Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 14 de 23

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Quando a Vida Escolhe

Capítulo 14 · Maria Helena apanhou a xícara de chá…

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CAPÍTULO 14

Maria Helena apanhou a xícara de chá que Egle lhe estendia. — Beba, D. Maria Helena. Seu filho ficará bom, tudo vai passar. — O que teria acontecido? — indagou ela não escondendo a

preocupação.

— O médico acredita que ele tenha sofrido alguma emoção forte. Está

em choque. O calmante que lhe deu o fará dormir algumas horas e quando acordar, tudo terá passado.

Maria Helena colocou a xícara sobre a mesinha próxima e apanhando a

mão de Egle disse comovida:

— Nunca esquecerei o que estão fazendo por nós. Luciana tem sido o

anjo bom que transformou nossa casa. O que ela fez hoje foi inacreditável. Como podia saber onde ele estava?

— Há pessoas que possuem a faculdade de perceber além dos cinco

sentidos físicos.

Luciana tem sensibilidade.

— Nunca pensei que isso existisse. Agora sei. O que aconteceu foi um

verdadeiro milagre.

— Deus ajuda sempre. Seu filho é um moço bom. Maria Helena ainda estava trêmula. Apesar do médico haver dito que ele

parecia ter apenas um abalo nervoso e que logo estaria bem, ela sentia-se angustiada. Só se acalmaria quando o visse em seu estado normal. Fez menção de levantar-se e Egle pediu:

— Descanse um pouco. Tome mais chá. Far-lhe-á bem. João Henrique

dorme, Luciana e Maria Lúcia estão velando. Qualquer coisa nos avisarão. A senhora está muito nervosa. Procure recuperar-se.

Maria Helena obedeceu. Precisava ficar bem para cuidar do filho. — Tenho certeza de que aquela cantora lhe pregou uma peça. Vai ver

que viajou e sequer o avisou. Ele saiu ontem tão animado! Tenho certeza de que ignorava a partida dela.

— Pelo que sei, ele estava muito apaixonado.

— Obcecado, D. Egle. Só pensava nela. Tanto eu como José Luiz pressentimos que esse noivado não ia dar certo. Mas ele quis e com tal veemência que resolvemos contemporizar.

— Sábia decisão. A paixão tolda a razão. A vida sempre corrige nossos enganos, mas a desilusão é difícil de superar. João Henrique precisará de todo apoio e carinho.

— Por certo. Depois do que ela lhe fez, o rompimento será inevitável.

— O tempo cura todas as feridas. Um dia ele encontrará um amor de verdade e será feliz.

— Deus a ouça. É só o que eu peço, sua felicidade.

No quarto de João Henrique, enquanto ele dormia, as duas moças velavam, trocando idéias em voz baixa.

— O que terá acontecido? — conjeturou Maria Lúcia. —Papai disse que Antonieta viajou e ninguém sabe para onde. Suspeita-se que tenha deixado o Brasil. Ontem à noite saiu um vapor rumo à Europa. Ela pode ter seguido nele.

— Pobre João Henrique, que desilusão! — considerou Luciana. — Ele é louco por ela.

— Tem paixão. E agora, como vai ser?

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— Ele é um homem. Sofrerá, mas há de superar. Talvez tenha sido melhor assim. Um casamento com Antonieta não ia dar certo. Eles são muito diferentes. A separação seria inevitável.

A criada havia ido ao banheiro apanhar a roupa de João Henrique para lavar e apareceu no quarto com alguns objetos.

— Estavam nos bolsos — disse — colocando-os sobre a cômoda.

Maria Lúcia aproximou-se dizendo:

— Veja Luciana, há uma carta amarrotada. Vamos ver o que diz.

Luciana aproximou-se também.

— Pode nos esclarecer. Abra.

Maria Lúcia abriu e as duas leram: “João Henrique. Preciso partir. Embora goste de você, não consigo suportar a vida burguesa do Rio de Janeiro. Tenho necessidade dos aplausos, da platéia, dos amigos, do brilho, das noitadas alegres. Não sou a mulher que você sonha. Voltarei ao palco. Vou em busca de tudo que eu sempre amei. Perdoe-me e não me procure mais. É definitivo. Um dia encontrará outra que se contente em viver para o lar e para a família. Seja feliz. É o que eu desejo. Adeus. Antonieta. Ps. Não insista. Ninguém lhe dará meu endereço. Quero que seja assim”.

As duas olharam-se. Então fora isso. Ela o abandonara definitivamente. — Vamos mostrar a D. Maria Helena, — sugeriu Luciana. — Vá você. Eu fico ao lado dele.

Luciana pegou a carta, dirigiu-se a outra sala e aproximando-se de Maria

Helena estendeu-lhe o papel em silêncio. Ela leu e passou-o a Egle.

— Foi o que suspeitei. De certa maneira, foi melhor assim. Finalmente

ela se revelou. José Luiz previu isso.

— Ela foi sincera — reconheceu Egle. — Antes assim. — Sequer se deu conta do mal que fez a meu filho. Brincou com os

sentimentos dele. Nunca pretendeu abandonar a vida que levava.

Pelos olhos de Egle passou um brilho de emoção quando considerou: — Talvez estejamos sendo muito rigorosos com ela. João Henrique é um

belo homem, pode tê-la atraído realmente. Entretanto, as emoções do palco são muito fortes. Ao que sei, quem as experimenta, dificilmente consegue abster-se. Nota-se que ela ficou dividida entre o amor e a carreira. Optou por sua vocação artística.

— Porque não o amava o bastante — tornou Maria Helena. — Talvez. A paixão pelo palco foi maior. Seja como for, ela foi sincera. — Melhor assim, D. Egle. Dói-me vê-lo sofrendo deste jeito, mas se o

casamento se consumasse, se houvesse filhos, seria pior.

— Certamente.

— Luciana voltou ao quarto e sentou-se ao lado de Maria Lúcia, fazendo-

lhe companhia na vigília. José Luiz avisado, chegou pouco depois. Na sala, com Egle, Maria Helena contou-lhe tudo, emocionando-o. Maria Helena considerou:

— Coisas estranhas aconteceram hoje. Foi um verdadeiro milagre. A maneira como Luciana nos conduziu, encontrou o local onde João Henrique estava, foi impressionante. Ela fez isso com naturalidade, sem nervosismo ou como se alguém invisível a orientasse. Maria Lúcia nos contou que ela vê a alma de sua mãe, que a orienta e ajuda.

José Luiz lutou para reter as lágrimas.

— É verdade isso, D. Egle? Ela vê a mãe e conversa com ela?

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— Sim. Ela e a mãe tinham muita afinidade. Quando Suzane morreu,

Luciana estava com quatorze anos. Nos primeiros dias, chorava muito, sentia saudades. Até que um dia, ela lhe apareceu. Disse-lhe que estava bem e que não devia chorar. Prometeu-lhe visitá-la sempre. E tem cumprido sua promessa. Quando temos algum problema, ela sempre aparece.

— É extraordinário! — comentou Maria Helena — Nunca pensei que

fosse possível. E a senhora não se preocupou vendo-a às voltas com essas coisas?

— Fiquei atenta. Sei que a vida continua depois da morte do corpo, em

Outros mundos. Mas procurei certificar-me de que era mesmo Suzane.

— E obteve a confirmação? — indagou José Luiz, ansioso. — Sim. Inúmeras vezes, ela identificou-se dizendo coisas que Luciana

desconhecia e que só eu sabia. Algumas delas do passado, que nem ela, Suzane, soubera em vida.

— Não lhe pareceu uma coisa mórbida para uma jovem, relacionar-se

com a alma de sua mãe? — inquiriu Maria Helena.

Egle sorriu e sacudiu a cabeça negativamente.

— Essa relação nunca foi mórbida. Suzane é alegre e muito Sensata. O

fato dela estar vivendo em outro lugar não a modificou. Os senhores podem observar. Luciana é moça equilibrada, inteligente. A proximidade de Suzane só a ajudou. Acrescentou conhecimento, percepção, enriqueceu. Sua influência é saudável e nos transmite muita alegria e paz.

Maria Helena abriu a boca e fechou de novo, não encontrando palavras

para dizer. Foi José Luiz quem considerou:

— Uma vez, Luciana fez menção a isso, mas para ser franco não

acreditei.

— Agora, depois do que houve hoje, seria bom começar a pensar e

compreender o que Shakespeare já dizia há séculos: “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”. — respondeu Egle.

— É verdade — concordou José Luiz. — Diga-me, D. Egle, a senhora

também a vê?

— Infelizmente não. Adoraria. Mas, não tenho essa felicidade. — Apreciaria muito poder vê-la, conversar com ela —observando os

olhos de Maria Helena fixos nele, explicou — seria interessante. Gostaria de agradecer-lhe o que fez por João Henrique.

— Faça isso, Dr. José Luiz, ore por ela. Os espíritos percebem nossos

pensamentos.

Apesar dos acontecimentos, o ambiente da casa era tranqüilo. O moço

dormia ainda e as duas moças permaneciam velando. Só concordaram em jantar depois que os demais já o haviam feito, e Maria Helena com Egle as substituíram.

José Luiz, na sala, tinha um livro aberto entre as mãos, que fixava sem

ler. Seus pensamentos divagavam. As saudades de Suzane doíam. Recordava os velhos tempos e nunca seu amor por ela esteve tão presente. Ah! se ele pudesse vê-la por um instante que fosse! Seu sorriso lindo, seus olhos emotivos e belos! Abraçá-la de novo, ouvir-lhe a voz! Se pudesse dizer-lhe o quanto se arrependia das atitudes passadas, o quanto ainda a amava... Mas ele não merecia e pelo resto da vida arrastaria o remorso e o arrependimento.

Fundo suspiro escapou-se-lhe dos lábios.

— Não desanime. Procure amar as pessoas, torná-las felizes. É o melhor

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caminho para conquistar felicidade.

José Luiz abriu os olhos, e Luciana estava diante dele. — Por que me diz isso? — indagou ligeiramente surpreendido. — Não sei. ia passando e pediram para dar-lhe este recado.

Vendo que Maria Lúcia se demorava na copa e que Luciana estava só,

não se conteve:

— Foi Suzane!

— Foi.

José Luiz sentiu aumentar a emoção.

— Daria alguns anos de minha vida para vê-la ainda que por um

momento.

— Acalme-se. Ela sabe o que se passa dentro do seu coração. Procure entender seu recado. Ela só deseja a felicidade de todos.

Vendo Maria Lúcia aproximar-se, José Luiz disse com naturalidade:

— Deve ser emocionante poder prever as coisas e ver o que está oculto à maioria.

Luciana sorriu:

— É uma condição como outra qualquer.

Maria Lúcia abraçou Luciana com carinho:

— Ela é uma fada escondida. Só exibe seus poderes de vez em quando.

Todos riram e enquanto as duas moças voltavam ao quarto de João Henrique, José Luiz permaneceu pensativo.

Seria mesmo possível conversar com os que já morreram? Não estariam sendo vitimas de uma alucinação? A figura de Suzane acudiu forte em sua lembrança. A recordação foi tão viva que, de repente, ele sentiu uma onda de perfume no ar.

Imediatamente reconheceu: era dela!

— Suzane — pensou. — É você? Que saudade!

Enterrou a cabeça entre as mãos, deixando que as lágrimas corressem livremente. Jamais poderia esquecer. Se ela estava viva em outro mundo, se ela estava ali naquele instante, teria algum dia a chance de encontrá-la de novo? Também vou morrer — pensou.

— Irei para onde ela está?

Abriu os olhos e procurou controlar-se. E se alguém o surpreendesse em crise? Ninguém a não ser ele mesmo fora culpado pela sua dor. Devia agüentar sozinho as conseqüências dos seus enganos. Lembrou-se das palavras de Luciana:

— Não desanime. Procure amar as pessoas, torná-las felizes. É o melhor caminho para conquistar a felicidade.

Teria mesmo sido um recado de Suzane? Preocupar-se com ele, com sua felicidade, era bem típico da sua nobreza de alma. Como poderia ser feliz sem ela? Lembrou-se de seus filhos.

Amava-os. Quanto a Maria Helena, respeitava-a. Mas, amor, era outro sentimento. Não seria loucura continuar amando uma morta?

Ele estava vivo e ansiava por afeto.

Suspirou fundo e levantou-se. Maria Helena e Egle estavam diante dele.

— Desculpe — balbuciou contrafeito. — Não as vi chegar. Fiquei perturbado com o que aconteceu.

Egle aproximou-se sorrindo com suavidade.

João Henrique está bem — disse. Uma desilusão amorosa dói, mas

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passa. Ele é jovem. Vai refazer-se.

— Assim espero. — considerou Maria Helena.

José Luiz sacudiu a cabeça.

— Não sei... As vezes marcam pelo resto da vida.

Ele pensava em seu amor por Suzane. Egle não disse nada. Ela se lembrava que sua filha também nunca conseguira esquecer.

Era tarde da noite quando João Henrique acordou. Remexeu-se no leito

e apesar dos olhos abertos ainda parecia um pouco alheio.

Maria Helena aproximou-se solícita, fixando-o com amor. Estava só no

quarto. Egle e Luciana haviam se retirado e os demais dormiam. Ela recusara o oferecimento das duas moças para passarem a noite velando. Quando João Henrique despertasse, ela queria estar a seu lado, apoiá-lo e verificar a profundidade da ferida.

De repente, ele sentou-se no leito assustado.

— Mãe? O que aconteceu?

— Nada, meu filho. Está tudo bem. Você está em sua cama, e eu estou

aqui.

Ele passou a mão pela testa como querendo afastar um pensamento

ruim.

— Mãe! Então foi isso! Estava dormindo! Tive um pesadelo horrível.

Ainda bem que acordei. Que susto!

Maria Helena tentou ocultar a preocupação.

— Seja o que for, agora tudo passou.

Ele insistiu:

— Tive um pesadelo terrível. Sonhei que Antonieta havia partido, me

abandonado. Foi sonho, não foi? — indagou num misto de ansiedade e esperança.

Maria Helena não respondeu.

— Saí de casa feliz para vê-la. Mas quando cheguei lá, ela havia partido.

Resolvera voltar ao palco. Deixou-me uma carta de despedida. Mãe, responda, por favor! Diga que eu sonhei e que isso não aconteceu! Que a carta tão cruel não existe!

Maria Helena baixou os olhos sem coragem para falar.

— Por que não responde? Aconteceu mesmo? Ela me deixou? Foi verdade? A carta, onde está. Levantou-se e, embora atordoado ainda, tentou encontrá-la. Maria Helena tentou fazê-lo deitar-se novamente.

— Calma, meu filho.

— Eu quero a carta.

— Sei onde ela está. Só vou entregá-la se se acalmar. Deite-se. O

médico deu-lhe um calmante. Não está em condições de levantar-se.

— Está bem. Quero a carta.

— Acomode-se. Tente acalmar-se. Vamos, relaxe um pouco o corpo.

— Não estou doente. Quero a carta.

— Vou buscá-la. Estava no bolso de sua calça que foi para lavar. Maria Helena tirou-a da gaveta e entregou-a ao filho. Ele apanhou-a e

aproximou-a do abajur. Maria Helena apreensiva observava os ritos de dor e o nervosismo dele enquanto lia. Ao terminar, deixou-se cair na cama desalentado.

— Tudo acabado! — disse num sopro. — Ela não me quer mais! — Precisa compreender e aceitar. Ela escolheu livremente.

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— Ela disse que me amava! Como pôde esquecer tudo e partir para o

mundo da fantasia que é o palco?

— Ela é uma artista! O palco é a vida do artista!

— Mas eu dei-lhe todo meu amor! Ela parecia tão feliz! Maria Helena não

respondeu. Sabia que sequer seria ouvida.

Melhor deixá-lo desabafar a desilusão, o desapontamento. João Henrique sempre fora sensato, equilibrado. Com o tempo, refletiria melhor e acabaria por aceitar os fatos.

Com carinho alisou-lhe os cabelos enquanto ele extravasava seu

desgosto. Durante mais de uma hora, ele se lamentou, até que exausto, adormeceu. Maria Helena sentiu-se mais calma. Acomodou-se no sofá e pensou:

— Amanhã será outro dia. — Apesar da preocupação, no fundo sentia

alivio. Ficar livre de Antonieta fora Ótimo. Um dia seu filho encontraria uma boa moça, digna dele, e seria feliz. Pensando assim recostada nas almofadas adormeceu.

Nos dias que se seguiram, João Henrique não saiu do quarto. Caiu em grande depressão. Ninguém e nada conseguia interessá-lo. Maria Helena, José Luiz, Maria Lúcia tentaram fazê-lo deixar o quarto, sem êxito. Maria Helena comentou com o marido:

- Faz uma semana que ele não sai do quarto, mal toca nos alimentos e

permanece na cama, apático, triste, distante. Não é natural! Precisamos fazer alguma coisa! Desse jeito ele adoecerá de verdade.

- Tem razão -- concordou José Luiz. -- Já era para ter melhorado. — Devemos chamar o médico novamente?

José Luiz balançou a cabeça:

- Não vai adiantar. Ele vai receitar outro calmante e pronto. - Maria Lúcia e Luciana fizeram várias tentativas de interessá-lo em

algumas coisas, inutilmente. Parece que ele nem as vê.

José Luiz não pôde furtar-se a uma sensação de tristeza. Uma vez ouvira

um padre dizer que os filhos pagam pelos pecados dos pais. Antonieta causara a seu filho a mesma dor que ele provocara em Suzane. Seu sentimento de culpa apareceu mais forte, aumentando sua depressão. Teria que arcar com mais esse remorso?

Acabrunhado, José Luiz não teve ânimo para responder. Era inegável

que o problema do filho reavivava a ferida que ele trazia no coração. Se ao menos pudesse fazer algo para melhorar as coisas, sentir-se-ia mais confortado. A sensação da própria impotência o deprimia, a culpa sufocava-o. Não era justo que os outros sofressem pelo seu erro. Seu filho não merecia ser punido. Era um moço correto e idealista. A vida era cruel e vingativa!

Sentindo-se oprimido e triste, resolveu andar um pouco. Passava das

dez, mas ele sequer percebeu. Saiu a pé e caminhou durante algum tempo. Pensou em Suzane. Se fosse verdade que ela vivesse em outro mundo, talvez tivesse respostas às suas indagações.

Ela falava com Luciana, poderia falar com ele também. Sentia

necessidade de conforto, de esclarecimento de compreensão. Dirigiu-se à casa de Luciana, sem pensar no adiantado da hora. Apesar de já se terem recolhido, Egle recebeu-o com carinho.

— Desculpe incomodar — foi dizendo ele assim que ela abriu a porta. — Estou muito triste. Gostaria de conversar com Luciana.

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Egle fixando-lhe o rosto atormentado sugeriu.

— Entre. Sente-se. Vou chamá-la. Aceita uma xícara de chá enquanto

espera?

— Obrigado. O que eu quero é conversar. Quero saber de Suzane. Estou

desesperado.

— Acalme-se. Desesperar-se não o ajudará em nada. Venha. Vou servir-

lhe um chá, e Luciana virá num instante.

— José Luiz deixou-se cair em uma poltrona, e Egle dirigiu-se à cozinha.

Depois de alguns minutos, voltou com uma xícara fumegante que colocou nas mãos dele dizendo:

— Beba. Far-lhe-á bem. Vou avisar Luciana.

José Luiz começou a tomar o chá e sentiu um calor agradável no corpo.

A sala aconchegante, a atenção e a solicitude de Egle, deram-lhe de pronto agradável sensação de bem-estar.

Quando Luciana chegou, ele sentia-se mais calmo. Retribuiu o beijo que

ela lhe deu na face com carinho.

— Desculpe. Já é tarde. Estou muito triste hoje. Há pessoas como eu que

só causam dor e não merecem viver.

Luciana olhou-o surpreendida.

— Não diga isso! Por favor!

— É verdade. Sou o culpado de tudo. Meu filho está sofrendo por minha

culpa. Estou sendo punido!

— Não estou entendendo — murmurou Luciana, sentando-se no

banquinho em frente ao pai, segurando as mãos dele e olhando-o nos olhos, procurando sentir o que ele desejava expressar.

— Eu fiz Suzane sofrer. Eu a abandonei depois de havê-la iludido. Eu fui

muito pior do que Antonieta. Ela seguiu sua vocação, eu fiz isso por dinheiro, posição! Eu sou culpado. Meu filho está sendo castigado por minha culpa. Minha dor é maior porque feri um inocente. Eu deveria pagar, não ele! Isso é injusto.

Luciana fixou-o incrédula:

— Você acredita nisso mesmo? Acha que João Henrique está sendo

punido por sua culpa?

— Sim. Só pode ser isso. Ele é um moço bom, e nada fez para merecer. Eu, sim, estraguei a vida de várias pessoas, inclusive de sua mãe e a sua. Acha que posso suportar o peso da culpa depois disso?

Luciana balançou a cabeça negativamente.

— Isso não pode ser. Você, um homem inteligente, como pode pensar

dessa forma? Como pode ofender assim a bondade de Deus? Seu orgulho o cega a ponto de julgar-se o centro do universo?

José Luiz olhou-a surpreendido. A voz de Luciana era enérgica e firme.

Ele não encontrou palavras para responder. Ela prosseguiu:

— Por que é tão cruel consigo mesmo? Por que é tão rigoroso em seu

julgamento? Por que exige de si mesmo uma atitude que ainda não tem condições de assumir? Você é humano, e um ser humano é limitado, passível de erros. Errou e vai errar outras vezes ainda, isso é natural no estado de evolução em que nos encontramos. Embora desejando fazer o melhor, seria muita pretensão admitir que já possuímos a habilidade de acertar sempre. Você escolheu o que lhe pareceu melhor naquela ocasião. A vida não lhe ofereceu tudo ao mesmo tempo. Era uma coisa ou outra. Você queria as duas.

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Quis ludibriar a vida, pretendendo ir além do que ela lhe deu. Optou por uma, mas não desistiu da outra. A vida é livre. Não se deixa manipular. E você nunca se conformou com isso. Ficou frustrado. Se houvesse escolhido a outra opção, teria se conformado em não possuir a posição que hoje ocupa? Como aceitaria a viuvez? Não estaria se culpando por haver perdido o que tem hoje?

José Luiz olhou-a um pouco pálido.

Está sendo muito dura comigo.

Ela abanou a cabeça:

— Não. Estou tentando mostrar-lhe a verdade. Você ficou dividido a vida

inteira. Chorando um amor impossível, deixando passar a felicidade que a vida lhe ofereceu e está lhe oferecendo agora.

— Sinto-me deslocado. Amo Suzane. Ë ela que eu quero! — Não banque a criança caprichosa. Sabe que isso é impossível no

momento.

— Se ao menos João Henrique estivesse bem...

— Ele está. Cada pessoa atrai para si as experiências que necessita para desenvolver seus potenciais e alcançar a maturidade. O que aconteceu com ele nada tem a ver com seus problemas passados. Cada um é responsável pelo próprio destino. Atrai sempre de acordo com o que irradia. João Henrique estava iludido. Antonieta não era a mulher que ele imaginava. Tinha outros interesses. Após uma ilusão, a desilusão é fatal. A verdade aparece e recicla conceitos, idéias e até sentimentos. É da vida. Ninguém é culpado por isso. A maturidade do ser é objetivo da natureza. E ela se conquista dentro desse processo, na vivência, na experiência nem sempre agradável, porém adequada, perfeita. Deus não erra, por isso, tudo quanto ele faz está certo e é para o bem. — Antonieta de fato não era mulher para ele. Um dia, ele teria que descobrir. Ele está sofrendo. Dói-me vê-lo tão diferente do que sempre foi. Fiquei imaginando o que Suzane sofreu, abandonada, com um filho para nascer. Ë isso que torna aguda minha culpa!

— Isso já aconteceu e nada que fizer pode alterar esse fato. O tempo não volta. Contudo, eu já lhe disse, mamãe nunca amou outro homem, mas jamais foi triste. Aceitou com coragem o que a vida lhe ofereceu e procurou ser feliz com o que possuía. Cantava, sorria, distribuía amor e carinho onde quer que fosse. Jamais guardou mágoa ou ressentimentos. Compreendeu, aceitou. Posso garantir-lhe que fomos felizes apesar do que lhe aconteceu.

— Ela era uma mulher excepcional!

— Era uma mulher lúcida, inteligente. Tornava o momento presente sempre o mais importante. Fazia tudo com alegria. Não se lamentava, não se posicionava como vitima, nem procurava culpados para justificar o que lhe acontecera.

— Era uma mulher forte!

— Como qualquer pessoa.

— Eu sou um fraco.

— Não acredito na sua fraqueza. O que faz pensar assim é o excesso de auto-piedade. É o hábito de mimar-se querendo fugir à responsabilidade de viver. Por que se coloca como um ser incapaz, desprovido de energia, para tomar conta de sua própria vida? Por que se subestima? Você foi forte bastante para assumir sua ambição, seu desejo de ser socialmente um vencedor, agora, que experimentou essa satisfação e ela não lhe deu tudo quanto sua alma quer, por que se acovarda? A força que usou naquele tempo, ainda está ai

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dentro de você. É só direcioná-la para um objetivo que lhe dê mais alegria. Não existe fraqueza. Ninguém é fraco. É só medo de escolher novos objetivos e seguir adiante.

- Tudo acabou para mim depois que Suzane se foi.

- Se você escolhe ser infeliz, eu lamento. Se quisesse, tudo poderia ser diferente.

Luciana largou a mão dele que segurava entre as suas e levantou-se. Ele levantou-se por sua vez abraçando-a suavemente.

— Não me abandone. Sinto que preciso de você. Eu a quero muito.

Luciana olhou-o com olhos brilhantes de emoção.

- Eu também o quero muito, -- disse com doçura.

José Luiz apertou-a nos braços com carinho.

- Você fala como se eu fosse dono do mundo. Como se eu pudesse mudar as coisas, como se minha felicidade dependesse só de mim... Não é bem assim...

Ela afastou-se um pouco segurando seus braços e olhando-o nos olhos:

- Só é assim. Você é dono do seu pensamento, da forma como escolher acreditar, assim será.

— Não posso mudar os fatos passados.

— Não pode mesmo. Mas pode perceber que eles não existem mais e que será inútil revivê-los. A vida é como é, e ninguém conseguirá manipulá-la. Por isso, esquecer o que já foi, é uma escolha sábia e proveitosa.

- Como esquecer Suzane? O que fazer com a saudade?

— Esquecer o passado não significa esquecer as pessoas que amamos. Eu nunca a esqueci e também sinto saudade. Mas esquecer coisas desagradáveis, enganos, situações que já não podemos modificar é necessário. Por outro lado, como eu já lhe disse uma vez, enquanto se ilude e se emaranha no passado, sequer percebe o quanto poderia ser feliz agora, no momento presente.

— Você já me disse isso.

— É verdade. Gostaria que percebesse que a felicidade é conquista de cada minuto, na intimidade da nossa alma, sentindo-a em cada coisa, em cada instante, em todos os momentos de nossa vida. Fazer-se feliz é um poder do homem consciente, lúcido, que sabe perceber a grandeza e a beleza de cada instante para conservar esse estado de alma vivendo o presente. É buscar a alegria, a essência a luz, a dignidade, o amor. A vida nos oferece tudo isso, o tempo todo. É preciso irradiar, sentir, escolher, para Conquistar.

- Ouvindo-a dizer essas coisas, sinto-me encorajado. Gostaria de

acreditar.

Ela sorriu alegre:

- É só experimentar Este nosso encontro hoje é um momento feliz. - É verdade. Você tem o dom de acalmar e devolver-me a coragem de

viver.

- Para viver não é preciso coragem, só alegria. É ter olhos para enxergar

a verdade.

Continuaram conversando mais algum tempo e quando José Luiz se

despediu, sentia-se bem melhor. Luciana acompanhou-o até a varanda, e José Luiz abraçou-a beijando-lhe o rosto com carinho.

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- Obrigado, - disse. - Deus a abençoe.

Ela sorriu satisfeita e entrou em casa fechando a porta. José Luiz saiu,

entrou no carro e foi para casa. Nenhum dos dois percebeu que alguém observava a cena entre a surpresa e o rancor.

- Então é isso! Bem que eu suspeitei que havia algo para ela me

desprezar. Pudera! Ela já tem um amor. Há quanto tempo se encontrariam na calada da noite? E a avó? Com certeza encobria tudo. Ruminando sua decepção, Ulisses voltou para casa.

Por que não percebera antes? Lembrava-se agora que, sempre ao

referir-se a Luciana, os olhos de José Luiz brilhavam de maneira especial. Sempre a elogiava.

Pobre D. Maria Helena. Enganada despudoradamente Sorriu levemente.

Agora, de posse desse segredo, as coisas haveriam de mudar. Luciana não mais o recusaria. Claro que ele agora não precisaria chegar ao casamento. Sabia como conseguir o que queria.