Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 3 de 9 · parte 4/5

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Patriarcas e Profetas

Poucos, sendo submetidos a tal prova, ter-se-iam…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Jacó "lutou com o Anjo, e prevaleceu". Osé. 12:4. Pela humilhação, arrependimento e entrega de si mesmo, este pecaminoso e falível mortal prevaleceu com a Majestade do Céu. Firmara suas mãos trêmulas nas promessas de Deus, e o coração do Amor infinito não podia desviar o rogo do pecador. O erro que determinara o pecado de Jacó ao obter pela fraude a primogenitura, achava-se agora apresentado claramente diante dele. Não havia confiado nas promessas de Deus, mas procurara pelos seus próprios esforços efetuar aquilo que Deus teria

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cumprido no tempo e modo que Lhe aprouvessem. Como prova de que fora perdoado, seu nome foi mudado de um nome que lembrava seu pecado para outro que comemorava sua vitória. "Não se chamará mais o teu nome Jacó" [suplantador], disse o Anjo, "mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste." Gên. 32:28.

Jacó tinha recebido a bênção que sua alma havia anelado. Seu pecado como suplantador e enganador foi perdoado. Era passada a crise de sua vida. A dúvida, a perplexidade e o remorso lhe tinham amargurado a existência, mas agora tudo estava transformado; e doce era a paz de reconciliação com Deus. Jacó não mais receava encontrar seu irmão. Deus, que lhe perdoara o pecado, poderia mover o coração de Esaú também para aceitar sua humilhação e arrependimento. Enquanto Jacó estava a lutar com o Anjo, outro mensageiro celeste foi enviado a Esaú. Em sonho viu Esaú seu irmão, que durante vinte anos fora um exilado da casa de seu pai, testemunhou-lhe a dor ao encontrar morta a mãe, viu-o rodeado pelos exércitos de Deus. Este sonho foi relatado por Esaú aos seus soldados, com a ordem de não fazerem mal a Jacó; pois o Deus de seu pai estava com ele. Os dois grupos finalmente se aproximaram um do outro, conduzindo o chefe do deserto seus homens de guerra, e estando Jacó com suas esposas e filhos, acompanhados dos pastores e servas, e seguidos de longas fileiras de rebanhos e gado. Apoiado em seu cajado, o patriarca saiu para a frente a fim de encontrar-se com o grupo de soldados. Estava pálido e inutilizado em conseqüência de seu recente conflito, e andava vagarosa e penosamente, parando a cada passo; mas tinha o rosto iluminado por alegria e paz.

À vista daquele sofredor coxo, "Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram". Gên. 33:4. Ao olharem para esta cena, mesmo os rudes soldados de Esaú ficaram tocados. Não obstante haver-lhes ele contado seu sonho, não podiam ver a razão da mudança que sobreviera a seu capitão. Posto que vissem a enfermidade do patriarca, mal imaginavam que esta sua fraqueza se tornara a sua força.

Em sua noite de angústia, ao lado do Jaboque, quando a destruição parecia estar precisamente diante dele, ensinara-se a Jacó quão vão é o auxílio do homem, quão destituída de fundamento Pág. 201

é toda a confiança na força humana. Viu que seu único auxílio devia vir dAquele contra quem tão ofensivamente pecara. Desamparado e indigno, rogou a promessa de misericórdia de Deus, ao pecador arrependido. Aquela promessa foi a sua certeza de que Deus lhe perdoaria e o aceitaria. Mais facilmente poderiam o céu e a Terra passar do que falhar aquela palavra; e foi isto o que o alentou durante aquele terrível conflito.

A experiência de Jacó durante aquela noite de luta e angústia, representa a prova pela qual o povo de Deus deverá passar precisamente antes da segunda vinda de Cristo. O profeta Jeremias, em santa visão, olhando para este tempo, disse: "Ouvimos uma voz de tremor, de temor mas não de paz... Por que se têm tornado macilentos todos os rostos? Ah! porque aquele dia é tão grande, que não houve outro semelhante! e é tempo de angústia para Jacó; ele porém será livrado dela." Jer. 30:5-7. Quando Cristo cessar a Sua obra como mediador em prol do homem, então começará este tempo de angústia. Ter-se-á então decidido o caso de toda alma, e não haverá sangue expiatório para purificar do pecado. Ao deixar Jesus Sua posição como intercessor do homem junto a Deus, faz-se o solene anúncio: "Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda." Apoc. 22:11. Então o Espírito repressor de Deus é retirado da Terra. Assim como Jacó foi ameaçado de morte por seu irmão irado, o povo de Deus estará em perigo por parte dos ímpios, que procurarão destruí-los. E assim como o patriarca lutou toda a noite para conseguir livramento da mão de Esaú, clamarão os justos a Deus dia e noite por livramento dos inimigos que os cercam.

Satanás acusara Jacó diante dos anjos de Deus, pretendendo o direito de destruí-lo por causa de seu pecado; levara Esaú a marchar contra ele; e, durante a longa noite de luta do patriarca, Satanás esforçou-se por impor-lhe a intuição de sua culpa, a fim de o desanimar, e romper o seu apego com Deus. Quando, em sua angústia, Jacó lançou mão do Anjo, e com lágrimas suplicou, o Mensageiro celeste, a fim de provar-lhe a fé, lembrou-o também de seu pecado, e esforçou-se por escapar dele. Mas Jacó não quis demover-se. Aprendera que Deus é misericordioso, e lançou-se à Sua misericórdia. Fez referência ao arrependimento de seu pecado,

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e implorou livramento. Ao rever a sua vida, foi impelido quase ao desespero; mas segurou firmemente o Anjo, e com brados ardorosos, aflitivos, insistiu em sua petição, até que prevaleceu. Tal será a experiência do povo de Deus em sua luta final com os poderes do mal. Deus lhes provará a fé, a perseverança, a confiança em Seu poder para os livrar. Satanás esforçar-se-á por aterrorizá-los com o pensamento de que seus casos são sem esperança; que seus pecados foram demasiado grandes para receberem perdão. Terão uma intuição profunda de seus fracassos; e, ao reverem a vida, perder-lhes-ão as esperanças. Lembrando-se, porém, da grandeza da misericórdia de Deus, e de seu próprio arrependimento sincero, alegarão Suas promessas feitas por meio de Cristo aos pecadores desamparados e arrependidos. Sua fé não faltará por não serem suas orações respondidas imediatamente. Apoderar-se-ão da força de Deus, assim como Jacó lançou mão do Anjo; e a expressão de sua alma será: "Não Te deixarei ir, se me não abençoares." Gên. 32:26. Se Jacó não se houvesse arrependido previamente do pecado de obter a primogenitura pela fraude, Deus não poderia ter ouvido sua oração e misericordiosamente preservado sua vida. Assim no tempo de angústia, se o povo de Deus houvesse de ter pecados não confessados, para aparecerem diante deles enquanto torturados pelo temor e angústia, abater-se-iam; o desespero lhes cortaria a fé, e não poderiam ter confiança para pleitearem com Deus seu livramento. Mas, conquanto tenham uma intuição profunda de sua indignidade, não terão faltas ocultas a revelar. Seus pecados ter-se-ão apagado pelo sangue expiatório de Cristo, e eles não os podem trazer à lembrança. Satanás leva muitos a crer que Deus não tomará em consideração a sua infidelidade nas menores coisas da vida; mas o Senhor mostra em Seu trato com Jacó que Ele não pode de maneira alguma sancionar ou tolerar o mal. Todos os que se esforçam por desculpar ou esconder seus pecados, e permitem que eles permaneçam nos livros do Céu, sem serem confessados ou perdoados, serão vencidos por Satanás. Quanto mais exaltada for a sua profissão, e mais honrada a posição que ocupam, mais ofensiva é a sua conduta aos olhos de Deus, e mais certo a vitória do grande adversário. Contudo, a história de Jacó é uma segurança de que Deus não repelirá aqueles que foram atraídos ao pecado, mas que voltaram

Pág. 203 a Ele com verdadeiro arrependimento. Foi pela entrega de si mesmo e por uma fé tranqüilizadora que Jacó alcançou o que não conseguira ganhar com o conflito em sua própria força. Deus assim ensinou a Seu servo que o poder e a graça divina unicamente lhe poderiam dar a bênção que ele desejava com ardor. De modo semelhante será com aqueles que vivem nos últimos dias. Ao rodearem-nos os perigos, e ao apoderar-se da alma o desespero, devem confiar unicamente nos méritos da obra expiatória. Nada podemos fazer de nós mesmos. Em toda a nossa desajudada indignidade, devemos confiar nos méritos do Salvador crucificado e ressuscitado. Ninguém jamais perecerá enquanto fizer isto. A lista longa e negra de nossos delitos está diante dos olhos do Ser infinito. O registro é completo; nenhuma de nossas ofensas é esquecida. Aquele, porém, que ouviu os clamores de Seus servos na antiguidade, ouvirá a oração da fé, e perdoará as nossas transgressões. Ele o prometeu, e cumprirá a Sua palavra. Jacó prevaleceu porque foi perseverante e resoluto. Sua experiência testifica do poder da oração insistente. É agora que devemos aprender esta lição de oração que prevalece, de uma fé que não cede. As maiores vitórias da igreja de Cristo, ou do cristão em particular, não são as que são ganhas pelo talento ou educação, pela riqueza ou favor dos homens. São as vitórias ganhas na sala de audiência de Deus, quando uma fé cheia de ardor e agonia lança mão do braço forte da oração. Aqueles que não estiverem dispostos a abandonar todo o pecado e buscar fervorosamente a bênção de Deus, não a obterão. Mas todos os que lançarem mão das promessas de Deus, como fez Jacó, e forem tão fervorosos e perseverantes como ele o foi, serão bem-sucedidos como ele. "E Deus não fará justiça a Seus escolhidos, que clamam a Ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça." Luc. 18:7 e 8.

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A Volta Para Canaã

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Atravessando o Jordão, "chegou Jacó salvo à cidade de Siquém, que está na terra de Canaã". Gên. 33:18. Assim, a oração do patriarca em Betel, para que Deus o trouxesse novamente em paz à sua terra, fora deferida. Durante algum tempo ele habitou no vale de Siquém. Foi aqui que Abraão, mais de cem anos antes, fizera seu primeiro acampamento, e construíra seu primeiro altar, na terra da promessa. Ali Jacó "comprou uma parte do campo em que estendera a sua tenda, da mão dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro. E levantou ali um altar, e chamou-o Deus, o Deus de Israel". Gên. 33:19 e 20. Como Abraão, Jacó erguera ao lado de sua tenda um altar ao Senhor, convocando os membros de sua casa para o sacrifício da manhã e da tarde. Foi ali também que ele cavou o poço, ao qual, dezessete séculos mais tarde, veio o Filho de Jacó, o Salvador, e ao lado do qual, descansando durante o calor do dia, falou aos Seus ouvintes maravilhados daquela "fonte d'água que salte para a vida eterna". João 4:14.

A permanência de Jacó e seus filhos em Siquém terminou em violência e mortandade. A única filha da casa fora levada ao opróbrio e tristeza; dois irmãos ficaram envolvidos no crime de assassínio; uma cidade inteira fora entregue à ruína e morticínio, em represália da ação ilegal de um jovem temerário. O princípio que determinara resultados tão terríveis foi o ato da filha de Jacó, a qual "saiu" a "ver as filhas da terra" (Gên. 34), arriscando-se desta maneira à camaradagem com os ímpios. Aquele que procura prazeres entre os que não temem a Deus, está a colocar-se no terreno de Satanás, e a convidar suas tentações.

A crueldade traiçoeira de Simeão e Levi não foi sem provocação; contudo, em sua conduta para com os siquemitas cometeram um grave pecado. Haviam cuidadosamente ocultado a Jacó suas intenções, e a notícia de sua vingança encheu-o de horror.

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Com o coração magoado pelo engano e violência de seus filhos, ele apenas disse: "Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra, ... sendo eu pouco povo em número; ajuntar-se-ão, e ficarei destruído, eu e minha casa." Mas a dor e a aversão com que ele olhou para o seu ato sanguinolento, são reveladas pelas palavras com que, quase cinqüenta anos mais tarde, ele se referiu àquele ato, enquanto jazia em seu leito de morte, no Egito: "Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu secreto conselho não entre minha alma, com a sua congregação minha glória não se ajunte. ... Maldito seja o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura." Gên. 49:5-7.

Jacó entendeu que havia motivo para uma profunda humilhação. Crueldade e falsidade se manifestaram no caráter de seus filhos. Havia deuses falsos no acampamento, e a idolatria tinha até certo ponto ganho terreno mesmo em sua casa. Se o Senhor os tratasse de acordo com seus méritos, não os deixaria à vingança das nações circunvizinhas?

Enquanto Jacó estava assim prostrado com a angústia, o Senhor ordenou-lhe que viajasse para o sul, a Betel. A lembrança deste lugar recordava ao patriarca não somente a sua visão dos anjos, e as misericordiosas promessas de Deus, mas também o voto que ali fizera, de que o Senhor deveria ser o seu Deus. Decidiu que antes de ir a esse lugar sagrado, sua casa deveria estar livre da contaminação da idolatria. Deu, portanto, instruções a todos no acampamento: "Tirai os deuses estranhos, que há no meio de vós, e purificai-vos, e mudai os vossos vestidos. E levantemo-nos, e subamos a Betel; e ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho que tenho andado." Gên. 35:2 e 3.

Com profunda emoção Jacó repetiu a história de sua primeira visita a Betel, quando deixou a tenda de seu pai como um errante solitário, fugindo para salvar a vida, e como o Senhor lhe apareceu na visão noturna. Revendo ele o trato maravilhoso de Deus para consigo, seu próprio coração se enterneceu, seus filhos também foram tocados por um poder que os constrangia; ele lançara mão do meio mais eficaz para os preparar a fim de tomarem parte no culto de Deus quando chegassem a Betel. "Então deram a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham em suas mãos, e as arrecadas que estavam em suas orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém." Gên. 35:4. Pág. 206

Deus fizera com que um temor caísse sobre os habitantes da terra, de modo que não fizessem tentativa alguma para vingarem o morticínio de Siquém. Os viajantes chegaram a Betel sem serem molestados. Ali o Senhor apareceu de novo a Jacó, e renovou-lhe a promessa do concerto. "E Jacó pôs uma coluna no lugar onde falara com Ele, uma coluna de pedra." Gên. 35:14. Em Betel, Jacó veio a chorar a perda de uma pessoa que durante muito tempo fora um membro honrado na família de seu pai - Débora, a ama de Rebeca, que havia acompanhado a sua senhora, da Mesopotâmia à terra de Canaã. A presença dessa mulher idosa fora para Jacó um laço precioso que o ligava à sua vida primitiva, e especialmente à mãe cujo amor para com ele havia sido tão forte e terno. Débora foi sepultada com expressões de tão grande tristeza que o carvalho, sob o qual sua sepultura foi feita, foi chamado "carvalho de pranto". Não deveria passar despercebido que a memória de sua vida de fiel serviço, e do pranto por esta amiga da casa, foi tida por digna de ser preservada na Palavra de Deus.

De Betel havia apenas dois dias de viagem para Hebrom; mas esta viagem trouxe a Jacó uma severa dor pela morte de Raquel. Duas vezes o serviço de sete anos prestara ele por amor a ela, e seu amor tornara leve o trabalho. Quão profundo e constante foi aquele amor, revelou-se quando, muito mais tarde, achando-se Jacó no Egito, no leito, próximo de sua morte, José veio visitar o pai, e o idoso patriarca, lançando um olhar à sua vida passada, disse: "Vindo pois eu de Padã, me morreu Raquel na terra de Canaã, no caminho, quando ainda ficava um pequeno espaço de terra para vir a Efrata; e eu a sepultei ali, no caminho de Efrata." Gên. 48:7. Na história de sua longa e trabalhosa vida, em relação à sua família, unicamente a perda de Raquel foi lembrada. Antes de sua morte, Raquel deu à luz um segundo filho. Com o último alento deu ela à criança o nome de Benoni, "filho de minha dor". Mas seu pai chamou-o Benjamim, "filho da destra", ou "minha força". Raquel foi sepultada onde morreu, e uma coluna foi erguida no local para perpetuar sua memória. No caminho para Efrata, outro crime tenebroso manchou a família de Jacó, fazendo com que a Rúben, o filho primogênito, fossem negados os privilégios e honras da primogenitura. Pág. 207

Finalmente Jacó chegou ao fim de sua viagem, "a seu pai Isaque, a Manre, ... (que é Hebrom), onde peregrinaram Abraão e Isaque". Ali ficou ele durante os anos finais da vida de seu pai. A Isaque, enfermo e cego, as bondosas atenções desse filho havia tanto tempo ausente, foram um conforto durante anos de solidão e privação de seus entes queridos. Jacó e Esaú encontraram-se junto ao leito de morte de seu pai. Uma ocasião o irmão mais velho olhara antecipadamente para este acontecimento como uma oportunidade para vingança; seus sentimentos, porém, haviam-se mudado grandemente desde então. E Jacó, satisfeito com as bênçãos espirituais da primogenitura, resignou ao irmão mais velho a herança da riqueza de seu pai - a única herança que Esaú buscava ou apreciava. Não mais eram separados pela inveja ou ódio; todavia apartaram-se, mudando-se Esaú para o Monte Seir. Deus, que é rico em bênçãos, concedera a Jacó riquezas seculares, em acréscimo ao bem mais elevado que ele procurara. Os bens dos dois irmãos eram muitos "para habitarem juntos; e a terra de suas peregrinações não os podia sustentar por causa do seu gado". Gên. 36:7. Esta separação estava de acordo com o propósito divino relativo a Jacó. Desde que os dois irmãos diferiam tão grandemente com relação à fé religiosa, era melhor que morassem separados.

Esaú e Jacó tinham sido instruídos de modo semelhante no conhecimento de Deus, e ambos estavam em liberdade para andar em Seus mandamentos e receber Seu favor; porém, não preferiram ambos fazer isto. Os dois irmãos tinham andado em caminhos diferentes, e suas veredas continuariam a divergir mais e mais uma da outra.

Não houve uma preferência arbitrária da parte de Deus, pela qual ficassem excluídas de Esaú as bênçãos da salvação. Os dons de Sua graça por Cristo são gratuitos a todos. Não há eleição senão a própria, pela qual alguém possa perecer. Deus estabeleceu em Sua Palavra as condições pelas quais toda a alma será eleita para a vida eterna: obediência aos Seus mandamentos, pela fé em Cristo. Deus elegeu um caráter de acordo com Sua lei, e qualquer que atinja a norma que Ele exige, terá entrada no reino de glória. O próprio Cristo diz: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida." João 3:36. "Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus." Mat. 7:21. E no Apocalipse Ele declara:

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"Bem-aventurados aqueles que guardam os Seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas." Apoc. 22:14. Quanto ao que respeita à salvação final do homem, esta é a única eleição referida na Palavra de Deus.

Eleita é toda alma que opera a sua própria salvação com temor e tremor. É eleito aquele que cingir a armadura, e combater o bom combate da fé. É eleito quem vigiar e orar, quem examinar as Escrituras, e fugir da tentação. Eleito é aquele que continuamente tiver fé, e que for obediente a toda a palavra que sai da boca de Deus. As providências tomadas para a redenção, são franqueadas a todos; os resultados da redenção serão desfrutados por aqueles que satisfizeram as condições. Esaú havia desprezado as bênçãos do concerto. Dera mais valor aos bens temporais do que aos espirituais, e recebera o que desejava. Foi pela sua própria e deliberada escolha que se separou do povo de Deus. Jacó escolhera a herança da fé. Esforçara-se por obtê-la pela astúcia, traição e falsidade; Deus, porém, permitira que seu pecado operasse a correção ao mesmo. Todavia, durante toda a amarga experiência de seus últimos anos, Jacó nunca se afastou de seu intuito nem renunciou a sua preferência. Aprendera que, recorrendo à habilidade e astúcia humana, para conseguir a bênção, estivera a guerrear contra Deus. Como homem diferente, saíra Jacó daquela noite de luta ao lado do Jaboque. Desarraigara-se a confiança própria. Dali em diante não mais se viu aquele primitivo artifício. Em lugar da astúcia e engano, sua vida assinalou-se pela simplicidade e verdade. Aprendera a lição de confiança singela no Braço todo-poderoso; e por entre provações e aflição curvava-se em humilde submissão à vontade de Deus. Os elementos inferiores de seu caráter foram consumidos na fornalha de fogo, o verdadeiro ouro foi refinado, até que a fé de Abraão e de Isaque apareceu aclarada em Jacó. O pecado de Jacó e o séquito de acontecimentos que determinou, não deixaram de exercer influência para o mal, influência esta que revelou seu amargo fruto no caráter e vida de seus filhos. Chegando esses filhos à virilidade, desenvolveram graves defeitos. Os resultados da poligamia foram manifestos na casa. Este terrível mal tende a secar as próprias fontes do amor, e sua influência enfraquece os laços mais sagrados. O ciúme das

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várias mães havia amargurado a relação da família; os filhos cresceram contenciosos, e sem a devida sujeição; e a vida do pai obscureceu-se pela ansiedade e dor. Houve um, entretanto, de caráter grandemente diverso - o filho mais velho de Raquel, José, cuja rara beleza pessoal não parecia senão refletir uma beleza interior do espírito e do coração. Puro, ativo e alegre, o rapaz dava prova também de ardor e firmeza moral. Escutava as instruções do pai, e gostava de obedecer a Deus. As qualidades que depois o distinguiram no Egito - gentileza, fidelidade e veracidade, já eram manifestas em sua vida diária. Morrendo-lhe a mãe, suas afeições prenderam-se mais intimamente ao pai, e o coração de Jacó estava ligado a este filho de sua velhice. Ele "amava a José mais do que a todos os seus filhos". Gên. 37:3.

Mas mesmo esta afeição deveria tornar-se causa de perturbações e tristezas. Jacó imprudentemente manifestou sua preferência por José, e isto provocou a inveja dos outros filhos. Testemunhando José a má conduta dos irmãos, ficava grandemente incomodado; arriscou-se delicadamente a chamar-lhes a atenção, mas isto apenas suscitou ainda mais o seu ódio e indignação. Não podia suportar vê-los a pecar contra Deus, e apresentou esta questão a seu pai, esperando que sua autoridade os pudesse levar a corrigir-se.

Jacó evitou cuidadosamente suscitar a ira deles pela aspereza e severidade. Com profunda emoção exprimiu sua solicitude pelos filhos, e implorou que lhe respeitassem os cabelos brancos, e não trouxessem o opróbrio a seu nome, e, acima de tudo, que não desonrassem a Deus com tal desrespeito a Seus preceitos. Envergonhados de que sua impiedade fosse conhecida, os moços pareceram estar arrependidos, mas tão-somente esconderam seus verdadeiros sentimentos, que se tornaram mais amargos ao serem patenteadas as suas faltas.

O indiscreto presente do pai feito a José, de um manto, ou túnica, de grande preço, tal como a usavam comumente pessoas de distinção, pareceu-lhes outra prova de sua parcialidade, e provocou-lhes a suspeita de que ele tencionava preterir seus filhos mais velhos e conferir a primogenitura ao filho de Raquel. Sua maldade ainda mais aumentou ao contar-lhes um dia o menino um sonho que tivera. "Eis que", disse ele, "estávamos atando molhos no meio do campo, e eis que o meu molho se levantava, e também ficava em pé, e eis que os vossos molhos o rodeavam, e se inclinavam ao meu molho." Gên. 37:7.

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"Tu pois deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós?" Gên. 37:8. exclamaram seus irmãos com cólera, cheios de inveja.

Logo teve outro sonho, de idêntica significação, que também relatou: "Eis que o Sol, e a Lua, e onze estrelas se inclinavam a mim." Gên. 37:9. Este sonho foi interpretado tão facilmente como o primeiro. O pai, que estava presente, falou reprovando: "Que sonho é este que sonhaste? Porventura viremos, eu e tua mãe, e teus irmãos, a inclinar-nos perante ti em terra?" Gên. 37:10. Apesar da severidade aparente de suas palavras, Jacó acreditava que o Senhor estava revelando o futuro a José. Achando-se o rapaz perante os irmãos, brilhando seu belo rosto pelo Espírito de inspiração, não puderam deixar de admirá-lo; porém não optaram pela renúncia de seus maus caminhos, e odiaram a pureza que lhes reprovava os pecados. O mesmo espírito que atuava em Caim, abrasava-se em seus corações.

Os irmãos eram obrigados a mudar-se de um lugar para outro a fim de conseguirem pasto para seus rebanhos, e freqüentemente ficavam ausentes de casa durante meses seguidos. Depois das circunstâncias que se acabam de referir, foram ao lugar que seu pai comprara em Siquém. Passou-se algum tempo, sem que viessem notícias, e o pai começou a temer pela segurança deles, por causa de sua crueldade anterior para com os siquemitas. Mandou, pois, José a encontrá-los, e trazer-lhe notícia como iam. Se Jacó tivesse conhecido o sentimento real de seus filhos para com José, não o teria confiado sozinho a eles; isso, porém, haviam eles cuidadosamente ocultado. Com o coração alegre José despediu-se de seu pai, não sonhando o idoso varão e nem o jovem, o que aconteceria antes que de novo se encontrassem. Quando, depois de sua longa e solitária viagem, José chegou a Siquém, não encontrou os irmãos e os rebanhos. Indagando a respeito deles, encaminharam-no a Dotã. Já havia viajado mais de setenta e cinco quilômetros, e agora uma distância adicional de vinte e dois achava-se diante dele; foi-se, porém, à pressa, esquecendo seu cansaço com o pensamento de aliviar a ansiedade do pai, e encontrar os irmãos, a quem, apesar de sua maldade, ainda amava.

Seus irmãos viram-no aproximar-se; porém nenhum pensamento da longa viagem que fizera para os encontrar, de seu cansaço e fome, do direito à sua hospitalidade e amor fraternal, abrandou a amargura de seu ódio. A vista da capa, sinal do amor de

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seu pai, encheu-os de agitação. "Eis lá vem o sonhador-mor!" (Gên. 37:19) exclamaram zombeteiramente. A inveja e a vingança, durante muito tempo secretamente acalentadas, agora os dominavam. "Matemo-lo", disseram, "e lancemo-lo numa destas covas, e diremos: Uma besta fera o comeu; e veremos que será dos seus sonhos." Gên. 37:20. Teriam executado seu intento, se não fora Rúben. Ele se negou a participar do assassínio de seu irmão, e propôs que José fosse lançado vivo em uma cova, e ali deixado a perecer, sendo, entretanto, seu intuito secreto, livrá-lo, e devolvê-lo ao pai. Tendo persuadido todos a consentirem neste plano, Rúben deixou o grupo, receando que não pudesse dominar seus sentimentos, e fossem descobertas suas verdadeiras intenções.

José chegou, sem suspeitar do perigo, e alegre de que o objetivo de sua longa pesquisa estivesse cumprido; mas em vez da esperada saudação aterrorizou-se pela ira e olhares vingativos que encontrou. Agarraram-no e tiraram-lhe a capa. Zombarias e ameaças revelavam um propósito mortal. Seus rogos não foram atendidos. Estava inteiramente em poder daqueles homens enfurecidos. Arrastando-o rudemente para uma profunda cova, lançaram-no ali, e, tendo-se certificado de que não havia possibilidade de escapar, deixaram-no para perecer de fome, enquanto "assentaram-se a comer pão". Gên. 37:25.

Alguns deles, porém, não estavam à vontade, não sentiam a satisfação que tinham tido em perspectiva pela sua vingança. Logo foi visto a aproximar-se um grupo de viajantes. Era uma caravana de ismaelitas de além Jordão, a caminho para o Egito, com especiarias e outras mercadorias. Judá propôs então vender seu irmão àqueles mercadores gentios, em vez de o deixar a morrer. Ao mesmo tempo em que ele seria eficazmente posto fora de seu caminho, permaneceriam limpos de seu sangue; "porque", insistiu, "ele é nosso irmão, nossa carne". Gên. 37:27. Com esta proposta todos concordaram, e José foi rapidamente tirado da cova.

Ao ver ele os mercadores, a terrível verdade passou como relâmpago por seu espírito. Tornar-se escravo era uma sorte para se temer mais do que a morte. Na aflição do terror apelou para um e outro de seus irmãos, mas em vão. Alguns foram movidos de dó, mas o medo de caçoada conservou-os em silêncio; todos achavam que haviam então ido longe demais para desistirem. Se José fosse poupado, sem dúvida relataria o feito deles ao pai, que

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não deixaria de tomar em consideração a sua crueldade para com o filho predileto. Empedernindo o coração aos seus rogos, entregaram-no às mãos dos mercadores gentios. A caravana prosseguiu, e logo perdeu-se de vista.

Rúben voltou ao fosso, mas José ali não estava. Alarmado e censurando-se a si mesmo, rasgou seus vestidos, e procurou os irmãos, exclamando: "O moço não aparece, e eu aonde irei?" Sabendo da sorte de José, e que agora seria impossível recuperá-lo, Rúben foi induzido a unir-se aos demais, na tentativa de ocultar seu crime. Havendo morto um cabrito, mergulharam a capa de José no sangue, e levaram ao pai, dizendo-lhe que haviam achado no campo, e que receavam fosse de seu irmão. "Conhece agora", disseram, "se esta será ou não a túnica de teu filho." Tinham olhado antecipadamente para esta cena com receio, mas não estavam preparados para a angústia e a dor que foram obrigados a testemunhar. "É a túnica de meu filho", disse Jacó, "uma besta fera o comeu; certamente foi despedaçado José." Em vão seus filhos e filhas tentaram consolá-lo. "Rasgou os seus vestidos, e pôs saco sobre os seus lombos, e lamentou a seu filho muitos dias." O tempo não parecia trazer-lhe alívio ao pesar. "Com choro hei de descer a meu filho até à sepultura", era o seu desesperado clamor. Os moços, aterrorizados com o que tinham feito, e, contudo, temendo as reprovações do pai, ocultavam ainda em seu coração o conhecimento de seu crime, que mesmo para eles parecia muito grande. III. Israel no Egito e o Êxodo

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José no Egito

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Enquanto isto se passava, José com seus detentores estava a caminho do Egito. Jornadeando a caravana para o Sul, em direção das fronteiras de Canaã, o rapaz podia discernir a distância as colinas entre as quais se achavam as tendas de seu pai. Chorou amargamente à lembrança daquele pai amoroso, em sua solidão e aflição. Novamente a cena em Dotã veio diante de si. Viu seus irmãos irados, e sentiu os olhares furiosos que lhe dirigiam. As palavras pungentes, insultantes, que seus aflitos rogos encontraram, estavam a soar-lhe nos ouvidos. Com o coração a tremer olhou para o futuro. Que mudança na situação - de um filho ternamente acalentado para o escravo desprezado e desamparado! Só e sem amigos, qual seria sua sorte na terra estranha a que ele ia? Por algum tempo, José entregou-se a uma dor e pesar incontidos.

Mas, na providência de Deus, mesmo esta experiência seria uma bênção para ele. Aprendeu em poucas horas o que de outra maneira anos não lhe poderiam ter ensinado. Seu pai, forte e terno como havia sido seu amor, fizera-lhe mal com sua parcialidade e indulgência. Esta preferência imprudente havia encolerizado seus irmãos, e os incitara à ação cruel que o separara de seu lar. Os efeitos dessa preferência eram também manifestos em seu caráter. Defeitos haviam sido acariciados, que agora deveriam ser corrigidos. Ele se estava tornando cheio de si e exigente. Acostumado à ternura dos cuidados de seu pai, viu que não se achava preparado para competir com as dificuldades que diante dele estavam, na vida amarga e desconsiderada de estrangeiro e escravo. Então seus pensamentos volveram para o Deus de seu pai. Na meninice fora ensinado a amá-Lo e temê-Lo. Muitas vezes na tenda do pai, ouvira a história da visão que Jacó tivera quando se retirava de seu lar, como exilado e fugitivo. Contaram-lhe a respeito das promessas do Senhor a Jacó, e como tinham elas se cumprido - como, na hora de necessidade, os anjos de Deus tinham vindo Pág. 214 instruí-lo, consolá-lo e protegê-lo. E aprendera acerca do amor de Deus, provendo um Redentor aos homens. Todas estas lições preciosas vinham agora vividamente diante dele. José acreditava que o Deus de seus pais seria o seu Deus. Ali mesmo se entregou então completamente ao Senhor, e orou para que o Guarda de Israel estivesse com ele na terra do exílio. Sua alma fremiu ante a elevada resolução de mostrar-se fiel a Deus - de agir, em todas as circunstâncias, como convinha a um súdito do Reino do Céu. Serviria ao Senhor com inteireza de coração; enfrentaria as provações de sua sorte, com coragem, e com fidelidade cumpriria todo o dever. A experiência de um dia foi o ponto decisivo na vida de José. Sua terrível calamidade transformara-o de uma criança amimada em um homem ponderado, corajoso e senhor de si. Chegando ao Egito, José foi vendido a Potifar, capitão da guarda do rei, a cujo serviço ficou durante dez anos. Ali foi exposto a tentações nada triviais. Estava em meio da idolatria. O culto aos deuses falsos era rodeado de toda a pompa da realeza, apoiado pela riqueza e cultura da nação mais altamente civilizada então existente. José, todavia, preservou sua simplicidade e fidelidade para com Deus. As cenas e ruídos do vício estavam ao redor dele; porém, era ele como quem não via e não ouvia. Aos seus pensamentos não permitia ocupar-se com assuntos proibidos. O desejo de alcançar o favor dos egípcios não o poderia fazer esconder os seus princípios. Se tivesse tentado fazer isto, teria sido vencido pela tentação; mas não se envergonhava da religião de seus pais, e não fazia esforços para esconder o fato de ser adorador de Jeová.

"E o Senhor estava com José, e foi varão próspero." Viu "o seu senhor que o Senhor estava com ele, e que tudo que ele fazia o Senhor prosperava em sua mão". Gên. 39:2 e 3. A confiança de Potifar em José aumentava diariamente, e finalmente o promoveu a seu mordomo, com amplo governo sobre todas as suas posses. "E deixou tudo o que tinha na mão de José, de maneira que de nada sabia do que estava com ele, a não ser do pão que comia." Gên. 39:6. A assinalada prosperidade que acompanhava todas as coisas postas aos cuidados de José, não era resultado de um milagre direto; mas sim a sua operosidade, zelo e energia eram coroados pela bênção divina. José atribuía seu êxito ao favor de Deus, e mesmo seu senhor idólatra aceitava isto como o segredo de sua

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prosperidade sem-par. Sem um esforço perseverante e bem dirigido jamais poderia, entretanto, haver conseguido o êxito. Deus era glorificado pela fidelidade de Seu servo. Era Seu propósito que em pureza e correção o crente em Deus se mostrasse em assinalado contraste com os adoradores de ídolos - para que assim a luz da graça celestial pudesse resplandecer entre as trevas do paganismo. A gentileza e fidelidade de José ganharam o coração do capitão-mor, o qual veio a considerá-lo como filho, em vez de escravo. O jovem foi levado em contato com homens de posição e saber, e adquiriu conhecimentos de ciências, línguas e negócios, educação necessária para o futuro primeiro-ministro do Egito.

A fé e integridade de José deveriam, porém, ser experimentadas por terríveis provas. A esposa de seu senhor esforçou-se por seduzir o jovem a transgredir a lei de Deus. Até ali ele permanecera incontaminado da corrupção que enchia aquela terra gentílica; mas esta tentação tão súbita, forte e sedutora, como poderia ser enfrentada? José bem sabia qual seria a conseqüência da resistência. De um lado estavam o encobrimento, os favores e as recompensas; do outro a desgraça, a prisão, a morte talvez. Toda sua vida futura dependia da decisão do momento. Triunfariam os princípios? Seria José ainda fiel a Deus? Com inexprimível ansiedade os anjos olhavam para aquela cena. A resposta de José revela o poder do princípio religioso. Ele não trairia a confiança de seu senhor na Terra, e, quaisquer que fossem as conseqüências, seria fiel ao seu Senhor no Céu. Sob o olhar examinador de Deus e dos santos anjos, muitos tomam liberdades de que não se achariam culpados na presença de seus semelhantes; porém, o primeiro pensamento de José foi Deus. "Como pois faria eu este tamanho mal, e pecaria contra Deus?" disse ele. Gên. 39:9. Se acalentássemos uma impressão habitual de que Deus vê e ouve tudo que fazemos e dizemos, e conserva um registro fiel de nossas palavras e ações, e de que devemos deparar tudo isto, teríamos receio de pecar. Lembrem-se sempre os jovens de que, onde quer que estejam, e o que quer que façam, acham-se na presença de Deus. Parte alguma de nossa conduta escapa à observação. Não podemos ocultar nossos caminhos ao Altíssimo. As leis humanas, embora algumas vezes severas, são muitas vezes transgredidas sem que isto seja descoberto, e, portanto, impunemente. Não assim, porém, com a lei de Deus. A mais escura meia-noite não é uma cobertura para o criminoso. Ele pode julgar-se Pág. 218 só, mas para cada ação há uma testemunha invisível. Os próprios motivos de seu coração estão patentes à inspeção divina. Cada ato, cada palavra, cada pensamento, é tão distintamente notado como se apenas houvesse uma pessoa no mundo inteiro, e a atenção do Céu nela estivesse centralizada. José sofreu pela sua integridade; pois sua tentadora vingou-se acusando-o de um crime detestável, e fazendo com que ele fosse lançado na prisão. Houvesse Potifar acreditado na acusação feita pela esposa, contra José, e teria o jovem hebreu perdido a vida; mas a modéstia e correção que haviam uniformemente caracterizado sua conduta, eram prova de sua inocência; e, contudo, para salvar a reputação da casa de seu senhor, foi entregue à vergonha e ao cativeiro. A princípio José foi tratado com grande severidade pelos seus carcereiros. Diz o salmista, falando de José: "Cujos pés apertaram com grilhões e a quem puseram em ferros; até o tempo em que chegou a Sua Palavra; a palavra do Senhor o provou." Sal. 105:18 e 19. Mas o verdadeiro caráter de José resplandece, mesmo nas trevas da masmorra. Ele reteve com firmeza sua fé e paciência; seus anos de serviço fiel foram pagos da maneira mais cruel, todavia isto não o tornou obstinado ou desconfiado. Tinha a paz que vem de uma inocência consciente, e confiava seu caso a Deus. Não ficava a acalentar as ofensas que recebera, mas esquecia-se de suas tristezas procurando aliviar as de outrem. Achou uma obra a fazer mesmo na prisão. Deus o estava preparando, na escola da aflição, para maior utilidade, e ele não recusou a necessária disciplina. Testemunhando na prisão os resultados da opressão e tirania, e os efeitos do crime, aprendeu lições de justiça, simpatia e misericórdia, que o prepararam para exercer o poder com sabedoria e compaixão. José gradualmente ganhou a confiança do guarda da prisão, e foi-lhe finalmente confiado o cuidado de todos os presos. Foi a parte que ele desempenhou na prisão - integridade de sua vida diária e simpatia por aqueles que estavam em perturbação e angústia - o que abriu o caminho para a sua prosperidade e honra futura. Todo o raio de luz que derramamos sobre outrem, reflete-se em nós mesmos. Toda palavra amável e cheia de simpatia proferida aos tristes, todo ato feito para aliviar os oprimidos, e todo dom aos necessitados, se é determinado por um impulso justo, resultará em bênçãos ao doador. Pág. 219

O padeiro-mor e o copeiro-mor do rei tinham sido lançados na prisão por qualquer falta, e vieram a ficar sob o encargo de José. Uma manhã, observando que se mostravam muito tristes, amavelmente indagou a causa, e disseram que cada um tivera um sonho notável, de que estavam ansiosos por saber a significação. "Não são de Deus as interpretações?" disse José; "contai-mo, peço-vos." Gên. 40:8. Tendo cada um relatado o seu sonho, José fê-los saber a significação: em três dias o copeiro seria reintegrado em seu cargo, e daria o copo nas mãos de Faraó, como antes, mas o padeiro-mor seria morto por ordem do rei. Em ambos os casos ocorreu o acontecimento conforme fora predito. O copeiro do rei dissera possuir a maior gratidão para com José, tanto pela interpretação consoladora de seu sonho como por muitos atos de bondosa atenção; e, por sua vez, este, referindo-se da maneira mais tocante ao seu injusto cativeiro rogou que seu caso fosse levado perante o rei. "Lembra-te de mim", disse ele, "quando te for bem; e rogo-te que uses comigo de compaixão, e que faças menção de mim a Faraó, e faze-me sair desta casa; porque, de fato, fui roubado da terra dos hebreus; e tampouco aqui nada tenho feito para que me pusessem nesta cova." Gên. 40:14 e 15. O copeiro-mor viu realizar-se o sonho em todos os pormenores; quando, porém, foi restabelecido ao favor real, não mais pensou em seu benfeitor. Durante mais dois anos José ficou como prisioneiro. A esperança que se lhe acendera no coração, gradualmente morrera; e a todas as outras provações acrescentou-se a amargura da ingratidão.

Uma mão divina, porém, estava prestes a abrir as portas da prisão. O rei do Egito teve em uma noite dois sonhos, que indicavam aparentemente o mesmo acontecimento, e pareciam prefigurar alguma grande calamidade. Não podia determinar sua significação, e no entanto continuavam a perturbar o seu espírito. Os magos e sábios de seu reino não puderam dar a interpretação. A perplexidade e angústia do rei aumentavam, e o terror espalhou-se por seu palácio. A agitação geral evocou à mente do copeiro-mor as circunstâncias de seu próprio sonho; com este veio a lembrança de José, e uma compunção de remorso pelo seu esquecimento e ingratidão. Ele informou de pronto ao rei como o seu sonho e o do padeiro-mor foram interpretados por um cativo hebreu, e como se cumpriram as predições.

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Foi humilhante a Faraó volver dos mágicos e sábios de seu reino para consultar um estrangeiro e escravo; mas estava pronto para aceitar o mais humilde serviço caso pudesse seu espírito perturbado encontrar alívio. Mandaram chamar imediatamente a José; tirou suas roupas de prisioneiro, barbeou-se, pois o cabelo crescera muito durante o tempo de opróbrio e reclusão. Foi então conduzido à presença do rei.

"E Faraó disse a José: Eu sonhei um sonho, e ninguém há que o interprete; mas de ti ouvi dizer que quando ouves um sonho o interpretas. E respondeu José a Faraó, dizendo: Isso não está em mim; Deus dará resposta de paz a Faraó." Gên. 41:15. A resposta de José ao rei, revela sua humildade e fé em Deus. Modestamente não se atribui a honra de possuir em si sabedoria superior. "Isso não está em mim." Gên. 41:16. Unicamente Deus pode explicar estes mistérios. Faraó então se põe a relatar os sonhos: "Estava eu em pé na praia do rio, e eis que subiam do rio sete vacas gordas de carne e formosas à vista, e pastavam no prado. E eis que outras sete vacas subiam após estas, muito feias à vista, e magras de carne; não tenho visto outras tais, quanto à fealdade, em toda a terra do Egito. E as vacas magras e feias comiam as primeiras sete vacas gordas; e entraram em suas entranhas, mas não se conhecia que houvessem entrado em suas entranhas; porque o seu parecer era feio como no princípio. Então acordei. Depois vi em meu sonho, e eis que dum mesmo pé subiam sete espigas cheias e boas; e eis que sete espigas secas, miúdas e queimadas do vento oriental, brotavam após elas. E as sete espigas miúdas devoravam as sete espigas boas. E eu disse-o aos magos, mas ninguém houve que mo interpretasse." Gên. 41:17-24. "O sonho de Faraó é um só", disse José. "O que Deus há de fazer, notificou-o a Faraó." Gên. 41:25. Haveria sete anos de grande abundância. Campos e hortas produziriam mais abundantemente do que nunca haviam produzido. E este período seria seguido de sete anos de fome. "E não será conhecida a abundância na terra, por causa daquela fome que haverá depois; porquanto será gravíssima." Gên. 41:31. A repetição do sonho era prova tanto da certeza como da proximidade do cumprimento. "Portanto", continuou ele, "Faraó se proveja agora dum varão entendido e sábio, e o ponha sobre a terra do Egito. Faça isso Faraó, e ponha governadores sobre a terra, e tome a quinta parte da terra do Egito nos sete anos

Continuar: parte 5 de 5