Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 6 de 15

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Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 3

 

Ofuneral de Anne aconteceu na Igreja de St. James, na avenida Madison, na tarde de terça-feira. Robert se sentou no banco da frente, na igreja com os filhos e as noras. Todos os cinco netos e os quatro melhores amigos

estavam lá. A igreja, cheia de pessoas que conheciam marido e mulher, pessoas

com quem Anne trabalhara, clientes, colegas e velhos amigos. Na entrada, com

a filha segurando-lhe o braço, Robert parecia sofrer muito. Os dois e os filhos

choravam. E, no silêncio da igreja, as pessoas mais próximas a eles ouviram

Pascale soluçar. John se sentava impassível do lado dela, as lágrimas silenciosas

a lhe escorrer pelas faces.

Os Morrison se sentaram próximos a eles, no segundo banco, com os olhos

úmidos. Davam-se as mãos em silêncio. Para todos, era inacreditável que Anne

se fora. O círculo sagrado da amizade fora quebrado, faltava agora uma peça

importante. Haviam perdido uma amiga sempre lembrada.

O serviço foi breve e tocante. Quando saíram da igreja para seguir o caixão

até o carro fúnebre, nevava lá fora. Já fora um inverno rigoroso, mas este dia

em particular parecia excepcionalmente triste. Robert foi ao cemitério com os

filhos, e deixou Anne lá, após umas poucas palavras breves do ministro, que os

conhecera desde o casamento. E, então, Robert deu o último adeus. Parecia um

morto-vivo quando finalmente entrou no carro e ficou de olhos fechados.

Depois do cemitério, todos foram para a casa dos Morrison, para almoçar

com quem haviam convidado. Robert parecia um robô, andando para lá e para

cá entre as pessoas, e, antes da hora, ele desapareceu. Nem mesmo avisou os

filhos. John Donnally levou-o até em casa e detestou deixá-lo lá.

Robert se sentou, pesado, no sofá, e olhou fixamente o espaço. Nesse

momento, estava por demais consternado até mesmo para chorar. Sentou-se

apenas, os olhos fechados.

— Precisa de alguma coisa? — perguntou John, tranqüilo, desejando que

Pascale estivesse ali.

Ela era muito melhor que ele nesse tipo de coisa. Mas John sentira com

certeza que Robert não queria mais ninguém, talvez nem mesmo ele.

— Não, obrigado.

John não estava certo se ficaria por alguns instantes. Robert nada falou.

Sem saber o que fazer, John trouxe um copo de água e pôs na frente dele.

Robert pareceu não vê-lo. Afinal, ele encostou a cabeça no sofá e fechou os

olhos. No silêncio da sala, falou, sentindo a angústia total de suas palavras:

— Sempre achei que morreria primeiro. Ela era mais jovem e sempre

pareceu tão forte. Nunca me passou pela cabeça que eu a perderia.

As pessoas haviam dito a ele, durante quatro dias, que nunca a

esqueceriam, que o espírito de Anne viveria, mas, na verdade, estava tudo

muito claro. E, então, olhou para John com pena imensa:

— John, o que vou fazer agora?

Não tinha idéia de como viver sem ela. Após 38 anos, Anne era parte dele,

como sua alma.

— Acho que tudo isso vai passar dia a dia — respondeu John, sentando-se

perto dele no sofá. — É tudo o que você pode fazer. E, um dia, vai se sentir

melhor. Talvez não seja a mesma coisa, mas tem que continuar. Você tem seus

filhos, seus amigos. As pessoas sobrevivem.

Não quis dizer que ele poderia algum dia casar-se novamente, embora isso

no caso de Robert parecesse improvável. Ele a amara durante muito tempo, e

não era o tipo de homem que voltaria a se casar. Mas, mesmo sem alguém mais

na vida, tinha de continuar. Não tinha escolha. Tudo o que John podia fazer

era rezar para que não morresse, que não renunciasse à própria vida.

— Talvez eu deva me aposentar. Não posso me imaginar voltando a

trabalhar.

Nesse momento, Robert não conseguia se imaginar fazendo alguma coisa

sem ela. Sua mais importante razão de viver desaparecera.

— É muito cedo para tomar essa decisão — aconselhara John, sensato. —

Não faça nada ainda.

Se nada mais fizesse, Robert precisava distrair-se com o trabalho ou

morreria. John já vira isso acontecer a outras pessoas e estava seriamente

preocupado com o amigo.

— Vou vender o apartamento. Como posso viver aqui sem ela?

Os olhos estavam abertos e novamente se encheram de lágrimas.

— Se quiser, pode ficar conosco por uns tempos, até resolver o que deseja

fazer.

Mas, na verdade, Robert queria ficar ali, com as lembranças de Anne.

Pascale e Diana já haviam se oferecido para ajudar Amanda a desfazer-se das

roupas da mãe, pois isso era difícil de enfrentar, e Robert dissera não querer

que nada incomodasse. Ficava feliz ao ver os objetos dela no guarda-roupa, a

camisola pendurada no banheiro, a escova de dentes no copo. Tudo isso o fazia

iludir-se: Anne talvez estivesse em um congresso e voltaria. Mas o pior de tudo

— todos sabiam — é que ele tinha de enfrentar algum dia a realidade: Anne se

fora para sempre.

John ficou sentado ao lado dele, durante muito tempo, sem nada falar. Por

fim, quando finalmente o aposento ficou às escuras, Robert quis dormir no sofá. O amigo não queria deixá-lo e se sentou calado no escritório, passando

uma vista pelos livros. E, às seis horas, telefonou para Pascale.

— Como ele está?

Como todos os amigos, Pascale estava muito preocupada com Robert.

— Adormeceu, está emocionalmente exausto. Não quero ir embora. O que

acha que devo fazer?

Confiava na opinião de Pascale em assuntos do coração.

— Fique aí com ele. Acho que você deva passar a noite aí.

John já pensara no mesmo.

— Não o acorde. Quer que eu leve comida?

— Aqui tem o que comer — respondeu ele, vagamente.

John falara, mas não tinha certeza, nem procurara.

— Vou levar uns sanduíches e sopa — continuou Pascale, firme.

Pela primeira vez, John não fez quaisquer comentários sobre a culinária

dela, estava-lhe grato. Perder Anne fizera-os lembrar de como a vida e os seus

cônjuges são preciosos. Não tinha a menor idéia de como ajudar Robert. Todos

sentiam-se do mesmo jeito.

— Daqui a pouco vejo você.

E quando Pascale chegou trazendo um saco de compras e uma baguete

debaixo do braço, Robert acabara de acordar. Parecia desorientado e exausto,

mas a longa sesta lhe fizera bem. Não dormia direito desde a noite de sexta-

feira. Mas, ao ver a sopa e os sanduíches que Pascale trouxera para eles da

cozinha, disse que não conseguiria comer. Ela via com facilidade que Robert já

perdera peso e parecia mais magro.

— Você tem que comer. Seus filhos precisam de você, Robert. E nós

também. Não pode adoecer.

— Por que não? — perguntou ele, cruel. — Que diferença faz?

— Muita. Para nós. Seja bonzinho e tome um pouco de sopa.

Pascale falava com Robert, como se fosse uma criança. Robert se sentou à

mesa da cozinha e começou tomando a sopa. Foi apenas até o meio, e não quis

os sanduíches que ela preparara, mas ao menos já se alimentara. Depois,

Pascale sugeriu que John passasse a noite com ele.

— Não é preciso. Vocês dois devem ir para casa. Estou ótimo.

Essa era uma palavra que ninguém teria empregado para descrevê-lo, no

entanto era uma idéia nobre.

— John quer ficar aqui — explicou ela.

Robert insistiu.

Finalmente, os Donnally foram embora, às dez horas. No carro, a caminho

de casa, ambos pareciam cansadíssimos.

— Estou muito preocupada com ele — começou Pascale. — E o que será

se ele perder as esperanças e morrer? Algumas vezes isso acontece.

— Isso não vai acontecer com ele — respondeu John, tentando acreditar

no que dizia. — Não pode. Ele vai acabar superando, talvez não de todo, mas o

bastante para trabalhar razoavelmente bem. Talvez seja o que todos esperamos.

Parecia uma afirmação triste sobre a vida futura de Robert.

— Não tenho certeza — afirmou Pascale, novamente enxugando as

lágrimas.

Tudo era muito triste. Quem poderia prever que essa tragédia iria abater-se

na vida deles, que Anne iria embora inesperadamente e tão cedo? Isso fez com

que Pascale se aninhasse mais próxima do marido, no táxi que os levava para

casa. Era uma advertência brutal de como a vida era efêmera, como foi

interrompida rápido, como era frágil, de que eram mortais. E o recado fora

muito bem ouvido.

Pascale e John, Eric e Diana, cada um deles telefonava todos os dias a

Robert. Mas nenhum deles o viu na três semanas seguintes. Ele não conseguia

ficar sozinho no apartamento e dormia no de Jeff durante as primeiras semanas. Obedecia a um horário centrado nos filhos, e não foi trabalhar —

durante um mês não foi ao tribunal. E quando, afinal, foi novamente, reviu os

Donnaly e os Morrison. Naquela semana, voltara mais uma vez ao seu

apartamento. E Anne se fora há um mês.

Ficaram chocados ao vê-lo, perdera muitos quilos e os olhos pareciam

fundos. Pascale só conseguiu abraçá-lo forte e fazer tudo para não chorar. A dor

de Robert a fazia lembrar-se de que haviam perdido Anne. E isso os deixava

muito emocionados.

— Então, o que vocês têm feito? — Robert tentou parecer interessado, mas

os olhos mostravam o contrário.

Era difícil contar o que haviam feito, pensado de suas vidas uns com os

outros, sem sentir a dor da enorme perda. Mas, apesar disso, Robert estava feliz

por vê-los novamente. Haviam lhe trazido bem-estar, e, lá pelo final da noite,

já sorria de algumas das piadas de mau gosto de John e das sempre renovadas

queixas sobre Pascale. No entanto, todos se sentiam mais alegres, mais

tranqüilos e mais carinhosos uns com os outros, mais do que antes. A morte de

Anne dera a todos um recado alto e claro.

— Recebi, ontem, mais fotos da casa em Saint-Tropez — começou Pascale,

bebendo café e tomando água mineral.

Sabia que era muito cedo para falar nisso e que o aluguel seria feito dali a

cinco meses e meio, tempo bastante para Robert esquecer um pouco as

mágoas.

Durante alguns minutos, Pascale falou sobre a casa. Então, Robert a

contemplou com os olhos cheios de dor.

— Não irei com vocês — foi tudo o que disse.

Isso o fazia lembrar muito o verão que tanto quisera passar com Anne na

França.

— Não precisa resolver agora — respondeu Diana, terna, olhando para

Eric.

Eric concordava com a cabeça.

— Se não vier, John vai infernizar a vida de todos nós. Ele é pão-duro

demais para pagar as duas cotas do aluguel da casa. Você precisa vir, pelo amor

de Deus — atalhou Eric.

Robert mostrou apenas um sorriso, fraco e frio.

— Talvez Diana possa organizar uma criação de fundos para pagar o

aluguel — sugeriu ele.

— Uma boa idéia — respondeu John, feliz com a sugestão e fazendo todos

os cinco rirem. — Quem sabe a sua mãe possa ficar num canto, com um copo

cheio de lápis, e nos dar uma mão — acrescentou ele, olhando para Pascale.

Os olhos dela brilharam. Era caçoada, mas havia mais de um mês que não

se ouvia o riso que provocou.

— Na verdade, eu gostaria de honrar o nosso compromisso e pagar a nossa

parte. Anne foi uma das que convenceu todos vocês. Não me importo de pagar

a nossa parte. Apenas não quero ir — respondeu Robert.

— Não seja bobo, Robert — exclamou Diana, enquanto Pascale a olhava.

— Acho que realmente seria muito agradável — falou alto Pascale, todos a

olhando. — Tenho certeza de que Anne iria querer também.

Robert concordou com a cabeça, humilde. Em seu estado desordenado,

parecia-lhe razoável. Por que eles deveriam sofrer financeiramente por causa de

sua perda?

— Digam-me quanto é e lhes dou um cheque — concluiu ele.

Mudaram o assunto da conversa.

Até mesmo John parecia constrangido com esse assunto, ao falar com

Pascale, depois que todos foram embora.

— Não acha que é muito grosseiro pedir a Robert que pague uma casa que

nem vai usar? Você diz que sou vulgar, esse pequeno truque parece

terrivelmente francês.

Os olhos de John diziam desaprovar o que ela havia feito, mas Pascale, ao

lavar os copos que haviam deixado sujos, não parecia constrangida.

— Se ele pagar, irá, mesmo que agora pense o contrário.

John sorriu. Pascale era uma mulher inteligente.

— Pensa realmente assim?

— E você não pensa assim?

— Eu? — John riu. — Diabo, se paguei, iria querer que o meu dinheiro

valesse. Mas Robert é um pouco mais nobre do que eu. Não acho que ele vá.

— Eu acho. Ele não conhece o local, mas vai conhecer. E vai lhe fazer

muito bem — Pascale parecia certa do que falava.

— Se ele for, espero que não leve todos os filhos, agora que Anne se foi. Os

netos dele são muito barulhentos, e Susan me deixa nervosa.

Susan também deixava Pascale nervosa, bem como a outra nora, às vezes

até Amanda e os netos falavam alto demais, mas, agora, Pascale não se

importava com isso.

— Não importa. Tomara que Robert vá.

— Sabe, estou muito feliz que tenha feito isso — afirmou John, olhando-a

com ternura. — Quando você lhe falou aquilo, eu quase me engasguei com o

café. Achei que você tinha vivido muito tempo comigo — admitiu ele,

impiedoso.

— Nem tanto — protestou ela.

Pascale estava calma. Curvou-se até ele para dar-lhe um beijo.

Desde que Anne falecera, Pascale viu o quanto John era importante para

ela, e ele vira a mesma coisa. Apesar das freqüentes diferenças, ambos eram muito felizes, e sabiam disso. Sabiam também que a vida é curta e algumas

vezes muito encantadora.