Pôr-do-sol em Saint-Tropez
Capítulo 6
Pascale acertou o despertador para as cinco e meia. Ao se levantar, vestiu as calças jeans e a camiseta, e desceu à cozinha, para ver se encontrava pó de café. Achou o suficente para coar em café filtre e, com ar de desespero bem
francês, sentou-se em uma velha cadeira de cozinha e acendeu um cigarro.
Fumando, imaginava se deveria despertá-los, quando um dos cães passou
correndo pela cozinha e latiu. Dois segundos depois, Agathe apareceu, com um
avental por cima de um biquíni vermelho, que parecia fazer explodir seu corpo
gordo.
— Usa isso para trabalhar? — perguntou Pascale, entre pasma e
aterrorizada.
Nada, porém, a surpreenderia. Surpreendia, sim, a enorme cabeleira afro-
loura, que parecia maior do que no dia anterior. Ainda mais por Agathe passar
nos lábios um batom que combinava com a cor do biquíni, os saltos de hoje
eram mais altos, e os três poodles rodavam em volta dos seus pés, mais
parecendo bolinhas brancas e peludas. E, claro, começaram a latir no momento
em que viram Pascale.
— Acha que pode colocá-los em algum lugar enquanto trabalha? —
perguntou Pascale a Agathe, enquanto sorvia um segundo copo de café.
Não comera nada desde o dia anterior. Faria tudo para comer um croissant
preparado por sua mãe, mas verificara que, na cozinha, os armários estavam vazios. E não tinha tempo de fazer compras. Queria que Agathe e Marius
começassem a trabalhar. Pelo menos, Agathe apareceu na hora que combinara,
o que já era alguma coisa. Marius chegou cinco minutos depois. Explicou que
achara o cortador de grama, embora estivesse muito velho.
Quando Pascale viu o aparelho, que tinha um motor, sentiu-se aliviada e
mandou que ele começasse logo o trabalho e cortasse a grama, até que limpasse
tudo à vista.
— Tudo? — Marius parecia pasmo quando Pascale concordou com a
cabeça.
Ela sabia que Marius ficaria ocupado durante horas. Não era uma
possibilidade que ele gostasse. Agathe saíra para fazer os cães deitarem no
quarto de dormir atrás da cozinha; ela voltara com trapos de pano, sabão e
espanador. Começou a agitá-lo como se fosse uma varinha mágica até que
Pascale tomou tudo das mãos dela, segurando os trapos e alguns produtos de
limpeza, e propôs que Agathe fosse trabalhar na cozinha. A própria Pascale iria
limpar o living.
Primeiro, enrolou os tapetes e os colocou em uma saleta. O assoalho
parecia melhor nu do que com os tapetes puídos. E, depois, bateu as almofadas
do sofá e as cortinas, e limpou com o aspirador de pó tudo o que estava à vista.
Sentiu-se sufocada com a poeira, mas tudo começou a parecer um pouco
melhor enquanto ela afofava as almofadas e reclamava das manchas. Passou
cera nas mesas, passou jornal nas janelas, como a avó lhe ensinara; limpou e
encerou o assoalho. A sala em nada se assemelhava com a das fotos, mas parecia
melhor quando a corretora de imóveis e a “equipe” de limpadores chegou.
Pareciam agitados e aborrecidos, todos meninos que a corretora de imóveis
recrutara naquela manhã para fazer o que Pascale pedira.
Pascale teve outra discussão acalorada com a corretora de imóveis, que
concordou em lhe devolver metade do que haviam pago, o que deixaria John muito contente. Ela também e os amigos, se conseguisse limpar a casa. Então,
Pascale teve uma idéia.
Subiu ao andar superior com a mala de mão, e desceu com uma pilha de
xales muito coloridos que trouxera. Cobriu com eles os estofados velhos e
manchados, e, ao terminar, a sala pareceu totalmente diferente. Com as janelas
limpas, as cortinas puxadas para trás, sem teias de aranha, com o assoalho
brilhando e os sofás e as cadeiras alegremente cobertos, o aposento pareceu
simples mas festivo. Agora, só eram necessárias flores, velas e algumas lâmpadas
que o iluminassem mais.
A equipe de limpeza trabalhava energicamente na cozinha. Pascale mandou
que Agathe fosse lavar os banheiros e os esfregasse até que brilhassem,
enquanto Marius trabalhava ao sol escaldante, cortando a grama. Ao verificar a
quantidade de trabalho, ele não estava contente, mas o que fizera resultara
numa enorme diferença. Havia cadeiras velhas e quebradas, jogadas na grama
crescida, e mesas de madeira, com apenas duas pernas, em pedaços. Ela o fez
tirar tudo dali. As ervas daninhas, aos poucos, desapareceram, e as flores
silvestres que haviam nascido nos bordos dos canteiros realmente lhe davam
certo charme.
Eram oito da noite quando todos terminaram o trabalho. A corretora de
imóveis olhou Pascale, assombrada. Nada estava perfeito, nem se parecia com
as fotos, mas, comparado com o que Pascale encontrara um dia antes, estava
muito melhor. A cozinha ainda parecia um tanto deprimente, o fogão era
velho, mas, ao menos, tudo se encontrava limpo.
Pascale estava cansadíssima, trabalhara durante 14 horas, mas valera a pena.
Os amigos poderiam ficar sobressaltados quando vissem o que ela fizera, mas
não reclamariam da sujeira, aos berros. A corretora de imóveis trouxera queijo,
frutas e pâté. Pascale beliscara um pouco, embora tenha comido mal o dia
inteiro. Só queria terminar tudo. Ao sair, a corretora prometera voltar no dia seguinte com mais trabalhadores. Marius teria de cortar mais grama. Agathe
cacarejara de alegria o dia inteiro, e, se era possível, pareceu muito mais
contente, ao terminar o trabalho. O biquíni vermelho estava frouxo e caído, as
sandálias de salto alto haviam desaparecido e o seus cabelos pareciam não
poder ser tocados. Por sorte, Pascale não vira nem ouvira os cães o dia inteiro.
Pascale estava sentada na cozinha, olhando o local, exausta, comendo
pedacinhos do pâté que sobrara, quando o telefone tocou, e ela se sobressaltou.
Depois o atendeu. Era John, do escritório; parecia feliz e animado. Não se viam
há seis semanas, e ele estava encantado porque iria vê-la em dois dias.
— Bem, que tal? O lugar é bom? — perguntou ele, parecendo
entusiasmado.
Pascale fechou os olhos, tentando pensar na resposta.
— É um pouco diferente das fotos — respondeu, querendo imaginar o que
ele diria ao ver o local.
Pelo menos agora estava limpo; não era com certeza um palácio, mas a
impressão era muito melhor, apesar de não parecer nem um pouquinho com as
excelentes fotos que haviam visto.
— É melhor? — perguntou John, parecendo entusiasmado.
Pascale riu, balançando a cabeça de um lado para o outro. Estava tão
cansada que mal conseguia pensar.
— Não muito. É bem diferente. Talvez um pouco mais informal.
— Parece ótimo.
Ótimo não era exatamente a palavra que Pascale usaria para descrever a
casa que se chamava Amor à Primeira Vista; ela, porém, fizera o melhor que
podia.
— Conversou com os outros?
— Não, eu estava ocupada demais — respondeu Pascale, parecendo
esgotadíssima.
John riu do que ela lhe falara.
— Fazendo o quê? Deitada na praia?
John imaginava Pascale nadando e banhando-se ao sol o dia inteiro, e não
esfregando assoalhos e paredes de banheiro.
— Não, estava ocupada organizando a casa.
— Por que, para variar, não se descontrai?
Pascale adoraria que isso acontecesse, mas, caso se descontraísse, John teria
um ataque ao entrar pela porta.
— Talvez amanhã — respondeu ela, distraída, bocejando.
— Bem, vejo você depois de amanhã.
— Mal consigo esperar — sorriu ela, pensando nele, sentada na cozinha
estragada.
Pascale, de onde estava, via um pingo de gordura que haviam deixado no
fogão.
— Vá dormir um pouco ou vai estar muito cansada quando chegarmos.
— Não se preocupe. Vou dormir. Boa viagem para vocês.
Depois que John desligou, Pascale apagou as luzes, subiu ao andar superior
e foi para a cama. Fizera Agathe trocar os lençóis, pois os outros já estavam
encardidos e rasgados; encontrara um par para cada cama, aparentemente ainda
novinhos. As toalhas também pareciam puídas, mas ao menos estavam limpas.
Adormeceu quase na mesma hora em que recostou no travesseiro, e dormiu até
o sol nascer, no dia seguinte. Os estores não abaixavam, e as venezianas
também estavam quebradas. Porém Pascale não se preocupava se o sol estava
entrando pelo quarto.
Nesse dia, trabalhou tanto como no anterior. Os operários que a corretora
de imóveis trouxera estavam cansadíssimos àquela altura e resmungavam, mas
Pascale conseguiu fazer com que ficassem ali a tarde toda. E quando saiu para
ver o que Marius fizera, o gramado da frente parecia impecável, e desaparecera toda a mobília de jardim quebrada. O que fora deixado era aproveitável,
embora precisasse de uma demão de tinta. Pascale gostaria de saber se haveria
tempo para Marius também realizar essa tarefa. Mas, ao procurar por ele,
achou-o no quarto, roncando e dormindo, com os três cães espalhados por
cima dele, e três garrafas de cerveja vazias na cama. Era óbvio que, no
momento pelo menos, ela não conseguiria que ele trabalhasse um pouco mais.
E Agathe, também.
Às cinco da tarde, Pascale dirigiu até Saint-Tropez; ao voltar, tinha o carro
cheio. Comprara velas, flores e jarros enormes para pô-las, bem como arranjos
de flores secas. Ainda comprara mais três xales coloridos para arrumar no
living , e três latas de tinta branca para que, no dia seguinte, Marius desse uma
demão nos móveis de jardim. Mas, no momento em que terminou tudo, cada
centímetro da casa estava impecável, os gramados cortados, com flores e
revistas em todos os quartos. Comprara deliciosos sabonetes franceses e toalhas
extras para todos, e todos os aposentos da villa haviam se transformado como
num passe de mágica. Podia não ter sido amor à primeira vista, mas foi
drasticamente melhorado.
Pascale nem podia imaginar o que diriam agora quando vissem a casa.
Parecia melhor, mas ainda não era o que haviam imaginado. Pascale tinha
medo de que ficassem zangados com ela. Não poderia fazer mais sem a ajuda
de um pintor, um empreiteiro e um decorador. Nessa noite, quando finalmente
ela descesse para ver o barco no cais, saberia se era capaz de navegar. Parecia
parado há anos, com as velas em farrapos, mas sabia que, se houvesse alguma
chance, Robert e Eric velejariam.
Nessa noite, Pascale caiu novamente exausta na cama, sentia-se, no
entanto, realizada. Estava tranqüilizada por vir dois dias antes do prazo. Se não
fizesse isso, tinha certeza de que ninguém, nunca, ficaria ali — agora, todos ficariam. Pelo menos, esperava que ficassem. Não queria desistir de passar o
mês de agosto em Saint-Tropez.
Nessa noite, dormiu como uma pedra. No dia seguinte, acordou às dez da
manhã, o sol entrando no quarto, e as flores que colocara em todos os pontos
das mesas acrescentavam manchas de cor e vida ao aposento. Preparou café
com o que comprara, e comeu pain au chocolat, passando uma vista num velho
exemplar de Paris Match; depois, foi ler e International Herald Tribune. Na
França, também gostava de ler Le Monde, mas John sempre insistia em ter o
Herald Tribune, que lhe comprara no dia anterior.
Enquanto Pascale arrumava os pratos na pia, Agathe entrou no aposento,
usando calças de ciclista na cor verde-elétrico, e um bustiê quase transparente.
Parecia um dos seus poodles franceses com o cabelo todo arrepanhado no alto, e
usava óculos de sol coloridos com pedrinhas incrustradas nas hastes, e um par
de sapatos com plataforma dourado com saltos assustadoramente altos.
— Bom-dia — cumprimentou Agathe, enxaguando a xícara de Pascale,
com mão preguiçosa. — A que horas seus amigos chegam? — perguntou
desinteressada, como se isso não lhe trouxesse conseqüência alguma.
— Só bem tarde. Quero que Marius me leve ao aeroporto, com o carro e o
bagageiro. O meu carro não tem bagageiro para transportar as malas deles.
— Ele ontem machucou as costas — explicou Agathe, acusadora.
O olho esquerdo contemplava a patroa, semicerrado. O olho direito estava
fechado para conciliar-se com o cigarro Gauloise eternamente grudado nos
lábios.
— Ele ainda pode dirigir? — perguntou Pascale, olhando-a.
Perguntava-se se era ou não para comentar sobre as roupas.
— Talvez — foi tudo que Agathe respondeu.
Pascale entendeu. Foi discretamente à bolsa de mão e tirou quinhentos
francos para cada um deles. Haviam trabalhado muito, com certeza muito mais do que em anos. E Agathe pareceu feliz. Pascale compreendera. Já pensara
antes em dar-lhes algum dinheiro, de alguma forma.
— Acho que ele estará bem para dirigir o carro. A que horas quer sair?
— Três horas. O avião deles chega às cinco. Vamos estar de volta na hora
do jantar.
Pascale já combinara deixar o jantar no fogão. Ninguém iria querer sair na
primeira noite. Estariam cansados da viagem e iriam querer dormir.
Conseguiu fazer com que, nesse dia, Marius pintasse algumas das mobílias
de jardim, pagando quinhentos francos extras, e, no momento em que saíram,
a casa parecia bem. Pascale realizara um milagre. Pouco antes de saírem,
afirmara que o local parecia ótimo. Estava surpresa por Pascale ter ficado e não
ter ido para um hotel. Na verdade, ninguém dormia na casa havia anos.
— Trabalhamos bem, não?
Pascale parecia contente. Os cães de Agathe ganiam ao seu redor, enquanto
ela se servia de cerveja e tomava um gole grande. Ao saírem para o aeroporto,
acenou para Pascale, como se fossem velhas amigas. Vestia uma blusa
transparente rosa-choque, com sutiã preto e short cor-de-rosa brilhante e os
sapatos vermelhos FMQ, seus prediletos. Para ela, estava na última moda.
Pascale resolvera não falar com ela sobre o guarda-roupa. Talvez os outros
pudessem conviver com ela, sem os cães que latiam. Pascale lhe pedira que, se
pudesse, os prendesse no quarto, pois o marido tinha alergia a eles, e não era
por causa do pêlo, nem certamente pela algazarra que faziam.
Ao irem de Saint-Tropez para Nice, a viagem foi longa e quente. No
aeroporto, Pascale comprou um copo de suco de laranja e viu Marius comprar
uma cerveja. Esperavam o avião pousar, ele vestia um macacão e, mais uma vez,
os calçados de couro, evidentemente seu uniforme. Pascale nunca estivera tão
cansada. Agora, precisava realmente de férias.
O vôo de Nova York fora tranqüilo e John voara com os Morrison, embora
não tenha se sentado junto deles. O casal fora em classe executiva, como
sempre, e John, em classe econômica. Por isso, Eric caçoara dele, antes de
voltar ao seu assento. Diana ficara lendo calada, e John viu que ambos se
olhavam de modo estranho. Foi uma frieza como ele nunca vira, mas nenhum
dos dois falou nada, e foi dormir em sua poltrona. Estava ansioso por rever
Pascale. Apesar de discutirem muito, amava-a de verdade, depois de 25 anos de
casamento. Ela mantinha sua vida interessante, e era passional com tudo, tanto
no amor quanto na implicância. Sem ela, nas últimas seis semanas, o
apartamento em Nova York parecera solitário e sem vida.
— John me contou que Pascale disse que a casa parece ótima — informou
Eric, ao sentar-se novamente perto de Diana.
Durante um longo momento, ela não lhe respondeu: estava com os olhos
no livro.
— Ouviu o que falei? — perguntou Eric, tranqüilo.
Diana levantou os olhos. Nas últimas semanas, não sabia se faria essa
viagem. Eric se sentia gratificado por ter ficado mais calma. No último mês, as
coisas ficaram tensas entre ambos. O estresse por que passaram revelava-se
apenas no rosto de Diana.
— Ouvi — confirmou Diana, inexpressiva.
Não fingia de forma alguma.
— Que bom que Pascale gostou da casa.
Ao falar, os olhos pareciam parados.
— Espero que você também goste — acrescentou Eric, calmo.
Ele queria que, desta vez, todos tivessem momentos agradáveis. Diana e
Eric precisavam demais que isso acontecesse. Eric esperava que um mês na
França solidificasse novamente sua união. Sempre tiveram muito em comum, adoravam fazer as mesmas coisas, gostavam das mesmas pessoas e se admiravam
sinceramente.
— Não sei quanto tempo vou ficar lá — Diana reafirmou o mantra que
repetia nos últimos dois meses. — Vou ver.
— Fugir não vai resolver nada. Vamos nos divertir com todos. Essas férias
farão bem a nós dois — afirmou ele, esperançoso.
Diana não parecia convencida.
— “Divertir-se” também não vai resolver nada. Não será “diversão”.
Havia decisões ainda maiores a tomar. Eric pusera em xeque a vida dos dois
e em risco o casamento. Diana ainda não decidira o que fazer. Várias vezes nas
últimas semanas, tomara uma decisão e, depois, novamente mudara de idéia.
Não queria precipitar-se. Mas não tinha certeza de poder perdoá-lo pelo que
aprontara. Ele a ferira mortalmente e lhe tirara a confiança. Diana agora se
sentia magoada, indesejável e, súbito, mais velha do que parecia.
— Diana, não podemos tentar esquecer tudo? — perguntou ele, sereno.
Não lhe era fácil falar.
— Obrigado por me perguntar — atalhou ela, sarcástica, pegando
novamente o livro. — Agora que sei o que tenho de fazer, estou certa de que
tudo vai sair bem.
Enquanto fingia ler o livro que segurava, lágrimas escorriam dos olhos de
Diana, mas, na última hora, seus pensamentos haviam estado em remoinho,
sem a menor idéia do que lera. Segurava apenas o livro, para que Eric não lhe
falasse. Nada havia a falar. Nas últimas semanas angustiantes, haviam repetido
os mesmos argumentos.
— Diana... não fique assim... — acrescentou Eric.
A princípio, Diana fingiu não ouvi-lo; depois, virou a cabeça para olhá-lo.
Toda a mágoa que sentia estava estampada em seu rosto.
— Como espera que eu esteja, Eric? Risonha? Indiferente? Despreocupada?
Satisfeita, quem sabe?... Muito bem. Imaginam que eu seja a esposa
apaixonada, adorável, compreensiva. Pois bem, talvez eu não consiga ser.
A voz de Diana se tornou mais concisa nas últimas palavras.
— Por que você não nos dá uma oportunidade? Deixe a poeira assentar
enquanto estamos aqui. Foram momentos duros para nós dois...
Antes que Eric pudesse dizer mais alguma coisa, Diana o interrompeu e se
levantou.
— Me desculpe se fui antipática e dura com você. Esse é o meu jeito de ser.
Sou assim mesmo.
Diana falou isso, levantou-se e foi andando pelo corredor, para se afastar
dele e dar um passeio. Não queria falar novamente no mesmo assunto. Haviam
conversado bastante no mês anterior. Não queria ouvir tudo outra vez — as
desculpas, as promessas, as justificativas, os motivos por que fizera o que fez.
Não queria mesmo ficar ao lado dele, e se arrependia de ter vindo. Fazia a
viagem apenas para não desapontar os amigos. Caminhava pelo corredor até
onde John estava sentado. Ele dormia ressonando. Ficou olhando pela vigia, na
porta traseira do avião, pensando no estado em que seu casamento se
encontrava. Sentia-se arrasada, não pensara que chegasse a esse ponto. Tudo o
que ambos compartilharam e acreditaram, toda a confiança que sempre tivera
em Eric parecia estilhaçada, sem conserto. Ao voltar para sua poltrona, não
falou ao marido, nem trocaram palavra durante todo o restante do vôo.
O vôo chegou na hora. Pascale sorriu exultante ao ver John, os Morrison
vindo bem atrás dele. Pareciam cansados, menos falantes que de costume. No
carro, todos os quatro batiam papo, animados, sobre a casa. Marius seguia no
caminhão, com as malas. Ficaram um pouco assustados ao verem-no. Durante
a viagem de volta a Saint-Tropez, Pascale tentou prepará-los para Agathe, mas foi difícil descrevê-la com propriedade, em especial o biquíni vermelho e os
sapatos FMQ.
— Ela não usa uniforme? — quis saber John.
De certa forma, ele imaginava um casal francês, ela, de vestido e jaqueta
brancos, servindo almoço impecavelmente, em uma elegante villa. Mas o
retrato que Pascale lhes pintava era totalmente diferente do que pensara.
— Não exatamente — respondeu Pascale. — São um pouco excêntricos,
mas trabalham bastante.
E bebiam muito.
Os cães nunca paravam de latir, poderia ela ter acrescentado, mas não o fez.
— Espero que gostem da casa — continuou Pascale, nervosa.
Finalmente, chegaram a Saint-Tropez, às sete e meia.
— Tenho certeza de que vou gostar dela — completou Eric, confiante.
Pascale passava pelas colunas caindo aos pedaços e pelos portões.
— É um pouquinho mais simples do que pensávamos — acrescentou,
enquanto parava o carro no caminho cheio de buracos.
John parecia um pouco surpreso. Pascale percebeu que os Morrison
estavam sentados no banco de trás, em silêncio total, o que não era um
comportamento normal deles. Talvez estivessem cansados. Ao estacionar o
carro na frente da casa, John olhou assustado.
— Precisa de uma demão de tinta, de uma vistoria ou de alguma coisa,
não?
— Precisa um pouco mais do que isso, mas, pelo menos, agora está limpa
— acrescentou Pascale, humilde.
— Quando você chegou a casa não estava limpa? — quis saber Diana,
surpresa.
— Não foi bem assim.
Pascale riu. De agora em diante, não havia razão para mentir. Agora que
estavam aqui, poderia lhes contar a verdade.
— Era um chiqueiro quando cheguei aqui. Passei dois dias fazendo faxina
com a ajuda de dez pessoas. Mas a boa notícia é que consegui que me
devolvessem metade do aluguel, porque nos enganaram mesmo.
John pareceu impressionado com o que acabara de ouvir. Para ele, era
quase como conseguir uma licença sem vencimento. Adorara ouvir isso.
— A casa estava horrível mesmo, Pascale? — Diana parecia subitamente
aborrecida.
Eric estava pronto a tranqüilizá-la. Para ele, a última coisa que desejava era
que Diana o deixasse.
— Não, não estava horrível, mas tudo nela está muito velho e danificado.
Não há muita mobília. A cozinha parece da Idade Média — declarou Pascale,
honesta.
— Oh, e daí? Quem se preocupa com isso? — riu John.
Agora que ele sabia que metade do dinheiro fora devolvido, já estava
adorando o que ouvira. Fora a coisa certa contar-lhe isso, antes que visse a casa
de perto.
À medida que entravam, Diana arfava. Chocara-se ao ver que a casa estava
mal mobiliada e em ruínas. Mas tinha de admitir que os xales arrumados por
Pascale sobre os móveis haviam dado um toque muito especial. Para ela fazer
isso, com certeza os estofados deveriam estar em petição de miséria. Depois de
olharem ao redor, chegaram à conclusão de que não estava tão mal assim. Não
era o que desejaram, claro, mas pelo menos Pascale os preparara. Depois que
lhes contara como a casa estava quando chegara ali, e o que fizera, ficaram
impressionados e agradecidos por seu trabalho.
— Que bom que você veio antes — respondeu Eric.
Todos olhavam a cozinha. Não tinha manchas, mas era antiquada,
conforme Pascale já os prevenira.
— Como conseguiram tirar aquelas fotografias? — quis saber John,
assombrado.
— Talvez sejam de quarenta anos atrás, da década de 1960 — respondeu
Eric, irônico.
John, no entanto, parecia satisfeito com a casa. Era confortável, limpa e
muito informal; não exatamente a villa luxuosa que esperavam, mas, graças a
Pascale e seu trabalho, em especial todas as flores que espalhara por ali e as
velas, havia um certo charme. Pascale ofereceu a suíte principal aos Morrison,
mas, depois de virem tudo o que Pascale fizera, insistiram para que John e a
mulher ficassem na suíte principal.
— Fiz isso para que vocês não me odiassem — reconheceu Pascale.
Todos riram. John apanhou uma garrafa de vinho e deu de cara com
Agathe, que estava de pé na cozinha. Ela usava short branco e o bustiê do
biquíni vermelho, com sandálias vermelhas com salto de plataforma. Por um
instante, John ficou parado a olhá-la. Como sempre, Agathe tinha um olho
fechado e fumava um cigarro Gauloise.
— Bonjour — cumprimentou-a, embaraçado.
John aprendera todo esse francês da primeira vez que conhecera a mãe de
Pascale.
Agathe lhe sorria. Um instante mais tarde, Marius apareceu, tendo atrás
dele o bando de cães que latia.
Um deles lhe agarrou a perna das calças e, em pouco, tentava mordê-lo.
— Oh, Jesus — foi tudo o que John conseguiu dizer.
Marius lhe abriu a garrafa de vinho. Agathe novamente desapareceu com os
cães.
John, parecendo um pouco aturdido, subiu as escadas. Levava a garrafa de
vinho tinto e quatro copos.
— Acabo de conhecer os cães de Baskervilles e a gêmea má de Tina Turner.
Pascale riu, no entanto viu que algo aflitivo passou rapidamente pelo rosto
de Diana, mas, ao olhar Eric, nada viu. Perguntava-se se Diana estivera
pensando em Anne e se quisera mesmo vir aqui. Também pensara nisso, ao
chegar ali, mas, depois estivera muito cansada para pensar sobre isso. E ela
tinha certeza de que Robert pensava assim. Ainda sentiam a dolorosa falta de
Anne; era impossível não pensar no seu entusiasmo em passar um mês ali.
— Viu o barco? — perguntou Eric, esperançoso.
John servia vinho a todos.
— Vi — confessou Pascale. — É do tempo de Robinson Crusoé. Espero
que você ainda possa velejá-lo.
— Tenho certeza que sim.
Depois, Eric olhou a mulher.
Diana nada falou.
Nessa noite, Pascale lhes preparou o jantar. Agathe já arrumara a mesa e se
oferecera para servir, contudo Pascale afirmou poder fazer tudo sem sua ajuda.
Depois, quando ela e Diana lavavam os pratos, e John e Eric fumavam
charutos no jardim, Pascale não pôde deixar de olhá-la e lhe fazer uma
pergunta. Preocupava-se com Diana.
— Você está bem? Pareceu-me transtornada. Em Nova York, cheguei a
pensar que você estivesse cansada. Está bem, Diana?
Houve uma longa pausa, a amiga a olhá-la. Diana a princípio assentiu;
depois, balançou negativa e energicamente a cabeça. Sentou-se à antiga mesa
de cozinha, as lágrimas escorrendo devagar pelas faces e, inconsolável, levantou
o olhar para Pascale, sem mais conseguir ou tentar esconder da amiga o
sofrimento.
— O que há?... oh, amiga... Que aconteceu? — Pascale rodeou a amiga,
perguntando.
Diana enxugou os olhos no avental de Pascale. Nada conseguia falar. Por
um minuto, encostou-se ao corpo de Pascale.
A amiga a segurava como um bebê e queria saber o que acontecera para
ficar tão desesperada. Nunca vira Diana como agora.
— Está doente?
Diana negou, mas continuava calada. Só assoava o nariz no lenço de papel
que Pascale acabara de lhe entregar.
— Vocês dois?
Pascale achava a pergunta sem razão, mas, logo depois, ao ver o rosto de
Diana, percebeu que havia motivo. Diana se sentou e ficou a olhá-la por um
bom momento; depois, afinal, concordou.
— Não! Como pode ser?
— Não sei como pode ser. Passei o mês perguntando-lhe o mesmo.
— O que houve? — Pascale estava chocada.
Diana parecia arrasada.
— Ele teve um romance com uma das pacientes — informou, novamente
assoando o nariz.
De certa forma, era um alívio contar a Pascale o que acontecera. Não falara
sobre isso a ninguém desde que Eric lhe confirmara o romance. Era um segredo
ofensivo e solitário.
— Tem certeza de que você não está imaginando? Não consigo acreditar
nisso.
— Bem, é verdade. Ele me contou. Cerca de dois meses antes, percebi que
havia alguma coisa errada, mas não sabia o quê, e há quatro semanas ele me
confirmou tudo. O bebê de Katherine pegou crupe e teve de ir para o hospital
no meio da noite; quando telefonei para Eric, me contaram que ele não estivera lá. Eric, no entanto, me dissera que estava fazendo um parto.
Telefonou-me e disse que estivera preso lá até de manhã e que, depois disso,
iria direto para o consultório. Súbito, percebi que a maior parte do tempo ele
me afirmara ter estado à noite no hospital, e não estava.
— Eric? — A voz de Pascale estava áspera.
Para ela, Eric sempre parecera o marido perfeito. Calmo, bem-humorado,
atencioso, afável com a mulher, o marido e o pai ideais.
— Está apaixonado por ela?
— Eric diz que não tem certeza. Justificou-se que deixou de vê-la uns dias
antes, o que deve ter acontecido, mas a moça lhe telefona todas as noites. Acho
que ele está muito triste. Diz ele que é uma boa mulher. Era uma de suas
pacientes. O marido a deixou logo após o parto. Eric ficou penalizado com ela.
Deve ser muito bonita, é modelo.
— Quantos anos? — perguntou Pascale, parecendo angustiada.
Esse era o pior pesadelo de qualquer mulher. Diana parecia destroçada pelo
que contara a Pascale.
— Trinta — respondeu Diana, parecendo inconsolável. — Tenho idade
para ser mãe dela. Tem a mesma idade de Katherine. Sinto-me com seiscentos
anos de idade. Pode ser que Eric tenha se afastado dela.
Diana tinha os olhos cheios d’água.
— Acho que nunca mais vou acreditar nele. Acho mesmo que não vou
poder continuar casada com ele.
— Não pode fazer isso — respondeu Pascale, parecendo horrorizada. —
Não pode se divorciar dele. Não pode depois de todo esse tempo. Seria
horrível. Se ele deixar de vê-la, tudo vai terminar. Ele vai esquecê-la —
explicou Pascale.
Parecia ter esperança, mas ainda sentia tanto pesar pela amiga.
— Talvez ele a esqueça. Mas eu não — acrescentou Diana, honesta. —
Todas as vezes que o vejo, sei que vai me trair. Eu o odeio por isso.
— É inacreditável — afirmou Pascale, solidária. — Mas muitas vezes isso
acontece. Poderia acontecer o mesmo com você. Se ele terminou com essa
menina, tente perdoá-lo por isso. Diana, você não pode se divorciar dele. Isso
vai destruir a sua vida, bem como a dele. Vocês se amam.
— Aparentemente não tanto quanto pensei. Pelo menos, ele não me ama.
Nos olhos dela nada havia de perdão, apenas raiva, mágoa e
desaponamento. Pascale se sentia penalizada por ela.
— O que ele diz sobre isso?
— Que sente muito. Que nunca mais vai acontecer. Que se arrepende do
minuto que fez isso, mas que isso aconteceu durante três meses e poderia
acontecer por mais tempo se o bebê de Katherine não tivesse ficado doente
naquela noite. Poderia até ter me deixado por ela.
Ao falar isso, Diana chorava mais forte.
— Ele não seria tão estúpido.
Mas Eric era vistoso e parecia muito bem para a idade. Lidava todos os dias
com mulheres. Tinha mais oportunidades de conhecê-las que a maioria dos
homens. Tudo era possível, mesmo Eric, tão responsável e digno de confiança.
Mas Pascale via nos olhos de Diana o que ele lhe fizera. Pascale estava surpresa
que Diana tivesse vindo passar as férias ali e lhe perguntou sobre isso.
— Depois que soube, eu não vinha, mas ele me implorou que viesse. E,
agora, diz que só pode ficar duas semanas. Se ele for embora, vou pensar que
está todos os minutos com essa mulher.
— Talvez você deva acreditar nele, e pronto — consentiu Pascale,
tranqüila.
Mas Diana parecia sentir raiva.
— Por que devo acreditar nele? Mentiu para mim. Como posso acreditar
nele?
Diana tinha um ponto de vista. Pascale não sabia o que responder. Mas
ficou inconsolável só de pensar nos amigos terminando o casamento.
— Não consigo pensar que eu possa continuar casada com ele, Pascale.
Nunca mais será o mesmo para mim. Pensei em não vir para cá, nestas férias.
Eu lhe disse que chamaria um advogado antes de viajarmos, e ele me pediu
para esperar pelo menos até terminarmos esta viagem. Mas acho que não fará
diferença alguma.
Era uma responsabilidade muito grande viajar, carregando malas
pesadíssimas.
— Você ficaria casada com John se ele a enganasse? — perguntou-lhe
Diana
A amiga a olhava com expressão amarga. Não parecia a mesma mulher.
Com Eric, sempre fora tão alegre e tão feliz. Para Pascale, eles tinham excelente
relacionamento. Dos três casais, Pascale sempre achara que eram eles os mais
bem casados, ou talvez Robert e Anne. Ela e John sempre tiveram diferenças e
discutiam bem mais que os outros. Agora Anne se fora, e Diana falava em se
divorciar de Eric. Não suportava pensar nisso.
— Não sei o que faria — acrescentou Pascale, honesta. — Tenho certeza de
que eu iria querer matá-lo.
John sempre falava muito sobre mulheres, mas Pascale nunca pensou que
ele fizesse algo. Na verdade, não tinha certeza. John gostava apenas da aura que
isso lhe dava. Mas, no caso dele, era apenas conversa fiada e bravata.
— Eu teria de pensar muito antes de fazer alguma coisa e talvez tentar
acreditar nele novamente. As pessoas às vezes fazem essas coisas, Diana.
— Não seja tão francesa a esse respeito — murmurou-lhe Diana.
Começou a chorar outra vez. Sentia-se totalmente infeliz e ainda lamentava
ter vindo nestas férias. Todas as vezes que o olhava, descontrolava-se. Não sabia
como se comportaria durante esse mês, ou mesmo mais um dia junto dele.
— Talvez os franceses estejam certos em algumas coisas — acrescentou
Pascale, delicada. — Você tem que pensar bem antes, para não se arrepender
mais tarde.
— Ele deveria ter pensado nisso antes de dormir com aquela mulher —
respondeu Diana, zangada.
E parecia particularmente cruel que a mulher fosse mais jovem. Isso fazia
Diana sentir-se velha e sem atrativos. Ele a machucara da forma mais dolorosa
possível; Diana não sabia como superaria tudo ou se o casamento de ambos
sobreviveria.
— Contou a alguém? — perguntou Pascale, cautelosa.
— Só a você — respondeu Diana. — Fiquei muito envergonhada. Não sei
por que me sinto desconcertada, mas me sinto. Isso me faz sentir uma pessoa
inferior, como se eu não fosse suficiente para ele.
Na verdade, Diana parecia arrasada.
— Diana, você sabe que isso não é verdade. Ele fez apenas uma coisa
totalmente absurda. Tenho certeza de que ele também está desconcertado —
disse Pascale, tentando ser justa com ambos. — Acho que foi muito corajoso
você vir aqui.
Ela na verdade a admirava por isso, embora fosse óbvio que Diana não
estivesse interessada em estar ali, confusa demais para se preocupar com a
viagem.
Diana continuou, triste:
— Eu não queria desagradar você, nem Robert. Sei como vai ser difícil
para ele vir aqui. Senti que tinha obrigação para com ele. Vim mais por ele do
que por Eric.
— Talvez seja bom para vocês dois estarem aqui — acrescentou Pascale,
com esperança.
Mas o casal precisava muito mais do que umas férias na Riviera. O
casamento deles necessitava de uma cirurgia de maior vulto, não de um Band-
Aid.
— Não acho que eu vá perdoá-lo por isso — ameaçou Diana, chorando
mais uma vez.
— Agora não, com certeza. Mas talvez com o tempo — atalhou Pascale,
prudente.
Depois, rodeou a amiga com um dos braços e se abraçaram; depois de
alguns instantes, voltaram ao living a fim de se encontrarem com os maridos.
Quando os homens voltaram a entrar em casa com os charutos, Pascale pôde
ver o abismo que havia entre Diana e Eric. Olharam-se, como se fossem
estranhos. O coração de Pascale sofreu por eles.
Ao subir com John para o quarto de dormir, Pascale ainda se sentia
deprimida. O marido percebeu logo, o que era raro. Algumas vezes ele era
pouco perceptivo quanto a ela.
— Alguma coisa errada?
John queria saber se, inadvertidamente, fizera ou dissera alguma coisa que a
perturbara.
— Não, só estava pensando.
Pascale não queria lhe contar nada, a não ser que Diana lhe desse
permissão. Não queria faltar à promessa à amiga; para contar a John, precisava
ter perguntado a ela, mas não o fizera.
— Pensando em quê? — perguntou John, interessado.
Pascale parecia realmente aborrecida.
— Nada de importante. O que fazer para o almoço de amanhã? —
mentiu-lhe, apenas para proteger Diana e o segredo de Eric.
— Não acredito em você. É algo importante?
— Um pouco.
— Acho que sei o que é. Eric acabou de me contar que ele e Diana estão
tendo problemas.
John parecia perturbado com isso.
— Falou que tipo de problemas?
— Não. Os homens em geral não dão detalhes. Apenas disse que tiveram
um problema sério no casamento.
— Ela quer se divorciar dele — explicou Pascale, parecendo aflitíssima. —
Isso seria simplesmente terrível. Para ambos.
— É outra mulher? — perguntou John.
Pascale respondeu que sim com a cabeça.
John pareceu tão angustiado quanto ela.
— Eric diz que acabou, mas Diana afirma que está magoada demais para
perdoá-lo.
— Espero que resolvam — declarou John, parecendo interessado. — Estão
casados há 32 anos. Isso conta.
John, então, puxou-a para seus braços, com olhar carinhoso, o que não era
do seu feitio. A maior parte do tempo, ele era grosseiro e barulhento, mas,
apesar disso, Pascale sabia que ele a amava.
— Estava com saudades de você — cochichou ele, delicado.
— Também estava com saudades de você — sorriu-lhe Pascale.
John a beijou.
Um momento depois, John apagou as luzes e tomou-a nos braços. Havia
seis semanas que não se viam, um longo tempo em qualquer casamento, mas
ele sabia o que significava para ela estar em Paris, nunca lhe teria negado isso.
Pascale ia lá todos os anos.
Nessa noite, depois de fazerem amor, ficaram deitados um nos braços do
outro durante muito tempo, a lua cheia brilhando na janela do quarto. Depois
que John dormiu, Pascale ficou deitada ao lado dele, a olhá-lo atentamente.
Perguntava-se como se sentiria se John fizesse o mesmo que Eric com Diana.
Sabia como se sentiria péssima. Tanto quanto Diana. Só conseguia pensar, ao
olhá-lo, em como ela tinha sorte por tê-lo. Ele era tudo o que desejava e queria,
e sempre seria.