Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Danielle Steel · Capítulo 13 de 15

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Pôr-do-sol em Saint-Tropez

Capítulo 10

 

Odia, no THALITA G, com Henry Adams e a mulher Cherie, foi mais divertido e mais fascinante do qualquer outro esperado ou sonhado pelos amigos de Robert. Henry foi encantador com todos; era tão lindo que Pascale e

Diana não conseguiam deixar de olhá-lo. Ficou muito excitado com a presença

de todos e fez tudo para que a tripulação agisse a contento. Escolheu as cabinas

para que mudassem as roupas; Cherie, Pascale e Diana logo se tornaram

amigas; a supermodelo das passarelas de Paris e Nova York passou a tarde

flertando com John. Ele parecia ter morrido e fora para o céu.

O almoço que lhes preparara foi excelente, e, depois, todos se deitaram ao

sol, confortavelmente. Quando terminou o dia, para Diana e Pascale, Gwen

ainda não era simpática, mas seus amigos astros de cinema eram. Diana

segredou a Pascale, ambas deitadas em confortáveis cadeiras de convés, que este

era o tipo de vida a que facilmente se acostumava; estavam abismadas de que

Gwen desejasse ficar com Robert, na villa caindo aos pedaços. Era óbvio que

ela era admirada por todos esses homens bonitos. Ao vê-la, fizeram muito

espalhafato; ela, no entanto, tratava a todos como irmãos ou amigos. Ficara

claro a todos o quanto Gwen se preocupava com Robert e ninguém mais —

para desapontamento de Diana e Pascale. Ela voltou sua atenção apenas a

Robert, viu que ele estava à vontade, contente e que a tratava bem. Se as duas mulheres tivessem sido amáveis, ficariam contentes. Mas, pelo menos, Eric e

John ficaram.

Nessa noite, jantaram no salão de refeições, o iate estava ancorado fora do

porto de Saint-Tropez, enquanto viam barcos a vela deslizar a caminho de casa.

Alguns barcos menores os rodeavam, só para admirar o enorme iate e ver quem

estava a bordo. E vários turistas e um casal de paparazzi bem-informado

tiravam fotos deles. Pareciam saber quem estava em cada iate na Riviera. E,

para eles, isso era uma excelente recompensa — com cinco astros a bordo,

bebendo champanhe e usando biquínis e sandálias de tiras de couro. Cherie

Adams fez topless a tarde toda, mas Gwen, cautelosa, usava a parte de cima do

biquíni. Sabia muito bem o que os tablóides sensacionalistas fariam com fotos

como essa.

Gwen e Robert pareciam felizes e descontraídos, sentados juntinhos um do

outro, cochichando ou rindo com os anfitriões, jogando cartas ou dados, ou

apertando as mãos, discretos, a olhar o mar Mediterrâneo ou perdidos nos

próprios pensamentos. De tempos em tempos, Pascale e Diana os olhavam;

Pascale teimava ao afirmar que Robert nunca se ajustaria, nem queria, a esse

tipo de vida. Era jet set demais para ele, especialmente quando se sabia da vida

simples que levara com Anne. Não eram esse tipo de gente, mas Robert com

certeza adorava e se sentia tão à vontade tanto conversando com Henry e os

outros dois grandes astros a bordo, ou com a mulher maravilhosa, quanto na

companhia dos velhos amigos que trouxera com ele.

Eric estava visivelmente impressionado com Cherie, bem como John, e ela

quase os deixou sem voz quando tirou a parte de cima do biquíni e continuou

a bater papo com eles. Era com certeza costume na França, mas nenhum dos

homens se preparara para o efeito que teria neles.

Na hora do jantar, todos estavam à vontade uns com os outros. Quando,

finalmente, o bote os levou de volta a Coup de Foudre, Diana afirmou se sentir como a Gata Borralheira ao ver criados se tranformarem em camundongos e o

coche em abóbora.

— Puxa! Que dia! — Pascale tinha o olhar vago, sonhadora.

Um membro da tripulação do Talitha G a ajudou a sair do bote para o

pequeno cais da villa. Todos os três atores a bordo haviam gostado muito dela,

e Pascale não queria ir embora. Mal conseguia esperar para contar à mãe os

nomes das pessoas e do iate onde estivera. Sentia-se como Rainha por um Dia.

— Ficou frustrado, é? — perguntou Eric a John,

Eric enchia duas taças de vinho para ao dois, na sala de estar da villa.

— É exatamente a vida que você leva — disse ele a Gwen.

Ele a adorava mais por não ser a estrela. Vê-la com os amigos foi

importante para eles. Mas Robert gostava disso, do fato de ela se sentir tão à

vontade com os amigos dele quanto com os dela — não era convencida. Ele

percebeu isso quando ambos se conheceram e o tempo só o confirmou.

Pela primeira vez, Pascale e Diana tinham pouco a falar, e o

comportamento parecia ter mudado ligeiramente. Não aceitaram Gwen de

forma alguma, só porque ela conhecia muitos astros de cinema, mas elas

precisavam admitir, pelo menos intimamente, que havia mais em Gwen do que

tinham suspeitado. Não havia como negar, Robert parecia muito feliz. As

amigas, porém, ainda sentiam uma necessidade irresistível de protegê-lo. Por

isso, sem tanta certeza, ambas estavam igualmente convencidas de que talvez

Gwen não pudesse ser tão encantadora e sincera como parecia. Mas, agora, era

mais difícil apontar nela um motivo pernicioso. Não havia realmente razão

para Gwen ficar na companhia de Robert, a menos que realmente se

preocupasse com ele.

À noite, Gwen e Robert foram à cidade para um drinque, no Gorilla Bar, e

pararam por uns minutos na discoteca. Ao voltarem para casa, ele a beijou

novamente como fizera antes e lhe agradeceu o dia maravilhoso que ela proporcionara a todos os amigos, ao apresentar-lhes os seus. Robert riu ao

lembrar-se de John ao ver Cherie fazer topless.

— Que amigos agradáveis, os seus — comentou ele.

Gwen assentiu, divertida. Parecia ainda mais jovem do que era.

— São muito divertidos, em pequenas doses.

Nesse dia, encontraram alguns bons amigos, porém muitos dos atores de

Hollywood não lhe agradavam. Com estes, a amizade era mais forte.

— Você precisa muito mais do que isso para tornar a vida interessante,

acho. E, se deixar, a vida vai honestamente estragar você.

Pelo menos aos olhos de Robert, não acontecera isso. Ele a admirava pelo

que era.

— Não está aborrecida com meus velhos amigos?

Se nada mais houvesse, eles eram muito mais velhos do que ela, e suas vidas

eram muito mais mundanas. Em particular a dele, pensava. Robert era bastante

sensato para ver-se como figura romântica. Gwen, no entanto, fizera muito

mais. Muito mais. Gwen jamais conhecera alguém que a impressionasse tanto,

alguém que admirasse tanto; já percebera, antes de vir a Saint-Tropez, que

estava apaixonada por Robert. E a grande novidade era que Robert parecia

corresponder aos sentimentos dela.

— Gosto de seus amigos — respondeu ela, à vontade, enquanto iam para

casa. — Não me parece que gostem tanto de mim, mas pode ser que mudem

de idéia. Para mim, querem ser leais a Anne. Pode ser que, com o tempo,

percebam que não desejo pisar em ninguém. Que apenas adoro estar com você.

Gwen lhe sorriu. Robert se inclinou novamente e a beijou.

— Me faz sentir sortudo — declarou ele.

Algumas vezes, Anne ainda o fazia lutar, pensava em como a amara, em

como a falecida mulher fora diferente de Gwen e em quantos anos

maravilhosos haviam passado juntos. Porém ela se fora, não importa o quanto ele lamentasse tal fato. E dizia a si mesmo que tinha o direito a ter alguém na

vida, mesmo que não fosse tão encantadora como Gwen. Robert não conseguia

pensar em Gwen querendo ficar ao lado dele por muito tempo. Se nada mais

houvesse, ele era 22 anos mais velho que ela. Gwen nunca parecera preocupada

com tal diferença.

— Sou uma pessoa de sorte — declarou ela, enquanto andavam de carro,

ao luar. — Você é inteligente, divertido, incrivelmente bonito e uma das

pessoas mais simpáticas que conheci.

Robert sorriu, tímido.

— Bebeu muito? — provocou ela.

Gwen riu e lhe pegou no braço. Corriam pela estrada que dava em Coup

de Foudre. Um momento depois, estacionavam o carro. Robert a abraçou e a

beijou. Depois, entraram na casa, de mãos dadas, tentando não fazer barulho

para não acordar ninguém, todos dormiam. Deixou-a diante do seu quarto,

com um beijo demorado. Foi para o seu quarto, parou e olhou a foto de Anne

que havia posto na mesa-de-cabeceira. Perguntava-se o que ela pensaria disso,

se o acharia um velho bobo ou se lhe desejaria o melhor. Robert não estava

totalmente certo. Nem mesmo sobre o que sentia. Mas, quando não refletia

muito, tinha de admitir, era mais feliz com Gwen do que acreditaria possível.

Nessa noite, ao ir para a cama, Robert ficou deitado, imaginando o que

Gwen estaria pensando e fazendo em seu quarto. Desejava ardentemente bater

à sua porta e beijá-la novamente, mas lhe faltou coragem, ainda temia fazer

algo mais do que um beijo. Sabia que se isso acontecesse, sentiria Anne a

observá-lo. E o que menos desejava fazer era ser desleal com uma ou outra.

Dormiu. Em sonho conturbado, viu Anne e Gwen andando abraçadas, em

um jardim, e os amigos lhe apontavam dedos acusadores, gritavam-lhe algo que

não conseguia entender. Foi um sonho perturbador, que o fez despertar por várias vezes. E quando voltava a dormir, sonhava com Amanda, que segurava

uma foto da mãe e o olhava, triste.

— Sinto muitas saudades dela — falava a filha, suave.

— Eu também — respondeu ele, chorando, no sonho.

Desta vez, ao despertar, o rosto estava molhado de lágrimas. Durante

muito tempo, ficou deitado na cama, pensando em Anne e, depois, em Gwen.

Ficou assustado ao ouvir uma batida à porta. Vestiu umas calças cáqui e

ficou surpreso de ver Gwen. Era cedo, e ainda não ouvira ninguém se levantar.

— Bom dia — começou Gwen, agradável. — Dormiu bem? Não sei por

quê, mas fiquei preocupada com você.

Estavam no corredor, cochichando, e Gwen estava linda em camisola e

robe brancos, os pés nus.

— Tive um sonho esquisito. Você e Anne andavam em um jardim.

Gwen pareceu amedrontada ao ouvi-lo.

— Que esquisito, também sonhei. Fiquei acordada por muito tempo,

durante a noite, pensando em você — atalhou ela, a olhá-lo.

Robert parecia elegante e sério, os cabelos despenteados.

— Também pensei em você. Talvez tenhamos nos visitado — murmurou

ele, baixinho, para que ninguém os ouvisse.

Robert adorava sentir Gwen pertinho, enquanto estava de pé junto a ele, a

sorrir-lhe.

— Vou tomar uma chuveirada e encontrar você no desjejum, daqui a dez

minutos.

Quando Robert apareceu, parecia impecável e perfeitamente barbeado, de

short e camiseta. Gwen vestia shortinho branco e um biquíni que era nada em

comparação com o último de Agathe: um sutiã de tule cor-de-rosa cheio de

pequeninos botões de rosa e a calcinha rosa-escuro. Ao entrar, Eric comentou

que ela parecia um de seus cãezinhos poodle. Todos adoravam esperar para ver o que ela usaria e como seria esquisito. Agathe nunca os desapontou, como nessa

manhã, enquanto batia papo antes de todos se levantarem. Era agradável passar

o tempo assim. Ao entrar na cozinha para o desjejum, todos também sorriram

abertamente. Agathe era mais engraçada que a televisão.

Assim que Diana entrou na sala, houve um telefonema para Eric. Era dos

Estados Unidos, e a telefonista avisou a Pascale que era pessoal. Eric franziu as

sobrancelhas e foi atender na sala ao lado. Isso não passou despercebido da

mulher. Ao voltar à cozinha, dez minutos mais tarde, ele parecia à vontade e

despreocupado. Diana o olhava com cara de poucos amigos.

— Uma de minhas sócias — explicou ele, descontraído, a todos.

Diana prestava atenção aos croissants e tomou um longo gole do café, como

se fosse uísque. Nos 32 anos de casados, nenhum dos sócios de Eric lhe

telefonara durante as férias. Diana sabia perfeitamente quem era. Pouco depois

do desjejum, ela o repreendeu por isso.

— Era Barbara, não?

A mulher com que ele tivera o romance. Eric ficou indeciso por um longo

momento e, depois, concordou com a cabeça. Não queria mentir para ela.

— Por que lhe telefonou?

— O que está pensando? — ele quis saber.

Eric parecia descontrolado. Estavam na sala de estar. Não queriam que os

outros os escutassem.

— Isso também não é fácil para ela.

— E se eu largar você, vai se casar com ela?

Diana, agora, estava de fato aborrecida. Queria saber se dariam um tempo

ao casamento para ver se haveria a separação definitiva ou se o casamento

terminara de fato, como Eric lhe dissera antes de saírem de Nova York.

— Claro que não. Diana, sou trinta anos mais velho do que ela. E isso não

é o principal. Eu amo você. Errei, fiz algo inacreditavelmente absurdo. Estava errado. Admiti isso. Agora, deixe isso morrer, pelo amor de Deus. Vamos deixar

tudo isso para trás e ir em frente.

— É fácil para você falar — continuou Diana, a olhá-lo com raiva.

Não conseguia se controlar. Fora traída e rejeitada. Agora sentia ter mil

anos de idade e não acreditava mais nele. Não deixava de pensar que era muito

mais velha, que podia ser a mãe da moça. Pela primeira vez na vida, sentia-se

velha e nada atraente para ele. Desde que estavam ali, Eric tentara fazer amor

com ela várias vezes, mas Diana o repelira. Não conseguia. Não sabia se

Barbara apareceria novamente.

— Não sei mais o que lhe dizer. Acho que vai levar muito tempo para você

acreditar novamente em mim.

Enquanto isso, sabia que precisava ser paciente e pagar por seus pecados,

mas não era fácil. Barbara pedia para ele voltar. Abusara da boa fé de sua

secretária, que sentiu pena dela. Eric lhe lembrara ser impossível e lhe pediu

que não telefonasse mais. Quando desligaram, Barbara chorava — e ele se

sentiu um monstro. No entanto, não podia falar isso com a mulher. Ambas o

odiavam. Era-lhe uma situação infeliz, mas reconhecia que fora culpa sua.

No exato momento em que Eric e Diana pararam de falar, Gwen entrou na

sala, parecendo feliz e calma. Sentiu-se embaraçada ao ver o olhar angustiado

no rosto do casal. Era fácil perceber que alguma coisa terrível lhes acontecia, e

ela não queria ser intrusa. Desde que chegara a Saint-Tropez, Diana parecia

não querer se reconciliar com Eric, embora ambos houvessem compartilhado

de muitos momentos agradáveis. Mas a verdade a perseguia, não importava

como Saint-Tropez fosse linda; como os jantares, agradáveis; como o lugar,

adorável; ele a traíra, e nada a faria esquecer. Por isso, na noite em que chegara,

dissera a Pascale pensar divorciar-se dele. Não conseguia mais imaginar-se

refazendo o casamento ou perdoando-o; com o telefonema, tudo lhe voltara à

cabeça, isso a fez lembrar a angústia por que ele a fizera passar.

— Sinto muito, não quis interromper vocês — lamentou Gwen, passando

rápido pelo aposento.

Logo depois, Robert passou também e parou para fazer uma pergunta a

Eric.

— Vai velejar conosco? — quis saber, sem perceber o olhar atormentado

nos rostos de ambos.

Pensou que fosse uma briga conjugal das menores para saber quem iria

nadar e quem iria fazer compras. Os Donnaly não haviam lhe falado sobre o

problema que os Morrison estavam enfrentando, e Robert o ignorava

totalmente.

— Claro — respondeu Eric, rápido, contente por sair da discussão que

estava tendo com Diana. — Vou vestir o calção.

— Diana, você também quer vir conosco? — Robert estendeu o convite a

ela.

Diana o recusou tão rápido quanto Eric aceitara.

— Pascale e eu vamos ao mercado — respondeu ela, saindo.

Pouco depois, encontrou John; saía do quarto de dormir, novamente, com

a maçaneta de bronze do banheiro na mão. Robert lhe fez a mesma pergunta.

John respondeu que ficaria mais um pouco na casa, para telefonar ao escritório.

Robert ficou entre surpreso e desapontado, ao ver que Gwen também

resolveu ficar em casa. Explicou que tinha dor de cabeça, mas, depois do olhar

que vira no rosto de Eric, pensou que os dois homens poderiam precisar de um

tempo juntos, sozinhos. Havia algumas cartas que desejava escrever. Robert a

beijou antes de sair com Eric, para pegar o barco a vela.

A casa estava muito sossegada, quando Gwen se sentou na sala de estar,

escrevendo anotações e cartões-postais. Conseguia ouvir John falando ao

telefone e perceber a fumaça do charuto levada pelo vento, que vinha da

cozinha em sua direção. Não se preocupou, adorava os trilados dos passarinhos no jardim. Apesar das imperfeições e da óbvia decadência, era um lugar calmo,

e Gwen se sentia feliz por ter vindo.

John parara de falar por muito tempo. Ao entrar na cozinha para preparar

outra xícara de café, Gwen viu o corpo caído sobre a mesa. Ele ainda tinha o

fone nas mãos, a linha parecia interrompida, o rosto de borco sobre os papéis.

Levou menos de uma fração de segundo para perceber o que acontecia e correu

até ele, sacudiu-o e lhe gritou o nome. O mais delicadamemente que pôde, fez

John se deitar no chão. Ele mal respirava e o pulso estava fraco. Gwen sabia

que não havia ninguém em casa para ajudá-la. Não tinha idéia de onde o casal

de franceses se metera; todos haviam saído — velejando ou no mercado. Estava

sozinha.

— John! John! — gritou ela, novamente.

Sacudiu-o com delicadeza. Viu que a respiração havia parado e o rosto

ficara acinzentado. Não tinha idéia do que lhe acontecera. Depois, como que à

procura de uma pista, olhou por cima da mesa. Havia uma travessa com

pequenas lingüiças cortadinhas. Súbito, Gwen se perguntava se ele se asfixiara

ou tivera um ataque cardíaco. A única coisa que pensava fazer era a manobra de

Heimlich. Estudara, havia anos, junto com a CPR, a ressuscitação

cardiorrespiratória, mas não tinha certeza de se lembrar de muita coisa. Nada

poderia fazer com ele deitado de costas no chão, inconsciente. John era um

homem de compleição forte e pesado. Ela, no entanto, tirou-o da cadeira onde

estava, para ficar no chão. Usou de todas as suas forças.

Gwen limpou com os dedos a boca de John, mas nada encontrou ali, e

depois lhe deu três sopros curtos, mas era óbvio que sua respiração estava

bloqueada. Era como soprar em um muro. Gwen estava sobre o corpo de John.

Utilizando ambas as mãos entrelaçadas, pressionou seu abdome e rezou.

Os lábios de John começaram a ficar azulados, e ali não podia ligar para

911. Gwen continuava a fazer respiração boca a boca e a rezar para que ele não morresse antes de ser socorrido. Seu desespero foi aumentando mais e mais e,

súbito, houve um estalo, ele soltou um horrível som de asfixia; e um pedaço de

lingüiça, como uma rolha de champanhe, pulou fora da boca de John e foi cair

no chão da cozinha, a quase dois metros de onde Gwen estava ajoelhada por

cima dele. Gwen o virou de lado; John logo vomitou, ficou deitado no chão a

ofegar, mas ao menos respirava. O pedaço de lingüiça preso na garganta quase

o matara. Vários minutos depois, John se virou de costas e ficou a olhá-la.

— Fiquei asfixiado — avisou ele, fraco.

— Sei. Como se sente agora? — Gwen parecia muito preocupada.

— Um pouco tonto — explicou ele, suave. — Fumava um charuto,

conversava e comi um desses pedaços de lingüiça. Fiquei entalado e não

conseguia emitir um som — acrescentou ele.

Lembrava-se de como se desesperara e ainda parecia apavorado. Tremia e

estava pálido.

— Não quer que leve você ao hospital? — ofereceu-se ela.

Gwen limpava os restos do desejejum de John, e depois limpou o rosto dele

com um pano úmido. Ele a olhava, grato.

— Obrigado, Gwen. Você me salvou a vida.

Era verdade, e ambos sabiam disso. Ele teria morrido em minutos, ou

sofrido algum dano permanente no cérebro, caso tivesse demorado mais algum

tempo para expelir o pedaço de lingüiça.

— Agora estou bem. Só preciso tomar um pouco de fôlego.

— Tem certeza? Talvez Eric possa dar uma olhada em você, quando voltar

do barco.

Gwen pegou o pedaço de lingüiça, talvez do tamanho de um pedaço de

rolha de vinho, e o guardou em um pano de prato para mostrar a Eric ou ao

hospital, se ele a deixasse levá-lo, o que não permitiria.

Gwen o ajudou a voltar à cadeira e lhe ofereceu um copo de água, que John

o bebeu aos golinhos. E, com alívio, Gwen viu que lhe voltara a cor do rosto.

Tão assustador quanto acontecera, terminara o perigo.

— Graças a Deus, você estava aqui — esclareceu John, grato. — Por que

não aconteceu quando todos estavam aqui?

John parecia normal, embora um tanto perturbado pelo que ocorrera.

Ficara abalado, sufocado e, depois, perdera a consciência. Tivera certeza de que

estava morrendo, no momento em que Gwen o encontrara.

— Pensei que talvez Eric quisesse falar a sós com Robert, e Pascale e Diana

também não pareceram querer que eu fosse com elas.

— Isso vai acabar — animou ele, afagando-lhe a mão. — Anne foi a

melhor amiga delas. É duro ver Robert com outra pessoa, mas a sorte dele é ter

você — acrescentou ele, honesto. — Todos temos sorte. Dê-nos uma

oportunidade, Gwen, vamos chegar lá.

John fora agradável com ela, desde o início, e Eric mudara o

comportamento. Mas as mulheres eram um pouco mais resistentes. O dia

passado no Talitha G ajudara, no entanto elas ainda se mantinham distantes de

Gwen, ao contrário de Robert, que já sabia o quanto ela era boa e o quanto

gostava dela.

Gwen e John ainda estavam sentados na cozinha, conversando, quando,

duas horas depois, Robert e Eric voltaram. Pouco depois, John tomara banho

de chuveiro, trocara a camisa e voltara para sentar-se com Gwen. Conversaram

sobre a vida, os amigos, as perdas e Robert. John julgava o mundo por ele e

queria apenas o melhor para ele, como todos.

— Você perdeu — avisou John, risonho, enquanto os amigos entravam na

sala.

Gwen percebera que ele não havia acendido um charuto desde que voltara

a si, ainda se sentia um tanto abalado e se sentia aliviado por ver Eric.

— Tentei me suicidar com um pedaço de carne de porco. É assim que se

faz aqui. Mas, como acontece com todos neste país, não deu certo. Na verdade,

Gwen salvou minha vida.

— Como é que foi? — Robert riu, ao ouvir isso.

Não tinha idéia do que John falava. Eric pareceu imediatamente sério.

Contara a Robert o que acontecia a ele e Diana. Por isso, Gwen não fora

velejar com eles, para que pudessem conversar à vontade. Era obviamente o

destino que a fizera não ir com eles. Se tivesse ido, ao voltarem, teriam

encontrado John na cozinha, morto.

— Estou falando sério — acrescentou John, parecendo agradecido a Gwen.

Contou-lhes o que ocorrera. Os dois amigos pareciam impressionados com

o que quase tinha acontecido.

— Guardei a lingüiça para lhes mostrar — informou Gwen, tranqüila.

Estendeu a Eric o pano de prato, para que visse.

Eric ficou horrorizado. Depois, deu-o de volta a John.

— Tem o tamanho certo para fechar a traquéia e matar você.

Olhou para Gwen e lhe agradeceu a presença de espírito e persistência.

— Da próxima vez, que tal comer pedaços menores? — perguntou Eric a

John.

Foi apanhar o estetoscópio que trouxera. A pressão sangüínea e cardíaca de

John pareciam bem; para prová-lo, acendeu um charuto. Foi quando Pascale e

Diana voltavam do mercado. Ao ver Eric e John, Pascale pareceu confusa com

o que acontecia na cozinha.

— Que passatempo andaram fazendo? — resmungou ela.

— Gwen se ofereceu para tirar a parte de cima do maiô. Eric estava

verificando o efeito que isso teria em mim — informou John, com um largo

sorriso.

Gwen não concordava. Pascale balançava a cabeça, desaprovando.

— Muito interessante — atalhou Pascale, pondo no chão as cestas.

Ao perceber que todos tinham a cara séria, perguntou:

— Aconteceu alguma coisa séria?

— John ficou sufocado com um pedaço de lingüiça — cortou Eric,

simples. — E a merda quase o matou. Gwen fez nele a manobra de Heimlich e

o salvou. É tudo em resumo.

Eric completou para impressionar Pascale com a seriedade do caso e o ato

de heroísmo de Gwen.

— Quando Gwen o encontrou, John estava insconsciente.

— Mon Dieu, mas como foi que isso aconteceu? — Pascale parecia

aterrorizada.

Olhava John, olhava grata para Gwen e abraçou o marido.

— Está bem? O que estava fazendo?

— Falando, fumando e comendo. Gwen é ótima. Sem ela, eu estaria em

um mato sem cachorro.

Pascale podia ver nos olhos do marido, apesar da confusão, que ele estivera

realmente apavorado. Sentia vontade de abraçar Gwen apertado.

— Obrigada... Não sei o que dizer... obrigada.

Quando Gwen a abraçou também, Pascale se sentia muito emocionada. Ela

estava feliz, ali. Eles estavam felizes.

— Quando é o almoço? — atalhou John, com um largo sorriso.

Pascale revirava os olhos e gemia.

— Comprei boudin noir, mas nada de embutidos para você. Vou lhe dar

comida de bebê até que aprenda a comer corretamente.

John não discordou da mulher, abraçou-a e beijou-a. Foi como se lhe

tivessem concedido a dádiva da vida, inesperada e talvez imerecidamente. No

entanto, agradecia por isso.

Nesse dia, no almoço, o grupo estava animado. Todos, com boa disposição,

mesmo Eric e Diana. Era como se a mão do destino houvesse salvado a todos

de outra desgraça. John parecia particularmente feliz. Depois de tudo, ele e

Pascale subiram ao quarto para uma sesta. Eric pediu a Diana que fosse passear

com ele, o que deixou Robert e Gwen à vontade. Foram andar do lado de fora

da casa e ficaram no pequeno cais, apanhando sol. Gwen lhe contou tudo que

acontecera com John; Robert gesticulava, ouvindo; lembrava-se da noite em

que encontrara Anne, revivendo o pesadelo por que passara, sem nada falar a

Gwen.

— John teve uma tremenda sorte que você o tenha encontrado.

— Também acho — acrescentou ela, terna.

Gwen ainda estava um pouco apavorada com tudo o que acontecera.

Robert a olhou com assombrosa ternura.

— Estou feliz que você o tenha encontrado, Gwen. Não estou certo de

estar preparado para você ou de merecê-la. Mas tenho por você sentimentos

muito fortes.

Era uma maneira tímida de lhe dizer que estava apaixonado por ela, mas

Gwen também estava apaixonada por ele. E esse mês, juntos, no sul da França,

com os amigos dele, aproximava-os ainda mais.

— A vida é estranha, não? Nunca me ocorreu que perderia Anne. Sempre

pensei que eu morreria primeiro. Nunca pensei que haveria alguém mais em

minha vida. Eric estava me contando hoje algumas coisas muito perturbadoras

sobre ele e Diana. Exatamente quando você pensa ter uma coisa certa nas

mãos, ela se desintegra. E precisa começar do início. Então, quando pensa que

a vida terminou, ela começa novamente, e vou conseguir outra chance. Talvez

seja isso que faz a vida valer a pena ser vivida.

— Nunca pensei em outra vez encontrar alguém tão importante para mim

— concordou Gwen. — Pensei que tinha cometido muitos erros e esgotado todos os meus bilhetes. Mas talvez não — balbuciou ela, olhando-o.

Ficaram sentados por longo tempo, juntos, olhando a água. Ambos

contemplavam o passado e o futuro.

— Eu te amo, Gwen — declarou Robert, virando-se para vê-la. — Não

posso acreditar que eu seja a pessoa certa para você. Sou bem mais velho,

nossas vidas são muito diferentes. Mas, quem sabe, talvez seja esta a melhor

coisa que já aconteceu a nós dois.

Robert sorriu tranqüilo, enquanto a abraçava.

— Vamos ver o que acontece.

— Também te amo — sussurrou ela, olhando-o.

Robert a beijou. O sol luzia brilhante por cima de Saint-Tropez.