Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 11 de 15

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Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 8

 

Orestante da semana transcorreu tranqüilamente. Todos jantaram em casa e em restaurantes; descontraíram-se e deitaram-se ao sol, nadaram e velejaram. E Amanda foi embora no sábado, apenas um dia antes do

combinado. Apesar de tudo, ela e o pai se divertiram muito. Ele lhe dissera

vagamente que alguém de sua amizade o visitaria na semana seguinte; a filha

ficou feliz ao saber que o pai estaria cercado por amigos. Perguntou-lhe quem

era, mas, na pressa antes da viagem, não insistiu. Pensou que fosse um de seus

velhos amigos ou alguém do tribunal; nunca lhe passou pela cabeça que

poderia ser uma mulher e não um homem.

Na noite de sábado, quando Pascale e Diana preparavam o jantar, houve

uma espécie de expectativa com a chegada de Gwen, no dia seguinte. Robert

nada mais falara sobre ela, mas era evidente, mesmo quando se referia a ela,

que estava ansioso por vê-la. Pascale e Diane — e mesmo Eric e John até certo

ponto — ainda estavam curiosas e desconfiadas de Gwen. Apesar de tudo o

que pensavam, de forma preconcebida, não tinham certeza do que esperar.

Robert parecia, para eles, um bebê perdido na floresta. Há anos, não

marcava encontro com ninguém, muito menos com uma mulher como esta. O

mundo de Gwen lhe era totalmente estranho. Era famosa, sofisticada e levava

uma vida que, em princípio, todos desaprovavam. Não era “decente”, como

Pascale afirmou, era divorciada e nunca tivera filhos, o que lhes sugeria que, no mínimo, fosse egoísta e egocêntrica. Evidentemente, ela se escondia na carreira.

Pascale não conseguira ter filhos. Estavam certos de que Gwen omas

detestava crianças. Encontraram mil motivos para antipatizar com ela, mesmo

antes de a conhecerem.

Na manhã de segunda, Gwen telefonou. Após desligar, Robert informou

que ela chegaria de carro para o almoço. As duas amigas tinham certeza de que

viria em uma limusine comprida e preta, talvez com motorista uniformizado

ou algo também absurdo. Pediram a Marius que consertasse a cama de Gwen,

no antigo quarto de Amanda, mas ninguém prestou atenção se o móvel se

quebraria novamente. Pareciam crianças em um acampamento ou internato,

querendo atormentar uma menina nova.

Robert fez com que todos tomassem banho e estivessem vestidos antes de

ela chegar. Usava short branco, camisa esporte branca e um par de sandálias

marrons, parecia muito elegante. Era um homem bonito e o bronzeado o fazia

parecer ainda melhor, mais jovem e mais saudável que há meses, ou mesmo

anos.

Pascale propôs que não esperassem Gwen para o almoço. Mas Robert

afirmou que também não almoçaria e que, se ela estivesse com fome, a levaria a

um bistrô em Saint-Tropez. Parecia-lhe mais cortês do que simplesmente não

aguardá-la e comer com os outros. Ele, porém, insistia para que todos

almoçassem sem ele. Como sempre, estava calmo e agradável, sem ter idéia de

que as amigas estavam ressentidas com Gwen. Se tivesse desconfiado do que

lhe reservavam, Robert nunca pediria que ela viesse.

Ao meio-dia, Pascale ia tirar o almoço, quando ouviu um carro chegar.

Olhou pela janela da cozinha e viu apenas um pequenino Deux Chevaux. Dele

desceu uma linda ruiva, numa minissaia de brim, camiseta branca e um par de

sandálias baixas, brancas. Parecia bem simples, mas, ao mesmo tempo, muito

diferente, saudável e séria. Usava os cabelos em tranças. Pascale ficou impressionada, ela se parecia muito com Amanda, só que mais bonita.

Primeiro, perguntava-se quem era a mulher; depois, percebeu, assustada, que

era Gwen. Não havia à vista limusine, nem motorista, nem paparazzi. Gwen

carregava uma bolsa grande de palha, pesada, e uma maleta de viagem, simples.

Apesar de tudo, Pascale pediu a Marius que fosse ajudá-la. Viu Robert

deixando a casa. Devia estar na janela no andar superior, atento, como um

menino a esperar um amigo que vem.

Assim que Gwen viu Robert, sorriu. Ao mesmo tempo, Pascale teve de

reconhecer que o sorriso era encantador, a pele bonita e pernas belíssimas, na

minissaia e nas sandálias. As formas eram muito bem-feitas. Enquanto

caminhavam devagar para a cozinha, Gwen parecia feliz e à vontade. No

instante seguinte, Pascale a olhava fixamente, enquanto Robert a apresentava, e

sorria arrogante para Gwen.

— Que bom conhecê-la — mentiu Pascale. — Ouvimos falar muito a seu

respeito.

— Também ouvi muito a seu respeito — respondeu Gwen, amável. —

Você é Pascale, não? Que tal a casa?

Gwen apertou as mãos de Pascale e pareceu não perceber a fria recepção

que estava tendo. Era natural, sem afetação e surpreendentemente

despretensiosa. Disse que levaria a bagagem para o andar superior, mas Robert

mandara Marius fazer isso. Depois, Gwen se ofereceu a ajudar no almoço. Foi

diretamente à pia e lavou as mãos. Parecia esperar trabalhar com Pascale.

— Eu... não... ahh... está tudo bem. Não precisa me ajudar.

Gwen e Robert ficaram na cozinha, conversando. Ele lhe falava, animado,

sobre o que Pascale fizera na casa e como a tornara confortável para todos.

— Deveriam nos pagar para ficarmos aqui — acrescentou Robert.

John entrou na cozinha. Ao ouvir, ficou animado.

— Apóio essa idéia.

John a olhava, querendo saber quem era. E não importa quem fosse, era

muito linda, pensou consigo, e, ao ver o rosto da mulher, percebeu com quem

falava. No início, não reconhecera Gwen, e o que o surpreendeu mais foi o fato

de não esperar que ela parecesse tão humana, tão encantadora ou tão jovem.

Com certeza, não parecia ter 41 anos. Pascale, no entanto, queria saber se a

beleza era natural ou se fora “fabricada”. Usava muito pouca maquilagem e, a

seu modo, parecia surpreendemente natural. Tinha maneiras simples,

despretensiosas, amabilidade e simpatia, além de um olhar perturbador. Ao

examiná-la com cuidado, era impossível ver nela o diabo que Pascale havia

pintado. Em pouco tempo, Pascale parecia surpresa e ansiosa com o encanto

evidente no rosto de Gwen.

Dez minutos depois, o almoço estava na mesa. Os Morrison apareceram e

pararam para dar uma rápida olhada. Não era de modo algum o que haviam

imaginado: Gwen, muito mais bonita e natural, ao lhes dirigir a palavra,

parecia muito cordial. Mas, mesmo diante disso, Diana dizia a si mesma que

Gwen era uma atriz e poderia enganar qualquer um.

Sem perceber nenhum dos pensamentos malévolos sobre si, Gwen se

sentou à mesa com eles, após levar várias travessas para a mesa. Ao dar a mão a

Pascale, ajudara a pessoa certa, sem hesitar nem restringir. Robert se oferecera

para levá-la a um restaurante para almoçar; ela, no entanto, afirmou que estaria

muito mais feliz ali, almoçando com os amigos dele. Acrescentou que Robert

conversara tanto sobre eles que se sentia feliz por encontrar todos finalmente.

E, mal falou isso, Pascale e Diana trocaram um olhar mau. Estavam

convencidas de que, por debaixo da simpática aparência exterior, havia uma

puta.

Ao se sentarem à mesa para almoçar, Robert perguntou a Gwen sobre

Antibes. Parecia muito à vontade, e ela respondeu que se divertira, lera um

bocado e ficara deitada ao sol. Ao chegar, estava exausta.

— O que leu? — perguntou ele, com interesse.

Todos, sentados, olhavam-na, sentindo-se encantados e desconfortáveis.

Havia um quê de irrealidade ao se sentarem ali, conversando com Gwen, após

vê-la tantas vezes na tela. Ao responder às perguntas de Robert, Gwen falou

que lera alguns romances novos muito bons e os citou. Eram todos os mesmos

livros que Pascale e Diana haviam acabado de ler.

— Sempre espero realizar algum filme baseado nos livros que leio. Mas não

é fácil achar bons enredos. A maior parte dos textos é tão maçante e entediante

— explicou ela, como que esclarecendo.

Informou que havia trabalhado em um filme baseado em um dos mais

recentes romances de Grisham, e que realmente adorara realizá-lo. Nem Pascale

nem Diana se confessaram impressionadas, no entanto estavam.

Robert conhecia dois dos quatro livros que ela lera, e teve de concordar

com ela, pois gostara deles. E conversaram animados sobre isso, e, até Pascale

servir café, fizeram listas de outras coisas. Eric e John entraram na conversa,

mas as mulheres resistiam. Não queriam se deixar seduzir por Gwen, embora

estivesse claro que os homens ficaram rapidamente encantados pela graça da

moça. Era fácil ver por que Robert gostava de estar com ela. Era

desembaraçada, inteligente, tinha um fino senso de humor e era fácil tê-la por

perto. Isso a fazia muito mais fácil que Diana ou Pascale. Foi Gwen quem

puxou conversa com elas, perguntando-lhes o que fizeram durante as férias, e

conversando abobrinhas, embora Pascale e Diana não ajudassem em nada.

Respondiam-lhe por monossílabos e, muitas vezes, nem respondiam, embora

ela não parecesse perceber ou dar a mínima importância.

Logo depois que terminou a refeição, Agathe entrou na sala, trazendo um

momento de descontração. Parecia que ela não percebera o efeito que causou;

cantarolava levando uma pilha de toalhas, um dos poodles saltitando atrás dela.

Saía da cozinha quase tão depressa quanto entrara. Gwen arregalou os olhos, enquanto o generoso traseiro de Agathe bamboleava em ritmo de música.

Usava short de leopardo, corpete de tecido muito brilhante, os sapatos que

preferia, com saltos de cetim vermelho.

— O que é isso? — sussurrou Gwen a Robert, depois que Agathe saiu. —

Parecia o Liberace vestido de travesti.

Todos riram.

— Isso é Agathe — respondeu Robert, sorriso largo, divertido com a

descrição inteligente de Gwen.

Uma das coisas de que ele gostava em Gwen era que ela o fazia rir como há

muito não acontecia.

— É a empregada — informou Robert, feliz. — Em geral, usa uniforme

preto e um avental de renda, mas, hoje, vestiu-se especialmente para você —

provocou ele.

Os amigos olhavam o rosto de Robert. Parecia à vontade. Ele, que em geral

era tão sério, algumas vezes mesmo triste, agora estava mais despreocupado que

nunca. Pascale achou que ele se fazia de bobo, enquanto Diana queria saber se

a cor dos cabelos de Gwen era natural. Era de uma tonalidade de vermelho

surpreendente, que poderia ser verdadeira, e, na verdade, era. Era ruiva natural,

a mais rara de todas as aves de Hollywood, com olhos castanho-escuros, pele

perfeita, sem sardas. Havia muita inveja com relação a ela.

— E ela limpa de verdade? — quis saber Gwen.

Robert balançou a cabeça, muito divertido e com surpreendente bom

humor. Estivera assim as férias inteiras, e Pascale não conseguia imaginar se era

por causa da expectativa da visita de Gwen. Com certeza, não parecia tão

angustiado como nos meses anteriores, mas John já afirmara não ser justo

avaliar a dor de Robert com as tentativas de ser agradável, nem sobrecarregá-lo

com tristeza.

— Pascale diz que ela trabalha muito — explicou Robert sobre a

empregada que usava roupas extravagantes e o bando de cães que nunca

paravam de latir. — Você já conheceu o marido. Bebe um bocado, mas é

bastante agradável. Vieram junto com a casa.

Gwen ria.

— O que todos vão fazer esta tarde? — quis saber Diana, olhando-os

intencionalmente.

Já resolvera que se dissessem que tirariam um chochilo, ela ficaria no

corredor, entre os quartos, ocupada. Queria fazer todo o necessário para

proteger a virtude de Robert. E o mínimo que poderia fazer, sentia ela, era

arranjar coisas que lhes dificultassem a vida. Sentia dever muito a Anne.

— Não me importaria de ir a Saint-Tropez para fazer compras —

informou Gwen.

Em conversa anterior, ela falara a Robert que adorava fazer compras, mas

que raramente tinha tempo.

— Vou com você — respondeu ele, rápido.

Todos arregalaram os olhos. Sabiam que Robert detestava fazer compras. E

Anne também. Ele, agora, era um homem diferente.

— Gosta de velejar? — perguntou Pascale, querendo ser simpática.

— Adoro — respondeu Gwen, tranqüila.

Dirigiu-se a Robert:

— Gostaria de velejar?

Gwen olhava Robert, amável.

— Podemos fazer as duas coisas — informou Robert, sensato. — Por que

não vamos antes a Saint-Tropez?

— Vou pegar minha bolsa.

Gwen foi ao quarto pegá-la. Robert sorria. Não tinha noção do ciúme que

havia nos corações de Pascale e Diana. Ambas se comportavam como gêmeas malvadas.

— É uma mulher encantadora, não? — ele quis saber, feliz por

conhecerem-na.

— Sim — respondeu Pascale, entre dentes.

Robert a olhava, calmo.

John achava que ela e Diana exageraram e que Robert e Gwen tinham

espírito esportivo. Se lhe perguntassem, Eric teria concordado com ele.

Felizmente, Robert parecia não ter percebido a forma sutilmente hostil das

duas mulheres. Admirava tanto Gwen, que se tornava difícil imaginar alguém

menos deslumbrado por ela. Embora as duas amigas estivessem resolvidas a

resistir, sem que ele soubesse. Elas viam Gwen como sereia e como ameaça, que

se deveria afugentar a todo custo. Não importavam os meios. Para o próprio

bem de Robert, claro.

Robert e Gwen saíram após despedirem-se deles. Alguns minutos mais

tarde, o Deux Chevaux foi embora. Os dois amigos olhavam as mulheres, a

censurá-las.

— O que vocês duas, esclarecidas, vão dizer quando eles voltarem? Gwen

parece encantadora e é convidada de Robert — Eric informou a Pascale e

Diana.

Era evidente que John concordava com ele, pois fazia que sim com a

cabeça.

— Ela com certeza descobriu quais as suas intenções, não? — respondeu

Diana, amarga, insinuando os recentes descaminhos do marido. — Não sabia

que as ruivas faziam o seu tipo. Mas acho que há uma porção de coisas que eu

não sabia a seu respeito.

Foi um soco desleal. Eric pareceu não ficar satisfeito, mas se manteve firme.

— Não foi o que conversávamos. Se eu fosse Gwen, não me preocuparia

em desfazer a mala. Iria imediatamente para o hotel mais próximo, em vez de tanta conversa fiada. Ela não deveria ficar aqui. Robert quer que ela fique.

Convém a Robert. Gwen evidentemente faz isto por ele. Não é culpa dessa

mulher que Robert tenha quatro amigos tão ligados a Anne. Ela não precisa

compreender isso. Não é o que Robert quer da vida, não é o que nós queremos

que aconteça.

O que John falou tinha sentido, caso admitissem ou não.

— Ela é atriz — acrescentou Pascale, irritada. — pode convencer qualquer

um, você, John, Robert, do que quiser... é o que ela faz. Robert nem mesmo

sabe quem ela é.

— Talvez Robert a conheça melhor que nós, Pascale. Não é tolo; é adulto e

inteligente. Gwen é uma mulher bonita, e é tolice se quer ver até onde nos

suporta. Eu, no lugar dela, não faria isso. Disse a todos nós para nos

esforçarmos, e sairmos para almoçar. Vocês duas mal falaram. Tenho certeza de

que há muita gente que brigaria para conhecê-la e ser-lhe agradável. Gwen não

precisa de nós para atrapalhar suas férias. Que vão dizer quando eles voltarem

da cidade?

Eric pedia isso às duas amigas. Nunca as vira comportando-se assim. John

aprovava.

— Eric está certo. Se criarmos dificuldades, vamos magoar Robert e Gwen.

Por que não o deixamos chegar a essa conclusão por si mesmo?

Além disso, John não queria admiti-lo a Pascale, mas gostava de Gwen,

muito mais do que imaginava. E gostava do modo como ela tratara seus amigos

— com bondade, respeito, humor e cortesia. Havia nela algo incrivelmente

decente e sensível, e John ficara muito desconcertado com a forma como sua

mulher a tratara.

— O que é que há com vocês dois? — aparteou Diana, mais uma vez. —

Só porque ela tem duas pernas bonitas e usa minissaia, os dois se apaixonaram

por ela? É 22 anos mais moça que Robert, e ele está fazendo papel de bobo. E por quanto tempo acham que isso vai durar? Algum ator jovem e bonito vai

aparecer, e ela vai se livrar dele. E se ele se apaixonar por ela, vai ficar de

coração partido.

— Talvez já esteja. E talvez Gwen tenha se apaixonado por Robert. Por que

não deixá-lo resolver o problema sozinho? Que tem de errado, mesmo que não

dure, se ele se divertir dessa forma? Será, algum dia, uma ótima história para

contar aos netos, sobre o romance que teve com uma atriz jovem e bela, em um

verão. Coisas piores acontecem. Muito piores — acrescentou Eric, olhando a

mulher. — Robert está solteiro, pelo amor de Deus! Não deve explicação

alguma a ninguém, nem a nós, com certeza. Que direito temos de atrapalhá-lo?

— Todos os homens pensam com apenas um órgão da anatomia? —

perguntou Diana, diretamente ao marido. — Entendi! Ela é bonita.

Reconheço isso. Mas nenhum de nós sabe quem ela é, e aposto que Robert

também não. Não quero vê-lo fazer alguma coisa absurda, ou sair machucado,

ou deixar qualquer vagabundinha de Hollywood tirar vantagem dele.

— Como? — insistiu Eric. — O que Gwen vai tirar dele? Talvez faça mais

dinheiro que qualquer um de nós. Não vai tirar proveito só por dormir com

ele. Robert não pode lhe dar um papel em um filme. Pelo amor de Deus, nem

mesmo pode lhe conseguir os ingressos de uma estréia. E, se não fosse por ele,

talvez Gwen ficasse em um hotel quatro estrelas, e não dormindo em uma

cama que talvez desabe no meio da noite, com um banheiro que não funciona,

uma empregada que sopra fumaça na sua cara e quatro pessoas que a

atormentam, com a desculpa de que estará de qualquer maneira com ele — e

talvez consigam. O que vocês pensam exatamente que ela sairá ganhando disso

tudo?

O que Eric dizia tinha sentido, embora nenhuma mulher estivesse pronta a

admitir; havia um pormenor.

— E se Robert se casar com ela? — indagou Pascale, irada. — E aí?

— Por que nos preocuparmos com isso agora? — argumentou John.

Eric riu.

— Lembro-me da primeira vez que todos nós jantamos com você, Pascale.

Mal falava inglês, chegou uma hora atrasada, usava um vestido de cetim preto

tão apertado que mal conseguia respirar, e você era bailarina, que de modo

algum é muito diferente de ser atriz, pelo menos aos olhos de algumas pessoas.

Anne e Diana também estavam desconfiadas. Mas superaram. Se apaixonaram

por você... Todas lhe deram uma chance. Por que você não pode fazer o mesmo

com Gwen?

Houve silêncio na sala. John a olhava. Depois, finalmente, Pascale se virou

e resignou-se com um gesto. John havia marcado um ponto, e ela sabia disso.

Fora uma bailarina amedrontada, que morria de fome, quando John se

apaixonou por ela, e podiam tê-la acusado das mesmas coisas. O que

complicava tudo era que, agora, todos amavam Anne. Anne, porém, se fora. E

Gwen era a mulher com quem Robert queria estar. Ao levá-la ali, ele confiara

nos amigos. E eles estavam traindo essa confiança, sendo desatenciosos com

ela. Pascale via o propósito de Eric, mas não conseguia admitir isso.

Diana nada admitiu ao pôr na pia os pratos do almoço. Ainda estava tão

irritada com Eric que nada quis ouvir do que ele falava. Gwen era apenas outro

rosto bonito e um par de pernas bonitas que ele perseguia, no que lhe dizia

respeito. E o fato de John concordar com Eric nada queria dizer para Diana.

Estava tão indignada com todos, nesses últimos dias, que Gwen fora bode

expiatório para dar vazão à angústia que sentia.

Depois disso, John e Eric saíram para o jardim a fim de fumar charutos.

Pascale demorou na cozinha para ajudar Diana; após longo silêncio, olhou a

amiga com olhar interrogativo.

— O que acha? — perguntou Pascale, as sobrancelhas franzidas,

aborrecida.

— É cedo demais para saber quem ela é realmente — atalhou Diana,

teimosa.

Pascale assentiu, mas, no fundo do coração, há muito se convencera. Eric

conseguira seu intento.

Enquanto isso, no carro, a caminho de Saint-Tropez, Gwen perguntava a

Robert sobre seus amigos:

— Tem certeza de que eles não se preocupam com o fato de eu me

encontrar com você, Robert? Sinto-me como uma invasora. Após esses anos

todos, vocês estão acostumados a ficar juntos, e, de repente, chego eu, mais

importante para você. É muito complicado para eles.

Durante o almoço, Gwen sentira haver um mal-estar, na verdade mais do

que Robert. Ele acabara de lhe dizer que estavam desconfiados, por causa de

quem ela era, o que a fez sorrir-lhe. Gwen sabia, como Diana e Pascale, que

Robert era ingênuo, e adorava isso nele. Às vezes, tinha um modo de só ver as

coisa boas.

— Para eles, é mais difícil do que você pensa. Vê-lo com uma pessoa

estranha é muito forte para todos eles.

— É muito forte para mim também — acrescentou ele.

Por um momento, Robert pareceu sério, pensando em Anne. Mas não

queria deixar-se cair em tristeza. Não importava o quanto estivera desgostoso, e

estivera de fato, isso não traria Anne de volta.

— Todos temos de nos acostumar.

Robert olhava Gwen com simpatia.

— Só não quero que isso seja implacável. Foram grosseiros com você? —

perguntou ele.

Robert parecia aborrecido, pois não vira coisa alguma.

— Claro que não. Sinto apenas certa restrição e resistência. Esperava por

isso. Estou bem. Não quero que isso seja desagradável aos seus amigos.

— São como minha família, Gwen. Temos muita história e muitos anos

em comum. Queria que a conhecessem e que, como eu, gostassem de você.

Robert sabia que talvez eles não conseguissem resistir. Ou pelo menos

achava. Gwen não estava tão segura disso.

— Você precisa lhes dar tempo, Robert — respondeu ela, sensata.

Aproximavam-se do centro de Saint-Tropez. Robert procurava uma vaga

para estacionar o carro.

— Pode levar mais tempo do que se imagina.

Se lhe dessem mesmo uma oportunidade. Gwen sabia que as amigas de

Robert poderiam nunca abrir os corações ou as portas para ela. Não estava tão

certa, quanto Robert, de que eles se acostumariam e a receberiam com agrado.

— Você não conhece meus amigos. Confie em mim, Gwen. Vão se

apaixonar por você no fim do jantar, hoje à noite. Por que não amá-la? —

perguntou, sorrindo.

— Não sou Anne — respondeu Gwen, delicada. — Para eles, essa é a

primeira investida contra mim. E sou famosa... Sou atriz... Sou de

Hollywood... Tenho certeza de que me acham estranha. Em particular, se lêem

os tablóides. É muita coisa para as pessoas acreditarem, de início, sem suspeita.

Acredite em mim, já estive do outro lado. Tudo isso faz as pessoas odiarem

você até que a conheçam. Sou culpada até provar que sou inocente; não é o

contrário.

— Em minha casa e com meus amigos, não — respondeu Robert, seguro.

Gwen lhe sorria, consciente. Curvou-se para beijar-lhe a face. Não o

forçaria a reconhecer, mas lhes sentira a resistência durante o almoço e já estava

acostumada a isso. Algumas vezes, machucava e frustrava, mas era algo com

que já se acostumara muitas e muitas vezes. Eram amigos há trinta anos. Era

um mistério resistente a romper. Ela não iria forçar sua entrada, ou violentá-

los. Era esperta demais para isso. Ia apenas ocupar-se das suas atividades, sossegada, e esperar que, com o tempo, aceitassem-na. Mas, acima de tudo,

estava decidida a nada forçar. De qualquer maneira, era muito cedo para saber

o que aconteceria com Robert.

Por fim, ele achou uma vaga. Virou-se para ela no carrinho e pôs um braço

ao redor dela, beijando-a de leve.

— Bem, vamos às lojas, Miss omas?

— Para mim, tudo bem, Vossa Senhoria.

Gwen lhe sorriu, carinhosa. Estava contente por ter vindo visitá-lo, mesmo

com os amigos dele, visivelmente contrariados.

— Acha que o povo vai reconhecê-la?

— Talvez. Consegue conviver com isso? — perguntou ela.

Gwen parecia um pouco preocupada. Às vezes, isso poderia ser um pouco

opressivo, em especial se não estivessem acostumados. A celebridade era um

mundo do qual Robert nada sabia. Isso, nele, também era algo que lhe

agradava. Quando estava com ele, Gwen sempre se sentia bem — de verdade.

— Acho melhor me acostumar, se você vai passar muito tempo comigo.

Robert sempre se sentia feliz por estar com ela, não por causa de sua

celebridade, mas por que era ela, como ser humano e não como estrela.

— Vamos — disse ele, assim que saíram do carro.

Mal tinham dado dez passos e pessoas a pararam e lhe pediram autógrafo.

Robert sorria quando Gwen assinou um pedaço de papel. Mais uma vez, dois

minutos depois, dois jovens lhe pediram que posasse para uma foto. Ela os

tratou com cortesia e se afastou rápido, para não atrapalhar Robert. Mas era

assim mesmo, e fizeram tudo para aproveitar a ida às lojas. Depois pararam em

um café de calçada para tomar uma taça de vinho. E, como sempre, passaram

ótimos momentos, apenas conversando, rindo e ficando juntos. Sempre

tinham boas conversas e se divertiam.

Bateram papo sobre muitos assuntos, o trabalho dele, os filmes dela, os

ideais de ambos, os pais de ambos, os filhos dele e a infância dela. Robert sabia

que Gwen queria ser professora, e, antes, nunca pensara em se tornar atriz,

muito menos ganhar um Oscar. Ela lhe contara como foi e o que isso lhe

significara, e como, agora, se tornara difícil escolher papéis que lhe fossem

igualmente significativos.

— Algumas vezes, você faz filmes divertidos, que adora. Não se pode

ganhar Oscar com todos os filmes — explicou-lhe Gwen, prática.

Depois, falou-lhe mais sobre o filme que iria estrelar agora e quem eram os

atores contratados para trabalhar com ela. Era sobre um assassinato misterioso,

e o co-astro era mais famoso do que ela. Com isso, Gwen tinha mais alguma

coisa a contar-lhe.

— Tenho um casal de amigos, aqui, na região. Estão em um iate muito

bonito. Chama-se Talitha G e pertence a Paul Getty.

Robert ouvira falar dele, mas não o vira. Era um iate clássico, com motor, o

interior muito elegante. Todo em mármore, tinha antigüidades. Os amigos

estavam ali há duas semanas. Gwen se perguntava se Robert gostaria de visitá-

los lá.

— Não quero convidar seus amigos antes de lhe perguntar como iriam se

sentir.

— Parece excelente — respondeu ele, honesto. — Sempre quis conhecer

esse iate. Há anos, li um artigo sobre ele, em uma revista, e o mostrei a Anne.

Ela conhecia muito sobre barcos a vela, e o achou excelente. Mesmo nas fotos,

parecia belíssimo.

— É. Vi o iate no ano passado. Mas me pareceu um pouco pomposo

demais para mim. Um grupo de Los Angeles estava nele.

Robert estava impressionado que Gwen ainda pensasse nisso.

— Meus amigos gostarão de conhecê-lo — informou ele, cordial.

Gwen lhe contou quem eram os amigos que haviam fretado o iate. Robert

riu.

— As mulheres vão desmaiar quando você lhes contar isso — acrescentou

ele, o olhar divertido.

A vida de Gwen era totalmente diferente da dele. Fazia parte de um mundo

muito estranho a todos eles. Conhecia pessoas e nomes os mais variados. Sobre

essas pessoas, os amigos apenas liam ou sonhavam. O ator que fretara o Talitha

G era um astro muito popular, Henry Adams, e a mulher, uma supermodelo

muito conhecida. E, no iate, tinham como convidados dois outros atores que

eram astros principais.

— São todos velhos amigos e pessoas encantadoras — esclareceu Gwen,

sorrindo. — Talvez os seus amigos gostem de conhecê-los.

— Não conseguirão resistir a uma oportunidade como esta — respondeu

ele, o sorriso largo e franco.

— Quando chegarmos em casa, telefonarei para o barco. Na semana

passada, estavam todos no Hôtel du Cap — acrescentou Gwen. — É um

trabalho cansativo, mas alguém tem que fazê-lo.

— Acha que vão querer ir à villa?

— Claro que sim, vão adorar.

Gwen trabalhara em filmes com cada um deles, nos últimos cinco anos.

Mais uma vez alertou Robert para o fato de isso ser muito importante para a

sua carreira. A única coisa que o surpreendia era como Gwen não tinha

artifícios, como era simples e verdadeira.

Ao voltarem a casa, Robert a levou para velejar. Gwen não velejava tão bem

como Anne, mas era boa esportista e não se queixou quando deram uma virada

forte e ela levou um tombo no barco. Ria. Robert virou-se e desviou o olhar

quando ela quase perdeu o bustiê do biquíni. Robert não quis desconcertá-la,

mas ficou muitíssimo impressionado com o corpo espetacular de Gwen. Era difícil não ficar. Passaram o resto da tarde no barco. Chegaram a casa, e Pascale

e Diana já estavam preparando o jantar. As duas amigas mal a

cumprimentaram.

— Prefere sair? — perguntou Robert a Gwen, discretamente.

Os cabelos dela estavam úmidos e, enrolada em uma grande toalha de

praia, segurava as sandálias. Entravam em casa com os pés descalços.

— Não, prefiro ficar aqui. Podemos sair uma outra vez. Vou telefonar a

Henry. Se todos quiserem, talvez possamos jantar no barco amanhã à noite.

Henry diz que a comida é deliciosa. Têm um excelente chef.

— Acho que eles comeriam até um cachorro-quente, desde que estivessem

lá e os vissem — esclareceu ele, cochichando.

Procuraram na despensa um lanche rápido e conseguiram um punhado de

nozes. Robert lhe ofereceu uma bebida, e Gwen se serviu de água mineral.

Ao passar de volta pela cozinha, Gwen prometeu a Pascale e Diana:

— Volto em poucos minutos para ajudar.

Pascale insistia que não havia necessidade.

Enquanto isso, Robert chegava à conclusão de que Gwen estava certa.

Nunca, antes, vira Pascale ou Diana terem tal comportamento. Havia alguma

coisa fria e quase hostil por parte de ambas, o que o deixava angustiado com

relação a Gwen.

Robert e Gwen subiram ao andar superior. Gwen foi ao quarto para se

vestir. No momento em que se sentou na cama, o móvel desmoronou. Gwen

deu uma gargalhada alta. Foi uma cena completa.

Um minuto mais tarde, batia à porta de Robert, que apareceu enrolado na

toalha. Acabara de entrar no chuveiro.

— Acho que puseram alguma armadilha na minha cama — segredou ela.

Robert sorriu.

— Não, aconteceu o mesmo na semana passada. Vou pedir a Marius que a

conserte. Me desculpe, Gwen — justificou-se Robert, com verdadeiro remorso.

Queria que Gwen tivesse momentos agradáveis, mas temia que isso não

acontecesse. Ela, no entanto, parecia mais divertida do que irritada. Nada

parecia aborrecer Gwen, nem mesmo a recepção fria das duas amigas. Percebeu

que tudo não passava de uma preocupação para com o amigo, mais do que

algo mal-intencionado. Isso tornava as coisas mais fáceis para ela.

Robert desceu ao andar térreo para procurar Marius. Gwen foi tomar uma

chuveirada; quando saiu, em um robe atoalhado cor-de-rosa que comprara no

Ritz, a cama estava consertada, e Robert fora tomar banho. Encontraram-se,

por coincidência, vinte minutos depois, na escada. Gwen vestia calças de seda

amarelo-clara, e, combinando, um suéter sem mangas, com xale florido em um

braço e sandálias douradas. Usava um mínimo de maquilagem. Não parecia,

mais uma estrela de cinema que uma mulher muito bonita.

— Está muito bonita — murmurou Robert, honesto.

Não pôde deixar de sentir o perfume. Era leve, floral e muito excitante. E,

por uma fração de segundo, seu coração sentiu saudades de Anne, mas tentou

convencer-se de que uma coisa nada tinha a ver com a outra. Sentia falta da

mulher, e, embora Gwen fosse espetacular, não era Anne. Mesmo assim, era

excelente pessoa, e ele adorava estar com ela. Fazê-lo recordar-se disso ajudava,

enquanto ele descia as escadas e voltava à cozinha. Eric estava lá, bebendo

vinho e conversando com Pascale; Diana fora ao andar superior a fim de se

vestir para o jantar. John estava do lado de fora, fumando um charuto e tirando

fotos do pôr-do-sol. A casa ficava no mesmo ângulo que os cafés na cidade, o

que lhes permitia ver o pôr-do-sol, o que era raro em Saint-Tropez.

— O que posso fazer para ajudar? — ofereceu Gwen, tranqüila.

Robert lhes serviu vinho e lhe entregou a taça. Pascale parecia tensa.

Chegara agora a um ponto crítico, porque se mostrasse interesse por Gwen, Diana se sentiria traída.

— Nada — atalhou Pascale, áspera.

Para suavizar o choque que foi o modo de tratar Gwen, Robert falou a

Pascale sobre o convite para os comes-e-bebes que Gwen havia reservado para

eles no dia seguinte. Contou que amigos dela estavam tomando conta de um

incrível iate, e que seria possível todos jantarem nele.

— Detesto iates — avisou Pascale, pondo algumas batatas no forno, junto

com o assado.

A forma de ela falar confirmou a Robert que Gwen estava certa em relação

a seus amigos.

— Vai gostar deste iate — garantiu-lhe Robert, falando-lhe tudo sobre ele.

Ao ouvir, Eric parecia curioso; depois, John entrou na sala e ouviu metade

da conversa. Olhou Gwen, sorrindo. Ela lhe sorriu. Pascale viu a troca de

sorrisos.

— Que barco? — perguntou John, parecendo pálido.

Colocou a câmera fotográfica sobre a mesa e aceitou uma taça de vinho que

Eric lhe ofereceu.

— Estamos fretando um barco? Já temos um.

O que tinham era tão sem importância que fez todos rirem.

— Não precisamos gastar mais dinheiro — afirmou John, firme, fingindo

rosnar.

Não conseguia tirar os olhos de Gwen.

— Pensei que compraríamos um — ironizou Robert, expansivo.

Mal conseguia ver a palidez de John por baixo do bronzeado.

— Aqui? Na França? Por quê? Está doido?

Súbito, percebeu que Robert provocava.

— Está bem, está bem. Compreendi. Então, qual é o barco?

Robert disse a ele, enquanto entrava Diana pelo aposento, usando calças

brancas e uma blusa colorida. Robert lhes disse que todos iriam nele; que, no

dia seguinte, graças a Gwen, todos visitariam os três astros de cinema e a

supermodelo.

— Está brincando, não? — perguntou Diana, parecendo meio irritada,

meio curiosa.

Os acontecimentos sofriam uma interessante reviravolta.

— Não, não estou brincando — respondeu Robert, orgulhoso.

Havia alguns aspectos da vida de Gwen que o faziam divertir-se. Ser capaz

de apresentar os amigos a três dos maiores astros do cinema e a uma

supermodelo era por certo uma delas. Embora houvesse outras coisas de que

ele gostava nela ainda mais. Esta, porém, era divertida.

Olhou, agradecido a Gwen, que telefonara aos Adams antes de se vestir, e

combinara estar no dia seguinte, na hora do almoço, na villa. Todos sairiam de

carro por volta do meio-dia, e talvez parassem para nadar em algum local;

depois talvez ancorassem na villa para jantar. Pela primeira vez, até mesmo

Diana e Pascale estavam algo atônitas. Era difícil recusar um convite como esse.

E, durante algum tempo, todos conversaram animadamente, sem dirigir a

palavra a Gwen, sem ao menos agradecer o que ela fizera por eles. Mas, após o

jantar, Robert lhe agradeceu, quando foram dar um passeio no jardim.

Ninguém, de modo particular, fora amável com Gwen, apesar de Eric e John

tentarem. Mas Pascale e Diana ainda resistiam. John, na verdade, passou

bastante tempo conversando com Gwen, apesar de Pascale olhá-lo fixa e

atentamente. No entanto, na hora em que serviram o café, John não tinha mais

dúvida, gostava dela, ela lhe apreciava o esforço feito para conversar e estava

agradecida a John. De todos, exceto Robert, ele fora o mais amável com ela.

Eric lhe fizera várias perguntas sobre seu trabalho, o que só fez Diana afastar-se

mais da atriz.

Foi um alívio apanhar um pouco de ar após o jantar. Gwen afundou-se,

feliz, em uma das cadeiras de jardim que Pascale havia repintado.

— Desculpe-me se está tendo momentos difíceis. Acho que você esteve

bem, esta tarde — reconheceu Robert.

Não tinha idéia do que fazer, mas era ainda o primeiro dia: esperava que

tudo melhorasse depois que se acostumassem a ela. A vendeta das mulheres

contra ela parecia-lhe ridícula. Robert não entendia o que acontecia, mas

Gwen sim. Estava acostumada. Sentirem ciúmes dela, por causa da aparência e

do sucesso, era comum. E Robert queria facilitar-lhe a vida.

— Tudo vai mudar — declarou Gwen, prática. — O barco amanhã vai

chamar a atenção deles.

Sentaram-se do lado de fora da casa. Era como lidar com crianças. Para que

ficassem quietas, era preciso conservá-las ocupadas e distraídas.

— Nunca esperei isso — completou Robert, infeliz. — Não entendo o que

eles pensam fazer, ou porquê. Por que serem grosseiros com você?

Estranhava a forma como Diana e Pascale tratavam Gwen.

— Estão protegendo você — explicou ela, filosoficamente. — Têm uma

porção de idéias preconcebidas a meu respeito e a respeito do que sou. Vão

superar. Nada quero de você.

— Como podem ser tão bobinhas? — perguntou Robert, mais uma vez.

Parecia assustado. Gwen concordava.

— Por quê? Mais amável com elas você não poderia ser.

— Nada mais se pode fazer, e você sabe disso. Fazem tudo em respeito à

memória de Anne do único jeito que sabem, e pensam estar salvaguardando o

seu futuro. Por tudo o que sabem, sou um monstro de Hollywood, Robert.

Pense nisso.

— Espero que não demorem muito a crescer — acrescentou ele,

aborrecido.

Teve uma idéia e a propôs.

— Vamos dançar?

Gwen pensou por um minuto; depois, sorriu e respondeu que sim com a

cabeça.

— Gostaria. Será que elas gostariam de ir?

— Não vou convidá-las — declarou Robert, áspero, sentindo-se hostil e

cansado delas. — Você merece um pouco de prazer, sem pessoas pegando no

seu pé.

— Não quero prejudicar os sentimentos de ninguém — respondeu ela,

cuidadosa.

— Vamos pensar nos seus sentimentos e nos meus. Vamos cuidar de nós

mesmos e nos ocuparmos deles amanhã.

Gwen se sentiu comovida de Robert estar disposto a fazer isso. Entraram

no Deux Chevaux e ela pegou a direção do carro. Saíram sem avisar aos que

estavam na casa. Os Morrison e os Donnaly escutaram quando o casal partiu;

carrancudos, na sala de estar, conversavam sobre Gwen.

— Gosto dela — informou John, sincero, querendo defendê-la perante os

outros. — É uma mulher muito amável.

Olhava Pascale, censurando-a.

— O que espera? Ela é atriz — Pascale fitava com os olhos fixos o marido.

Pascale não gostou que o marido defendesse Gwen. Ainda achava

deslealdade sua para com Anne gostar de Gwen. Achava ter obrigações com

Anne para no mínimo não permitir isso tão cedo, não importa o que John

dissesse.

— Vocês deveriam dar à pobre mulher uma oportunidade, por amor a

Robert, apenas isso — acrescentou Eric. — Têm que admitir, Gwen é amável

com Robert.

— Talvez você tenha razão, mas isso não quer dizer que esteja sendo

honesta com ele. Robert precisa de alguém mais estável.

Na verdade, queriam dizer que desejavam que ele ficasse sozinho e usando

luto por Anne para sempre. Pascale e Diana estavam resolvidas a dificultar a

vida de Gwen.

— Robert nem mesmo sabe o que o atinge — acrescentou Diana,

pensativa.

Ninguém negava que Gwen fosse ótima. Mas era sincera? Diana não se

preocupava com isso, não queria era gostar dela. Enfiara-se num buraco e se

recusava a sair do lugar.

Na cidade, Robert e Gwen haviam finalmente esquecido Pascale e Diana:

como crianças desobedientes saíram de casa. Depois de algum tempo,

resolveram ir a um dos cafés ao ar livre, no porto, e conversar por algum tempo.

Depois de dançarem muito, sentiram-se cansados. Robert tentou se lembrar da

última vez que dançara. Talvez no casamento de Mike. Quando jovem, gostara

de dançar, mas Anne jamais gostara disso.

Robert e Gwen conversaram durante horas, sentados no Gorilla Bar, vendo

os barcos ancorados no porto. Foi depois das duas da manhã que afinal

voltaram para casa. Ainda bem que todos estavam dormindo e não os ouviram

chegar.

— Obrigada — sussurrou ela, os dois de pé, do lado de fora da porta. —

Tive uma noite encantadora.

— Eu também — sussurrou ele.

Depois, delicado, beijou-a no rosto. Nenhum deles queria algo mais, o que

era confortador para ambos.

— Vejo você amanhã. Durma bem — acrescentou ele.

No fundo, Robert desejava dormir ao lado dela, embora tal pensamento

parecesse louco. Gwen não era criança, era mulher. Ele é que não sabia o que fazer agora, como começar, como iniciar um romance com ela, em especial sob

o mesmo teto que os amigos. Ainda não tinha certeza se estava pronto, e, por

ainda ficar na dúvida, sabia não estar pronto.

Em vez disso, após ouvir Gwen fechar a porta do quarto de dormir, Robert

cerrou a porta do quarto. E, logo depois, arrependeu-se. Mas, como ele

percebera ao apresentá-la aos amigos, isso também não era fácil. Na verdade,

tudo era um desafio, mas o maior de todos ainda eram as recordações de Anne,

o sentimento de lealdade para com ela e para com a própria consciência. Isso

era o mais difícil de tudo, e no momento não sabia como superar; desconfiava

de que também Gwen não sabia, mas isso não era problema dela. Ele sabia ter

de se ocupar disso. E, nessa noite, ao deitar-se na cama, pensando primeiro em

Anne e depois em Gwen, não pôde deixar de imaginar se ela estava dormindo,

como dormia, o que vestia para deitar-se, se é que usava algo. Muitas coisas

desejava descobrir sobre Gwen. A mente ainda girava quando dormiu. Ao

acordar de manhã, lembrou-se de que sonhara com ela. Após tomar banho,

fazer a barba e se vestir, percebeu que mal conseguia esperar até ver Gwen.