Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade
12. A morte da filosofia
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A MORTE DA FILOSOFIA
A filosofia analítica deu muitas voltas, ao ponto de ser impossível
proporcionar-lhe uma descrição que satisfaça todos os seus
discípulos. Com rigor, quanto mais se alargou e afirmou menos
necessário foi usar a expressão «filosofia analítica». As querelas
entre analíticos furiosos e anti-analíticos enraivecidos têm já pouco
sentido, não porque a análise filosófica se tenha desvanecido, mas
antes porque chegou a uma situação na qual não é necessário perder
tempo com defesas.
— JOSÉ FERRATER MORA
U ma das características da evolução da filosofia analítica no séc. XX é a mudança de atitude perante a linguagem e o seu lugar na filosofia. Esta mudança de atitude resulta de os seus praticantes exercerem plenamente a liberdade de pensar, criticando as ideias de colegas e antecessores, procurando refutar teorias, corrigir argumentos e eliminar confusões. Assim, numa primeira fase, a linguagem surge como a «água de alcatrão» cujo esclarecimento permitirá resolver definitivamente os problemas intrincados da filosofia. A teoria das descrições definidas de Russell era o paradigma da análise filosófica. O antigo problema do não-Ser, de Parménides e Platão, dissolve-se através da correcta compreensão do funcionamento da linguagem. Este estado de graça, contudo, não iria durar muito tempo. Precisamente porque na filosofia analítica o espírito crítico é cultivado no seu mais elevado grau, os filósofos da geração posterior avaliaram criticamente a teoria das descrições de Russell. Foi o que fez Strawson; o seu artigo «On Referring» (Mind, 59, 1950) marca o início da segunda fase da filosofia analítica.
Nesta segunda fase, apesar de a linguagem continuar a ocupar um lugar de destaque, começa a emergir a ideia de que a linguagem é muito mais complexa, subtil e vaga do que sugeriam as análises da primeira metade do século. É este espírito que está presente nas Investigações Filosóficas, de Wittgenstein, no referido Strawson e no chamado «movimento de Oxford», a filosofia da linguagem corrente, comandado por Ryle e Austin. Entretanto, a filosofia americana era consideravelmente diferente. Influenciada sobretudo pelo positivismo lógico, passou um pouco incólume ao movimento reformista de Oxford. Quine e Davidson continuavam em grande parte a considerar a linguagem de um ponto de vista mais próximo da filosofia do princípio do século.
É a partir dos anos setenta que a filosofia se liberta resolutamente da «viragem linguística», como Rorty lhe chamou, atingindo a sua maturidade e passando a enfrentar directamente os problemas tradicionais da filosofia:
[...] Muitos filósofos contemporâneos repudiam a concepção de
filosofia característica da viragem linguística, e adoptam a
perspectiva de que é melhor conceber a filosofia como a
compreensão reflexiva das implicações do nosso conhecimento de
nós mesmos e do mundo, em particular o conhecimento alcançado
através das ciências da natureza. (Thomas Baldwin, Contemporary
Philosophy, p. 11)
Os nomes que se costumam associar com a filosofia analítica — Wittgenstein, Ryle, Austin, Strawson, Carnap, Quine, Davidson, Chomsky, Sellars, Dummett, Kripke, Putnam, Popper, Kuhn e Hare, entre outros — representam apenas uma pequena parte desta tradição; pequena porque ignora os filósofos analíticos que se especializaram em filosofia da religião, ética aplicada, filosofia política ou filosofia da arte.
O que há de emocionante na filosofia analítica é o seu debate contínuo e frontal de ideias. O seu sucesso reside na liberdade e no espírito crítico. Não há pressupostos metodológicos ou doutrinários — diferentes filósofos adoptaram ao longo do tempo diferentes métodos e doutrinas, e este facto é claramente visível em qualquer boa história da filosofia analítica. Infelizmente, é comum hoje em dia pensar que a filosofia analítica se reduz ao entretanto desaparecido positivismo lógico, ou à filosofia da linguagem comum. Isto é tão errado como pensar que a filosofia continental se reduz ao existencialismo ou à fenomenologia. A ideia de que a filosofia analítica se caracteriza metodologicamente por pensar que a solução dos problemas filosóficos reside na análise lógica da linguagem resulta de um desconhecimento da filosofia analítica dos últimos cinquenta anos; a maior parte dos filósofos analíticos não aceita hoje essa metodologia.
[...] Como filósofos, não temos um ponto de partida linguístico
privilegiado e garantido, como tantos filósofos analíticos do passado
imaginavam. O significado não é a fonte de todos os problemas
filosóficos, nem a chave para os resolver a todos. Como a maior
parte dos filósofos analíticos hoje sabem instintivamente, quer
tenham articulado a ideia quer não, os problemas filosóficos não
surgem de uma só maneira. Surgem em todo o lado — na
matemática, nas ciências, nas artes e na maneira de pensar do senso
comum. Não há também uma maneira única de resolver os
problemas filosóficos; construção teórica, análise lógica,
clarificação conceptual e até a observação informal das nossas
práticas cognitivas e linguísticas — tudo isto tem um papel a
desempenhar. (Scott Soames, Philosophical Analysis in the
Twentieth Century, vol. 2, p. 476)
A ideia de que a filosofia analítica reduz o seu objecto de estudo à filosofia da linguagem e disciplinas associadas é tão errada quanto a ideia de que a filosofia continental reduz o seu objecto de estudo à semiótica. É verdade que no início a filosofia da linguagem e os estudos lógicos constituíram o centro das preocupações de muitos filósofos analíticos; e o positivismo lógico ficou famoso por lutar contra aquilo a que chamavam «metafísica» (sem que, contudo, conseguissem eles mesmos evitar pensar sobre questões metafísicas), ao mesmo tempo que a ética era relegada para o domínio da expressão das emoções. Todavia, hoje em dia, a ética, aplicada e normativa (e não apenas a metaética), é a área da filosofia analítica mais estudada. E a metafísica floresce, tal como a filosofia da arte e da religião, a filosofia política e a teoria do conhecimento. Nestas disciplinas não se dá necessariamente proeminência à linguagem:
Grande parte da metafísica contemporânea não se ocupa
primariamente, de modo algum, do pensamento ou da linguagem. O
objectivo é descobrir que categorias fundamentais de coisas há e que
propriedades e relações elas têm, e não como as representamos.
Estuda substâncias e essências, universais e particulares, espaço e
tempo, possibilidade e necessidade. Apesar de se terem tentado
várias reduções nominalistas ou conceptualistas de todos este temas,
tais teorias não têm qualquer prioridade metodológica e muitas
vezes não fazem justiça ao que tentam reduzir. (Timothy
Williamson, «Past the Linguistic Turn?», pp. 110-111)
A própria ideia de «análise», que por vezes se pensa que caracteriza a filosofia analítica, está longe de ser um pressuposto metodológico comum aos filósofos analíticos. Um dos artigos mais citados (e exemplarmente mais pequenos: duas páginas apenas) da filosofia analítica é o de Gettier, que mostra que as análises de conhecimento propostas até então estão erradas. No sentido robusto, uma análise de um conceito C consiste em apresentar um conjunto de outros conceitos mais simples C ,…, C tal que a 1 n frase «C é C e C e … e C » seria uma verdade analítica. Neste sentido 1 2 n
robusto, a maior parte dos filósofos analíticos pensa hoje em dia que tal coisa não se pode fazer em relação a grande parte dos conceitos centrais da filosofia. Contudo, num sentido mais fraco, toda a filosofia é análise de conceitos: o trabalho filosófico é conceptual ou a priori e não experimental.
Paralelamente à confusão que resulta da palavra «análise» ocorre uma confusão no que respeita à palavra «continental». A filosofia continental não se caracteriza por estar localizada no continente europeu. Nestes termos descritivos, grande parte da filosofia analítica dos primeiros tempos era continental — pense-se em Frege e no Círculo de Viena. As expressões «filosofia analítica» e «filosofia continental» não devem ser entendidas como descrições, mas como nomes. Isto é, a primeira expressão não descreve um modo de filosofar que proceda por análise (no sentido forte), e a segunda não descreve uma filosofia geograficamente localizada no continente europeu.
Outra ideia errada no que respeita à filosofia analítica é pensar que se trata de filosofia de expressão inglesa. Apesar de ser verdade que a maior parte da filosofia de expressão inglesa do séc. XX é filosofia analítica, nem toda o é. Apesar de ser verdade que a maior parte das filosofias de expressão alemã, francesa, italiana e espanhola do séc. XX são filosofia continental, nem todas o são. Hoje, em países sem grandes tradições analíticas, há cada vez mais filósofos analíticos, nomeadamente em Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal. Isto resulta, em parte, da imensa vitalidade da filosofia analítica, que lhe permite responder ao que os seres humanos querem ver efectivamente respondido.
Compreende-se melhor o que caracteriza a filosofia analítica se pensarmos no seguinte: Quem fizer um elenco das mais fecundas ideias filosóficas da tradição analítica e dos filósofos mais respeitados nesta tradição poderá verificar que, ao longo dos anos, todas essas ideias e todos esses filósofos têm sido objecto de crítica, discussão e tentativas (conseguidas ou não) de refutação. Uma conferência, um artigo ou um livro em que alguém procura mostrar que a teoria da verdade de Davidson (um dos mais respeitados filósofos analíticos) está errada é corrente na tradição analítica e encarada como normal, e não como um escândalo ou uma blasfémia. A discussão directa das ideias dos filósofos é estimulada, por oposição à mera repetição das suas ideias. Esta liberdade de pensar tem permitido um progresso que nunca antes existiu na história da disciplina. Os problemas da filosofia são abordados de formas progressivamente mais rigorosas, compreensivas e subtis, as teorias são mais precisas e ricas, os argumentos usados mais sofisticados e criativos. Temos hoje uma compreensão dos problemas da filosofia como nunca houve no passado.
Outra ideia errada acerca da filosofia analítica é que os textos dos filósofos analíticos são claros. Donald Davidson, David Wiggins e Bernard Williams são extremamente obscuros, mas estão longe de ser filósofos continentais. A diferença não é entre a clareza e a obscuridade, mas entre o que é valorizado e o que é desprezado. Um estudante num contexto analítico vê o seu esforço de rigor ser não apenas recompensado mas positivamente estimulado; é obrigado a explicar-se directa e pormenorizadamente, evitando ambiguidades, e generalidades vagas; é obrigado a defender as suas ideias com argumentos criativos e claros, e a responder a contra-exemplos e contra-argumentos; os jogos de palavras são permitidos como forma de humor, mas não como substituto da argumentação sólida. O que é desprezado é o estilo grandiloquente e retórico, os jogos de palavras, o volume de páginas e citações, a «originalidade» das interpretações baseadas em associações aleatórias de ideias; o que não se cultiva é o respeito religioso pelos Mestres, pois não se aceita que os seus argumentos não se possam discutir frontalmente.
A influência da filosofia analítica estende-se aos historiadores da filosofia e ao modo como os estudantes encaram a disciplina. Com uma formação filosófica sólida, os historiadores da filosofia não se limitam a repetir as ideias dos grandes filósofos do passado: avaliam criticamente a plausibilidade das suas ideias.
[...] O volume de trabalho feito hoje em dia em história da filosofia,
tal como a profundidade, a atenção ao pormenor e a perspicácia dos
estudos sobre figuras históricas particulares é ímpar — tal como o
número de diferentes períodos, e diferentes figuras desses períodos,
que são objecto de intensa atenção de filósofos com uma formação
mais ou menos analítica. (Scott Soames, Philosophical Analysis in
the Twentieth Century, vol. 2, p. 463)
Analogamente, os estudantes não podem limitar-se a repetir vagamente as ideias dos grandes filósofos do passado e do presente, sem espírito crítico mas com muitos símbolos de lógica, sem se perguntarem se tais ideias serão verdadeiras, quais serão os seus pontos fortes e os seus pontos fracos, sem estudarem as críticas mais importantes, e sem tomarem posição, excepto para dizer que o «mestre» tem razão. Os estudantes têm de tomar posição, entrar no debate, saber avaliar os problemas, teorias e argumentos da filosofia.
Uma das críticas mais famosas à filosofia analítica, e à filosofia em geral, é a de Rorty. Do seu ponto de vista, a filosofia está condenada porque não há um método seguro que nos permita distinguir a verdade da falsidade, de modo que estas categorias devem ser abandonadas. A crítica de Rorty resulta do mesmo tipo de pressupostos filosóficos que caracterizavam o positivismo lógico. A crítica de Rorty à filosofia, a crítica de Feyerabend e Kuhn (numa leitura radical) à ciência, e a crítica dos positivistas lógicos à metafísica têm um denominador comum: a ideia de que sem um processo automático de decisão, sem um modo de verificação a toda a prova, não há quaisquer outros critérios para distinguir as ideias melhores das piores. Curiosamente, o pragmatismo de William James, no qual Rorty se filia, é precisamente o oposto deste tipo de atitude. A ideia de William James não era a de que sem processos de decisão ou métodos de verificação a toda a prova nada podemos saber, mas antes que podemos saber sem dispormos desses processos ou métodos. O resultado é uma compreensão mais subtil da actividade científica e filosófica, que consiste em grande parte em tentativas e erros, numa atitude crítica constante perante os nossos próprios métodos, e a consciência de que esses métodos são falíveis. Daqui não se segue uma qualquer falta de confiança na «Razão», mas antes a compreensão de que uma prática cognitiva é tanto melhor quanto melhores forem os seus métodos, e os seus métodos são tanto melhores quanto mais probabilidades tiverem de distinguir a ilusão da verdade e o erro do acerto, sem que essa probabilidade seja jamais um. Não se segue desta posição a ideia de que «vale tudo», como pensa Rorty, como pensavam Feyerabend e Kuhn (numa certa leitura), ou como pensavam os positivistas lógicos em relação à metafísica e à ética. Esta ideia resulta de um verificacionismo insustentável:
[…] tudo pode ser colocado em causa; mas a ausência de um
processo de decisão com respeito aos tópicos que emergem dos
argumentos filosóficos não mostra que estes não se orientam pela
verdade, mas antes que dizem respeito a questões tão fundamentais
para a nossa compreensão de nós mesmos e do mundo que nenhuns
pressupostos podem legitimamente ser encarados como algo que
está para lá do que se pode colocar em causa. Quem pensar
realmente que na ausência de um processo de decisão a questão da
verdade é vazia ou ilegítima está simplesmente comprometido com
a tese positivista auto-refutante de que as únicas verdades são as que
podem conclusivamente ser estabelecidas como verdadeiras.
(Thomas Baldwin, Contemporary Philosophy, p. 275)
Não há substituto automático para a criatividade, a argumentação, a capacidade para conceber novas explicações e teorias, e para as testar e refutar e refazer. Como Mark Twain comentou quando circularam notícias da sua morte, o anúncio da «morte» da filosofia é algo exagerado. A imensa floresta de novas ideias que a filosofia analítica continua a dar ao mundo é a prova desta asserção.