Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 9 de 9 · parte 3/4

Páginas do PDF

Patriarcas e Profetas

censura inflamara-se em seu peito, e resolveu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

ele, "e me levantarei, e seguirei após Davi esta noite. E irei sobre ele, pois está cansado e fraco das mãos; e o espantarei, e fugirá todo o povo que está com ele; e então ferirei o rei só. E farei tornar a ti todo o povo." Este plano foi aprovado pelos conselheiros do rei. Caso houvesse sido seguido, certamente Davi teria sido morto, a menos que o Senhor interviesse diretamente para o salvar. Uma sabedoria mais elevada, porém, do que a do afamado Aitofel, estava a dirigir os acontecimentos. "O Senhor o ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aitofel, para que o Senhor trouxesse o mal sobre Absalão." II Sam. 17:1-3 e 14.

Husai não fora chamado ao conselho, e não se intrometeria sem que isto lhe fosse pedido, receoso de vir sobre si a suspeita de ser espião; mas, depois que se dispersou a assembléia, Absalão, que tinha grande consideração pelo juízo do conselheiro de seu pai, submeteu à sua apreciação o plano de Aitofel. Husai viu, que, se o plano proposto fosse seguido, Davi estaria perdido. E disse: "O conselho que Aitofel esta vez aconselhou não é bom. Disse mais Husai: Bem conheces a teu pai, e a seus homens, que são valorosos, e que estão com o espírito amargurado, como a ursa no campo, roubada dos cachorros; também teu pai é homem de guerra, e não passará a noite com o povo. Eis que agora está escondido nalguma cova, ou em qualquer outro lugar"; ele argumentava que, se as forças de Absalão perseguissem a Davi, não fariam prisioneiro ao rei; e, se sofressem um revés, isto tenderia a desanimá-las, e faria grande mal à causa de Absalão. "Porque", disse ele, "todo o Israel sabe que teu pai é valoroso, e homens valentes os que estão com ele." E sugeriu um plano atraente pela sua natureza vaidosa e egoísta, propenso à exibição de poder: "Eu, porém, aconselho que com toda a pressa se ajunte a ti todo o Israel desde Dã até Berseba, e multidão como areia do mar; e que tu em pessoa vás à peleja. Então iremos a ele, em qualquer lugar que se achar, e facilmente viremos sobre ele, como o orvalho cai sobre a terra; e não ficará dele e de todos os homens que estão com ele nem ainda um só. E, se ele se retirar para alguma cidade, todo o Israel trará cordas àquela cidade, e arrastá-la-emos até ao ribeiro, até que não se ache ali nem uma só pedrinha. Pág. 741

"Então disse Absalão a todos os homens de Israel: Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que o conselho de Aitofel." II Sam. 17:10-14. Mas houve um que não foi enganado - um que previu claramente o resultado deste erro fatal de Absalão. Aitofel compreendeu que a causa dos rebeldes estava perdida. E viu que, qualquer que pudesse ser a sorte do príncipe, não havia esperança para o conselheiro que instigara os seus maiores crimes. Aitofel havia animado Absalão na rebelião; aconselhara-o à mais abominável impiedade, à desonra de seu pai; sugerira a morte de Davi, e fizera os planos para a sua realização; suprimira a última possibilidade de reconciliação com o rei; e agora outro era preferido a ele, mesmo por Absalão. Cheio de inveja, irado, e desesperado, Aitofel "foi para sua casa e para a sua cidade, e pôs em ordem a sua casa, e se enforcou, e morreu". II Sam. 17:23. Tal foi o resultado da sabedoria de quem, com todos os seus elevados dotes, não fez de Deus o seu conselheiro. Satanás engoda os homens com promessas lisonjeiras; mas no fim será descoberto por toda alma que "o salário do pecado é a morte". Rom. 6:23.

Husai, não tendo certeza de que seu conselho seria seguido pelo versátil rei, não perdeu tempo em avisar Davi para que escapasse para além do Jordão, sem demora. Husai enviou esta mensagem aos sacerdotes, os quais deveriam transmiti-la por seus filhos: "Assim e assim aconselhou Aitofel a Absalão e aos anciãos de Israel; porém assim e assim aconselhei eu. Agora, pois... não passes esta noite nas campinas do deserto, mas passa depressa à outra banda, para que o rei e todo o povo que com ele está não seja devorado." II Sam. 17:15 e 16.

Houve suspeitas contra os moços, e foram perseguidos; todavia conseguiram levar a efeito sua perigosa missão. Davi, fatigado pelas labutas e mágoas depois daquele primeiro dia de fuga, recebeu a mensagem de que deveria atravessar o Jordão naquela noite, pois que seu filho procurava sua vida. Quais seriam os sentimentos daquele pai e rei, tão cruelmente ultrajado, neste perigo terrível? Como homem valoroso, homem de guerra, e rei, cuja palavra era lei, traído por seu filho, a quem amara, com quem fora condescendente, e em quem imprudentemente confiara; ofendido e abandonado pelos súditos que a ele estavam ligados pelos mais fortes laços de honra e lealdade - com que palavras derramou Davi os sentimentos de sua alma? Na hora de sua mais negra prova, o coração de Davi estava firme em Deus, e ele cantou:

Pág. 742

"Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários! São muitos os que se levantam contra mim.

Muitos dizem da minha alma:

Não há salvação para ele em Deus.

Mas Tu, Senhor, és um escudo para mim,

A minha glória, e o que exalta a minha cabeça.

Com a minha voz clamei ao Senhor,

Ele ouviu-me desde o Seu santo monte.

Eu me deitei e dormi;

Acordei, porque o Senhor me sustentou.

Não terei medo de dez milhares de pessoas

Que se puseram contra mim ao meu redor. ...

A salvação vem do Senhor;

Sobre o Teu povo seja a Tua bênção." Sal. 3:1-8.

Davi e todo o seu grupo - guerreiros e estadistas, velhos e jovens, mulheres e crianças - nas trevas da noite atravessaram o rio profundo e correntoso. "Pela luz da manhã nem ainda faltava um só que não passasse o Jordão." II Sam. 17:22.

Davi e sua força recuaram a Maanaim, que tinha sido a sede real de Isbosete. Esta era uma cidade poderosamente fortificada, rodeada de uma região montanhosa, favorável à retirada em caso de guerra. O território era bem provido, e o povo era amigo da causa de Davi. Ali muitos partidários se uniram a ele, enquanto abastados chefes de tribos vizinhas traziam abundantes presentes de provisões, e outros suprimentos necessários.

O conselho de Husai conseguira seu objetivo, obtendo para Davi oportunidade para escapar; mas o príncipe, precipitado e impetuoso, não pôde por muito tempo ser restringido, e logo se pôs em perseguição de seu pai. "E Absalão passou o Jordão, ele e todo o homem de Israel com ele." II Sam. 17:24. Absalão constituiu comandante-geral de suas forças a Amasa, filho de Abigail, irmã de Davi. Seu exército era grande, mas indisciplinado, e mal preparado para competir com os soldados experimentados de seu pai.

Davi dividiu suas forças em três batalhões sob o comando de Joabe, Abisai, e Itai, o geteu. Tinha sido seu propósito conduzir ele mesmo seu exército ao campo; mas contra isto os oficiais do exército, os conselheiros e o povo veemente protestaram. "Não sairás", disseram, "porque, se formos obrigados a fugir, não porão o coração em nós; e, ainda que metade de nós morra, não Pág. 743

porão o coração em nós, porque ainda, tais como nós somos, ajuntarás dez mil. Melhor será, pois, que da cidade nos sirvas de socorro. Então Davi lhes disse: O que bem parecer aos vossos olhos, farei." II Sam. 18:3 e 4.

Dos muros da cidade, as longas fileiras do exército rebelde estavam bem à vista. O usurpador era acompanhado de uma hoste vasta, em comparação com a qual a força de Davi não parecia senão um punhado. Mas, olhando o rei para as forças oponentes, o pensamento máximo em seu espírito não era a coroa e o reino, nem sua própria vida, que dependia da ação da batalha. O coração do pai estava cheio de amor e compaixão para com seu filho rebelde. Saindo em fileiras o exército pelas portas da cidade, Davi animou os seus fiéis soldados, mandando-lhes que saíssem confiantes em que o Deus de Israel lhes daria a vitória. Mas mesmo agora ele não pôde reprimir seu amor para com Absalão. Quando Joabe, o vencedor em cem campos de batalha, conduzindo a primeira coluna, passou pelo seu rei, curvou a altiva cabeça para ouvir sua última mensagem, que dizia com voz trêmula: "Brandamente tratai por amor de mim ao mancebo, a Absalão." E Abisai e Itai receberam a mesma incumbência: "Brandamente tratai por amor de mim ao mancebo, a Absalão." Mas a solicitude do rei, parecendo declarar que Absalão lhe era mais caro do que seu reino, e mais caro mesmo do que os súditos fiéis ao seu trono, apenas aumentou a indignação dos soldados contra o filho desnaturado. O local da batalha foi um bosque próximo do Jordão, em que o grande número do exército de Absalão apenas lhe era uma desvantagem. Por entre os pontos espessos e os pantanais da floresta, aquelas tropas indisciplinadas se tornaram confusas e não mais podiam ser dirigidas. E "foi ferido o povo de Israel, diante dos servos de Davi; e naquele mesmo dia houve ali uma grande derrota de vinte mil". II Sam. 18:5 e 7. Absalão, vendo que era perdida a causa, voltara-se para fugir, quando a cabeça lhe foi apanhada entre os ramos de uma árvore larga; e, saindo seu mulo de debaixo dele, foi deixado desamparadamente suspenso, como presa a seus inimigos. Em tal condição foi encontrado por um soldado, que, de medo de desagradar o rei, poupou Absalão, mas referiu a Joabe o que vira. Joabe não se restringiu por quaisquer escrúpulos. Havia favorecido a Absalão, tendo duas vezes conseguido sua reconciliação com Davi; e a confiança assim manifesta para com ele fora vergonhosamente traída. Se não fossem as vantagens alcançadas por Absalão mediante a intercessão de Joabe, esta rebelião, Pág. 744

com todos os seus horrores, jamais poderia ter ocorrido. Agora estava nas mãos de Joabe destruir com um golpe o instigador de todo este mal. "E tomou três dardos, e traspassou com ele o coração de Absalão. ... E tomaram a Absalão, e o lançaram no bosque, numa grande cova, e levantaram sobre ele um mui grande montão de pedras."

Assim pereceram os instigadores da rebelião em Israel. Aitofel morrera pela sua própria mão. O príncipe Absalão, cuja gloriosa beleza fora o orgulho de Israel, foi eliminado no vigor da juventude, sendo seu cadáver arremessado em uma cova, e coberto com um monte de pedras, em sinal de ignomínia eterna. Em vida, construíra Absalão para si um custoso monumento no vale do rei; mas a única lembrança que assinalou a sua sepultura foi o monte de pedras no deserto. Morto o chefe da rebelião, Joabe chamou novamente seu exército, ao som da trombeta, da perseguição à hoste fugitiva, e logo foram expedidos mensageiros para levarem a notícia ao rei. A sentinela sobre o muro da cidade, olhando para o campo de batalha, descobriu um homem a correr sozinho. Logo um segundo veio a ser visto. Aproximando-se o primeiro, o atalaia disse ao rei, que estava a esperar junto à porta: "Vejo o correr do primeiro, que parece ser o correr de Aimaás, filho de Zadoque. Então disse o rei: Este é homem de bem, e virá com boas novas. Gritou pois Aimaás, e disse ao rei: Paz. E inclinou-se ao rei com o rosto em terra, e disse: Bendito seja o Senhor, que entregou os homens que levantaram a mão contra o rei meu senhor." À ansiosa pergunta do rei: "Vai bem com o mancebo, com Absalão?" Aimaás deu uma resposta evasiva. O segundo mensageiro chegou, clamando: "Anunciar-se-á ao rei meu senhor que hoje o Senhor te vingou da mão de todos os que se levantaram contra ti." Novamente veio dos lábios do pai a pergunta que o absorvia: "Vai bem com o mancebo, com Absalão?" Sem poder esconder a triste notícia, o arauto respondeu: "Sejam como aquele mancebo os inimigos do rei meu senhor, e todos os que se levantam contra ti para mal." Era bastante. Davi não fez mais perguntas, mas com a cabeça baixa "subiu à sala que estava por cima da porta, e chorou; e andando, dizia assim: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!" II Sam. 18:14-33. O exército vitorioso, voltando do campo de batalha, aproximou-se da cidade, despertando suas aclamações de triunfo ecos nas colinas. Mas, ao entrarem pelas portas da cidade, findaram-se as aclamações, arrearam-se as bandeiras, e com o olhar baixo Pág. 745

avançaram mais como os que sofreram derrota do que como vencedores; porque o rei não os estava esperando a fim de dar-lhes boas-vindas, mas do quarto em cima da porta ouvia-se o clamor de seu pranto: "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!" II Sam. 18:33.

"Então a vitória se tornou naquele mesmo dia em tristeza para todo o povo, porque naquele mesmo dia o povo ouvira dizer: Mui triste está o rei por causa de seu filho. E aquele mesmo dia o povo entrou às furtadelas na cidade, como o povo de vergonha se escoa quando foge da peleja." II Sam. 19:2 e 3. Joabe ficou cheio de indignação. Deus lhes dera motivo de triunfo e alegria; a maior rebelião que já fora conhecida em Israel tinha sido suprimida; e no entanto esta grande vitória se transformara em lamentação por aquele cujo crime custara o sangue de milhares de bravos. O rude e áspero capitão encaminhou-se para a presença do rei, e disse com ousadia: "Hoje envergonhaste as caras de todos os teus servos, que livraram hoje a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, ... amando tu aos que te aborrecem, e aborrecendo aos que te amam. Porque hoje dás a entender que nada valem para contigo capitães e servos; porque entendo hoje que se Absalão vivesse, e todos nós hoje fôssemos mortos, então bem te parecera aos teus olhos. Levanta-te, pois, agora; sai, e fala conforme ao coração de teus servos. Porque pelo Senhor te juro que, se não saíres, nem um só homem ficará contigo esta noite; e maior mal te será isto do que todo o mal que tem vindo sobre ti desde a tua mocidade até agora." II Sam. 19:5-7.

Severa e mesmo cruel como foi a censura ao rei, ferido em seu coração, não se ressentiu Davi com a mesma. Vendo que seu general tinha razão, desceu à porta, e com palavras de coragem e aprovação saudou seus bravos soldados enquanto passavam diante dele. 73

Os Últimos Anos de Davi

Pág. 746

A subversão de Absalão não trouxe de pronto a paz ao reino. Havia-se unido à revolta uma parte tão grande da nação, que Davi não queria voltar à sua capital e reassumir sua autoridade sem um convite das tribos. Na confusão que se seguiu à derrota de Absalão, não houve ação pronta e decidida para chamar-se novamente o rei; e, quando finalmente Judá empreendeu fazer voltar a Davi, despertara-se a inveja de outras tribos, e seguiu-se uma contra-revolução. Esta, entretanto, foi rapidamente sufocada, e a paz voltou a Israel.

A história de Davi proporciona um dos mais impressionantes testemunhos que já foram dados quanto aos perigos que ameaçam a alma, provenientes do poderio, das riquezas e da honra do mundo - coisas estas que são as mais avidamente desejadas entre os homens. Poucos já têm passado por uma experiência mais bem adaptada a prepará-los para suportarem tal prova. A primeira parte da vida de Davi, como pastor, com suas lições de humildade, trabalho paciente e terno cuidado pelos seus rebanhos; a comunhão com a Natureza na solidão das colinas, desenvolvendo o seu gênio para a música e poesia, e dirigindo seus pensamentos ao Criador; a longa disciplina de sua vida no deserto, pondo em exercício a coragem, constância, paciência e fé em Deus, foi designada pelo Senhor como preparo para o trono de Israel. Davi desfrutara experiências preciosas do amor de Deus, e fora ricamente dotado do Seu Espírito; na história de Saul vira a completa inutilidade da mera sabedoria humana. E, todavia, o êxito e a honra mundanos de tal maneira enfraqueceram o caráter de Davi que ele foi repetidas vezes vencido pelo tentador.

Relações com os povos pagãos determinaram o desejo de seguir seus costumes nacionais, e despertaram a ambição das grandezas mundanas. Como o povo de Jeová deveria Israel ser honrado; mas, aumentando o orgulho e a confiança em si mesmos, Pág. 747

os israelitas não estavam satisfeitos com esta distinção. Preocupavam-se de preferência com sua posição entre as outras nações. Tal espírito não poderia deixar de convidar à tentação. Com o objetivo de estender suas conquistas entre as nações estrangeiras, resolveu Davi aumentar seu exército, exigindo trabalho militar de todos os que estivessem em idade conveniente. Para levar isto a efeito, tornou-se necessário fazer o censo da população. Foram o orgulho e a ambição que motivaram este ato do rei. A contagem do povo mostraria o contraste entre a fraqueza do reino quando Davi subiu ao trono, e sua força e prosperidade sob seu governo. Isto teria a tendência de fomentar ainda mais a confiança em si mesmo, que já era grande, tanto do rei como do povo. Dizem as Escrituras: "Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel." I Crôn. 21. A prosperidade de Israel sob o governo de Davi fora devida à bênção de Deus, em vez de atribuível à habilidade do rei ou à força de seus exércitos. Mas o aumento dos recursos militares do reino daria às nações circunvizinhas a impressão de que a confiança de Israel estava em seus exércitos, e não no poder de Jeová. Embora o povo de Israel tivesse orgulho de sua grandeza nacional, não olhavam com aprovação o plano de Davi, de estender tão grandemente o serviço militar. O alistamento proposto causou muito descontentamento; conseqüentemente, julgou-se necessário empregarem-se os oficiais militares em lugar dos sacerdotes e magistrados, que haviam anteriormente levantado o censo. O objetivo deste empreendimento era diretamente contrário aos princípios de uma teocracia. Mesmo Joabe objetou, embora sem escrúpulos como até ali se havia mostrado. Ele disse: "O Senhor acrescente ao Seu povo cem vezes tanto como é; porventura, ó rei meu senhor, não são todos servos do meu senhor? Por que procura isto o meu senhor? Por que seria isso causa de delito para com Israel? Porém a palavra do rei prevaleceu contra Joabe; pelo que saiu Joabe, e passou por todo o Israel; então voltou para Jerusalém." A contagem não estava terminada, quando Davi se convenceu de seu pecado. Condenando-se a si mesmo, "disse Davi a Deus: Gravemente pequei em fazer tal coisa; porém agora sê servido tirar a iniqüidade de Teu servo, porque obrei mui loucamente". I Crôn. 21:1-8.Na manhã seguinte foi levada uma mensagem a Davi, pelo profeta Gade: "Assim diz o Senhor: Escolhe para ti, ou três anos de fome, ou que três meses te consumas diante de teus adversários, e a espada de teus inimigos te alcance, ou que três

Pág. 748

dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor destruam todos os termos de Israel: vê, pois, agora", disse o profeta, "que resposta hei de levar a quem me enviou." I Crôn. 21:10-12. A resposta do rei foi: "Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as Suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu." II Sam. 24:14. A terra foi ferida com pestilência, que destruiu setenta mil em Israel. O açoite ainda não havia entrado na Capital, quando "levantando Davi os seus olhos, viu o anjo do Senhor, que estava entre a terra e o céu, com a espada desembainhada na sua mão estendida contra Jerusalém. Então Davi e os anciãos, cobertos de sacos, se prostraram sobre os seus rostos". O rei pleiteou com Deus a favor de Israel: "Não sou eu o que disse que se contasse o povo? E eu mesmo sou o que pequei, e fiz muito mal; mas estas ovelhas que fizeram? Ah! Senhor, meu Deus, seja a Tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai, e não para castigo de Teu povo."

O levantamento do censo causara descontentamento entre o povo; todavia eles próprios tinham acariciado os mesmos pecados que determinaram a ação de Davi. Assim como o Senhor pelo pecado de Absalão trouxe juízos sobre Davi, assim pelo erro de Davi Ele puniu os pecados de Israel. O anjo destruidor detivera-se em seu caminho fora de Jerusalém. Ele ficou sobre o Monte Moriá, "na eira de Ornã, jebuseu". Por indicação do profeta, Davi foi ao monte, e ali construiu um altar ao Senhor, "e ofereceu nele holocaustos e sacrifícios pacíficos; e invocou o Senhor, o qual lhe respondeu com fogo do céu sobre o altar do holocausto". I Crôn. 21:16-26. "Assim o Senhor Se aplacou para com a terra, cessou aquele castigo de sobre Israel." II Sam. 24:25.

O local em que o altar foi construído, e que dali em diante seria para sempre considerado terra santa, foi oferecido ao rei por Ornã, como presente. Mas o rei recusou-se a recebê-lo deste modo. "Pelo seu valor a quero comprar", disse ele; "porque não tomarei o que é teu, para o Senhor; para que não ofereça holocausto sem custo. E Davi deu a Ornã por aquele lugar o peso de seiscentos siclos de ouro." Esse local, memorável como o sítio em que

Pág. 749

Abraão construíra o altar para oferecer seu filho, e agora consagrado por este grande livramento, foi depois escolhido como o local do templo construído por Salomão. Ainda outra sombra deveria formar-se sobre o últimos anos de Davi. Ele atingira a idade de setenta anos. As dificuldades e situações perigosas por que passara em suas primitivas vagueações, suas muitas guerras, cuidados e aflições de seus últimos anos, haviam-lhe solapado a fonte da vida. Embora a mente retivesse sua clareza e força, a fraqueza e a idade, com seu desejo de recolhimento, impediam uma apreensão rápida do que se estava a passar no reino, e de novo surgiu a rebelião à própria sombra do trono. Outra vez se manifestou o fruto da condescendência paternal de Davi. Aquele que agora aspirava ao trono era Adonias, "mui formoso de parecer", em seu aspecto pessoal e em seu porte, mas sem escrúpulos e descuidado. Em sua juventude não estivera sujeito senão a poucas restrições; pois "nunca seu pai o tinha contrariado, dizendo: Por que fizeste assim?" I Reis 1:6. Agora ele se rebelou contra a autoridade de Deus, que havia designado Salomão ao trono. Tanto pelos dotes naturais como pelo caráter religioso, Salomão estava mais bem qualificado do que seu irmão mais velho, para tornar-se governador de Israel; contudo, se bem que a escolha de Deus tivesse sido claramente indicada, não deixou Adonias de encontrar quem o apoiasse. Joabe, embora culpado de muitos crimes, fora até ali fiel ao trono; mas agora aderiu à conspiração contra Salomão, como também o fizera o sacerdote Abiatar. A rebelião estava madura; os conspiradores tinham-se reunido em uma grande festa junto à cidade para proclamar Adonias como rei, quando seus planos foram transtornados pela ação pronta de pessoas fiéis, estado entre as principais o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, e Bate-Seba, mãe de Salomão. Representaram ao rei o estado em que se achavam as coisas, lembrando-o da determinação divina de que Salomão o sucedesse no trono. Davi de pronto abdicou em favor de Salomão, que imediatamente foi ungido e proclamado rei. Estava abafada a conspiração. Seus principais atores incorreram na pena de morte. A vida de Abiatar foi poupada, em atenção ao seu ofício e anterior fidelidade para com Davi; mas foi rebaixado da função de sumo sacerdote, que passou à linhagem de Zadoque. Joabe e Adonias foram poupados por algum tempo, mas depois da morte de Davi sofreram a pena Pág. 750 de seu crime. A execução da sentença sobre o filho de Davi completou o quádruplo juízo que testificou da aversão de Deus ao pecado do pai.

Desde o início mesmo do reinado de Davi, um dos seus mais acariciados planos fora construir um templo ao Senhor. Embora não lhe tivesse sido permitido executar este desígnio, não manifestou menos zelo e fervor em prol do mesmo. Provera abundância do mais valioso material: ouro, prata, pedra de ônix e pedras de diversas cores; mármore e as mais preciosas madeiras. E agora esses valiosos tesouros que juntara, deveriam ser confiados a outros; pois que outras mãos deveriam construir a casa para a arca - símbolo da presença de Deus.

Vendo que seu fim estava próximo, o rei convocou os príncipes de Israel, juntamente com homens de representação de todas as partes do reino, para receberem a incumbência deste legado. Desejava confiar-lhes sua última recomendação, e conseguir seu concurso e apoio na grande obra a ser realizada. Por causa de sua fraqueza física, não se esperava que ele assistisse pessoalmente àquela transferência de poderes; mas a inspiração de Deus veio sobre ele, e, com um fervor e poder maior do que lhe era usual, pôde, pela última vez, falar a seu povo. Falou-lhes de seu desejo de construir o templo, e da ordem do Senhor para que essa obra fosse entregue a Salomão, seu filho. A segurança divina era: "Teu filho Salomão, ele edificará a Minha casa e os Meus átrios, porque o escolhi para filho, e Eu lhe serei por pai. E estabelecerei o Meu reino para sempre, se perseverar em cumprir os Meus Mandamentos e os Meus juízos, como até ao dia de hoje." "Agora, pois", disse Davi, "perante os olhos de todo o Israel, a congregação do Senhor, e perante os ouvidos do nosso Deus, guardai e buscai todos os mandamentos do Senhor vosso Deus, para que possuais esta boa terra, e a façais herdar a vossos filhos depois de vós, para sempre." I Crôn. 28:6-8.

Davi aprendera por sua própria experiência quão duro é o caminho daquele que se afasta de Deus. Sentira a condenação da lei violada, e ceifara os frutos da transgressão; e toda a sua alma se agitava pela solicitude por que os dirigentes de Israel fossem fiéis a Deus, e Salomão obedecesse à lei de Deus, excluindo os pecados que enfraqueceram a autoridade de seu pai, amarguraram-lhe a vida, e desonraram a Deus. Davi sabia que

Pág. 751

seria necessário humildade de coração, confiança constante em Deus e incessante vigilância, para resistir às tentações que certamente assediariam Salomão em seu elevado cargo; pois que tais caracteres preeminentes são o alvo especial dos dardos de Satanás. Voltando-se a seu filho já reconhecido como seu sucessor no trono, disse Davi: "E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e serve-O com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o Senhor todos os corações, e entende todas as imaginações dos pensamentos. Se O buscares, será achado de ti; porém, se O deixares, rejeitar-te-á para sempre. Olha pois agora, porque o Senhor te escolheu para edificares uma casa para o santuário; esforça-te, e faze a obra." I Crôn. 28:9 e 10. Davi deu a Salomão instruções minuciosas para a construção do templo, juntamente com desenhos de todas as partes, e de todos os instrumentos empregados em seu serviço, conforme lhe fora revelado por inspiração divina. Salomão ainda era moço, e recuava ante o peso das responsabilidades que lhe recairiam com a construção do templo e governo do povo de Deus. Disse Davi a seu filho: "Esforça-te e tem bom ânimo, e obra; não temas, nem te apavores; porque o Senhor Deus, meu Deus, há de ser contigo; não te deixará, nem te desamparará." I Crôn. 28:20. De novo Davi apelou para congregação: "Salomão, meu filho, a quem só Deus escolheu, é ainda moço e tenro, e esta obra é grande; porque não é palácio para homem, senão para o Senhor Deus." Disse: "Com todas as minhas forças já tenho preparado para a casa de meu Deus"; e prosseguiu enumerando os materiais que juntara. E, mais ainda, disse: "E ainda, de minha própria vontade para a casa de meu Deus, o ouro e a prata particular que tenho de mais eu dou para a casa do meu Deus, afora tudo quanto tenho preparado para a casa do santuário; três mil talentos de ouro, do ouro de Ofir; e sete mil talentos de prata purificada, para cobrir as paredes das casas." "Quem, pois, está disposto", perguntou à multidão reunida, que trouxera suas dádivas liberais, "quem, pois, está disposto a encher a sua mão, para oferecer hoje voluntariamente ao Senhor?" I Crôn. 29:1-5. Houve uma pronta resposta da assembléia. "Os chefes dos pais, e os príncipes das tribos de Israel, e os capitães dos milhares e das centenas, até os capitães da obra do rei, voluntariamente contribuíram; e deram para o serviço da casa de Deus cinco mil talentos de ouro, e dez mil dracmas, e dez mil talentos de prata,

Pág. 752

e dezoito mil talentos de cobre, e cem mil talentos de ferro. E os que se acharam com pedras preciosas, as deram para o tesouro da casa do Senhor. ... O povo se alegrou do que deram voluntariamente; porque com coração perfeito voluntariamente deram ao Senhor; e também o rei Davi se alegrou com grande alegria.

"Pelo que Davi louvou ao Senhor perante os olhos de toda a congregação; e disse Davi: Bendito és Tu, Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eternidade em eternidade. Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque Teu é tudo quanto há nos céus e na Terra; Teu é, Senhor, o reino, e Tu Te exaltaste sobre todos como chefe. E riquezas e glória vêm de diante de Ti, e Tu dominas sobre tudo, e na Tua mão há força e poder; e na Tua mão está o engrandecer e dar força a tudo. Agora, pois, ó Deus nosso, graças Te damos, e louvamos o nome da Tua glória. Por que quem sou eu, e quem é o meu povo, que tivéssemos poder para tão voluntariamente dar semelhantes coisas? Porque tudo vem de Ti, e da Tua mão To damos. Porque somos estranhos diante de Ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a Terra, e não há outra esperança. Senhor, Deus nosso, toda esta abundância, que preparamos, para Te edificar uma casa ao Teu santo nome, vem da Tua mão, e toda é Tua. E bem sei eu, Deus meu, que Tu provas os corações, e que da sinceridade Te agradas.

"Eu também na sinceridade de meu coração voluntariamente dei todas estas coisas; e agora vi com alegria que o Teu povo, que se acha aqui, voluntariamente Te deu. Senhor, Deus de nossos pais Abraão, Isaque, e Israel, conserva isto para sempre no intento dos pensamentos do coração de Teu povo; e encaminha o seu coração para Ti. E a Salomão, meu filho, dá um coração perfeito, para guardar os Teus mandamentos, os Teus testemunhos, e os Teus estatutos; e para fazer tudo, e para edificar este palácio que tenho preparado. Então disse Davi a toda a congregação: Agora louvai ao Senhor vosso Deus. Então toda a congregação louvou ao Senhor Deus de seus pais, e inclinaram-se, e prostraram-se perante o Senhor." I Crôn. 29:6-20.

Com o mais profundo interesse o rei havia reunido o precioso material para a construção e embelezamento do templo. Tinha composto as gloriosas antífonas que nos anos posteriores ecoariam através de seus pátios. Agora seu coração se alegrava em Pág. 753

Deus, ao corresponderem tão nobremente ao seu apelo os chefes dentre os pais e os príncipes de Israel, e oferecendo-se eles para a importante obra que tinham diante de si. E, dando eles o seu serviço, ficaram dispostos a fazer mais. Avolumaram as ofertas, dando de suas próprias posses à tesouraria. Davi sentira profundamente sua indignidade para reunir o material para a casa de Deus; e a expressão de lealdade na resposta pronta dos nobres de seu reino, ao dedicarem eles com coração voluntário os seus tesouros a Jeová, e devotarem-se ao Seu serviço, encheu-o de alegria. Mas foi unicamente Deus que comunicara esta disposição a Seu povo. Ele, e não o homem, devia ser glorificado. Fora Ele que provera o povo com as riquezas da terra, e Seu Espírito tornara-os dispostos a trazerem suas coisas preciosas para o templo. Tudo era do Senhor; se Seu amor não tivesse movido o coração do povo, os esforços do rei teriam sido em vão, e o templo nunca se teria construído. Tudo que o homem recebe da generosidade de Deus, pertence ainda a Deus. O que quer que Deus tenha outorgado dentre as coisas valiosas e belas da Terra, é colocado nas mãos dos homens para os provar - a fim de sondar a profundidade de seu amor para com Ele e sua apreciação de Seus favores. Quer sejam tesouros de riqueza ou de intelecto, devem ser postos como sacrifício voluntário aos pés de Jesus, dizendo ao mesmo tempo o doador, como Davi: "Tudo vem de Ti, e da Tua mão To damos". I Crôn. 29:14.

Ao pressentir Davi que a morte se aproximava, o peso sobre o seu coração ainda era por Salomão e pelo reino de Israel, cuja prosperidade deveria em tão grande parte depender da fidelidade de seu rei. "E deu ele ordem a Salomão, seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem. E guarda a observância do Senhor teu Deus, para andares nos Seus caminhos, e para guardares os Seus estatutos, e os Seus mandamentos, e os Seus juízos, e os Seus testemunhos, ... para que prosperes em tudo quanto fizeres, para onde quer que te voltares. Para que o Senhor confirme a palavra, que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a Minha face fielmente, com todo o seu coração e com toda a sua alma, nunca, disse, te faltará sucessor ao trono de Israel." I Reis 2:1-4.

Pág. 754

As "últimas palavras" de Davi, conforme foram registradas, são um cântico - um cântico de confiança, do mais sublime princípio, e fé imortal:

"Diz Davi, filho de Jessé,

E diz o homem que foi levantado em altura,

O ungido do Deus de Jacó,

E o suave em salmos de Israel:

O Espírito do Senhor falou por mim, ...

Haverá um justo que domine sobre os homens,

Que domine no temor de Deus

E será como a luz da manhã, quando sai o Sol,

Da manhã sem nuvens,

Quando pelo seu resplendor e pela chuva

A erva brota da terra.

Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus,

Contudo estabeleceu comigo um concerto eterno,

Que em tudo será bem ordenado e guardado,

Pois toda a minha alvação e todo o meu prazer está nEle." II Sam. 23:1-5. Grande foi a queda de Davi, mas profundo foi o seu arrependimento, ardoroso o seu amor, e forte a sua fé. A ele muito fora perdoado, e portanto muito amava. Luc. 7:48. Os salmos de Davi passam por uma série completa de experiências, desde as profundezas da culpabilidade consciente e condenação própria, até a fé mais sublime e mais exaltada comunhão com Deus. O registro de sua vida declara que o pecado apenas pode trazer ignomínia e desgraças, mas que o amor e a misericórdia de Deus podem alcançar as maiores profundidades, que a fé erguerá a alma arrependida para que participe da adoção de filhos de Deus. De todas as declarações que se contêm em Sua Palavra, é isto um dos mais fortes testemunhos da fidelidade, da justiça e da misericórdia de Deus em Seu concerto.

O homem "foge também como a sombra, e não permanece" (Jó 14:2), "mas a Palavra de nosso Deus subsiste eternamente" (Isa. 40:8). "A misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade sobre aqueles que O temem, e a Sua justiça sobre os filhos dos filhos; sobre aqueles que guardam o Seu concerto, e sobre os que se lembram dos Seus mandamentos para os cumprirem." Sal. 103:17 e 18. "Tudo quanto Deus faz durará eternamente." Ecl. 3:14. Gloriosas são as promessas feitas a Davi e sua casa, promessas essas que visam às eras eternas, e que encontram seu cumprimento total em Cristo. Declarou o Senhor: Pág. 755

"Jurei ao Meu servo Davi: ... Com ele a Minha mão ficará firme, e o Meu braço o fortalecerá. ... A Minha fidelidade e a Minha benignidade estarão com ele; e em Meu nome será exaltado o seu poder. E porei a sua mão no mar, e a sua direita nos rios. Ele Me invocará, dizendo: Tu és meu Pai, meu Deus, e a Rocha da minha salvação. Também por isso lhe darei o lugar de primogênito; fá-lo-ei mais elevado do que os reis da Terra. A Minha benignidade lhe guardarei para sempre, e o Meu concerto lhe será firme." Sal. 89:3-28.

"E conservarei para sempre a sua descendência,

E o seu trono como os dias do céu." Sal. 89:29.

"Julgará os aflitos do povo,

Salvará os filhos do necessitado,

E quebrantará o opressor.

Temer-Te-ão enquanto durar o Sol

E a Lua, de geração em geração. ...

Nos seus dias florescerá o justo,

E abundância de paz haverá enquanto durar a Lua.

Dominará de mar a mar,

E desde o rio até às extremidades da Terra."

"O seu nome permanecerá eternamente;

O seu nome se irá propagando de pais a filhos, enquanto o Sol durar, E os homens serão abençoados nele;

Todas as nações lhe chamarão bem-aventurado." Sal. 72:4-8 e 17. "Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu; e o principado está sobre os Seus ombros; e o Seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz." Isa. 9:6. "Este será grande, e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi, Seu pai; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim." Luc. 1:32 e 33. PRIMEIROS

ESCRITOS

Prefácio Histórico Primeiros Escritos é obra de permanente e especial interesse aos adventistas do sétimo dia, pois abrange os primeiros livros de Ellen G. White. Esses textos foram escritos e publicados pela primeira vez na década de 1850, para edificação e instrução daqueles com os quais a autora passara pelas experiências relacionadas com os adventistas observadores do sábado, nas décadas de 1840 e princípio de 1850. Assim sendo, a autora deu como certo que o leitor tivesse conhecimento da história do despertamento adventista e do progresso do Movimento Adventista do Sétimo Dia que emergiu em 1844. Conseqüentemente as experiências daquele tempo, bem compreendidas, são em alguns casos apenas mencionadas, empregando-se expressões que, para ser corretamente compreendidas, têm de ser consideradas na contextura da história dos Adventistas Observadores do Sábado daqueles anos iniciais.

Em 1858, escrevendo da proclamação das mensagens dos três anjos de Apocalipse 14, Ellen White trata das experiências dos que participaram da obra, e tira lições dessas experiências, em vez de, como seria de esperar, dar uma bem definida apresentação do caráter dessas mensagens. (Ver págs. 232-240; 254-258.) Ela por vezes emprega expressões hoje pouco usadas, como "Adventistas Nominais", "porta fechada", "porta aberta", etc.

Hoje estamos afastados mais de um século daqueles tempos heróicos. O leitor deve conservar isto bem claro na mente. A história que era tão bem conhecida aos contemporâneos de Ellen White recapitularemos agora, tocando em alguns dos pontos altos das experiências dos Adventistas Observadores do Sábado durante uma década ou duas das que precederam a primeira publicação da matéria que aqui aparece.

Nos parágrafos iniciais a Sra. White faz breve referência a sua conversão e sua experiência cristã na infância. Fala também de haver assistido a conferências sobre a doutrina bíblica quanto ao esperado advento pessoal de Cristo, que se julgava estar muito próximo. O grande Despertamento Adventista, ao qual tão breve referência é aqui feita, foi um movimento de alcance mundial. Apareceu em resultado de cuidadoso estudo das passagens proféticas da parte de muitos, e a aceitação das boas novas da vinda de Jesus por grande número de pessoas, através do mundo. O Grande Despertamento Adventista

Foi, porém, nos Estados Unidos que a mensagem do Advento foi mais vastamente proclamada e recebida. Sendo as profecias bíblicas referentes à volta de Jesus aceitas por homens e mulheres eruditos, de muitas profissões religiosas, resultou daí um grande número de fervorosos crentes adventistas. Convém notar, todavia, que não se formou nenhuma organização religiosa separada e distinta. A esperança do Advento levou a profundos avivamentos religiosos que beneficiaram todas as igrejas protestantes, levando muitos céticos e incrédulos a confessar em público sua fé na Bíblia e em Deus.

Ao aproximar-se o movimento de seu ponto alto, na primeira década dos 1840, várias centenas de ministros uniram-se na proclamação da mensagem. Na liderança achava-se Guilherme Miller, que viveu na extremidade oriental do Estado de Nova Iorque. Era ele homem preeminente na comunidade, empenhado na lavoura como seu meio de vida. Apesar de uma rica base religiosa, na juventude, tornou-se cético. Perdeu a fé na Palavra de Deus e adotou teorias deístas. Quando, um domingo de manhã, leu um sermão na Igreja Batista, o Espírito Santo tocou-lhe o coração, e foi levado a aceitar a Jesus Cristo como seu Salvador. Miller pôs-se a estudar a Palavra de Deus, resolvido a descobrir na Bíblia uma resposta satisfatória a todas as suas dúvidas, e a aprender por si mesmo as verdades expostas em suas páginas.

Por dois anos dedicou ele muito de seu tempo a um estudo das Escrituras, versículo por versículo. Resolveu não passar a estudar o versículo seguinte enquanto não achasse uma explicação satisfatória daquele que estava estudando. Tinha a sua frente unicamente a Bíblia e uma concordância. Com o tempo, seu estudo chegou às profecias da segunda vinda de Cristo, literal e pessoal. Também se empenhou muito no estudo das grandes profecias acerca de tempo, particularmente dos 2.300 dias, de Daniel 8 e 9, que ele vinculava. à profecia de Apocalipse 14 e à mensagem do anjo a proclamar a hora do juízo divino. Apoc. 14:6 e 7. Neste volume na pág. 229, a Sra. White declara que "Deus enviou Seu anjo, para comover o coração" de Guilherme Miller, "a fim de levá-lo a pesquisar as profecias". Em sua juventude, a Sra. White ouviu Miller em duas séries de conferências, na cidade de Portland, no Maine. Sentiu no coração uma profunda e duradoura impressão. Deixemos que ela nos exponha o cálculo das profecias, como o Pastor Miller os apresentou ao seu auditório. Para isso nos volvemos ao livro posterior da Sra. White, O Grande Conflito:

Continuar: parte 4 de 4