Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 9 de 23

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Quando a Vida Escolhe

Capítulo 9 · A partir daquele chá em casa de…

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CAPÍTULO 9

A partir daquele chá em casa de Luciana, Maria Helena permitia que a filha fosse visitar a professora, pelo menos uma vez por semana. E, era em casa de Egle, rodeada pela aprovação e o carinho das duas, que Maria Lúcia começou a encontrar a alegria de viver.

Ria, brincava, tocava piano, vestia os vestidos de Luciana, participava de jogos, entretendo-se agradavelmente. Todavia, ao retornar para a casa, invariavelmente, a moça voltava às suas roupas e assumia a antiga postura.

— É uma questão de tempo, papai, — afirmava Luciana a José Luiz, em

uma de suas visitas.

— Por que aqui ela mostra-se tão diferente?

— Não sei. Acredito que um dia ela entenderá que não precisa mais

esconder-se atrás de uma simulada indiferença. Maria Lúcia é muito diferente do que quer parecer. É moça inteligente, apaixonada, emotiva e sensível. Eu diria que sua sensibilidade étanta que percebe e sente muito mais do que diz.

— Isso me surpreende. Até João Henrique percebeu que ela está

diferente. Falou qualquer coisa com Maria Helena.

— Comigo também. Uma tarde, quando eu saía, encontrei-o no jardim.

Cumprimentou-me e disse-me atencioso:

— Pode conceder-me alguns minutos?

— Certamente — respondi.

— Gostaria de falar um pouco sobre Maria Lúcia. Seu método deve ser

muito bom. Está dando resultado.

— Por que diz isso?

- Porque ela conversou comigo, questionou, expôs idéias, considerações.

Nunca aconteceu antes. Surpreendeu-me muito. Confesso que duvidava do seu êxito. Não por sua culpa é claro, mas porque não acreditava que ela mudasse. Poderia explicar-me como procedeu?

— Não foi nada especial. Ela era insegura sentia-se incapaz, rejeitada,

preterida

— Em casa sempre teve toda atenção, conforto os melhores

professores nada lhe faltou da mesma forma que eu tive.

- Longe de mim a idéia de negar esse fato. O problema estava nela, na

maneira como ela olhava para o mundo, de como se posicionava frente aos outros. Fechou-se ainda mais e estabeleceu um círculo vicioso onde seu comportamento provocava mais insegurança e aumentava seu sentimento de rejeição.

— É estranho Como as pessoas são diferentes. Eu nasci dos mesmos

pais, fui criado igual a ela e não Sou assim.

- É verdade Deus é muito fértil e criativo.

Ele sorriu interessado

— Mas você, permite que a chame assim, está conseguindo romper o

círculo vicioso em que ela se envolveu.

— A receita é simples. Ela não enxergava as belezas da vida. A

Perfeição da natureza, a utilidade abençoada do próprio Corpo. Procurei mostrar-lhe isso. Dei-lhe afeto, O amor está muito ligado ao sentimento de segurança Agora, estou tentando fazê-la perceber que tem tanta Capacidade de inteligência como qualquer pessoa.

— Acredita mesmo nisso?

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— Certamente Maria Lúcia é arguta e observadora. Pode crer que ainda se surpreenderá com ela. — Como vê, papai, eu já sabia disso.

— Você consegue milagres, João Henrique não é dado a conversas em casa. Fala mais com a mãe.

— Pois comigo ele tem se mostrado atencioso. Tem me procurado para conversar e sinto que ainda seremos amigos.

— Sobre o que ele COnversa? É sempre tão evasivo Comigo!

— Geralmente sobre Maria Lúcia. Problemas Psicológicos e de educação. É muito inteligente, Ainda ontem disse-me que tem procurado conversar Com Maria Lúcia, dar-lhe mais atenção e carinho. Senti que ele acredita mais no Que eu disse e deseja Cooperar.

— Você é mesmo uma feiticeira. Maria Lúcia a estima de verdade. Maria Helena também. Conhecendo-a como conheço, não esperava por isso.

— Está sendo injusto com ela. D. Maria Helena é pessoa boa e não é

difícil agradá-la.

Ele sorriu satisfeito.

— Você é bondosa. Sei como Maria Helena é exigente. Não se dobra

com facilidade.

— Teve rígida educação. Acha que mostrar seus sentimentos é sinal de

fraqueza. Para ela, a dignidade está em manter-se impassível; aconteça o que acontecer.

— Isso realmente acontece. Ela possui uma firmeza invejável. — Atrás da qual se protege, ocultando seus verdadeiros sentimentos. Ela

está longe de ser a mulher fria e dominadora que pretende ser.

— Como pode saber disso? Nunca notei.

— Ela controla-se muito bem. Mas eu sinto com a alma. Percebo que se

trata de mulher ardente e apaixonada.

José Luiz fitou-a com curiosidade:

— Já me disse isso. Custa-me crer.

Os olhos de Luciana brilhavam um pouco mais quando disse: — Se pressionar um pouco, perceberá logo. Toda aquela barreira cairá

por terra.

Ele ficou pensativo por alguns instantes. Depois disse com um pouco de

malícia.

— Por que está me dizendo isso? O que está tramando?

Luciana sorriu:

— Gostaria de vê-lo mais feliz.

José Luiz sacudiu a cabeça.

— A felicidade acabou para mim, no dia em que deixei sua mãe. Agora é muito tarde, só me resta viver para o arrependimento. Infelizmente não posso remediar o erro.

— Pai, você está optando pela infelicidade a cada minuto, espalhando-a à sua volta. Gostaria que percebesse isso.

Ele franziu o cenho, e seu rosto sombreou-se de tristeza.

— Acha que sou infeliz porque quero?

— Acho — respondeu ela com voz firme.

— Como pode dizer isso? Sou culpado, errei e reconheço esse erro. Mas ele agora não tem remédio. Ninguém poderá devolver-me Suzane e tudo o que passou.

— Concordo. O passado é irrecuperável. Mamãe vive em Outro mundo.

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Se ainda estivesse aqui, as coisas não mudariam em nada. Ela nunca aceitaria seu amor em prejuízo de sua família. Era uma mulher digna, que respeitava o direito dos outros.

— Quando a perdi, foi-se minha felicidade. Nunca mais voltará.

— Engano seu. Você escolheu mal e essa escolha não lhe deu a felicidade que gostaria. Optou pelo dinheiro, posição, poder, e realmente os obteve. Mas agora, a verdade arrancou o véu das suas ilusões e você percebeu que esses valores, embora desejáveis, não satisfazem sua ânsia de afeto. Contudo, ao que parece, o passado não lhe tem servido de lição para o presente e ainda continua cometendo outros enganos tão graves quanto o primeiro.

— Você me acusa? — disse ele com amargura. — Estou arrependido. Se fosse hoje, não teria deixado Suzane. A que enganos se refere?

Luciana aproximou-se segurando sua mão com carinho. Havia muita ternura em sua voz ao dizer:

— Perdoe-me, papai, se estou sendo dura. Mas é preciso que acorde para a vida. Não pode viver alimentando um erro passado e tornando-se cego a todas as alegrias que deveria estar usufruindo hoje.

— Engana-se. Minha vida é triste. Só você tem sido a luz que me trouxe um pouco de alegria.

— Por que teima em jogar fora a felicidade que tem em mãos? Por que se coloca nessa posição egoística e ilusória?

— Não compreendo por que diz estas coisas.

— Para que observe a verdade, Escolheu seu destino através de valores errados, casou-se sem amor, ama mamãe, sente saudades dela, mas está casado com uma culta e bela mulher, cheia de virtudes, que o ama com todas as forças do seu coração.

José Luiz assustou-se. Quis interrompê-la, porém não o fez. Havia algo em sua voz que o fazia lembrar-se de Suzane. Não sabia o porquê, sentia como se ela estivesse ali, a dizer-lhe aquelas palavras. Luciana prosseguiu: — Tem um filho maravilhoso, bonito de corpo e de alma, de inteligência brilhante. Amoroso, digno. Uma filha doce, bonita e inteligente que precisa apenas de amor para desabrochar, que o ama e respeita. O que lhe falta? Obteve na vida muito mais do que podia esperar das circunstâncias em que voluntariamente se envolveu. E o que faz você? Fecha-se no passado. Perde os momentos de vida familiar que poderiam ser de alegria e de amor.

José Luiz estava emocionado. Luciana calou-se, e ele tornou: — Você está enganada. Minha mulher não me ama, João Henrique não

se afina comigo e Maria Lúcia afasta-se. Jamais foi carinhosa comigo.

— A situação seria essa se você procedesse de forma diferente? Se

você tivesse procurado conhecer sua esposa como ela realmente é e se esforçado para chegar-se ao coração de seus filhos?

Inquieto, José Luiz passou a mão pelos cabelos.

— Confesso que eu nunca soube fazer isso.

— É preciso aprender. Você não pode permitir que um erro de mocidade transforme-se em infelicidade para o resto da vida. Não pode permitir que essa culpa o castigue e impeça de ver a verdade. Você é um homem bom, amoroso, inteligente, instruído, bonito, moço. É tempo de lutar pela conquista da felicidade. Ela é um estado de alma que precisamos aprender a cultivar dentro do nosso coração em todos os momentos da nossa vida. Não está fora de nós,

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na presença das pessoas, por mais que as amemos. Está dentro de nós, na plenitude da vida, quando colocamos nosso amor para fora, e enxergamos as coisas boas que possuímos. É bênção a ser conquistada. Ela flui de dentro para fora, e independe até das outras pessoas. Se você quer ser feliz, esqueça o erro passado, esqueça sua culpa, cultive as bênçãos do presente e perceberá que a felicidade sempre esteve a seu lado sem que a deixasse entrar.

— Não posso esquecer Suzane.

— Nem é preciso. Pode amá-la como sempre fez. Ela tem o seu lugar

em seu coração, mas ela seria infeliz onde se encontra, se soubesse que esse amor tem sido empecilho a que possa amar sua família como ela merece.

José Luiz sentiu-se preso de grande emoção. As palavras de Luciana

tocavam fundo seus sentimentos, e ele não conseguiu argumentar. Quando se acalmou um pouco, disse:

— Preciso pensar em tudo quanto me disse.

— Está certo, papai. Pense. Medite. Analise. Perceba o que lhe vai no coração. Seu amor por mamãe, o que sente por D. Maria Helena. Não posso crer que todos esses anos de vida em comum não tenham estabelecido laços de amizade e respeito entre ambos.

Ele olhou-a admirado:

— Você acredita que nós possamos ainda viver bem juntos?

— Por que não? Vocês formam uma famêlia maravilhosa. Cada um tem nobres qualidades. Precisam só aprender a viver juntos, percebendo o que valem.

José Luiz não se conteve. Levantou-se e beijou o rosto da filha.

— Quando vi você, compreendi que uma luz entrava em minha vida. Obrigado, minha filha. Sinto que algumas coisas mudaram dentro de mim. Estou mais animado, com desejo de melhorar.

Luciana sorriu acariciando o rosto dele ainda umedecido pelas lágrimas.

— Você merece ser feliz, — disse com doçura. — Tenho certeza de que encontrará seu caminho.

Conversaram mais um pouco e quando José Luiz saiu, muitos pensamentos novos fervilhavam em sua mente. Seria mesmo verdade? Maria Helena, atrás daquela frieza, encobriria uma paixão não correspondida? Lembrou-se da lua-de-mel. Apesar da educação rígida que recebera, tolhendo sua espontaneidade, ele muitas vezes a sentira vibrar correspondendo aos seus beijos, entregando-se ardorosamente.

Talvez Luciana estivesse certa. Talvez se ele houvesse mantido o entusiasmo dos primeiros tempos, ela tivesse se tornado uma boa companhia. E ele agora não estaria se sentindo tão só. Afinal, Suzane não voltaria nunca mais. Por que ele deveria privar-se do carinho e do amor de uma mulher? Suas aventuras passageiras eram fúteis e serviam apenas para acentuar o vazio ao seu redor. Por que estivera tão cego? Se era verdade que Maria Helena o amava, como deveria ter se sentido durante aqueles anos todos? Haveria tempo para recomeçar?

Não se sentia encorajado a cortejá-la. E se ela o repelisse? Tinha esse direito. Ele afastara-se da sua intimidade sem que houvesse um motivo plausível. Ela tivera motivos para sentir-se desprezada, diminuída. Apesar disso, mantivera postura digna e fiel. Realmente, também nisso Luciana estava certa. Maria Helena era uma extraordinária mulher. Mãe exemplar, esposa

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dedicada, cuidara sempre do lar com zelo e capricho.

Afinal, o que havia feito? Casara-se com ela pela sua posição, por interesse, enganara-a, fingira amá-la. Ela percebera isto. Ele tinha certeza. As vezes, Maria Helena deixava transparecer pontas de ressentimentos. Era natural. Ele merecia muito mais. Ela poderia ter se vingado, não ser para ele a esposa prestativa e eficiente que sempre fora. Entretanto, cuidava de tudo com dignidade. Tratava-o com gentileza, principalmente na frente dos outros, como se ele fosse o melhor dos maridos.

Sentiu-se arrasado. Como proceder? Precisava pensar mais, perceber melhor tudo quanto até aquela noite não havia conseguido enxergar.

E João Henrique? Teria compreendido que ele se casara por interesse? Seria essa a causa do seu ressentimento?

Chegou em casa imerso nesses pensamentos. Maria Helena já havia se recolhido. A casa estava às escuras. Foi para o seu quarto. Preparou-se para dormir, contudo, não conseguia conciliar o sono.

As palavras de Luciana voltavam-lhe à mente. O que havia feito de sua vida? O que estava fazendo em seu favor? Aceitara o irremediável como o criminoso que recebe o castigo. Vinte e cinco anos passaram e ele continuava punindo-se por um engano da mocidade, Por quê? Porque merecia. Trocara o amor pelo interesse. Sua consciência o reprovava acusando-o continuamente. Tinha-se em conta de um fraco que não merecia ser feliz. Aceitara o nunca mais como indispensável e durante todos aqueles anos carregara o peso do remorso e do mal sem remédio.

Se Suzane estivesse viva, se ela o houvesse aceitado, teria abandonado a família? Como teria ficado sua consciência?

Remexia-se no leito inquieto. Durante esse tempo, havia pensado que encontrar Suzane, viver com ela, teria sido sua felicidade suprema. Seria mesmo? Criar problemas para pessoas inocentes, teria lhe trazido a felicidade? Nunca como naquela hora José Luiz sentiu o amargor da derrota. Seu erro fora deixar Suzane e optar por outros interesses, mas, uma vez que o cometera, percebia que sua dignidade apontava-lhe o caminho adequado: tentar encontrar a felicidade com as pessoas que escolhera livremente, envolvendo-as em sua vida. Torná-las felizes, amá-las, poderia devolver-lhe um Pouco da dignidade que perdera. Para respeitar-se, acalmar sua consciência a única forma seria dedicar-se à sua esposa, que se casara com ele ignorando a verdade; e aos filhos a quem amava, era verdade, mas aos quais não dispensara atenção e carinhos suficientes, perdido ainda no passado que voluntariamente truncara, mergulhado na fantasia.

Como fora cego! Era verdade que amava Suzane, que sentia

dolorosamente sua falta, mas, era também verdade que ele poderia viver uma vida mais amena dando aos seus afeto e compreensão.

Pensou em Luciana. Tão moça! De onde lhe viriam idéias tão

amadurecidas? Como ela Conseguia enxergar coisas Que ele nunca percebera? Iria procurá-la para conversarem novamente sobre esses assuntos, O que mais ela teria notado? Maria Helena o amaria ainda? Duvidava disso. Em todo caso, naquele momento, seria muito bom se ele tivesse a seu lado alguém para abraçar, sentir-se amado e poder dar amor.

E se fosse no quarto dela? Não se lembrava quando a procurara pela

última vez. Teve ímpetos de levantar-se e ir. O orgulho o deteve. E se ela o repelisse? Tinha esse direito. Depois, o que lhe diria? Não. Não iria.

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Sentiu-se ainda mais só. Mas, em seu coração, estabeleceu o propósito

de mudar. No futuro, quem sabe? Se Maria Helena o amasse mesmo, ainda que fosse um Pouco, com o tempo, ele a poderia reconquistar Afinal, talvez já houvesse se castigado o bastante. Dali para frente, as coisas poderiam melhorar. Essa decisão fez-lhe bem. Sentiu-se mais calmo. Era madrugada lá quando finalmente conseguiu adormecer.

Depois que José Luiz saiu, Luciana ficou pensativa. Dissera-lhe Coisas

que tocaram profundamente seus sentimentos. Teria feito bem? Estaria preparado para conhecer a verdade? Doía-lhe vê-lo tão infeliz, tão distante da realidade, imerso no Passado, indiferente ao presente. Amava-o muito. Apreciava sua inteligência, sua generosidade, seu sorriso largo, sua sensibilidade, sua capacidade de amar. Desejava que ele percebesse que quando damos amor às pessoas, às coisas, à vida, expandimos nossa alma, alimentamos nOSSO espírito. Ela sentia essa necessidade dentro de si e quanto mais colocava esse sentimento em tudo quanto fazia, em tudo que estava à sua volta, mais felicidade sentia dentro do coração.

Amava o pai, desejava que ele desfrutasse da mesma felicidade, desse

estado de alegria interior.

Na penumbra silenciosa da sala, Luciana, encolhida na poltrona, olhos

fechados, sentiu-se bem. Sim. Fizera bem. Fora bom para ele ouvir o que lhe dissera.

Nesse momento, uma alegria imensa a invadiu. Acabara de ver o espírito

de Suzane aproximar-se. Trazia os olhos brilhantes e iluminados e um sorriso nos lábios. Aproximou-se de Luciana tocando-a levemente. A cabeça da moça, recostada nas costas da poltrona, pendeu para o lado. O espírito de Luciana deixou o corpo e abraçou Suzane maravilhada.

— Mãe! Que bom ver você!

Suzane, abraçada a ela, passou uma das mãos pelos seus cabelos com

carinho.

— Filha, Deus a abençoe. Vim buscá-la. Precisamos conversar.

— Estava com saudades. Faz tempo que não vem buscar-me.

— Você precisa viver sua vida, não tenho direito de perturbá-la.

— Cada visita sua é uma bênção que me dá forças e alegria. — Da última vez, eu disse que sua vida iria mudar. Que a ajudaria e,

também, que esperava que me auxiliasse. Hoje você sabe a que eu me referia.

— Ao meu pai. Tudo mudou quando nos encontramos. Ele tem sido muito

bom para mim.

— Eu sei. Você também tem sido boa para ele e para sua família. Tenho

procurado cooperar para que obtenha êxito nas tarefas a que se propôs.

— Várias vezes senti sua presença. Ainda nesta noite, foi você quem me

inspirou todas aquelas palavras.

— Tem razão. Obrigada por ter-me ajudado. Quero que saiba que

estamos unidos por fortes laços, todos nós, e que torná-los felizes melhorando suas vidas, harmonizando-os, estaremos cuidando da nossa própria felicidade.

- Sinto que há uma força muito grande unindo-nos. Por quê?

— Porque o passado fala muito forte dentro de nós. Quando for

oportuno, voltarei para contar-lhe tudo. Por agora, posso esclarecer que Maria Lúcia está muito melhor e isso alegra-me o Coração.

— Por que ela é tão diferente do irmão? Qual a causa da sua

insegurança?

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— Em vida passada ela esteve prisioneira dentro de um quarto durante

muitos anos, humilhada, doente e com o corpo coberto de feridas. As pessoas olhavam-na com repulsa.

— Pobre menina. Por iSSO esconde-se até hoje.

— Tudo já passou. Agora, ela pode ser feliz, Contudo a lembrança do

que foi ainda a perturba, mesmo sepultada em um novo corpo, esquecida,

— O que Posso fazer por ela?

— Dar-lhe amor, carinho como até aqui. Devolver-lhe o gosto de viver, a

alegria, a confiança e principalmente o amor por si mesma. Quando Conseguir isso, ela estará curada. Agora, preciso ir.

— Fale mais, conte-me o que aconteceu no passado. Por que estamos

juntos agora?

— Meu tempo acabou, Só posso dizer que quanto mais nos amarmos e

nos ajudarmos mutuamente, melhor será.

— Não vá ainda...

- É preciso. Sossegue seu coração. Um dia voltarei para contar-lhe a verdade. Porque eu e José Luiz não ficamos juntos e quais os compromissos que nos separam áinda. Deus a abençoe. Mesmo que você não possa estar comigo como agora, não se esqueça que estarei sempre a seu lado, quando houver necessidade. Diga a mamãe que a amo muito.

Suzane abraçou Luciana com amor, beijando-lhe a testa e com muito cuidado conduziu-a ao corpo adormecido.

Luciana abriu os olhos sentindo ainda na testa o beijo suave de sua mãe. Em seu peito, uma sensação intraduzível de alegria e amor. Suspirou feliz e com gratidão dirigiu seu pensamento a Deus em Comovida prece.