Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 4 de 9 · parte 4/4

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Patriarcas e Profetas

pela vingança dos irmãos da mesma, pela…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

para o serviço de Deus; e agora, sendo que o objeto em vista era a glória de Deus, e também porque tinham grande necessidade de um lugar de culto, poderia o povo concluir que estariam justificados trabalhando naquela construção ao sábado. Para os guardar de tal erro, foi feita uma advertência. Mesmo a santidade e urgência daquela obra especial para Deus não os deviam levar a infringir o Seu santo dia de repouso.

Dali em diante o povo seria honrado com a presença permanente de seu Rei. "Habitarei no meio dos filhos de Israel, e lhes serei por Deus", "para que por Minha glória sejam santificados" (Êxo. 29:45 e 43), foi a segurança dada a Moisés. Como símbolo da autoridade de Deus, e incorporação de Sua vontade, foi entregue a Moisés uma cópia do Decálogo gravada pelo dedo do próprio Deus em duas tábuas de pedra (Deut. 9:10; Êxo. 32:15 e 16), para que, de maneira sagrada, fosse encerrada no santuário, o qual, depois de feito, deveria ser o centro visível do culto da nação. De uma raça de escravos os israelitas haviam sido exaltados acima de todos os povos, para serem o tesouro peculiar do Rei dos reis. Deus os separara do mundo a fim de que lhes pudesse confiar um sagrado depósito. Deles fizera os guardas de Sua lei, e propunha-Se, por meio deles, conservar entre os homens o Seu conhecimento. Assim a luz do Céu resplandeceria a um mundo rodeado de trevas, e ouvir-se-ia uma voz apelando para todos os povos para voltarem de sua idolatria a fim de servirem ao Deus vivo. Se os israelitas fossem fiéis ao seu encargo, tornar-se-iam um poder no mundo. Deus seria a sua defesa, e Ele os elevaria acima de todas as outras nações. Sua luz e verdade seriam reveladas por meio deles, e achar-se-iam sob o Seu governo sábio e santo, como um exemplo da superioridade de Seu culto sobre toda a forma de idolatria.

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Idolatria no Sinai

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A ausência de Moisés foi um tempo de espera e apreensão para Israel. O povo sabia que ele subira ao monte com Josué, e havia entrado na nuvem de densas trevas que podia ser vista da planície abaixo, repousando sobre o pico da montanha, iluminado de quando em quando pelos relâmpagos da presença divina. Esperavam ansiosamente a sua volta. Acostumados como tinham estado no Egito com as representações materiais da divindade, fora-lhes difícil confiar em um ser invisível, e tinham vindo a depender de Moisés para lhes sustentar a fé. Agora ele lhes fora tirado. Dia após dia, semana após semana passavam-se, e ainda ele não voltava. Embora a nuvem ainda estivesse à vista, parecia a muitos no acampamento que seu chefe deles desertara, ou que fora consumido pelo fogo devorador. Durante este período de espera, houve tempo para meditarem na lei de Deus que tinham ouvido, e prepararem o coração para receber novas revelações que Ele lhes poderia fazer. Não tinham tempo demasiado para este trabalho; e se houvessem estado assim a procurar uma compreensão mais clara dos mandamentos de Deus, e a humilhar seus corações diante dEle, teriam sido protegidos contra a tentação. Mas não fizeram isto; e logo se tornaram descuidados, desatentos e desordenados. Era este o caso especialmente com a "mistura de gente". Êxo. 12:38. Estavam impacientes por se verem em caminho para a Terra da Promessa, aquela terra que manava leite e mel. Era unicamente sob a condição de obediência que a bela terra lhes fora prometida; mas haviam perdido de vista esse fato. Alguns havia que sugeriam a volta para o Egito; mas a maior parte do povo estava decidida a não mais esperar por Moisés, quer fosse para seguir para Canaã quer fosse para voltar para o Egito. Pág. 316

Sentindo o seu desamparo na ausência do dirigente, voltaram às suas velhas superstições. Aquela "mistura de gente" foram os primeiros a se entregarem à murmuração e impaciência, e foram os chefes da apostasia que se seguiu. Entre as coisas consideradas pelos egípcios como símbolos da divindade, estava o boi ou o bezerro; e foi pela sugestão dos que haviam praticado esta forma de idolatria no Egito, que então foi feito e adorado um bezerro. O povo desejava alguma imagem para representar a Deus, e ir diante deles em lugar de Moisés. Deus não dera espécie alguma de semelhança de Si, e proibia qualquer representação material para tal fim. Os grandes prodígios feitos no Egito e no Mar Vermelho destinavam-se a estabelecer nEle fé, como o Ajudador de Israel, invisível e todo-poderoso, o único verdadeiro Deus. E o desejo de alguma manifestação visível de Sua presença fora satisfeito com a coluna de nuvem e de fogo que guiava os seus exércitos, e pela revelação de Sua glória sobre o Monte Sinai. Mas, com a nuvem de Sua presença ainda diante deles, volveram em seus corações à idolatria do Egito, e representaram a glória do Deus invisível pela semelhança de um bezerro! Na ausência de Moisés a autoridade judiciária fora delegada a Arão, e uma vasta multidão reuniu-se em redor de sua tenda, com o pedido: "Faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu." Êxo. 32:1. A nuvem, disseram eles, que até ali os havia guiado, repousava agora permanentemente sobre o monte; não mais dirigiria as suas viagens. Queriam ter uma imagem em seu lugar; e se, como havia sido sugerido, resolvessem voltar ao Egito, teriam o favor dos egípcios, levando essa imagem diante de si, e reconhecendo-a como seu deus.

O culto de Ápis era acompanhado da mais grosseira licenciosidade, e o relato das Escrituras denota que a adoração ao bezerro levada a efeito pelos israelitas foi acompanhada por toda a devassidão usual no culto pagão. Lemos: "No dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber, e levantou-se para divertir-se." Êxo. 32:6. A palavra hebraica traduzida "divertir-se", significa divertir-se com saltos, cânticos e danças. Estas danças, especialmente entre os egípcios, eram sensuais e indecentes. A palavra traduzida "corrompeu" no versículo seguinte, onde se lê: "O teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu", é a mesma palavra usada em Gênesis 6:11 e 12, onde lemos que a Terra estava corrompida, "porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na Terra". Isto explica a terrível ira do Senhor, e por que Ele desejava consumir o povo de uma vez. Tal ocasião crítica exigia um homem de firmeza, decisão e coragem inflexível; um homem que tivesse a honra de Deus em maior conta do que o favor popular, a segurança pessoal, ou a própria vida. Mas o atual líder de Israel não era deste caráter. Arão, com fraqueza, apresentou objeções ao povo, mas sua vacilação e timidez no momento crítico apenas os tornou mais decididos. O tumulto aumentou. Um frenesi, cego e desarrazoado, pareceu apoderar-se da multidão. Alguns houve que permaneceram fiéis ao seu concerto com Deus; mas a maior parte do povo aderiu à apostasia. Uns poucos que se arriscaram a denunciar a proposta execução da imagem como sendo idolatria, foram atacados e

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rudemente tratados, e na confusão e agitação perderam finalmente a vida. Arão temia pela sua própria segurança; e, em vez de manter-se nobremente pela honra de Deus, rendeu-se às exigências da multidão. Seu primeiro ato foi ordenar que os brincos de ouro fossem reunidos dentre todo o povo e trazidos a ele, esperando que o orgulho os levasse a recusar tal sacrifício. Voluntariamente, porém, cederam os seus ornamentos; e destes fez um bezerro fundido, à imitação dos deuses do Egito. O povo proclamou: "Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito." E Arão vilmente permitiu se fizesse este insulto a Jeová. Fez mais. Vendo com que satisfação o deus de ouro era recebido, construiu um altar diante dele, e fez esta proclamação: "Amanhã será festa ao Senhor." Êxo. 32:4 e 5. O anúncio foi apregoado por trombeteiros, de grupo em grupo pelo acampamento todo. "E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantaram-se a folgar." Êxo. 32:6. Sob o pretexto de realizarem uma "festa ao Senhor", entregaram-se à glutonaria, à folgança licenciosa. Quantas vezes em nossos próprios dias é o amor aos prazeres disfarçado por uma "aparência de piedade"! II Tim 3:5. Uma religião que permite aos homens, enquanto observam os ritos do culto, entregarem-se à satisfação egoísta ou sensual, é tão agradável às multidões hoje como o foi nos dias de Israel. E ainda há Arãos flexíveis, que ao mesmo tempo em que mantêm posições de autoridade na igreja, cederão aos desejos dos que não são consagrados, e assim os induzirão ao pecado. Poucos dias apenas se haviam passado desde que os hebreus fizeram um concerto solene com Deus, para obedecerem à Sua voz. Tinham estado a tremer de terror diante do monte, ouvindo as palavras do Senhor: "Não terás outros deuses diante de Mim." Êxo. 20:3. A glória de Deus ainda pairava sobre o Sinai à vista da congregação; mas desviaram-se e pediram outros deuses. "Fizeram um bezerro em Horebe, e adoraram a imagem fundida. E converteram a Sua glória na figura de um boi." Sal. 106:19 e 20. Como se poderia ter mostrado maior ingratidão ou feito insulto mais ousado Àquele que Se lhes revelara como um pai terno e rei todo-poderoso!

Moisés no monte foi avisado da apostasia no acampamento, e ordenou-se-lhe voltar sem demora. "Vai, desce", foram as

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palavras de Deus; "porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido. E depressa se tem desviado do caminho que Eu lhes tinha ordenado; fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram." Deus poderia ter sustado aquele movimento ao início; mas permitiu que chegasse a este ponto, para que pudesse ensinar a todos uma lição em Seu castigo à traição e apostasia. O concerto de Deus com Seu povo havia sido anulado e Ele declarou a Moisés: "Deixa-Me, que o Meu furor se acenda contra eles, e os consuma; e Eu farei de ti uma grande nação." Êxo. 32:7, 8 e 10. O povo de Israel, especialmente aquela multidão mista, estaria constantemente disposto a rebelar-se contra Deus. Murmurariam também contra seu chefe, e o magoariam pela sua incredulidade e obstinação; e tarefa laboriosa e mui probante seria guiá-los até a Terra Prometida. Seus pecados já os haviam privado do favor de Deus, e a justiça exigia sua destruição. O Senhor, então, propôs-Se a destruí-los e fazer de Moisés uma poderosa nação.

"Deixa-Me, que os consuma", foram as palavras de Deus. Se Deus Se propusera a destruir Israel, quem poderia pleitear em seu favor? Quantos não teriam deixado os pecadores entregues à sua sorte! Quantos não teriam alegremente trocado um quinhão de labutas, encargos e sacrifício, pagos com ingratidão e maledicência, por uma posição de comodidade e honra, quando era o próprio Deus que oferecia o livramento!

Moisés, porém, entrevia bases para esperança onde apenas apareciam desânimo e ira. As palavras de Deus: "Deixa-Me", compreendeu ele não proibirem, mas sim, alentarem a intercessão, implicando que coisa alguma a não serem as orações de Moisés poderia salvar Israel; mas que, sendo assim rogado, Deus pouparia a Seu povo. Ele "suplicou ao Senhor seu Deus, e disse: Ó Senhor, por que se acende o Teu furor contra o Teu povo, que Tu tiraste da terra do Egito, com grande força e com forte mão?" Êxo. 32:11.

Deus dera a entender que renunciara a Seu povo. Falara deles a Moisés como "o teu povo, que fizeste subir do Egito". Mas Moisés, humildemente, não arrogou a si a chefia de Israel. Não eram dele, mas de Deus: "Teu povo, que Tu tiraste... com grande força e com forte mão. Por que", insistiu ele, "hão de falar Pág. 319

os egípcios, dizendo: Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da Terra." Êxo. 32:7, 11 e 12.

Durante os poucos meses depois que Israel partira do Egito, a notícia de seu maravilhoso livramento se espalhara por todas as nações circunvizinhas. O medo, bem como terríveis sinais, repousava sobre os gentios. Todos estavam em observação para verem o que o Deus de Israel faria por Seu povo. Se fossem agora destruídos, seus inimigos triunfariam, e Deus seria desonrado. Os egípcios alegariam que suas acusações eram verdadeiras; em vez de levar Seu povo ao deserto para sacrificar, fizera com que fossem sacrificados. Não tomariam em consideração os pecados de Israel; a destruição do povo ao qual de uma maneira tão assinalada honrara, lançaria a injúria sobre o Seu nome. Quão grande era a responsabilidade que repousava sobre aqueles a quem Deus tão altamente honrara, de fazerem de Seu nome um louvor na Terra! Com que cuidado deviam guardar-se de cometer pecado, atrair os Seus juízos, e fazer com que Seu nome fosse acusado pelos ímpios! Intercedendo Moisés por Israel, desapareceu-lhe a timidez ante seu profundo interesse e amor por aqueles, em favor dos quais havia sido nas mãos de Deus, o meio para se fazerem tão grandes coisas. O Senhor ouviu-lhe os rogos, e atendeu a sua abnegada oração. Deus havia provado o Seu servo; provara-lhe a fidelidade, e o amor por aquele povo ingrato e propenso ao erro, e, nobremente, resistira Moisés à prova. Seu interesse por Israel não se originara em qualquer intuito egoísta. A prosperidade do povo escolhido de Deus era-lhe mais valiosa do que a honra pessoal, mais apreciada do que o privilégio de tornar-se o pai de uma poderosa nação. Deus Se agradava de sua fidelidade, simplicidade de coração e integridade, e confiou-lhe como a um fiel pastor, o grande encargo de guiar Israel à Terra Prometida.

Descendo do monte, Moisés e Josué, trazendo o primeiro "as tábuas do testemunho", ouviram as aclamações e algazarra da multidão exaltada, evidentemente em estado de selvagem alvoroço. Para Josué, soldado, o primeiro pensamento foi um ataque de seus inimigos. "Alarido de guerra há no arraial", disse ele. Mas Moisés julgou com mais exatidão a natureza daquela comoção. O ruído não era de combate, mas de orgia. "Não é alarido dos vitoriosos, nem alarido dos vencidos, mas o alarido dos que cantam eu ouço." Êxo. 32:15, 17 e 18.

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Aproximando-se do acampamento, viram o povo a aclamar e dançar, em redor de seu ídolo. Era uma cena de alvoroço gentílico, imitação das festas idólatras do Egito; mas quão diverso do solene e reverente culto de Deus! Moisés ficou consternado. Acabava de vir da presença da glória de Deus, e, embora tivesse sido avisado do que estava acontecendo, não estava preparado para aquela hedionda mostra de degradação em Israel. Acendeu-se-lhe a ira. Para mostrar aversão pelo crime do povo, arrojou as tábuas de pedra, e elas se quebraram à vista de todos, significando com isto que, assim como haviam quebrantado seu concerto com Deus, assim Deus quebrava Seu concerto com eles. Entrando no acampamento, Moisés passou através das multidões entregues à dissolução, e, lançando mão do ídolo, atirou-o ao fogo. Em seguida reduziu-o a pó, e, havendo-o derramado sobre a torrente que descia do monte, fez com que o povo dela bebesse. Assim se mostrou a completa inutilidade do deus que estiveram a adorar.

O grande líder chamou a seu irmão culposo, e perguntou-lhe severamente: "Que te tem feito este povo, que sobre ele trouxeste tamanho pecado?" Arão esforçou-se por defender-se, alegando o clamor do povo; declarando que, se não se tivesse conformado com seus desejos, teria sido morto. "Não se acenda a ira do meu senhor", disse ele; "tu sabes que este povo é inclinado ao mal; e eles me disseram: faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque não sabemos o que sucedeu a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egito. Então eu lhes disse: Quem tem ouro, arranque-o; e deram-mo, e lancei-o no forno, e saiu este bezerro." Êxo. 32:21-24. Ele queria levar Moisés a crer que se operara um prodígio: que o ouro fora lançado no forno, e por um poder sobrenatural se transformara em um bezerro. Suas desculpas e prevaricações, porém, de nada valeram. Foi com justiça tratado como o principal culpado.

O fato de que Arão fora muito mais abençoado e honrado do que o povo, foi o que tornou o seu pecado tão hediondo. Foi Arão, "o santo do Senhor" (Sal. 106:16), que fizera o ídolo e anunciara a festa. Foi aquele que fora designado como o porta-voz de Moisés, e a respeito de quem o próprio Deus testificou: "Eu sei que ele falará muito bem" (Êxo. 4:14), foi ele que não pôde sustar os idólatras no seu intento de afronta ao Céu. Aquele por intermédio de quem Deus agira ao trazer juízo tanto sobre os egípcios como seus deuses, ouvira inabalável a proclamação ante a

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imagem fundida: "Estes são teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito." Êxo. 32:8. Fora aquele que estivera com Moisés no monte, e ali vira a glória do Senhor, que vira que na manifestação daquela glória nada havia de que se pudesse fazer uma imagem, sim, foi ele que mudou aquela glória na semelhança de um boi. Aquele a quem Deus confiara o governo do povo na ausência de Moisés, foi encontrado a sancionar a sua rebelião. "O Senhor Se irou muito contra Arão para o destruir." Deut. 9:20. Mas em resposta à fervorosa intercessão de Moisés, sua vida foi poupada; e, com arrependimento e humilhação pelo seu grande pecado, foi restabelecido no favor de Deus. Se Arão tivesse tido coragem para se pôr do lado do direito, sem se incomodar com as conseqüências, poderia ter impedido aquela apostasia. Se houvesse inabalavelmente mantido sua fidelidade para com Deus, se houvesse mencionado ao povo os perigos do Sinai, e os tivesse feito lembrar de seu concerto solene com Deus, para obedecerem a Sua lei, ter-se-ia sustado o mal. Mas sua conformação com os desejos do povo, e a calma segurança com que se pôs a executar os seus planos, fizeram com que se atrevessem a ir mais longe, no pecado, do que antes lhes viera à mente fazer. Quando Moisés, voltando ao acampamento, se defrontou com os rebeldes, a severa repreensão e a indignação que ostentou, ao quebrar as tábuas sagradas da lei, foram pelo povo contrastadas com os discursos aprazíveis e o porte fidalgo de seu irmão, e suas simpatias estavam com Arão. Para justificar-se, Arão esforçou-se por tornar o povo responsável pela sua fraqueza de ceder ao seu pedido; mas, apesar disto, estavam cheios de admiração por sua gentileza e paciência. Mas Deus não vê como o homem. O espírito condescendente de Arão e seu desejo de agradar, haviam-lhe cegado os olhos à enormidade do crime que estava a sancionar. Seu procedimento ao emprestar sua influência para o pecado em Israel, custou a vida de milhares. Que contraste entre isto e a conduta de Moisés, o qual, ao mesmo tempo que executava fielmente os juízos de Deus, mostrava que o bem-estar de Israel lhe era mais caro do que a prosperidade, a honra ou a vida.

De todos os pecados que Deus punirá, nenhum é mais ofensivo à Sua vista do que aquele que incentiva o outro a fazer o mal. Deus quer que Seus servos demonstrem sua lealdade, repreendendo fielmente a transgressão, por penoso que seja este ato. Pág. 324

Aqueles que são honrados com uma missão divina, não devem ser fracos e flexíveis servidores de ocasião. Não devem ter como seu objetivo a exaltação própria, nem afastar de si os deveres desagradáveis, mas sim efetuar a obra de Deus com inabalável fidelidade. Posto que Deus houvesse atendido à oração de Moisés poupando a Israel da destruição, a apostasia deste havia de ser castigada de maneira assinalada. A iniqüidade e insubordinação em que Arão permitira caíssem, se não fossem prontamente aniquiladas, passariam de motim à perversidade, e envolveriam a nação em ruína irreparável. Com terrível severidade devia o mal ser excluído. De pé à porta do acampamento, Moisés chamou ao povo: "Quem é do Senhor, venha a mim." Êxo. 32:26. Aqueles que se não haviam unido à apostasia, deviam tomar posição à destra de Moisés; os que eram culpados, mas que se arrependeram, ficariam à esquerda. A ordem foi obedecida. Verificou-se que a tribo de Levi não tomara parte no culto idólatra. Dentre outras tribos grande número havia dos que, embora houvessem pecado, exprimiam agora o seu arrependimento. Mas uma grande multidão, maior parte daquela mistura de gente que instigara a execução do bezerro, obstinadamente persistiu em sua rebelião. Em nome do "Senhor Deus de Israel", Moisés agora ordenou àqueles à sua direita, que se haviam conservado inculpados de idolatria, que cingissem suas espadas e matassem a todos os que persistiam na rebelião. "E caíram do povo aquele dia uns três mil homens." Êxo. 32:28. Sem consideração para com posição, parentesco ou amizade, os cabeças daquele ímpio motim foram eliminados; mas todos os que se arrependeram e se humilharam foram poupados. Aqueles que efetuaram esta terrível obra de juízo, estiveram a agir com autoridade divina, executando a sentença do Rei do Céu. Os homens, em sua cegueira humana, devem acautelar-se de como julgam e condenam seus semelhantes; mas, quando Deus lhes ordena executar Sua sentença sobre a iniqüidade, Ele deve ser obedecido. Aqueles que realizaram este doloroso ato, manifestaram desta maneira sua aversão à rebelião e idolatria, e mais completamente se consagraram ao serviço do verdadeiro Deus. O Senhor honrou-lhes a fidelidade, conferindo distinção especial à tribo de Levi. Os israelitas haviam sido culpados de traição, e esta contra o Rei que os cumulara de benefícios, e cuja autoridade voluntariamente se comprometeram a obedecer. A fim de que se Pág. 325

pudesse manter o governo divino, devia executar-se justiça sobre os traidores. Todavia, mesmo nisto, ostentou-se a misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo em que Ele mantinha a Sua lei, concedia liberdade de escolha, e oportunidade para o arrependimento a todos. Apenas foram eliminados aqueles que persistiram na rebelião.

Era necessário que este pecado fosse punido, como testemunho às nações circunvizinhas do desagrado de Deus pela idolatria. Executando justiça sobre os criminosos, Moisés, como instrumento de Deus, devia deixar registrado um protesto solene e público contra o seu delito. Quando os israelitas devessem dali em diante condenar a idolatria das tribos vizinhas, seus inimigos lhes lançariam a acusação de que o povo que pretendia ter a Jeová como seu Deus, fizera um bezerro e o adorara em Horebe. Então, compelidos embora a reconhecer a infeliz verdade, Israel poderia indicar a sorte terrível dos transgressores, como prova de que seu pecado não fora sancionado ou desculpado. O amor, não menos que a justiça, exigia que, para este pecado, fosse infligido o juízo. Deus é o guarda, bem como o soberano de Seu povo. Ele exclui aqueles que se acham decididos à rebelião, para que não levem outros à ruína. Poupando a vida a Caim, Deus demonstrou ao Universo qual seria o resultado de permitir que o pecado ficasse sem punição. A influência exercida sobre seus descendentes por sua vida e ensino, determinou o estado de corrupção que exigiu a destruição do mundo inteiro pelo dilúvio. A história dos antediluvianos atesta que a vida longa não é uma bênção para o pecador; a grande paciência de Deus não reprimiu sua impiedade. Quanto mais viveram os homens, tanto mais corruptos se tornaram.

Assim seria com a apostasia no Sinai. A menos que o castigo de pronto tivesse sido executado sobre os transgressores, ter-se-iam visto de novo os mesmos resultados. A Terra ter-se-ia tornado tão corrompida como nos dias de Noé. Houvessem sido poupados esses transgressores, e ter-se-iam seguido males maiores do que os que resultaram de poupar a vida de Caim. Foi pela misericórdia de Deus que milhares devessem sofrer, para evitar a necessidade de executar juízos sobre milhões. A fim de salvar a muitos, Ele tinha de castigar a poucos. Ademais, como o povo rejeitara sua submissão a Deus, privara-se da proteção divina, e, despojados de sua defesa, a nação toda estava exposta ao poder dos inimigos. Se o mal não tivesse sido prontamente eliminado, logo teriam eles caído presa de seus numerosos e

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poderosos adversários. Era necessário para o bem de Israel, e também como lição a todas as gerações subseqüentes, que o crime fosse imediatamente castigado. E não menos misericórdia era para os próprios pecadores que fossem suprimidos em seu mau caminho. Se sua vida houvesse sido poupada, o mesmo espírito que os levara a rebelar-se contra Deus ter-se-ia manifestado em ódio e contenda entre eles mesmos, e ter-se-iam finalmente destruído uns aos outros. Foi por amor ao mundo, por amor a Israel e mesmo pelos transgressores, que o crime foi punido com uma severidade breve e terrível. Apercebendo-se o povo da enormidade de sua falta, o terror invadiu todo o arraial. Receava-se que todos os culpados devessem ser extirpados. Compadecido da angústia deles, Moisés prometeu mais uma vez pleitear com Deus em seu favor.

"Vós pecastes grande pecado", disse ele, "agora, porém, subirei ao Senhor; porventura farei propiciação por vosso pecado." Ele foi, e em sua confissão diante de Deus disse: "Ora, este povo pecou pecado grande, fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, senão risca-me, peço-Te, do Teu livro, que tens escrito." A resposta foi: "Aquele que pecar contra Mim, a este riscarei Eu do Meu livro. Vai pois agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o Meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da Minha visitação visitarei neles o seu pecado." Êxo. 32:30-34. Na oração de Moisés, nosso espírito é dirigido para os registros celestiais, nos quais estão inscritos os nomes de todos os homens, e fielmente registradas as suas ações, quer sejam boas quer más. O livro da vida contém os nomes de todos os que já entraram ao serviço de Deus. Se quaisquer destes se afastam dEle, e por uma obstinada persistência no pecado se tornam finalmente endurecidos à influência do Espírito Santo, seus nomes serão no juízo apagados do livro da vida, e eles serão votados à destruição. Moisés se compenetrava de quão terrível seria a sorte do pecador; todavia, se o povo de Israel devesse ser rejeitado pelo Senhor, desejava ele que seu nome fosse apagado com o deles; não poderia resistir ao ver caírem os juízos de Deus sobre aqueles que haviam sido tão graciosamente libertos. A intercessão de Moisés em prol de Israel ilustra a mediação de Cristo pelo homem pecador. Mas o Senhor não permitiu que Moisés carregasse, como fez Cristo, a culpa do transgressor. "Aquele que pecar contra Mim", disse Ele, "a este riscarei do Meu livro." Êxo. 32:33. Pág. 327

Com profunda tristeza o povo sepultou os seus mortos. Três mil haviam sucumbido pela espada; logo uma praga irrompeu no acampamento; e então lhes veio a mensagem de que a presença divina não mais os acompanharia em suas jornadas. Declara Jeová: "Eu não subirei no meio de ti, porquanto és povo obstinado, para que te não consuma Eu no caminho." E foi dada a ordem: "Tira de ti os teus atavios, para que Eu saiba o que te hei de fazer." Houve então lamentação por todo o acampamento. Com penitência e humilhação, "os filhos de Israel se despojaram de seus atavios, ao pé do monte de Horebe". Êxo. 33:3 e 6.

Por instrução divina, a tenda que servira como lugar temporário de culto, foi removida "longe do arraial". Isto consistia ainda mais prova de que Deus retirara deles a Sua presença. Ele Se revelaria a Moisés, mas não a um povo tal. Esta repreensão foi sentida fundamente; e, para as multidões, feridas na consciência, parecia um prenúncio de grande calamidade. Não tinha o Senhor separado a Moisés do acampamento para que pudesse destruí-los completamente? Não foram, porém, deixados sem esperança. A tenda foi armada fora do arraial, mas Moisés chamou-a "a tenda da congregação". Êxo. 33:7. Todos os que estavam verdadeiramente arrependidos, e desejavam voltar ao Senhor, eram instruídos a dirigirem-se para ali a fim de confessarem seus pecados e buscarem Sua misericórdia. Quando regressavam a suas tendas, Moisés entrava na tenda da congregação. Com aflitivo interesse o povo aguardava algum sinal de que suas intercessões em prol deles foram aceitas. Se Deus condescendesse em encontrar-Se com eles, podiam esperar que não seriam inteiramente consumidos. Quando a coluna de nuvem desceu, e ficou à entrada, o povo chorou de alegria, e "se levantou, e inclinaram-se cada um à porta da sua tenda". Êxo. 33:8. Moisés bem conhecia a perversidade e cegueira daqueles que foram postos sob os seus cuidados; sabia das dificuldades com que devia lutar. Mas tinha aprendido que, a fim de prevalecer com o povo, deveria ter auxílio da parte de Deus. Pleiteou uma revelação mais clara da vontade de Deus, e uma segurança de Sua presença: "Eis que Tu me dizes: Faze subir a este povo; porém, não me fazes saber a quem hás de enviar comigo; e Tu disseste: Conheço-te por teu nome, também achaste graça aos Meus olhos.

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Agora pois, se tenho achado graça a Teus olhos, rogo-Te que agora me faças saber o Teu caminho, e conhecer-Te-ei, para que ache graça aos Teus olhos; e atenta que esta nação é o Teu povo." A resposta foi: "Irá para a Minha presença contigo para te fazer descansar." Moisés, porém, ainda não estava satisfeito. Oprimia-lhe a alma a intuição dos terríveis resultados no caso em que Deus deixasse Israel entregue à dureza e impenitência. Ele não podia admitir que seus interesses estivessem separados dos de seus irmãos, e orava para que se restabelecesse o favor de Deus a Seu povo, e para que o sinal de Sua presença continuasse a guiar as suas jornadas: "Se a Tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui. Como pois se saberá agora que tenho achado graça aos Teus olhos, eu e o Teu povo? acaso não é por andares Tu conosco e separados seremos, eu e o Teu povo, de todo o povo que há sobre a face da Terra?"

E o Senhor disse: "Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos Meus olhos, e te conheço por nome." Não deixou ainda o profeta de pleitear. Cada uma das orações havia sido atendida, mas ele estava sedento por maiores indícios do favor de Deus. Fez então um pedido que ser humano algum jamais fizera antes: "Rogo-Te que me mostres a Tua glória." Deus não censurou o seu pedido como sendo presunçoso; mas foram proferidas as palavras cheias de graça: "Eu farei passar toda a Minha bondade por diante de ti." Êxo. 33:12-19. A glória de Deus, desvendada, homem algum neste estado mortal poderá ver, e viver; mas a Moisés assegurou-se que ele veria, tanto quanto poderia suportar, da glória divina. De novo foi chamado ao cimo da montanha; então a mão que fizera o mundo, aquela mão que "transporta as montanhas, sem que o sintam" (Jó 9:5), tomou esta criatura de pó, este poderoso homem de fé, e o colocou na fenda da rocha, enquanto a glória de Deus e toda a Sua bondade passaram diante dele. Esta experiência - e acima de tudo mais, a promessa de que a presença divina o acompanharia - foi para Moisés uma certeza de êxito na obra que tinha diante de si; e ele considerava isto de valor infinitamente maior do que todo o saber do Egito ou todas as suas realizações como estadista ou chefe militar. Nenhum poder, habilidade ou sabedoria terrestre pode suprir o lugar da presença duradoura de Deus.

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Para o transgressor é coisa terrível cair às mãos do Deus vivo; mas Moisés esteve sozinho na presença do Eterno, e não ficou amedrontado; pois tinha a alma em harmonia com a vontade de seu Criador. Diz o salmista: "Se eu atender à iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá." Sal. 66:18. Mas "o segredo do Senhor é para os que O temem; e Ele lhes fará saber o Seu concerto". Sal. 25:14. A Divindade proclamou a respeito de Si: "Jeová, o Senhor, Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado; que ao culpado não tem por inocente". Moisés "apressou-se, e inclinou a cabeça à terra, encurvou-se". Novamente rogou que Deus perdoasse a iniqüidade de Seu povo e os tomasse como Sua herança. Sua oração foi atendida. O Senhor graciosamente prometeu renovar Seu favor para com Israel, e em prol deles operar maravilhas quais não tinham sido feitas "em toda a Terra, nem entre gente alguma". Êxo. 34:6, 8 e 10.Quarenta dias e noites Moisés permaneceu no monte; e, durante este tempo, como a princípio, foi miraculosamente alimentado. A homem algum foi permitido subir com ele; nem durante o tempo de sua ausência ninguém deveria aproximar-se do monte. Por ordem de Deus, preparara duas tábuas de pedra, e levara-as consigo ao cume; e outra vez o Senhor "escreveu nas tábuas as palavras do concerto, os Dez Mandamentos". Durante aquele prolongado tempo despendido em comunhão com Deus, a face de Moisés refletira a glória da presença divina; sem o saber, seu rosto resplandecia com uma luz deslumbrante quando ele desceu do monte. Tal luz iluminou o rosto de Estêvão quando fora levado perante seus juízes; "então todos os que estavam assentados no conselho, fixando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo". Atos 6:15. Arão, assim como o povo, recuava de Moisés, e "temeram de chegar-se a ele". Êxo. 34:30. Vendo sua confusão e terror, mas sem saber a causa, insistiu com eles para que se aproximassem. Apresentou-lhes a garantia da reconciliação com Deus, e lhes assegurou o restabelecimento de Seu favor. Nada perceberam em sua voz a não ser amor e solicitude, e finalmente aventurou-se um a aproximar-se dele. Muito atônito para que pudesse falar, silenciosamente apontou para o rosto de Moisés e então para o céu. O grande chefe compreendeu o que Pág. 330

queria dizer. Em sua consciente culpabilidade, sentindo-se ainda sob o desagrado divino, não podiam suportar a luz celestial, a qual, se houvessem eles sido obedientes a Deus, tê-los-ia enchido de alegria. O medo acompanha a culpa. A alma que está livre de pecado não deseja esconder-se da luz do Céu. Moisés tinha muito a comunicar-lhes; e, compadecendo-se de seus temores, pôs um véu sobre o rosto, e continuou a fazer assim dali em diante sempre que voltava ao acampamento depois de ter comunhão com Deus.

Por essa luz era o intuito de Deus impressionar Israel com o caráter sagrado e exaltado de Sua lei, e a glória do evangelho revelado por meio de Cristo. ... Enquanto Moisés estava no monte, Deus apresentou-lhe não somente as tábuas da lei, mas também o plano da salvação. Ele viu que o sacrifício de Cristo era prefigurado por todos os tipos e símbolos da era judaica; e era a luz celestial que fluía do Calvário, não menos que a glória da lei de Deus, que derramava tal brilho no rosto de Moisés. Aquela iluminação divina simbolizava a glória da dispensação de que Moisés era o mediador visível, representante do único verdadeiro Intercessor.

A glória refletida no semblante de Moisés ilustra as bênçãos a serem recebidas, pela mediação de Cristo, pelo povo que guarda os mandamentos de Deus. Testifica de que, quanto mais íntima for nossa união com Deus, e mais claro o nosso conhecimento de Suas ordens, tanto mais plenamente nos adaptaremos à divina imagem, e mais facilmente nos tornaremos participantes da natureza divina. Moisés era um tipo de Cristo. Como intercessor de Israel, velou o rosto, porque o povo não podia resistir ao ver a glória do mesmo; assim Cristo, o Mediador divino, velou Sua divindade na humanidade quando veio à Terra. Se tivesse vindo revestido do resplendor do Céu, não poderia ter obtido acesso aos homens em seu estado pecaminoso. Estes não poderiam suportar a glória de Sua presença. Portanto Ele humilhou-Se, e foi feito "em semelhança da carne do pecado" (Rom. 8:3), para que pudesse chegar até a raça decaída e levantá-la.

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Inimizade de Satanás

Contra a Lei

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O primeiro esforço de Satanás para destruir a lei de Deus - esforço este feito entre os santos habitantes do Céu - pareceu por algum tempo ser coroado de êxito. Grande número de anjos foram seduzidos; mas o triunfo aparente de Satanás redundou em derrota e perda, separação de Deus e banimento do Céu.

Quando se renovou o conflito na Terra, Satanás de novo alcançou uma aparente vantagem. Pela transgressão, o homem se tornou seu escravo, e o reino do homem também foi entregue nas mãos do maioral dos rebeldes. Parecia agora aberto o caminho para Satanás estabelecer um reino independente, e desafiar a autoridade de Deus e de Seu Filho. Mas o plano da salvação possibilitou ao homem ser de novo trazido à harmonia com Deus, e prestar obediência à Sua lei; e tanto ao homem como à Terra serem finalmente redimidos do poder do maligno. Foi outra vez derrotado Satanás, e outra vez recorreu ao engano, na esperança de converter sua derrota em vitória. Para suscitar a rebelião na raça decaída, representou agora a Deus como injusto por ter permitido ao homem transgredir a Sua lei. "Por que", disse o ardiloso tentador, "permitiu Deus que o homem fosse posto à prova, para pecar, e trazer a miséria e a morte, quando Ele sabia qual seria o resultado?" E os filhos de Adão, esquecidos da longânima misericórdia que concedera ao homem outra prova, não tomando em consideração o sacrifício admirável e terrível que sua rebelião custara ao Rei do Céu, deram ouvidos ao tentador, e murmuraram contra o único Ser que os podia salvar do poder destruidor de Satanás.

Milhares existem hoje repercutindo a mesma queixa revoltosa contra Deus. Não vêem que o despojar o homem da liberdade de escolha seria privá-lo de sua prerrogativa de um ser inteligente, e fazer dele um mero autômato. Não é propósito de Deus coagir a vontade. O homem foi criado como um ser moral livre. Como

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os habitantes de todos os outros mundos, devia ser sujeito à prova da obediência; mas nunca é levado a uma posição tal em que render-se ao mal se torne coisa forçosa. Nenhuma tentação ou prova se permite vir àquele que é incapaz de resistir. Deus nos proveu de tão amplos recursos, que o homem jamais ter-se-ia encontrado na contingência de ser derrotado no conflito com Satanás. Aumentando-se os homens sobre a Terra, quase o mundo todo se uniu às fileiras da rebelião. Mais uma vez pareceu Satanás haver ganho a vitória. Mais uma vez, porém, a Onipotência suprimiu a operação da iniqüidade, e a Terra foi pelo dilúvio purificada de sua contaminação moral. Diz o profeta: "Havendo os Teus juízos na Terra, os moradores do mundo aprendem justiça. Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende a justiça; ... e não atenta para a majestade do Senhor." Isa. 26:9 e 10. Assim foi depois do dilúvio. Livres de Seus juízos, os habitantes da Terra de novo se rebelaram contra o Senhor. Duas vezes o concerto de Deus e Seus estatutos foram rejeitados pelo mundo. Tanto o povo anterior ao dilúvio como os descendentes de Noé rejeitaram a autoridade divina. Então Deus entrou em um concerto com Abraão, e tomou para Si um povo que se tornasse os depositários de Sua lei. A fim de seduzir e destruir este povo, Satanás logo começou a lançar as suas ciladas. Os filhos de Jacó foram tentados a contrair matrimônio com os gentios, e a adorar os seus ídolos. Mas José foi fiel a Deus, e sua fidelidade foi um constante testemunho da verdadeira fé. Foi para apagar esta luz que Satanás trabalhou por meio da inveja dos irmãos de José a fim de fazer com que ele fosse vendido como escravo para um país gentílico. Deus, entretanto, encaminhou os acontecimentos de maneira que o Seu conhecimento fosse dado ao povo do Egito. Tanto na casa de Potifar como na prisão, José recebeu uma educação e ensino que, com o temor de Deus, o prepararam para a sua elevada posição de primeiro-ministro da nação. Do palácio dos Faraós foi sentida a sua influência por todo o país, e o conhecimento de Deus propagou-se larga e extensamente. Os israelitas no Egito também se tornaram prósperos e ricos; e, enquanto foram fiéis a Deus, exerceram dilatada influência. Os sacerdotes idólatras ficaram alarmados ao verem a nova religião alcançar favor. Inspirados por Satanás com a inimizade deste para com o Deus do Céu, aplicaram-se a apagar a luz. Aos sacerdotes era confiada a educação

Pág. 333 do herdeiro do trono, e era este espírito de decidida oposição a Deus e de zelo pela idolatria o que modelava o caráter do futuro rei, e determinou crueldade e opressão para com os hebreus. Durante os quarenta anos que se seguiram à fuga de Moisés do Egito, a idolatria pareceu ter vencido. Ano após ano, as esperanças dos israelitas tornavam-se mais débeis. Tanto o rei como o povo exultavam em seu poderio, e zombavam do Deus de Israel. Este espírito desenvolveu-se até que culminou no Faraó que foi enfrentado por Moisés. Quando o chefe hebreu chegou perante o rei com uma mensagem do "Senhor Deus de Israel", não foi a ignorância acerca do verdadeiro Deus, senão o desafio ao Seu poder, o que inspirou a resposta: "Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei ? ... Não conheço o Senhor." Êxo. 5:2. De princípio a fim, a oposição de Faraó ao mando divino não foi o resultado da ignorância, mas do ódio e desafio.

Posto que os egípcios houvessem durante tanto tempo rejeitado o conhecimento de Deus, o Senhor ainda lhes deu oportunidade para o arrependimento. Nos dias de José, o Egito fora um abrigo para Israel; Deus fora honrado pela bondade manifesta a Seu povo; e agora aquele Ser longânimo, tardio em iras e cheio de compaixão, deu a cada juízo prazo para realizar a sua obra; os egípcios, recebendo maldição por meio dos mesmos objetos que adoravam, tiveram prova do poder de Jeová, e todos que o quisessem poderiam sujeitar-se a Deus e escapar de Seus juízos. O fanatismo e obstinação do rei tiveram como resultado espalhar o conhecimento de Deus, e levar muitos dos egípcios a entregarem-se a Seu serviço.

Foi porque os israelitas estivessem tão dispostos a unir-se com os gentios e imitar-lhes a idolatria que Deus lhes permitiu descerem ao Egito, onde a influência de José era largamente sentida, e onde as circunstâncias lhes eram favoráveis para permanecerem como um povo distinto. Ali também a grosseira idolatria dos egípcios e sua crueldade e opressão durante a última parte da peregrinação dos hebreus, devia ter inspirado neles aversão à idolatria, e os devia ter levado a fugir para o Deus de seus pais em busca de refúgio. Esta providência tornara Satanás um meio para servir a seu propósito, obscurecendo a mente dos israelitas, e levando-os a imitar as práticas de seus senhores pagãos. Devido à veneração supersticiosa em que pelos egípcios eram

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tidos os animais, não se permitia aos hebreus, durante seu cativeiro, apresentar ofertas sacrificais. Assim sua mente não era dirigida por este culto ao grande Sacrifício, e enfraqueceu-se-lhes a fé. Quando chegou o tempo para o livramento de Israel, Satanás se pôs a resistir aos propósitos de Deus. Era seu firme intuito que aquele grande povo, que contava mais de dois milhões de almas, fosse conservado na ignorância e superstição. Aquele povo a quem Deus prometera abençoar e multiplicar, e tornar um poderio na Terra, e por meio do qual Ele revelaria o conhecimento de Sua vontade - povo de quem Ele faria os guardas de Sua lei - aquele mesmo povo estava Satanás procurando conservar na obscuridade e cativeiro, para que pudesse extinguir de seus espíritos a lembrança de Deus. Quando se operaram os prodígios perante o rei, Satanás estava a postos para contrariar a sua influência, e impedir Faraó de reconhecer a supremacia de Deus, e obedecer à Sua ordem. Satanás fez tudo em seu alcance para contrafazer a obra de Deus e resistir à Sua vontade. O único resultado foi preparar o caminho para maiores exibições de poder e glória divinos, e tornar mais visíveis, tanto para israelitas como para todo o Egito, a existência e soberania do Deus verdadeiro e vivo. Deus libertou Israel com grandiosas manifestações de Seu poder, e com juízos sobre todos os deuses do Egito. "Tirou dali o Seu povo com alegria, e os Seus escolhidos com regozijo. ... Para que guardassem os Seus preceitos, e observassem as Suas leis." Sal. 105:43-45. Ele os livrou de seu estado servil, para que os pudesse levar a uma boa terra - terra esta que em Sua providência lhes fora preparada como refúgio de seus inimigos, onde pudessem habitar sob a sombra de Suas asas. Ele os levaria para Si mesmo, e os cingiria em Seus eternos braços; e em troca de toda a Sua bondade e misericórdia para com eles, exigia-se-lhes que não tivessem outros deuses diante dEle, o Deus vivo, e exaltassem Seu nome e o fizessem glorioso na Terra.

Durante o cativeiro no Egito muitos israelitas haviam perdido em grande parte o conhecimento da lei de Deus, e misturaram seus preceitos com costumes e tradições gentílicos. Deus os levou ao Sinai, e ali de viva voz declarou Sua lei.

Satanás e anjos maus estavam a postos. Mesmo enquanto Deus estava a proclamar a lei a Seu povo, Satanás achava-se a tramar no intuito de tentá-los a pecar. Deste povo que Deus escolhera, ele queria apoderar-se, em presença mesmo do Céu. Conduzindo-os Pág. 335

à idolatria, destruiria a eficácia de todo o culto; pois como poderá o homem elevar-se, adorando o que não é mais elevado do que ele próprio, e que pode ser o símbolo de sua própria obra? Se o homem pudesse tornar-se tão cego ao poder, majestade e glória do Deus infinito, que O representasse por uma imagem esculpida, ou mesmo por um quadrúpede ou réptil; se pudesse de tal maneira esquecer-se de sua própria relação para com a Divindade, formado como é ele à imagem de seu Criador, que se prostrasse ante esses objetos repelentes e inanimados, estaria então aberto o caminho para a detestável licenciosidade; as más paixões do coração estariam desenfreadas, e Satanás teria amplo domínio.

Junto mesmo do Sinai Satanás começou a executar seus planos para subverter a lei de Deus, levando assim avante a mesma obra que iniciara no Céu. Durante os quarenta dias em que Moisés se achava no monte, com Deus, Satanás esteve ocupado provocando dúvida, apostasia e rebelião. Enquanto Deus escrevia a Sua lei, a fim de ser confiada ao Seu povo do concerto, os israelitas, negando sua fidelidade para com Jeová, estavam a pedir deuses de ouro! Quando Moisés veio da terrível presença da glória divina, com os preceitos da lei que se haviam comprometido a obedecer, encontrou-os em franco desafio aos mandos da mesma, curvando-se em adoração perante uma imagem de ouro. Levando Israel a este ousado insulto e blasfêmia dirigidos a Jeová, Satanás planejara efetuar a sua ruína. Visto que se mostraram tão completamente degradados, tão insensíveis aos privilégios e bênçãos que Deus lhes oferecera, e aos seus próprios compromissos solenes e repetidos de fidelidade, o Senhor Se divorciaria deles, acreditava ele, e os votaria à destruição. Assim se asseguraria a extinção da descendência de Abraão, aquela descendência da promessa que deveria preservar o conhecimento do Deus vivo, e por meio da qual Ele deveria vir, a saber, a verdadeira Semente, a qual deveria vencer Satanás. O grande rebelado havia projetado destruir Israel, e assim transtornar o propósito de Deus. Mas de novo foi derrotado. Por pecador que fosse, o povo de Israel não foi destruído. Enquanto aqueles que obstinadamente se dispuseram ao lado de Satanás foram extirpados, o povo, humilhado e arrependido, foi misericordiosamente perdoado. A história deste pecado ficaria como testemunho perpétuo da culpabilidade e castigo da idolatria, e da justiça e longânima misericórdia de Deus. O Universo inteiro foi testemunha das cenas do Sinai. Nos efeitos Pág. 336

das duas administrações viu-se o contraste entre o governo de Deus e o de Satanás. De novo os habitantes destituídos de pecado, de outros mundos, viram os resultados da apostasia de Satanás, e a espécie de governo que ele teria estabelecido no Céu, caso lhe houvesse sido permitido exercer domínio.

Fazendo os homens violarem o segundo mandamento, visava Satanás rebaixar suas concepções acerca do Ser divino. Pondo de lado o quarto, fá-los-ia esquecer-se completamente de Deus. A reivindicação divina à reverência e culto, acima dos deuses dos gentios, baseia-se no fato de que Ele é o Criador, e que a Ele todos os outros seres devem sua existência. Assim é isto apresentado na Bíblia. Diz o profeta Jeremias: "O Senhor Deus é a verdade; Ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno. ... Os deuses que não fizeram os céus e a Terra desaparecerão da Terra e debaixo deste céu. Ele fez a Terra pelo Seu poder; Ele estabeleceu o mundo por Sua sabedoria e com a Sua inteligência estendeu os céus." "Todo o homem se embruteceu, e não tem ciência; envergonha-se todo o fundidor da sua imagem de escultura; porque sua imagem fundida mentira é, e não há espírito nelas. Vaidade são, obra de enganos; no tempo da Sua visitação virão a perecer. Não é semelhante a estes a porção de Jacó; porque Ele é o Criador de todas as coisas." Jer. 10:10-12 e 14-16. O sábado, como um memorial do poder criador de Deus, designa-O como o que fez os céus e a Terra. Daí o ser ele uma testemunha constante de Sua existência, e lembrança de Sua grandeza, Sua sabedoria e Seu amor. Houvesse sido o sábado sempre observado de maneira sagrada, e nunca poderia ter havido um ateu ou idólatra. A instituição do sábado, que se originou no Éden, é tão antiga como o próprio mundo. Foi observado por todos os patriarcas, desde a criação. Durante o cativeiro no Egito, os israelitas foram obrigados por seus maiorais de tarefas a violar o sábado; e em grande parte perderam o conhecimento de sua santidade. Quando a lei foi proclamada no Sinai, as primeiras palavras do quarto mandamento foram: "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar" (Êxo. 20:8), mostrando que o sábado não foi instituído então; aponta-se-nos a sua origem na criação. A fim de obliterar a lembrança de Deus da mente dos homens, visava Satanás destruir este grande memorial. Se pudessem os homens ser levados a esquecer seu Criador, não fariam esforços para resistir ao poder do mal, e Satanás estaria certo de sua presa.

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A inimizade de Satanás à lei de Deus compeliu-o a fazer guerra contra cada preceito do Decálogo. Com o grande princípio de amor e fidelidade para com Deus, o Pai de todos, relaciona-se intimamente o princípio do amor e obediência filial. O desdém à autoridade paterna logo determinará o desdém pela autoridade de Deus. Daí os esforços de Satanás para diminuir a obrigação imposta pelo quinto mandamento. Entre os povos gentílicos, o princípio estipulado neste preceito era pouco atendido. Em muitas nações os pais eram abandonados, ou mortos, logo que a idade os tornava incapazes de proverem por si as suas necessidades. Na família, a mãe era tratada com pouco respeito, e pela morte de seu marido exigia-se-lhe submeter-se à autoridade do filho mais velho. A obediência filial foi ordenada por Moisés; mas, afastando-se os israelitas do Senhor, o quinto mandamento, juntamente com outros, veio a ser desrespeitado.