Quando a Vida Escolhe
Capítulo 19 · Sentado frente sua escrivaninha lavrada, João Henrique…
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CAPÍTULO 19
Sentado frente sua escrivaninha lavrada, João Henrique estudava atentamente o projeto que tinha estendido sobre ela. Urgia terminá-lo porqüanto dentro de dois dias o apresentaria a uma comissão do senado de onde esperava o licitamento para execução do mesmo.
Batendo ligeiramente, Ulisses entrou no escritório. Seu rosto estava transtornado e descomposto. Fitando-o, João Henrique não conteve a admiração.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu — disse ele deixando-se cair na poltrona em frente a escrivaninha.
— O que foi? Você parece aborrecido.
— Aborrecido? É pouco. O mundo desabou sobre mim.
João Henrique enrolou o projeto e sentou-se novamente dizendo:
— O que houve?
— Aquela ingrata! Tudo preparado. Tudo certo. E ela simplesmente disse não. Veio com uma história de que não ia me fazer feliz, que não era a mulher que eu queria, simplesmente me recusou.
— Assim sem motivo?
— Assim. Depois de tudo, jamais pensei que fizesse isso comigo. Estou desesperado. Ela me paga. Não vou deixar assim.
— Pretende insistir?
— Isso eu já fiz. Tentei por todos os meios. Exigi, implorei, fiz tudo. Ela não voltou atrás.
João Henrique entristeceu-se. Lembrou-se de Antonieta. As mulheres sabiam ser cruéis. Penalizado, tentou confortar o amigo.
— Não adianta. Quando não há amor, insistir não ajuda. Já passei por isso. Acalme-se. Dói, mas passa. O tempo é um santo remédio.
— Não sou você. Não vou conformar-me. Ela vai ter que me aceitar. Se continuar recusando, me vingarei. Ninguém me humilha impunemente. Isso eu garanto.
Havia tanto rancor em sua voz que João Henrique assustou-se:
— Calma, homem! Não se pode obrigar uma pessoa a nos amar!
— Ela era gentil comigo desde o começo, deu-me não só esperanças como a certeza de que poderíamos ser felizes juntos! Eu acreditei. Coloquei todos os meus sonhos em suas mãos e agora, quando fiz o pedido, ela disse não! O que ela queria era humilhar-me!
— De nada adianta revoltar-se. O melhor será aceitar e tentar esquecer.
— Isso não.
— Eu consegui. Agora, nem me recordo daquele amor louco. Passou. Não cometa nenhuma loucura. Tudo vai passar.
João Henrique tentou inutilmente acalmar o amigo, que por fim saiu nervoso e revoltado. Vendo-o afastar-se, João Henrique suspirou sentindo-se aliviado por estar imune à paixão. A cada dia mais se convencia de que o amor era armadilha perigosa e inútil, na qual jamais voltaria a cair. Ulisses estava nervoso, logo refletiria e por certo mudaria de opinião.
Estudou o projeto que estendeu novamente sobre a mesa e mergulhou no trabalho com interesse.
Quando Jarbas chegou uma hora depois, encontrou-o ainda trabalhando.
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— Estou preocupado — disse logo.
— Com que? — indagou João Henrique sem muito interesse.
— Com Ulisses.
João Henrique levantou os olhos e respondeu:
— Não é nada. Ele passou por aqui há pouco. A Marianinha recusou-o. Está magoado, mas logo passará. Sei como é.
— Ulisses não é como você. É muito vingativo. Está planejando uma loucura.
— Está ameaçador, mas logo pensará melhor. Você vai ver.
— Agora, quando vinha para cá, eu o vi na loja do sargentão, comprando um revólver.
— O quê?
— Isso mesmo. Ele não me viu.
— Por que não o abordou?
— Não adianta. Ele não me ouve nunca. Vim chamá-lo. Você tem mais força sobre ele. Com você, ele é mais atento. Não está planejando boa coisa. Sinto o cheiro no ar. Sei que quando ele se enfurece, é um perigo. Não raciocina. Depois, parece que as coisas não estão indo bem ultimamente. Ele anda sem dinheiro e está endividado.
— Ele sempre gastou muito e andou endividado. Mas a herança garante tudo. Ele não precisa preocupar-se.
Jarbas olhou o amigo indeciso.
— O que está me escondendo? Quando você fica com essa cara...
— É que ultimamente tem chegado ao meu conhecimento certos fatos com relação a Ulisses. Mas, não sei até que ponto são reais.
— Intrigas sempre as há. O que falam dele agora?
— Que nunca teve herança nenhuma. Que sempre foi pobre e que essa história era para iludir as pessoas.
— O fato de ser pobre não o desmerece.
— Mas querer enganar os outros, até os amigos, sim.
— Ele pertence a excelente e tradicional família.
— É verdade. Seja como for, ele é nosso amigo. Não podemos deixá-lo cometer uma besteira e estragar sua vida.
João Henrique concordou.
— Tem razão. No momento de crise podemos exagerar. Vamos até sua casa.
Jarbas concordou e os dois dirigiram-se à casa de Ulisses.
A tarde estava no fim quando tocaram a campainha. Em bairro calmo e residencial, ele residia com uma tia, irmã de sua mãe, na velha e ampla casa da família, onde tudo recordava os tempos antigos. Ulisses conservava-a em memória dos pais, dizia ele, mortos em um trágico acidente no mar.
Informados que Ulisses não voltara para casa, eles conversaram um pouco com a tia, não mencionando sua preocupação.
A convite dela, resolveram entrar e esperar. A noite caíra de todo e Ulisses não voltava.
Esforçando-se por não demonstrar a preocupação, os dois despediram-
se e na rua, deram vazão à ansiedade. Onde Ulisses teria ido? O que pretendia fazer? Como encontrá-lo?
— Só há um jeito — disse Jarbas. — Irmos ver Marianinha. — Isso não. Eu sequer a conheço!
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— Eu sim. Não muito porque ela é pouco sociável. Mas nossas famílias
visitam-se. Seus pais freqüentam os Albuquerques. Você nunca foi aos saraus?
— Eu? Claro que não. Não tenho tempo para essas futilidades. — Houve tempo em que você não pensava assim. — E você viu no que deu. Depois, aquelas pessoas eram diferentes
dessas provincianas do Rio de Janeiro.
— Isso não importa. O que eu penso é que o Ulisses vai tentar alguma
coisa contra Marianinha. Se a arma que ele comprou foi para vingar-se, ele irá procurá-la!
— É verdade.
— E nós estaremos alerta. Podemos evitar uma tragédia. Ele ficará com
raiva, mas mais tarde nos agradecerá.
— Pensando bem, tem razão.
João Henrique tirou o relógio do bolso do colete dizendo com ar
preocupado:
— Não será um pouco tarde para um sarau? Depois não estou vestido
para isso.
— Você está sempre muito bem vestido. Nosso traje pode não ser o
mais elegante, mas não destoará por certo.
— Então vamos lá.
A casa dos Albuquerques estava iluminada, os pesados reposteiros de
veludo corridos e as janelas protegidas apenas pelas delicadas e finas cortinas brancas de voil, deixavam passar a luz através das vidraças e mostravam os vultos das pessoas movimentando-se em seus salões.
João Henrique suspirou entediado, e Jarbas tentando disfarçar o riso,
vendo-o constrangimento, tocou a sineta. Um criado abriu imediatamente e Jarbas foi dizendo:
— Doutor Jarbas Junqueira Silva e doutor João Henrique Camargo. O criado inclinou a cabeça:
— Queiram entrar por favor.
Os dois o acompanharam. Quando entraram no vasto salão, houve um
movimento de curiosidade. Embora sempre muito requisitado, João Henrique nunca comparecia às reuniões familiares. Sua presença despertou logo um zunzum inusitado. Imediatamente, D. Pérola apressou-se em recebê-los. Enquanto os dois beijavam-lhe a mão com galanteria, ela foi dizendo:
— É uma honra recebê-los em minha casa. Sejam bem-vindos. Enquanto conversavam trivialmente com a dona da casa e o coronel
Albuquerque, seu marido, eles disfarçadamente procuravam o Ulisses entre os convidados. Felizmente ele não estava. Teria desistido?
Pérola, mulher requintada e fina, cumulou-os de gentilezas apresentando-
os às pessoas com delicadeza. Bonita , alta, elegante, sabia receber com maestria, e João Henrique entendeu porque Maria Helena lhe freqüentava a casa.
Apresentado a Marianinha, João Henrique não conteve um pensamento
de rancor. Cumprimentou-a educadamente, porém com frieza. Vendo-a ereta, elegante, muito bem vestida, os negros cabelos curtos muito bem penteados, o vestido curto ousado deixando à mostra suas pernas bem torneadas e principalmente seus olhos grandes e negros, a boca altiva e carnuda, bonita e dona de si, olhando-o com indiferença, sentiu raiva. Por causa dela, Ulisses
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estava disposto a destruir sua vida, e ela não parecia se importar. Destruíra os sentimentos dele, e não se importava. Permanecia indiferente e fria, altiva e intocável, como uma deusa.
Irritado, disse disfarçadamente a Jarbas:
— Ele não está. Vamos sair daqui.
— Não agora. Não seria elegante. Depois, e se ele aparecer? Pode estar
esperando acabar o sarau.
A parte musical havia parado para dar tempo a que os homens fossem rumar e conversar seus assuntos, e as mulheres, por sua vez, fizessem o mesmo, tomando licor e saboreando a rica mesa da sala de jantar. Os jovens, em sua maioria, preferiam os jogos de salão e ruidosamente entretinham-se em outra sala.
— Aceitaria um cálice de vinho, licor ou refresco? —insistiu gentilmente
D. Pérola, chamando delicadamente o criado para servir. Vendo-os com um copo de vinho nas mãos, ela completou: — Estejam a gosto. Se preferirem, poderão passar a outra sala. Creio que conhecem quase todas as pessoas presentes. Pena não haverem chegado a tempo de ouvirem o recital. Esteve belíssimo. Apesar disso, sentimos a ausência de Maria Helena. Ela sempre nos delicia com sua execução.
— Mamãe toca bem.
— Toca bem? Ela é magistral! Sempre muito aplaudida. Pérola afastou-se e os dois rapazes juntaram-se a alguns conhecidos
conversando. João Henrique era muito conceituado socialmente. As pessoas mais velhas apreciavam ouvi-lo e o procuravam para conversar.
Jarbas deixou-o na companhia de várias pessoas e dirigiu-se ao jardim.
Vira Marianinha e decidiu abordá-la.
— Marianinha — chamou. Ela voltou-se e esperou. Ele Continuou: —
Preciso conversar com você.
Lado a lado foram andando, e o moço tocou no assunto que o
preocupava.
— Tem visto Ulisses?
— Por que pergunta?
Porque ele a ama e parece que você não o aceitou. É verdade? — É. Ulisses é um moço bonito, de boa família, mas eu não o quero para
marido.
— Não gosta dele?
— Ele é interessante, atencioso, tem me cercado de gentilezas, mas para
casar é preciso haver algo mais.
— Que você não tem.
— Isso.
— Ele está inconformado e infeliz. É sua resposta definitiva? Não deseja
pensar no assunto?
— Não. Para quê? Para ser franca mesmo, jamais me casaria com ele.
— Viemos aqui esta noite por causa disso. Ele não está aceitando sua recusa. Ele está muito revoltado e você deve tomar alguns cuidados.
— Acha que ele seria capaz de tentar à força? Jarbas tentou contornar:
— Não sei. Um homem apaixonado, desesperado, pode cometer muitos excessos. Mesmo agora, no jardim, sinto certo receio.
— A situação é assim tão grave?
— Bem. Não sei. Ele diz que você o encorajou só para humilhá-lo.
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— Sempre desconfiei de seus excessos de atenções. Pareciam-me falsas. Para dizer a verdade, nunca as levei a sério.
— Ele disse que o encorajou.
Pelos olhos dela passou um brilho de contrariedade.
— Nunca fui além dos princípios da boa educação para com uma pessoa que me cercava de gentilezas. Não tive para com ele nenhum gesto mais especial. Lamento que ele em sua exaltação interpretasse de ouLra forma.
— Sua recusa o fez sofrer.
— Sofreria muito mais se cu casasse sem amor. Creia, logo isso passará, estou certa.
— Apesar de tudo, tome cuidado pelo menos por alguns dias, até ele se acalmar.
Ela sorriu levemente.
— Não vai acontecer nada.
Os dois ficaram até a hora das despedidas e aliviados, saíram, agradecendo a hospitalidade.
Uma vez na rua, decidiram passar novamente em casa de Ulisses. Tudo escuro. Teria ele desistido?
— Vamos embora, Jarbas. A estas horas, ele já deve estar dormindo, ou bebendo em algum bar para esquecer.
— Pode ser. Mas não estou sossegado.
— Fizemos o possível. Com certeza ele já se acalmou. Vamos para casa.
No carro de João Henrique, Jarbas pediu:
— Antes de me deixar em casa, vamos dar uma passada pela casa de Marianinha, ver se tudo está bem.
— Bobagem. Em todo caso, se isso o acalma, vamos lá.
A rua estava calma e deserta. Ao passarem pela casa, Jarbas segurou o braço do amigo com força.
— Pare. Há um homem no jardim. vi um vulto escondendo-se atrás da árvore.
— Tem certeza?
— Tenho. Escondeu-se quando nos viu.
— Então vamos seguir e fingir que fomos embora.
Deixaram o carro em rua próxima e voltaram, sem fazer ruído, espiaram pelas grades do portão. Tudo quieto, normal.
— Você se enganou — sussurrou João Henrique.
— Não! eu vi claramente! Só pode ser ele. Vai fazer besteira!
— O que vamos fazer? Não podemos alarmar todo mundo. E se não houver ninguém?
— Vamos pular o muro e verificar.
— Você está louco! E se nos descobrem, o que diremos?
— Não sei. Eles não tem cachorros, isso eu sei. Vamos. Não é difícil.
João Henrique olhou-o indeciso.
— Venha, homem. Trata-se de ajudar um amigo! Vamos lembrar nossas aventuras românticas. Recorda-se da Marilda? Quanto pulamos aquele muro, na ausência do marido?
— Nem quero lembrar. Loucuras da adolescência. Nunca mais faria isso de novo.
Jarbas começou a rir.
— Até que ela era interessante...
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— Deixe de risadas. Desse jeito todos vão acordar! — Calado! Psiu! Vamos!
Os dois, depois de olharem para os lados, certificando-se de que não
havia ninguém, subiram pelas grades e entraram no jardim.
O silêncio era profundo e eles foram caminhando devagar, procurando
não fazer ruído.
— Parece que está tudo bem — sussurrou João Henrique. —Você se
enganou. Vamos embora.
Jarbas apanhou algo no chão.
— Veja isto! Uma abotoadura! É do Ulisses!
— Como sabe?
— Olha o monograma.
— É mesmo.
— Ele está aqui! Precisamos achá-lo.
Cautelosos olharam para a casa. Tudo escuro, nenhuma luz. — Olhe aquela janela lá em cima. Está entreaberta! Vai ver que ele
entrou por ali. — disse Jarbas.
— E se não for? Não podemos invadir a casa. Podem acordar! — É ele! Vamos subir e espiar.
— Como?
— Pela varanda. É difícil. Vamos tirar os sapatos. — É loucura. O melhor é chamar os donos da casa. — E promover um escândalo? Eles vão nos odiar se o fizermos. Vamos
subir. Se não houver nada, prometo que iremos embora e esquecerei o assunto.
— Vamos então.
Cautelosamente, sem ruído, os dois ganharam o telhado da varanda e
espiaram pela janela entreaberta. O que viram os estarreceu.
Mariana, seminua, encostada na parede do quarto tendo Ulísses à sua
frente, de costas para a janela.
A moça tremia assustada enquanto ele dizia em tom contido: — Não adianta, meu bem. Se gritar eu atiro. Agora que fechei a porta,
ninguém entrará. Estamos sozinhos, eu e você. Eu queria casar, você recusou. Vamos, tire a roupa toda. Não adianta fugir. Ninguém me humilha impunemente. Eu me vingo! Pensou que eu ia aceitar um não? Você vai ser minha de qualquer jeito. Depois, vou embora! Você ficará com a minha marca!
— Você está louco! Vá embora. Recusei seu pedido porque não o amo.
Saia e eu não contarei a ninguém o que se passou aqui.
Ele nem parecia ouvir. Aproximou-se dela encostando a arma em seu
pescoço.
— Você é linda! — disse — Se eu atirar, vai ser uma pena. — Meu pai o matará!
— Ninguém me verá.
Ulisses com a mão esquerda abraçou a cintura dela, conservando com a
direita a arma encostada no peito dela. Aterrorizada, ela não se mexia e ele beijou-a nos lábios repetidas vezes.
Jarbas e João Henrique, do lado de fora, não sabiam o que fazer. Temiam precipitar a tragédia. No estado emocional de Ulisses, um susto poderia fazê-lo puxar o gatilho.
João Henrique sussurrou no ouvido de Jarbas:
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— Vou tentar entrar sem ruído.
— Cuidado.
Ulisses, empolgado, sentia-se seguro. Marianinha, olhos abertos, percebeu a presença de João Henrique e vendo que o moço cautelosamente tentava entrar, procurou desviar a atenção de Ulisses:
— Você nunca me beijou desse jeito — disse.
Ele exultou.
— Ah! Gostou? Era o que eu pensava. As mulheres fingem indiferença, mas adoram ser dominadas. Vai ver que depois desta noite, você me aceitará como marido. Eu sou bom nisso, sabia?
— Só agora estou percebendo como você é — retrucou ela. — Se afastar essa arma, poderemos ficar mais a vontade.
— Pensa que sou tolo? Por enquanto é melhor não facilitar.
João Henrique aproximou-se e tendo feito um sinal a Marianinha que se abaixasse, aproveitou o momento em que Ulisses a beijava para dar um soco violento na arma, segurando seu braço, torcendo-o para trás.
Ulisses assustou-se violentamente, puxou o gatilho, mas Marianinha escorregara para o chão e a bala perdeu-se em um canto do quarto. Jarbas atirou-se sobre Ulisses, tentando segurá-lo.
Gritos, sustos, as luzes da casa acendendo. Quando os pais de Marianinha bateram na porta do quarto, Jarbas a abriu, ante os olhos assustados do resto da família.
Ulisses esbravejava a um canto, dominado por João Henrique. Marianinha, trêmula, embrulhada em um robe que apressara em vestir, estava sã e salva.
O coronel dominava-se a custo. Exigiu explicações. Como atreviam-se a entrar na casa às escondidas, daquela forma?
Foi Mariana quem explicou:
— Pai, se estou viva, devo ao João Henrique e ao Jarbas. Nunca esquecerei o que fizeram por mim esta noite.
Os dois não sabiam o que dizer. Precisavam dar explicações ao coronel, mas não desejavam agravar a situação do amigo, a quem julgavam enlouquecido.
— Alguém pode me explicar o que se passou aqui? Quem atirou?
— Eu posso contar o que aconteceu — disse Mariana.
— Você está pálida e trêmula, filha, precisa acalmar-se. Essa é uma conversa para homens. — interveio Pérola.
— E para a polícia — disse o coronel.
— Não, mamãe. Por minha causa, esses dois cavalheiros arriscaram a vida e a honra. Não posso permitir que sejam envolvidos. Estou disposta a esclarecer o que se passou e sei que meu pai, justo como é, saberá agir corretamente.
— Está bem — anuiu o coronel. — Vamos até a sala. Vou entregar este homem para a policia.
Ulisses, rubro de ódio, disse com voz abafada:
— Vocês me pagam! Diziam-se meus amigos! Traidores.
O coronel, apontando a arma que trazia, ordenou:
— Vamos. Se facilitar, mato-o como a um cão. Sabe que se o fizer, a lei me protegerá. O senhor, além de assaltar minha casa durante a noite, atentou contra a vida de minha filha. Ande. Vamos. Obedeça se quer continuar vivo!
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Os olhos do coronel brilhavam firmes, e Ulisses obedeceu prontamente. Na sala, colocado sob a mira da arma de dois empregados da casa, Ulisses arrependia-se da aventura. Porém, era tarde. A família reunida, ouvira o relato de Mariana que ao final dirigiu-se aos dois moços emocionada:
— Quando eu vi você, João Henrique, aparecer na janela, pensei: estou salva! Meu coração parecia que ia sair pela boca. Temia que ele atirasse se visse você.
— Confesso que tremi, — respondeu o moço emocionado —a porta do quarto fechada a chave, eu senti que não podia perder um segundo, nem avisar ninguém. Foi uma tentativa desesperada. Nem quero me lembrar!
— Eu pensei que se conversasse com ele tentando distraí-lo, você teria mais chance.
— Foi muito inteligente de sua parte. É muito corajosa —disse João Henrique.
— Eu não queria morrer! E nem permitir que ele fizesse o que pretendia. Tinha que tentar!
Pérola abraçou João Henrique com os olhos cheios de lágrimas. — Obrigada, meu filho! Mariana tem razão. Nunca poderemos pagar o
que você fez! Permita-me dar-lhe um abraço. De hoje em diante, terá em mim uma amiga dedicada!
— Agradeça ao Jarbas — respondeu ele tentando disfarçar a emoção. —
Foi ele quem suspeitou do Ulisses. Eu nunca poderia pensar que sua loucura chegasse a tanto.
Pérola abraçou Jarbas comovida.
— Vocês merecem uma medalha. Nunca esquecerei esta noite. — Vamos, Pérola, — disse o coronel tentando disfarçar a emoção —
providencie um café para nós. Todos precisamos.
Quando o chefe de polícia chegou, o coronel acusou formal-mente
Ulisses de haver tentado contra a vida de Mariana, após ver recusado seu pedido de casamento. Ele não teve outro jeito senão levar Ulisses preso. Este, vendo-se em perigo, procurou dominar a raiva e tentar safar-se. Alegou desespero, fingiu-se louco de paixão, buscando impressionar o delegado.
Conseguiu até certo ponto, alegando o bom nome de sua família,
dizendo estar sofrendo muito. Uma vez na delegacia, no interrogatório, chorou, jurou que nunca teria coragem de ameaçá-la. A arma era apenas para seu suicídio. Estava disposto a matar-se se essa última tentativa fracassasse.
Apesar de condescendente, o delegado não podia ignorar a queixa do
coronel, pessoa influente e benquista na sociedade. Por isso, manteve Ulisses preso, dando-lhe conselhos, que se acalmasse e desistisse do suicídio. Mulher alguma merecia isso.
Vendo-se recolhido à cela, Ulisses deu livre curso ao rancor. Sua raiva
era contra João Henrique e Jarbas. Por que haviam se intrometido? Se eles não houvessem aparecido, não só estaria livre como ninguém saberia de nada. Acreditava que uma vez consumado seu plano, Marianinha não teria outra alternativa senão aceitar seu pedido de casamento. Aqueles idiotas, intrometidos, eram os responsáveis pela triste situação em que se encontrava. Não temia a prisão. Tinha certeza de que um bom advogado o livraria facilmente. Sabia que o coronel era enérgico, porém contava impressionar a opinião pública a seu favor se preciso fosse. Um homem apaixonado e desesperado cativa logo as simpatias da sociedade.
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O que ele temia e o irritava, era a possibilidade de ver descoberta a
mentira de sua vida. A idéia da herança junto com o nome da família, abrira-lhe todas as portas. O que seria de sua reputação se o soubessem pobre e endividado? O moço rico, desesperado, apaixonado, sofrendo a ponto de querer acabar com a própria vida, por certo seria visto com bons olhos e até com simpatia. O moço pobre, mentiroso, pressionado pelas dívidas, oportunista, tentando um casamento rico como última saída, seria por certo execrado.
Estava claro que representaria o papel do primeiro com vigor e contava
com isso para sair dali, mas, e se descobrissem o que temia? Se desconfiassem e fossem investigar?
Nesse momento, pensando nisso, seu desespero era bem real. — Bandidos! — pensou — Aqueles dois me pagam! Nunca pensei que
fossem capaz de me prejudicar! Eles vão me pagar. Quando sair daqui, me vingarei.
No dia seguinte, a notícia correu de boca em boca. João Henrique não
comentou o que acontecera. Porém, ao jantar, Maria Helena já sabia. Preocupada com alguns comentários, procurou a amiga e Pérola relatou-lhe tudo detalhadamente, terminando por tecer comentários elogiosos aos dois rapazes.
Maria Helena emocionou-se. João Henrique arriscara a vida! Sentiu-se
orgulhosa pelo seu gesto.
Na hora de jantar, ela mencionou o assunto. Maria Lúcia assustou-se.
Ulisses tentara matar Marianinha! Que horror! Prestou atenção ao que João Henrique contava. Era verdade. Ele tentara com Luciana e agora com Mariana. Não tolerava recusa.
— Nunca pensei que Ulisses pudesse proceder assim —comentou Maria
Helena. — Você passou por um problema parecido, mas teve uma reação diferente.
— Posso entender o que ele sentiu. Estávamos tentando evitar uma tragédia. Pensávamos ajudá-lo. Porém, vendo-o agir daquela forma, percebi que estávamos enganados a respeito dele. Havia maldade no que ele dizia. E, pode parecer estranho, mas ele não demonstrava estar apaixonado por Mariana. Ao contrário, mostrava-se calculista, deliberadamente cruel. Confesso que desconhecia o Ulisses.
— Ouvi dizer que a tal herança que ele vive a apregoar, nunca existiu — comentou José Luiz.
— Ele precisava de dinheiro, com certeza. Está coberto de dívidas — respondeu João Henrique. — Seu desespero com a recusa dela pode ter sido por causa disso. Jarbas contou-me o que aconteceu com Luciana.
— O que foi? — indagou Maria Helena, curiosa.
— Foi o noivo dela quem contou a Jarbas. Ulisses vendo-se recusado, esperou-a quando saía daqui e tentou obrigá-la a aceita-lo. Agarrou-a justamente no portão de D. Margarida. O José Antônio ouviu ruídos e a socorreu, pondo Ulisses a correr. Foi assim que se conheceram.
— Que canalha! — interveio José Luiz.
— Eu nunca soube que ele interessava-se por Luciana! considerou Maria Helena.
— Isso eu sei muito bem. Ele entusiasmou-se desde o primeiro dia, quando a conheceu. Eu e Jarbas nos divertimos, porque ela nunca lhe deu a
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menor atenção. Aliás, Luciana sempre foi muito correta.
Maria Lúcia ouvia, sentindo suas dúvidas crescerem. Por isso Luciana
não gostava de Ulisses e a aconselhava a não alimentar seu interesse por ele. E o caso com seu pai? Seria verdade? Até que ponto Ulisses as iludira? Começou a suspeitar que fora ingênua não tentando averiguar melhor a verdade. Jarbas teria razão?
Emocionou-se ao pensar nele. Aquele beijo ardente, não saía da sua
lembrança. Ele havia lhe afirmado que Luciana a queria bem, poderia acreditar? Não estaria ele mentindo como Ulisses?
— Que diferença do Jarbas! — considerou Maria Helena. — Não se pode comparar. Jarbas é digno de toda a confiança. — disse
José Luiz.
— Concordo. Jarbas sempre foi muito diferente de Ulisses. Mais correto, sincero, bondoso, educado — ajuntou João Henrique. — Ulisses sempre foi meio desatento, desorganizado, leviano com as mulheres. Não pensei que chegasse a tanto. Alegou que Marianinha o encorajou para divertir-se à sua custa. A principio, acreditei, embora Jarbas afirmasse o contrário. Porém, ontem notei que era verdade. Ela foi muito corajosa e mesmo ameaçada, tendo a arma encostada no pescoço, portou-se com seriedade. Tem muita coragem. Agüentou a situação sem nenhum chilique. Quando o coronel entrou no quarto e exigiu explicações da nossa presença ali, ela esclareceu tudo com firmeza.
— Marianinha é muito correta. Por não gostar de futilidades, é tida como
orgulhosa. Conheço-a bem. Ela não perde tempo com mexericos nem banalidades. Gasta seu tempo com coisas interessantes. Pinta muito bem e é muito culta. — respondeu Maria Helena.
— Você a conhece bem. Aliás, entendi porque você lhes freqüenta a
casa. D. Pérola é muito agradável e educada. O coronel, um homem de bem.
— Isso mesmo, meu filho. Os Albuquerques são nossos melhores
amigos. Fico contente por você os apreciar. Pérola ficou encantada com vocês dois. Insistiu que voltassem a visitá-los com freqüência.
— O coronel também interessa-se muito em melhorar nossa cidade. Tem
até algumas idéias que me expôs, muito inteligentes. Esse é um assunto do qual ele gosta muito e o torna eloqüente e entusiasta. Conversou com ele sobre seus projetos?
— Não, papai. Não houve oportunidade. Não sabia desse particular. — Quando tiver chance, fale sobre esse assunto. Ficará surpreendido
com o que ele sabe. Acredito mesmo que encontrará nele poderoso aliado. É muito influente politicamente.
— Não diga! Farei isso.
Maria Lúcia assim que acabou o jantar, foi para o quarto. Fechou a porta
e olhou-se no espelho. Não gostou do que viu. Estava feia. Jarbas gostava dos seus cabelos soltos. Rapidamente tirou os grampos que os prendiam. Apanhou uma escova e começou a escová-los, tentando penteá-los de diversos modos. Estavam compridos. Agora a nova moda era cortá-los bem curtos. Ela os preferia pelos ombros. Qual seria a preferência de Jarbas?
Sim. Seus cabelos eram lindos, sedosos, brilhantes. Jarbas tinha razão. E
se passasse um pouco de carmim? Luciana a ensinara a colorir delicadamente as faces e os lábios. Ela não era tão feia como pensava. Seu vestido não lhe caía bem.
Abriu o guarda-roupa, apanhou um que Luciana gostava e o vestiu.
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Sentiu-se mais animada. No dia seguinte, vestiria aquela roupa, talvez Jarbas viesse. Queria que a achasse bonita.
Pensou em Luciana. Teriam sido enganadas? Ulisses poderia ter mentido para vingar-se de Luciana. Mas, e seu pai? Como entraria nessa história? Teria se apaixonado por Luciana? Ela era linda e inteligente, e, seu pai, muito sedutor. Sua mãe o tratava friamente. Teria tido uma paixão? Uma aventura? Luciana não era uma aventureira. Talvez o tivesse recusado. Continuava cheia de dúvidas e por mais que tentasse, não conseguia esclarecê-las.
Na tarde do dia seguinte, quando Jarbas chegou, encontrou Maria Lúcia modificada. Satisfeito, percebeu que ela soltara os cabelos, vestira-se melhor e parecia mais à vontade.
Aproximou-se dela, dizendo com prazer:
— Que alegria encontrá-la! Como vai?
Ela corou ao responder:
— Bem. E você?
— Melhor agora vendo você. Senti saudades. Não pude vir antes.
— Faz três dias que não vem aqui.
— Sentiu minha falta?
— Senti. Fiquei sabendo do que houve em casa de Marianinha.
— João Henrique contou.
— D. Pérola contou a mamãe, e ele explicou como foi.
— Não ficou triste?
— Eu? Por quê?
— Você gosta do Ulisses.
Ela enrubesceu. Ele continuou: — Não negue. Você gosta dele.
— Estava enganada. Não o conhecia. Agora, sinto que nunca gostei realmente dele. Foi coisa de criança.
— Não sofreu com o que aconteceu?
— Nem um pouco.
— Melhor assim.
Ficaram calados alguns segundos, depois ela disse:
— Tenho pensado muito no que me disse sobre Luciana.
— Sim?
— Sim. Tenho tido algumas dúvidas. Ontem quando João Henrique falou sobre o Ulisses e Luciana, pensei que ele poderia ter inventado tudo para vingar-se.
— Então ele inventou algo. Ele fez intrigas sobre Luciana como eu suspeitava.
— Sim. Ele disse coisas graves e sérias.
— Conte-me tudo.
— Não posso. São coisas de família.
— Não posso ser indiscreto, mas afirmo que seja o que for que ele tenha inventado, Luciana é inocente.
— Tem certeza? Talvez você não saiba certas coisas...
— Sei o bastante para dizer isso. Luciana é uma moça muito digna, correta e ama muito a você e a toda sua família.
— Gostaria muito de acreditar!
— Você gosta dela!
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—Ela era minha melhor amiga. Era como se fosse da família.
Jarbas colocou as mãos nos braços de Maria Lúcia, olhou-a bem nos olhos e pediu:
— Venha comigo. Vamos ver Luciana.
Maria Lúcia estremeceu:
— Não posso! Minha mãe não permitiria!
— Confie em mim. Pedirei a D. Maria Helena para levá-la a uma confeitaria e iremos à casa dela.
Maria Lúcia, trêmula, pelo prazer de sair com ele de um lado e a possibilidade de rever Luciana de outro, excitada não sabia o que responder.
— Venha — disse ele — vamos até a sala. D. Maria Helena vai permitir.
Maria Helena não só permitiu como sentiu-se agradavelmente surpreendida. Jarbas estaria pretendendo namorar sua filha? Claro que sim. Como não notara? Ela se arrumara melhor, estava mais bonita. Começou a pensar que Jarbas seria o genro ideal. Bonito, fino, educado, rico, honesto, amigo da família.
Uma vez no carro, Maria Lúcia assustada considerou:
— Não será impróprio aparecer assim, sem avisar? Ela me receberá?
— Tanto ela quanto D. Egle ficarão felizes em abraçá-la.
Jarbas abraçou-a com carinho, segurando entre as suas a mão gelada da moça.
— Acalme-se — recomendou. — Há muito já deveria ter feito isto. Abra o seu coração, conte-lhes o que aconteceu. Tenho certeza de que tudo se esclarecerá.
— Você acha?
— Estou certo disso.
Quando Jarbas tocou a sineta, Maria Lúcia trêmula lutava para dominar a emoção. Luciana abriu a porta e vendo-os foi tomada de forte emoção.
— Maria Lúcia! — disse e correu abrir o portão do jardim, abraçando-a carinhosamente.
Maria Lúcia abraçou-a também e não conteve o pranto, chorando copiosamente. Quando se dominou um pouco, Luciana disse:
— Vem, minha querida. Vamos entrar. Soou a hora de esclarecermos muitas coisas. Temos muito que conversar.
Egle abraçou-a com carinho. Maria Lúcia não conseguia parar de chorar. Seus sentidos soluços eram eloqüentes o bastante para dizer o quanto havia sido dolorosa para ela aquela separação.
— Venha, Jarbas — convidou Egle. — Vamos para outra sala. Elas têm muito que conversar.
Quando os dois se afastaram, Luciana fez Maria Lúcia sentar-se no sofá e sentou-se a seu lado, segurando as frias mãos dela entre as suas.
— Estou muito feliz com sua visita. — disse. — Sei que tem algo a me dizer. Há muito desconfio que o afastamento de vocês teve algum motivo. Suspeito o qual tenha sido. Gostaria de saber a verdade.
— Eu também. Quando eu soube o que o Ulisses fez à Marianinha, não consegui tirar a dúvida da minha cabeça. Vim aqui saber a verdade. Gostaria que não mentisse para mim. Por mais dolorosa que seja, eu quero saber. Não agüento mais.
— O que quer saber?
— Sobre você e meu pai.
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— Então é isso? Você já sabe?
— Então é verdade? Você e ele...
— Foi há muitos anos. Aconteceu antes dele conhecer sua mãe.
— Do que está falando?
— Dele e de minha mãe.
— Sua mãe?
— Sim. Ele a conheceu antes de sua mãe. No tempo em que ele era estudante em S. Paulo. Depois, no Rio, começou a namorar sua mãe e casou-se com ela. Quando eu nasci, ele já estava casado.
— Não estou entendendo. Quer dizer que você conhecia meu pai?
— Não. Vou contar-lhe tudo como aconteceu, sem omitir nada.
Segurando as mãos de Maria Lúcia, Luciana contou detalhadamente o que sabia do passado, o encontro com o pai no cemitério, a maneira pela qual resolvera apresentar-se em casa dele.
Maria Lúcia, comovida, começava a entender muitas coisas sobre o relacionamento dos país. Quando Luciana acabou, ela não se conteve:
— Você é minha irmã! Por isso gostei de você logo que a vi! Meu Deus! Como fomos injustos com você! Que vergonha!
— Eu pensei que D. Maria Helena houvesse descoberto a verdade e não me perdoasse pelo fato de haver ocultado. Tive receio de que ela não me aceitasse. Sou uma filha bastarda. Sei como ela é exigente com suas relações.
— Você é uma moça digna. Isso é o que importa. Estou orgulhosa de ser sua irmã. Mamãe sequer desconfia dessa possibilidade.
— Então por que me afastou de vocês?
— Ulisses. Ele disse que...
Ela parou envergonhada:
— Fale, o que foi?
— Ele disse que você e papai.. - eram... amantes. Que ele havia até comprado esta casa.
Luciana empalideceu. Essa idéia jamais lhe ocorrera.
— Como puderam acreditar? Nem me deram chance de me defender!
— Uma noite, ele trouxe mamãe aqui e ela viu quando papai saiu abraçado a você na varanda, ele a beijou ao despedir-se.
— Ele fez isso! Que maldade! Ela acreditou!
— Acreditou. Ela viu com os próprios olhos. Jamais poderia pensar que ele fosse seu pai!
— Por que não me disse nada? Eu teria explicado tudo. Papai também não sabe disso. Ele estava tão feliz, agora que descobriu que a ama, e estão vivendo melhor. Várias vezes desejou contar-lhe a verdade.
— Mamãe precisa saber de tudo. Não quero que ela continue a julgá-la capaz de tanta falsidade.
— Certamente. Mesmo que ela não me aceite agora, precisamos sossegar seu coração. Avalio seu sofrimento com essa calúnia. No momento em que eles reataram e constataram seu amor!
— Ela sofreu muito. Lutou para esconder, mas eu vi. Fomos a Petrópolis e lá, eu a ouvia andar pelo quarto à noite, e no dia seguinte, ela ficava abatida. Receei que adoecesse.
— Você me odiou.
— Não. Eu não podia odiá-la, mesmo acreditando naquela calúnia. Mas
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confesso que sofri muito.
Luciana abraçou-a com carinho.
— Abençoado Jarbas, que conseguiu trazê-la aqui hoje.
— Ele sempre tentou convencer-me a vir.
— Ele a quer muito bem.
O rosto dela coloriu-se.
— Você acha mesmo? Não estará com pena de mim?
— Não. Ele ama-a muito. Tanto que faz tudo para vê-la feliz.
— Penso que estou gostando dele. Fui ingênua com Ulisses. Ele fingiu que me amava.
— Chegou a isso?
— Sim. Quando falou de você, não acreditei. Ele me beijou, disse que ficaria sempre a meu lado, que me amava. Que eu podia confiar. Pediu segredo com minha família, que ele me pediria em casamento no momento propicio. Fazia tudo pelo meu bem e para defender minha mãe. Acreditei.
Luciana indignada esforçava-se para controlar-se.
— Ele teve a coragem!
— Depois de tudo, quando mamãe me proibiu de ver você, e disse que presenciara o fato, ele desapareceu. Quase não freqüentava nossa casa e quando aparecia era com João Henrique e nem me notava. Descobri que não me amava. Quando soube que pedira a mão de Marianinha, não pensei que ela fosse recusar.
— Você sofreu com isso.
— Um pouco. Mas, ontem, quando João Henrique falou o que ele fizera, descobri que estivera enganada. De algum tempo para cá, eu mudei. Já não pensava nele.
— Não? Pensava em algum outro?
— Para você, posso contar. Uma tarde, Jarbas me confessou seu amor e me beijou. Senti uma emoção muito forte, como eu nunca sentira com o beijo do Ulisses. E desde esse dia, quando penso nele, sinto um calor no corpo, meu coração bate forte. Gostaria que me beijasse de novo.
Luciana sorriu:
— Você está se apaixonando por ele. Desejo que seja amor. Ele certamente a fará muito feliz.
— Em casa todos o apreciam.
- É um homem de bem. Além disso, um moço bonito, tem todas as qualidades.
— E seu noivo? Ouvi contar que vai se casar.
Luciana abraçada a Maria Lúcia, contou-lhe tudo a respeito de José Antônio, quanto o amava. Entretidas, as duas continuaram trocando confidências.
Finalmente, Egle e Jarbas reapareceram. Havia na copa um lanche saboroso. Egle convidou-os a saboreá-lo.
— Antes, vovó, quero que saibam a razão do afastamento de D. Maria Helena.
Em poucas palavras, expôs os fatos e os dois, surpreendidos, não esconderam a indignação.
— Isso é bem do Ulisses — reconheceu Jarbas. — Desde os tempos de colégio, nunca deixou passar uma ofensa sem revide. Não pensei que chegasse a tanto.
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— Depois do que me contou sobre Marianinha, ele é capaz de muito mais. — considerou Egle.
— O que pensa fazer? — indagou Jarbas a Luciana.
— Claro que esclarecer tudo. Não posso permitir que D. Maria Helena sofra e prejudique sua vida com o marido por causa disso. Contudo, não devo procurá-la. Embora atingida por essa calúnia, o passado não me pertence. Falarei com papai. Gostaria que você, Maria Lúcia, não dissesse nada a sua mãe. Esse assunto deverá ser resolvido entre ela e ele. Agora que descobriram que se amam, precisam entender-se, explicar-se. Para que esse amor se modifique, não pode haver nenhuma sombra entre eles.
Egle assentiu com a cabeça.
— Tem razão, Luciana. Essa conversa será definitiva entre eles.
- Vou pedir a papai que venha aqui e o colocarei a par de tudo.
- E você? Não vai defender-se? Pensei em chegar em casa e dizer a mamãe o quanto nos enganamos.
Luciana sacudiu a cabeça.
— Não. Eu não tenho culpa de nada. Não preciso de defesa. Ele é quem deverá entender-se com ela.
— Eu não quero que ela me afaste de você — disse Maria Lúcia. — Se ela proibir-me de vê-la, não vou obedecer. Fugirei de casa.
Luciana olhou-a surpreendida. Essa atitude vindo dela, mostrava que ela havia mudado.
— Faria isso por mim?
— Sim. Faria também por mim. Hoje percebi que apesar de tudo, dentro de mim eu sentia que podia confiar em você. Sentia saudades. Pensava em você, no que me dizia, como você fazia as coisas. Senti muito sua falta. Quero estar com você, eu gosto de você, e não deixarei que ninguém me impeça.
Luciana abraçou-a, beijando-a na face.
— Saber o que quer e lutar por isso, é meio caminho para a felicidade — disse Luciana olhando para Jarbas com intenção.
— Vamos ao lanche — sugeriu Egle e desta vez foi atendida prontamente.
Quando deixaram a casa de Luciana, Maria Lúcia parecia outra pessoa. Corada, olhos brilhantes, voltara a ser a moça que ele aprendera a amar. No trajeto da volta, esforçou-se para controlar o desejo de tomá-la nos braços e beijá-la de novo. Não queria aproveitar-se da situação. Ela passara por momentos de forte emoção.
— Obrigada. — disse ela de repente. — Se não fosse você, eu não estaria tão feliz!
— Adoro vê-la feliz!
— Estive pensando. O que me disse no outro dia é mesmo verdade? Você gosta mesmo de mim? Seja sincero. Não me engane.
— Eu não teria coragem de enganá-la. Se não fosse verdade, eu não teria dito. Depois, você não sentiu? Quando a beijei, pensei morrer de emoção. Não percebeu? Acha que isso se pode fingir?
Jarbas abraçara-a sentindo que seus escrúpulos desapareciam. Ela tão próxima, olhos brilhantes, lábios entreabertos, cheia de emoção, fazia-o esquecer tudo o mais.
— Eu a amo! — disse — Muito! Muito!
Beijou-a repetidas vezes e ela abraçou-o também, sentindo vontade que aquele momento não acabasse. Depois, ele com voz trêmula disse-lhe
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baixinho:
— Será verdade o que estou sentindo? Você não me recusa? Você me quer, ainda que seja um pouco? Diga. Posso ter esperanças?
— Sim. Não sei se isso é amor. Mas nunca senti nada assim antes. Queria que o dia de hoje não se acabasse.
— Meu amor! Se me quiser, serei o homem mais feliz do mundo! Você é tudo o que eu sonhei.
Maria Lúcia passou os braços no pescoço dele e beijou-o levemente nos lábios. Comovido, Jarbas estreitou-a de encontro ao peito e eles ficaram abraçados, sentindo o coração bater descompassado, mas ao mesmo tempo uma deliciosa sensação de alegria e de paz.
Ao chegarem em casa, Maria Lúcia assustou-se.
Meu Deus! Já escureceu! Mamãe vai ralhar comigo.
— Nos demoramos mais do que o previsto. Pedirei desculpas a D. Maria Helena. Não quero que nos impeça de sair novamente.
Ela sorriu feliz. Quando entraram na sala, Maria Helena levantou-se olhando-os curiosa. Percebeu logo o rosto emocionado de Maria Lúcia.
— Espero que me desculpe, D. Maria Helena. Ficamos conversando e nos entretemos tanto que não percebemos o tempo passar.
José Luiz sentado em gostosa poltrona, observava-os.
— De fato é tarde. Não pensei que demorassem tanto.
— A culpa foi minha — tornou Jarbas. — Sinto muito.
— A culpa também foi minha — disse Maria Lúcia — A conversa estava tão boa que eu não vi passar o tempo.
Maria Helena ficou boquiaberta. Sua filha nunca tivera uma atitude como essa. Era sempre evasiva, reticente, tímida. Algo acontecera e ela ainda não sabia se era bom.
— Você sabe que não pode ficar tanto tempo fora de casa.
— Quando sairmos de novo, prometo pensar nisso.
José Luiz olhou para Maria Helena. Estaria ouvindo bem?
— Certamente, minha filha — respondeu ela educadamente.
Jarbas agradeceu a compreensão deles e despediu-se. Maria Lúcia foi para o quarto.
— Você ouviu? — indagou Maria Helena quando se viu a sós com o marido.
— Sim, O que está havendo? Jarbas e Maria Lúcia estarão namorando? Terei entendido bem?
— Tudo faz crer que sim. É surpreendente! Eles abusaram para um primeiro passeio, porém, gosto dele, é excelente partido para nossa filha.
— Quanto a isto, concordo. Ela parece diferente. Estará apaixonada por ele?
Maria Helena balançou a cabeça e sorriu:
— Quem diria! Parecia tão sonsa, tão boba, conquistar logo um moço como ele! Será mesmo que ele se interessa por ela?
— Por que a levaria a passear? Nunca fez isso antes. Depois eles pareciam diferentes, havia um brilho em seus olhos!
— Se isso for verdade, nem acredito. Maria Lúcia terá condições de casar-se, dirigir uma família?
— Por que não? O amor remove montanhas.
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O rosto de Maria Helena sombreou-se.
— Veremos isso. — disse.
Afastou-se. José Luiz notou sua súbita tristeza. Teria ciúmes da filha? Ainda se fosse com João Henrique, poderia entender, mas com Maria Lúcia era loucura. Ela nunca fora apegada a ela. Pensou em Luciana, sentiu saudades. Estar com ela era como sair numa manhã clara de primavera e sentir o sol. Sempre se sentia revigorado ao visitá-la.
No dia seguinte à tarde, foi procurá-la. Depois do abraço carinhoso, Luciana disse alegre:
— Esperava-o com impaciência. Ontem Maria Lúcia esteve aqui.
— Aqui? Então...
— Jarbas a trouxe.
— Pensei que... Isto é... nós, Maria Helena e eu imaginamos que eles estivessem namorando. Foi a primeira vez que Jarbas convidou-a para sair. Nos enganamos.
Luciana sorriu balançando a cabeça com graça:
— Não. Não se enganaram. Jarbas é apaixonado por ela há algum tempo. Ela agora parece interessar-se por ele.
— Então é verdade?
— Talvez seja um pouco cedo para dizer. Se Maria Lúcia quiser, Jarbas ficará feliz.
— Quem diria! Mas, o que ela veio fazer aqui?
Luciana em poucas palavras narrou-lhe o que sabia. José Luiz reagiu indignado:
— Aquele patife já está preso, caso contrário acertaríamos contas. Que maldade! Nunca pensei que ele chegasse a esse ponto. Afinal, sempre foi recebido em nossa casa como um filho!
— É lamentável, papai. Posso avaliar a tristeza de D. Maria Helena.
— Ela me conhece, como pôde imaginar-me capaz de uma atitude dessas? Sempre respeitei a família. E você, ela acreditou que fosse capaz de tanta desfaçatez?
— Pai, o ciúme cega as pessoas. D. Maria Helena nos viu abraçados tarde da noite. Presenciou seu beijo de despedida. O que mais poderia pensar?
Eu sou culpado. Deveria ter-lhe contado a verdade. Você é minha filha,
orgulho-me disso. Vou procurá-la e esclarecer tudo.
— Será melhor. Vocês se amam. Para que a união de ambos se complete, não deve haver nenhuma sombra, nenhuma dúvida ou desentendimento. Deixe o orgulho de lado. Seja sincero, fale dos seus sentimentos. Tenho certeza de que D. Maria Helena compreenderá.
— Tem razão, Luciana. Não quero que esse mal-entendido dure um dia mais. Hoje mesmo conversaremos. Vou reconhecer você como minha filha. Não desejo que ninguém mais se julgue no direito de insultá-la.
— Pai, isso não será preciso. Dentro de menos de um mês, estarei casada. O nome de José Antônio será suficiente para colocar-me ao abrigo de qualquer mal-entendido.
— Apesar disso, vou reconhecê-la.
— D. Maria Helena pode sentir-se constrangida. É muito conhecida na sociedade. Não há necessidade de perturbá-la. Ela já sofreu muito por causa do passado. Não é justo que continue a ser molestada por algo que nem sabia.
José Luiz balançou a cabeça negativamente.
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— Não. Se Maria Helena não souber compreender, se ela, apesar dos muitos benefícios que recebeu de seu coração generoso, preferir o preconceito, a hipocrisia social, então, não é a mulher que eu pensei. Nesse caso, será muito difícil conservar nosso amor. Para amá-la, sinto que preciso admirá-la. Todos esses anos, mesmo perdido nos sonhos do passado, eu a admirava como mulher de classe, como mãe, como esposa. Sempre me orgulhei dela. Sempre a tive como extraordinária mulher. Quando descobri que ela não era fria e indiferente como eu pensava, foi fácil amá-la. Mas o amor tem um encanto que de repente pode romper-se.
— Não é o caso de D. Maria Helena.
— Talvez não. Mas para isso, preciso saber. É preciso que nossas almas se desnudem para avaliar nossos sentimentos.
Luciana suspirou pensativa.
— Não se preocupe, filha. A você não cabe nenhuma responsabilidade sobre o nosso relacionamento. Ao contrário. Você sempre mostrou-me coisas que eu desconhecia, fez-me pensar. Tentou nos unir. Mas isso é uma coisa minha e dela. A partir desse entendimento, nossa vida vai mudar.
— Para melhor. Eu sei.
— Quero você junto com o resto da família! Você soube conquistar o
amor e a amizade de todos.
— Estou feliz por sentir o seu carinho e a estima de Maria Lúcia. Nossa amizade não precisa de mais nada. Não gostaria de aborrecer D. Maria Helena, constrangê-la. Por favor! Não force nenhuma situação.
José Luiz acariciou o rosto dela levemente.
— Não se preocupe. Sei como fazer as coisas.
Ele despediu-se. No caminho de volta, deu largas ao seu desagrado. Maria Helena o julgara capaz de tanta baixeza! Jamais teria o desplante de colocar uma amante em convivência íntima com sua filha. Como pudera pensar isso dele? É verdade que durante anos declinara o seu papel de marido, mas logo agora, que haviam se entendido, que lhe confessara seu amor, que demonstrava maior interesse em ser feliz ao lado dela e da família!
Que espécie de homem ela julgaria que ele fosse? Diante do que
presenciara, por que não lhe contara ainda que fosse para exigir-lhe explicações? Por que representara uma comédia, fingindo amá-lo, guardando a mágoa no coração?
Julgara Luciana sem ao menos ouvi-la ou dar-lhe chance de explicar.
Maria Helena fora longe demais. Ulisses armara o laço, mas ela aceitara, sem questionar. Sentia-se decepcionado, triste. Como conviver com alguém capaz de esconder seus verdadeiros sentimentos? A situação entre eles tornara-se insustentável. Percebia que havia chegado a hora da verdade. Não podiam continuar convivendo sem esclarecer bem o sentimento que os unia.
Se fosse antigamente, ele simplesmente voltaria à indiferença costumeira
e esqueceria os últimos acontecimentos. Mas, agora, não se conformava mais com isso. Havia percebido o quanto Maria Helena significava em sua vida. Sentia que a amava. Desejava estar com ela, beijá-la, sentir seu amor. Não se contentava mais com sua frieza, ou sua indiferença. Precisava conhecer a extensão dos sentimentos dela. Saber se ela fingia amá-lo apenas para o bem-estar da família, para mantê-la unida, bem como ao nome. Sabia como isso era importante para ela. Até que ponto o amava? Teria aceitado seu amor apenas por convenção?
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Passou a mão pelos cabelos angustiado. Teria a vida se vingado dele a esse ponto? Ele que se casara por interesse, agora que estava apaixonado por ela, estaria recebendo o troco?
Esse pensamento fê-lo inquietar-se ainda mais. Estava farto de meias situações. Queria saber.