Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 21 de 23

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Quando a Vida Escolhe

Capítulo 21 · Sentado na pequena sala da delegacia, Ulisses…

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CAPÍTULO 21

Sentado na pequena sala da delegacia, Ulisses esperava. Aqueles dias na prisão haviam sido um pesadelo. Embora houvesse recebido um tratamento especial pelo nome de sua família, e o delegado simpatizasse com o seu drama de apaixonado (ele continuava no papel), não o libertara.

O coronel Albuquerque era muito influente e estava realmente empenhado em punir o rapaz exemplarmente. A prisão suja, a cama dura, a comida horrível, a humilhação e a raiva, eram insuportáveis.

Mandava comprar comida fora, e a tia conseguira-lhe um advogado a quem encarregara de tirá-lo dali. Esperava-o com impaciência.

O dr. Antero chegou sobraçando sua pasta de couro, e Ulisses levantou-se ansioso. Quando o guarda fechou a porta, e ele sentou-se do outro lado da pequena mesa que estava em sua frente, Ulisses o cumprimentou e antes mesmo de tornar a sentar-se indagou:

— E então?

O advogado colocou a pasta sobre a mesa, tirou o chapéu e colocou-o sobre ela.

— Bem, — começou ele, escolhendo as palavras — preciso ter calma.

— Calma? Ficar aqui nesta prisão infecta e você pede calma? Quero saber quando vai me tirar daqui. Sou de classe. Não posso ser tratado como uma pessoa qualquer.

— Ficar nervoso não vai facilitar as coisas. Você está encrencado. O coronel é influente e está empenhado em mantê-lo aqui.

— Ele não pode fazer isso. Afinal, ninguém saiu ferido.

— Ele não esquece o vexame da filha e o susto que passaram.

— Preciso sair daqui. Não agüento mais isto.

— Estou fazendo o que posso.

— Também tenho amizades influentes. Minha tia não lhe deu as cartas para procurá-los?

— Deu. E eu fui.

— E então?

O advogado coçou a cabeça indeciso.

— Fale. O que eles disseram?

— Bem... se recusaram a intervir, O doutor Menezes disse que não moverá uma palha para libertá-lo, e o dr. Campos disse que você teve o que mereceu.

— E o Ernesto Gomes?

— Que foi bem feito.

— Bandidos! Em resumo...

— Ninguém quis ajudar. Ao contrário, preferem vê-lo preso. Disseram que o riscaram da lista de amigos. E se quer saber, não o receberão mais em casa.

— Que súcia de traidores!

— A coisa anda feia. Na sociedade, nos clubes, nas casas de família, estão todos contra você.

Ulisses levantou-se e começou a andar de um lado para outro preocupado.

— Nesse caso, precisamos usar outros meios. O dinheiro compra tudo. Vamos dar um jeitinho, talvez o delegado ou o próprio carcereiro, facilitem minha saída.

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— Pensa em fugir?

— Pelo menos por algum tempo. Esconder-me até que esqueçam.

— Seria pior. A lei é dura para o infrator reincidente. Se o apanham, a pena dobra. Depois, para onde iria? Sua casa, impossível, e todos estão contra você. Não teria como esconder-se e logo seria descoberto. O coronel moveria céus e terra.

— O problema é meu. O seu papel é facilitar minha saída.

— Como arranjará o dinheiro? Sei que está quebrado. Sua tia está passando dificuldades.

— Ela terá que dar um jeito, arranjar seja como for. Vá la, fale com ela. Diga que não suporto mais ficar aqui. Faça-me um favor. Peça-lhe para dar um pulo até aqui.

— Está bem, irei.

Depois que ele saiu, o carcereiro convidou-o a recolher-se no pequeno quarto que lhe servia de cela. Estirado na cama dura, Ulisses arrependeu-se do passo impensado que dera. Fora estúpido e imprudente. Aqueles idiotas, que se diziam seus amigos, puseram tudo a perder e ainda se saíram bem, como heróis. Eles ficaram com o papel de galã, e ele como vilão. Eles não perdiam por esperar. Agora, precisava sair dali, defender a pele. Seu instinto advertia-o de que o coronel não sossegaria enquanto não acabasse com ele.

Precisava pôr-se ao largo. Talvez fosse melhor sair da cidade. Estava

riscado na sociedade. Endividado, e sua mentira sobre a herança, descoberta. Ninguém lhe emprestaria um níquel sequer. Restava-lhe a casa de família. Nunca quisera vendê-la porque representava seu trunfo para conseguir um casamento rico. Enquanto pudesse manter as aparências, pensava, teria chance. Agora, descobertas suas mentiras, estava perdido.

Seria melhor vender a casa e com o dinheiro tentar a sorte em outro

lugar. Faria isso. Para onde iria? O coronel o perseguiria, tinha a certeza. Foi então que decidiu. Iria para Portugal. Prepararia tudo e tomaria o próximo vapor para lá. Tomada essa decisão, esperou a tia com impaciência.

Só no fim da tarde foi que ela chegou. Estava abatida e triste. Sentia

vergonha. Parecia-lhe que todos a apontavam, e ela trancara-se em casa, de onde saíra diante da insistência do advogado e do desespero do sobrinho.

Vendo-o, abraçou-o comovida. Ulisses, percebendo que o carcereiro se

afastara e fechara a porta, disse em voz baixa:

— Tia, preciso da sua ajuda. Fiquei sabendo que o coronel Albuquerque

pretende vingar-se. Deseja matar-me!

Ela torceu as mãos aflita:

— Valha-me Deus! Que maldade.

— Pois é. Não contente em destruir-me com infâmias e mentiras, ainda

deseja acabar comigo. Preciso da sua ajuda para fugir daqui.

— Eu? O que posso fazer?

— O que eu disser. Estive pensando. Ouça-me com atenção. Segurou as mãos dela, olhando-a nos olhos com determinação. — O que quer que eu faça?

— Depois do que aconteceu, não posso mais ficar no Rio de Janeiro. Estou desmoralizado, perdido. Além do mais, há o coronel que quer me matar. Nós não temos dinheiro. Precisamos vender a casa.

— Nossa casa? — disse ela com voz dorida.

— Sim. É a única forma de me salvar. Você vai ao seu Manoel Carvalho,

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que sempre quis comprá-la e vende.

— A casa é só o que temos. O que será de nós sem ela?

— Já pensei em tudo. Iremos embora para Portugal. Lá, começaremos vida nova, longe de tudo isto. As más línguas falam. Como você vai ficar aqui depois do que aconteceu? Com o dinheiro, montaremos um negócio qualquer e viveremos bem.

Ela meneou a cabeça indecisa:

— Não sei não...

— Prefere ver-me morto? O que fará se eles me matarem?

Ela estremeceu horrorizada.

— Não diga isso. Você é como meu filho! Só tenho você neste mundo.

— Então, faça o que estou falando. O tempo passa e eu tenho medo.

— Está bem. Farei o que me pede. Seja tudo pelo amor de Deus.

— Assim é melhor, tia. Vai fazer tudo como eu disse. Vai na agência de viagens e me traz as partidas mais próximas para Europa. AI, planejaremos tudo. Venderemos a casa, compraremos as passagens e quando tudo estiver pronto, partiremos.

— Como sairá daqui?

— Não se preocupe. Com dinheiro na mão, será fácil. Agora vá e faça tudo o mais depressa que puder.

Quando a tia saiu, Ulisses sentiu-se mais calmo. Se eles pensavam em acabar com ele, enganavam-se. Não lhes daria esse gosto. Em Portugal, tinha alguns amigos com quem pretendia recomeçar a vida. Formara-se na universidade com dificuldade. Não se interessava pelos estudos, nem pela profissão. Não pretendia trabalhar para ganhar a vida. Não se contentava com migalhas. Queria mais. Em todo caso, o diploma servia-lhe para dar-lhe posição e conseguir impressionar. Uma vez lá, onde ninguém sabia de nada, poderia continuar a representar seu papel de rico herdeiro e conseguir o casamento que precisava.

Haveria de mostrar aos dois falsos amigos o quanto valia, quando rico e bem-posto, regressasse ao Rio de Janeiro. Eles haviam de ver. Então, sena ele quem lhes daria as costas e não os queria para relacionar-se.

No dia seguinte, Eufrásia voltou à delegacia para ver o sobrinho, levando na bolsa as informações que ele pedira.

Ulisses esperava-a ansiosamente. Apanhou os folhetos das viagens e leu-os com atenção.

— Veja, tia, há um vapor que sairá na próxima semana, dia cinco, vejamos, terça-feira. Iremos nele. Falou com o seu Manoel?

— Falei. Disse-lhe que queria ir-me para São Paulo, por causa do escândalo, conforme mandou.

— E ele?

— Mostrou-se interessado. Quer ficar com a casa.

— Por quanto?

— Oito contos de réis.

— É pouco. Está se aproveitando da situação. A casa vale pra mais de quinze. Trata-se de um palacete.

— Isso disse-lhe eu.

— Diga-lhe que há outro interessado em pagar dezoito contos e vamos vender a ele.

— Mas não há ninguém.

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— Faz de conta que há. Diga-lhe isso e verá que ele pagará mais. É preciso saber negociar.

— Ah! se eu pudesse sair daqui! — reclamou Ulisses.

— Talvez piorasse as coisas. Ele não sabe que pretendemos ir juntos.

— Nem deverá saber. Se descobrem nosso plano, estarei perdido. Você vai fazer o seguinte...

Ulisses cuidadosamente ensinou o que a tia deveria fazer, desde reservar as passagens até a venda da casa e os preparativos para a viagem onde usaria documentos falsos de identidade.

Quando ela saiu, sentiu-se aliviado. Sempre fora inteligente e soubera defender-se muito bem. Não seria agora que iriam derrubá-lo.

Quando o carcereiro apareceu, encontrou-o triste e encolhido em um canto.

— Se quiser que eu vá comprar comida, tem de ser agora, enquanto o delegado foi almoçar.

Afonso oferecia-se todos os dias, esperando embolsar a gorjeta.

— Estou sem fome — disse Ulisses fingindo-se arrasado — e o pior, é que não posso viver sem essa mulher! O que será de mim de hoje em diante?

O outro coçou a cabeça e sugeriu:

— Deixe disso. O coronel não é sopa não.

— Estou desesperado. Eu adoro a Marianinha!

— Você está se desgraçando por causa dela. Não vale a pena. Um moço como o senhor, rico, bem-posto. Deixe disso!

Ulisses levantou-se e aproximando-se de Afonso disse-lhe com voz súplice:

— Se ao menos eu pudesse vê-la pela última vez!

— Melhor não fazer mais besteira.

— Vou contar um segredo. Você tem sido meu amigo. Posso confiar em você?

— Pode. Se eu puder ajudar...

— Minha tia deu-me uma triste notícia. Mas, é segredo.

O outro aproximou-se mais, baixando o tom de voz:

— Fale! Confie em mim!

— Sei de fonte limpa que o coronel me jurou de morte.

Afonso empalideceu:

— Cruz-credo! Como soube?

— Não posso dizer. Minha tia descobriu. Planejaram tudo na terça-feira. O matador virá aqui.

— É impossível! Vou falar com o delegado. Dobrar a guarda.

— Não vai adiantar. Isso só vai adiar minha morte.

— Que situação!

— Estou desesperado. Preciso sair daqui antes que seja tarde. Você é meu amigo. Se me ajudar, não se arrependerá. Minha tia está vendendo a casa. Estou disposto a dar-Iher bom dinheiro pelo favor.

Os olhos de Afonso brilharam.

— Não posso permitir que cometam esse crime.

—Sem falar que o matador pode até matá-lo para entrar aqui.

— Deus me livre! Vire essa boca pra lá!

— Então, vai me ajudar?

— Não posso recusar.

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— Vamos planejar tudo.

Ulisses explicou a ele o que fazer, combinando que o deixaria amarrado para inocentá-lo da fuga. Tudo acertado, ele aguardou as providências da tia e preparou-se para a fuga.

O vapor partiria no começo da noite. Ele fugiria assim que escurecesse e iria ao encontro da tia em uma pensão no cais, onde trocaria de roupa e colocaria uma barba como disfarce. Embarcariam no navio, onde as bagagens já teriam sido levadas pela manhã.

Eufrásia não conseguiu vender a casa por quinze contos de réis, mas Manoel, pressionado, chegou aos doze, e Ulisses aceitou prontamente. Isto feito, tudo acertado, no dia combinado quando o delegado saiu para jantar, Afonso, tendo recebido o dinheiro adiantado e colocado em lugar seguro, deixou-se amarrar por Ulisses e quando escureceu, ele saiu pelos fundos dirigindo-se à pensão do cais conforme o combinado.

Quando o navio apitou dando o primeiro sinal, Eufrásia, tendo colocado um grande chapéu cujo véu lhe cobria o rosto, dando o braço ao sobrinho, envelhecido por uma barba que lhe cobria metade do rosto, subiu as escadas que conduziam ao convés. Ninguém desconfiou, e eles, satisfeitos e aliviados, fecharam-se no camarote, fazendo planos para o futuro.

Era já noite quando o navio levantou âncora e zarpou.