Patriarcas e Profetas
Poucos, sendo submetidos a tal prova, ter-se-iam…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
de Isaque aos conselhos de seu pai foi o resultado do ensino que o habilitou a amar uma vida de obediência. Ao mesmo tempo em que Abraão exigia de seus filhos que respeitassem a autoridade paterna, sua vida diária testificava que essa autoridade não era um domínio egoísta ou arbitrário, mas que se fundava no amor, e tinha em vista o bem-estar e felicidade deles. Pais e mães devem sentir que se lhes impõe o dever de guiar as afeições dos jovens, a fim de que possam ser colocadas naqueles que hajam de ser companheiros convenientes. Devem sentir como seu dever, pelo seu próprio ensino e exemplo, com a graça auxiliadora de Deus, modelar de tal maneira o caráter de seus filhos desde os seus mais tenros anos que sejam puros e nobres, e sejam atraídos para o bem e para o verdadeiro. Os semelhantes atraem os semelhantes; os semelhantes apreciam os semelhantes. Que o amor pela verdade, pureza e bondade seja cedo implantado na alma, e o jovem procurará a companhia daqueles que possuem essas características. Procurem os pais, em seu próprio caráter e vida doméstica, exemplificar o amor e a beneficência do Pai celestial. Que no lar prevaleça uma atmosfera prazenteira. Isto será de muito mais valor para vossos filhos do que terras ou dinheiro. Que o amor doméstico se conserve vivo em seus corações, para que possam volver o olhar ao lar de sua meninice como um lugar de paz e felicidade, abaixo do Céu. Os membros da família não têm todos o mesmo cunho de caráter, e haverá freqüentes ocasiões para o exercício da paciência e longanimidade; mas, pelo amor e disciplina própria, todos poderão estar ligados na mais íntima união.
O verdadeiro amor é um princípio elevado e santo, inteiramente diferente em seu caráter daquele amor que se desperta por um impulso e que subitamente morre quando severamente provado. É pela fidelidade para com o dever na casa paterna que os jovens devem preparar-se para os seus próprios lares. Pratiquem eles aqui a abnegação, e manifestem bondade, cortesia e simpatia cristã. Assim o amor será mantido cálido em seu coração, e aquele que parte de um lar semelhante, para se colocar como chefe de sua própria família, saberá como promover a felicidade daquela que escolheu para companheira de toda a vida. O casamento, em vez de ser o final do amor, será tão-somente seu começo.
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Jacó e Esaú
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Jacó e Esaú, os filhos gêmeos de Isaque, apresentam um notável contraste, tanto no caráter como na vida. Esta dessemelhança foi predita pelo anjo de Deus antes de seu nascimento. Quando em resposta à aflita oração de Rebeca, Ele declarou que dois filhos lhe seriam dados, revelou-lhe a história futura dos mesmos, de que cada um se tornaria a cabeça de uma poderosa nação, mas que um seria maior do que o outro, e que o mais moço teria preeminência. Esaú cresceu amando a satisfação própria, e centralizando todo o seu interesse no presente. Não tolerando restrições, deleitava-se na liberdade selvagem da caça, e cedo escolhera a vida de caçador. Contudo, era o favorito do pai. O pastor silencioso e amante da paz era atraído pela ousadia e vigor desse filho mais velho, que destemidamente percorria montanhas e desertos, voltando para casa com caça para seu pai, e com narrativas sensacionais de sua vida aventurosa. Jacó, ponderado, diligente e cuidadoso, pensando sempre mais no futuro do que no presente, contentava-se com permanecer em casa, ocupado no cuidado dos rebanhos e no cultivo do solo. Sua paciente perseverança, economia e previsão eram apreciadas pela mãe. Suas afeições eram profundas e fortes, e suas atenções gentis e incansáveis contribuíam muito mais para a felicidade dela do que o fazia a amabilidade turbulenta e ocasional de Esaú. Para Rebeca, Jacó era o filho mais querido. As promessas feitas a Abraão e confirmadas a seu filho, eram tidas por Isaque e Rebeca como o grande objetivo de seus desejos e esperanças. Com estas promessas Esaú e Jacó estavam familiarizados. Foram ensinados a considerar a primogenitura como coisa de grande importância, pois que incluía não somente a herança das riquezas terrestres, mas a preeminência espiritual. Aquele que a recebia devia ser o sacerdote de sua família; e na linhagem de sua posteridade viria o Redentor do mundo. De outro lado, havia obrigações que repousavam sobre o possuidor da primogenitura. Aquele que herdasse suas bênçãos devia dedicar
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a vida ao serviço de Deus. Como Abraão, devia ser obediente aos mandos divinos. Em seu casamento, nas relações familiares, na vida pública, devia consultar a vontade de Deus. Isaque fez saber a seus filhos esses privilégios e condições, e claramente declarou que Esaú, como o mais velho, era o que tinha direito à primogenitura. Esaú, porém, não tinha amor à devoção nem inclinação para uma vida religiosa. Os requisitos que acompanhavam a primogenitura espiritual eram para ele uma restrição importuna e mesmo odiosa. A lei de Deus, que era a condição do concerto divino com Abraão, era considerada por Esaú como um jugo de escravidão. Propenso à satisfação própria, nada desejava tanto como a liberdade para fazer conforme lhe agradasse. Para ele, poderio e riquezas, festas e orgias, eram felicidade. Ele se gloriava na liberdade sem restrições de sua vida selvagem e errante. Rebeca lembrava-se das palavras do anjo, e lia com mais clara penetração do que o fazia seu marido, o caráter de seus filhos. Estava convicta de que a herança da promessa divina destinava-se a Jacó. Ela repetia a Isaque as palavras do anjo; mas as afeições do pai centralizavam-se no filho mais velho, e ele era inabalável em seu propósito.
Jacó soubera por sua mãe da indicação divina de que a primogenitura lhe recairia, e encheu-se de um indescritível desejo de obter os privilégios que a mesma conferia. Não era a posse da riqueza de seu pai o que ele desejava ansiosamente; a primogenitura espiritual era o objeto de seu anelo. Ter comunhão com Deus, como fizera o justo Abraão, oferecer o sacrifício expiatório por sua família, ser o pai do povo escolhido, e do Messias prometido, e herdar a posse imortal que estava compreendida nas bênçãos do concerto - eis aí os privilégios e honras que acendiam os seus mais ardentes desejos. Seu espírito estava sempre a penetrar o futuro, e procurava apreender suas bênçãos invisíveis. Com um anelo secreto escutava tudo que seu pai dizia com relação à primogenitura espiritual; entesourava cuidadosamente o que aprendera de sua mãe. Dia e noite o assunto lhe ocupava os pensamentos, até que se tornou o interesse absorvente de sua vida. Mas, conquanto Jacó assim estimasse as bênçãos eternas mais do que as temporais, não tinha um conhecimento experimental do Deus a quem ele venerava. Seu coração não se havia renovado pela graça divina. Acreditava que a promessa relativa a si não se poderia cumprir enquanto Esaú retivesse os direitos Pág. 179
de primogênito, e procurava constantemente descobrir um meio pelo qual pudesse conseguir a bênção que em tão pouca conta era tida por seu irmão, mas que para ele era tão preciosa. Quando Esaú, um dia, voltando da caça desfalecido e cansado, pediu o alimento que Jacó estava preparando, este, para quem um pensamento era sempre preeminente, aproveitou-se da situação, e ofereceu-se para matar a fome de seu irmão pelo preço da primogenitura. "Eis que estou a ponto de morrer", exclamou o caçador descuidado e condescendente consigo mesmo, "e para que me servirá logo a primogenitura?" Gên. 25:32. E por um prato de guisado vermelho desfez-se de sua primogenitura, e confirmou a transação por meio de um juramento. Um pouco de tempo, quando muito, ter-lhe-ia assegurado alimento nas tendas de seu pai; mas para satisfazer o desejo do momento, indiferente fez permuta da gloriosa herança que o próprio Deus prometera a seus pais. Todo o seu interesse estava no presente. Estava pronto para sacrificar as coisas celestes pelas terrestres, para trocar um bem futuro por uma satisfação momentânea. "Assim desprezou Esaú a sua primogenitura." Gên. 25:34. Dispondo dela, experimentou uma sensação de alívio. Agora seu caminho estava desimpedido; podia fazer como quisesse. Por este prazer desenfreado, erroneamente chamado liberdade, quantos ainda estão a vender o seu direito de primogenitura a uma herança pura e incontaminada, eterna, nos Céus!
Sempre sujeito às meras aparências e atrações terrenas, Esaú tomou duas mulheres das filhas de Hete. Eram adoradoras de deuses falsos, e sua idolatria acarretava uma dor amargurada para Isaque e Rebeca. Esaú tinha violado uma das condições do concerto, que proibia o casamento misto entre o povo escolhido e os gentios; Isaque, todavia, ainda estava inabalável em sua intenção de conferir-lhe a primogenitura. O raciocínio de Rebeca, o desejo veemente de Jacó pela bênção, e a indiferença de Esaú pelas obrigações da mesma bênção, não tiveram o efeito de modificar o intuito do pai. Passaram-se anos, até que Isaque, velho e cego, e esperando logo morrer, resolveu não mais demorar a concessão da bênção a seu filho mais velho. Mas, sabendo da oposição de Rebeca e Jacó, decidiu-se a realizar a solene cerimônia em segredo. De acordo com o costume de fazer um banquete em tais ocasiões, o patriarca deu ordem a Esaú: "Sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, e faze-me um guisado saboroso, ... para que minha alma te abençoe, antes que morra." Gên. 27:3 e 4. Pág. 180
Rebeca adivinhou o seu propósito. Ela estava certa de que isto era contrário ao que Deus revelara como Sua vontade. Isaque estava no perigo de incorrer no desagrado divino, e de privar seu filho mais moço da posição para a qual Deus o chamara. Em vão, ela tentou argumentar com Isaque; e decidiu recorrer à sutileza.
Mal partira Esaú em sua incumbência, Rebeca entregou-se à realização de seu intuito. Contou a Jacó o que acontecera, insistindo na necessidade de ação imediata para impedir a concessão da bênção, de maneira final e irrevogável, a Esaú. E afirmou a seu filho que, se seguisse suas instruções, poderia obtê-la, conforme Deus prometera. Jacó não consentiu facilmente no plano que ela propunha. O pensamento de enganar a seu pai causava-lhe grande angústia. Sentia que tal pecado traria maldição em vez de bênção. Mas seus escrúpulos foram vencidos, e começou a pôr em execução as sugestões de sua mãe. Não era sua intenção proferir uma falsidade direta; mas, uma vez na presença de seu pai, pareceu-lhe ter ido demasiado longe para voltar, e obteve pela fraude a cobiçada bênção. Jacó e Rebeca foram bem-sucedidos em seu propósito, mas ganharam apenas inquietações e tristeza por seu engano. Deus declarara que Jacó receberia a primogenitura, e Sua palavra ter-se-ia cumprido ao tempo que Lhe aprouvesse, se tivessem pela fé esperado por Ele a fim de operar em favor deles. Mas, semelhantes a muitos que hoje professam ser filhos de Deus, não estiveram dispostos a deixar esta questão em Suas mãos. Rebeca arrependera-se amargamente do mau conselho que dera a seu filho; tal fora o meio de separá-lo dela, e nunca mais lhe viu o rosto. Desde a hora em que recebeu a primogenitura, Jacó sentiu sobre si o peso da condenação própria. Tinha pecado contra o pai, o irmão, a própria alma, e contra Deus. Em uma rápida hora, efetuara uma ação para o arrependimento de uma vida. Vívida se achava esta cena diante dele nos anos posteriores, quando o procedimento ímpio de seus próprios filhos lhe oprimia a alma.
Apenas saíra Jacó da tenda de seu pai, entrou Esaú. Posto que ele houvesse vendido sua primogenitura, e confirmado esta transferência por meio de um juramento solene, estava agora resolvido a obter as bênçãos da mesma, sem tomar em consideração o direito de seu irmão. Com a primogenitura espiritual estava ligada a temporal, a qual lhe proporcionaria a chefia da família, e a posse de uma porção da riqueza de seu pai. Tais eram as Pág. 181
bênçãos a que ele dava apreço. "Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho", disse ele, "para que me abençoe a tua alma." Gên. 27:19.
A tremer de espanto e angústia, o velho pai cego soube do engano que havia sido praticado contra ele. Suas esperanças, prolongada e ternamente acalentadas, tinham-se frustrado, e sentiu profundamente o desapontamento que deveria sobrevir a seu filho mais velho. Contudo, subitamente passou-lhe pela mente a convicção de que fora a providência de Deus que frustrara seu propósito e fazendo acontecer o que ele havia resolvido impedir. Lembrou-se das palavras do anjo a Rebeca, e, apesar do pecado de que Jacó era agora culpado, viu nele o que em melhores condições estava para cumprir os propósitos de Deus. Enquanto as palavras de bênçãos estavam em seus lábios, havia ele sentido sobre si o Espírito de inspiração; e agora, conhecendo todas as circunstâncias, ratificou a bênção involuntariamente pronunciada sobre Jacó: "Abençoei-o; também será bendito." Gên. 27:33.
Esaú havia tido em pouca conta a bênção enquanto esta parecia ao seu alcance, mas desejava possuí-la agora que a mesma se havia dele retirado para sempre. Toda a força de sua natureza impulsiva e apaixonada despertou-se, e sua dor e raiva foram terríveis. Clamou com um brado excessivamente amargo: "Abençoa-me também a mim, meu pai." "Não reservaste pois para mim bênção alguma?" Gên. 27:36. Mas a promessa dada não devia ser revogada. A primogenitura que ele tão descuidadamente dera em troca, não a poderia readquirir agora. "Por um manjar", ou seja, por uma satisfação momentânea do apetite, o qual nunca fora restringido, Esaú vendeu sua herança; mas, quando viu sua loucura, era demasiado tarde para recuperar a bênção. "Não achou lugar de arrependimento, ainda que com lágrimas o buscou." Heb. 12:16 e 17. A Esaú não foi excluído o privilégio de buscar o favor de Deus pelo arrependimento; mas não podia encontrar meios para recuperar a primogenitura. Sua mágoa não se originava da convicção do pecado; não desejava reconciliar-se com Deus. Entristecia-se por causa dos resultados de seu pecado, mas não pelo próprio pecado. Devido à sua indiferença para com as bênçãos e preceitos divinos, Esaú é nas Escrituras chamado "profano". Heb. 12:16. Representa aqueles que têm em pouco valor a redenção a eles comprada por Cristo, e estão prontos para sacrificar sua herança no Céu por amor às coisas perecíveis da Terra. Multidões vivem para o presente, sem qualquer pensamento ou cuidado pelo futuro. Pág. 182
Como Esaú, clamam: "Comamos e bebamos que amanhã morreremos." I Cor. 15:32. São governados pela inclinação; e de preferência a praticar a abnegação renunciam às mais valiosas considerações. No caso em que uma destas coisas deva ser abandonada - ou a satisfação de um apetite depravado, ou as bênçãos celestiais prometidas somente ao abnegado e temente a Deus - prevalecem as exigências do apetite, e Deus e o Céu são virtualmente desprezados. Quantos, mesmo dos professos cristãos, aderem a certas satisfações que são prejudiciais à saúde, e que embotam as sensibilidades da alma! Quando se apresenta o dever de se purificarem de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus, escandalizam-se. Vêem que não podem reter estas nocivas satisfações e ao mesmo tempo alcançar o Céu; e concluem que, visto ser o caminho da vida eterna tão estreito, não mais andarão nele.
Multidões estão a vender seu direito de primogenitura pela satisfação sensual. A saúde é sacrificada, as faculdades mentais enfraquecidas, e perdido o Céu; e tudo por um simples prazer temporário - condescendência que debilita e avilta ao mesmo tempo. Assim como Esaú despertou-se para ver a loucura de sua permuta precipitada quando era demasiado tarde para recuperar sua perda, assim será no dia de Deus para aqueles que houverem trocado sua herança no Céu pela satisfação egoísta. 17
Fuga e Exílio de Jacó
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Ameaçado de morte pela ira de Esaú, Jacó saiu da casa de seu pai como fugitivo; mas levava consigo a bênção paterna; Isaque lhe havia renovado a promessa do concerto, e mandara-lhe como herdeiro da mesma, procurar uma esposa na família de sua mãe, na Mesopotâmia. Foi, todavia, com coração profundamente perturbado que Jacó partiu em sua viagem solitária. Apenas com um bastão na mão, teve de viajar centenas de quilômetros através de território habitado por tribos selvagens e errantes. Em seu remorso e timidez, procurou evitar os homens, com receio de que a pista lhe fosse descoberta pelo irado irmão. Temia que houvesse perdido para sempre a bênção que fora o propósito de Deus proporcionar-lhe; e Satanás estava a postos a fim de oprimi-lo com tentações. A noite do dia seguinte encontrou-o longe das tendas de seu pai. Sentia-se como um rejeitado; e sabia que toda esta inquietação fora trazida sobre ele pelo seu próprio procedimento errado. As trevas do desespero oprimiam-lhe a alma, e atrevia-se dificilmente a orar. Mas achava-se tão completamente só que sentiu necessidade da proteção de Deus, como nunca antes a sentira. Com pranto e profunda humilhação confessou seu pecado, e rogou uma prova de que ele não estava inteiramente abandonado. O coração sobrecarregado não encontrou ainda alívio. Havia perdido toda a confiança em si, e receava que o Deus de seus pais o houvesse rejeitado.
Mas Deus não abandonou Jacó. Sua misericórdia ainda se estendia a Seu servo, e errante e destituído de confiança. O Senhor, com compaixão, revelou precisamente o que Jacó necessitava - um Salvador. Ele tinha pecado; seu coração, porém, se enchera de gratidão, ao ver ele revelado um caminho pelo qual podia ser restabelecido ao favor de Deus.
Cansado da jornada, o viajante deitou-se no chão, tendo uma pedra como travesseiro. Dormindo, viu uma escada, brilhante e resplendente, cuja base repousava na terra, enquanto o cimo alcançava o Céu. Por esta escada, anjos estavam a subir e a descer; por sobre ela estava o Senhor da glória, e dos Céus foi ouvida
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a Sua voz: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque." A terra em que estava deitado como um exilado e fugitivo, foi prometida a ele e sua posteridade, com esta declaração: "Em ti e na tua semente serão benditas todas as famílias da Terra." Gên. 28:13 e 14. Esta promessa tinha sido feita a Abraão e Isaque, e agora foi renovada a Jacó. Então, em atenção especial à sua solidão e angústia, naquele momento, foram proferidas estas palavras de conforto e animação: "Eis que Eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; porque te não deixarei, até que te haja feito o que te tenho dito." Gên. 28:13-15.
O Senhor conhecia as más influências que cercariam Jacó, e os perigos a que estaria exposto. Misericordiosamente patenteou o futuro ante o fugitivo arrependido, para que ele pudesse compreender o propósito divino com relação a si, e estar preparado para resistir às tentações que certamente lhe viriam quando só entre homens idólatras e ardilosos. Sempre estaria diante dele a elevada norma que devia visar; e o conhecimento de que por meio dele o propósito de Deus estava a atingir sua realização, prontificá-lo-ia constantemente à fidelidade.
Nesta visão o plano da redenção foi apresentado a Jacó, não completamente, mas nas partes que para ele eram essenciais naquela ocasião. A escada mística que lhe fora revelada no sonho era a mesma a que Cristo Se referiu em Sua conversa com Natanael. Disse Ele: "Vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do homem." João 1:51. Até o tempo da rebelião do homem contra o governo de Deus, tinha havido livre comunicação entre Deus e o homem. Mas o pecado de Adão e Eva separou a Terra do Céu, de modo que o homem não podia ter comunhão com seu Criador. Todavia, o mundo não foi deixado em uma solitária desesperança. A escada representa Jesus, o meio designado para a comunicação. Não houvesse Ele com Seus próprios méritos estabelecido uma passagem através do abismo que o pecado efetuou, e os anjos ministradores não podiam ter comunhão com o homem decaído. Cristo liga o homem em sua fraqueza e desamparo, à fonte do poder infinito. Tudo isto foi revelado a Jacó no sonho. Se bem que sua mente de pronto apreendesse parte da revelação, as grandes e misteriosas verdades da mesma foram o estudo de sua vida toda, e mais e mais se lhe desvendava à compreensão.
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Jacó despertou do sono no profundo silêncio da noite. As formas resplandecentes da visão haviam desaparecido. Apenas o obscuro contorno das colinas solitárias, e acima delas, o céu resplendente de estrelas, encontravam agora o seu olhar. Tinha porém, uma intuição solene de que Deus estava com ele. Uma presença invisível enchia a solidão. "Na verdade o Senhor está neste lugar", disse ele, "e eu não o sabia. ... ... Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos Céus." Gên. 28:16 e 17.
"Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por sua cabeceira, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela." Gên. 28:18. De acordo com o costume de comemorar acontecimentos importantes, Jacó construiu um memorial da misericórdia de Deus, para que quando quer que passasse por aquele caminho pudesse demorar-se naquele local sagrado para adorar ao Senhor. E chamou o lugar Betel, ou "casa de Deus". Com profunda gratidão repetiu a promessa de que a presença de Deus seria com ele; e então fez este voto solene: "Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer e vestidos para vestir; e eu em paz tornar à casa de meu pai, o Senhor será o meu Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente Te darei o dízimo." Gên. 28:20-22. Jacó não estava aqui a fazer um contrato com Deus. O Senhor já lhe havia prometido prosperidade, e este voto era o transbordar de um coração cheio de gratidão pela certeza do amor e misericórdia de Deus. Jacó entendia que Deus tinha direitos sobre ele, os quais ele devia reconhecer, e que os sinais especiais do favor divino a ele concedidos exigiam retribuição. Assim, toda a bênção que nos é concedida reclama uma resposta ao Autor de todas as nossas vantagens. O cristão deve muitas vezes rever sua vida passada, e relembrar com gratidão os preciosos livramentos que Deus operou em favor dele, amparando-o na provação, abrindo caminho diante dele quando tudo parecia escuro e vedado, refrigerando-o quando pronto a desfalecer. Deve reconhecê-los todos como provas do cuidado vigilante dos anjos celestiais. Em vista destas bênçãos inumeráveis, deve muitas vezes perguntar, com coração submisso e grato: "Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?" Sal. 116:12. Nosso tempo, nossos talentos, nossa propriedade devem ser, de maneira santa, dedicados Àquele que nos confiou estas bênçãos. Quando quer que um livramento especial seja operado em nosso favor, ou novas e inesperadas bênçãos nos são concedidas,
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devemos reconhecer a bondade de Deus não simplesmente exprimindo nossa gratidão com palavras, mas, como Jacó, por meio de dádiva e ofertas à Sua causa. Assim como estamos continuamente a receber as bênçãos de Deus, assim devemos estar continuamente a dar.
"De tudo quanto me deres", disse Jacó, "certamente Te darei o dízimo." Gên. 28:22. Deveremos nós, que desfrutamos a plena luz e os privilégios do evangelho, estar contentes com dar menos a Deus do que foi dado por aqueles que viveram na dispensação anterior, menos favorecida? Ao contrário, sendo que as bênçãos que fruímos são maiores, não se acham nossas obrigações aumentadas de modo correspondente? Mas quão pequena é a apreciação Quão vão é o esforço de medir pelas regras matemáticas o tempo, o dinheiro e o amor, em confronto com um amor tão imensurável e um dom de tal valor inconcebível! Dízimos para Cristo! Pequeno bocado, vergonhosa recompensa por aquilo que custou tanto! Da cruz do Calvário Cristo pede uma consagração sem reservas. Tudo que temos, tudo que somos, deve ser dedicado a Deus.
Com uma fé nova e permanente nas promessas divinas e certo da presença e guarda dos anjos celestiais, Jacó prosseguiu em sua jornada para "a terra dos filhos do Oriente". Gên. 29:1. Mas quão diferente foi sua chegada da do mensageiro de Abraão, quase cem anos antes! O servo chegara com um séquito de ajudantes viajando em camelos, e com ricos presentes de ouro e prata; Jacó era um viajante solitário, tendo magoados os pés, sem nada possuir a não ser seu bastão. Como o servo de Abraão, Jacó se deteve ao lado de um poço, e foi aqui que ele se encontrou com Raquel, a filha mais moça de Labão. Agora foi Jacó que prestou serviço, volvendo a pedra do poço, e dando a beber aos rebanhos. Dando a conhecer o seu parentesco, foi bem recebido na casa de Labão. Se bem que tivesse vindo desprovido e desacompanhado, poucas semanas mostraram o valor de sua diligência e habilidade, e insistiu-se com ele que ficasse. Foi combinado que devia prestar sete anos de serviço a Labão pela mão de Raquel.
Nos tempos primitivos, exigia o costume que o noivo, antes da confirmação do contrato de casamento, pagasse uma soma de dinheiro, ou seu equivalente em outras propriedades, conforme as suas circunstâncias, ao pai da noiva. Isto era considerado como uma salvaguarda à relação matrimonial. Os pais não julgavam de bom aviso confiar a felicidade de suas filhas a homens que não haviam feito as devidas provisões para a manutenção de uma família. Se não possuíam tino econômico suficiente e Pág. 189
energia para dirigir negócios e adquirir gado ou terras, receava-se que sua vida se mostrasse inútil. Mas tomava-se providência para provar aqueles que nada tinham para pagar por uma esposa. Permitia-se-lhes trabalhar para o pai, cuja filha amavam, sendo a duração do tempo determinada pelo valor do dote exigido. Quando o pretendente era fiel em seu trabalho, e provava ser digno em outros sentidos, obtinha a filha como esposa; e geralmente o dote que o pai recebera era dado a ela por ocasião do casamento. Tanto no caso de Raquel como no de Léia, reteve entretanto Labão, egoistamente, o dote que lhes teria sido dado; referiram-se a isto quando disseram, precisamente antes da mudança de Mesopotâmia: "Vendeu-nos, e comeu todo o nosso dinheiro." Gên. 31:15. O antigo costume, se bem que algumas vezes do mesmo se abusasse, assim como o fizera Labão, produzia bons resultados. Quando se exigia do pretendente prestar serviços, a fim de obter a sua noiva, evitava-se um casamento precipitado, e havia oportunidade de provar-se a profundidade de seu afeto, bem como sua habilidade para prover as necessidades de uma família. Em nossos tempos, muitos males resultam de seguir uma conduta oposta. Freqüentemente dá-se o caso que pessoas, antes do casamento, têm pouca oportunidade de se familiarizarem com os hábitos e disposições uma da outra, e, quanto ao que se refere à vida diária, são virtualmente estranhas quando no altar unem os seus interesses. Muitos acham, demasiado tarde, que não se adaptam um ao outro, e a desgraça por toda a vida é o resultado de sua união. Freqüentes vezes a esposa e os filhos sofrem pela indolência e inépcia, ou pelos hábitos viciosos do marido e pai. Se o caráter do pretendente houvesse sido provado antes do casamento, conforme o antigo costume, poder-se-ia ter evitado grande infelicidade. Sete anos de serviço fiel Jacó prestou em atenção a Raquel, e os anos que ele serviu "foram aos seus olhos como poucos dias, pelo muito que a amava". Gên. 29:20. Mas o egoísta e ganancioso Labão, desejando reter um auxiliar tão valioso, praticou um cruel engano substituindo Raquel por Léia. O fato de que a própria Léia fez parte da trapaça, fez Jacó pressentir que a não poderia amar. Sua censura feita com indignação a Labão foi defrontada com o oferecimento de Raquel por outros sete anos de trabalho. Insistia, porém, o pai que Léia não fosse despedida, visto que isto acarretaria ignomínia à família. Jacó foi posto assim em uma posição mui dolorosa e probante; decidiu-se finalmente a conservar Léia e
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desposar Raquel. Esta foi sempre a mui amada; mas a preferência dele por ela provocava inveja e ciúme, e sua vida se amargurava pela rivalidade entre as esposas-irmãs. Durante vinte anos Jacó permaneceu na Mesopotâmia, trabalhando ao serviço de Labão, que, desatendendo os laços de parentesco, aplicava-se a obter para si todos os benefícios da ligação que entre eles havia. Catorze anos de labuta ele exigira por suas duas filhas; e, durante o tempo restante, o salário de Jacó foi dez vezes mudado. Era, contudo, diligente e fiel o serviço de Jacó. Suas palavras a Labão, em sua última entrevista, descrevem vividamente a vigilância incansável que exercera aos interesses do exigente patrão: "Estes vinte anos eu estive contigo, as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho. Não te trouxe eu o despedaçado; eu o pagava; o furtado de dia e o furtado de noite da minha mão o requerias. Estava eu de sorte que de dia me consumia o calor e, de noite a geada; e o meu sono foi-se dos meus olhos." Gên. 31:38-40. Era necessário que o pastor vigiasse seus rebanhos de dia e de noite. Estavam em perigo de ladrões, e também dos animais selvagens, que eram numerosos e audazes, fazendo muitas vezes grande estrago nos rebanhos que não eram fielmente guardados. Jacó tinha muitos auxiliares ao cuidar dos vastos rebanhos de Labão; mas ele mesmo era tido como o responsável por todos. Durante algumas partes do ano era-lhe necessário estar em pessoa, constantemente, com os rebanhos, para os guardar na estação seca de perecerem de sede, e durante os meses frios de se enregelarem com a pesada geada noturna. Jacó era o pastor-chefe; os servos que ele empregava eram pastores-ajudantes. Se algumas das ovelhas faltavam, o pastor-chefe sofria o prejuízo; e ele chamava os servos a quem confiara o cuidado do rebanho a prestar conta estrita, se o mesmo não era encontrado em condições prósperas. A vida de diligência e cuidados do pastor, e sua terna compaixão pelas desajudadas criaturas confiadas à sua guarda, têm sido empregadas pelos escritores inspirados para ilustrar algumas das verdades mais preciosas do evangelho. Cristo, em Sua relação para com Seu povo, é comparado a um pastor. Depois da queda viu Suas ovelhas condenadas a perecerem nos caminhos tenebrosos do pecado. Para salvar a esses seres errantes, deixou as honras e glórias da casa de Seu Pai. Diz Ele: "A perdida buscarei, e a desgarrada tornarei a trazer, e a quebrada ligarei, e a enferma Pág. 191
fortalecerei." "Eu livrarei as Minhas ovelhas, para que não sirvam mais de rapina", e "a besta fera da terra nunca mais as comerá." Ezeq. 34:16, 22 e 28. Sua voz é ouvida chamando-as ao Seu aprisco, "para sombra contra o calor do dia; e para refúgio e esconderijo contra a tempestade e contra a chuva". Isa. 4:6. Seu cuidado pelo rebanho é incansável. Fortalece as fracas, alivia as que sofrem, ajunta os cordeiros em Seus braços, e leva-os em Seu seio. Suas ovelhas O amam. "De modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos." João 10:5. Diz Cristo: "O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa. Ora o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor e conheço as Minhas ovelhas, e das Minhas sou conhecido." João 10:11-14. Cristo, o Pastor-chefe, confiou o cuidado de Seu rebanho a Seus ministros, como pastores-ajudantes; e ordena-lhes que tenham o mesmo interesse que Ele manifestou, e sintam a responsabilidade sagrada do encargo que lhes cometeu. Mandou-lhes solenemente que sejam fiéis, que alimentem o rebanho, que fortaleçam as fracas, que reanimem as desfalecidas, e as defendam dos lobos devoradores. Para salvar Suas ovelhas Cristo depôs a própria vida; e Ele indica a Seus pastores o amor assim manifestado, como exemplo para eles. Mas "o mercenário, ... de quem não são as ovelhas" (João 10:12), não tem interesse verdadeiro no rebanho. Trabalha meramente por amor ao ganho, e apenas cuida de si. Preocupa-se com seu próprio proveito, em vez do interesse de seu cargo; e, em tempo de risco ou perigo, fugirá, e deixará o rebanho.
O apóstolo Pedro admoesta os pastores-auxiliares: "Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho." I Ped. 5:2 e 3. Paulo diz: "Olhai pois por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que Ele resgatou com Seu próprio sangue. Porque eu sei Pág. 192 isto, que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão ao rebanho." Atos 20:28 e 29. Todos os que consideram como uma tarefa desagradável os cuidados e encargos que caem por sorte ao fiel pastor, são reprovados pelo apóstolo: "Não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto." I Ped. 5:2. A todos os servos assim infiéis o Pastor-chefe de boa vontade dispensará. A igreja de Cristo foi comprada com o Seu sangue, e cada pastor deve compenetrar-se de que as ovelhas sob seu cuidado custaram um sacrifício infinito. Deve considerar a cada uma delas como tendo um valor inapreciável, e ser incansável em seus esforços por conservá-las em estado salutar e próspero. O pastor que estiver embebido do espírito de Cristo imitará Seu exemplo abnegado, trabalhando constantemente pelo bem-estar de seu rebanho; e este prosperará sob seu cuidado.
Todos serão chamados a prestar contas estritas de seu ministério. O Mestre exigirá de cada pastor: "Onde está o rebanho que se te deu, e as ovelhas de tua glória?" Jer. 13:20. Aquele que for encontrado fiel, receberá um rico galardão. "Quando aparecer o Sumo Pastor", diz o apóstolo, "alcançareis a incorruptível coroa de glória." I Ped. 5:4.
Quando Jacó, tornando-se cansado ao serviço de Labão, propôs voltar para Canaã, disse ao sogro: "Deixa-me ir, que me vá ao meu lugar, e à minha terra. Dá-me as minhas mulheres, e os meus filhos, pelas quais te tenho servido, e ir-me-ei; pois tu sabes o meu serviço que te tenho feito." Mas Labão instou com ele para que ficasse, declarando: "Tenho experimentado que o Senhor me abençoou por amor de ti." Gên. 30:25-27. Ele viu que sua propriedade estava aumentando sob o cuidado do genro. Disse Jacó: "O pouco que tinhas antes de mim, é aumentado até uma multidão." Gên. 30:30. Mas, passando-se o tempo, Labão ficou invejoso da prosperidade maior de Jacó, que "cresceu" "em grande maneira, e teve muitos rebanhos, e servas, e servos, e camelos, e jumentos". Gên. 30:43. Os filhos de Labão partilhavam da inveja do pai, e suas palavras maliciosas vieram aos ouvidos de Jacó: Ele "tem tomado tudo o que era de nosso pai, e do que era de nosso pai fez ele toda esta glória. Viu também Jacó o rosto
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de Labão, e eis que não era para com ele como dantes". Gên. 31:2. Jacó teria deixado seu enganoso parente muito tempo antes, se não fora o receio de encontrar-se com Esaú. Agora via ele que estava em perigo por parte dos filhos de Labão, os quais, olhando para a sua riqueza como se fora deles, poderiam procurar apossar-se dela pela violência. Achava-se em grande perplexidade e angústia, não sabendo que rumo tomar. Mas, lembrando-se da graciosa promessa de Betel, levou o seu caso a Deus, e procurou direção da parte dEle. Em um sonho foi respondida a sua oração: "Torna à terra dos teus pais, e à tua parentela, e Eu serei contigo." Gên. 31:3. A ausência de Labão ofereceu oportunidade para a partida. Os rebanhos e gado foram reunidos depressa e mandados adiante, e, com suas mulheres, filhos e servos, Jacó atravessou o Eufrates, apressando-se para Gileade, nas fronteiras de Canaã. Depois de três dias, Labão soube da fuga deles, e pôs-se em seu encalço, alcançando a multidão no sétimo dia de viagem. Estava ardendo em ira, e resolvido a fazê-los voltar, o que não duvidava poder fazer, visto que seu grupo era muito mais forte. Os fugitivos estavam na verdade em grande perigo.
O não haver ele levado a efeito seu plano hostil foi devido ao fato de que Deus mesmo interviera em proteção de Seu servo. "Poder havia em minha mão para vos fazer mal", disse Labão, "mas o Deus de vosso pai me falou ontem à noite, dizendo: Guarda-te, que não fales a Jacó nem bem nem mal" (Gên. 31:29); isto é, ele não deveria obrigá-lo a voltar, ou instar com o mesmo, mediante propostas lisonjeiras. Labão tinha retido para si o dote matrimonial de suas filhas, e sempre tratara a Jacó com engano e aspereza; mas com uma dissimulação característica censurou-o agora pela sua partida secreta, a qual não dera ao pai oportunidade de fazer uma festa para a partida, ou mesmo para dizer adeus a suas filhas e filhos delas.
Em resposta Jacó apresentou claramente o procedimento egoísta e ambicioso de Labão, e apelou para ele como testemunha de sua própria fidelidade e honestidade. "Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão, e o temor de Isaque, não fora comigo", disse Jacó, "por certo me enviarias agora vazio. Deus atendeu a minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite." Gên. 31:42. Labão não pôde negar os fatos apresentados, e propôs então entrar em um concerto de paz. Jacó consentiu na proposta, e uma
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pilha de pedras foi erguida como sinal do pacto. A esta pilha deu Labão o nome de Mispa, "torre de vigia", dizendo: "Atente ou 'vigie' o Senhor entre mim e ti, quando nós estivermos apartados um do outro."
"Disse mais Labão a Jacó: Eis aqui este mesmo montão, e eis aqui essa coluna que levantei entre mim e ti. Esse montão seja testemunha, e esta coluna seja testemunha, que eu não passarei este montão para lá, e que tu não passarás este montão e esta coluna para cá, para mal. O Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus de seu pai julgue entre nós. E jurou Jacó pelo temor de seu pai Isaque." Gên. 31:52 e 53. Para confirmar o tratado, os dois partidos realizaram um banquete. A noite foi passada em comunhão agradável; e, ao romper da aurora, Labão e seu grupo partiram. Com esta separação cessou todo o traço de conexão entre os filhos de Abraão e os moradores da Mesopotâmia. 18
A Noite de Luta
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Se bem que Jacó houvesse saído de Padã-Arã em obediência à instrução divina, não foi sem muitos pressentimentos que repassou a estrada que havia palmilhado como fugitivo vinte anos antes. Seu pecado por ter enganado seu pai estava sempre diante dele. Sabia que seu longo exílio era o resultado direto daquele pecado, e ponderava nestas coisas dia e noite, tornando muito triste a sua jornada as exprobrações de uma consciência acusadora. Ao aparecerem as colinas de sua terra natal diante dele, à distância, o coração do patriarca moveu-se profundamente. Todo o passado surgiu vividamente diante dele. Com a lembrança de seu pecado veio também o pensamento do favor de Deus para com ele, e as promessas de auxílio e guia divinos.
Aproximando-se mais do fim de sua viagem, a lembrança de Esaú trouxe muitos pressentimentos perturbadores. Depois da fuga de Jacó, Esaú considerou-se como único herdeiro das posses de seu pai. A notícia da volta de Jacó despertaria o temor de que ele viesse para reclamar a herança. Esaú era agora capaz de fazer grande mal a seu irmão, se estivesse disposto a tal, e poderia ser levado à violência contra ele, não somente pelo desejo de vingança, mas a fim de, tranqüilamente, obter a posse da riqueza que durante tanto tempo havia considerado como sua. De novo o Senhor concedeu a Jacó um sinal do cuidado divino. Enquanto ele viajava do Monte Gileade, em direção ao sul, dois exércitos de anjos celestiais pareciam cercá-lo, atrás e adiante, avançando com o seu grupo, como que para protegê-los. Jacó lembrou-se da visão em Betel tanto tempo antes, e o coração sobrecarregado se lhe tornou mais leve com esta prova de que os mensageiros divinos que lhe haviam trazido esperança e coragem em sua fuga de Canaã, deveriam ser os guardas de sua volta. E ele disse: "Este é o exército de Deus. E chamou o nome daquele lugar Maanaim" - "dois exércitos ou bandos." Gên. 32:2.
Todavia Jacó entendeu que tinha algo a fazer para conseguir sua própria segurança. Expediu, portanto, mensageiros com uma saudação conciliatória a seu irmão. Instruiu-os nas próprias Pág. 196
palavras pelas quais deveriam dirigir-se a Esaú. Tinha sido predito antes do nascimento dos irmãos que o mais velho serviria ao mais moço; e, para que a lembrança disto não fosse causa de amargura, Jacó disse aos servos que eles eram enviados a "meu senhor Esaú"; quando se encontrassem diante dele, deveriam referir-se a seu senhor como "Jacó, teu servo"; e para afastar o receio de que estivesse a voltar como um errante destituído de bens, a fim de exigir a herança paternal, Jacó teve o cuidado de declarar em sua mensagem: "Tenho bois e jumentos, ovelhas, e servos, e servas; e enviei para o anunciar a meu senhor, para que ache graça em teus olhos." Gên. 32:5. Mas os servos voltaram com as novas de que Esaú se aproximava com quatrocentos homens, e resposta alguma se enviava à amigável mensagem. Parecia certo que ele vinha para tirar desforra. O terror invadiu o acampamento. "Jacó temeu muito, e angustiou-se." Gên. 32:7. Não podia voltar, e receava avançar. Seu grupo, desarmado e indefeso, estava inteiramente despreparado para um encontro hostil. Em conformidade com isto dividiu-os em dois bandos, de modo que se um fosse atacado o outro poderia ter oportunidade de escapar. Enviou de seus vastos rebanhos presentes generosos a Esaú, com uma mensagem amigável. Fez tudo ao seu alcance para expiar a falta para com seu irmão, e afastar o perigo ameaçado; e então, com humilhação e arrependimento, rogou a proteção divina: Tu "me disseste: Torna à tua terra, e à tua parentela, e far-te-ei bem; menor sou eu que todas as beneficências, e que toda a fidelidade que tiveste com teu servo; porque com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em dois bandos: Livra-me, peço-Te, da mão de meu irmão, da mão de Esaú; porque o temo, que porventura não venha, e me fira, e a mãe com os filhos". Gên. 31:9-11. Tinham agora chegado até o rio Jaboque, e, ao sobrevir a noite, Jacó enviou sua família através do vau do rio, enquanto ele ficou só, atrás. Decidira-se a passar a noite em oração, e desejou estar a sós com Deus. Deus poderia abrandar o coração de Esaú. NEle estava a única esperança do patriarca.
Isto foi em uma região solitária, montanhosa, retiro de animais selvagens, e esconderijo de ladrões e assassinos. Sozinho e desprotegido, Jacó prostrou-se em terra com profunda angústia. Era meia-noite. Tudo que lhe tornava cara a vida estava à distância, exposto ao perigo e à morte. Mais amargo do que Pág. 197
tudo era o pensamento de que fora o seu próprio pecado o que acarretara este perigo sobre os inocentes. Com ansiosos clamores e lágrimas fez sua oração perante Deus. Subitamente uma mão forte foi posta sobre ele. Julgou que um inimigo estivesse a procurar sua vida, e esforçou-se por desvencilhar-se dos punhos do assaltante. Nas trevas os dois lutaram pelo predomínio. Nenhuma palavra se falou, porém Jacó empregou toda a força, e não afrouxou seus esforços nem por um momento. Enquanto estava assim a batalhar em defesa de sua vida, a intuição de sua falta lhe oprimia a alma; seus pecados levantavam-se diante dele para o separarem de Deus. Mas, em sua terrível situação, lembrou-se das promessas de Deus, e todo o coração se lhe externou em petições pela Sua misericórdia. A luta continuou até perto do romper do dia, quando o estranho colocou o dedo à coxa de Jacó, e este ficou manco instantaneamente. O patriarca discerniu então o caráter de seu antagonista. Soube que estivera em conflito com um mensageiro celestial, e por isto foi que seu esforço quase sobre-humano não ganhara a vitória. Era Cristo, o "Anjo do concerto", que Se havia revelado a Jacó. O patriarca estava agora inválido, e sofria a mais cruciante dor, mas não O quis largar. Todo arrependido e quebrantado, apegou-se ao Anjo; "chorou, e Lhe suplicou" (Osé. 12:4), invocando uma bênção. Tinha de ter a certeza de que seu pecado estava perdoado. A dor física não era suficiente para lhe desviar o espírito deste objetivo. Sua decisão se tornou mais forte, sua fé mais fervorosa e perseverante, até mesmo ao fim. O Anjo experimentou livrar-Se; insistiu: "Deixa-Me ir, porque já a alva subiu"; mas Jacó respondeu: "Não Te deixarei ir, se me não abençoares." Gên. 32:26. Tivesse sido isto uma confiança vangloriosa e presumida, e Jacó teria sido instantaneamente destruído; mas sua confiança era daquele que confessa sua própria indignidade, e, contudo, confia na fidelidade de um Deus que guarda o concerto.