Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 10 de 15

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Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 7

 

 

Na manhã seguinte, quando Pascale preparava o desjejum para todos, John entrou na cozinha parecendo um tan-to apavorado. Em uma das mãos segurava uma maçaneta de bronze. Agathe andava por ali, vestida com biquíni

de leopardo, sapatos de plataforma e um walkman; carregava uma lata de lixo e

cantarolava alto. John parou por algum tempo a fitá-la, os olhos muito

arregalados, como que duvidando do que via. Pascale continuava a fazer os

ovos mexidos e parecia não se preocupar com Agathe. Já se acostumara com ela

e parecia inteiramente abstraída de sua aparência.

— O banheiro está inundado! — gritou John, agitando a mão que

segurava a maçaneta de bronze. — Que faço com isso?

— Não sei. Não pode tratar disso? Estou cozinhando.

Pascale parecia distraída e entretida, enquanto John continuava agitando a

maçaneta de bronze na sua direção.

— Por que você não chama Marius e lhe pede ajuda? — sugeriu ela.

John parecia irritado.

— Como vou saber onde encontrá-lo? E como vou lhe dizer o que

aconteceu?

— Mostre-lhe apenas — respondeu Pascale, enquanto fazia sinal com a

mão para chamar a atenção de Agathe.

Por sua vez, Agathe ainda cantava, mas, afinal, desligou o walkman,

enquanto Pascale explicava o problema. Não pareceu surpresa, apenas tirou da

mão de John a maçaneta de bronze e saiu gingando para achar o marido. Ele

apareceu minutos mais tarde com balde, esfregão e desentupidor de pia. Usava

short e uma camiseta transparente, e parecia estar de forte ressaca.

Agathe contou que isso sempre acontecera: não era um problema sério. Um

fiozinho fino de água começara a escorrer pelo teto da cozinha. Tanto John

quanto Pascale entraram em pânico. Ele voltou à cena do crime, e Marius o

seguiu mais devagar. Agathe guardou seu walkman e cantava alto enquanto

arrumava a mesa.

Eric e Diana entraram na cozinha. Eric parecia assustado ao ver Agathe

com o biquíni de leopardo e o avental.

— Que aparência — comentou ele, prudente.

Diana explodiu em uma gargalhada.

— Sempre anda assim? — quis saber.

Pascale apagou o forno e sorriu. Estava contente por ver que ambos

pareciam um pouco mais descontraídos e descansados do que na noite anterior.

— Mais ou menos. Às vezes, usa roupas mais estranhas; às vezes, não; mas

em geral é o mesmo tipo. No entanto, é ótima faxineira. Ajudou muito a pôr a

casa em ordem antes que vocês chegassem.

— Parece calma — acrescentou Eric, pegando um pêssego da tigela na

mesa da cozinha.

A fruta que Pascale comprara era deliciosa.

— Está chovendo aqui ou há algum problema? — perguntou Eric,

olhando o fio de água escorrendo do teto.

— John diz que há uma goteira no banheiro — informou Pascale.

Eric entendeu. Pascale servia os ovos. Alguns minutos mais tarde, John se

juntou a eles, parecendo atormentado e um tanto fora de si.

— Há cinco centímetros de água no chão do banheiro. Mandei o Marius

fechar a água até o bombeiro chegar.

— Como conseguiu falar tudo isso a ele?

Pascale estava impressionada. Em 25 anos de casamento, o máximo que ele

dizia era bonjour, au revoir e merci, e assim mesmo quando obrigado.

— No secundário, eu costumava resolver charadas — informou ele,

começando a comer os ovos.

Marius entrou e pôs o balde no rio de água que descia do telhado. Parecia

escorrer cada vez mais rápido e mais forte. Marius, porém, parecia indiferente.

Logo depois, ele e Agathe desapareceram.

— Dormiu bem? — perguntou Pascale a Eric, comendo os ovos.

Punha-lhes café forte em xícaras fumegantes.

— Muito bem — respondeu Eric, a olhar Diana.

Parecia que não se falavam ou apenas o absolutamente necessário. E, como

parecia haver entre eles uma espécie de tensão, acabaram rápido de comer.

Pascale sugeriu a Diana que fossem ao mercado. John quis ficar em casa e

acompanhar o trabalho do bombeiro. Eric anunciou que iria verificar o barco e

ver se poderia velejar.

Era uma manhã tranqüila para todos, a temperatura estava ótima, Diana e

Pascale batiam papo, a caminho do mercado. Pascale comentava que Eric

parecia se esforçar por ser agradável com ela. Diana respondia que sim com a

cabeça e olhava fora da janela.

— Está se esforçando — admitiu para a amiga —, mas não tenho certeza

se isso faz diferença.

— Tente ver apenas o que acontecerá durante as férias. O tempo pode

curar as feridas, se você deixar.

— E depois? Esquecemos tudo e fingimos que nunca houve nada? Como

acha que posso fazer isso? — Diana parecia irritada com a sugestão.

— Não tenho certeza se eu poderia fazer isso — respondeu Pascale,

honesta. — Se fizesse algo parecido, talvez eu matasse John. Mas pode ser que,

se algo parecido tivesse acontecido, eu daria um jeito em tudo.

— Por que eu tenho de dar um jeito em tudo? — perguntou Diana,

parecendo de fato zangada. — Ele fez, eu não fiz.

— Mas talvez você tenha de perdoá-lo, se quiser continuar casada.

— Eu ainda não havia imaginado isso.

Pascale teve um gesto de compreensão. Alguns minutos mais tarde,

chegavam ao mercado. Em duas horas compraram pão, queijos, frutas e

vinhos, algumas terrines excelentes, além de uma torta de morangos que, só de

olhar, deu água na boca de Pascale. Ao chegarem de volta a casa com as

compras, encontraram Eric e John, em espreguiçadeiras, no deque. John

fumava um charuto. Ambos pareciam descontraídos e felizes. As mulheres

entraram com suas bolsas de barbante e uma cesta enorme. John lhes foi dizer

que o bombeiro viera consertar o banheiro, mas que, assim que fora embora, a

goteira no banheiro de Eric e Diana começara a escorrer, e que Marius estava

no andar de cima, tentando consertá-lo.

— Não acho que devemos comprar a casa — disse Eric, prático.

— Há novidades — declarou John, agitando o charuto para a mulher. —

Espero que não tenham gasto muito dinheiro em comida.

— Claro que não, comprei apenas queijos baratos, pão dormido e frutas

que faltavam pouco para apodrecer. Foi uma pechincha de verdade.

— Muito engraçado — replicou ele, virando-se para Eric e soltando uma

baforada do charuto.

Os quatro almoçaram ao ar livre. Depois, todos foram nadar. Eric levou

Diana para velejar em um barco. A princípio, parecia não querer sair com ele,

mas, afinal, conseguira convencê-la. Diana não era uma excelente marinheira e

parecera firme a não querer dirigir-lhe a palavra. Pascale fora então tirar um cochilo, e John desaparecera pouco depois. Como nada houvesse a fazer, Diana

saiu a velejar com Eric.

À seis, hora em que os Donnally saíram do quarto, Eric e Diana

conversavam e pareciam muito mais descontraídos do que nessa manhã. As

coisas, evidentemente, não estavam perfeitas entre eles, mas um pouquinho

melhores do que antes.

Nessa noite, Pascale preparou borrachos, usando uma antiga receita da

mãe, e comeram a torta de morangos que ela e Diana haviam comprado no

mercado. Era deliciosa. Finalizaram com café filtre, e, depois disso, sentaram-se

ao redor da mesa e conversaram. Robert chegaria no dia seguinte, e Diana

perguntou a Pascale se sabia algo mais sobre a amiga misteriosa que poderia

trazer.

— Nada mais soube sobre ele desde que saí de Nova York. Suponho que

ele vá nos falar quando chegar aqui, mas realmente não acho que seja a tal

atriz. Mal se conhecem. Acho que nos preocupamos por nada.

No ambiente calmo de Saint-Tropez, Pascale se sentia menos preocupada.

— Assim espero — respondeu Diana, parecendo áspera.

Depois da infidelidade de Eric, parecia protetora de todos os costumes. Já

prometera não deixar que Robert desse uma de bobo, e se ele lhes contasse que

havia convidado Gwen omas para Saint-Tropez, Diana tinha o propósito de

falar a ele que estava cometendo um erro e que se encontrar com alguma

estrelinha era insultar a memória de Anne. Dificilmente seria estrela com essa

idade, mas Diana estava convencida, como Pascale, de que Gwen talvez não

fosse uma pessoa decente. E tudo o que elas queriam era que Robert se

protegesse.

No dia seguinte, quando Robert chegou, ao sair do carro alugado com

Amanda, parecia tranqüilo. A filha vestia uma camiseta branca, jeans brancos e

um chapéu de palha. Robert, uma camisa de algodão azul e calça cáqui. Ambos pareciam bem-dispostos, limpos, sadios e muito americanos, mas ficaram um

pouco assustados ao virem a villa.

— Pelas fotos, era um pouco diferente — atalhou ele, parecendo confuso.

— Estou louco... ou esta é mais simples?

— Um pouquinho mais simples — explicou Pascale.

John lhe fez um olhar divertido.

— Espere até ver a criada e o jardineiro — acrescentou ele. — Mas

conseguimos que nos devolvessem metade do dinheiro, o que não é muito.

— Por que devolveram o dinheiro? — Robert parecia surpreso com o que

John lhe falara.

— Porque nos foderam. São franceses. O que espera?

Pascale, quando John falou isso, fulminou-o com um olhar de raiva, mas

ele nem se intimidou.

— Grosseiramente, quando Pascale chegou aqui, evidentemente a casa

parecia com e Fall of the House of Usher. Passou dois dias limpando-a. A casa

está excelente, mas não tente puxar a descarga no banheiro, nem espere vê-la na

revista Arhitectural Digest.

Robert compreendeu, com um olhar divertido, Amanda parecia

imediatamente aborrecida.

— Podemos usar os banheiros?

Havia na voz um tom de terror, que na mesma hora divertiu Pascale. Anne

sempre se queixara a ela de que a filha era mimada e muito minuciosa.

— Claro que pode — tranqüilizou-a John. — Apenas use as galochas.

— Oh, meu Deus — atalhou ela.

Pascale tentava não rir.

— Devo ir para um hotel? Podemos ficar aqui?

Amanda nem pensara poder chamar um bombeiro, de modo algum.

Preferia ir para um hotel.

— Estamos aqui, há dois dias — cortou Diana, com experiência. E

estamos sobrevivendo muito bem. Vou lhe mostrar seu quarto.

No andar superior, Amanda ficou um pouco mais tranqüila. O

encanamento gorgolejava e escorria. A moça percebeu no quarto um cheiro de

umidade e de mofo. Era uma dessas pessoas que, quando saíam de casa, nunca

se sentiam inteiramente à vontade ou em paz.

— Vou abrir as janelas para você — disse Diana. Enquanto tentava abri-

las, uma das janelas se soltou e caiu no jardim. — Vou pedir ao jardineiro para

colocá-la de volta no lugar — ela disse, com um sorriso, ao ver a expressão

horrorizada de Amanda.

Cinco minutos depois, Amanda voltou para perto do pai e lhe perguntou

se achava a casa segura. Também tinha fobia por aranhas e quaisquer insetos;

com certeza, a casa tinha muitos.

— Acho que não devemos ficar aqui — acrescentou Amanda, por

precaução.

Sugeriu que vissem o Hotel Byblos, o melhor de Saint-Tropez. Um ano

antes, uma de suas amigas ficara ali.

— Ficaremos bem, aqui — respondeu ele, tranqüilizando-a. — Será

divertido. É melhor ficar aqui com nossos amigos. Não precisamos ir para um

hotel.

Eric já havia lhe dito que o barco estava perfeito, e ele desejava

ardentemente velejar com ele.

— Talvez eu vá mais cedo a Veneza — acrescentou ela, ainda preocupada.

Tinha amigos lá.

— Como quiser — respondeu Robert, calmo.

Anne sempre lidava bem com ela, melhor que Robert. Amanda sempre

ficava impaciente, quando nervosa ou aborrecida, e era óbvio que preferia

coisas luxuosas a simples. Mas Robert achava que, na idade dela, não faria mal algum passar dias em uma villa caindo aos pedaços, cheia de insetos e outras

coisas. Em verdade, gostava da casa. Era confortável, todos os móveis estavam

deteriorados pelo uso, mas achava que exercia certo fascínio, já dissera a Pascale

que gostava dela, o que a deixou feliz. Sentia-se culpada por não ser tão

grandiosa conforme fora prometido. Mas todos haviam se acomodado muito

bem.

A primeira crise sem importância aconteceu naquela tarde, quando

Amanda foi se deitar na cama e ler um pouco. Logo após se ajeitar, o móvel

desabou. As duas pernas quebradas haviam sido cuidadosamente escoradas para

esconder. No momento em que se mexeu, a cama desabou. Amanda deu um

grito, e Pascale perguntou o que acontecera, rindo ao vê-la estatelada no chão.

— Meu Deus! Vou chamar Marius para consertar a cama.

Quando ele apareceu para fazer o conserto, viu que a cama fora colada de

tal forma que, desta vez, não podia ser reparada. Amanda teve de se conformar

em dormir no colchão arrumado no chão, o que tornava mais fácil o acesso das

aranhas e dos insetos. Não se queixou. Pascale passou a achar que ela iria logo

para Veneza.

Com a caixa de ferramentas na mão, Marius saiu do quarto de Amanda

entorpecido pelo álcool. Pascale lhe agradeceu a ajuda.

— É um bom sujeito — riu John, mais tarde. — A mulher é uma pedra

preciosa. Vocês vão adorar suas roupas — prometeu ele.

Naquela tarde, quando Agathe reapareceu, usava uma blusa de renda

transparente (via-se por baixo o sutiã preto) e shorts curtos que mal lhe

cobriam o traseiro. Amanda não conseguiu deixar de rir, embora o pai

parecesse algo horrorizado.

— Acho-a um bocado atraente — aprovou John, parecendo se divertir.

Robert sorriu, apesar de tudo.

— Esperem até ver o biquíni de leopardo ou a bermuda ciclista cor-de-rosa

berrante.

Robert riu muito. Amanda desapareceu. Nessa tarde, o pai se divertira no

barco a vela, e estava achando graça no estado da casa, velho e gasto. Para ele,

parecia uma aventura, e estava convencido de que Anne também teria gostado

dali e visto o lado engraçado de tudo. Sempre fora mais audaciosa do que a

filha e não tinha medo de insetos. Amanda era uma menina da cidade.

Enquanto Pascale preparava o jantar daquela noite, assando frangos, a

porta do forno se soltou e foi cair aos seus pés, no chão da cozinha. Eric fez

tudo para consertá-la. Usou arame de enfardar e criou um sistema engenhoso

para prender novamente a porta, enquanto todos aplaudiam sua inventividade.

Mais tarde, porém, com o olhar de esperança, Amanda falou novamente ao pai

sobre o Byblos. Ela, evidentemente, não apreciava a simplicidade da casa tanto

quanto o pai e os amigos.

— Gosto muito dela e meus amigos também — avisou o pai, honesto.

No entanto, Amanda não achava a casa nada divertida. Não havia ninguém

de sua idade, e ela começava a pensar que errara ao vir. Mas, ao ir embora antes

do combinado, não queria ferir os sentimentos de ninguém.

Foi o pai, afinal, que se ofereceu para ajudá-la a sair dessa situação difícil.

— A casa não é muito divertida, nem confortável como pensei.

Até mesmo o barquinho a vela não oferecia grande distração. Os irmãos

eram marujos, porém Amanda sempre detestara velejar. Gostava de esqui

aquático, ir dançar à noite e estar com pessoas de sua idade.

— Adoro ficar aqui com você, papai — afirmou ela, honesta.

Sempre gostara dos amigos dos pais. Mas também sentia muito não ver a

mãe no meio deles, mesmo amiga de Diana e Pascale.

— Não quer ir logo para Veneza? Não ficarei magoado — Robert se sentia

feliz por estar com os Morrison e os Donnaly.

Amanda se sentia culpada por abandoná-lo.

— Claro que não. Adoro isso aqui.

Pai e filha sabiam que ela exagerava.

— Você deveria tentar se reunir mais cedo aos seus amigos.

Nessa tarde, Robert insistiu para que a filha fosse fazer compras em Saint-

Tropez. Lá, encontrou-se por acaso com um amigo hospedado perto dali, em

Ramatuelle. Era um jovem muito agradável e, à noite, veio buscá-la para jantar.

Todos iam jantar no Le Chabichou, que Agathe sugerira. Saíram de casa

em dois carros. Estavam animados, menos Eric e Diana, que brigaram e foram

em veículos separados. Eric parecia calado e Diana mais calada que nunca. Mas

todos ficaram contentes com o restaurante e muito mais ao provar a comida.

Era de primeira qualidade.

Às onze da noite, ainda estavam lá, alegres e satisfeitos, e haviam bebido

três garrafas de vinho. Até mesmo o estado de espírito de Eric e Diana

melhorara, embora não estivessem sentados juntos um do outro nem se falado

a noite toda. Pascale conversava com Robert, quando ele novamente falou que

uma amiga chegaria na segunda-feira. Achava que Amanda fosse embora no

fim de semana, ou antes até.

— É alguém que conhecemos? — quis saber Pascale, fingindo-se

despreocupada.

Morria de curiosidade; não queria parecer intrometer-se na vida de Robert.

— Acho que não. É uma amiga que conheci há dois meses, quando saí

com Amanda.

Pascale aguçou os ouvidos. Perguntando-se se era a atriz mal-afamada —

pelo menos ela achava que fosse mal-afamada, com o que Diana concordara.

— Tenho certeza de que já ouviu falar dela — continuou Robert. — É

uma mulher muito linda. Vai ficar esta semana com amigos em Antibes, e

achei que seria ótimo se todos vocês a conhecessem.

Pascale lutava procurando as palavras certas, dividida entre a curiosidade e

as boas maneiras:

— Está interessado nela, Robert?

— Somos apenas amigos — respondeu, sincero.

Ao perceber que todos escutavam, pareceu um pouco desconcertado.

— Ela é atriz. Gwen omas. Ganhou um Oscar no ano passado.

No momento em que falou isso, Diana o olhou do outro lado da mesa, a

desaprovar abertamente. Nesses momentos, desaprovava tudo.

— Por que ela quer vir para cá? — perguntou, áspera. — Não estamos

muito interessados e a casa está uma desordem. Quer realmente que ela venha

aqui?

Todos esperavam que ela não quisesse vir, não queriam uma estranha no

meio deles, especialmente alguém que talvez fosse difícil e mimada. As duas

mulheres tinham certeza de que “a atriz”, como se referiam a ela, tentava de

alguma forma tirar vantagem de Robert. Amavam-no muito, e, depois de

muitos anos protegido pelo casamento, admitiam que fosse ingênuo.

— Ela é muito linda. Vocês gostarão dela — justificou-se Robert,

tranqüilo.

Os homens assentiram, curiosos para conhecê-la, e as duas mulheres

franziram as sobrancelhas.

— Isto não é bem um Rodeo Drive — insistiu Diana, tentando

desencorajá-lo.

Parecia indiferente, nada entusiasmada por conhecer Gwen. John e Eric, na

verdade, estavam muito curiosos, mas nada disseram às mulheres.

Pascale pensou que não haveria nada pior do que ter de distrair alguma

prima-dona mimada. Tinha certeza de que Gwen omas seria um pesadelo,

famosa bastante para isso. Estragaria as férias inteiras de todos. E, quem sabe, a

vida de Robert.

— Vai ficar aqui por quanto tempo?

— Alguns dias, uma semana no máximo. Depende de quando terá de

voltar a Los Angeles. Precisa ensaiar um filme, e, antes, quer descansar. Achei

que ficar aqui seria divertido para ela. — afirmou em tom paternal, protetor.

— Anne teria gostado dela. As duas têm os mesmos pontos de vista e decisões.

Ela gosta dos mesmos livros, músicas e peças.

Pascale olhou John, preocupada, e Diana até mesmo deu uma olhada

rápida para Eric. Nenhuma das mulheres acreditou, por um minuto sequer,

que Robert e Gwen fossem apenas “amigos”. Tinham certeza de que Gwen

omas o agarrara, e que ele era muito inocente para ser massacrado. Não

podiam conceber que os motivos da atriz fossem puros.

E, quando todas se calaram, Eric lhe pediu o cheque, para que cada um

pagasse a sua parte, enquanto John olhava atentamente a conta, resolvido a

encontrar um erro. Sempre afirmava que os restaurantes queriam enganá-lo;

por isso, Pascale detestava sair com ele para jantar. Na hora de tirar o cheque e

recalcular tudo, ele sempre estragava o jantar de Pascale. Ela, no entanto, estava

tão amolada com a chegada da “amiga” de Robert que não deu atenção a John.

Mal conseguia esperar para discutir tudo com Diana no dia seguinte, pois

achava um ato de coragem de Robert trazer Gwen ali. Parecia cedo demais,

depois da morte de Anne, marcar encontro com qualquer pessoa. A

companheira e a visita pareciam-lhe erradas em todos os sentidos.

— Aonde vamos então? — quis saber Robert, amável.

Voltaram aos carros e foram para casa. Pascale e Diana, acompanhadas de

John, conversaram animadas sobre os planos que tinham para “salvar” Robert

da diabólica Gwen.

— Por que não damos uma oportunidade à moça e vemos como ela se

comporta? — sugeriu John, sensato.

As duas mulheres se sentiram insultadas. Isso fez John achar que ambas

sentiam ciúmes de Gwen, mas ele não poderia ter a audácia de insinuar isso. Só

diziam estar aborrecidas por Robert e pediam a Anne que o protegesse dessa

moça — de acordo com elas, totalmente indigna dele.

Em casa, desejaram-se boa-noite. Amanda já chegara e estava deitada.

Pascale se deitou pensando no pesadelo que estava por descer sobre eles, e

virou-se para John, o olhar aborrecido.

— E os paparazzi? — perguntou ela, preocupada.

— E... o quê? — perguntou John, confuso.

Não tinha idéia do que Pascale pensava. A imaginação dela parecia correr

solta.

— Todos eles vão viver aqui, se essa mulher vier para cá. Não teremos mais

um minuto de calma, no restante das férias.

Isso podia acontecer, e nenhum deles pensara ainda em alguma coisa.

— Não há muito a fazer. Ela, com certeza, está acostumada a isso, e sabe

como enfrentar — acrescentou John, parecendo desconcertado. — Só quero

lhe perguntar por que razão você e Diana não conseguem engoli-la.

— Não a engolimos — enfureceu-se Pascale, parecendo muito francesa. —

Nós nos preocupamos com Robert. Essa Gwen talvez não fique mais que um

dia, quando ela vir a casa — disse Pascale, confiante. — Talvez vá embora ao

perceber que pegamos no pé dela. Robert pode ser inocente, mas nós não

somos.

Ao ouvir isso, John riu.

— Pobre Robert. Só precisava saber o que você planeja para ele quando

Gwen chegar aqui. Suponho que não vamos nos acostumar à idéia de alguém

mais na sua vida — disse John, pensativo. — Ninguém, a não ser Anne; parece

ser uma intromissão. Mas Robert tem o direito de fazer o que quer. É adulto, e

precisa de companhia feminina. Não pode ficar para sempre sozinho. Se ele gosta dessa menina, Pascale, por que não? É bonita, é jovem. Robert gosta da

companhia dela. Ele poderia fazer muito pior.

Na verdade, para ele, isso era muito mais importante — mais do que

revelava a Pascale.

— Está maluco? Andou bebendo? Você não sabe quem ela é? Uma putinha

que é atriz, e temos de salvá-lo dela.

Era, para dizer o mínimo, um ponto de vista exagerado. Pascale parecia

uma Joana d’Arc em uma cruzada.

— Sei o que pensa — insistiu John. — Eu me perguntava se temos o

direito de nos intrometer. Robert deve saber o que faz. Talvez os dois sejam

realmente apenas amigos. Se for mais do que isso, talvez ele esteja apaixonado

por ela. Pobre Robert. Tenho pena dele. — Mas, como alguém poderia ter

pena dele? Uma das maiores estrelas de Hollywood vem visitá-lo e se nada mais

houvesse na vida, isto seria mais empolgante do que sua vida com Anne.

— Também sinto pena dele. É um inocente. Por isso mesmo é que temos

de protegê-lo. Amanda ficaria horrorizada, se soubesse desse assunto.

— Você não deve contar a ela — completou John, sério. — Cabe a Robert

contar à filha sobre Gwen.

— Afinal vai saber de qualquer modo — acrescentou Pascale, agourenta.

— Deixe-o ter um pouco de diversão depois de toda a tristeza que sentiu

com a morte de Anne. Provavelmente deve ser apenas isso. Apenas uma

diversão. No fim, vamos achar alguém apropriado para ele — declarou Pascale,

firme.

— Robert não está exatamente fazendo um mau negócio — lembrou-lhe

John. — Gwen é muito atraente, uma das atrizes mais conhecidas do país.

— Exatamente — concluiu Pascale, como se John lhe houvesse

comprovado tudo. — E é disso que temos de protegê-lo. Por isso mesmo,

talvez ela não seja uma pessoa sincera.

— Pobre Robert — terminou John, mais uma vez, a sorrir.

E dormiu, aconchegado a Pascale. John se sentia triste por Robert; apesar

dos terríveis prognósticos de Pascale, Gwen lhe parecia muito boa.