Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade

Desidério Murcho · Capítulo 12 de 15

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Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade

11. Russell e a filosofia

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RUSSELL E A FILOSOFIA

 

B ertrand Russell foi um dos maiores filósofos do séc. XX e um dos fundadores da filosofia analítica. Verdade seja dita, Russell é parcialmente responsável por parte dos preconceitos que grassam contra este movimento filosófico. Russell ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1950, e sempre foi uma figura pública, intervindo em várias frentes como humanista e pacifista, pelo que era relativamente conhecido mesmo no Portugal marcelista. Como muitas pessoas não conhecem mais filósofos analíticos excepto Carnap, e como ambos eram ateus, a inferência errada não se fez esperar e hoje pensa-se que os filósofos analíticos são todos ateus, ou que a sua maioria o é, ou que a filosofia analítica é intrinsecamente ateia. Isto é falso, pois Dummett, Swinburne, Plantinga e muitos outros filósofos analíticos muitíssimo importantes são cristãos e alguns católicos. Acresce que Russell nunca foi positivista lógico e sempre deplorou a recusa positivista da metafísica; além disso, sempre se opôs ao movimento da filosofia da linguagem corrente, o que mostra bem até que ponto a informação histórica sobre alguns dos movimentos filosóficos mais importantes do séc. XX está confundida, pois pensa-se por vezes que Russell era positivista lógico e partidário da filosofia da linguagem corrente.

O ateísmo de Russell resultou da sua mente inquisitiva, e manifestou-se muito antes de ter ajudado a fundar a filosofia analítica. Nascido a 18 de Maio de 1872 numa família aristocrática mas liberal, Russell foi criado pela avó. Os seus pais morreram quando Russell era ainda criança, de modo que não pôde usufruir do ambiente liberal e criativo cultivado por eles, que constituíam um casal controverso, trabalhando em prol de causas públicas como a livre contracepção. O ambiente formal, cinzento, puritano e frívolo em que Russell foi criado produziram nele solidão e isolamento. Russell tinha de simular ser o rapazinho de sociedade e boas maneiras que a avó queria que ele fosse — vivendo uma vida paralela secreta em que devorava livros e se refugiava no mundo do pensamento. Uma das suas primeiras alegrias foi a descoberta da geometria, que o maravilhou sobremaneira pelo rigor das demonstrações e pela certeza que ofereciam.

Russell cedo teve de enfrentar a sua terrível avó: apaixonou-se por Alys Pearsall Smith, uma quaker americana que a avó sentia não pertencer à classe social apropriada para o neto. Tentou demovê-lo usando os mais ultrajantes métodos, a que Russell se submeteu com tranquilidade, acabando por vencer esta batalha contra o preconceito. Ao longo da vida, enfrentou muitas vezes os preconceitos alheios, casando-se, divorciando-se, apaixonando-se e conduzindo uma vida sentimental maravilhosamente «escandalosa».

Ao longo da vida, Russell lutou muitas vezes contra as ideias feitas sem se deixar abater. Quando a população britânica acolheu com júbilo a ideia de declarar guerra à Alemanha, em 1914, Russell resistiu. Quando os Estados Unidos procuraram, na sequência da segunda guerra mundial, tirar dividendos da situação de debilidade económica, social e militar da Grã-Bretanha, Russell foi também uma das poucas pessoas a opor-se terminantemente à subtil chantagem americana. Quando a guerra-fria estava no seu auge, Russell foi dos primeiros intelectuais a lutar contra as armas de destruição maciça. Aquando da Guerra do Vietname, Russell foi dos primeiros a denunciar publicamente as atrocidades que os americanos estavam a levar a cabo numa guerra sem sentido.

A independência intelectual, o espírito crítico, o poder de reflexão, o domínio da argumentação — os frutos e as armas da filosofia — não foram para Russell meras palavras sem conteúdo, mas antes princípios que orientaram a sua vida pública. Não é fácil entre nós conceber que a filosofia possa ser responsável pela independência de espírito necessária para colocar a felicidade e o bem-estar dos seres humanos acima dos cegos ditames do preconceito. Mas isto é o que acontece quando em filosofia se aprende a discutir ideias e a pensar autonomamente, em vez de nos limitarmos a associar palavras e a citar frases de filósofos mortos. A filosofia é uma actividade crítica, criativa e viva e a intervenção de Russell na vida pública é um dos exemplos do poder da reflexão para ultrapassar os preconceitos do nosso tempo.

Quando ingressou na Universidade de Cambridge para estudar filosofia, esta estava dominada pelo idealismo hegeliano. Os representantes britânicos de Hegel eram McTaggart e Bradley. O idealismo do filósofo irlandês George Berkeley era também influente. Apesar disso, o idealismo não era encarado como um pressuposto que fosse proibido discutir sob pena de excomunhão. Tanto Moore como Russell discutiam com os seus professores idealistas mesmo quando ainda eram estudantes; e a prática de apresentar conferências, muitas vezes proferidas por estudantes de pós-graduação, seguidas de verdadeiro debate, era já comum em Cambridge, no final do séc. XIX. O realismo que haveria de dar um traço distintivo à filosofia analítica nasceu desta oposição de Russell e Moore ao idealismo hegeliano. E apesar de anos depois os positivistas lógicos terem voltado a abraçar uma forma de idealismo, desta vez linguístico, a filosofia analítica voltou às suas origens realistas a partir dos anos setenta do séc. XX, nomeadamente com Saul Kripke.

O trabalho mais importante de Russell, que lhe assegurou um lugar definitivo junto dos maiores filósofos de sempre, situa-se na esotérica área da «lógica filosófica», uma expressão que ele próprio introduziu. A lógica filosófica não é bem uma disciplina filosófica, como a metafísica ou a ética, mas antes um agregado de problemas de várias áreas e uma maneira de os enfrentar. A lógica filosófica ocupa-se de questões de metafísica e epistemologia, mas também de filosofia da lógica, usando com rigor instrumentos derivados da lógica. É um pouco como aplicar pela primeira vez a matemática à física, como o fizeram os fundadores da física moderna. Neste caso, trata-se de aplicar as técnicas de reflexão e análise que obtemos da lógica para enfrentar problemas e teorias de outras áreas da filosofia que não a lógica propriamente dita.

Toda a gente tem uma ideia, ainda que imprecisa e não muito correcta, do que é a matemática. Uma das ideias que as pessoas têm é que a matemática é o domínio da exactidão e da certeza. Deve ser por isso difícil de compreender que o primeiro trabalho de Russell tenha sido a tentativa de tornar a matemática exacta e precisa. Russell procurou fazer isso reduzindo a matemática à lógica. Isto é espantoso para o cidadão comum, pois a matemática parece estar bem de saúde e não precisar da ajuda da filosofia nem da lógica. Mas esta é em grande parte uma ilusão que resulta do facto de a matemática que hoje se aprende na escola, com todo o seu rigor, ser parcialmente o resultado do esforço de Russell para reduzir a matemática à lógica. Antes desta tentativa, só a geometria tinha algum rigor; o pensamento matemático baseava-se em princípios lógicos que não eram esclarecidos nem justificados: eram intuitivamente válidos, e era tudo.

A grande contribuição de Russell para a lógica contemporânea foi o facto de ter tido necessidade, para poder reduzir a matemática à lógica, de inventar uma nova lógica. O filósofo alemão Frege perseguia o mesmo objectivo, durante muito tempo sem ter conhecimento de Russell. A lógica de Russell e Frege constitui aquilo a que hoje se chama a «lógica clássica».

Em 1903, Russell publicou The Principles of Mathematics. No decurso do estudo que conduziu a esta obra, Russell descobriu o trabalho de Frege, que procurava também reduzir a aritmética à lógica. Para isso, Frege tinha-se socorrido da ainda incipiente teoria dos conjuntos. Compreende-se o que Frege fez pensando assim: o que é realmente o número três? Claro, há uma marca no papel, que tanto pode ser «3» como «III» como «três». E podemos fazer coisas, como contas, com essas marcas no papel. Mas essas marcas no papel referem-se a quê?

Uma boa ideia é pensar que o número três não é mais do que o conjunto de todas as tríades de objectos. Isto pode parecer um truque ridículo, pois parece circular: se eu não soubesse já o que é o número três, como poderia saber o que é o conjunto de todas as tríades de objectos? Mas não há qualquer circularidade envolvida, pois não é necessário usar os conceitos matemáticos de número para ver que dois ou mais conjuntos têm o mesmo número de elementos: limitamo-nos a fazer uma correspondência um a um, entre os elementos dos conjuntos. Por exemplo, mesmo sem saber contar, qualquer criança consegue ver se à frente de cada prato, numa mesa, há ou não o mesmo número de copos.

Assim, pode-se usar esta ideia para definir os números em termos puramente lógicos, socorrendo-nos da teoria dos conjuntos. O número nove, por exemplo, seria o conjunto de todos os conjuntos que têm o mesmo número de elementos do que um dado conjunto que sabemos ter apenas nove elementos. O conjunto de planetas tem nove elementos apenas, por exemplo. Logo, o número nove seria o conjunto de todos os conjuntos que têm o mesmo número de elementos do que o conjunto dos planetas. Podemos abreviar «ter o mesmo número de elementos» para «é equivalente». Mas é necessário encontrar uma forma de definir em termos puramente lógicos conjuntos que tenham zero, um, dois, três objectos e assim sucessivamente, sem fazer apelo ao nosso conhecimento extralógico. Esta dificuldade resolve-se recorrendo ao conjunto de todos os objectos que não são idênticos a si mesmos. Dado que é logicamente impossível que um objecto não seja idêntico a si mesmo, esse conjunto é vazio. Logo, o zero é o conjunto de todos os conjuntos equivalentes a esse conjunto vazio (). Uma vez que só há um conjunto vazio, podemos definir o número um como o conjunto de todos os conjuntos equivalentes ao conjunto dos conjuntos vazios ({}). E o número dois é o conjunto de todos os conjuntos equivalentes ao conjunto cujos elementos são o zero e o um ({, {}}) — e assim por diante.

Esta forma de construir logicamente os números está errada porque dá origem a um paradoxo descoberto por Russell e apropriadamente chamado «paradoxo de Russell». Se para construir conjuntos tudo o que precisamos é de uma condição qualquer, então podemos construir o conjunto de todos os conjuntos que não pertencem a si mesmos. Por exemplo, o conjunto dos cães não pertence a si mesmo, dado que um conjunto de cães não é um cão. Mas agora temos de nos perguntar se o conjunto de todos os conjuntos que não pertencem a si mesmos é ou não um membro desse conjunto. E temos uma contradição: se for membro desse conjunto, não pode ser membro desse conjunto, pois só são membros desse conjunto os conjuntos que não são membros de si mesmos; mas se não for membro desse conjunto, terá de ser membro desse conjunto, pois todos os conjuntos que não são membros de si mesmos são membros desse conjunto.

Um paradoxo não é uma falácia nem é apenas um jogo de palavras; um paradoxo revela que algo está errado nos conceitos que estamos a usar ou na maneira como estamos a usá-los. Mas um paradoxo não mostra que tudo está errado na nossa maneira de pensar, porque nesse caso teríamos de parar todo e qualquer pensamento. Um paradoxo é um problema em aberto, algo que tem de ser resolvido — como um crime cujo autor ainda não sabemos quem é. Desistir e afirmar que o crime é uma ilusão e que toda a investigação é inútil só porque é difícil ou declarar que é impossível só porque não se consegue é tacanho.

O paradoxo de Russell deu origem a um dos maiores dramas intelectuais pessoais do século. Quando Russell descobriu o paradoxo escreveu a Frege. Mas a obra de Frege onde este método era sistematicamente explorado estava já no prelo. Frege escreveu um apêndice tentando resolver o problema, mas sem sucesso. E foi o fim do grande projecto de Frege. Russell foi mais insistente. Passou dois anos a tentar resolver o paradoxo, conseguindo finalmente propor a teoria dos tipos, que é uma das melhores soluções para resolver um paradoxo que resiste ainda a uma solução completamente satisfatória.

Na monumental obra em três volumes intitulada Principia Mathematica (publicada entre 1910 e 1913), Russell, em conjunto com Whitehead, expôs então em pormenor a maneira de reconstruir a matemática em termos puramente lógicos. Dado que não podia socorrer-se da forma livre de formar conjuntos de conjuntos usada por Frege, pois era isso que provocava o paradoxo, Russell teve de socorrer-se de outra forma engenhosa de construir os números. Manteve a definição de zero proposta por Frege, mas definiu o número um assim: é o conjunto de todos os conjuntos equivalentes ao conjunto cujos elementos são os elementos do conjunto vazio e qualquer objecto que não pertença a esse conjunto. O número dois é o conjunto de todos os conjuntos equivalentes ao conjunto cujos elementos foram usados para definir o número um e qualquer objecto que não pertença a esse conjunto. E assim por diante. Já se vê que Russell precisa de um número infinito de objectos para poder continuar. De modo que teve de admitir um axioma do infinito, o que constitui uma mancha na pureza lógica do seu sistema, pois não é de todo em todo claro que a existência de um número infinito de objectos no universo, ainda que real, seja algo que se possa saber unicamente por meios lógicos.

Num certo sentido, o projecto de reduzir a matemática à lógica foi uma bancarrota. Mas permitiu alguns dos avanços mais importantes do séc. XX. E sem este trabalho exaustivo e de pormenor nunca teríamos os resultados da incompletude de Gödel, publicados em 1931, e onde se demonstra que, num certo sentido, nunca se poderá reduzir a matemática à lógica. Ironicamente, o resultado da incompletude de Gödel obtém-se à custa de um dispositivo semelhante ao paradoxo do mentiroso (que resulta de afirmar «Esta frase é falsa»), que por sua vez tem algumas semelhanças com o paradoxo de Russell. Se há uma lição a retirar deste drama intelectual é que não podemos limitar-nos a anunciar ideias em termos vagos e gerais: é preciso fazer o trabalho duro de pormenor, para ver até onde podemos realmente ir. Se o não fizermos, a filosofia parecer-se-á muito mais com preconceito do que com pensamento lúcido.

A contribuição de Russell para a lógica filosófica foi decisiva. O estilo rigoroso e claro de fazer filosofia — procurando construir teorias em vez de se limitar a delinear em termos gerais como tais teorias poderiam construir-se — é o maior legado de Russell. Ele próprio dificilmente poderia prever quão longe chegaria, na segunda metade do séc. XX, a maneira rigorosa de fazer filosofia que inaugurou. Mas também como figura pública Russell deixou um modelo a seguir; um modelo de razoabilidade e diálogo, mas também de firmeza; um modelo em que se procura fazer valer a voz da razão e não a do impulso primário.

Na área da filosofia da linguagem, a teoria das descrições definidas é outra das contribuições fundamentais de Russell. Esta teoria procura explicar a estrutura lógica de expressões como «O mestre de Platão». Como é óbvio, esta expressão refere Sócrates. Mas como? Do ponto de vista de Russell, podemos reduzir este tipo de expressões, onde ocorre o artigo definido «o» (ou «a»), a expressões onde tal não ocorre. Assim, «O mestre de Platão» seria o mesmo do que «Há pelo menos uma pessoa que foi mestre de Platão, e não há mais de uma pessoa que tenha sido mestre de Platão». Esta manobra é aparentemente trivial, mas revela a sua força quando pensamos em casos difíceis como «O actual rei da China é alto». Dado que não há rei da China, a frase é verdadeira ou falsa? A teoria de Russell permite responder com lucidez a esta pergunta — apesar de estar longe de ser uma teoria consensual.

A longa vida de Russell nem sempre foi a mais feliz. Teve várias ligações amorosas, entregando-se a cada uma com uma paixão devoradora e saindo delas magoado e triste. Amava a poesia e morria por dentro com o sofrimento alheio. Procurou uma compreensão mais clara da natureza última da realidade e uma certeza inabalável, que resistisse a todas as dúvidas, mas não a encontrou. Não obstante, é um monumento ao que um espírito humano pode fazer no plano intelectual, espiritual e filantrópico.