Patriarcas e Profetas
pela vingança dos irmãos da mesma, pela…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Todavia, tinha ainda o príncipe do mal um objetivo de maior alcance ao manifestar seus prodígios por meio dos magos. Ele bem sabia que Moisés, quebrando o jugo do cativeiro de sobre os filhos de Israel, prefigurava Cristo, que devia destruir o reino
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do pecado na família humana. Sabia que quando Cristo aparecesse, grandes milagres seriam operados como prova para o mundo de que Deus O enviara. Satanás temia perder o seu poder. Contrafazendo a obra de Deus, efetuada por meio de Moisés, esperava não somente evitar o livramento de Israel, mas exercer influência através dos séculos futuros, para destruir a fé nos milagres de Cristo. Satanás está constantemente procurando contrafazer a obra de Cristo, e estabelecer seu poder e pretensões. Leva os homens a explicar os milagres de Cristo, fazendo parecer que são o resultado da perícia e poder humanos. Destrói assim em muitas mentes a fé em Cristo como o Filho de Deus, e os leva a rejeitar os graciosos oferecimentos de misericórdia pelo plano da redenção. Foi determinado a Moisés e Arão que visitassem a margem do rio na manhã seguinte, aonde o rei costumava dirigir-se. Sendo o transbordamento do Nilo a fonte dos alimentos e riqueza para todo o Egito, era o rio adorado como um deus, e o rei ia para ali diariamente a fim de render as suas devoções. Ali os dois irmãos repetiram-lhe de novo a mensagem, e então estenderam a vara e feriram a água. A corrente sagrada mudou-se em sangue, os peixes morreram, e o rio exalou mau cheiro. A água nas casas, o suprimento preservado nas cisternas, foram semelhantemente transformados em sangue. Mas "os magos do Egito também fizeram o mesmo com os seus encantamentos", e "virou-se Faraó, e foi para sua casa; nem ainda nisto pôs seu coração". Êxo. 7:11 e 23. Durante sete dias continuou a praga, mas sem resultado.
De novo foi estendida a vara sobre as águas, e rãs subiram do rio, e espalharam-se pela terra. Percorriam as casas, apoderavam-se dos quartos de dormir, e mesmo dos fornos e amassadeiras. A rã era considerada sagrada pelos egípcios, e não as destruíam; mas tal praga viscosa se tornara agora intolerável. Enxameavam mesmo no palácio dos Faraós, e o rei estava ansioso por vê-las removidas. Tinha parecido que os magos haviam produzido rãs, mas eles não as podiam remover. Vendo isto, Faraó ficou algo humilhado. Mandou chamar Moisés e Arão, e disse: "Rogai ao Senhor que tire as rãs de mim e do meu povo; depois deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao Senhor." Êxo. 8:8. Depois de fazerem lembrar ao rei a sua anterior jactância, pediram-lhe designar um tempo em que devessem orar para a remoção da praga. Ele marcou o dia seguinte, esperando intimamente que no intervalo as rãs desaparecessem por si, salvando-o assim da
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amarga humilhação de sujeitar-se ao Deus de Israel. A praga, entretanto, continuou até o tempo especificado, em que por todo o Egito as rãs morreram; mas seus corpos deteriorados, que haviam ficado, poluíam a atmosfera.
O Senhor poderia tê-las feito voltar ao pó em um instante; mas não fez isto para que não acontecesse depois de sua remoção declararem o rei e seu povo ser aquilo o resultado da feitiçaria ou encantamento, como a obra dos magos. As rãs morreram, e foram então reunidas em montes. Nisto o rei e todo o Egito tiveram uma prova, a qual sua vã filosofia não podia contradizer, de que esta obra não fora cumprida pela magia, antes era um juízo do Deus do Céu.
"Vendo Faraó que havia descanso, agravou o seu coração." Por ordem de Deus Arão estendeu a mão, e o pó da terra se tornou em piolhos por toda a terra do Egito. Faraó chamou os magos para fazerem o mesmo, mas não puderam. Mostrou-se assim ser a obra de Deus superior à de Satanás. Os próprios magos reconheceram: "Isto é o dedo de Deus." Êxo. 8:15 e 19. Mas o rei ainda não se abalou. Ineficazes o apelo e a advertência, outro juízo foi infligido. O tempo de sua ocorrência foi predito, para que se não pudesse dizer ter vindo por acaso. Moscas encheram as casas e enxamearam por sobre a terra, de modo que "a terra foi corrompida destes enxames". Estas moscas eram grandes e venenosas; sua picada era extremamente dolorosa ao homem e aos animais. Como fora predito, esta visitação não se estendeu à terra de Gósen.
Faraó ofereceu então aos israelitas permissão para sacrificarem no Egito; mas recusaram-se a aceitar tais condições. "Não convém que façamos assim", disse Moisés, "por que sacrificaríamos ao Senhor nosso Deus a abominação dos egípcios; eis que se sacrificássemos a abominação dos egípcios perante os seus olhos, não nos apedrejariam eles?" Os animais que os hebreus deviam sacrificar, estavam entre os que eram considerados sagrados pelos egípcios; e tal era a reverência em que eram tidas essas criaturas que matar uma delas mesmo acidentalmente, era um crime punível com a morte. Seria impossível aos hebreus prestarem culto no Egito sem escandalizar os seus senhores. Moisés novamente propôs irem caminho de três dias ao deserto. O rei consentiu, e pediu que os servos de Deus intercedessem para que a praga fosse removida. Prometeram fazer isto, mas o advertiram quanto a tratar enganosamente com eles. A praga
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cessou, mas o coração do rei se havia endurecido pela rebelião persistente, e ainda recusou-se a ceder.
Seguiu-se um golpe mais terrível: peste em todo o gado do Egito que estava nos campos. Tanto os animais sagrados como as bestas de carga - vacas, bois e ovelhas, cavalos, camelos e jumentos, foram destruídos. Havia sido distintamente declarado que os hebreus seriam isentos; e Faraó, enviando mensageiros à casa dos israelitas, constatou a veracidade de tal declaração de Moisés. "Do gado dos filhos de Israel não morreu nenhum." Ainda o rei se achava obstinado. Ordenou-se em seguida a Moisés que tomasse cinzas do forno, e as espalhasse "para o céu diante dos olhos de Faraó". Este ato era profundamente significativo. Quatrocentos anos antes, mostrara Deus a Abraão a opressão futura de Seu povo, sob a figura de uma fornalha fumegante e uma tocha de fogo. Declarara que mandaria juízos sobre os seus opressores, e tiraria os cativos com grande riqueza. No Egito, Israel durante muito tempo desfalecia na fornalha da aflição. Este ato de Moisés era-lhes segurança de que Deus Se lembrava de Seu concerto, e de que era vindo o tempo para o seu livramento.
Ao ser a cinza espalhada para o céu, as minúsculas partículas espalharam-se por toda a terra do Egito, e onde quer que caíam produziam sarna, que arrebentava "em úlceras nos homens e no gado". Os sacerdotes e magos até ali haviam incentivado Faraó em sua obstinação, mas agora viera um juízo que atingia mesmo a eles. Acometidos de uma moléstia repugnante e dolorosa, tornando-se seu alardeado poder apenas desprezível, não mais podiam contender contra o Deus de Israel. A nação inteira foi levada a ver a loucura de confiar nos magos, quando não eram eles capazes de proteger mesmo sua própria pessoa.
Ainda o coração de Faraó se tornou mais endurecido. E então o Senhor lhe enviou uma mensagem, declarando: "Esta vez enviarei todas as Minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibais que não há outro como Eu em toda a terra. ... Mas deveras para isto te mantive, para mostrar o Meu poder em ti." Não que Deus lhe tivesse dado existência para este fim; mas Sua providência encaminhara os acontecimentos de modo a colocá-lo no trono, no próprio tempo destinado ao libertamento de Israel. Embora este altivo Pág. 268
tirano houvesse pelos seus crimes se privado das misericórdias de Deus, todavia a vida lhe fora preservada para que mediante sua teimosia, o Senhor pudesse manifestar Seus prodígios na terra do Egito. A disposição nos acontecimentos é da providência de Deus. Ele poderia ter posto no trono um rei mais misericordioso, que não tivesse ousado resistir às poderosas manifestações do poder divino. Mas nesse caso os propósitos do Senhor não se teriam cumprido. Foi permitido que Seu povo experimentasse a esmagadora crueldade dos egípcios, para que não se enganassem com relação à influência aviltante da idolatria. Em Seu trato com Faraó, o Senhor manifestou Seu ódio à idolatria, e Sua decisão de punir a crueldade e a opressão.
Deus havia declarado com referência a Faraó: "Eu endurecerei o seu coração, para que não deixe ir o povo." Êxo. 4:21. Não houve o exercício de poder sobrenatural para endurecer o coração do rei. Deus deu a Faraó a mais notável prova do poder divino; mas o rei obstinadamente se recusou a atender à luz. Cada manifestação do poder infinito, por ele rejeitada, tornava-o mais resoluto em sua rebelião. As sementes de rebelião que semeara quando rejeitou o primeiro prodígio, produziram a sua colheita. Como ele continuasse a aventurar-se em sua conduta, indo de um grau de teimosia a outro, seu coração se tornou mais e mais endurecido, até que ele foi chamado para olhar o rosto frio e morto dos primogênitos.
Deus fala aos homens por meio de Seus servos, dando avisos e advertências, e repreendendo o pecado. Dá a cada um oportunidade para corrigir seus erros antes que eles se fixem no caráter; mas, se alguém recusa ser corrigido, o poder divino não intervém a fim de contrariar a tendência de sua ação. Essa pessoa acha mais fácil repetir a mesma conduta. Está a endurecer o coração contra a influência do Espírito Santo. Nova rejeição da luz a coloca onde uma influência muito mais forte será ineficaz para produzir uma impressão duradoura.
Aquele que cedeu uma vez à tentação, cederá mais facilmente segunda vez. Cada repetição do pecado diminui seu poder de resistência, cega os seus olhos, e suprime a convicção. Cada semente de condescendência, que é semeada, produzirá fruto. Deus não opera milagre para impedir a ceifa. "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará." Gál. 6:7. Aquele que manifesta dura incredulidade, uma obstinada indiferença à verdade divina, não está senão a colher o fruto do que ele próprio semeou. Pág. 269
É assim que multidões vêm a escutar, com rígida indiferença, verdades que outrora lhes abalavam a própria alma. Semearam negligência e resistência à verdade, e tal é a colheita que fazem. Aqueles que estão a acalmar a consciência culpada, com o pensamento de que podem modificar um caminho de males quando o desejarem, de que podem ter em pouca conta os convites de misericórdia, e ser contudo repetidas vezes impressionados, seguem tal caminho com perigo para si. Acham que depois de lançarem toda a sua influência ao lado do grande rebelde, em momento de maior angústia, quando o perigo os rodeia, mudarão de chefes. Mas isto não se faz tão facilmente. A experiência, a educação, a disciplina de uma vida de satisfação pecaminosa, tão completamente modelaram o caráter que não podem então receber a imagem de Jesus. Se nenhuma luz lhes houvesse mostrado o caminho, o caso teria sido diferente. A misericórdia poderia interpor-se, e dar-lhes oportunidade de aceitar suas providências; mas, depois que durante muito tempo a luz foi rejeitada e desprezada, será enfim retirada.
Faraó foi em seguida ameaçado com uma praga de saraiva, dando-se-lhe o aviso: "Agora pois envia, recolhe o teu gado e tudo o que tens no campo; todo o homem e animal, que for achado no campo, e não for recolhido a casa, a saraiva cairá sobre eles, e morrerão." A chuva ou a saraiva não eram comuns no Egito, e uma tempestade como a que fora predita nunca havia sido testemunhada. A notícia espalhou-se rapidamente, e todos os que creram na palavra do Senhor recolheram seu gado, enquanto os que desdenharam o aviso o deixaram no campo. Assim, em meio do juízo, ostentou-se a misericórdia de Deus, o povo foi provado, e mostrou-se quantos foram levados a temer a Deus pela manifestação de Seu poder.
A tempestade veio conforme fora predita: trovão e saraiva, e fogo misturado com a mesma, "mui grave, qual nunca houve em toda a terra do Egito, desde que veio a ser uma nação. E a saraiva feriu em toda a terra do Egito, tudo quanto havia no campo, desde os homens até os animais; também a saraiva feriu a toda a erva do campo, e quebrou todas as árvores do campo". A ruína e a desolação assinalavam o caminho do anjo destruidor. Unicamente a terra de Gósen foi poupada. Ficou demonstrado aos egípcios que a Terra está sob a direção do Deus vivo, que os elementos obedecem a Sua voz, e que a única segurança está na obediência a Ele.
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Todo o Egito tremeu ante a terrível visitação do juízo divino. Faraó apressadamente mandou chamar os dois irmãos e clamou: "Esta vez pequei; o Senhor é justo, mas eu e o meu povo ímpios. Orai ao Senhor (pois que basta) para que não haja mais trovões de Deus nem saraiva; e eu vos deixarei ir, e não ficareis mais aqui." A resposta foi: "Em saindo da cidade, estenderei minhas mãos ao Senhor; os trovões cessarão, e não haverá mais saraiva; para que saibas que a terra é do Senhor. Todavia, quanto a ti e a teus servos, eu sei que ainda não temereis diante do Senhor Deus." Moisés saiba que a contenda não estava finalizada. As confissões e promessas de Faraó não eram o resultado de qualquer mudança radical em seu espírito ou coração, mas foram extorquidas dele pelo terror e angústia. Moisés prometeu, entretanto, atender-lhe o pedido; pois não lhe daria ocasião para mais obstinação. O profeta saiu, sem tomar em consideração a fúria da tempestade, e Faraó e todo o seu exército foram testemunhas do poder de Jeová para preservar Seu mensageiro. Tendo saído fora da cidade, Moisés "estendeu suas mãos ao Senhor; e cessaram os trovões e a saraiva, e a chuva não caiu mais sobre a terra". Mas, mal se refez o rei de seus temores, voltou seu coração à perversidade. Então disse o Senhor a Moisés: "Entra a Faraó, porque tenho agravado o seu coração, e o coração de seus servos, para fazer estes Meus sinais no meio dele. E para que contes aos ouvidos de teus filhos, e dos filhos de teus filhos, as coisas que obrei no Egito, e os Meus sinais, que tenho feito entre eles; para que saibais que Eu sou o Senhor." O Senhor estava a manifestar o Seu poder, para confirmar a fé de Israel nEle, como o único Deus vivo e verdadeiro. Daria prova inequívoca da diferença que estabelecera entre eles e os egípcios, e faria com que todas as nações soubessem que os hebreus, a quem tinham desprezado e oprimido, estavam sob a proteção do Deus do Céu. Moisés advertiu o rei de que se ainda permanecesse obstinado, seria enviada uma praga de gafanhotos, que cobriria a face da terra, e comeria toda a coisa verde que restasse; encheriam as casas, mesmo o palácio; tal flagelo, disse ele, seria "como nunca viram teus pais, nem os pais dos teus pais, desde os dias em que eles foram sobre a terra até o dia de hoje". Pág. 271
Os conselheiros de Faraó ficaram estarrecidos. A nação tinha experimentado grande perda com a morte do gado. Muitas pessoas haviam sido mortas pela saraiva. As florestas estavam derribadas, e as colheitas destruídas. Estavam perdendo rapidamente tudo que havia sido ganho com o trabalho dos hebreus. Toda a terra estava ameaçada de morrer de fome. Príncipes e cortesãos acercavam-se do rei, e com ira pediam: "Até quando este nos há de ser por laço? deixa ir os homens, para que sirvam ao Senhor seu Deus; ainda não sabes que o Egito está destruído?" Moisés e Arão foram de novo convocados, e o rei lhes disse: "Ide, servi ao Senhor vosso Deus. Quais são os que hão de ir?"
A resposta foi: "Havemos de ir com os nossos meninos, e com os nossos velhos; com os nossos filhos, e com as nossas filhas, com as nossas ovelhas, e com os nossos bois havemos de ir; porque festa do Senhor temos."
O rei se encheu de ira. "Seja o Senhor assim convosco", exclamou ele, "como eu vos deixarei ir a vós e a vossos filhos; olhai que há mal diante da vossa face. Não será assim; andai agora vós, varões, e servi ao Senhor; pois isso é o que pedistes. E os lançaram da face de Faraó." Faraó se esforçava por destruir os israelitas pelo trabalho rude; agora, porém, pretendia ter um profundo interesse em seu bem-estar e terno cuidado pelas suas crianças. Seu verdadeiro objetivo era conservar as mulheres e crianças como garantia da volta dos homens.
Moisés estendeu então a vara sobre a terra, e soprou um vento oriental, que trouxe gafanhotos. "Mui gravosos foram; antes destes nunca houve tais gafanhotos, nem depois deles virão outros tais." Encheram o céu até que a terra se escureceu; e devoraram toda a vegetação que restava. Faraó mandou chamar às pressas os profetas, e disse: "Pequei contra o Senhor vosso Deus, e contra vós. Agora, pois, peço-vos que perdoeis o meu pecado somente desta vez, e que oreis ao Senhor vosso Deus que tire de mim somente esta morte." Assim fizeram, e um forte vento ocidental levou os gafanhotos para o Mar Vermelho. O rei ainda persistiu em sua pertinaz resolução. O povo do Egito estava ao ponto do desespero. Os açoites que já haviam caído sobre eles pareciam quase além do que se podia suportar, e estavam cheios de temor pelo futuro. A nação tinha adorado a Faraó como o representante de seu deus; mas muitos
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agora estavam convencidos de que ele se achava opondo-se a um Ser que fez de todas as forças na Natureza ministros de Sua vontade. Os escravos hebreus, tão miraculosamente favorecidos, estavam se tornando confiantes no livramento. Seus maiorais de tarefas não ousavam oprimi-los como até ali haviam feito. Por todo o Egito havia um temor secreto de que a raça escravizada se levantasse e vingasse seus males. Por toda parte homens estavam a indagar, com desalento: o que será depois disto?
Subitamente repousou sobre a terra uma escuridão, tão densa e negra que parecia "trevas que se apalpem". Não somente estava o povo despojado de luz, mas a atmosfera era muito opressiva, de maneira que a respiração era difícil. "Não viu um ao outro, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias; mas todos os filhos de Israel tinham luz em suas habitações." O Sol e a Lua eram objetos de culto para os egípcios; nestas trevas misteriosas o povo e seus deuses foram de modo semelhante atingidos pelo poder que tomara a Si a causa dos escravos. Contudo, por medonho que tivesse sido, este juízo é uma prova da compaixão de Deus e de Sua indisposição para destruir. Ele dava ao povo tempo para refletir e arrepender-se, antes de trazer sobre eles a última e mais terrível das pragas. A segunda praga trouxe rãs sobre a terra do Egito. Êxo. 8:6. As rãs eram consideradas sagradas pelos egípcios, e supunha-se que uma de suas divindades, a deusa Heqa, com cabeça de rã, possuía poder criador. Quando as rãs, como resultado da ordem de Moisés, se multiplicaram a tal ponto que encheram o país de um extremo a outro, os egípcios devem ter perguntado por que Heqa estava afligindo os seus fervorosos adoradores, ao invés de protegê-los. Destarte, os egípcios não somente foram punidos pela segunda praga, mas também supuseram estar sendo cobertos de ignomínia por um de seus deuses (Êxo. 9:3), muitos dos quais representavam poderosos deuses no panteão egípcio. Para mencionar apenas alguns, verificamos que o boi Ápis era dedicado a Ptah, o pai de todos os deuses, e a vaca sagrada a Hator, uma das divindades femininas mais amplamente adoradas na região do Nilo; ao passo que o carneiro representava vários deuses, como Khnemu e Amon, de cabeça de carneiro, que foi o principal deus do Egito no período do Novo Império. Por conseguinte, a doença que matou os animais dedicados a suas divindades revelou aos egípcios a inutilidade dos seus deuses na presença do Deus dos desprezados hebreus. O medo finalmente arrancou de Faraó mais uma concessão. No fim do terceiro dia de trevas, chamou Moisés, e consentiu na partida do povo, contanto que se permitisse ficarem os rebanhos e gado. "Nem uma unha ficará", replicou o resoluto hebreu. "Não sabemos com que havemos de servir ao Senhor, até que cheguemos lá." A ira do rei explodiu desenfreada. "Vai-te de mim", exclamou ele, "guarda-te que não mais vejas o meu rosto; porque no dia em que vires o meu rosto, morrerás."
A resposta foi: "Bem disseste; eu nunca mais verei o teu rosto."
"O varão Moisés era mui grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó, e aos olhos do povo." Moisés era considerado com temor pelos egípcios. O rei não ousava fazer-lhe mal, pois o povo o considerava como o único que tinha poder para remover as pragas. Desejavam que aos israelitas fosse permitido deixar o Egito. Eram o rei e os sacerdotes que se opunham em extremo aos pedidos de Moisés.
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A Páscoa
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Quando o pedido para o livramento de Israel fora pela primeira vez apresentado ao rei do Egito, fizera-se a advertência das mais terríveis pragas. Foi ordenado a Moisés dizer a Faraó: "Assim diz o Senhor: Israel é Meu filho, Meu primogênito. E Eu te tenho dito: Deixa ir o Meu filho, para que Me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir; eis que Eu matarei a teu filho, o teu primogênito." Êxo. 4:22 e 23. Posto que desprezados pelos egípcios, os israelitas haviam sido honrados por Deus, tendo sido separados para serem os depositários de Sua lei. Nas bênçãos e privilégios especiais a eles conferidos, tinham preeminência entre as nações, como tinha o filho primogênito entre seus irmãos. O juízo de que o Egito fora em primeiro lugar advertido, deveria ser o último a ser mandado. Deus é longânimo e cheio de misericórdia. Tem terno cuidado pelos seres formados à Sua imagem. Se a perda das suas colheitas, rebanhos e gado, houvesse levado o Egito ao arrependimento, os filhos não teriam sido atingidos; mas a nação obstinadamente resistiu à ordem divina, e agora o golpe final estava prestes a ser desferido.
A Moisés tinha sido proibido, sob pena de morte, aparecer outra vez à presença de Faraó; mas uma última mensagem da parte de Deus deveria ser proferida ao rebelde rei, e novamente Moisés veio perante ele, com o terrível anúncio: "Assim o Senhor tem dito: À meia-noite Eu sairei pelo meio do Egito; e todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que se assenta com ele sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais. E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, qual nunca houve semelhante e nunca haverá; mas contra todos os filhos de Israel nem ainda um cão moverá a sua língua, desde os homens até aos animais, para que saibais que o Senhor fez
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diferença entre os egípcios e os israelitas. Então todos estes teus servos descerão a mim, e se inclinarão diante de mim, dizendo: Sai tu, e todo o povo que te segue as pisadas; e depois eu sairei." Êxo. 11:4-8.
Antes da execução desta sentença, o Senhor por meio de Moisés deu instruções aos filhos de Israel relativas à partida do Egito, e especialmente para a sua preservação no juízo por vir. Cada família, sozinha ou ligada com outras, deveria matar um cordeiro ou cabrito "sem mácula", e com um molho de hissopo espargir seu sangue "em ambas as ombreiras, e na verga da porta" da casa, para que o anjo destruidor, vindo à meia-noite, não entrasse naquela habitação. Deviam comer a carne, assada, com pão asmo e ervas amargosas, à noite, conforme disse Moisés, com "os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a Páscoa do Senhor". Êxo. 12:1-28.
O Senhor declarou: "Passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e sobre todos os deuses do Egito farei juízos. ... E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo Eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando Eu ferir a terra do Egito." Em comemoração a este grande livramento, uma festa devia ser observada anualmente pelo povo de Israel, em todas as gerações futuras. "Este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo." Ao observarem esta festa nos anos futuros, deviam repetir aos filhos a história deste grande livramento, conforme lhes ordenou Moisés: "Direis: Este é o sacrifício da Páscoa do Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas."
Ademais, os primogênitos tanto de homens como de animais deviam ser do Senhor, podendo ser reavidos apenas por meio de resgate, em reconhecimento de que, quando os primogênitos do Egito pereceram, os de Israel, se bem que graciosamente preservados, estiveram, com justiça, expostos à mesma sorte se não fora o sacrifício expiatório. "Todo o primogênito Meu é", declarou o Senhor; "desde o dia em que feri a todo o primogênito na
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terra do Egito, santifiquei para Mim todo o primogênito em Israel, desde o homem até ao animal: Meus serão." Núm. 3:13. Depois da instituição do culto do tabernáculo, o Senhor escolheu para Si a tribo de Levi para a obra do santuário, em lugar dos primogênitos do povo. "Eles, do meio dos filhos de Israel, Me são dados", disse Ele. "Em lugar... do primogênito de cada um dos filhos de Israel, para Mim os tenho tomado." Núm. 8:16. Exigia-se ainda, entretanto, de todo o povo, em reconhecimento da misericórdia de Deus, pagar certo valor pelo resgate do filho primogênito. Núm. 18:15 e 16. A páscoa devia ser tanto comemorativa como típica, apontando não somente para o livramento do Egito, mas, no futuro, para o maior livramento que Cristo cumpriria libertando Seu povo do cativeiro do pecado. O cordeiro sacrifical representa o "Cordeiro de Deus", em quem se acha nossa única esperança de salvação. Diz o apóstolo: "Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós." I Cor. 5:7. Não bastava que o cordeiro pascal fosse morto, seu sangue devia ser aspergido nas ombreiras; assim os méritos do sangue de Cristo devem ser aplicados à alma. Devemos crer que Ele morreu não somente pelo mundo, mas que morreu por nós individualmente. Devemos tomar para o nosso proveito a virtude do sacrifício expiatório.
O hissopo empregado na aspersão do sangue era símbolo da purificação, assim sendo usado na purificação da lepra e dos que se achavam contaminados pelo contato com cadáveres. Na oração do salmista vê-se também a sua significação: "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve." Sal. 51:7.
O cordeiro devia ser preparado em seu todo, não lhe sendo quebrado nenhum osso; assim, osso algum seria quebrado do Cordeiro de Deus, que por nós devia morrer. Êxo. 12:46; João 19:36. Assim também representava-se a inteireza do sacrifício de Cristo.
A carne devia ser comida. Não basta mesmo que creiamos em Cristo para o perdão dos pecados; devemos pela fé estar recebendo constantemente força e nutrição espiritual dEle, mediante Sua Palavra. Disse Cristo: "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue, tem a vida eterna." E para explicar o que queria dizer, ajuntou: "As palavras que Eu vos disse são espírito e vida." João 6:53, 54 e 63.
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Jesus aceitou a lei de Seu Pai, levou a efeito em Sua vida os princípios da mesma, manifestou-lhe o espírito, e mostrou o seu benéfico poder no coração. Diz João: "O Verbo Se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e verdade." João 1:14. Os seguidores de Cristo devem ser participantes de Sua experiência. Devem receber e assimilar a Palavra de Deus de modo que esta se torne a força impulsora da vida e das ações. Pelo poder de Cristo devem ser transformados à Sua semelhança, e refletir os atributos divinos. Devem comer a carne e beber o sangue do Filho do homem, ou não haverá vida neles. O espírito e a obra de Cristo devem tornar-se o espírito e obra de Seus discípulos.
O cordeiro devia ser comido com ervas amargosas, indicando isto a amargura do cativeiro egípcio. Assim, quando nos alimentamos de Cristo, deve ser com contrição de coração, por causa de nossos pecados. O uso dos pães asmos era também significativo. Era expressamente estipulado na lei da Páscoa, e de maneira igualmente estrita observado pelos judeus, em seu costume, que fermento algum se encontrasse em suas casas durante a festa. De modo semelhante, o fermento do pecado devia ser afastado de todos os que recebessem vida e nutrição de Cristo. Assim Paulo escreve à igreja dos coríntios: "Alimpai-vos pois do fermento velho, para que sejais uma nova massa. ... Porque Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós. Pelo que façamos festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade." I Cor. 5:7 e 8. Antes de obterem liberdade, os escravos deviam mostrar fé no grande livramento prestes a realizar-se. O sinal de sangue devia ser posto em suas casas, e deviam, com as famílias, separar-se dos egípcios e reunir-se dentro de suas próprias habitações. Houvessem os israelitas desrespeitado em qualquer particular as instruções a eles dadas, houvessem negligenciado separar seus filhos dos egípcios, houvessem morto o cordeiro mas deixado de aspergir o sangue nas ombreiras, ou tivesse alguém saído de casa, e não teriam estado livres de perigo. Poderiam honestamente ter crido haver feito tudo quanto era necessário, mas não os teria salvo a sua sinceridade. Todos os que deixassem de atender às instruções do Senhor, perderiam o primogênito pela mão do destruidor. Pág. 279
Pela obediência, o povo devia dar prova de fé. Assim, todos os que esperam ser salvos pelos méritos do sangue de Cristo, devem compenetrar-se de que eles próprios têm algo a fazer para conseguir a salvação. Conquanto seja apenas Cristo que nos pode remir da pena da transgressão, devemos desviar-nos do pecado para a obediência. O homem deve ser salvo pela fé, e não pelas obras; contudo, a fé deve mostrar-se pelas obras. Deus deu Seu Filho para morrer como propiciação pelo pecado, Ele manifestou a luz da verdade, o caminho da vida, Ele concedeu oportunidades, ordenanças e privilégios; e agora o homem deve cooperar com esses instrumentos de salvação; deve apreciar e usar os auxílios que Deus proveu - crer e obedecer a todas as reivindicações divinas. Quando Moisés relatou a Israel as providências tomadas por Deus para o seu livramento, "o povo inclinou-se e adorou". Êxo. 12:27. A alegre esperança de liberdade, o tremendo conhecimento de juízo iminente sobre os opressores, os cuidados e afazeres de que dependia a sua rápida partida, tudo naquela ocasião foi absorvido pela gratidão para com seu Libertador, cheio de graça. Muitos dos egípcios foram levados a reconhecer o Deus dos hebreus como o único verdadeiro Deus, e pediram agora que se lhes permitisse encontrar abrigo nos lares de Israel, quando o anjo destruidor passasse pela terra. Foram alegremente recebidos, e comprometeram-se dali em diante a servir ao Deus de Jacó, e saírem do Egito com Seu povo.
Os israelitas obedeceram às instruções que Deus dera. Rápida e secretamente fizeram os preparativos para a partida. Suas famílias reuniram-se, o cordeiro pascal foi morto, a carne foi assada ao fogo, e preparados os pães asmos e as ervas amargosas. O pai e sacerdote da casa aspergiu o sangue nas ombreiras, e reuniu-se à família dentro de casa. Às pressas e em silêncio comeu-se o cordeiro pascal. Com temor respeitoso, o povo orava e vigiava, estando o coração do primogênito, desde o homem forte até a criancinha, a palpitar de um terror indefinível. Pais e mães cingiam nos braços seus amados primogênitos, ao pensarem no golpe terrível que deveria ser desferido aquela noite. Mas nenhuma habitação de Israel foi visitada pelo anjo distribuidor da morte. O sinal de sangue - sinal de proteção de um Salvador - encontrava-se em suas portas, e o destruidor não entrou. Pág. 280
À meia-noite "havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto". Todo primogênito na terra, "desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere e todos os primogênitos dos animais" (Êxo. 12:29-33), haviam sido feridos pelo destruidor. Por todo o vasto reino do Egito, o orgulho de cada casa fora derribado. Os gritos e prantos dos que lamentavam enchiam o ar. Rei e cortesãos, com rosto lívido e membros a tremerem, ficaram estarrecidos ante o horror que a todos dominava. Faraó lembrou-se de como certa vez exclamara: "Quem é o Senhor, cuja voz Eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o Senhor, nem tão pouco deixarei ir Israel." Agora, estando aquele seu orgulho, que afrontava aos Céus, humilhado até o pó, "chamou a Moisés e Arão, de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide, servi ao Senhor, como tendes dito. Levai convosco vossas ovelhas e vossas vacas, como tendes dito; e ide, e abençoai-me também a mim". Os conselheiros do rei igualmente, e o povo, rogavam aos israelitas que partissem, "apressando-se para lançá-los da terra; porque diziam: Todos seremos mortos".
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O Êxodo
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Com os lombos cingidos, sapatos nos pés, e cajado à mão, o povo de Israel permanecera em pé, silenciosos, com respeitoso temor, mas expectantes, aguardando o mandado real que lhes ordenaria saíssem. Antes que a manhã raiasse, estavam a caminho. Durante as pragas, quando a manifestação do poder de Deus acendera a fé no coração dos escravos, e lançara o terror sobre seus opressores, os israelitas gradualmente se haviam reunido em Gósen; e, apesar da precipitação da sua fuga, algumas disposições já haviam sido tomadas para a necessária organização e direção das multidões em movimento, sendo estas divididas em grupos, sob dirigentes designados para isso. E partiram, "coisa de seiscentos mil de pé, somente de varões, sem contar os meninos. E subiu também com eles uma mistura de gente". Êxo. 12:34-39. Nesta multidão havia não somente os que eram movidos pela fé no Deus de Israel, mas também um número muito maior dos que desejavam somente escapar das pragas, ou que seguiam o andar das multidões em movimento, meramente levados pela agitação e curiosidade. Esta classe foi sempre um estorvo e cilada para Israel. O povo levou também consigo "ovelhas, e vacas, e uma grande quantidade de gado". Isto era propriedade dos israelitas, que nunca venderam suas posses ao rei, como fizeram os egípcios. Jacó e seus filhos haviam trazido consigo rebanhos e gado para o Egito, onde tinham aumentado grandemente. Antes de deixar essa terra, o povo, por instrução de Moisés, exigiu uma recompensa pelo seu trabalho que não fora pago; e os egípcios estavam por demais desejosos de se livrarem da presença deles para que lho recusassem. Os cativos saíram carregados dos despojos de seus opressores.
Naquele dia, completou-se a história revelada a Abraão em visão profética, séculos antes: "Peregrina será a tua semente em terra que não é sua, e servi-los-ão; e afligi-los-ão quatrocentos anos; mas também Eu julgarei a gente, a qual servirão, e depois sairão Pág. 282
com grande fazenda." Gên. 15:13 e 14. Os quatrocentos anos haviam-se cumprido. "E aconteceu naquele mesmo dia que o Senhor tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos." Êxo. 12:40, 41 e 51; 13:19. À sua partida do Egito os israelitas levaram consigo um precioso legado, os ossos de José, que tanto tempo esperaram o cumprimento da promessa de Deus, e que, durante os anos tenebrosos do cativeiro, haviam sido uma lembrança para o livramento de Israel. Em vez de seguirem pelo caminho direto para Canaã, o qual passa através do país dos filisteus, o Senhor determinou a sua rota para o Sul, em direção às praias do Mar Vermelho. "Porque Deus disse: Para que porventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e tornem ao Egito." Êxo. 13:17, 18 e 20-22. Se tivessem tentado passar pela Filístia, seu prosseguimento teria sido impedido; pois os filisteus, considerando-os como escravos escapados aos seus senhores, não teriam hesitado em mover-lhes guerra. Os israelitas estavam mal preparados para um encontro com aquele povo poderoso e aguerrido. Tinham pouco conhecimento de Deus e pequena fé nEle, e ter-se-iam aterrorizado e desanimado. Estavam desarmados, e não tinham o costume de guerrear; seu espírito estava deprimido pelo longo cativeiro, e sentiam-se embaraçados pelas mulheres e crianças, ovelhas e gado. Guiando-os pelo caminho do Mar Vermelho, o Senhor revelou-Se como um Deus de compaixão bem como de discernimento.
"Assim partiram de Sucote, e acamparam em Etã, à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os alumiar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante da face do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite." Diz o salmista: "Estendeu uma nuvem por coberta, e um fogo para os alumiar de noite." Sal. 105:39; I Cor. 10:1 e 2. O estandarte de seu Chefe invisível estava sempre com eles. De dia a nuvem guiava as suas jornadas, ou estendia-se como uma cobertura por sobre a multidão. Servia de proteção contra o calor ardente, e pela sua frescura e umidade proporcionava agradável refrigério no deserto ressequido e sedento. À noite, tornava-se em coluna de fogo, iluminando-lhes o acampamento, e assegurando-lhes constantemente a presença divina. Pág. 283
Em uma das mais belas e consoladoras passagens da profecia de Isaías, faz-se referência à coluna de nuvem e de fogo para representar o cuidado de Deus pelo Seu povo, na grande luta final com os poderes do mal: "Criará o Senhor sobre toda a habitação do Monte de Sião e sobre as suas congregações uma nuvem de dia, e uma fumaça, e um resplendor de fogo chamejante de noite; porque sobre toda a glória haverá proteção. E haverá um tabernáculo para sombra contra o calor do dia, e para refúgio e esconderijo contra a tempestade e contra a chuva." Isa. 4:5 e 6. Através de um caminho assustador e semelhante a um deserto, jornadeavam eles. Já começavam a considerar para onde sua marcha os iria levar; estavam tornando-se cansados com o caminho dificultoso, e em alguns corações começou a surgir receio de perseguição pelos egípcios. Mas a nuvem ia adiante, e a seguiam. E agora determinou o Senhor a Moisés passar ao lado de um desfiladeiro rochoso, e acampar-se junto do mar. Foi-lhe revelado que Faraó os perseguiria, mas que Deus seria honrado em seu livramento.
No Egito espalhou-se a notícia de que os filhos de Israel, em vez de se deterem a adorar no deserto, iam avante em direção ao Mar Vermelho. Os conselheiros de Faraó declararam ao rei que seus cativos tinham fugido, para nunca mais voltar. O povo deplorou-lhes a loucura de atribuírem a morte dos primogênitos ao poder de Deus. Seus grandes homens, refazendo-se dos temores, explicavam as pragas como o resultado de causas naturais. "Por que fizemos isso, havendo deixado ir Israel, para que nos não sirva?" - foi o grito amargurado. Êxo. 14:5-9.
Faraó reuniu suas forças, "seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito", cavaleiros, capitães e infantaria. O próprio rei, acompanhado pelos grandes homens de seu reino, encabeçava o exército de ataque. A fim de conseguirem o favor dos deuses, e assim garantir o êxito de seu empreendimento, os sacerdotes também os acompanharam. O rei estava resolvido a intimidar os israelitas por meio de uma grandiosa ostentação de seu poder. Os egípcios temiam acontecesse que sua submissão forçada ao Deus de Israel os submetesse ao escárnio de outras nações; mas, se agora saíssem com uma grande mostra de poder e trouxessem de volta os fugitivos, salvariam a sua glória, bem como recuperariam os serviços de seus escravos.
Os hebreus estavam acampados ao lado do mar, cujas águas apresentavam uma barreira aparentemente intransponível diante
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deles, enquanto, ao Sul, uma áspera montanha lhes obstruía o avançamento. Subitamente viram a distância a armadura luzente e os carros a moverem-se, pressagiando a guarda avançada de um grande exército. Aproximando-se a força, os exércitos do Egito logo foram vistos em plena perseguição. O terror encheu os corações de Israel. Alguns clamavam ao Senhor, mas a grande maioria ia apressadamente a Moisés com suas queixas: "Não havia sepulcros no Egito, para nos tirares de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, que nos tens tirado do Egito? Não é esta a palavra que te temos falado no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? pois que melhor nos fora servir aos egípcios do que morrermos no deserto." Êxo. 14:10-22. Moisés ficou grandemente perturbado por seu povo manifestar tão pouca fé em Deus, apesar de terem repetidamente testemunhado a manifestação de Seu poder em favor deles. Como poderiam acusá-lo dos perigos e dificuldades de sua situação, quando ele havia seguido o mando expresso de Deus? Na verdade, não havia possibilidade de salvamento, a menos que o próprio Deus interviesse para os livrar; mas, tendo sido levados àquela situação em obediência à instrução divina, Moisés não tinha receio das conseqüências. Sua resposta calma e afirmativa ao povo foi: "Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais vereis para sempre. O Senhor pelejará por vós, e vos calareis."
Não era coisa fácil conservar as hostes de Israel em espera, perante o Senhor. Faltando-lhes disciplina e domínio próprio, tornavam-se violentos e desarrazoados. Esperavam cair imediatamente nas mãos de seus opressores, e seus prantos e lamentações eram altos e intensos. A maravilhosa coluna de nuvem tinha sido seguida como sinal de Deus, para prosseguirem; mas agora entre si discutiam se acaso não poderia ela prefigurar alguma grande calamidade; pois que não os havia a mesma conduzido pelo lado errado da montanha, para um caminho intransitável? Assim o anjo de Deus pareceu às suas iludidas mentes como o prenúncio da desgraça.
Agora, porém, que o exército egípcio se aproximava, esperando deles fazer fácil presa, a coluna de nuvem levantou-se majestosamente para o céu, passou sobre os israelitas, e desceu entre eles e os exércitos do Egito. Um muro de trevas se interpôs
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entre perseguidos e perseguidores. Os egípcios não mais puderam divisar o acampamento dos hebreus, e foram obrigados a parar. Mas, intensificando-se as trevas da noite, o muro de nuvem se tornou uma grande luz para os hebreus, inundando o acampamento todo de claridade. Então a esperança voltou aos corações de Israel. E Moisés alçou a voz ao Senhor. "Então disse o Senhor a Moisés: por que clamas a Mim? dize aos filhos de Israel que marchem. E tu, levanta a tua vara, e estende a tua mão sobre o mar, e fende-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em seco."
O salmista, descrevendo a passagem do mar por Israel, cantou: "Pelo mar foi Teu caminho, e Tuas veredas pelas grandes águas; e as Tuas pegadas não se conheceram. Guiaste o Teu povo, como a um rebanho, pela mão de Moisés e de Arão." Sal. 77:19 e 20. Estendendo Moisés a vara, as águas se dividiram, e Israel entrou para o meio do mar, pisando em terra enxuta, enquanto as águas ficavam de cada lado como um muro. A luz da coluna de fogo de Deus resplandecia nas ondas encimadas de espuma e iluminava o caminho que era talhado como um sulco enorme através das águas do mar, e se perdia na obscuridade da praia oposta.
"Os egípcios seguiram-nos e entraram atrás deles todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até o meio do mar. E aconteceu que, na vigília daquela manhã, o Senhor, na coluna do fogo e da nuvem, viu o campo dos egípcios; e alvorotou o campo dos egípcios." Êxo. 14:23 e 24. A nuvem misteriosa transformou-se em uma coluna de fogo ante seus olhos espavoridos. Os trovões rimbombaram, chamejaram os relâmpagos. "Grossas nuvens se desfizeram em água; os céus retumbaram; as Tuas frechas correram de uma para outra parte. A voz do Teu trovão repercutiu-se nos ares; os relâmpagos alumiaram o mundo; a terra se abalou e tremeu". Sal. 77:17 e 18. Os egípcios ficaram tomados de confusão e espanto. Em meio da fúria dos elementos, na qual ouviam a voz de um Deus irado, esforçaram-se por voltar pelo mesmo caminho, e fugir para a praia que haviam deixado. Moisés, porém, estendeu a vara, e as águas acumuladas, sibilando, rugindo, e ávidas de sua presa, uniram-se violentamente, e tragaram o exército egípcio em suas negras profundidades. Quando rompeu a manhã, esta revelou às multidões de Israel tudo que restava do seu poderoso adversário: os corpos, vestidos de malha, arremessados à praia. Do mais terrível perigo Pág. 288
restara um completo livramento. Aquela vasta e indefesa multidão - escravos não acostumados à batalha, mulheres, crianças e gado, com o mar diante de si, e os poderosos exércitos do Egito fazendo pressão na retaguarda - vira seu caminho aberto através das águas e os inimigos submersos no momento do esperado triunfo. Apenas Jeová lhes trouxera livramento, e para Ele volveram os corações com gratidão e fé. Sua emoção encontrou expressão em cânticos de louvor. O Espírito de Deus repousou sobre Moisés, que dirigiu o povo em uma antífona triunfante de ações de graças, a primeira e uma das mais sublimes que pelo homem são conhecidas. "Cantarei ao Senhor, porque sumamente Se exaltou;
Lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro.
O Senhor é a minha força, e o meu cântico;
Ele me foi por Salvação;
Este é o meu Deus, portanto Lhe farei uma habitação;
Ele é o Deus de meu pai, por isso O exaltarei.
O Senhor é varão de guerra;
O Senhor é o Seu nome.
Lançou no mar os carros de Faraó e o seu exército;
E os seus escolhidos príncipes afogaram-se no Mar Vermelho. Os abismos os cobriram;
Desceram às profundezas como pedra.
A Tua destra, ó Senhor, se tem glorificado em potência; A Tua destra, ó Senhor, tem despedaçado o inimigo...
Ó Senhor, quem é como Tu entre os deuses?
Quem é como Tu glorificado em santidade,
Terrível em louvores, obrando maravilhas ? ...
Tu, com a Tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; Com a Tua força o levaste à habitação da Tua santidade. Os povos o ouvirão, eles estremecerão. ...
Espanto e pavor cairá sobre eles;
Pela grandeza do Teu braço emudecerão como pedra; Até que o Teu povo haja passado, ó Senhor,
Até que passe este povo que adquiriste.
Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da Tua herança, No lugar que Tu, ó Senhor, aparelhaste para a Tua habitação." Êxo. 15:1-17.
Semelhante à voz do grande abismo, surgiu das vastas hostes de Israel aquela sublime tributação de louvor. Deram-lhe início
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as mulheres de Israel, indo à frente Miriã, irmã de Moisés, ao saírem elas com tamboril e danças. Longe, por sobre o deserto e o mar, repercutia o festivo estribilho, e as montanhas ecoavam as palavras de seu louvor - "Cantai ao Senhor, porque sumamente Se exaltou". Este cântico e o grande livramento que ele comemora, produziram uma impressão que nunca se dissiparia da memória do povo hebreu. De século em século era repercutido pelos profetas e cantores de Israel, testificando que Jeová é a força e livramento daqueles que nEle confiam. Aquele cântico não pertence ao povo judeu unicamente. Ele aponta, no futuro, a destruição de todos os adversários da justiça, e a vitória final do Israel de Deus. O profeta de Patmos vê a multidão vestida de branco, dos que "saíram vitoriosos", em pé sobre o "mar de vidro misturado com fogo", tendo as "harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro". Apoc. 15:2 e 3. "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá glória, por amor da Tua benignidade e da Tua verdade." Sal. 115:1. Tal era o espírito que penetrava o cântico do livramento de Israel, e é o espírito que deveria habitar no coração de todos os que amam e temem a Deus. Libertando nossas almas do cativeiro do pecado, Deus operou para nós um livramento maior do que o dos hebreus no Mar Vermelho. Como a hoste dos hebreus, devemos louvar ao Senhor com o coração, com a alma, e com a voz, pelas Suas maravilhosas obras aos filhos dos homens. Aqueles que meditam nas grandes bênçãos de Deus, e não se esquecem de Suas menores dádivas, cingir-se-ão de alegria, e entoarão sinceros hinos ao Senhor. As bênçãos diárias que recebemos das mãos de Deus, e acima de tudo, a morte de Jesus para trazer a felicidade e o Céu ao nosso alcance, devem ser objeto de gratidão constante. Que compaixão, que amor incomparável, mostrou-nos Deus, a nós pecadores perdidos, ligando-nos consigo, para que Lhe sejamos um tesouro particular! Que sacrifício foi feito por nosso Redentor, para que possamos ser chamados filhos de Deus! Devemos louvar a Deus pela bem-aventurada esperança que nos expõe o grande plano da redenção; devemos louvá-Lo pela herança celestial, e por Suas ricas promessas; louvá-Lo pelo fato de que Jesus vive para interceder por nós. "Aquele que oferece sacrifício de louvor", diz o Criador, "Me glorificará." Sal. 50:23. Todos os habitantes do Céu se unem a louvar a Deus. Aprendamos o cântico dos anjos agora, para que o possamos entoar quando nos unirmos a suas fileiras
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resplendentes. Digamos com o salmista: "Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus enquanto viver." Sal. 146:2. "Louvem-Te a Ti, ó Deus, os povos; louvem-Te os povos todos." Sal. 67:5.
Deus, em Sua providência, trouxe os hebreus ao aperto das montanhas, diante do mar, para que pudesse manifestar Seu poder no livramento deles, e humilhar de maneira extraordinária o orgulho de seus opressores. Ele os poderia ter salvo de qualquer outro modo, mas escolheu este, a fim de lhes provar a fé e fortalecer a confiança nEle. O povo estava cansado e aterrorizado; todavia, se se tivessem conservado para trás quando Moisés lhes ordenou avançar, Deus nunca lhes haveria aberto o caminho. Foi "pela fé" que "passaram o Mar Vermelho, como por terra seca". Heb. 11:29. Descendo em marcha para a própria água, mostraram que acreditavam na palavra de Deus, conforme fora proferida por Moisés. Fizeram tudo que estava em seu poder, e então o Poderoso de Israel dividiu o mar a fim de preparar um caminho para os seus pés.
A grande lição ali ensinada é para todos os tempos. Freqüentemente a vida cristã é assediada de perigos, e o dever parece difícil de cumprir-se. A imaginação desenha uma ruína iminente perante nós, e, atrás, o cativeiro ou a morte. Contudo, a voz de Deus fala claramente: "Avante!" Devemos obedecer a esta ordem mesmo que nossos olhares não possam penetrar nas trevas, e sintamos as frias vagas em redor de nossos pés. Os obstáculos que embaraçam o nosso progresso nunca desaparecerão diante de um espírito que se detém ou duvida. Aqueles que adiam a obediência até que toda a sombra da incerteza desapareça, e não fique perigo algum de fracasso ou derrota, nunca absolutamente obedecerão. A incredulidade fala ao nosso ouvido: "Esperemos até que os impedimentos sejam removidos, e possamos ver claramente nosso caminho"; mas a fé corajosamente insiste em avançar, esperando tudo, em tudo crendo.
A nuvem que era uma grande parede de trevas para os egípcios, para os hebreus era uma grande inundação de luz, iluminando o acampamento todo, e derramando todo o brilho no caminho diante deles. Assim, o trato da Providência traz aos incrédulos trevas e desespero, enquanto à alma confiante é repleta de luz e paz. A senda por onde Deus guia, pode estender-se através do deserto ou do mar, mas é um caminho seguro.
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Do Mar Vermelho ao Sinai
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Do Mar Vermelho as tribos de Israel puseram-se novamente a viajar, guiadas pela coluna de nuvem. O cenário em redor deles era o mais impressionante - montanhas áridas, de aspecto desolador, planícies estéreis, e o mar estendendo-se até ao longe, com as praias juncadas dos corpos de seus inimigos; estavam, contudo, cheios de alegria, conscientes de sua liberdade, e silenciara todo pensamento de descontentamento.