Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 5 de 15

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Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 2

 

 

Opróximo encontro entre os seis foi no apartamento de Pascale e John, no Lado Oeste, duas semanas mais tarde, numa noite em que chovia a cântaros. Como sempre, os Morrison e os Smith chegaram pontualmente e

deixaram as capas e os guarda-chuvas molhados na sala da frente no

apartamento dos Donnally. A decoração era eclética: máscaras africanas,

esculturas modernas, antigüidades que Pascale trouxera da França e tapetes

persas belos e pequenos. Havia objetos fascinantes que trouxera das viagens

com o ballet.

A iluminação era suave e o aroma da cozinha, delicioso. Fizera um creme

de cogumelos e, como prato principal, coelho com molho de mostarda. John

abrira várias garrafas de Haut-Brion.

— Que ótimo cheiro! — exclamou Anne, esquentando as mãos na lareira

que John acendera.

Pascale servia uma bandeja de hors d’oeuvres.

— Não acreditem em todo este aroma! — avisou John, enchendo a taça de

cada um com champanhe. — Vocês sabem quem preparou o jantar! —

completou com um sorriso forçado.

— Toi, alors! — respondeu Pascale, olhando para ele irada.

Desapareceu na cozinha para mais uma vez verificar o jantar. No entanto,

tinha boas notícias para todos, informou ela, quando voltou para sentar-se com eles nos sofás forrados com veludo vermelho escuro no living. Havia uma

pintura bonita presa à parede da lareira e velas acesas por todos os lugares; em

uma parede havia dúzias de fotografias de Pascale com o New York City Ballet.

Era um lar que refletia ambas as personalidades, os lugares onde estiveram e a

vida que levavam. E o clima da sala era claramente francês. Sobre a mesa, havia

ainda um maço aberto de cigarros Gauloises, com que Pascale se regalava, de

tempos em tempo, enquanto John fumava seus charutos.

— E então? — perguntou Diana, recostando-se no sofá, em um terninho

preto bem-feito e bebericando champanhe. Trabalhara muito o dia inteiro,

organizando outra angariação de fundos em Sloan-Kettering. Eric estivera de

pé durante três noites, fazendo partos de bebês. Todo o grupo parecia tranqüilo

como sempre, um pouco mais cansado.

— Encontrei uma casa! — exultou Pascale, indo à escrivaninha, bonita e

antiga, que anos antes ela e John haviam comprado em Londres.

Voltou com um envelope grosso, de papel manilha, e uma pilha de

fotografias para os amigos.

— Voilà! É exatamente o que queremos.

Pela primeira vez, John não fez comentários, já vira as fotografias e, embora

não gostasse do preço, admitia ter gostado da casa. Era uma villa antiga,

elegante, bem-conservada, com belos jardins e uma área admirável. Era bem

perto da água, havia um pequeno cais e um barco a vela, bonito e pequeno,

vinha com ela. Seria divertido para todos eles, em especial Eric e Robert e

Anne, os marujos do grupo. As fotos do interior mostravam um living vistoso,

com mobília francesa provinciana, cinco quartos de dormir enormes e bem

decorados e uma sala de jantar bastante grande, onde cabiam duas dúzias de

pessoas sentadas. A cozinha, imaculada, embora um pouco antiga, era

aconchegante e muito charmosa. E, melhor de tudo, havia uma criada e um

jardineiro, que serviria de motorista. Pascale tinha razão, todos concordaram, parecia uma casa perfeita. De fato, chamava-se Coup de Foudre, que

significava “amor à primeira vista” ou “raio de tempestade”. Estava à disposição

durante todo o mês de agosto e o preço era bem razoável, vistas as vantagens da

casa, e os proprietários desejavam saber imediatamente se eles iriam alugá-la.

— Puxa, parece ótima, Pascale — declarou Diana, mais uma vez estudando

as fotos com cuidado. — Tem até dois quartos de hóspedes, se quisermos

convidar amigos ou alguns de nossos filhos. Adoro a idéia da criada. Não me

importo de cozinhar, mas detesto limpar tudo depois.

— Exatamente — explicou Pascale, excitada por terem gostado. — É um

pouco cara — admitiu, balbuciando —, mas a quantia, dividida por três, não

fica tão alta.

Ao ouvir isso, John admitiu que a mulher tinha razão. Ele usaria o

programa de milhagem para cobrir o preço da passagem aérea, e, se as mulheres

cozinhassem a maior parte das refeições, não precisariam ir todas as noites aos

restaurantes da moda, e o dinheiro economizado seria bem razoável.

— Será que a casa é realmente boa como parece nas fotos? — perguntou

Robert, cauteloso.

Servia-se dos hors-d’oeuvres preparados por Pascale. Suas aptidões culinárias

eram melhores do que John admitia. A maior parte dos canapés há havia sido

devorada, e o aroma que vinha da cozinha era verdadeiramente delicioso.

— Por que nos mentiriam? — perguntou Pascale, parecendo surpresa.

Era a mesma coisa que John dissera.

— Utilizei uma corretora muito respeitada para encontrar a casa. Se

quiserem, posso pedir à minha mãe para ir lá e ver.

— Ó Deus, não! — respondeu John, parecendo horrorizado. — Não a

deixe se meter nisso. Vai contar a todos que sou um banqueiro americano rico

e vão dobrar o preço.

Parecia angustiado só de pensar nisso. Todos riram dele.

— Parece absolutamente perfeito — completou Anne, sensata.

Desde o início, ela se entusiasmara com o projeto.

— Temos de nos apressar antes que percamos a casa para outra pessoa. E se

a casa não for tão boa como aparece nas fotos, e aí? Será muito ruim viver um

mês em uma villa no sul da França? Sou a favor de que se envie um fax hoje à

noite, informando que queremos a casa — aprovou ela, decisiva, sorrindo

animada para Pascale. — Você fez um excelente negócio!

— Obrigada — respondeu Pascale, parecendo em transe.

Adorava a idéia de passar mais um mês na França. Ficava sempre com a

família em Paris, durante a maior parte de junho e todo o mês de julho. Mas,

este ano, poderia também ficar durante agosto.

— Concordo com Anne — completou Robert, sem hesitar. — Gostei da

idéia dos quartos de hóspedes. Sei que nossos filhos adorarão ficar conosco

durante uns poucos dias, se todos vocês não se importarem.

— Aposto que os nossos também — alegrou-se Eric.

Diana concordou com a cabeça.

— Não sei se o marido de Katherine poderá dar uma escapada, mas tenho

certeza de que ela vai adorar ficar com os meninos, e Samantha é louca pela

França.

— Eu também — sorriu Anne. — Então, concordamos? Vamos alugar?

Rapidamente, calcularam quanto custaria por casal. Mesmo John fingindo

apertar o coração enquanto convertiam o preço em dólares, todos concordaram

que uma casa tão grande e bem cuidada como essa valeria o preço.

— É um bom negócio — aprovou Robert, parecendo contente.

Sabia poder ficar fora durante um mês e queria que Anne tirasse férias.

Parecia muito cansada e admitia que trabalhara demais. Robert lhe falara, mais

tarde, que deveria pensar em aposentar-se. A vida era curta demais para passar

tantas horas trabalhando no escritório, na sala do tribunal ou preparando casos para os litigantes submeterem à aprovação. Anne adorava o trabalho, mas era

muito estressante, e seus clientes exigiam muito dela. Trabalhava às noites e em

alguns fins de semana. Embora a carreira fosse a paixão de Anne, Robert

começava a pensar que era tempo de ela diminuir o ritmo. Queria passar mais

tempo com a mulher.

— Vai ficar o mês inteiro fora? — perguntou, severo, à mulher.

Pascale chamava para o jantar.

Anne concordou, piscando os olhos.

— É o que você quer? Vou prendê-la a mim, sabe? — ameaçou Robert.

Apertou-a contra ele e a beijou. Robert estava realmente na expectativa de

ficarem juntos na França. Nos últimos dois anos, Anne interrompera as férias a

fim de voltar ao escritório para tratar de casos urgentes.

— Prometo ficar o tempo inteiro — respondeu Anne, solene.

— Então, valerá todos os centavos — acrescentou Robert, parecendo feliz.

Foram para a sala de jantar, de braços dados. Juntos, pareciam muito

aconchegados.

— Em especial com o barco a vela — provocou-o Anne.

Velejar com ele era um dos seus grandes prazeres; sempre se lembravam de

antigos verões, em Cape Cod, quando os filhos eram pequenos.

Nesta noite inteira, os seis conversaram animados sobre a casa em Saint-

Tropez. Foi uma conversa alegre e cordial. Conversaram pouco sobre seus

trabalhos e os filhos, na maior parte do tempo, falaram sobre a villa e o tempo

que planejavam passar na França.

E, depois, à mesa de jantar, enquanto permaneciam sentados bebendo

Château d’Yquem, sentiram a forte animação do prazer acumulado. Parecia um

verão perfeito para todos.

— Posso chegar lá alguns dias antes, se vocês me deixarem, para organizar

tudo e comprar o que for preciso para a casa — ofereceu-se Pascale.

Nada havia a acrescentar, o folheto dizia que a casa vinha com toda a roupa

branca de cama, toalhas e todo o necessário na cozinha.

Eric afirmava que o casal de criados teria tudo bem à mão.

— Posso estar lá antes que todos cheguem — acrescentou Pascale,

animada.

Até mesmo o marido, John, sorriu.

A sugestão fora muito atraente.

Era quase meia-noite quando foram para casa. Os Morrison e os Smith

dividiram um táxi para o Lado Leste. Ainda chovia, mas estavam com ótima

disposição. Robert suspeitava ser o único a perceber que Anne parecia muito

cansada. Parecia exausta.

— Está bem? — perguntou Robert, meigo, depois que se despediram dos

Morrison. Anne estivera mais calada que sempre no táxi. Robert percebera que

ela estava cansada, pois fazia muito esforço.

— Estou muito bem — declarou Anne, com menos energia que convicção.

— Pensava apenas em como será ótimo passar um mês na França. Mal posso

pensar no que você e eu faremos com tanto tempo livre: para ler, descontrair,

velejar, nadar. Só queria que não demorasse tanto.

Parecia esperar muito pelas próximas férias.

— Eu também — repetiu Robert.

O táxi os deixou na frente do edifício, na rua 89, Leste, e entraram rápido

por causa da chuva.

Robert via Anne retirar o casacão, no apartamento confortável.

Achou-a pálida.

— Gostaria que tirássemos um período de férias antes do próximo verão.

Por que não pegamos um feriado longo e vamos a algum lugar quente para

passar alguns dias?

Robert se preocupava com ela, como sempre fizera. Anne era a pessoa mais

preciosa em sua vida. Mais preciosa até mesmo que os filhos. Anne sempre fora

sua prioridade máxima. Era a amada, a confidente, a aliada, a melhor amiga.

Ela era o eixo central de sua vida.

Quando grávida, e por várias vezes o estivera nos 38 anos de vida em

comum, Robert a tratara como uma taça de antiquário. Ele, por natureza, era

uma pessoa muito carinhosa. Anne amava isso nele, a ternura, a preocupação, o

gênio tranqüilo. Percebera isso, na primeira vez em que se conheceram, e o

tempo lhe provou estar certa. Era mais severa que o marido, mais dura, mais

forte e, em alguns aspectos, menos perdoadora. Era feroz ao defender os

direitos dos clientes ou dos seus filhos, mas o coração sempre pertencera a

Robert. Era raro dizer isso ao marido, mas a relação deles era um vínculo que

resistia à ação do tempo e precisava de poucas palavras. Quando mais jovens,

costumavam conversar mais sobre suas esperanças, seus sonhos e sobre como se

sentiam. Robert era o romântico, o sonhador que previa como seriam os anos

futuros. Anne era sempre mais prática e mais envolvida com a vida diária. E, à

medida que os anos passaram, parecia haver menos conversa, menos

necessidade de planejar e pensar o futuro. Percorriam seu caminho, sim, porém

de mãos dadas, a cada ano que passava, satisfeitos com o que haviam realizado,

respeitando as lições aprendidas. A única tragédia compartilhada fora a perda

do quarto filho, outra menina, ao nascer. Na época, isso devastou Anne, que se

recuperou rápido, graças à ajuda e à generosidade de Robert. Fora ele quem

chorara a morte da menininha durante anos, e que, de tempos em tempos,

ainda falava nela. Anne fora em frente; em vez de lamentar o que perdera,

passou a se sentir satisfeita com o que tinha. Mas, sabendo bem quanto Robert

sentira, cuidava do marido, e de modo firme. Tinha que usar um escudo para

protegê-lo das coisas que o feriam. Anne sempre parecia um pouco mais capaz

do que ele para levar os golpes da vida.

— Que quer fazer amanhã? — perguntou Robert.

Anne estava deitada na cama ao seu lado, com camisola de dormir, em

flanela azul. Era vistosa, sem ser bonita, mas distinta, elegante e fina. E, em

alguns aspectos, achava-a mais atraente agora do que ao se casarem. Sua

fisionomia melhorava com o tempo. Conservara-se bem como companheira da

vida dele.

— Amanhã, quero dormir até tarde e ler o jornal — respondeu ela, com

um bocejo. — Quer ir ao cinema, amanhã de tarde?

Gostavam de ir ao cinema, em geral filmes estrangeiros ou sérios, que

muitas vezes faziam Robert chorar. Quando mais jovens, Anne implicava com

ele sobre isso. Anne nunca chorava no cinema. Mas adorava a ternura e a

sensibilidade do marido.

— Ótima idéia.

Ambos se divertiam juntos, gostavam das mesmas pessoas, das mesmas

músicas e dos mesmos livros, a maior parte das mesmas coisas, muito mais

agora que nos primeiros anos. No início, houve muitas diferenças entre eles,

mas os dois haviam trabalhado muito juntos em serões, quando os gostos se

uniram e as diferenças desapareceram. O que partilhavam agora era

intensamente satisfatório, como um colchão de plumas em que afundavam, de

mãos dadas, muito tranqüilos.

— Estou contente por Pascale ter achado essa casa — atalhou Anne.

Tentava dormir, aconchegada a Robert.

— Acho que o verão que vem vai ser realmente divertido.

— Mal consigo esperar tanto tempo para velejar com você — acrescentou

Robert, ficando mais perto dela.

Nessa noite, bem antes, ao se vestirem para ir à casa dos Donnally, Robert

se sentira excitado, porém, agora, Anne estava tão cansada que não seria justo

forçá-la a ter relações, pois trabalhara e se cansara muito. Iria alertá-la no dia seguinte, há anos não a via tão cansada. E, quando ela se aninhou em seus

braços, dormiu quase no mesmo instante.

Alguns minutos depois, ele também dormiu, roncando mansamente.

Eram quase quatro da manhã, quando Robert acordou e ouviu Anne no

banheiro, tossindo, parecendo vomitar. Via a luz pela fresta inferior da porta

do banheiro. Esperou uns poucos minutos para ver se ela voltava para a cama.

Dez minutos mais tarde, porém, nada se ouvia, e Anne ainda não saíra do

banheiro. Robert se levantou e bateu à porta, mas ninguém respondeu.

— Anne, está bem?

Robert esperava ouvi-la dizer que estava bem, para voltar para a cama. Lá

de dentro, porém, nada se escutava.

— Anne? Amor... Está doente?

O jantar preparado por Pascale fora delicioso, mas pesado e substancioso.

Robert esperou um ou dois minutos; depois, com delicadeza, girou a maçaneta

e entrou. O que viu foi sua mulher, caída no chão, os cabelos desalinhados, a

camisola de dormir retorcida. Havia evidência de que vomitara, os lábios

estavam quase azuis. Robert ficou aterrorizado.

— Oh, meu Deus... oh, meu Deus...

Robert verificou o pulso; não conseguia senti-lo, nem conseguia vê-la

respirar. Não sabia o que fazer, se tentava revivê-la ou chamava uma

ambulância. E, afinal, foi pegar o telefone celular, voltou rápido até Anne.

Telefonou do banheiro. Tentou sacudi-la, gritar-lhe o nome, mas Anne não

mostrava sinal de recuperar a consciência. Robert via que os lábios estavam

ficando azul-escuros. A atendente já estava na linha, e Robert lhe deu seu nome

e endereço e lhe disse que a esposa estava inconsciente, respirando com

dificuldade.

— Ela bateu com a cabeça? — perguntou a atendente, em tom frio.

Robert engolia lágrimas de horror e frustração.

— Não sei... faça alguma coisa... por favor... mande alguém agora mesmo...

— Robert pôs o rosto contra o nariz de Anne. Agora, ao lhe sentir o pulso,

primeiro pensou que ela se fora, depois tentou verificá-lo, mas mal conseguia

senti-lo. Era como se Anne estivesse fugindo rapidamente dele, sem nada poder

fazer para detê-la.

— Por favor... por favor me ajude... Acho que ela está morrendo...

— Uma ambulância já está a caminho — informou a voz, tranqüilizadora.

— Preciso de mais informações. Quantos anos tem sua mulher?

— Sessenta e um.

— Tem caso de doença cardíaca na família?

— Não, estava cansada, muito, muito cansada. Anne trabalhou demais.

Sem nada mais dizer, Robert largou o telefone e tentou uma ressuscitação

boca a boca. Ouvia a respiração dela. Anne deu um suspiro, sem outro sinal de

vida. Estava pálida como nunca. Robert novamente pegou o telefone.

— Não sei o que houve com ela, talvez tenha desmaiado e batido com a

cabeça. Vomitou...

— Sentiu, antes, dor no peito? — perguntou a voz.

— Não sei. Eu estava dormindo. Quando acordei, ouvi-a tossindo e

passando mal. Quando entrei no banheiro, estava caída no chão.

Enquanto falava, ouvia as sirenes se aproximando. Rezava para que fosse

uma ambulância para Anne.

— Estou ouvindo uma ambulância... é a que mandou?

— Espero que sim. Como sua mulher está agora? Respirando?

— Não tenho certeza... Parece que muito mal.

Robert gritava, horrorizado com o que acontecia, apavorado com o que via.

A campainha tocou lá embaixo. Robert correu à sala para apertar o porteiro

eletrônico e fazê-los entrar. Abriu a porta da frente e voltou correndo para a

mulher. Nada havia mudado, mas, em poucos instantes, os paramédicos estavam bem ali, atrás dele, de pé no banheiro. Três deles, especializados em

resgate de incêndio, fizeram-no sair dali e se ajoelharam perto dela. Escutaram-

lhe o coração e verificaram os olhos. O encarregado mandou que os outros dois

a pusessem na maca que haviam trazido. Ao descer as escadas atrás deles,

Robert só conseguiu ouvir na confusão a palavra “desfibrilador”. Ainda estava

de pijamas e mal teve tempo de pegar o casaco e pôr os sapatos, enquanto

metia o celular no bolso, apanhava a carteira de dinheiro na cômoda e corria

como um louco atrás deles. Ao chegar lá fora, Anne já estava na ambulância e,

antes que partissem, mal teve tempo de entrar e ficar perto dela.

— O que houve? O que está acontecendo com ela?

Robert perguntava a si mesmo se Anne havia se engasgado com algo que

vomitara e a sufocara, mas os paramédicos lhe disseram que tivera um ataque

cardíaco. Enquanto isso, um deles lhe abriu a camisola de dormir e lhe pôs o

desfibrilador no peito. Os seios ficaram à mostra, Robert quis cobri-los, mas

sabia que o momento não era para se preocupar com pudor. Anne parecia estar

morrendo. O coração parara e já lhe haviam posto máscara de oxigênio,

enquanto Robert via, horrorizado, o corpo de Anne se sacudir. Aplicaram-lhe

outra vez o desfibrilador.

— Ó meu Deus... ó meu Deus... Anne — murmurou Robert, olhando-a e

tomando-lhe as mãos nas suas. — Neném... por favor... por favor...

O coração de Anne voltou a bater, mas era óbvio que estava tendo um

enfarte. Robert nunca se sentira tão desamparado na vida. Apenas horas antes,

jantaram com os amigos, e ela parecera cansada, mas nada que pudesse sugerir

algo tão dramático — ou ele a teria levado imediatamente à emergência de um

hospital.

Os paramédicos estavam ocupados demais para falar com ele.

Comunicaram-se pelo rádio com o hospital mais próximo. Robert ligou para Eric pelo celular, as mãos trêmulas. Eram então 4h25 da manhã, e Eric atendeu

no segundo toque.

— Estou na ambulância. Estou com Anne — informou Robert, a voz

trêmula. — Teve um ataque cardíaco, e o coração acaba de parar. Eles a

reanimaram, ó Deus, Eric, ela estava muito pálida e os lábios arroxeados.

Robert chorava, incoerente.

Eric logo se levantou e acendeu a luz, e Diana despertou. Estava

acostumada a telefonemas altas horas da noite, da sala de parto, e raramente

levantava, mas alguma coisa no tom de voz do marido era diferente desta vez.

Abriu os olhos.

— Ela está consciente? — perguntou Eric, tranqüilo.

— Não... achei-a no chão do banheiro... pensei que ela tivesse batido com

a cabeça... não sei... Eric, ela parece... ela... — Robert mal conseguia juntar as

palavras.

— Para onde a estão levando?

— Lenox Hill, acho.

Era a uns poucos quarteirões do edifício de Eric.

— Estarei lá em cinco minutos. Me encontro com você na sala de

emergência, ou no CTI cardíaco. Encontrarei você... Robert, ela ficará bem...

Não se preocupe.

Eric queria muito tranqüilizá-lo e esperava estar certo do que falava.

— Obrigado — Robert mal conseguiu falar, desligando o celular.

Os paramédicos prepararam o desfibrilador novamente, o coração de Anne

continuaria a bater até chegarem ao hospital. Já havia uma equipe de

cardiologistas a sua espera na calçada. Cobriram-na com um cobertor, tiraram-

na da ambulância e entraram no hospital, antes que Robert pudesse agradecer a

alguém ou dizer alguma coisa. A maca praticamente passou voando por ele, e

Robert mal conseguiu entrar correndo atrás deles. Foram direto para o CTI cardíaco, enquanto Robert ficava ali, sentindo-se inútil, com o casaco e o

pijama. Súbito, parecia ter mil anos de idade, e só queria estar com a sua

amada Anne. Não queria abandoná-la nas mãos de estranhos.

Pouco depois, um residente veio fazer-lhe uma série de perguntas. Cinco

minutos após, Eric e Diana estavam ao seu lado, no corredor. Ela acordara no

momento em que ouvira as perguntas de Eric a Robert, e insistiu em vir ao

hospital com o marido. Ambos usavam jeans e capas de chuva, os rostos

desesperadamente apreensivos. Mas Eric, ao menos calmo na aparência, sabia

fazer as perguntas certas. Entrou na unidade cardíaca, deixando Robert com

Diana. Ao voltar, era óbvio não ter boas notícias.

— Ela está fibrilando novamente. Está travando uma batalha muito séria.

Era, aparentemente, a segunda vez que o coração de Anne parava desde que

fora trazida para a unidade. O cardiologista residente falara a Eric que não

gostara de como estavam seus sinais vitais. Ela quase se fora, quando a

trouxeram.

— Quando isto começou? — perguntou Eric a Robert.

Diana apertava a mão do amigo, e Eric pôs um braço ao redor dele. Robert

chorava muito, enquanto lhes contava o que acontecera.

— Não sei. Acordei às quatro. Estava tossindo, e, por causa do que ouvia,

achei que estivesse vomitando. Esperei alguns minutos e, então, ela se calou.

Quando entrei, já estava inconsciente.

— Sentiu dores no peito quando chegaram em casa, ontem à noite?

Ao perguntar, Eric franziu as sobrancelhas; não era, agora, uma pergunta

importante. Quando começara, o acesso fora forte, e o cardiologista duvidava

claramente que ela sobrevivesse. A situação não parecia boa.

— Só estava cansada, mas, fora isso, parecia bem. Falou sobre a casa no sul

da França, e combinou que iríamos amanhã ao cinema.

A cabeça de Robert girava. Baixou o olhar para Diana do alto de sua

estatura, mas parecia quase não vê-la. Estava abalado com tudo o que acabara

de acontecer.

— Preciso telefonar para os meninos, não? Mas detesto apavorá-los.

— Eu telefono para eles — respondeu Diana, calma. — Você se lembra

dos números dos telefones?

Robert lhes deu uma lista, quando Diana foi telefonar, deixou Robert com

Eric. Ela os conhecia muito bem para lhes dar más notícias.

— Ó meu Deus — murmurou Robert, quando Eric o forçou a se sentar.

— E se...?

— Espere. As pessoas sobrevivem a coisas deste tipo. Tente ficar calmo.

Não vai ajudar se você desabar ou adoecer. Anne precisará que você seja forte,

Robert.

— Preciso dela — respondeu ele, a voz estrangulada. — Não conseguiria

viver sem ela.

Eric, em silêncio, parecia rezar. Conseguia apenas imaginar como um fora

devotado ao outro e como haviam sido felizes durante quase quarenta anos.

Algumas vezes, como todos que viveram bem juntos por tanto tempo,

pareciam duas metades de uma mesma pessoa.

— Você tem de esperar — aconselhou Eric, ficando bem perto de Robert,

afagando-lhe os ombros.

Diana os reencontrou. Conseguira falar com os três filhos de Anne e

Robert, e todos disseram que viriam imediatamente. Dois moravam no Lado

Leste Superior, e a filha Amanda vivia no SoHo, mas, a essa hora, seria fácil

pegar táxis. Agora, eram cinco da manhã. Havia quase uma hora que Robert

encontrara Anne e começara o pesadelo.

— Vão me deixar vê-la? — perguntou Robert, a voz temerosa.

Nunca se sentira tão fraco, tão incapaz de qualquer coisa. Para todos os

efeitos, com Anne, sempre se achara um homem forte, mas, sem ela, sentiu que

seu mundo, sua vida, caíra, desmoronara ao redor; só conseguia pensar nela,

caída no chão do banheiro, pálida e inconsciente.

— Deixarão você vê-la, assim que puder — respondeu Eric, tranqüilizador.

— Estão fazendo o máximo que podem, e ainda há muito a fazer. Você, lá, só

vai tumultuar.

Robert assentiu e fechou os olhos. Diana se sentou no sofá, ao lado dele, e

lhe segurou a mão, apertando-a; rezava por Anne, mas não teria muito mais a

falar para Robert. Nem mesmo penteara os cabelos, antes de sair com Eric.

— Quero vê-la — atalhou Robert, desvairado.

Eric se ofereceu para ir lá dentro do CTI cardíaco e ver como ia Anne.

Mas, ao entrar lá, o que viu não foi muito animador. Haviam-na entubado,

estava com o respirador e havia meia dúzia de monitores apitando

furiosamente ao redor dela. Haviam posto um tubo intravenoso, toda a equipe

a atendia e o chefe berrava ordens a todos. Só de olhar, Eric sabia não haver

possibilidade de deixarem Robert vê-la, e, em um instante, achou também que

o amigo não deveria assistir a isso. Ficaria apavorado.

Quando Eric saiu dali e voltou a vê-lo, na sala de espera, ambos os filhos de

Robert haviam chegado, os rostos preocupados; Amanda chegara apenas alguns

minutos depois. Todos pareciam ter conversado com Anne nos últimos dias e

estavam atordoados. Anne, que sempre fora inteligente, saudável, ocupada e

totalmente comedida, agora, em um instante, jazia lutando por sua vida, e

todos ali se achavam impotentes para salvá-la. Amanda abraçou o irmão mais

moço e chorou, na sala de espera. O filho mais velho estava sentado ao lado de

Robert; Diana, do outro, ainda lhe segurava a mão. Mas, ali, enquanto

esperavam, nada podiam fazer.

Pouco depois das sete horas o cardiologista chefe veio dizer-lhes que Anne

tivera outro ataque cardíaco muito forte, sem recobrar a consciência; não

precisou dizer-lhes como a situação era grave, todos sabiam. Robert pôs o rosto

entre as mãos e chorou. Estava arrasado com o que acontecera, e não sentia

vergonha de demonstrar. Se amá-la pudesse trazê-la de volta, seu amor faria

isso.

Foi uma madrugada longa e cruel. Pouco depois das oito da manhã,

quando Diana voltava da cafeteria com uma bandeja de desjejum para todos, o

cardiologista voltou à sala de espera com expressão séria. Eric o viu primeiro e,

assim como Robert, sabia o que acontecera antes mesmo que o médico dissesse

qualquer coisa.

Robert, ali de pé, o olhava, como se quisesse, sem mesmo ouvi-lo, proteger-

se do que iria dizer.

— Não! — exclamou, como se recusasse a acreditar no que ainda não fora

dito. — Não. Não quero ouvir.

Parecia assustado, mas surpreendentemente forte, quase colérico. O olhar

era feroz e estranho a todos que o conheciam. Vê-lo era de cortar o coração.

— Lamento, Sr. Smith. A sua mulher não sobreviveu à segunda trombose

coronária. Fizemos tudo o que podíamos. Ela não recobrou a consciência.

Massageamos o seu coração... mas não respondeu. Sinto muito.

Robert ficou a olhá-lo fixamente, como se fosse desfalecer. Em um instante,

Amanda estava em seus braços; soluçava, incontrolável, a morte da mãe.

Ninguém conseguia acreditar no que acontecera. Parecia impossível. Apenas

horas antes Anne e Robert estiveram no jantar com os amigos, e agora ela se

fora. Robert não conseguia entender; sentia-se apático ao abraçar a filha e, ao

olhar por sobre o ombro dela, só conseguia ver Eric e Diana, chorando, e os

dois filhos abraçados, soluçando.

O médico lhe disse o mais delicadamente que ele teria de falar a alguém

para fazer os preparativos, e que, enquanto isso, Anne ficaria ali.

— Que preparativos? — perguntou ele, rouco.

— Vai precisar chamar uma casa funerária, Sr. Smith, e combinar tudo.

Sinto muito — repetiu ele.

Depois, voltou à escrivaninha no CTI para falar com as enfermeiras. Havia

formulários a preencher antes que saísse de folga. Robert e todos ficaram sem

saber o que fazer na sala de espera, enquanto outras pessoas começavam a

chegar. Eram, então, quase nove horas de uma manhã de sábado, e vinham

visitar outros parentes.

— Por que não voltamos à nossa casa, por um momento? — sugeriu Eric,

calmo, enxugando os olhos e abraçando Robert. — Podemos tomar café e

conversar.

Eric fez a sugestão, olhando Diana, que concordou com a cabeça.

Diana levava Amanda pelo braço, e Robert caminhava saindo da sala de

espera, com um filho de cada lado. Eric ia logo atrás deles. Caminhavam às

cegas pelo hospital até saírem na manhã de inverno. Após a chuva da noite

anterior, fazia um frio gelado e parecia que iria cair outro temporal. Mas

Robert nada via, ao entrar em um táxi com os filhos, estava surdo, mudo e

cego. Eric e Diana tomaram outro atrás deles e cinco minutos depois estavam

no apartamento dos Morrison.

Diana se movimentava rápida e calma na cozinha, fazendo café e torradas

para todos. Robert se sentou com os outros no living, parecendo acabrunhado.

— Não entendo — balbuciou, enquanto lhe punham à frente uma caneca

de café, na mesinha de centro. — Estava muito bem ontem à noite. Nós nos

divertimos muito, e a última coisa que disse antes de ir dormir foi que estava

na expectativa da casa na França, no verão que vem.

— Que casa na França? — quis saber Jeff, o filho mais velho, ainda

entorpecido.

— Alugamos uma casa em Saint-Tropez, com os Donnally e seus pais para

o próximo mês de agosto — explicou Eric. — Estávamos vendo as fotos dela,

ontem à noite. Sua mãe parecia bem. Agora, me lembro, parecia cansada e

pálida, mas todos os nova-iorquinos se sentem assim, no inverno. Eu não

consigo entender nada.

Eric agora estava irritado consigo mesmo, por não suspeitar de nada.

— Quando íamos para casa, perguntei-lhe se estava bem — explicou

Robert, pensando no que acontecera. — Parecia cansada, mas como sempre

trabalha muito, isso não parecia fora do comum. Hoje de manhã, ia dormir até

tarde.

E, agora, dormia para sempre. Robert experimentou uma crescente

sensação de pânico, ao perceber que não pedira para vê-la, mas admitiu que,

mais tarde, poderia ter pedido. Não conseguia pensar em nada, a não ser na

enorme perda que acabara de sofrer. E era como se, em sua cabeça, refizesse um

filme, que gostaria que terminasse de modo diferente. Se o assistisse

novamente, veria que Anne estava mais do que cansada e que ele poderia salvá-

la. Mas esse exercício de tortura que maquinara não tinha sentido, todos eles

sabiam disso.

Robert tomou apenas dois goles de café e não tocou na torrada que Diana

lhe preparara. Em verdade, não conseguia pensar em comer coisa alguma, e

tudo o que queria era vê-la e pegá-la.

— O que vamos fazer agora? — perguntou Amanda, assoando o nariz num

dos lenços de papel da caixa deixada discretamente por Diana em cima da

mesa.

Amanda tinha 25 anos e nunca sofrera uma perda como essa ou qualquer

outra. Para ela, a morte era totalmente desconhecida. Quando os avós morreram, era pequena demais para lembrar. Em toda a vida, nem mesmo

perdera um bichinho de estimação. E, para começar, esta agora era forte

demais.

— Posso cuidar disso para vocês — ofereceu-se Eric, terno. — Telefonarei

para Frank Campbell agora de manhã.

Frank Campbell era um agente funerário de renome que cuidara disso para

os nova-iorquinos durante anos, até mesmo de Judy Garland.

— Tem idéia do que quer fazer, Robert? Quer cremá-la?

A pergunta o deixou arrasado. Não queria que Anne fosse cremada, queria-

a viva novamente, no living dos Morrison, perguntando a todos eles por que

eram tão idiotas. Mas a cremação não era idiotice. Era insuportável,

impensável, intolerável para o marido e os filhos. Na verdade, os filhos estavam

agüentando melhor do que ele.

— Posso fazer alguma coisa para ajudar, papai? — ofereceu-se Jeff, calmo.

O irmão mais jovem, Mike, mostrou-se à altura da ocasião. Ambos haviam

telefonado para as mulheres e lhes deram a notícia. Poucos minutos depois,

Diana foi telefonar para Pascale e John. Ambos ficaram estupefatos quando

lhes contou que Anne morrera naquela manhã. A princípio, não conseguiram

entender.

— Anne? Mas estava bem ontem à noite — Pascale insistiu, como todos

haviam feito. — Não posso acreditar... O que aconteceu?

Diana lhe contou tudo o que sabia. Pascale chorou ao contar a John, que

lia o jornal. Meia hora depois, também chegaram à casa dos Morrison. Foi

depois da uma da tarde que Robert finalmente voltou ao apartamento para

vestir-se. E, ao ver as luzes acesas, as toalhas jogadas no chão do banheiro, que

ele havia posto ali para cobri-la e aquecê-la, mais uma vez desatou a soluçar

convulsivamente. Ao deitar-se na cama, sentia no travesseiro o perfume de

Anne. Não conseguia agüentar.

Eric, de tarde, foi com ele à casa de Campbell, e o ajudou a suportar o que

a situação exigia dele: tomar decisões, encomendar flores, escolher o caixão.

Preferiu um elegante, de mogno, com o interior em veludo branco. Tudo

aquilo era um pesadelo, e lhe disseram que, depois, poderia ver a mulher,

quando o corpo fosse transportado do hospital. E, ao vê-la, com Diana perto,

chorou muito. Chegou perto do corpo inanimado de Anne, Diana a observá-

lo, e chorou em silêncio. Nessa noite, foi jantar com os netos na casa de Jeff.

Jeff e a mulher insistiram em que passasse a noite com eles, e isso o acalmou.

Amanda ficou com Mike e a mulher, Susan, no apartamento deles. Como

ninguém quisesse permanecer sozinho, se sentiam gratos por isso.

Os Donnally e os Morrison, ainda sem conseguir acreditar no que

acontecera, jantaram juntos nessa noite. Na anterior, Anne estivera com eles, e

agora se fora, deixando Robert muito confuso.

— Detesto pensar em algo tão fora de propósito em tais circunstâncias —

avisou Diana, prudente.

Todos mal tocaram nos pratos de comida chinesa pedidos em casa.

Ninguém sentia fome.

Na casa de Jeff, Robert também não sentia fome. Não tocava em comida

desde a noite anterior e não queria tocar.

— Estava pensando no que vamos fazer com a casa em Saint-Tropez —

continuou Diana.

John parecia mais soturno que os outros:

— Já que você está sendo fora de propósito, também vou ser. A casa é

muito cara, dividida por dois e não por três. Não podemos ir — afirmou ele,

firme.

Pascale olhou o marido, constrangida.

— Agora não vamos pensar nesse assunto — respondeu ela, em um

sussurro.

— Por que não? Ainda não confirmamos que a alugaríamos.

Todos haviam concordado em mandar, na segunda, um fax do escritório de

Anne.

— Sim, ainda não confirmamos — respondeu Pascale, parecendo

envergonhada.

— O que isso quer dizer? — John olhava para ela, confuso.

— É uma casa ótima. Tenho medo de que alguém a alugue, então pedi a

minha mãe que fizesse um depósito assim que o agente me telefonasse. Tinha

certeza de que todos gostaríamos da casa.

— Ótimo — respondeu John, entredentes. — Sua mãe não nos paga nem

um tubo de creme dental, a não ser que lhe mandemos o dinheiro. E, de

repente, ela faz depósitos para a casa? Antes que concordemos com isso?

John parecia inflexível com Pascale, incapaz de acreditar no que a mulher

lhe dizia.

— Eu lhe disse que a reembolsaríamos — explicou Pascale, suave,

parecendo desculpar-se com o marido.

A casa, no entanto, parecia um pouco melhor do que o agente garantira, e

todos haviam gostado das fotos, e Pascale não errara.

— Diga-lhe que o dinheiro lhe será reembolsado — replicou John, firme.

— Não posso. Não é reembolsável, explicaram isso antes que pagasse.

— Oh, pelo amor de Deus, Pascale, por que diabo você fez isso?

John estava furioso com a mulher, mas, era óbvio, muito mais transtornado

com a morte de Anne, e não sabia como se expressar.

— Você vai pagar tudo sozinha, com o seu dinheiro. Agora ninguém vai

querer ir lá, e Robert com certeza não vai sozinho, sem Anne. Acabou-se.

Esqueça a casa.

— Talvez não — respondeu Diana, calma. — Vai ser daqui a seis meses e

meio. Talvez Robert esteja se sentindo bem melhor e vai fazer bem a ele sair para algum lugar que nunca viu, tendo todos nós como companhia a confortá-

lo. Acho que devemos fazer isso.

Eric a olhava, pensativo, e concordava com a cabeça.

— Você tem razão — Eric lhe reforçou a opinião.

Mas John não.

— E se ele não quiser ir? Nesse caso, teremos de pagar em duas cotas muito

caras. Eu não vou. E não vou pagar — John olhava, furioso.

— Então, eu pago — respondeu Pascale, olhando-o firme. — Você é tão

vulgar, John Donnally. Está utilizando isto como desculpa para não gastar

dinheiro. Vou pagar a nossa parte, e você pode ficar em casa ou visitar a sua

mãe em Boston.

— Desde quando ficou tão generosa? — ele quis saber, em um tom que a

deixou desconcertada.

Mas, como os outros, Pascale estava transtornada com a morte de Anne e

não com o marido.

— Acho que precisamos estar juntos, e Robert vai precisar de nós, mais do

que sempre — insistia Pascale.

O casal Morrison concordou com ela. Esperavam que John concordasse,

mas era muito obstinado.

— Não vou — insistia ele.

— Então, não vá. Nós quatro iremos — respondeu Pascale, calma,

sorrindo triste para Eric e Diana. — Vamos lhe mandar cartões-postais da

Riviera.

— Leve sua mãe.

— Talvez eu leve, sim — replicou Pascale.

E falou com todos:

— Então, tudo certo: vamos para Saint-Tropez, em agosto.

No momento, esse era o menor dos problemas, mas, de alguma forma,

tornava-se confortador pensar em algo mais agradável. Todos pensavam em

outro: a perda da querida amiga e em Robert. Não havia muito o que fazer por

ele, mas poderiam oferecer-lhe ajuda. No entanto, embora sentisse como

traição ir a Saint-Tropez sem Anne, Pascale declarou sentir que Anne teria

gostado de que todos fossem e levassem Robert.

— Será muito difícil convencê-lo a ir conosco — afirmou Diana, sensata

—, mas vamos ter muito tempo para conversar sobre isso. Vamos em frente e

alugar a casa. Discutiremos isso com ele mais tarde.

Pascale desconfiou de que John teria cedido também. Mas era muito triste

pensar nos cinco indo, sem Anne. Era inacreditável pensar que ela nunca mais

estaria com eles.

Os Donnally foram para casa um pouco depois. Telefonaram a Robert, que

estava na casa de Jeff, e lhe disseram o que pensavam. Robert, no entanto,

estava transtornado demais para falar com eles durante muito tempo. Pascale

ouviu que ele chorava. Chorara o dia inteiro, e ela queria que houvesse algo a

fazer por ele, mas não havia. Prometeu encontrá-lo na casa funerária no dia

seguinte, para verificar se tudo estava conforme fora pedido. O funeral fora

marcado para terça-feira. Robert pedira a Jeff que telefonasse aos sócios de

Anne, no escritório de advocacia. As noras telefonaram, comunicando, a longas

listas de pessoas, antes que o obituário saísse no dia seguinte, no domingo. O

próprio Robert o escrevera, e Mike o mandara para e New York Times, à

tarde.

Era incompreensível, Robert pensou, ao deitar-se, no quarto de hóspedes

no apartamento de Jeff e Elizabeth. Sentia-se totalmente desorientado de

desgosto e chorou, sem vontade de comer. Deitado, pensava que nunca, em

toda a sua vida, sentira-se tão arruinado e abandonado. Trinta e oito anos maravilhosos haviam terminado em um só instante. E Robert, sem sombra de

dúvida, estava absolutamente certo de que a vida também acabara.