Pôr-do-sol em Saint-Tropez
Capítulo 9
Quando Robert desceu para tomar o café da manhã, viu que Gwen já bebia café au lait , lia o Herald Tribune , e não havia mais ninguém por perto. Foram os primeiros a descer. Gwen lhe preparou uma xícara de café e lhe
cedeu o jornal.
— Dormiu bem? — Gwen parecia interessada e preocupada com ele.
Robert tinha de admitir que gostava disso. Muito. Era agradável ter
novamente alguém para se preocupar com ele.
— Mais ou menos — admitiu ele. — Às vezes, sonho com Anne.
Robert, porém, não contou a Gwen que não sonhara com a falecida
mulher, sonhara com ela e que isso também o perturbara. Na verdade sentira
falta dela. Não tinha o direito de abandonar Anne, física ou emocionalmente,
mesmo que não estivesse mais ali. Perguntava-se o que Anne acharia disso
tudo, se aprovaria. Gostava de pensar que sim.
— Depois que me divorciei do meu marido, foi difícil viajar sozinha —
disse ela, honesta, como se compreendesse e não quisesse pressioná-lo.
Robert gostava disso nela. Tinha muita coisa de que gostava, mais do que
esperava.
— Foi difícil mudar de vida. Fiquei casada por apenas nove anos; você, 38.
Como se pode mudar de vida, sem haver estresse, sem introspecção e sem
ajustes. Leva tempo.
— Acho que nunca pensei nisso. Nunca esperei que acontecesse.
Ou que voltasse a amar alguém. Robert não teve coragem de dizer isso a
ela.
— Nem eu — respondeu ela, honesta. — Mas algumas vezes o destino nos
força a enfrentar situações pouco esperadas, que nos deixam apavorados.
Robert nunca lhe perguntara o que acontecera para o casamento terminar.
Agora, no entanto, perguntou. Durante um instante, Gwen ficou indecisa.
— Ele teve um romance. Um romance muito sério, com uma de minhas
melhores amigas, eu descobri.
— Então você o deixou? — Robert parecia impressionado e triste por ela.
— Sim. Em cinco segundos. Nunca sequer pensei sobre isso. Apenas reagi
e fui embora.
— E aí... ele...?
— Pediu-me para voltar. Na verdade me implorou. Nunca falei nem
discuti com ele. Durante muito tempo odiei-o, como nunca odiara ninguém.
Nunca o perdoei. Ela era a minha amiga mais íntima, pus a responsabilidade
em ambos. Naquele tempo, eu era um pouco inflexível.
— Ficou arrependida? De largá-lo, quero dizer.
— Sim. Depois que o mandei embora, arrependi-me, mas era orgulhosa
demais para voltar atrás. O orgulho me parecia mais importante. Meu ego
estava ferido, tanto quanto meu coração, que era bobinho, suponho.
Aparentemente, nunca fiquei indecisa. Não queria que ele soubesse que ainda o
amava.
— Como está agora?
— Estou bem. Mas, por muito tempo, não estava. A princípio, me sentia
amarga, irritada, destrutiva e, depois, desolada.
— O que acha que deveria ter feito? Aceitá-lo de volta?
Gwen ficou surpresa com a resposta:
— Talvez. Porque não somos humanos, ou coisa que o valha, se não
podemos perdoar um ao outro. Levei muito tempo para perdoá-lo. E, quando
consegui, era muito tarde. Quando tudo aconteceu, eu só queria castigá-lo. Foi
o que fiz. Divorciei-me dele. E, mais tarde, percebi que talvez pudesse perdoá-
lo, vivendo com ele e ficando casada. Mas, então, era tarde demais. A mesma
coisa poderia acontecer comigo. Depois que me divorciei, por muito tempo
ainda me sentia apaixonada por ele. Mas não conseguia pensar em perdoá-lo.
Sempre me arrependo disso, e levei muito tempo para ficar em paz.
Gwen, ao falar isso, parecia triste.
— Deve ser difícil fazer tais escolhas — atalhou Robert, calmo. — Até
onde ir, até quando pensar diferente. De certa forma, foi mais fácil para mim.
Não tive opção ao perder Anne. Precisei apenas conviver com isso. Você tinha
alternativas, e, ao fazer uma escolha, poderia se censurar por muito tempo pelo
que fez. Tenho certeza de que, no fim, você tomou a decisão correta.
— Acho que sim. Por muito tempo, não tinha certeza. Depois, arrependi-
me de tê-lo deixado, mas eu era orgulhosa demais para voltar atrás. No fim,
custou muito a ambos. Aprendi uma lição muito dolorosa.
— Que houve com ele?
Robert viu algo nos olhos de Gwen que o fez perguntar.
— Implorou-me, por vários meses, para que eu voltasse atrás. Sempre
recusei. Finalmente casou-se com a mulher com quem tivera o romance. Talvez
se cassasse mesmo com ela, mas não tenho certeza de que estivesse apaixonado
por ela.
A voz de Gwen ficou tensa ao falar o restante da frase, e era óbvio que isso
a oprimia.
— Então, seis meses depois, ele se matou. Assim, em vez de arruinar uma
vida, destruí três: a dela, a minha e a dele. Sei que me sentirei culpada para
sempre.
Gwen estava sendo honesta, não importa se de modo muito doloroso.
— Não deve se sentir assim — respondeu ele, amável.
Gwen nunca lhe contara a história; Robert agora percebia como o divórcio
e a morte do ex-marido lhe foram traumatizantes.
— Você não poderia saber o que lhe passava na vida, na cabeça, naquele
momento. Pode ter sido a própria culpa ou algo do gênero.
— Eu resolvera ser inflexível e não estava disposta a ceder — acrescentou,
triste. — Sentia-me ferida por ele ter me enganado. Mas se eu agisse de forma
diferente e discutisse com ele, sem me divorciar tão rápido, talvez ainda
estivéssemos casados e ele vivo.
— Talvez não fosse o seu destino ou o dele. Não se pode controlar o que o
outro faz. Talvez acabasse sua vida com ele.
— Não, ele acabou — completou ela, triste. — De muitas formas. O que
ele fez foi muito claro. Matou-se. A nova mulher afirmou que a culpa foi
minha, que eu nunca deveria ter me divorciado dele, que eu era culpada de
tudo. Na época acreditei nela. Eu é que deveria me afastar, e ele é que se foi.
Mas ainda não tenho certeza do que aconteceu, do que poderia novamente
acontecer, e que eu era responsável por isso. Não se pode apenas fugir disso.
— Você tem de tirar essa carga de cima de você, Gwen — acrescentou
Robert, suave, estendendo-lhe uma das mãos e segurando-lhe a outra. — Você
deve isso a si mesma. Não pode se punir para sempre. O que ele fez com você
também estava errado. Ele também é responsável por tudo isso, mais do que
você.
Gwen aceitou sua opinião. Robert lhe dissera uma porção de coisas boas, o
que a comoveu.
— E você? Está se atormentando por Anne? Acha que lhe deve a vida e que
não deve ser feliz novamente? Porque, se você está se atormentando, é desagradável permanecer assim. Você também precisará deixar ajudar-se a sair
de uma situação difícil, Robert.
— Vou sair, se conseguir. Anne foi uma presença poderosa em minha vida
e uma pessoa forte. Não consigo pensar que ela tenha me deixado tão de
repente. Ela esperava que eu lhe fizesse companhia para sempre. E agora se foi,
estou aqui e não sei como viver uma nova fase.
— Vai viver. Dê tempo ao tempo. Não pode ter pressa.
Robert não tinha pressa. Nem Gwen. E estava grato a ela por isso.
— Você é uma pessoa extraordinariamente encantadora, Gwen —
acrescentou Robert, encantado.
— Conte isso aos seus amigos — provocou Gwen.
Robert suspirou. Bem nesse momento, Eric entrava na cozinha. Robert se
calou.
— Alguém viu Diana? — perguntou ele.
Nenhum dos dois respondeu. Diana ainda não aparecera na cozinha. Mas,
enquanto se servia de café, Eric não parecia aborrecido com isso. Nessa manhã,
haviam brigado outra vez, por causa do romance dele. Diana lhe dissera que
nunca se conformaria e que queria o divórcio. Mais uma vez Eric lhe implorara
perdão; finalmente ele perdera a calma diante da incapacidade de Diana de não
compreendê-lo e perdoá-lo. E mais uma vez ele perdera a calma na hora em
que Diana saíra gritando do quarto. Nesse exato momento, ia nadar na piscina,
tentando lutar com os sentimentos de mágoa e frustração. Estava ainda mais
magoada porque a mulher com quem Robert se envolvera era muito mais
jovem que ela. E, por isso, sentia-se liquidada, não amada e velha. Não
conseguia recuperar a auto-estima, nem o seu amor por Eric, que, súbito, lhe
parecia um estranho.
Eric se sentou, calmo, perto de Robert e Gwen, e conversou com eles.
Gwen se ofereceu para lhe preparar ovos, mas ele queria apenas croissants. E quando John e Pascale entraram na cozinha, ela aquecia os croissants para eles e
também lhes servia o café.
Diana entrou, enrolada em uma toalha de praia, e ignorou Gwen. As
mulheres eram intransigentes com ela. Até mesmo Robert achava que isso
parecia não ter jeito. Se ele e Gwen tivessem uma relação séria, ele agora sabia
que as melhores amigas não conseguiriam aprová-la, nem participar dela. Para
ele, isso era muito injusto, mas não conseguia ver como poderia mudar esse
estado de coisas, a menos que quisessem. Ele se perguntava: se fosse com outra
pessoa, seria de alguma forma diferente? Duvidava e, por isso, estava indignado
com eles, ou pelo menos com Diana e Pascale. Descontrolara-se por sua causa e
por causa de Gwen. Elas nunca lhe haviam dado uma boa oportunidade.
Estava quase arrependido de Gwen tê-los convidado a passar o dia no Talitha
G. Se iriam tratá-la dessa forma, não mereciam o convite. Ao terminar o
desjejum, estava calado e sugeriu a Gwen que logo fossem velejar.
— Está aborrecido, não? — perguntou ela, depois, quando velejavam. —
Foi o que lhe falei hoje de manhã sobre começar uma nova relação?
Gwen se perguntava se o ofendera.
— Não, é a forma de meus amigos se comportarem. As mulheres, pelo
menos. Comportam-se como crianças, e estou ficando cansado disso.
— Precisamos ter paciência — replicou ela.
Gwen tinha uma compreensão que sentia as amigas não terem.
— Estou quase arrependido de trazer você aqui — acrescentou ele, triste.
— Você não merece isso.
Mas, de certa forma, a mudança acontecera mais fácil para ele. Queria
protegê-la e se sentia leal a ela, e não apenas a Anne. Também devia alguma
coisa a Gwen, que se fizera vulnerável a ele e fora honesta. Ao se sentarem lado
a lado no barco a vela, ele a puxou para perto e a beijou com força. Era uma
sensação de alegria e emoção como não sentia havia anos. E, ao repetir o beijo, sorriu-lhe. Parecia a única forma positiva. A deslealdade dos amigos servira
apenas para aproximá-los mais.
— Está bem? — perguntou Gwen, depois que ele a beijara, ainda
preocupada com ele.
Robert sorriu, em resposta, parecendo bonito e jovem.
— Estou bem.
Robert a beijou novamente. Gwen o abraçou — e, por uns instantes, ele se
esqueceu de onde estava ou do que o perturbara. Só conseguia pensar em
Gwen e em como fora extraordinário beijá-la. Pela primeira vez, nem pensara
em Anne. Apenas em Gwen e como se preocupava com ela.
Por algum tempo, velejaram em silêncio. Súbito, Gwen apontou a distância
e Robert viu. Um iate a motor, enorme e clássico, navegava na direção deles,
com duas enormes chaminés e linhas elegantes. Logo à primeira vista, parecia
muito bonito; depois, os dois sorriram. Foi um desses momentos — ambos
tinham certeza — de que se lembrariam para sempre.
— Você me faz muito feliz — sorriu-lhe Robert.
Gwen lhe trouxera novo estímulo à vida, uma sensação que não
experimentava há anos. Robert mal conseguia esperar para passar o dia com ela
no barco, e se arrependia de ter convidado os amigos. Velejaram de volta no
barco a vela, para contar aos amigos que um iate se aproximara deles. Sem
pensar, saltaram do barco e caminharam de mãos dadas. Robert nunca se
sentira tão à vontade na vida, mesmo com Anne. Ela fora mais serena e menos
expansiva. Mas tudo em Gwen era delicado, suave e afetuoso.
Quando chegou a casa, Robert foi ao andar superior para pegar a roupa de
banho e alguns objetos. Depois, dirigiu-se ao quarto de dormir de Gwen para
vê-la. Trajava um vestido de verão, de algodão branco, os cabelos lhe
emolduravam o rosto, enquanto lhe sorria. Robert pegou-a nos braços
novamente e a beijou e, desta vez, não se sentia nem culpado nem triste. Sentia paz, alívio e profunda paixão. Não a conhecia bem, mas sabia ter encontrado
uma mulher que poderia significar-lhe algo excelente. Gostava muito dela. Sem
falar uma única palavra, desceram ao térreo, de mãos dadas, em uma
provocação audaciosa aos amigos. Gwen queria ser prudente, mas Robert
esclareceu que, para ela e para eles, era isto que ele queria e quem ele se tornara.
Agora, ao menos, esperava que eles aceitassem e respeitassem as mudanças
ocorridas nele e em Gwen, e aceitassem as conseqüências, se ainda não as
tivessem aceito.