Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 14 de 15

Páginas do PDF

Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 11

 

Desde que Gwen salvou John do engasgo, parece que o comportamento de todos mudou sutilmente em relação a ela. Não foi imediato nem patente, foi mais gradual, mas palpável, pois todos se esforçavam um pouco. Na vez

seguinte, quando Pascale e Diana foram ao mercado, perguntaram se ela não

desejava ir também. A princípio, falaram cautelosas, depois começaram a se

abrir e conversar mais à vontade com ela. Gwen carregava compras com elas,

preparava o desjejum para todos e, à noite, limpava a cozinha para Pascale.

Uma noite, quando Pascale ficou doente, Gwen preparou o jantar para todos e

lhe fez um caldo de galinha. Ela comera mariscos estragados no porto e se

sentiu muitíssimo mal. Quando se levantou da cama, sentia-se enjoada por

muitos dias.

Sentia-se tão doente que Eric temia que ela pudesse ter contraído

salmonela ou hepatite, O amigo queria chamar um médico da cidade e fazer-

lhe um exame de sangue, mas Pascale insistia estar bem, e ficou de cama por

vários dias.

Lá pelo fim da primeira semana de Gwen ali, Diana falou abertamente, na

frente dela, sobre o recente romance de Eric. A princípio, Gwen ficou calada;

depois, não conseguiu controlar-se mais.

— Não tenho o direito de lhe falar sobre isso, Diana. Não sei o que você

deveria fazer. Mas, quando éramos casados, meu marido teve um romance. No dia em que descobri, expulsei-o. Gritei com ele, bati a porta. Nunca mais falei

com ele. Pedi o divórcio. Estivemos casados durante nove anos, e penso que, de

certa forma, forcei-o a se casar com a mulher com quem tivera o romance. Não

tenho certeza se teria casado, se eu não o tivesse expulsado. Não sei o que

aconteceu depois disso ou por que me traiu. Nunca lhe telefonei nem o vi.

Mas, seis meses depois de se casar com a mulher, suicidou-se. Depois, ela me

disse que ele sempre estivera apaixonado por mim. E a coisa idiota, a parte

realmente perversa e apavorante, é que eu ainda era apaixonada por ele. Não

digo que Eric faria qualquer coisa do gênero, mas digo que destruí meu

casamento, joguei-o fora. Na época, pensei que nunca poderia perdoá-lo,

porque ela era a minha melhor amiga. Mas tenho certeza de ter cometido um

erro terrível e me arrependi. Seja mais inteligente do que fui — finalizou, com

lágrimas nos olhos.

Diana ouvia, atenta, emocionada, o que Gwen lhe contara.

— Tudo bem que você tenha ficado magoada e irritada, mas não jogue

tudo para o alto.

Diana assentiu, enquanto enxugava os pratos. Quando Eric entrou na sala,

ela saiu. Era uma história terrível, mas havia uma lição a tirar, não sobre

suicídio, mas sobre alguém que ama e perdoa; e não para prejudicar-se por

orgulho.

Nesse noite, Gwen contou a Robert sobre a conversa com Diana.

— Que bom. Venho tentando fazer com que Eric se sinta animado. Ele se

sente bastante triste, e acho que Diana está muito zangada com ele, o que é

compreensível. Se puderem acabar com tudo isto e se amar apesar de tudo,

talvez cheguem a uma conclusão no fim. Eric não tem certeza de que Diana

quer se separar.

Gwen também não tinha certeza de tudo o que Diana lhe contara.

No dia seguinte, Gwen preparava o desjejum para todos, pois Pascale, por

causa da comida estragada, ainda se sentia fraca demais para sair da cama.

Quando John entrou na cozinha, parecia preocupado.

— Não estou gostando da aparência dela — atalhou ele a Eric, tranqüilo,

no fim do desjejum. — Pascale não quer admitir, mas está bem doente. Acho

que deveria procurar um médico aqui em Saint-Tropez para fazer alguns

exames.

— Vou dar uma olhada nela, depois do desjejum — ofereceu-se Eric.

John lhe agradeceu. Depois de comerem a rabanada preparada por Gwen,

Eric subiu ao andar superior. Pascale lhe afirmou ser isto uma associação de

problemas. Ela e o marido tinham a mesma opinião. O que ela dizia parecia

razoável, e John desceu as escadas, mais tranqüilo.

— Sente-se mal, e levará algum tempo até tudo passar. Tudo porque

comeu comida estragada.

Mas isso não o convencera e, mais uma vez, insistira para que ela fosse ao

médico. Pascale respondeu que detestava os médicos da França.

— E você também — lembrou-o.

Ao vê-la, John a achou esverdeada.

Quando todos — inclusive Pascale — foram almoçar, disse sentir-se

melhor. Robert e Gwen falavam em prolongar a estada por mais uma semana.

— Viva! — gritou Diana.

Logo pareceu ficar sem graça. Ela e Gwen se olharam, amigas. Bem aos

poucos, todos descobriram que Gwen não era apenas decente, mas uma pessoa

encantadora. Sentiam-se, agora, menos preocupados com Robert. Ela

começava a recuperar a crença deles em relação ao seu Julgamento Final, e John

estava feliz com isso.

Nessa tarde, John falou a Pascale:

— Veja a vida que ele poderia ter com ela. É notável. Uma estrela de

cinema? Na idade dele, isso proporciona muito estímulo à vida.

— Robert não precisa disso — respondeu Pascale, cautelosa.

Pascale se sentia grata pelo que Gwen fizera por John, quando o marido

ficara sufocado. Mas queria ter certeza de que, se levasse isso a sério, Robert

não estaria cometendo um erro. Somente o tempo poderia dizer alguma coisa.

— Robert precisa de alguém estável, uma companhia, uma boa amiga.

— Ela é isso tudo. Veja: nesta casa, cozinhou e limpou mais que Diana ou

você. É agradável a todos nós, agüentou toda a merda de vocês no início, e

tirou de letra. E o mais importante de tudo é que acho que ela o ama. E ele a

ama.

— Você acha que ele vai se casar com ela? — Pascale ainda parecia

preocupada.

— Na nossa idade, quem precisa se casar? Ele não vai ter filhos. Só

precisam de diversão juntos. É tudo o que eles querem.

— Está bem — atalhou ela, parecendo aliviada.

— E você? Vai ser razoável? Vai ao médico? Você deve ter contraído alguma

bactéria séria. Talvez precise tomar antibiótico.

— Só preciso dormir.

Sentia-se tão cansada que mal se levantava da cama; passava a manhã

inteira esperando o entardecer para poder tirar uma soneca.

Ainda dormia às cinco horas da tarde, quando Eric, Robert e Gwen

voltaram de um passeio no barco a vela.

No jardim, Diana lia, recostada em uma espreguiçadeira. John fora ao hotel

mais próximo para mandar um fax a Nova York.

— Como foram de passeio? — perguntou Diana, com sorriso de enfado, a

olhar para Eric.

Passara a tarde inteira pensando nele e em algumas das coisas que Gwen

dissera. Ainda estava irritada com ele, mas conseguia imaginar a possibilidade

de, um dia, a sua mágoa e desapontamento diminuírem. Estivera pensando em

algumas das coisas que ambos fizeram ao longo dos anos, as coisas de que

gostava nele; embora o odiasse pelo que havia feito, podia quase entendê-lo.

Talvez fosse o último alento de sua juventude. Não estava totalmente certa de

poder censurá-lo por isso. Quando Eric a olhou, hesitou por um instante. Pela

primeira vez, vira algo diferente em seus olhos.

— Foi agradável — respondeu ele, passando por ela.

Diana mexeu as pernas na espriguiçadeira. Eric parou e depois se sentou ao

seu lado.

— Senti sua falta hoje — continuou ele, hesitante.

Os outros haviam entrado em casa.

— Pensei em você a tarde toda, enquanto velejávamos.

— Eu também — atalhou ela, sem acrescentar mais nada.

Eric sentia que um pouco do gelo que havia no coração de Diana se

derretera.

— Quero realmente resolver isso. Sei que estava errado. E não posso

esperar que você acredite em mim ou que novamente confie em mim. Mas

gostaria de pensar que, com o tempo, vai ter confiança.

— Também gostaria de pensar assim — respondeu ela, honesta.

Os amigos haviam conversado com ambos, mas o que Gwen lhe dissera a

tocara demais. Suas palavras haviam pesado muito na dor causada pelos

próprios erros. Era óbvio que, desde então, Gwen havia carregado o fardo da

culpa.

— Vamos ver — foi tudo o que, nesse momento, Diana conseguiu

prometer-lhe.

Mais tarde, quando voltaram ao quarto, Diana parecia mais leve. Todas as

vezes que Eric lhe dizia algo divertido, ela ria.

— Quer sair hoje à noite para jantar? — perguntou-lhe o marido.

Diana pensou por um minuto e depois concordou.

— O que todos vão querer fazer?

— Para variar, vamos apenas nós dois. Eles podem se arranjar.

Eric estava muito contente por conseguir novamente falar com Diana. As

marés haviam mudado.

Pascale resolveu ficar na cama e dormir. John recebera um pacote de

documentos do seu escritório e queria dar uma olhada neles. Robert e Gwen

haviam resolvido caminhar por Saint-Tropez e comer alguma coisa no porto.

Estavam sentados no Gorilla Bar tarde da noite, conversando e rindo,

quando Robert olhou Gwen e lhe pegou a mão. Sem maiores explicações,

convidou:

— Vamos, vamos para casa.

— Está cansado?

Gwen se sobressaltou com a inesperada vontade de voltar, mas Robert

parecia feliz e muito animado. Pagaram a conta e foram para a villa, no Deux

Chevaux dela.

Quando chegaram lá, a casa se encontrava quieta. Eric e Diana ainda

estavam fora; as luzes do quarto de John e Pascale, apagadas, pois haviam ido

para a cama. Gwen e Robert cochichavam como adolescentes ao subir as

escadas.

— Boa noite — disse ela, baixinho.

Robert a beijou. Mas hesitou longo tempo antes de a deixar. Ao olhá-la,

parecia uma criança.

— Eu estava me perguntando se... pensei que talvez... quer dormir em meu

quarto, esta noite, Gwen? — quis ele saber, calmo, ruborizando no escuro.

— Gostaria.

Até agora, ambos se comportavam com muito cuidado; não sentiam

compulsão para ir muito além disso. Mas, súbito, tudo mudou. Robert sabia

que ambos estavam prontos e que, nos últimos dias, sentira-se estranhamente

apaziguado com Anne. Na noite anterior, sonhara com ela. Ria, sorria,

acenava-lhe e o beijava, despedindo-se dele. Robert não sabia aonde ela ia. Ao

despertar, chorava, mas eram lágrimas de conforto e não de dor. De alguma

forma, tinha certeza de que ela estava bem. E contara o sonho a Gwen.

Robert acendeu uma luzinha no quarto. Gwen entrou atrás dele, devagar, e

viu uma foto de Anne, na mesa-de-cabeceira. Por um instante, sentiu-se

comovida. Era muito triste pensar que Robert tivera uma companheira tão

amorosa, por tanto tempo, e que, agora, estava sozinho. Ele, porém, tinha

netos e lembranças da vida em comum. E, presentemente, tinha Gwen. Era o

bastante.

Robert ficou olhando Gwen durante um longo momento, como se

estivesse saboreando o que partilhariam e, meigamente, estendeu-lhe a mão.

Gwen deu dois passos até junto dele e o abraçou. Queria tirar-lhe toda a dor

que sentira e lhe aliviar a perda.

— Eu te amo, Robert — sussurrou ela —, tudo vai dar certo.

Robert concordava. Quando a beijou, lágrimas lhe escorriam dos olhos —

lágrimas de adeus a Anne e de amor a Gwen. Depois, devagar, a paixão os

envolveu, os beijos pareciam devorá-los e, momentos depois, estavam deitados

na cama. Ele já sabia, quando a vira de biquíni, que o corpo de Gwen era

muito bem-feito, mas, nesse momento, apenas desejava ardentemente o

coração de Gwen.

Depois, ficaram nos braços um do outro, saciados, sonolentos e contentes.

Robert a puxou para perto. Gwen sorriu.

— Você me faz tão feliz — afirmou ela.

Ele a puxou para mais perto. Por um momento, sentiu-se incapaz de falar.

Gwen era uma das maiores dádivas de sua vida.