Quando a Vida Escolhe
Capítulo 6 · Na semana seguinte, ao chegar para a…
54
CAPÍTULO 6
Na semana seguinte, ao chegar para a aula, Luciana, con pontualidade que fazia questão de manter, encontrou Maria Lúcia na postura de sempre. Contudo, percebeu que ela vestira um vestido cor-de-rosa. Aproximou-se dela beijando-a na face.
— Como vai? — indagou atenciosa.
— Bem — disse ela. — Você hoje demorou!
Luciana respondeu com naturalidade:
— Senti saudades de você. O tempo custou a passar. Hoje, vamos aproveitar bem nossa aula.
— Aqui nesta sala, tem muitas coisas que foram feitas pelas mãos. Enquanto esperava, fiquei contando.
— Assim não vale. Você vai ganhar. Eu ainda não observei nada!
Maria Lúcia sorriu e seus olhos brilharam. Num gesto carinhoso, Luciana passou a mão pela face da moça.
— Você tem covinhas encantadoras quando sorri. Já percebeu isso?
Maria Lúcia corou. Luciana fingiu não ver. Continuou:
— Nós, mulheres, precisamos descobrir nossos encantos para realçá-los..
— Você é muito bonita — disse Maria Lúcia.
Luciana passou o braço sobre os ombros dela.
— Faço o possível para parecer melhor. Não acredito em feiúra. A beleza está em todas as pessoas. É preciso cultivá-la.
Maria Lúcia abanou a cabeça negativamente.
— Não concorda?
Ela baixou a cabeça sem responder. Luciana não insistiu.
— Vamos nos sentar aqui, neste sofá, para nossa aula.
Maria Lúcia obedeceu e como Luciana não dissesse nada, levantou os olhos curiosa. Luciana detinha nas mãos uma pasta de couro.
— Você trouxe o livro?
— Trouxe.
Com calma tirou-o da pasta colocando esta sobre uma mesa lateral.
— Hoje eu estou em desvantagem. Você pensou no assunto, eu não, O que mais tem aqui feito pelas mãos?
Com certa ansiedade, Maria Lúcia começou a enumerá-las, e Luciana percebeu que a menina havia conseguido mais do que esperava. Sentiu-se feliz.
— Você viu tudo. Não deixou muita coisa para mim. Ganhou longe. — Tomou a mão de Maria Lúcia e continuou: — Sinta como nossas mãos são preciosas. Eu, às vezes, quando as movimento, agradeço a Deus por possui-las. Se eu quiser, poderei fazer muito mais coisas com elas. Não é uma beleza?
Maria Lúcia olhava suas mãos admirada.
— Há também os pés. — A outra olhou-a curiosa. — Acha que eles só servem para andar?
— É — fez Maria Lúcia. — Nunca olhei para eles.
— Sente-se aqui, perto de mim, vamos ver no livro. Abriu uma página onde havia uma sapatilha de balé.
— Você gosta de balé?
55
Ela deu de ombros.
— Não sei...
— Nunca foi ao teatro assistir a um balé?
— Nunca.
Luciana virou a página onde havia um quadro retratando uma bailarina.
— Essa foi uma das melhores bailarinas do mundo. Quando dançava, encantava pela graça, leveza e arte. Vendo-a em cena, as pessoas choravam de emoção tocadas pelo seu talento. Gostaria de conhecer sua história?
Os olhos de Maria Lúcia brilhavam quando respondeu:
— Sim.
Com voz suave e emocionada Luciana fez a narrativa que Maria Lúcia ouviu encantada.
Maria Helena estava curiosa. As duas moças estavam na sala de música, mas não se ouvia o piano. O que estariam fazendo? Não lhe passara despercebido que a filha mostrava interesse pelas aulas. Procurava dissimular, mas, ainda assim, notava-se que se impacientava pela chegada de Luciana.
Esperou e quando o horário da aula acabou, como as duas ainda permanecessem na sala, ela entrou.
As moças estavam sentadas lado a lado no sofá, o livro aberto no colo de
Luciana que falava animada. Olhos brilhantes, Maria Lúcia ouvia-a com muito interesse.
Maria Helena admirou-se vendo a expressão comovida da filha e o brilho
de seus olhos. Luciana interrompeu-se, vendo-a entrar.
— Pensei que a aula já houvesse terminado — disse. — Estou no fim, — esclareceu Luciana. — Permita-me terminar. — Claro, eu me retiro.
— Pode ficar, D. Maria Helena. Ela fez da arte a expressão dos seus
sentimentos. Conseguiu tocar a alma das pessoas, fazendo-as perceber a beleza que guardavam dentro de si. Quem a viu dançar um dia, nunca mais a esqueceu. Veja, Maria Lúcia, como os pés podem expressar a beleza, a alegria, a arte. Nesses dias vamos pensar como os nossos pés são importantes e merecem ser valorizados. Sem eles não poderíamos ir a parte alguma.
Maria Lúcia baixara o rosto na postura costumeira, aparentando
indiferença.
— Estão estudando arte? — disse Maria Helena.
— Estamos estudando a vida, a beleza e a manifestação da arte. — Ótimo, — considerou Maria Helena, satisfeita.
— Um grande artista é sempre um instrumento do belo e da elevação dos
sentimentos. Toca a nossa alma e nos aproxima de Deus.
Maria Helena olhou-a com admiração. Luciana falava com segurança,
desembaraço e naturalidade. Sentiu vontade de conversar mais com ela.
— Aceitaria ficar e tomar chá conosco?
Luciana balançou a cabeça num gesto gracioso.
— Teria muito gosto. Hoje, porém, não posso demorar-me. Um outro dia,
talvez, aceitarei com prazer.
Maria Lúcia, olhos baixos, não escondia a inquietação. Não parecia a
moça de momentos antes. Para Luciana, foi fácil perceber que a presença da mãe a constrangia e irritava.
Com naturalidade e calma, guardou o livro e aproximando-se de Maria
56
Helena disse com simplicidade:
— Boa tarde, D. Maria Helena. Obrigada pelo convite. — E voltando-se para Maria Lúcia:
— Até terça-feira. Aproveite bem seu tempo como da outra vez. Sua filha, D. Maria Helena, teve ótimo aproveitamento da nossa aula anterior. Foi melhor do que eu. É muito observadora e inteligente.
A moça corou, porém nada disse. Sentiu uma sensação nova envolvê-la. Acabara de ser elogiada.
Maria Helena não ocultou seu espanto. Estaria Luciana querendo agradá-la? O ar sério da moça não lhe permitia essa suposição.
— Acompanho-a até a porta — disse com amabilidade. Uma vez longe de Maria Lúcia, ela não se conteve:
— Você fez uma afirmativa surpreendente ainda há pouco. Parece-me por demais otimista. Estou ciente dos problemas de Maria Lúcia. A inteligência não é seu forte.
— Desculpe, mas não concordo. Maria Lúcia tem problemas, não nego, mas não é pobre de inteligência. Em alguns momentos tem se mostrado muito perspicaz; tenho testado sua capacidade e apesar do pouco convívio que tivemos, pude perceber que quando ela gosta do assunto, capta com facilidade. Estou observando e estabelecendo um plano para despertar nela a alegria de viver, Isso é o que lhe falta. A depressão em que vive, a impede de sentir entusiasmo, de perceber as coisas boas que poderia desfrutar com sua juventude, sua família, seus amigos e principalmente enriquecer o espírito aprendendo com as experiências do dia-a-dia.
Maria Helena estava boquiaberta.
— Ela não consegue aprender direito. Todos os seus professores disseram isso!
— Ela tem bloqueios psicológicos. Por isso tenho procurado prepará-la para aprender música. Se eu for direto ao piano, ela não vai aprender. Desejo que ela sinta essa necessidade.
— Ela não gosta de nada. Jamais vai sentir isso.
— Se ela não sentir, jamais poderá tocar. A música é a voz do sentimento e para ser um bom intérprete há que senti-la.
Maria Helena suspirou.
— Quero que ela aprenda alguma coisa. Sou mãe, tenho o dever de educá-la.
Luciana sorriu com suavidade:
— Se a senhora me permitir continuar, acredito que ainda se surpreenderá.
— Claro que desejo que continue. Receio que se decepcione e desista.
Luciana sacudiu a cabeça.
— Não vou desistir, D. Maria Helena. Sua filha é como uma pequena planta delicada e cheirosa, sufocada pelos galhos mais fortes dos arbustos que a cercam. Precisa apenas enxergar seu espaço. Um dia crescerá e abrirá seu próprio caminho, transformando a paisagem e encantando com sua beleza, distribuindo seu perfume. A senhora sentir-se-á feliz vendo-a desabrochar. Passar bem, D. Maria Helena.
Com um gesto gracioso, Luciana afastou-se.
Maria Helena entrou pensativa. As últimas palavras de Luciana perturbaram-na. O que teria ela querido dizer? Elogiara Maria Lúcia! Era
57
inusitado. Estaria sendo sincera?
Quando José Luiz chegou, contou-lhe o que se passara. — Essa moça é diferente dos outros professores. Não estará se iludindo?
Elogiar Maria Lúcia! Será ela tão pouco exigente?
José Luiz pensou um pouco antes de responder, depois — Ela pareceu-lhe leviana?
— Não. Ao contrário. Parece segura do que afirma. Garante que Maria
Lúcia é inteligente! Não posso acreditar. Alguma coisa está errada.
— Não a entendo. Você temia que ela desistisse de ensinar Maria Lúcia.
Está acontencendo exatamente o contrário. De que se queixa?
Ela age de forma diferente.
— Tem métodos modernos. Estudou na Europa. Não se esqueça que é
educadora e pelo que me informaram, das melhores.
— Quando entrei na sala, o rosto de Maria Lúcia parecia outro. Seus
olhos brilhavam e sua fisionomia era expressiva. Logo voltou a ser como sempre, mas reconheço que estava modificada. Sabe o que a professora contava? A vida da maior dançarina do mundo.
disse:
— Está certo. Ela deseja que Maria Lúcia aprecie arte. Se despertar-lhe o interesse, facilitará sua aprendizagem. Acho a idéia brilhante!
— Pode ser. Receio que se desiluda. Garantiu-me que não vai desistir. — Melhor assim. Os outros nunca conseguiram nada. Vamos apoiá-la. — Quero conhecê-la melhor. Formar uma opinião mais de perto. — Como quiser. Entretanto, dê-lhe liberdade de ação para ensinar Maria
Lúcia. Talvez ela esteja agindo certo.
— Tenho minhas dúvidas. Conheço nossa filha, infelizmente! Mas, não
vou interferir por enquanto.
— Melhor assim — concluiu José Luiz, aliviado.
Confiava em Luciana. Sentia necessidade de visitá-la para falar sobre o
assunto. Iria vê-la na noite seguinte.
Sentado confortavelmente em gostosa poltrona em casa de Luciana, José
Luiz ouvia-a falar sobre Maria Lúcia. Quando ela terminou, disse:
— Não desejo desanimá-la, mas não estará demasiado otimista? Luciana sacudiu a cabeça negativamente.
— Não. Maria Lúcia não é a pessoa indiferente e inexpressiva que
aparenta.
— Ela estará dissimulando? — perguntou ele com ar de incredulidade. — Isso não. Eu diria que ela se defende.
— Não compreendo.
— Ela se acredita incapaz e por isso receia cometer erros, bloqueia seus
sentimentos reais, admite a própria incapacidade para não ter que fazer nada. Agindo assim, julga proteger-se da critica.
Ele admirou-se:
— Por que agiria assim?
Luciana deu de ombros num gesto gracioso e muito seu. — Não sei. É cedo para que eu possa afirmar alguma coisa. Porém,
percebo que D. Maria Helena faz distinção entre os dois filhos. Não esconde sua admiração por João Henrique e sua decepção pela filha.
— Posso perceber isso, porém ela age assim justamente porque eles são muito diferentes. Se Maria Lúcia fosse uma pessoa como todo mundo, por
58
certo Maria Helena reconheceria e seria muito feliz, pode crer. Ela, mais do que ninguém, lamenta a postura de nossa filha.
— Certo. Não estou afirmando que a postura de D. Maria Helena tenha originado o problema. Mas que o tenha agravado, não tenho dúvidas.
— Você acha?
— Acho. Não vai aqui nenhuma crítica. Seu comportamento é, até certo ponto, natural dentro da situação. Ela desconhece os problemas do passado espiritual.
José Luiz remexeu-se na poltrona.
— Esses seus assuntos são muito complicados.
— Ao contrário. Podem esclarecer muitos problemas como os de Maria Lúcia. Prova, de inicio, que cada pessoa traz ao nascer suas experiências de outras vidas. Mesmo que você não deseje aceitar essa verdade, só a reencarnação pode esclarecer as diferenças de personalidade entre os filhos de um mesmo casal, em igualdade de condições. A gritante disparidade entre seus filhos parece-lhe explicável de outra forma?
José Luiz baixou a cabeça pensativo. Esse enigma sempre lhe ocorria sem qualquer explicação possível.
— Essa idéia de reencarnação parece-me fantasiosa. Ter vivido em outro corpo, ter sido outra pessoa, é loucura!
— Mais loucura é acreditar que se viva na Terra apenas uma vez e que se tenha tão pouco tempo para conquistar a sabedoria. Essa idéia apequena as coisas de Deus e limita muito nossas chances de felicidade. Por outro lado, a possibilidade de voltar a este mundo para desenvolver nossos conhecimentos e amadurecer nosso espírito, abre-nos as possibilidades e faz-nos perceber a bondade de Deus.
— Não deixa de ser um belo sonho, — disse ele. Luciana sorriu.
— É realidade, papai, não sou eu quem afirma isso. Em todas as partes do mundo, na Europa, na América, muitos cientistas estudaram esse assunto e afirmaram essa verdade.
José Luiz olhou-a admirado.
— Não sabia.
— É verdade. Na França, o professor Rivail; na Itália, o grande Bozano; enfim, homens sérios, estudiosos, cientistas interessados em descobrir a verdade o afirmaram. Sem falar das pessoas que se recordam de coisas, fatos ou pessoas que conheceram em vida anterior.
— Vamos supor que fosse verdade — disse ele — em que esclareceria o caso de Maria Lúcia?
— Eu não sei quais os fatos que a tornaram assim, que a fizeram bloquear seus verdadeiros sentimentos, mas, podemos supor que eles tenham sido causados por alguma experiência dolorosa, provavelmente de dependência, onde foi dominada ou se deixou dominar por alguém durante muito tempo e perdeu sua própria identidade. Quando deixamos que os outros nos dominem, por temor ou por amor, por comodismo ou por insegurança, perdemos o contato com nossa própria essência, com nosso eu interior e passamos a agir como autômatos das idéias alheias, produto do meio social ou do condicionamento familiar. Como não usamos nossa força interior, sentimo-nos inseguros e a cada dia mais e mais receamos o fracasso e nos julgamos incapazes.
José Luiz fez um gesto vago.
59
— Como saber? Se ela teve problemas em outra vida, como descobrir se ninguém se lembra de nada? Como ajudá-la?
— Tanto se lembra que continua agindo sob a ação do passado. Ela não está consciente apenas, mas na ação, esse passado se revela em suas atitudes e comportamento.
— Não seria inútil e injusto isso? Sofrer sem saber a causa.
— Não. Embora nós tenhamos vivido outras vidas na Terra, somos o mesmo espírito, a mesma personalidade que viveu em corpos diferentes, tempos de experiência. A morte não modifica nossa essência e nem nos torna diferentes do que somos só porque nosso estado físico foi modificado. Nossa individualidade aprende sempre e só gradativamente vai conquistando a sabedoria. Só nos libertamos dos nossos problemas íntimos quando conseguimos modificar nosso espírito. Podemos carregar o mesmo desequilíbrio durante muitas encarnações seguidas, até podermos vencê-lo.
José Luiz ficou sério. Seria verdade isso? Luciana continuou:
Os olhos de José Luiz encheram-se de lágrimas:
— Ah! Se eu pudesse vê-la ainda que fosse por alguns segundos!
Luciana olhou-o séria:
— Quem sabe um dia você também possa. Contudo, o fato de você não conseguir, não a impede de estar a seu lado, de abraçá-lo e ajudá-lo sempre.
— Eu não mereço.
— Ela não pensa assim. Sei que lhe deseja todo o bem do mundo.
— O que é próprio de sua alma nobre. Como pude ser tão cego?
Luciana sorriu:
— O passado acabou. Nada poderá modificá-lo. Vamos viver o presente com alegria e amor. Renovando as idéias e procurando ser melhor.
Conversaram durante algum tempo e quando José Luiz saiu, beijou-a na testa com afeto e reverência. As palavras que Luciana lhe dissera, podiam ser questionadas ainda por sua mente cética, mas havia algo nelas que falava ao seu coração e infundia-lhe muito respeito e admiração.