Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 12 de 23

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Quando a Vida Escolhe

Capítulo 12 · A partir da noite do baile, a…

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CAPÍTULO 12

A partir da noite do baile, a vida em casa de Maria Helena começou a

modificar-se. Nos serões das terças-feiras, Maria Lúcia interessou-se pelos jogos de salão e pelas danças. Contudo, insistia na presença de Luciana para dar-lhe coragem. Maria Helena, a pedido da filha, convidara-a e Luciana aceitara desejosa de consolidar a mudança de Maria Lúcia. Queria que ela se sentisse mais segura e depois, poderia afastar-se sem problemas.

A moça entusiasmara-se com o sucesso e desejava aceitar todos os

convites para festas. Maria Helena aprovava feliz, percebendo o olhar surpreendido dos amigos e conhecidos, diante das mudanças de Maria Lúcia. Se antes desejava esconder a filha, agora, exibia-a satisfeita. Percebendo que a filha só saia com Luciana, convidava a moça para acompanhá-la.

Assim, Luciana passou a tornar-se assídua e até de certa forma

indispensável. E onde elas estavam, Jarbas e Ulisses apareciam infalivelmente. Maria Helena estava contente. Casar a filha parecera-lhe um sonho quase impossível, agora tudo estava diferente.

Por outro lado, preocupava-a João Henrique que insistia em manter o

noivado. Uma noite, trouxera Antonieta ao serão e pedira-lhe para tocar. Fora preciso muito controle para fazê-lo. Notara o olhar de admiração. dos homens e alguma contrariedade nas mulheres. João Henrique a apresentou como noiva, e Maria Helena sabia que os comentários seriam inevitáveis.

José Luiz, adivinhando a contrariedade da esposa, desdobrou-se em

gentilezas com todos, temeroso de que Maria Helena não conseguisse conter-se. Fingiu não perceber o interesse dos homens e o ciúme das mulheres.

João Henrique estava feliz. Cercava Antonieta de atenções, fitava-a com

adoração. Maria Helena concentrou-se na execução, empenhando-se para dominar a irritação. Algumas senhoras a fitavam com ar de reprovação.

— Querem ver como eu reajo, pensou ela com raiva. Perdem seu tempo. Não lhes darei o gosto de fazer um escândalo.

Para alívio de José Luiz, Maria Helena tocou com o brilhantismo de sempre. Quando terminou, ele aproximou-se dela oferecendo-lhe o braço.

— Foi uma bela execução — disse com um sorriso. — Posso oferecer-lhe uma taça de champanhe?

— Obrigada, — respondeu ela, passando o braço no dele.

Dirigiram-se à mesa onde José Luiz apanhou duas taças encheu-as e tomando uma ofereceu-a à esposa.

— Beba que lhe fará bem — disse baixinho.

Ela obedeceu enquanto ele por sua vez levava a outra aos lábios.

João Henrique aproximou-se trazendo Antonieta:

— Mamãe, Antonieta deseja cumprimentá-la pela brilhante execução.

— É verdade — disse ela — a senhora é uma virtuose.

Maria Helena conseguiu sorrir.

— Obrigada — disse.

Havia um brilho malicioso nos olhos de Antonieta, ou havia sido impressão? José Luiz interveio com delicadeza, tentando entabular uma conversação, falando de assuntos amenos.

Antonieta respondeu educadamente, e João Henrique satisfeito com a atitude do pai, procurou participar. Só Maria Helena mantinha-se silenciosa. Não lhe agradava a postura desabrida daquela mulher, que parecia olhá-los

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com a condescendência de uma rainha aos seus vassalos. E o mais submisso deles era João Henrique. Tão orgulhoso, tão sério. Como se deixara apanhar assim?

Quando os dois se afastaram, José Luiz disse baixinho:

— Controle-se. Não dê a perceber o quanto está contrariada com esse noivado.

— Estou fazendo o possível. Não posso entender como João Henrique se envolveu dessa forma.

José Luiz sorriu:

— Eu até que posso. Devemos reconhecer que ela é uma bela mulher.

— Ele está cego! Viu como a fitava?

— Está apaixonado. Seja paciente e procure dissimular. Ele a odiará se demonstrar qualquer animosidade contra ela.

— Meu Deus! Logo João Henrique que sempre foi tão meu amigo! — Ele está fascinado. Precisamos manter a calma. Maria Helena fez o possível para conter-se e enquanto atendia seus

convidados, procurando demonstrar uma alegria que não sentia, desejava ardentemente que a reunião acabasse.

A partir daquela noite, João Henrique insistia com Antonieta para que

freqüentasse sua casa. Depois de acompanhá-lo a um jantar e de comparecer a dois saraus, Antonieta recusou os novos convites.

— Por quê? — indagou ele.

— Porque não gosto das pessoas e não tenho vontade de ir. Ele ficou magoado.

— Refere-se a meus amigos?

— Essa gente puritana e recalcada que me olha como se eu fosse uma

messalina. Quem eles pensam que são? Um bando de ignorantes, não enxergam um palmo diante do nariz.

— Não pode falar assim. Todos a trataram muito bem. — Sei o que estou dizendo. Não irei mais e está decidido. — Minha família a recebeu muito bem.

— Deixe sua família fora disso. Não vamos brigar. Não tenho vontade de

ir e não irei.

— Está bem. Também não quero brigar. Seja como quiser. — Faremos novos amigos. Deve haver gente mais interessante nesse Rio

de Janeiro.

Ele não disse nada. Conhecia-lhe o temperamento voluntarioso. Com o

tempo, haveria de fazê-la compreender.

Porém, ela não compreendeu. A cada dia tornava-se mais irritadiça. Saía

todas as noites procurando divertir-se, e João Henrique acompanhava-a contrariado. Tentou conversar, dizer-lhe que gostaria de ficar um pouco em casa. Estava cansado, não tinha tempo para estudar, dedicar-se ao trabalho, nem dinheiro para sustentar esse ritmo de vida. Mas Antonieta não lhe dava ouvidos. Ele que fosse descansar. Ela iria com os novos amigos. João Henrique emagreceu, perdeu o apetite.

Maria Helena preocupava-se. José Luiz chamou o filho para conversar.

Percebeu claramente que as coisas não iam bem.

— Não há nada — garantiu ele.

— Você parece cansado, não se alimenta direito, sua mãe preocupa-se.

João Henrique sorriu:

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— Estou bem. Mamãe exagera. Agora que Maria Lúcia melhorou, ela voltou toda atenção para mim.

— Não seja injusto. Sua mãe pensa em seu bem-estar. Você não parece bem. Tem se alimentado mal. Por que não nos conta o que o está afligindo?

— Tudo está muito bem. Minha única preocupação agora é o dinheiro. O emprego esperado não sai, você sabe, tenho despesas. Antonieta é mulher de classe. Freqüenta lugares finos. Minha mesada tem sido insuficiente.

— Precisa de dinheiro?

João Henrique corou ao responder:

— De fato. Minha situação financeira não é boa.

— Contudo, dobrei sua mesada depois do noivado. Não acha que estão gastando além de suas posses?

— Minha felicidade é mais importante do que um punhado de moedas. Somos ricos. Não posso fazer triste figura com minha noiva.

— Sua mesada parece-me capaz de suprir essas necessidades a não ser que você fosse dado a vícios, coisa que não acontece.

João Henrique olhou para o pai escolhendo as palavras para responder. Estava inquieto e atormentado.

— Pai, a mesada que recebo é generosa. No entanto, Antonieta vivia na Europa, está habituada a gastar sem reservas. Eu não gostaria de ser mesquinho, de contar os tostões.

José Luiz olhava-o pensativo. O problema se agravara antes do que ele pensava.

— Filho, — retrucou calmo. — Se ela vai casar com você, deve aprender a viver de acordo com suas posses.

— Por isso desejo trabalhar o mais rápido possível. Preciso ganhar dinheiro.

— Tem razão. Contudo, para fazer carreira, subir na vida, conquistar prestígio, bens, posição, é preciso tempo e esforço. Ninguém consegue isso de um dia para o outro. Sua noiva é mulher experiente. Deve saber que está compromissada com um moço recém-formado, cujos pais são ricos, mas cujos bens virá a herdar só quando eles morrerem. Fora disso, embora possa receber ajuda, não deverá esperar uma situação brilhante. Começar a vida com seus próprios recursos, subir pelos próprios méritos, valoriza o caráter, solidifica a união.

- Você não pensava assim quando se casou — retrucou ele, sentido. Ouvindo a alusão sobre o motivo de seu casamento, José Luiz enervou-

se. Procurou controlar-se. Não queria brigar com o filho. Manteve silêncio por alguns instantes, buscando agir com calma. Quando falou, estava sério e em sua voz havia um tom de tristeza.

— É verdade. Hoje porém, se pudesse voltar atrás, agiria de outra forma. Percebendo a atitude digna do pai, João Henrique arrependeu-se. — Desculpe. Não pretendia ofendê-lo. Na verdade estou mesmo inquieto,

queria muito resolver esse problema, casar o quanto antes.

— Casamento não resolve problemas, meu filho. Ao contrário, muitas

vezes os acentua. É uma decisão muito séria que modificará toda sua vida. Não pode ser precipitada.

— Pai, eu amo Antonieta. Sinto-me inseguro. Tenho medo que ela se

arrependa. Com o casamento, tudo passará.

— Engana-se. A maior segurança da união entre duas pessoas é o amor,

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o entendimento, a harmonia. Quando não há essas coisas, o casamento não se manterá.

João Henrique passou a mão nervosamente pelos cabelos em um gesto

desalentado. José Luiz penalizou-se. Teve a certeza de que aquele compromisso não se prolongaria.

— Felizmente não é esse o nosso caso. Nós nos amamos e nos

compreendemos. O único problema é do dinheiro. Você podia arranjar isso, se quisesse. Tem poder, prestígio...

— Está bem, — concordou ele para acalmá-lo. — Vou providenciar. — Faça isso. Um posto importante, quem sabe até no governo, e tudo

estará bem. Por favor, papai. Ser-lhe-ei eternamente grato.

— Está bem. Vou tentar.

— Obrigado.

— Trate de acalmar-se. Quero vê-lo mais satisfeito e disposto. João Henrique sorriu. Tudo haveria de dar certo.

José Luiz não pretendia facilitar as coisas para que aquele casamento se

efetuasse. Percebia claramente o que estava acontecendo. Não acreditava que Antonieta levasse o compromisso até o fim. João Henrique sofreria, mas acabaria por conformar-se. Era jovem e o tempo cura todas as feridas.

Pensou em seu amor perdido, em Suzane e concluiu: quase todas.

Embora sua ferida estivesse menos dorida, a saudade e o arrependimento ainda o faziam lamentar as atitudes passadas. Procurou Maria Helena, pondo-a a par da conversa com o filho.

— Sinto que esse noivado não vai durar — concluiu. — Deus o ouça! — respondeu ela, radiante.

— João Henrique vai sofrer. Está envolvido até o pescoço. — Não importa. Ele esquecerá. Há de encontrar outras moças que o

ajudarão a equilibrar-se. Acha mesmo que as coisas estão mal entre eles?

— Acho. Tenho a impressão que ela não se acostuma longe do palco e

da vida noturna. João Henrique não fica em casa uma noite sequer. Tem chegado de madrugada.

— Esta mulher está arrastando João Henrique para a devassidão. Ele

nunca foi dado a excessos. E se ela não desistir? Não podemos deixar que se casem. Seria uma desgraça!

— Ele não tem condições financeiras para casar-se de imediato. Quer

que eu lhe arranje um emprego que lhe dê condições.

— Você não fará isso!

— Não a curto prazo. As coisas não vão bem entre eles. Não quero que

ele fique ressentido comigo. Procurarei arranjar-lhe um bom lugar que o valorize e o coloque em condições de mostrar seu conhecimento. Mas farei isso de forma a não facilitar seu casamento.

— Devia ignorar esse pedido. Seria mais seguro.

José Luiz balançou a cabeça em negativa.

— Não. A amizade de João Henrique é muito importante para mim. Ele

nunca se aproximou. Agora que estamos nos entendendo, não desejo afastá-lo.

Maria Helena olhou-o admirada. Seu marido estava mudado. Parecia-lhe mais humano, mais próximo, muito diferente de outros tempos.

— Só não quero que ele estrague sua vida casando-se com aquela mulher.

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— Vamos esperar. Deus conduz a vida e sempre faz o melhor. Sem perceber, ele repetia palavras de Luciana. Maria Helena calou-se.

Aprendera que as coisas sempre podem melhorar.

Luciana e Maria Lúcia estavam na sala de música. A moça conseguira

que sua aluna tocasse certinho algumas peças, mas percebia que ela distraía-se constantemente interessada em outras coisas. Decidiu esclarecer o que ocorria.

— Vamos conversar um pouco — sugeriu.

Maria Lúcia suspirou aliviada.

— Você não se interessa muito pelo piano.

— Não é bem assim. O que posso fazer se não tenho habilidade?

Luciana sorriu.

— Cuidado. Não seria mais adequado dizer que não sente vontade de tocar?

— Não. Se eu disser isso, minha mãe se zangará. Depois, você não será mais minha professora. Irá embora.

Luciana olhou-a nos olhos enquanto dizia:

— Você pode viver bem sem mim. Tem capacidade suficiente para isso.

Maria Lúcia levantou-se do banquinho e aflita segurou as mãos de Luciana.

— Você não vai me abandonar! Por favor. Diga que ficará. Eu prometo estudar, esforçar-me. Não terá motivos para me deixar.

Luciana abraçou-a:

— Não penso em deixá-la. Quem disse isso? Acontece que podemos ser amigas, nos ver, sem que precise dar-lhe aulas de piano. Nada vai mudar entre nós. Só que não acho justo você estudar contrariada, e sua mãe pagar por aulas que não lhe são proveitosas.

— Tenho medo que você não venha mais aqui. Fico esperando ansiosamente sua chegada.

— Nossa amizade está acima de todas as coisas. Lembre-se sempre disso. Agora seja franca, gosta ou não de estudar piano?

Maria Lúcia permaneceu pensativa por alguns segundos, depois disse: — Adoro quando você toca, D. Egle e até mamãe. Mas não me sinto

capaz.

— Você gosta de música, aprendeu a dançar com muita facilidade. — Mas ao piano sou sofrível, reconheço.

— Pense bem. Na vida, em momentos de decisão como este, é sempre

bom parar e observar cuidadosamente nossos verdadeiros sentimentos. Faça isso. Procure descobrir o que torna sua aula de piano tão sem interesse para você. Seja honesta, corajosa. Não tenha medo de ver a verdade. Reconhecer que não gosta de fazer uma coisa, não significa que seja incapaz de fazer maravilhosamente outras, às vezes, até mais importantes e que lhe dariam mais valor do que esta. Aprender a se conhecer é o caminho mais seguro para a felicidade.

— Está bem. Tentarei. Mas prometa que se não houver mais aulas de

piano você virá aqui da mesma forma.

— Se você desejar, e sua mãe permitir, virei sempre. Na aula seguinte, Luciana encontrou Maria Lúcia a sua espera. Assim

que se recolheram à sala de música, foi logo dizendo

— Fiz o que você mandou. Pensei, procurei sentir no fundo do coração e

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já sei do que não gosto.

— Ótimo. O que é?

— Essas músicas complicadas. São enfadonhas, tristes. Deixam-me

deprimida. Gostaria de tocar músicas da moda. Gosto de melodias brejeiras, alegres.

— Estamos descobrindo que você é uma moça alegre e gosta de

divertir-se. Podemos tentar de forma diferente. Ao invés de clássicos, aprenderá chorinhos, valsas, modinhas.

— Minha mãe não concordará. É exigente e não transige quanto a isso.

Ou clássico, ou não tocarei nada.

— Sua preferência por esse tipo de música não é tão forte como pensa.

— Porquê?

— Porque não está querendo lutar e defender seus gostos, suas idéias. Só merece conquistar o que deseja, quem luta para isso.

— Você fala, mas mamãe é dura. Não permitirá.

— Se você se considera derrotada antes de tentar, não há nada para

fazer. E diz que gosta de lutar.

— Gostaria sim. Acredite. Adoraria no sarau tocar as músicas que os

jovens apreciam. Quando fomos ao sarau em casa dos Menezes, adorei ver a

Celinha ao piano. Reparou como todos se alegraram quando ela tocou?

Gostaria de ser como ela. Cheguei a invejá-la.

— Está bem. Tentaremos. Falarei com D. Maria Helena. Veremos o que acontecerá.

— Tenho medo!

— Não diga isso. Onde está a moça corajosa que venceu todos os medos e brilhou no baile de João Henrique?

Maria Lúcia respirou fundo.

— Seja — disse. — Vamos tentar.

— Assim é que se fala. O que pode acontecer de pior?

— Ela dizer não...

— Esse fato não vai mudar nada. Continuaremos como até agora por mais algum tempo, depois voltaremos ao assunto.

— Você é maravilhosa. O que seria de mim sem você?

— Um dia descobriria a verdade e reagiria por si mesma.

Naquela tarde mesmo, ao encerrar a aula, Luciana pediu para conversar com Maria Helena. Uma vez em seu gabinete, foi direto ao assunto.

— Precisamos conversar sobre as aulas de piano de Maria Lúcia.

— Estou à sua disposição. Sente-se, por favor.

Luciana acomodou-se em graciosa poltrona enquanto sua interlocutora sentava-se em outra.

— A senhora tem observado Maria Lúcia ao piano. O que acha?

— Ela tem melhorado. Toca as peças sem errar, é já uma grande vitória.

— Estive pensando que isso não é o bastante para tornar-se um bom executante. É preciso mais.

— É preciso talento, — aduziu Maria Helena, — e isso certamente ela não possui. É isso que quer me dizer.

— Não é exatamente isso, D. Maria Helena. Na Inglaterra, no

conservatório, há grandes professores. Todos eles interessados em estudar esse assunto. Fizeram experiências, pesquisas e chegaram a alguns resultados que muito têm contribuído para o incentivo e o desenvolvimento dos

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instrumentistas.

Maria Helena interessou-se:

— Acha que poderiam ajudar Maria Lúcia a ser uma boa musicista? — Talvez. Tem ajudado muitas pessoas. Por que não ela? — Pode ser. Na época moderna tudo está se modificando. — Diga-me, D. Maria Helena, quando decidiu que Maria Lúcia deveria

estudar piano, o que esperava dela? Que se tornasse uma grande virtuose como a senhora, ou outras pessoas famosas?

— Não. Desde o começo eu sabia que Maria Lúcia não tinha condições

de tornar-se grande executante.

— Desculpe insistir nesse ponto. É muito importante para o progresso

dela que falemos sobre isso.

— É inusitado, Luciana. Mas, concordo. Você tem conseguido com ela o

que ninguém jamais conseguiu. Hoje, graças a você, minha filha é uma moça normal, como as outras. Confio em sua capacidade e em seus métodos de ensinar, embora sejam diferentes.

— Desde o início, a senhora acreditava que ela não se tornaria grande

pianista.

— Isso mesmo.

— Mas insistiu ainda assim.

— Sim. Pensei que a música pudesse sensibilizá-la, despertar-lhe o

interesse pela vida. Maria Lúcia foi sempre uma menina triste. A música tem o dom de falar aos sentimentos.

— É verdade. A senhora pensou com acerto. Se surpreenderia se eu lhe

dissesse que sua filha talvez possa tornar-se uma brilhante musicista?

Maria Helena abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer.

Ficou silenciosa alguns momentos, depois disse:

— Você é surpreendente. Pensei que fosse dizer-me que seria melhor desistir dessas aulas; porque ela jamais faria isso bem, e agora... Você realmente me surpreende. Não sei o que dizer... Em que se baseia para afirmar isso?

— Em uma frase que li de famoso autor: o prazer está associado ao

processo de aprendizagem. Só faremos o melhor, se tivermos prazer em

fazê-lo. Não foi assim com a senhora? Não adorava suas aulas de piano?

— É verdade. Eram para mim os melhores momentos. Aguardava-os

ansiosamente.

— Ainda hoje quando toca, seu rosto de transfigura de prazer e alegria. — É verdade. Contudo, não vejo a relação que isso possa ter com minha

Filha. Ela sempre sentou-se ao piano Como quem vai ao sacrifício.

— Tem razão nisso também. A princípio também pensei como a senhora

e procurei incentivar-lhe o gosto pelas artes e tudo o mais. Observando

sempre, COnversando com ela, cheguei à Conclusão de que ela não aprecia

os CLÁSSICOS.

— Como? A verdadeira música. A música eterna!

— É verdade. A senhora já tem sensibilidade para sentir isso. Mas, as pessoas são diferentes umas das outras. O que comove uma até as lágrimas, deixa a outras indiferentes, e a recíproca é verdadeira.

— Onde quer chegar?

— Descobri que Maria Lúcia não aprecia os clássicos, mas comove-se e adora músicas populares. Aprender a executá-las seria para ela enorme

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prazer.

— Ela disse isso?

— Não claramente Receia desgostá-la Ficou entusiasmada com a Celinha.

Maria Helena, cenho fechado, olhava séria e calada.

— Disse-me que gostaria de ser como ela e alegrar uma festa.

— Fazer ruídos Como eles fazem.

— Os Costumes estão mudando. Ela é jovem, deseja viver sua época.

— O que sugere?

— Gostaria da sua permissão para ensinar-lhe algumas peças atuais. Terei cuidado ao escolher. Isso lhe daria prazer e incentivaria ao estudo. Depois que ela adquirir gosto, talvez desenvolva a sensibilidade que lhe falta.

Maria Helena suspirou.

— Está bem. Confio em seu bom senso. Confesso que se conseguir que ela se torne uma executora brilhante, será um milagre. Vamos ver isso.

Luciana levantou-se alegre.

— Obrigada, D. Maria Helena. A senhora é uma mulher compreensiva e inteligente. Obrigada mais uma vez.

Notando a euforia de Luciana, Maria Helena sorriu. Gostava muito dela e agradecia a Deus havê-la colocado em seu caminho.

Luciana voltou a entrar na sala de música, olhos brilhantes de prazer. Maria Lúcia a esperava.

— D. Maria Helena concordou. — disse alegre.

— Parece mentira! Só você poderia ter conseguido isso! Qual nada. Sua mãe mostrou-se muito compreensiva.

Maria Lúcia entusiasmou-se:

— Quero aprender aquele chorinho que mexeu com todas as pessoas. Ao ouvi-lo, até os mais sisudos marcavam o compasso com os pés.

— Eu sei. Vovó tem boa coleção de Nazaré. Na próxima aula, trarei algumas para escolhermos juntas. Sabe o que faremos?

— O quê?

— Surpreenderemos a todos. Você vai escolher duas músicas e estudá-las. Quando estiver tocando bem, as executará em nosso sarau.

Maria Lúcia enrubesceu, mas seus olhos brilharam de prazer.

— Acha que serei capaz?

— Você é capaz. Resta descobrir se quer e se gosta.

— Vamos tentar. Se você diz, eu acredito.

Uma vez em casa, Luciana aconselhou-se com a avó que a ajudou a escolher algumas músicas que, mesmo sendo populares e estando em voga, ofereciam boas condições de desenvolvimento e aprendizagem.

Egle entusiasmou-se:

— Agora, tenho comigo que essa menina irá apreciar as aulas. Nem todos possuem sensibilidade para sentir a música mais elaborada. Os jovens gostam de coisas alegres.

Luciana concordou satisfeita. A partir daquele dia, Maria Lúcia passou a interessar-se mais pelo piano, e sua execução melhorou sensivelmente. Luciana estava radiante. Além do mais, descobrira que Maria Lúcia possuía belo timbre de voz, muita afinação e gostava de cantar, embora tentasse não demonstrar. Com o tempo, haveria de fazê-la mudar de idéia.

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Em pouco tempo, Maria Lúcia executava as duas músicas bastante bem. Um chorinho e uma valsa de Nazaré.

— Amanhã à noite, no sarau, você vai executá-la.

Apesar de um pouco assustada, os olhos de Maria Lúcia brilharam.

— Acha que conseguirei? Uma coisa é tocar só para nós, outra é estar na frente de todos. Sinto um frio no estômago. Não tenho coragem!

— Por quê? Você está tocando muito bem. Não tem que se preocupar. Ë só fazer de conta que estamos só nós duas aqui, como sempre.

— Ulisses virá?

— Ele e Jarbas nunca faltam. São os primeiros a chegar e os últimos a sair. O Jarbas só tem olhos para você.

— Eu preferia que fosse o Ulisses. Esse só olha para você.

— Um dia ele há de perceber que perde seu tempo e desistirá.

— Você não gosta mesmo dele?

— Claro que não.

— Eu não gostaria de magoá-la. Vê-se que ele está interessado e que vocês não namoram porque você não quer.

— Não quero mesmo. Não me interesso por ele. Não pretendo namorá-lo.

— Posso tentar conquistá-lo? Você não me julgaria mal?

— Por certo que não.

— Sonho com ele todas as noites. Estou apaixonada.

Luciana sentiu-se apreensiva. Não considerava Ulisses capaz de fazer Maria Lúcia feliz. Jarbas seria mais indicado, possuía caráter, delicadeza e parecia sinceramente interessado nela.

— Não sente nada pelo Jarbas? Ele está apaixonado por você.

— Pode ser. Mas prefiro Ulisses. Quando ele aparece, meu coração bate mais forte, fico trêmula. Quando danço com ele, a emoção toma conta de mim.

Luciana sorriu:

— Não tem jeito mesmo.

— Acha que ele pode interessar-se por mim?

— Claro. Entretanto, às vezes, essas coisas não acontecem como imaginamos. Sabe por quê?

— Não.

— Porque Deus escolheu para nós coisa melhor.

— Para mim, se Ulisses me amasse, seria a felicidade.

— Você pensa assim agora. Imagina apenas. Não experimentou viver com ele num relacionamento dia-a-dia. Deus sabe tudo e quando não nos dá o que desejamos é porque nos reserva coisa melhor.

— Gosto dele. Se ele não quiser, não caso com mais ninguém.

— Não seja radical nem injusta. Está agindo como uma criança mimada. Como pode saber o futuro? Quem nos garante que esse seu entusiasmo não acabe e amanhã apareça outra pessoa que desperte seu afeto de forma mais profunda e verdadeira do que agora?

— Não creio. Não me interesso por mais ninguém. Luciana mudou de assunto dizendo:

— Vamos repassar essas músicas. Amanhã surpreenderemos a todos.

Maria Lúcia riu excitada. Tocar no sarau! Teria coragem?

— Imagine que o sarau já começou. Todos estão aqui, sua mãe, seu pai, Ulisses, Jarbas, todos.

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— Fico tremendo só em pensar.

— Eles estão aqui, mas você vai tocar só para mim, só eu estou perto de você. Vai ser um sucesso. Vamos. Toque.

Maria Lúcia, trêmula, obedeceu e aos poucos foi se firmando e conseguiu tocar bem.

— Muito bem, — aprovou Luciana. — Vamos novamente e durante a execução vai sentir a música e mergulhar nela de corpo e alma. Nesta sala não haverá mais ninguém. Só você, a música e seus sentimentos. Não existe mais nada. Deixe-se levar e perceba o que cada nota desperta dentro de você.

Maria Lúcia começou a tocar, e Luciana continuou falando e a moça aos poucos foi se envolvendo com a melodia, sentindo vibrar de emoção, num crescendo de entusiasmo e expressão. Quando ela terminou, Luciana não conteve o entusiasmo. Beijou-a na face carinhosamente. Maria Lúcia olhou-a emocionada sem encontrar palavras para descrever o que lhe acontecera. Luciana considerou:

— Hoje, sua alma conseguiu expressar-se através da música. Sinto que daqui para frente você encontrará seu próprio caminho dentro da arte.

— Foi uma emoção muito forte. Não posso explicar. Uma felicidade, alguma coisa muito grande, muito boa, dentro de mim.

— Eu sei. Amanhã fará tudo bem, tenho certeza.