Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 9 de 9 · parte 2/4

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Patriarcas e Profetas

censura inflamara-se em seu peito, e resolveu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

que o rei se encolerize, ... então dirás: Também morreu teu servo Urias, o heteu. E foi o mensageiro, e entrou, e fez saber a Davi tudo, para que Joabe o enviara". A resposta do rei foi: "Assim dirás a Joabe: Não te pareça isto mal aos teus olhos; pois a espada tanto consome este como aquele; esforça a tua peleja contra a cidade, e a derrota. Esforça-o tu assim." Bate-Seba observou os dias usuais de lamentação por seu marido; e, no seu final, "enviou Davi, e a recolheu em sua casa, e lhe foi por mulher". II Sam. 11:19-27. Aquele, cuja delicada consciência e elevado senso de honra não lhe permitiram, mesmo em perigo de vida, estender sua mão contra o ungido do Senhor, caíra de tal maneira que pôde afrontar e assassinar um de seus soldados mais fiéis e valentes, e desfrutar, sem ser incomodado, a recompensa de seu pecado. Ai! como o ouro fino perdera o brilho! como se transformara o ouro finíssimo!

Desde o princípio Satanás pintou aos homens as vantagens a serem ganhas pela transgressão. Assim ele seduziu os anjos. Assim tentou Adão e Eva a pecar. E assim está ainda a afastar multidões da obediência a Deus. A senda da transgressão faz-se com que pareça desejável; "mas o fim deles são os caminhos da morte". Prov. 14:12. Felizes aqueles que, tendo-se arriscado a ir por este caminho, aprendem quão amargos são os frutos do pecado, e voltam em tempo. Deus, em Sua misericórdia, não deixou que Davi fosse atraído à ruína total pela sedutoras recompensas do pecado. Por amor de Israel também, houve necessidade da intervenção de Deus. Passando-se o tempo, o pecado de Davi para com Bate-Seba se tornou conhecido, e despertou a suspeita de que ele projetara a morte de Urias. O Senhor foi desonrado. Ele tinha favorecido e exaltado a Davi, e o pecado deste representou falsamente o caráter de Deus, lançando ignomínia ao Seu nome. Tendia a abaixar a norma da piedade em Israel, e diminuir em muitos espíritos a aversão pelo pecado; ao mesmo tempo, os que não amavam nem temiam a Deus se tornaram por meio daquele pecado audazes na transgressão. Ao profeta Natã foi ordenado levar uma mensagem de reprovação a Davi. Era uma mensagem terrível pela sua severidade. A poucos soberanos tal censura poderia ser feita, a não ser com o preço de morte certa a quem a fizesse. Natã transmitiu resolutamente a sentença divina, e, contudo, com tal sabedoria do

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alto, que captou a simpatia do rei, despertou-lhe a consciência e arrancou-lhe dos lábios a sentença de morte sobre si. Apelando para Davi como o guarda divinamente designado dos direitos de seu povo, o profeta referiu a história da falta e opressão que exigiam desagravo. "Havia numa cidade dois homens", disse ele, "um rico e outro pobre. O rico tinha muitíssimas ovelhas e vacas; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos igualmente; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo ao homem rico um viajante, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para guisar para o viajante que viera a ele, e tomou a cordeira do homem pobre, e a preparou para o homem que viera a ele."

Despertou-se a ira do rei, e ele exclamou: "Vive o Senhor que digno de morte é o homem que fez isso. E pela cordeira tornará a dar o quadruplicado, porque fez tal coisa, e porque não se compadeceu." II Sam. 12:5 e 6.

Natã fixou ao olhos no rei; então, levantando sua destra para o céu, declarou solenemente. "Tu és esse homem." "Por que, pois", continuou ele, "desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de Seus olhos?" Os criminosos podem, como fizera Davi, tentar esconder dos homens o seu crime; podem procurar sepultar a má ação, para sempre, longe das vistas ou do conhecimento humano; mas "todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos dAquele com quem temos de tratar". Heb. 4:13. "Nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de saber-se." Mat. 10:26. Natã declarou: "Assim diz o Senhor Deus de Israel: Eu te ungi sobre Israel, e Eu te livrei das mãos de Saul. ... Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de Seus olhos? A Urias, o heteu, feriste à espada, e a sua mulher tomaste por tua mulher; e a ele mataste com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa. ... Eis que suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo. ... Porque tu o fizeste em oculto, mas Eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o Sol." II Sam. 12:7-12.

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A censura do profeta tocou o coração de Davi; despertou-lhe a consciência; seu crime apareceu em toda a sua enormidade. Sua alma curvou-se arrependida diante de Deus. Com lábios trêmulos ele disse: "Pequei contra o Senhor." Todo o mal, feito a outrem, reflete do ofendido para Deus. Davi cometera um grave pecado, tanto para com Urias como para Bate-Seba, e intensamente o sentia. Mas infinitamente maior era seu pecado contra Deus.

Posto que não se encontrasse ninguém em Israel para executar a sentença de morte sobre o ungido do Senhor, Davi estremecia com o receio de que, estando em falta e não perdoado, fosse ele suprimido pelo rápido juízo de Deus. Mas foi-lhe enviada a mensagem pelo profeta: "Também o Senhor traspassou o teu pecado; não morrerás." Todavia a justiça deveria ser mantida. A sentença de morte foi transferida de Davi à criança de seu pecado. Assim ao rei foi dada oportunidade para o arrependimento, conquanto para ele o sofrimento e morte da criança, como parte de seu castigo, foram muito mais amargos do que poderia ter sido sua própria morte. Disse o profeta: "Porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá." II Sam. 12:13 e 14.

Quando seu filho foi atacado pela doença, Davi, com jejum e profunda humilhação, rogou pela sua vida. Retirou as vestes reais, depôs a coroa, e noite após noite jazia prostrado em terra, intercedendo, com a dor de um coração quebrantado, pelo inocente que sofria por culpa dele. "Os anciãos da sua casa se levantaram e foram a ele, para o levantar da terra; porém, ele não quis." II Sam. 12:17. Muitas vezes quando foram pronunciados juízos sobre pessoas ou cidades, a humilhação e o arrependimento desviaram o golpe, e Aquele que é sempre misericordioso, pronto a perdoar, enviara mensageiros de paz. Animado com este pensamento, Davi perseverou em sua súplica enquanto a criança foi poupada em vida. Sabendo que era morta, silenciosamente submeteu-se ao decreto de Deus. O primeiro golpe fora desferido, naquela retribuição que ele próprio declarara justa; mas Davi, confiando na misericórdia de Deus, não ficou sem consolação.

Muitíssimas pessoas, lendo a história da queda de Davi, têm perguntado: "Por que se faz público tal registro? Por que achou Deus conveniente patentear ao mundo este negro episódio da vida de quem fora tão grandemente honrado pelo Céu?" O profeta, em sua reprovação a Davi, declarou com relação ao seu pecado: "Com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem." II Sam. 12:14. Através de gerações sucessivas, os incrédulos têm apontado para o caráter de Davi, que traz esta

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negra mancha, e exclamado com triunfo e escárnio: "Este é o homem segundo o coração de Deus!" Atos 13:22. Assim foi trazido opróbrio à religião, Deus e Sua Palavra foram blasfemados, almas se endureceram na incredulidade, e muitos, sob um manto de piedade, se tornaram audazes no pecado. Mas a história de Davi não fornece defesa ao pecado. Era quando ele andava no conselho de Deus que era chamado homem segundo o coração de Deus. Pecando, isto cessou de ser verdade com relação a ele, até que pelo arrependimento voltasse ao Senhor. A Palavra de Deus compreensivelmente declara: "Esta coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor." II Sam. 11:27. E o Senhor disse a Davi pelo profeta: "Por que, pois, desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o mal diante de Seus olhos ? ... Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto Me desprezaste." II Sam. 12:9 e 10. Embora Davi se arrependesse de seu pecado, e fosse perdoado e aceito pelo Senhor, colheu os resultados da semente que ele próprio semeara. Os juízos sobre ele e sua casa testificam da aversão de Deus ao pecado.

Até ali a providência de Deus tinha preservado a Davi contra todas as conspirações de seus inimigos, e fora diretamente exercida para restringir a Saul. A transgressão de Davi mudou, porém, sua relação para com Deus. O Senhor de nenhuma maneira podia sancionar a iniqüidade. Ele não podia exercer Seu poder para proteger a Davi dos resultados de seu pecado, como o protegera da inimizade de Saul. Houve uma grande mudança no próprio Davi. Ele ficou quebrantado em espírito pela consciência de seu pecado, e de seus resultados, que teriam grande alcance. Sentiu-se humilhado aos olhos de seus súditos. Sua influência se enfraqueceu. Até ali sua prosperidade fora atribuída à sua conscienciosa obediência aos mandamentos do Senhor. Mas agora seus súditos, tendo conhecimento de seu pecado, seriam levados a pecar mais livremente. Sua autoridade em sua própria casa, o direito ao respeito e à obediência de seus filhos, enfraqueceram. Uma intuição de sua culpa conservava-o silencioso quando ele teria condenado o pecado; tornava fraco o seu braço para executar justiça em sua casa. Seu mau exemplo exerceu influência sobre seus filhos, e Deus não interviria para impedir o resultado. Ele permitiria que as coisas tomassem seu curso natural, e assim Davi foi severamente castigado. Durante um ano inteiro após sua queda, Davi viveu em aparente segurança; não havia prova externa do desagrado de Deus. Mas a sentença divina pairava sobre ele. Rápida e certamente aproximava-se um dia de juízo e condenação, o qual nenhum

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arrependimento poderia desviar, de angústia e vergonha que entenebreceriam toda a sua vida terrestre. Aqueles que, apontando para o exemplo de Davi, procuram diminuir a culpa de seus próprios pecados, deveriam aprender do registro bíblico que duro é o caminho da transgressão. Embora, semelhantes a Davi, se desviem de sua má conduta, achar-se-á que os resultados do pecado, mesmo nesta vida, são amargos e duros para se suportarem.

Era intuito de Deus que a história da queda de Davi servisse como advertência de que mesmo os que Ele abençoou e favoreceu grandemente não se devem sentir livres de perigo, e negligenciar a vigilância e a oração. E isso tem feito esta história àqueles que humildemente têm procurado aprender a lição que Deus tencionava dar. De geração em geração, milhares têm sido levados a compenetrar-se do perigo que correm em virtude do poder do tentador. A queda de Davi, que foi tão grandemente honrado pelo Senhor, despertou neles desconfiança do próprio eu. Sentiram que apenas Deus os poderia guardar pelo Seu poder, mediante a fé. Sabendo que nEle estavam sua força e segurança, recearam dar o primeiro passo no terreno de Satanás.

Mesmo antes que a sentença divina fosse pronunciada contra Davi, começara ele a colher o fruto da transgressão. Sua consciência estava inquieta. A aflição de espírito que então suportava é apresentada no Salmo trinta e dois. Diz ele:

"Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, E cujo pecado é coberto.

Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, E em cujo espírito não há engano.

Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos

Pelo meu bramido em todo o dia.

Porque de dia e de noite a Tua mão pesava sobre mim; O meu humor se tornou em sequidão de estio." Sal. 32:1-4. E o Salmo cinqüenta e um é uma expressão do arrependimento de Davi, quando lhe veio de Deus a mensagem de reprovação:

"Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; Apaga as minhas transgressões,

Segundo a multidão das Tuas misericórdias.

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Lava-me completamente da minha iniqüidade,

E purifica-me do meu pecado.

Porque eu conheço as minhas transgressões,

E o meu pecado está sempre diante de mim. ...

Purifica-me com hissopo, e ficarei puro;

Lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve.

Faze-me ouvir júbilo e alegria,

Para que gozem os ossos que Tu quebraste.

Esconde a Tua face dos meus pecados,

E apaga todas as minhas iniqüidades.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro,

E renova em mim um espírito reto.

Não me lances fora da Tua presença,

E não retires de mim o Teu Espírito Santo.

Torna a dar-me a alegria da Tua salvação,

E sustém-me com um espírito voluntário.

Então ensinarei aos transgressores os Teus caminhos, E os pecadores a Ti se converterão.

Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, E a minha língua louvará altamente a Tua justiça." Sal. 51:1-14. Desta maneira, em um cântico sagrado que havia de ser entoado nas assembléias públicas de seu povo, na presença da corte - sacerdotes e juízes, príncipes e homens de guerra - e que conservaria até a última geração o conhecimento de sua queda, relatou o rei de Israel o seu pecado, o seu arrependimento e sua esperança de perdão pela misericórdia de Deus. Em vez de se esforçar por ocultar seu crime, desejou que outros pudessem instruir-se pela triste história de sua queda. O arrependimento de Davi foi sincero e profundo. Não houve esforço para atenuar seu delito. Nenhum desejo de escapar dos juízos ameaçados inspirou sua oração. Viu, porém, a enormidade de sua transgressão contra Deus; viu a contaminação de sua alma; repugnou-lhe seu pecado. Não era unicamente pelo perdão que ele orava, mas pela pureza de coração. Davi não abandonou a luta em desespero. Nas promessas de Deus aos pecadores arrependidos, via a prova de seu perdão e aceitação.

"Porque Te não comprazes em sacrifícios, senão eu os daria; Tu não Te deleitas em holocaustos.

Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado;

A um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus." Sal. 51:16 e 17.

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Embora Davi tivesse caído, o Senhor o levantou. Estava agora em mais completa harmonia com Deus e simpatia para com seus semelhantes, do que antes de cair. No júbilo de seu livramento, cantou: "Confessei-Te o meu pecado, e a minha maldade não encobri; Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; E Tu perdoaste a maldade do meu pecado. ...

Tu és o lugar em que me escondo; Tu me preservas da angústia; Tu me cinges de alegres cantos de livramento." Sal. 32:5-7. Muitos têm murmurado a respeito daquilo que chamam injustiça de Deus ao poupar Davi, cujo crime foi tão grande, após haver Ele rejeitado a Saul pelo que lhes parece ser pecados muito menos flagrantes. Mas Davi humilhou-se e confessou seu pecado, ao passo que Saul desprezou a reprovação, e endureceu o coração na impenitência.

Este período da história de Davi está repleto de significação para o pecador arrependido. É uma das ilustrações mais flagrantes que nos são dadas das lutas e tentações da humanidade, do arrependimento genuíno para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Durante todos os séculos, tem-se mostrado uma fonte de animação às almas que, tendo caído em pecado, achavam-se a lutar sob o fardo de sua culpa. Milhares de filhos de Deus, quando traídos pelo pecado e prontos a entregar-se ao desespero, têm-se lembrado como o arrependimento e confissão sincera de Davi foram aceitos por Deus, não obstante sofrer ele pela sua transgressão; e estes também se revestiram de coragem para arrepender-se, e procurar novamente andar no caminho dos mandamentos de Deus. Quem quer que, sob a reprovação de Deus, humilhe a alma com confissão e arrependimento, como fez Davi, pode estar certo de que há esperança para ele. Quem quer que com fé aceite as promessas de Deus, encontrará perdão. O Senhor nunca lançará fora uma alma verdadeiramente arrependida. Ele fez esta promessa: "Apodere-se da Minha força, e faça paz comigo; sim, que faça paz comigo." Isa. 27:5. "Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que Se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar." Isa. 55:7. 72

A Rebelião de Absalão

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"Tornará a dar o quadruplicado" (II Sam. 12:6)- foi a sentença dada por Davi a si mesmo sem o saber, ouvindo a parábola do profeta Natã; e de conformidade com sua própria sentença deveria ele ser julgado. Quatro de seus filhos deveriam cair, e a perda de cada um deles seria o resultado do pecado do pai.

O vergonhoso crime de Amnom, o primogênito, permitiu Davi que passasse sem ser punido nem repreendido. A lei pronunciava a pena de morte ao adúltero, e o crime desnatural de Amnom tornou-o duplamente culpado. Mas Davi, condenado por si mesmo pelo seu próprio pecado, deixou de fazer justiça ao transgressor. Durante dois anos completos, Absalão, o protetor natural da irmã tão ignominiosamente prejudicada, escondeu seu propósito de vingança, mas apenas para dar finalmente o golpe com mais segurança. Em uma festa dos filhos do rei, o bêbado e incestuoso Amnom foi morto por ordem de seu irmão.

Duplo juízo recebera Davi. Foi levada a ele esta terrível mensagem: "Absalão feriu a todos os filhos do rei, e nenhum deles ficou. Então o rei se levantou, e rasgou os seus vestidos, e se lançou por terra; da mesma maneira todos os seus servos estavam com vestidos rotos." Os filhos do rei, voltando alarmados para Jerusalém, revelaram a seu pai a verdade; somente Amnom havia sido morto; e eles "levantaram sua voz, e choraram; e também o rei e todos os seus servos choraram com mui grande choro". II Sam. 13:30, 31 e 36. Mas Absalão fugiu a Talmai, rei de Gesur, pai de sua mãe. Como os outros filhos de Davi, Amnom tinha sido deixado por conta das satisfações egoístas. Ele procurava satisfazer todo pensamento de seu coração, sem tomar em consideração os requisitos de Deus. Apesar de seu grande pecado, Deus tivera muita paciência com ele. Durante dois anos, lhe foi concedida oportunidade para arrependimento; mas ele continuou em pecado, e, com sua culpa sobre si, foi eliminado pela morte, para esperar o terrível tribunal do Juízo. Pág. 728

Davi tinha negligenciado o dever de punir o crime de Amnom, e, por causa da infidelidade do rei e pai, e da impenitência do filho, o Senhor permitiu que os acontecimentos tomassem seu curso natural, e não restringiu Absalão. Quando pais ou governadores negligenciam o dever de punir a iniqüidade, Deus mesmo tomará o caso em mãos. Seu poder repressor será até certo ponto removido, das forças do mal, de modo que surgirá um séquito de circunstâncias que castigará o pecado com o pecado. Os maus resultados da injusta condescendência de Davi para com Amnom não estavam terminados; pois agora é que começou o afastamento de Absalão, de seu pai. Depois que ele fugiu a Gesur, Davi, compreendendo que o crime de seu filho exigia algum castigo, recusou-lhe permissão para voltar. E isto teve como resultado aumentar em vez de diminuir o emaranhado de males em que o rei viera a ficar envolto. Absalão, enérgico, ambicioso e sem escrúpulos, excluído pelo seu exílio da participação nos negócios do reino, logo se deu a formular planos perigosos. No fim de dois anos, Joabe resolveu efetuar a reconciliação entre o pai e o filho. E com este objetivo em vista conseguiu os serviços de uma mulher de Tecoa, afamada pela sua sabedoria. Instruída por Joabe, a mulher se fez passar a Davi por uma viúva, cujos dois filhos tinham sido sua única consolação e apoio. Em uma rixa, um destes matou o outro, e agora todos os parentes da família exigiam que o sobrevivente fosse entregue ao vingador do sangue. "Assim", disse a mãe, "apagarão a brasa que me ficou, de sorte que não deixam a meu marido nome, nem resto sobre a Terra." II Sam. 14:7. Os sentimentos do rei foram tocados com esse apelo, e ele assegurou à mulher a proteção real para seu filho.

Depois de arrancar dele repetidas promessas pela segurança do jovem, impetrou a clemência do rei, declarando que ele falara como alguém em falta, por não ter mandado buscar de volta para casa o seu exilado. "Porque", disse ela, "certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais: Deus, pois, lhe não tirará a vida, mas ideará pensamentos, para que se não desterre dEle o Seu desterrado." II Sam. 14:14. Este quadro terno e tocante do amor de Deus para com o pecador, vindo, como veio, de Joabe, o rude soldado, é uma prova notável da familiaridade dos israelitas com as grandes verdades da redenção. O rei, sentindo sua própria necessidade da misericórdia de

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Deus, não pôde resistir a este apelo. A Joabe foi dada a ordem: "Vai, pois, e torna a trazer o mancebo Absalão."

A Absalão foi permitido voltar a Jerusalém, mas não para comparecer à corte, ou encontrar seu pai. Davi tinha começado a ver os maus efeitos de sua condescendência para com os filhos; e embora amasse com ternura esse belo e prendado filho, achou necessário que, como uma lição tanto a Absalão como ao povo, fosse manifesta aversão por esse crime. Absalão viveu dois anos em sua própria casa, mas banido da corte. Sua irmã morava com ele, e sua presença conservava viva a lembrança do mal irreparável que sofrera. Na apreciação popular, o príncipe era um herói, em vez de um transgressor. E, tendo esta vantagem, pôs-se a conquistar o coração do povo. Sua aparência pessoal era de tal maneira que captava a admiração de todos os que o viam. "Não havia, porém, em todo o Israel homem tão belo e tão aprazível como Absalão; desde a planta do pé até à cabeça não havia nele defeito algum." II Sam. 14:21 e 25. Não era prudente, da parte do rei, deixar um homem do caráter de Absalão - ambicioso, impulsivo e apaixonado - a acalentar durante dois anos supostas ofensas. E o ato de Davi, permitindo-lhe voltar a Jerusalém e contudo recusando-se a admiti-lo em sua presença, alistou as simpatias do povo a seu favor.

Tendo sempre diante de si a lembrança de sua própria transgressão à lei de Deus, Davi parecia moralmente paralisado; era fraco e irresoluto, quando antes de seu pecado era corajoso e decidido. Sua influência junto ao povo se havia enfraquecido. E tudo isto favorecia os planos de seu filho desnaturado. Mediante a influência de Joabe, Absalão foi de novo admitido à presença de seu pai; mas, embora houvesse uma reconciliação externa, continuou ele com seus projetos ambiciosos. Assumiu agora uma condição quase régia, tendo carros e cavalos, e cinqüenta homens para correrem diante dele. E, enquanto o rei mais e mais se inclinava a desejar o retiro e a solidão, Absalão cortejava assiduamente o favor popular.

A influência da indiferença e irresolução de Davi estendeu-se a seus subordinados; a negligência e a demora caracterizavam a administração da justiça. Absalão ardilosamente mudava cada causa de descontentamento em proveito próprio. Dia após dia este homem de semblante nobre podia ser visto à porta da cidade, onde uma multidão de suplicantes esperava a fim de Pág. 730

apresentar suas queixas e receber justiça. Absalão misturava-se com eles, e escutava seus agravos, exprimindo simpatia pelos seus sofrimentos, e pesar pela ineficiência do governo. Tendo assim ouvido a história de um homem de Israel, o príncipe replicava: "Os teus negócios são bons e retos, porém não tens quem te ouça da parte do rei"; e acrescentava: "Ah, quem me dera ser juiz na Terra! para que viesse a mim todo homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça. Sucedia também que, quando alguém se achegava a ele para se inclinar diante dele, ele estendia a sua mão, e pegava dele, e o beijava."

Fomentado pelas artificiosas insinuações do príncipe, o descontentamento com o governo estava-se espalhando rapidamente. O elogio a Absalão estava nos lábios de todos. Era geralmente considerado como herdeiro do reino; o povo olhava para ele com orgulho, como sendo digno deste elevado cargo, e acendeu-se o desejo de que ele ocupasse o trono.

"Assim furtava Absalão o coração dos homens de Israel." II Sam. 15:4-6. No entanto, o rei, cego pelo afeto para com seu filho, de nada suspeitava. A condição principesca que Absalão havia assumido, era considerada por Davi como tendo em vista honrar a sua corte, ou seja, como uma expressão de alegria pela reconciliação.

Estando preparada a mente do povo para o que havia de seguir-se, Absalão secretamente enviou homens escolhidos por todas as tribos, a fim de combinar as necessárias providências para uma revolta. E agora o manto da devoção religiosa foi tomado para esconder seus intuitos traidores. Um voto feito muito tempo antes, quando ele estava no desterro, devia ser cumprido em Hebrom. Absalão disse ao rei: "Deixa-me ir pagar em Hebrom o meu voto que votei ao Senhor. Porque, morando eu em Gesur, em Síria, votou o teu servo um voto, dizendo: Se o Senhor outra vez me fizer tornar a Jerusalém, servirei ao Senhor." Então o extremoso pai, reconfortado com esta prova de piedade em seu filho, despediu-o com sua bênção. A conspiração estava agora completamente amadurecida. O ato final de Absalão, inspirado na hipocrisia, destinava-se não somente a cegar o rei, mas estabelecer a confiança do povo, e assim levar este à rebelião contra o rei que Deus escolhera. Absalão partiu para Hebrom, e foram com ele de Jerusalém "duzentos homens convidados, porém iam na sua simplicidade, porque nada sabiam daquele negócio". II Sam. 14:7-11. Estes homens iam com Absalão, mal imaginando que seu amor pelo filho os estava levando à rebelião contra o pai. Chegando em Hebrom, Absalão

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imediatamente chamou Aitofel, um dos principais conselheiros de Davi, homem de grande fama por sua sabedoria, cuja opinião se julgava ser tão segura e prudente como a de um oráculo. Aitofel aderiu aos conspiradores, e seu apoio fez com que parecesse certo o êxito à causa de Absalão, atraindo sob sua bandeira muitos homens de influência de todas as partes do país. Soando a trombeta de revolta, os espias do príncipe por todo o país espalharam a notícia de que Absalão era rei, e muitos do povo a ele se uniram.

Entrementes foi levado o alarme a Jerusalém, ao rei. Davi despertou-se de súbito, para ver a rebelião irrompendo junto a seu trono. Seu próprio filho, aquele filho que ele amara e em quem confiara, estivera a conspirar para lhe tomar a coroa, e sem dúvida para lhe tirar a vida. Em seu grande perigo, Davi sacudiu a depressão que durante tanto tempo sobre ele repousava, e com o espírito de seus primeiros anos preparou-se para enfrentar esta terrível emergência. Absalão estava arregimentando suas forças, em Hebrom, afastada apenas trinta quilômetros. Os rebeldes logo estariam às portas de Jerusalém. De seu palácio, Davi olhava para a sua capital - formosa de sítio, e "alegria de toda a Terra, ... a cidade do grande Rei". Sal. 48:2. Estremecia ao pensamento de expô-la à carnificina e devastação. Deveria chamar em seu auxílio os súditos ainda fiéis ao seu trono, e assumir posição para manter sua capital? Deveria permitir que Jerusalém fosse inundada de sangue? Sua decisão estava tomada. Os horrores da guerra não deveriam recair sobre a cidade escolhida. Ele sairia de Jerusalém, e então provaria a fidelidade de seu povo, dando-lhes oportunidade para se arregimentarem em seu apoio. Nesta grande crise, era seu dever a Deus e a seu povo manter a autoridade de que o Céu o investira. O desenlace do conflito ele confiaria a Deus.

Com humildade e tristeza, Davi saiu pela porta de Jerusalém, repelido de seu trono, de seu palácio, da arca de Deus, pela insurreição de seu querido filho. O povo acompanhou-o em um séquito longo e triste, semelhante a um cortejo fúnebre. A guarda pessoal de Davi, constituída pelos quereteus, peleteus, e por seiscentos geteus de Gate, sob o comando de Itai, acompanhou o rei. Mas Davi, com sua abnegação característica, não pôde consentir que esses estrangeiros que tinham procurado sua proteção se envolvessem em sua calamidade. Exprimiu surpresa de que estivessem dispostos a fazer tal sacrifício por ele. Então disse o rei

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a Itai, o geteu: "Por que irias tu também conosco? Volta, e fica-te com o rei, porque estranho és, e também te tornarás a teu lugar. Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a caminhar? Pois força me é ir aonde quer que puder ir; volta, pois, e torna a levar teus irmãos contigo, com beneficência e fidelidade."

Itai respondeu: "Vive o Senhor, e vive o rei meu senhor, que no lugar em que estiver o rei meu senhor, seja para morte seja para vida, aí certamente estará também o teu servidor." Estes homens tinham-se convertido do paganismo ao culto de Jeová, e nobremente provaram agora sua fidelidade a seu Deus e a seu rei. Davi, com coração grato, aceitou a dedicação deles à sua causa, que aparentemente ia abaixo, e todos passaram o ribeiro de Cedrom, a caminho do deserto. De novo o cortejo parou. Um grupo trajado de vestes santas vinha se aproximando. "Eis que também Zadoque ali estava, e com ele todos os levitas que levavam a arca do concerto de Deus." II Sam. 15:19-21 e 24. Os seguidores de Davi olharam para isto como um feliz sinal. A presença daquele símbolo sagrado era para eles um penhor de seu livramento e vitória final. Infundiria coragem ao povo para que se arregimentasse junto ao rei. A ausência da mesma em Jerusalém acarretaria terror aos partidários de Absalão.

À vista da arca, a alegria e a esperança por um breve momento fizeram fremir o coração de Davi. Mas logo outros pensamentos lhe vieram. Como aquele que fora designado para governar a herança de Deus, encontrava-se ele sob uma responsabilidade solene. Não o interesse pessoal, mas sim a glória de Deus e o bem de Seu povo deveriam ser objetivos preeminentes no espírito do rei de Israel. Deus, que habita entre os querubins, disse acerca de Jerusalém: "Este é o Meu repouso" (Sal. 132:14); e, sem autoridade divina, nem sacerdote nem rei tinha o direito de remover dali o símbolo de Sua presença. E Davi compreendeu que seu coração e sua vida deveriam estar em harmonia com os preceitos divinos, aliás a arca seria o meio para ocorrer desastre em vez de êxito. Seu grande pecado estava sempre diante dele. Reconhecia nesta conspiração o justo juízo de Deus. A espada que não deveria afastar-se de sua casa, fora desembainhada. Ele não sabia qual poderia ser o resultado da luta. Não lhe competia remover da capital da nação os estatutos sagrados que incorporavam a vontade de seu divino Soberano, os quais eram a constituição do reino e o fundamento de sua prosperidade. Pág. 735

Ele ordenou a Zadoque: "Torna a levar a arca de Deus à cidade; que, se achar graça nos olhos do Senhor, Ele me tornará a trazer para lá, e me deixará ver a ela e a sua habitação. Se, porém, disser assim: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça de mim como parecer bem aos Seus olhos." Davi acrescentou: "Não és tu porventura o vidente?" - homem designado por Deus para instruir o povo. "Torna, pois, em paz para a cidade, e convosco também vossos dois filhos, Aimaás, teu filho, e Jônatas, filho de Abiatar. Olhai que me demorarei nas campinas do deserto até que tenha novas vossas." II Sam. 15:25-28. Na cidade os sacerdotes poderiam prestar-lhe bom serviço, sabendo dos movimentos e intuitos dos rebeldes, e comunicando-os secretamente ao rei por seus filhos Aimaás e Jônatas. Voltando os sacerdotes a Jerusalém, uma sombra mais negra recaiu sobre a multidão que partia. Sendo seu rei fugitivo, sendo eles próprios rejeitados, abandonados mesmo pela arca de Deus, estava o futuro obscurecido de terror e maus prenúncios. "E subiu Davi pela subida das Oliveiras, subindo e chorando, e com a cabeça coberta, e caminhava com os pés descalços; e todo o povo que ia com ele cobria cada um a sua cabeça, e subiam chorando sem cessar. Então fizeram saber a Davi, dizendo: Também Aitofel está entre os que se conjuraram com Absalão." Novamente foi Davi obrigado a reconhecer em suas calamidades os resultados de seu próprio pecado. A deserção de Aitofel, o mais hábil e astuto dos dirigentes políticos, foi motivada pela vingança à desonra que sobreveio à família em virtude do dano feito a Bate-Seba, que era sua neta.

"Pelo que disse Davi: Ó Senhor, transtorna o conselho de Aitofel." II Sam. 15:30 e 31. Chegando ao cume do monte, o rei curvou-se em oração, lançando sobre Deus o fardo de sua alma, e suplicando humildemente a misericórdia divina. Sua oração pareceu ser de pronto respondida. Husai, o arquita, conselheiro sábio e hábil, que se mostrara amigo fiel de Davi, veio então a ele com as vestes rotas, e com terra sobre sua cabeça, para lançar sua sorte com o rei destronado e fugitivo. Davi viu, como por iluminação divina, que este homem, fiel e de coração veraz, era aquele de quem se necessitava para servir aos interesses do rei nos conselhos, na capital. Ao pedido de Davi, Husai voltou a Jerusalém para oferecer seus serviços a Absalão, e dissipar o astucioso conselho de Aitofel. Pág. 736

Com este raio de luz nas trevas, o rei e seus seguidores prosseguiram em seu caminho descendo a encosta oriental do Monte das Oliveiras, através de uma região inculta, rochosa e desolada, por entre quebradas bravias, e ao longo de caminhos pedregosos e íngremes, em direção ao Jordão. "E, chegando o rei Davi a Baurim, eis que dali saiu um homem da linhagem da casa de Saul, cujo nome era Simei, filho de Gera, e, saindo, ia amaldiçoando. E apedrejava com pedras a Davi, e a todos os servos do rei Davi, ainda que todo o povo e todos os valentes iam à sua direita e à sua esquerda. E, amaldiçoando-o Simei, assim dizia: Sai, sai, homem de sangue, e homem de Belial. O Senhor te deu agora a paga de todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado; já deu o Senhor o reino na mão de Absalão teu filho; e eis-te agora na tua desgraça, porque és um homem de sangue." II Sam. 16:5-8.

Na prosperidade de Davi, Simei não mostrara, quer por palavras quer por atos, que não era um súdito leal. Mas, na aflição do rei, este benjaminita revelou seu verdadeiro caráter. Honrara a Davi em seu trono, mas amaldiçoara-o em sua humilhação. Vil e egoísta, olhava aos outros como sendo do mesmo caráter que ele, e, inspirado por Satanás, saciava seu ódio naquele a quem Deus castigara. O espírito que leva o homem a triunfar sobre alguém que está em aflição, a ultrajá-lo e angustiá-lo, é o espírito de Satanás.

As acusações de Simei contra Davi eram inteiramente falsas - uma calúnia vil e perversa. Davi não fora culpado de mal a Saul ou à sua casa. Quando Saul estava inteiramente em seu poder, e o poderia ter matado, simplesmente cortou a franja de sua veste, e censurou a si próprio por mostrar mesmo este desrespeito pelo ungido do Senhor.

Do respeito sagrado de Davi pela vida humana, prova notável fora dada, mesmo quando ele próprio era perseguido como animal feroz. Um dia, quando se achava escondido na caverna de Adulão, volvendo-se seus pensamentos à imperturbável liberdade de sua vida de rapaz, exclamou o fugitivo: "Quem me dera beber da água da cisterna de Belém, que está junto à porta!" Belém estava naquele tempo nas mãos dos filisteus; mas três homens valorosos do grupo de Davi romperam através da guarda, e trouxeram da água de Belém a seu senhor. Davi não a pôde beber. "Guarda-me, ó Senhor", exclamou ele, "de que tal faça; beberia eu o sangue dos homens que foram a Pág. 737

risco da sua vida?" II Sam. 23:13-17. E ele reverentemente derramou a água como oferta a Deus. Davi tinha sido um homem de guerra, e grande parte de sua vida fora despendida entre cenas de violência; mas, de todos os que passaram por essa prova, não muitos, em verdade, foram tão pouco afetados pela sua influência insensibilizadora e desmoralizadora, como o foi Davi. Abisai, sobrinho de Davi, um dos mais valentes dos seus capitães, não pôde escutar com paciência as palavras insultantes de Simei. "Por que amaldiçoaria este cão morto ao rei meu senhor?" exclamou ele. "Deixa-me passar, e lhe tirarei a cabeça." Mas o rei proibiu-lho. "Eis que meu filho", disse ele, "procura a minha morte; quanto mais ainda este benjamita? Deixai-o, que amaldiçoe; porque o Senhor lho disse. Porventura o Senhor olhará para a minha miséria, e o Senhor me pagará com bem a sua maldição deste dia." II Sam. 16:9-12.

A consciência estava a proferir verdades amargas e humilhantes a Davi. Enquanto seus súditos fiéis se admiravam com a sua súbita mudança de sorte, não era isto mistério para o rei. Ele muitas vezes tivera pressentimentos de uma hora como aquela. Admirara-se de que Deus tivesse tanto tempo suportado seus pecados, e retardado o castigo merecido. E agora, em sua fuga precipitada e triste, com os pés descalços, com as vestes reais mudadas em saco, com as lamentações dos que o acompanhavam a despertar os ecos das colinas, pensava ele em sua amada capital - o lugar que fora o cenário de seu pecado; e, lembrando-se da bondade e longanimidade de Deus, não estava inteiramente sem esperança. Sentia que o Senhor ainda o trataria com misericórdia. Muito malfeitor tem desculpado seu pecado, apontando para a queda de Davi; mas, quão poucos há que manifestam o arrependimento e a humildade de Davi! Quão poucos suportam a reprovação e o castigo, com a paciência e coragem que ele manifestou! Confessara seu pecado, e durante anos procurara cumprir seu dever como fiel servo de Deus; trabalhara para o reerguimento de seu reinado, e sob seu governo este atingira a uma força e prosperidade jamais alcançadas antes. Reunira grandes suprimentos de materiais para a edificação da casa de Deus; e agora deveria todo o trabalho de sua vida ser dissipado? Deveriam os resultados de anos de uma labuta consagrada, de trabalho criativo, dedicação, aptidão de estadista, passar para as mãos de seu filho descuidado e traidor, que não tinha consideração pela

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honra de Deus nem pela prosperidade de Israel? Quão natural teria parecido murmurar Davi contra Deus nesta grande aflição!

Mas ele viu a causa de sua inquietação em seu próprio pecado. Das palavras do profeta Miquéias transpira o espírito que animava o coração de Davi. "Se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz. Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra Ele, até que julgue a minha causa, e execute o meu direito." Miq. 7:8 e 9. E o Senhor não abandonou Davi. Este capítulo de sua experiência, em que sob o mais cruel dano e insulto, ele se mostra humilde, abnegado, generoso e submisso, é um dos mais nobres em toda a sua experiência. Nunca foi o governador de Israel com mais verdade grande à vista do Céu do que nesta hora de sua mais profunda humilhação exterior. Tivesse Deus permitido que Davi continuasse em pecado sem ser condenado, e permanecesse em paz e prosperidade em seu trono enquanto transgredia os preceitos divinos, e os céticos e incrédulos teriam motivo para citar a história de Davi como mácula à religião da Bíblia. Mas, na experiência por que Ele fez Davi passar, o Senhor mostra que não pode tolerar nem desculpar o pecado. E a história de Davi nos habilita a ver também o grande objetivo que Deus tem em vista com Seu trato com o pecado; habilita-nos a divisar, mesmo através dos mais tenebrosos juízos, a realização de Seus intuitos de misericórdia e beneficência. Ele fez Davi passar pela vara, mas não o destruiu; a fornalha é para purificar, mas não para consumir. Diz o Senhor: "Se profanarem os Meus preceitos, e não guardarem os Meus mandamentos, então visitarei com vara a sua transgressão, e a sua iniqüidade com açoites. Mas não retirarei totalmente dele a Minha benignidade, nem faltarei à Minha fidelidade." Sal. 89:31-33. Logo depois que Davi saiu de Jerusalém, Absalão e seu exército entraram, e sem qualquer luta tomaram posse da fortaleza de Israel. Husai achou-se entre os primeiros a saudar o novo rei; e o príncipe ficou surpreso e satisfeito com a aquisição do velho amigo e conselheiro de seu pai. Absalão estava confiante no êxito. Até ali seus planos tinham sido bem-sucedidos, e, ansioso por fortalecer o trono e conseguir a confiança da nação, recebeu com alegria a Husai em sua corte. Absalão estava agora cercado de uma grande força; mas esta era pela maior parte constituída de homens inexperientes na guerra. Ainda não tinham sido levados em conflito. Aitofel bem sabia Pág. 739

que a situação de Davi estava longe de ser desesperadora. Uma grande parte da nação ainda estava fiel a ele; estava rodeado de guerreiros experimentados, que eram fiéis ao seu rei, e seu exército era comandado por generais hábeis e experientes. Aitofel sabia que, depois da primeira explosão de entusiasmo em favor do novo rei, viria uma reação. Caso falhasse a revolta, Absalão poderia ser capaz de conseguir reconciliação com seu pai; então Aitofel, como seu principal conselheiro, seria tido na conta do mais culpado pela rebelião; sobre ele recairia o mais severo castigo. Para impedir que Absalão retrocedesse, Aitofel o aconselhou a um ato que, aos olhos da nação inteira, tornaria impossível a reconciliação. Com engano infernal, este estadista, astuto e sem escrúpulos, insistiu com Absalão para acrescentar o crime de incesto ao de rebelião. À vista de todo o Israel deveria tomar para si as concubinas de seu pai, segundo o costume das nações orientais, declarando assim que sucedia a seu pai no trono. E Absalão levou a efeito a vil sugestão. Assim, cumpriu-se a palavra de Deus a Davi, pelo profeta: "Eis que suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo. ... Porque tu o fizeste em oculto, mas Eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o Sol." II Sam. 12:11 e 12. Não que Deus instigasse tais atos de impiedade; mas, por causa do pecado de Davi, Ele não exerceu Seu poder para os impedir. Aitofel fora tido em grande estima pela sua sabedoria, mas era destituído do esclarecimento que vem de Deus. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Prov. 9:10); e este, Aitofel não possuía, aliás dificilmente poderia ter baseado o êxito da traição no crime de incesto. Homens de coração corrupto tramam a impiedade, como se não houvesse Providência a dirigir superiormente as coisas, a fim de obstar seus desígnios; mas "Aquele que habita nos Céus se rirá; o Senhor zombará deles." Sal. 2:4. O Senhor declara: "Não quiseram o Meu conselho e desprezaram toda a Minha repreensão. Portanto comerão do fruto do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus próprios conselhos. Porque o desvio dos simples os matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá." Prov. 1:30-32. Tendo tido êxito na trama destinada a conseguir sua segurança, Aitofel insistiu com Absalão sobre a necessidade de ação imediata contra Davi. "Deixa-me escolher doze mil homens", disse Pág. 740

Continuar: parte 3 de 4