Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 3 de 23

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Quando a Vida Escolhe

Capítulo 2 · Sentada ao piano, Maria Helena percorria as…

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CAPÍTULO 2

Sentada ao piano, Maria Helena percorria as teclas com os dedos ágeis, arrancando sons harmoniosos do instrumento que enchiam o ar da bela sala de estar. Sentia o coração apertado por um sentimento opressivo e sem remédio, que a enchia de desalento e de tristeza.

Nesses momentos, recorria à música, procurando extravasar com ela suas emoções, recalcadas e escondidas sob o verniz das conveniências.

Sentia-se muito só. Casara-se por amor. José Luiz representara para ela sua própria razão de viver. Seu riso franco e gentil, seus olhos verdes e emotivos, seus beijos quentes e delicados, sua elegância natural, seu porte altivo e seu jeito encantador, haviam-na conquistado desde o primeiro dia.

Educada de forma rígida e muito disciplinar, procurava ocultar seus sentimentos como se fosse vergonhoso amar, ou desejar ser amada. Porém, ele a cortejara, e ela sentira-se imensamente feliz. Casar-se com ele era tudo quanto podia aspirar. Foi com o coração cantando de alegria que deu o “sim” no dia do casamento e seus olhos encheram-se de lágrimas emocionadas de felicidade.

A gentileza, as atenções, a delicadeza do marido a tornaram mais feliz ainda, e Maria Helena deixara-se embalar nas asas do sonho, julgando haver conquistado o paraíso na Terra.

Aos poucos, entretanto, foi percebendo que o marido não demonstrava o mesmo interesse dos primeiros dias. Era natural, pensara ela. Ouvira contar, através de pessoas mais velhas e experientes, que no casamento, com o correr do tempo, a paixão inicial cede lugar à amizade bem comportada onde o amor acomoda-se ao cotidiano, amadurecendo. Mas, sua percepção de mulher apaixonada foi fazendo-a notar que, sob as atenções de homem educado, não havia o calor que ela gostaria.

Quando José Luiz se aproximava, Maria Helena sentia-se estremecer. Seu coração batia mais forte, desejosa de que ele a abraçasse e beijasse. Tremia ao pensar nisso, sentia uma onda de calor envolver seu corpo, porém, dominava-se, lutando contra a emoção, büscando não demonstrar o que lhe ia na alma, percebendo que José Luiz estava indiferente, parecendo não sentir nenhuma emoção com sua proximidade.

A mulher deve ser passiva, pensava ela. Deus nos livre que José Luiz viesse a perceber sua paixão escondida, seu amor descontrolado. Seria humilhante, indigno.

E ela continuava aparentando indiferença, esperando que ele demonstrasse seu amor, para poder aceitar seus carinhos e ainda assim, lutando para não aparecer diante dele, como uma mulher venal e loucamente apaixonada.

Aos poucos, Maria Helena foi vendo José Luiz distanciar-se dela, que engolia sua decepção, seu sofrimento, sufocava seus anseios e procurava mostrar-se indiferente. Todavia, se ela conseguia esse controle, seu coração aguardava com verdadeira ansiedade os dias em que José Luiz buscava seu quarto. Nessas ocasiões, tentava iludir-se sentindo seus beijos e seus carinhos, pensando que ele a amava mas que essa era a forma de amar no casamento, e que ela deveria contentar-se com isso, deixando suas ilusões de lado.

José Luiz era formal e não a deixava participar de sua vida interior. Muitas

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vezes, surpreendera-o com olhos perdidos na distância, ar tristonho e rosto contraído. Ela sentia que o marido sofria, desconfiava que ele tivesse um problema, mas, como ele nunca se abria, ela não dizia nada. Além disso, sempre que ela desejava chegar-se mais a ele, tentar maior intimidade, José Luiz esquivava-se educadamente.

Maria Helena sentira, pouco a pouco, aumentar a barreira que havia entre eles, e não sabia como modificar essa situação. Compreendeu, por fim, que o marido não a amava. Quando teria deixado de amá-la? Não sabia. Temia perguntar-se se ele a teria amado algum dia. Preferia acreditar que ele, satisfeitos seus desejos, acomodara-se ao casamento, como muitos casais que conhecia, restando apenas a convivência educada e natural, da tolerância mütua.

Apesar de entender tudo isso, de repetir-se esses conceitos, Maria Helena amava o marido. Sofria com seu abandono, sentia sua indiferença. Havia momentos em que desejava abraçá-lo, estar com ele, sentindo seus braços envolver seu corpo, descansando a cabeça em seu peito largo. Então, quando a solidão e o desejo a consumiam, sentava-se ao piano e tocava, tocava.

Deixava a emoção fluir com a música e depois, sentia-se melhor, mais serena, em condições de continuar mantendo sua aparente indiferença.

Às vezes, a curiosidade incomodava-a. O marido não a procurava há meses. Teria outras mulheres fora do lar? Essa dúvida atormentava-a e o ciúme a feria fundo. Sentia-se desprezada, recusada como mulher, depreciada e fechava-se ainda mais no orgulho, mostrando-se indiferente para que José Luiz jamais viesse a perceber sua dor.

Mas, o marido era muito discreto. Seu comportamento exemplar nunca a deixara notar nada, nenhum deslize. Será que ele estaria mantendo-se afastado todo esse tempo das mulheres? Ela duvidava, gostaria de perguntar a uma outra mulher mais experiente, porém, sentia vergonha. Jamais teria coragem de falar com alguém sobre sexo.

João Henrique era seu consolo, seu enlevo. Desde a mais tenra idade, ele havia demonstrado seu afeto por ela, preferindo-a a qualquer coisa. Os dois tinham grande afinidade. Gostavam das mesmas coisas e a sós com o filho, Maria Helena abria o coração, demonstrando seu afeto, dando largas aos sentimentos. Ele a compreendia. Há muito notara a frieza do pai e censurava-o por isso. Temperamento apaixonado, João Henrique cobria a mãe de beijos e agrados, como querendo suprir a indiferença paterna.

João Henrique não se preocupava muito com o pai. Desde pequeno sentia ciúmes da mãe, e ficava aliviado quando o pai afastava-se para poder livremente manifestar seu amor por ela. José Luiz era pai severo, embora procurasse ser justo. Exigia do filho obediência e respeito, tal qual ele mesmo fora educado. Percebia haver uma barreira entre ele e o filho, mas não conseguia entender o porquê. Algumas vezes, chegara a surpreender certa animosidade em seus olhos, certa aversão. Nessas horas, sentia remorsos. Pensava: “esse filho foi concebido sem amor. Como não amo sua mãe, ele não me ama”. Tentara aproximar-se mais dele, procurando interessar-se pelas coisas que ele gostava, porém, logo percebia que João Henrique fechava-se, rechaçando seu interesse.

José Luiz sentia-se culpado por haver enganado Maria Helena,

desposando-a, amando Suzane. Afastava-se do filho, aceitando sua recusa, ao

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mesmo tempo tentando dizer a si mesmo que João Henrique era seu filho e precisava amá-lo, compreendêlo, ser um bom pai.

Mas se José Luiz cumpria todos os seus deveres de pai, cuidando de sua educação, de sua saúde e até do seu futuro, a barreira existente entre os dois nunca pudera ser vencida.

Maria Helena suspirou procurando fixar sua atenção na música que executava. Se ao menos pudesse banir a tristeza!

Pensou na filha. Que aberração! Sempre fechada no quarto, de onde precisava ser tirada quase à força, conservando-se calada, cabisbaixa, apática e insignificante.

A principio, pensara em alguma doença, em debilidade mental, mas os médicos não haviam encontrado nada. Diagnosticaram timidez, sensibilidade excessiva, temperamento. Logo ela, tão forte e controlada, fora ter uma filha fraca e desequilibrada! Por que essas coisas lhe aconteciam? Sentia vontade de chorar, de morrer!

Ficou ali, tocando, tocando, sem parar. João Henrique entrou na sala, colocando as mãos em seus ombros e beijando-lhe os cabelos com carinho.

— Muito linda essa música, mas muito triste. Quase me fez chorar. Não prefere tocar algo mais alegre?

Maria Helena deixou cair as mãos ao longo do corpo. Depois, voltou-se abraçando-o calorosamente.

— Desculpe se o entristeci. Não tive intenção.

— Não gosto de vê-la triste. Fico triste também.

Maria Helena sorriu.

— Não estou triste — mentiu estendendo os lábios em um sorriso.

— Melhor assim. Há momentos, mamãe, que quando toca, sua música expressa enorme tristeza. Como se você estivesse de mal com o mundo.

— De certa forma, eu estou. Este mundo não é um lugar muito feliz.

— De fato. As injustiças, as doenças, a dor, a morte, nos entristecem. Mas de que adianta pensar nisso? Não tem remédio mesmo.

— Falemos de você.

— Não há nada a dizer.

— Como foi o seu dia?

— Muito bem. Aquele projeto que eu fiz foi destacado pelo professor que me permitiu descrevê-lo minuciosamente aos outros alunos. Ao final, recebi muitos aplausos e foi um sucesso.

Os olhos de Maria Helena brilharam orgulhosos. Seu filho seria um grande engenheiro.

— Gostaria de vê-lo. Não entendo dessas coisas, mas saberei apreciar se me explicar.

— Claro, mamãe. Não o tenho agora. Ficou com o professor que desejava estudá-lo melhor. Mas terei prazer em mostrá-lo a você. Tenho muitas idéias novas e sei que você com o seu bom gosto, poderá não só apreciar como até ajudar-me. Ainda hei de mudar a face da nossa cidade. Tantas belezas naturais e tão pouca preocupação com nossa arquitetura e até com a falta de higiene das ruas, o que é uma vergonha.

— Concordo plenamente — disse Maria Helena satisfeita.

— É preciso cuidar das nossas ruas, providenciar sua limpeza. Não se pode andar a pé sem o risco de mergulhar suas botinas na lama ou no excremento dos animais. Estamos no século vinte. Outros países da Europa

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têm suas ruas limpas, seus prédios bem construídos, bem cuidados. Por que não podemos fazer o mesmo?

— Na Europa as pessoas não atiram lixo nas ruas. Aqui, não só os serviçais ou os negros, mas até as pessoas da elite o fazem. Ë uma lástima.

— Pois eu vou lutar contra isso. Vou transformar esta cidade em civilizada. Você verá.

— Não vai ser fácil, mas creio que o fará. Você foi feito para comandar, sabe como fazer as coisas.

— Tenho você que me estimula.

— D. Maria Helena!

Maria Helena voltou-se.

— O que é, Amélia?

— É a menina, senhora.

— O que tem? — perguntou Maria Helena desgostosa.

— Hoje ainda não saiu do quarto. Não quis almoçar e ainda agora fui chamá-la ao lanche e recusou-se a abrir a porta. Fechou-se lá dentro.

Maria Helena levantou-se tentando conter a irritação.

— Ela me disse que não queria almoçar porque não estava bem do estômago. Teria piorado?

— Não sei, senhora. Não quis abrir a porta para mim. Ela pode estar mesmo doente. É melhor a senhora mesma ir ver.

Com um suspiro contrariado, Maria Helena dirigiu-se ao quarto da filha. Precisava ser paciente com ela, segundo dissera o médico, mas suas infantilidades tinham o condão de irritá-la. Bateu na porta dizendo com voz enérgica:

— Abra a porta, Maria Lúcia. Deixe-me entrar.

A porta abriu-se em seguida, e o rosto de Maria Lúcia surgiu. Maria Helena empurrou a porta e foi entrando.

— O que aconteceu? Você ainda de camisola em plena tarde? Está doente?

A menina baixou a cabeça e nada disse. Maria Helena continuou:

— Nem parece mulher. Tão desleixada. Olhe a desordem deste quarto, mais parece um pardieiro. Isso não pode continuar. Afinal, menina, está doente ou não, responda!

— Não — balbuciou ela, trêmula.

— Você não tinha dor de estômago pela manhã?

— Tinha, mas já passou.

— Então vista-se imediatamente e desça para tomar o lanche. E não se demore como sempre —. Dirigindo-se ao guarda-roupa, apanhou algumas peças: — Vista isso. Trate de arrumar-se. Odeio o relaxamento. Vamos, menina , não se demore, estarei esperando.

Com um suspiro inconformado Maria Helena deixou o quarto. Essa era uma cruz em sua vida. Que mal havia feito para merecer uma filha tão insignificante.

Maria Lúcia olhou com tristeza as peças de roupa que a mãe atirara sobre a cama. Sentiu impulso de rasgá-las. Conteve-se porém. Sentia vontade de gritar, de dizer que não ia vestir nada daquilo, que, queria ficar em seu quarto, onde podia dar vazão à sua fantasia, imaginar ser o que quisesse, onde não se ruborizava à toa e sempre sabia o que fazer.

Ela sonhava ser forte, bonita, ter personalidade. Na intimidade de seu

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quarto, era que ela imaginava-se reagindo, aparecendo diante de todos altiva, bela, dominadora; quando sua mãe, olhando-a com admiração apresentava-a aos amigos, falando nela com a mesma freqüência e com o mesmo ardor com que se referia a João Henrique.

Maria Lúcia, maquinalmente, apanhou as roupas sobre a cama e as vestiu. Não gostava daquelas peças. Achava-as horríveis.

Olhou-se no espelho e não gostou. Sentiu vergonha. Ela jamais seria bonita, elegante e segura como a mãe. Ela era feia, desajeitada, burra, insignificante. Penteou os cabelos e prendeu-os com uma fita. Olhou-se novamente e arrancou a fita. Esses enfeites ficavam bem em moças bonitas. Nela, estava ridículo. Fez a trança costumeira e prendeu-a na nuca com grampos.

Finalmente desceu. A mãe esperava-a na porta da copa. Olhou-a dos pés à cabeça, mas nada disse.

— Estou horrível — pensou Maria Lúcia sentindo-se mais desajeitada.

— Sente-se para tomar o seu lanche. Você já está adulta o suficiente para saber que precisa alimentar-se. Não vejo necessidade de D. Amélia precisar incomodar-se por causa dos seus caprichos. Cuidado com essa xícara, não vê que vai derrubála?

Maria Lúcia que sentara-se à mesa e esbarrara na xícara, tentou segurá-la e não conseguiu. Espatifou-se no chão. A moça levantou-se assustada. Seu rosto coloriu-se de intenso rubor.

— Viu o que você fez? — disse Maria Helena nervosa. — E não me olhe com essa cara de boba. Pelo amor de Deus! Até quando terei paciência com você?

Maria Lúcia tremia ruborizada e lutava para segurar as lágrimas que já afloravam começando a rolar em suas faces.

Maria Helena estava no limite de seus nervos:

— Chorar agora, não! Isso não. Vamos. Sente-se aí. Você vai tomar esse lanche de qualquer jeito. Amélia, providencie outra xícara. Ainda bem que essa não era do jogo. Para ela, nunca ponha nada do jogo, por favor! Isso. Essa está boa. Agora ponha o café com leite e coloque o pão com manteiga no prato. Agora, coma.

Maria Lúcia, sentada, tensa, lutando para dominar as lágrimas, mãos trêmulas, pegou a xícara e levou-a aos lábios. Estava muito envergonhada. Ela não servia para nada, era um empecilho para a mãe, um peso desagradável que se carrega a contragosto. Ela queria morrer. A mãe estava ali, esperando, e ela sorveu um gole de café com leite. Estava amargo como fel, mas ainda assim ela o engoliu.

— Coma o pão. Precisa alimentar-se.

Ela pegou o pão colocando um pedaço na boca. Não sentia nenhuma vontade, mas, mesmo assim, mastigou um pedaço.

Maria Helena deu-se por satisfeita.

— Amélia, fique aqui e se ela não comer tudo, avise-me. Estou exausta. Vou descansar um pouco.

Maria Lúcia não disse nada, lentamente continuou tomando o leite, comendo o pão, misturado ao gosto salgado das lágrimas que por mais que lutasse não conseguia evitar.

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CAPÍTULO 3

Nos dias que se sucederam, José Luiz voltou várias vezes à pequena casa do subúrbio para ver a filha.

Quanto mais conversavam, mais ele sentia crescer a admiração e o respeito por Luciana. A moça tinha caráter bem formado e idéias próprias. Foi com carinho que procurou uma casa para comprar. Desejava rodeá-la de luxo e conforto. Pretendia apagar qualquer ressentimento que a moça pudesse guardar do passado. Mostrar seu lado melhor, conquistar-lhe a admiração, a estima.

Tinha intenção de adquirir um palacete na Glória, mas Luciana recusou. Preferia casa mais simples. Recusou-se também a deixar de trabalhar. Era professora no colégio Santo Antônio. Gostava do seu trabalho e desejava continuar.

— Você não precisa — argumentou José Luiz, aborrecido. —Sou seu pai, vou cuidar de você como é de direito. Terá dinheiro suficiente para viver muito bem.

Luciana fixou no pai seus belos olhos luminosos dizendo com voz firme:

— O trabalho pode não ser só o dinheiro que se recebe por executá-lo. Pode ser alguma coisa a mais. Ensinar as crianças a enxergar a vida, mostrar-lhes as belezas do conhecimento, despertar seus espíritos para o bem, para a participação útil e ativa na sociedade, é uma satisfação que não tem preço, que escolhi voluntariamente e que não pretendo deixar.

José Luiz admirou-se. Para ele o trabalho sempre fora um fardo desagradável que se carrega unicamente em função dos proventos que ele dá.

— Mas agora você não precisa. Poderá ocupar-se em coisas mais interessantes. Ter seu tempo livre para fazer o que quiser.

Luciana sorriu alegre:

— Eu quero lecionar. Está claro que eu, como moça pobre, valorizo o dinheiro que recebo pelo meu trabalho. Porém, quando estou dentro da sala de aula, esqueço tudo. Diante daquelas crianças, vendo-as despertar para o conhecimento, mostrando-lhes a perfeição da natureza, a beleza da vida, ensinando-as a desenvolver todo o bem que guardam no coração, sinto-me muito feliz. Eu gosto de fazer isso. Não conseguiria viver na ociosidade, entre um sarau e outro, o salão de modas ou a vida social. A chance de viver é muito importante para que eu gaste meu tempo na inutilidade. Tudo se movimenta no Universo, gerando equilíbrio e progresso. Quero viver em harmonia com ele. O trabalho é para mim como o ar que eu respiro.

José Luiz olhava-a sem compreender.

— Nunca ouvi tais conceitos. Não está sendo muito severa consigo mesma, privando-se das alegrias a que tem direito?

— Você não entendeu o que eu disse. Minha alegria está também em meu trabalho. Ele não é um fardo, mas um prazer. Um prazer que toma parte do meu tempo, que não impedirá que eu tenha outras atividades. Entretanto eu não gosto de freqüentar certos meios onde a futilidade e os mexericos ditam regras e os preconceitos deturpam os valores verdadeiros e eternos do espírito. Gosto de fazer amigos, de conviver com as pessoas, de relacionar-me com elas, porém, seleciono os amigos, faço apenas o que eu gosto e o que me alegra o coração. Respeito quem pensa diferente, mas não aceito pressão do convencional, da obrigação social, da hipocrisia.

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— Se todos fossem como você, nossa sociedade se desagregaria. Seria o caos.

— Engana-se. As pessoas seriam mais leais, mais verdadeiras. Não arrastariam suas vidas com um sorriso nos lábios e a mágoa no coração, tentando fugir de si mesmas, afundando-se nos vícios, na mentira; sentindo-se a cada dia mais sós em seu meio social, mais infelizes e abandonadas, empobrecendo o coração, sentindo o vazio de uma vida sem objetivos nem amor.

José Luiz saiu da casa de Luciana pensativo. As palavras da filha faziam-no pensar em sua própria vida, tão cheia de sonhos, mas que se transformara exatamente em solidão, vazio, desencanto, amargura.

Ele era o homem de sociedade. Requisitado, convencional, fechando o coração para seus sentimentos verdadeiros, mascarando uma felicidade inexistente, carregando o peso do preconceito, lutando para que os outros não descobrissem seu desencanto, sua vida inútil e vazia, fazendo o papel do homem feliz, aparecendo diante dos outros como um vencedor, um forte, alguém que conseguiu conquistar a felicidade, despertando a inveja dos incapazes, a admiração dos fracos.

Sua vaidade satisfazia-se com isso, mas seu coração estava infeliz e a angústia que o cometia estava ficando mais difícil de suportar a cada dia. Apesar disso, ele não pensava em mudar. Não tinha coragem de enfrentar os preconceitos, nem de admitir que não era feliz. Sentia-se preso à situação que o sufocava, mas não queria fazer nada para modificá-la. Carregava o peso da culpa no coração, aceitando as conseqüências de seus atos passados como uma punição merecida da qual não tinha o direito de queixar-se.

Não compreendeu o ponto de vista de Luciana. Ela era inexperiente, sonhadora, pensou. Naturalmente mudaria de idéia quando já estivesse usufruindo de uma posição melhor, e o dinheiro lhe chegasse às mãos.

Ela lhe pedira para escolher a casa antes de comprá-la, e José Luiz concordou. Apesar de desejar comprar um luxuoso palacete, ele gostou da casa que Luciana escolheu. Era graciosa, bela, rodeada por lindo jardim em um bairro um pouco afastado. Entusiasmou-se vendo sua alegria, percorrendo os aposentos e idealizando a decoração.

José Luiz sentia-se feliz.

— Contrataremos um especialista para escolher o mobiliário.

Luciana colocou a mão no braço do pai dizendo com delicadeza:

— Gostaria de fazer isso eu mesma. Como um estranho poderia saber o que apreciamos? Vovó tem muito bom gosto, me ajudará. Só preciso saber de quanto dinheiro dispomos para isso.

José Luiz abanou a cabeça indeciso.

— Quero que a decoração seja a mais linda possível. Desejo que vocês vivam bem e com alegria. Acha que saberá fazer isso?

— Penso que sim.

— Vamos fazer o seguinte: quero que tudo seja da melhor qualidade: mobiliário, louças, cristais, roupas, etc. Você escolherá tudo. Porém, vou mandar madame Marie para auxiliá-la. Ela entende da qualidade dos fornecedores de tudo e providenciará para você. Quanto ao dinheiro, gaste o que quiser. O que eu quero é que tudo seja do melhor e o mais bonito.

Luciana abraçou-o emocionada.

— Não é preciso tanto. Eu seria feliz com menos.

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— Você merece o melhor e o terá.

José Luiz comprou a casa e levou Mme. Marie a Luciana e então começou para elas dias de intensa atividade. A casa foi pintada, mobiliada e José Luiz satisfeito reconheceu o bom gosto da filha.

Um mês depois, mudaram-se para lá. José Luiz contratara criados e pretendia comprar um carro, mas Luciana recusou.

— É demais. Teria que ter chofer e não há necessidade. Quando precisar, tomo um carro de aluguel. Chega já o que fez por nós. Tudo está maravilhoso.

Egle sentia-se feliz, vendo o carinho de José Luiz para com Luciana. Entusiasmara-se com o belíssimo piano que havia na sala, frente ao qual sentava-se todas as tardes e tocava velhas canções inglesas, recordando a pátria distante.

Vendera seu piano depois da morte da filha para poderem sobreviver. Luciana também gostava de tocar. Havia estudado desde criança. Sabia os clássicos, mas preferia as valsas, os lundus, os xotes e os tangos. Nenhuma delas tocava diante de José Luiz. Sentiam-se inibidas. Foi ele quem, uma tarde, sentado no sofá após o chá, costume que Egle conservava religiosamente, lembrou:

— Há aqui um piano. Lembro-me que a senhora tocava muito bem. Nunca esqueci aqueles tempos! Seu piano era lindo. Procurei um igual para comprar, mas não achei.

— Trouxe-o de minha terra. Era um tanto antigo, mas muito bom. Infelizmente tive que vendê-lo.

Pelos olhos da velha senhora passou um brilho de emoção.

— A senhora tocava lindas canções. Eu as adorava. Quer tocá-las para nós?

Egle dirigiu-se ao piano e com graça tocou várias canções. José Luiz, olhos marejados, sentia-se transportado ao passado, com Suzane a seu lado na pequena casa em São Paulo. Por que a perdera? Por quê?

Egle terminou uma canção, e Luciana, observando a tristeza no rosto do pai, disse alegre:

— Vovó, agora sou eu.

Imediatamente Egle levantou-se, e Luciana, sentando-se frente ao piano, começou a tocar um xote muito em voga.

Arrancado do seu mundo interior, olhou a filha admirado. Ela jamais dissera que tocava piano. Luciana não só tocava bem como cantava com voz agradável, sem ser empossada tão ao gosto da época. Graciosa, do xote passou à valsa, da valsa ao tango, que não cantou.

Ele estava deliciado. Quando ela parou, ele perguntou:

— Não toca clássicos?

Ela sorriu.

— Gosto de brincar ao piano, não sou uma virtuose. Gosto de cantar, traz alegria ao coração. Nunca faço isso diante dos outros. Quis alegrá-lo. Você estava triste.

— Mas estudou piano...

— Estudei. Quer ver?

Luciana tocou uma peça de Liszt razoavelmente bem. O pai ficou satisfeito.

— Você toca bem — disse ele — deveria dedicar-se mais aos clássicos.

— Por quê? Gosto deles, há páginas belíssimas. Mas aprecio também as

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canções em voga. Esta música, por exemplo, é uma delícia.

E a moça tocou um xote malicioso e alegre.

— Tem razão. Possui um jeito especial para essas músicas alegres. Faria muito sucesso em qualquer sarau.

— Deve ser o meu sangue plebeu. Sou do povo e gosto das coisas populares.

José Luiz riu divertido. A jovialidade alegre de Luciana fazia-lhe enorme bem. As horas que passava em casa da filha, passaram a ser os momentos mais felizes de sua vida. Lá, podia ser ele mesmo, sem fingimentos nem dissimulações. Dizer o que pensava, usufruir de uma atmosfera de paz, carinho, alegria, amor. Sentia-se querido, recebido com prazer, valorizado.

Também apreciava conversar com Luciana. Gostava de sua inteligência arguta, seu espírito alegre, sua maneira de enxergar a vida. Por isso, suas visitas eram cada vez mais assíduas, e ele sempre achava um jeito de passar por lá, ainda mesmo quando seus compromissos não lhe permitiam demorar.

Apesar da mudança que a presença de Luciana trouxera em sua vida, ele continuava cumprindo religiosamente suas obrigações sociais com a família.

Maria Helena sentia que o marido estava diferente. Havia um brilho novo em seus olhos, e havia momentos em que ele parecia haver remoçado. Estava menos irritado, mais paciente e mostrava-se algumas vezes distante, pensativo, absorto.

O que teria acontecido? Em casa, nada havia se modificado. Os problemas eram os mesmos. Havia guerra na Europa, mas os negócios iam bem, como sempre. O que estaria acontecendo?

Uma noite em que recebiam os amigos, Maria Helena ao piano executou brilhantemente uma música clássica. Quando terminou, José Luiz aproximou-se dela, dizendo com olhos brilhantes:

— Que beleza! Você é uma artista!

— Obrigada — respondeu ela, sentindo seu coração bater mais forte, tal a emoção. Seu marido jamais elogiara uma execução sua. Parecia-lhe que ele sequer prestava atenção quando tocava. Admirou-se.

José Luiz olhou a filha que sentada a um canto da sala parecia indiferente e só. Aproximou-se dela que vendo-o, levantou-se.

— Fica sentada.

Sentou-se a seu lado. Ela sentara-se novamente, na ponta da cadeira. Estava tensa. Seu pai quase nunca lhe dirigia a palavra, principalmente em público.

— Como vão seus estudos de piano? — perguntou.

A moça corou e baixou a cabeça, sem responder.

— Estou falando com você. Continua estudando piano, não é?

— Sim. — respondeu ela baixinho.

— O que você gosta de tocar?

— Eu toco o que a professora manda.

— Você gosta de tocar?

— Não muito.

— Por quê?

— Eu não sei tocar como mamãe. Nunca vou aprender. Ela nunca acha que está bom. Ela tem razão.. Eu não dou para a música.

— Você não gosta?

— Não sei. Tenho vergonha. Sei que vou errar as notas. Sempre erro

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alguma. Prefiro não tocar.

José Luiz olhou-a desanimado. Que diferença de Luciana, tão cheia de vida, sabendo sempre o que quer.

Levantou-se e olhou o filho. Conversava com alguns amigos. Naquele momento, tinha o rosto descontraído e alegre. Era um bonito moço. José Luiz aproximou-se.

Falavam sobre arquitetura, grande paixão de João Henrique. Vendo-o aproximar-se, pararam o assunto ao que José Luiz considerou:

— Por favor, continuem, também me interesso pela beleza da nossa cidade.

Eles retomaram a conversa, mas João Henrique mudara completamente sua expressão. Seu rosto tornara-se frio, ouvia calado as palavras dos demais e José Luiz, entristecido, depois de alguns minutos, afastou-se.

João Henrique não o aceitava. Por quê? Teria sido influenciado por Maria Helena?

Ele era muito afeiçoado a ela. Essa atitude do filho começava a incomodá-lo. Afinal, era seu único filho homem. Era inteligente, culto, por que se afastara tanto dele?

José Luiz preocupava-se com os filhos. O amor de Luciana, a felicidade que sentia a seu lado, despertara nele os sentimentos de pai. Durante aqueles anos, havia se voltado muito aos seus próprios problemas, jamais usufruíra das alegrias da paternidade. Teria sua indiferença os afastado de Si?

Olhou-os. Talvez já fosse muito tarde para tentar modificar as coisas.