. Em diálogo com Guerra (2010a), argumentamos que esse procedimento eleva a qualidade e a credibilidade, uma vez que institui mecanismos de transparência sobre a prática jornalística. A objetividade como requisito de qualidade pode ser assegurada por mecanismos de porosidade que fortalecem a transparência em virtude da participação e responsabilização para fomentar a credibilidade da emissora e do jornalismo.
Acho que o Channel 4 e a BBC levam [as reclamações do público] a sério, mas de maneira um pouco diferente, porque o Channel 4 não é financiado
pela 5 licence fee . O Channel 4 leva essas reclamações a sério para proteger sua integridade como emissora. (Channel 4)
Já no Brasil, as entrevistas sugerem que nem sempre as estratégias de credibilidade são adequadamente exploradas, porque enfrentam a resistência de profissionais em busca da afirmação de autonomia do jornalismo. No trecho a seguir, há o reconhecimento de que a autonomia do jornalismo pode afastar o público e tornar as estratégias de credibilidade contraditórias.
Eu acho que é uma visão [a defesa da autonomia jornalística] um pouco ultrapassada. O jornalismo tem esse quê de contraditório. Se não é sensível ao público, cada vez mais vai ficando numa posição protegida da influência das pessoas, como se eu dissesse "[O jornalismo traz] aquilo que você precisa ouvir, não necessariamente aquilo que você quer". Na rede social,
quando você põe a matéria, as pessoas se manifestam. Tem matéria que a gente achou ótima e com a visualização baixa, e matéria que a gente acha que não era importante com visualização altíssima. Esse debate a gente traz na reunião de pauta de vez em quando. (Rede Minas)
Essa entrevista coloca o papel dos mecanismos de porosidade como instrumento para ouvir o público. Nas entrevistas do Reino Unido, os profissionais enxergam o programa de debates como uma das formas pelas quais o jornalismo pode ouvir o público. Conforme trecho de BBC B a seguir, é possível interpretar que há o entendimento de que a presença e composição do auditório, escolhido por critérios considerados equilibrados pelos profissionais, é tida como equivalente a ouvir o público. O programa Question Time é estruturado em estratégias de credibilidade que podem ser adotadas para aliar princípios de equilíbrio e objetividade à participação. Sustentamos que as técnicas que compõem o programa são um exemplo de estratégias de credibilidade.
Existem tantos tipos diferentes de programas em que a voz do público é ouvida, e se você estiver editando esses programas, você tenta certificar-se de ter uma ampla gama de opiniões. O Question Time é o único programa da televisão britânica na verdade, não apenas a BBC, que semana após semana coloca uma audiência, do público, na frente de políticos e outros formadores de opinião, e damos grande importância a quem estava nessa audiência. (BBC B)
No programa Question Time, as decisões editoriais que impactam estratégias de credibilidade são as que visam atribuir equilíbrio ao programa na seleção dos membros do auditório, na seleção dos membros do painel de políticos e nas instruções para que a plateia se manifeste e tenha a sua opinião e questionamento projetados. O formato do programa se apresenta em linha com as modalidades de participação diferenciadas por Carpentier (2011): é um espaço de participação política na mídia, conceito ligado à coprodução de conteúdo e a processos decisórios coletivos, e uma arena de participação política mediada. Os próximos quatro depoimentos descortinam uma visão privilegiada sobre como se dá esse processo de seleção do auditório e dos membros do painel de debate na prática:
O público deve responder a um formulário [com] perguntas como: "Como você votaria?", "Como você votou pela última vez?", "Sobre quais assuntos você
quer falar?", "Qual é a sua idade?". E eles iriam, de todas as aplicações e apenas alguns milhares, escolher os 180 ou quem quer que estivesse participando. (BBC A)
Você pode equilibrar um auditório, mas em termos do programa que sai, você está contando que esse equilíbrio seja demonstrado no programa. E isso é mais difícil porque, de modo geral, falando de maneira muito crua, as pessoas com pontos de vista mais fortes tendem a falar mais. Então, você tem que cultivar o auditório, não basta apenas conseguir um auditório, você na verdade tem que explicar os momentos, ensinar como esse equilíbrio pode ser demonstrado em um programa de televisão de uma hora. (BBC B)
Existem diferentes níveis de verificação. O que você tem que tentar fazer é equilibrar o público e representar o país, não em todas as edições, mas ao longo de um ano. Então, se você for para Liverpool, você terá um público mais de esquerda do que se for para alguma parte rural do país, onde terá um público mais conservador. E você precisa refletir os locais em que está. (BBC A)
O outro problema era conseguir o equilíbrio dos painelistas. Isso é terrivelmente importante e difícil. [...] a gente sempre queria ter um ministro do governo, se pudesse, alguém do governo. Porque se você não tem alguém do governo, as pessoas podem dizer: "Por que você não fez isso?". Então, sempre pegamos essa pessoa, tentamos pegá-la primeiro e, em seguida, equilibramos os outros painelistas. Era todo um jogo, era o tempo todo para conseguir uma equipe de equilíbrio trabalhando com o auditório, uma equipe trabalhando no painel. (BBC B)
As decisões editoriais exemplificadas por essas entrevistas implicam parâmetros para a participação do público e atribuem aos profissionais da produção e do jornalismo as escolhas que garantem equilíbrio e estabelecem a credibilidade do programa, estratégia identificada aqui como o terceiro modo de impacto e relação entre credibilidade e porosidade.
O processo foi posto à prova em momentos cruciais, como os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Em uma edição especial sobre o acontecimento, os critérios de seleção do auditório não foram totalmente adotados pela equipe, como descrito no trecho de BBC A a seguir, o que resultou em um programa que não abrangeu os aspectos de credibilidade que seriam assegurados pelas práticas de verificação.
Em vez de nossos processos habituais de verificação, colocamos uma chamada na BBC Radio London para o público. E nós fomos esmagados, é
claro. Ficou muito claro, este é um programa ao vivo, quando eu estava examinando as perguntas, tivemos um grande problema: o auditório estava desequilibrado. O embaixador americano foi reduzido às lágrimas por causa da hostilidade do auditório. Isso me fez sentir muito estranho. Mas você assiste novamente àquele programa agora [e], é muito estranho como tudo que foi previsto que aconteceria, aconteceu. Nunca me senti envergonhado desse programa. E eu também sou orgulhoso da BBC, porque eles poderiam ter nos pendurado para secar. Mas eles não fizeram. Eles levaram sua parte da culpa. (BBC A)
Iniciativas no Brasil podem ser comparadas, de certa forma, a Question Time. É o caso de "Outro Olhar", um quadro semanal que apresentava produções do público no Repórter Brasil, telejornal da TV Brasil. Entrevistas com jornalistas da EBC sugeriram a adoção de estratégias de credibilidade que são impactadas e impactam mecanismo de porosidade, como definição de parâmetros editoriais para a participação do público no jornalismo, práticas institucionalizadas de checagem da informação e qualidade técnica, e concepções de jornalismo cívico.
[Buscamos] Trazer o cidadão para participar de um jornalismo participativo dentro dos meios de comunicação pública possível de ser feito com objetividade, checagem e contraponto da informação. (EBC A)
O "Outro Olhar" dava essa janela. [Por exemplo], um coletivo de comunicação de Teresina mandava um vídeo, a gente fazia um filtro técnico. Você tinha até um certo respeito a uma falta de estrutura. Tinha coisas não estruturadas que entravam também. A gente abraçava isso. (EBC B)
As entrevistas também delineiam o quarto modo de impacto e relação entre porosidade e credibilidade identificado aqui, ligado a concepções de jornalismo cívico. Avaliamos que mecanismos de porosidade impactam decisões editoriais associadas a questões de credibilidade quando estas estão desdobradas em funções autoatribuídas de jornalismo cívico. Quando há o reconhecimento do papel do público no jornalismo, como expresso no trecho de EBC A, a seguir, e o descolamento da noção centralizada no profissional, emergem práticas e funções jornalísticas não convencionais.
Em diálogo com Campbell (2000), Rosen (2000) e Rothberg (2011), que consideram e definem as práticas de jornalismo cívico amparadas em fontes alternativas e fortalecimento do engajamento público, argumentamos que concepções de jornalismo cívico estão contidas no quarto modo, que trata das estratégias de credibilidade. As práticas do jornalismo cívico diferenciam processos de decisões de escolha de fonte, colocam cidadãos como especialistas e fontes legítimas, e abrem espaços coletivos de discussão e sugestão de pauta, enquanto cabe ao jornalista tratar das soluções dos conflitos trazidos.
A relação entre porosidade e jornalismo cívico é reforçada porque, nessa atividade, a credibilidade não é atribuída somente pelo jornalista, mas também pelo público, e está assentada sobre um senso de comunidade, o que converge para a concepção de Rosen (1993). O trecho selecionado a seguir prenuncia a percepção de que, ao participar do jornalismo, o público consegue pautar um universo alheio ao jornalista, como se já houvesse credibilidade simbólica no conteúdo produzido pelo público, que ainda precisa passar pelo crivo profissional, mas que vai além daquilo que o jornalista consegue oferecer.
Todos os dias existem formas de você contar a realidade de maneira diferente, e um corpo de profissional restrito, específico, travado dentro de uma regra, de um manual, nunca vai ser capaz de olhar para toda a sociedade. Essa lógica de a sociedade querer falar e poder ter voz, ela sempre vai existir e ela sempre vai ser benéfica para a comunicação pública, porque a comunicação pública vai dar um profissionalismo e uma checagem da informação para aquele conteúdo que chega do cidadão. (EBC A)
O quinto modo de utilização de mecanismos de porosidade para reforçar estratégias de credibilidade do jornalismo está em práticas de conversão de credibilidade da emissora em audiência, a fim de garantir sua legitimidade. Os profissionais demonstraram nas entrevistas que há reconhecimento do público sobre a qualidade e a credibilidade do conteúdo produzido pelas emissoras públicas, mas essa percepção não assegura audiência. No trecho destacado a seguir, da Rede Minas, o profissional prevê que as possibilidades de interação com o público e a adoção de mecanismos de porosidade podem configurar-se como estratégia para converter a credibilidade em audiência.
Nós precisamos criar ferramentas para ouvir mesmo que eles não falem, para conquistar essa credibilidade por meio de audiência também. As TVs públicas, nós temos uma imagem muito melhor com as pessoas. Se você fizer uma pesquisa qualitativa na rua, "O que que você acha da TV pública", "Ah, é ótimo, nossa, é muito educativo", "Qual foi o último programa a que você
assistiu?". A gente tem uma credibilidade que não tem lastro de audiência, e se tivesse audiência a gente teria mais credibilidade, mais legitimidade. (Rede Minas)
O tema da busca da audiência no serviço público e a produção de conteúdo que tem a ampliação da audiência como objetivo são uma problemática presente na literatura. Enquanto Bucci (2015) considera que a audiência e o entretenimento não deveriam compor a lógica da comunicação pública, Pieranti (2018) sugere que aumentar a audiência pode não ser a única finalidade do conteúdo, mas deve sim estar entre os objetivos a serem alcançados por meio da relevância e da originalidade da programação. Nas entrevistas com profissionais do Reino Unido, a audiência aparece como um modo de legitimação da radiodifusão pública.
Uma das maiores batalhas de qualquer emissora de serviço público é se justificar com base em seus números de audiência. Nos anos [19]80, os números de audiência da BBC eram cerca de 15 milhões. Agora, você terá sete, mas isso ainda é menos da metade. [...] Como você se julga, mas não com base em os números? [...] E eu acho que sempre vai ter aquela pressão. O que significa sucesso? Até termos uma forma diferente de medir, sucesso sempre significará quantas pessoas no painel do BARB assistem a esse programa? Isso em si é uma forma ridícula de medir. (Channel 4)
Nesse sentido, conforme avaliamos pelas estratégias de responsabilidade social e de credibilidade que impactam e são impactadas pela porosidade, argumentamos que a busca pela audiência não levaria o jornalismo público pelo mesmo caminho que o comercial, uma vez que instâncias de responsabilização corroboram um contexto de fiscalização da atividade e de cobrança de qualidade. A manutenção de instrumentos de controle social e de responsabilidade social possibilita um espaço de debate da qualidade, da credibilidade tendo como âncora a percepção do público.
Os jornalistas e produtores das emissoras públicas exprimiram nas entrevistas que não enfrentam as mesmas incertezas econômicas, apontadas por Sparrow (2006) e Schudson (2002), sobre o modelo de negócio da mídia comercial, de conexão entre anunciantes e audiência, que acaba distanciando a produção de conteúdo do atendimento ao interesse público.
Nós não dependemos da audiência para justificar as nossas receitas [...]. Então a gente não tenta ter uma audiência que talvez pudesse ser potencializada por um jornalismo de busca de audiência. [...] Uma das formas que eu entendo é que o jornalismo noticioso tem uma vocação maior para o momento de quantidade de espectadores em geral e o jornalismo interpretativo tem uma relação mais fria com o espectador, mais cerebral. (TV Cultura B).
No Reino Unido, ITV e Channel 5 são comerciais e financiadas através da venda de espaço publicitário. O pagamento da licence fee garante certeza econômica para a BBC. O Channel 4 é uma emissora com gestão pública financiada por propaganda comercial. Seu conteúdo deve complementar o fornecido pelas emissoras comerciais, como elaboramos com apoio de Cave (1996). No trecho de Channel 4 a seguir, o entrevistado reconhece a confusão profissional que emerge do conflito entre o aspecto público do conteúdo e o financiamento privado da emissora. O entrevistado, que também possui experiência de trabalho na BBC, reflete sobre a diferenciação entre as emissoras. A missão pública da BBC instituiu uma concepção de trabalho vocacional, apegado à concepção e à missão pública.
Quando eu trabalhei com a BBC [...] era quase como um trabalho vocacional. Eu era imensamente orgulhoso de trabalhar lá. No Channel 4 eu não sinto o mesmo. Tenho [...] orgulho de trabalhar, mas não da mesma forma. [...] E eu acho que é porque todos nós temos aquela mistura esquisita. É serviço público, mas não somos pagos pelo público. Portanto, o Channel 4 precisa de comerciais. Então, quão comerciais somos e quão serviço público somos? É uma mistura estranha. (Channel 4)
No cenário brasileiro, estratégias de credibilidade que fomentam a legitimidade das emissoras são ainda mais urgentes. As incertezas enfrentadas pelas emissoras de radiodifusão no Brasil são de ordem política e social. Além de um setor centralizado no privilégio à radiodifusão privada, a emissora pública nacional sofreu com intervenções que podem ter contribuído para dissolver o seu aspecto público, como a extinção do Conselho Curador da EBC e a fusão entre TV Brasil e TV NBR. Essas incertezas políticas e sociais podem ser mais facilmente contornadas quando a sociedade compartilha da concepção de legitimidade de atuação dessas emissoras.
As entrevistas da EBC sugerem que existe a percepção da credibilidade e reconhecimento da qualidade de seu conteúdo, mas permanece em aberto como converter a credibilidade em audiência e legitimidade. A interpretação das entrevistas também sugere que, em diálogo com Enli (2008) e Sundet e Ytreberg (2009), os mecanismos de porosidade podem ser utilizados como estratégia de estímulo à audiência e fortalecimento da sustentabilidade e legitimidade das emissoras públicas.
Tem sim da chefia e dos funcionários uma tentativa de interagir com o público maior [...] até porque [...] você tem um estímulo à audiência. [...] O período [em] que a TV Brasil foi chamada de TV traço fica no imaginário das chefias. E até para a gente viabilizar a TV, para que ela não seja privatizada, para que ela não acabe numa canetada, para que se aumente a audiência. Apesar de eu ter uma visão muito crítica em relação a isso, de não ser necessariamente papel da TV pública ter uma audiência muito alta e disputar com a Globo [...]. A audiência não tem o fim por si mesmo. (EBC B)
Segundo Mcnair, Hibberd e Schlesinger (2002), as estratégias de atração do público em Question Time incentivam o consumo de informação política, engajam o público e são benéficas ao interesse do público. Aqui, avaliamos as dimensões de porosidade do programa e interpretamos sua conversão em estratégias de credibilidade que vão buscar garantir o equilíbrio do debate, sua audiência e legitimidade. As entrevistas sugerem que um programa de debates como Question Time reforça a dimensão de participação da porosidade.
Um programa como Question Time certamente atua como um local de escuta do público de uma forma que a maior parte do jornalismo não é. [...] [O programa] foi feito porque eles pensaram que era realmente, genuinamente, interessante e valioso para o público que assistia ao programa sentir que aquele auditório, na televisão, os representava. (BBC B)
Question Time para mim é a personificação do que o serviço público de
radiodifusão deve ser. Os valores de Reith6 são todos sobre educação, informação e entretenimento. (BBC A)
Eles iam suspender o programa, acho que o motivo pelo qual não suspenderam foi: 1) queriam dar uma chance dele se recuperar, mas 2) a BBC, [...] acho que o Board of Governors sentiu que era dever de uma emissora pública apresentar um programa como Question Time [...]. Além disso, era um programa bem barato de fazer, comparado a muitos outros. (BBC A)
A incorporação de estratégias de atração da audiência como valor de radiodifusão pública demanda o estímulo e o reforço das instâncias de responsabilização para que o público seja incluído no debate e na fiscalização do cumprimento dos critérios de qualidade jornalística e de conteúdo, conforme sustentado pelas chaves de interpretação e estudo das estratégias de responsabilidade social e credibilidade impactadas e que impactam a porosidade. A participação do público deve estar concebida em diferentes espaços internos e externos às organizações, em instâncias deliberativas internas, como era o Conselho Curador da EBC, no conteúdo, como ocorre em programa de debates, ou em canais de responsabilização e de agências reguladoras independentes.
A manutenção de espaços participativos fomenta a construção e a revisão contínua sobre jornalismo público e como os profissionais devem usar as estratégias de credibilidade para legitimar seu espaço de atuação. As entrevistas relatam que esse debate deve ser cada vez mais aberto, tornando-se impactado pelos relacionamentos que o público estabelece com as emissoras.
Acho que toda a mudança na forma como nos comunicamos individualmente significa que as pessoas agora esperam que alguém prestando um serviço seja mais responsivo ao feedback imediato. É exatamente o que estamos acostumados, não é? Portanto, é uma mudança real na sociedade que acho que está causando um grande impacto nas emissoras. Mas a questão para eles é só porque noventa pessoas ligaram ontem à noite e não gostaram dos programas, você muda isso? (Channel 4)
As entrevistas sugerem que a credibilidade jornalística parece fundamentada em uma percepção mais aberta à participação do público, e por isso o jornalismo público também deve caminhar nesse sentido. Os mecanismos de porosidade podem conferir legitimidade e sustentabilidade quando estão alinhados a estratégias de credibilidade e responsabilidade social. A legitimação de uma emissora pública é benéfica ao setor de radiodifusão e uma estratégia coerente com critérios de comunicação pública e transparência.
A sustentabilidade do sistema público é fragilizada se amparada somente na diferenciação do sistema comercial. Cabe ao sistema público de radiodifusão prover instâncias de responsabilidade social e garantir acesso à informação e jornalismo de qualidade. A afirmação da legitimação depende de que o público reconheça esse valor, e a inclusão do público nessa construção, além de estratégica, é essencial do ponto de vista da cidadania e da democracia.