Quando a Vida Escolhe

Zibia Gasparetto · Capítulo 16 de 23

Páginas do PDF

Quando a Vida Escolhe

Capítulo 16 · Maria Helena acordou feliz no dia seguinte.…

156

 

CAPÍTULO 16

Maria Helena acordou feliz no dia seguinte. Por que demorara tanto a demonstrar ao marido seu amor? Por causa do seu orgulho, por tantos anos sofrera amargando o ciúme e a angústia. Como fora tola! Felizmente havia mudado. Rompera a barreira do preconceito e descobrira que, ao contrário do que havia temido, o marido correspondera a seu amor, com ardor inesperado.

Aquela noite juntos fora maravilhosa. Seu coração batia descompassado só em lembrar-se dos seus arroubos, de como dera vazão a sua paixão, deixando-a fluir plenamente com toda força do seu coração, vencendo os preconceitos da sua educação repressora e formal.

Sentia-se feliz. Agora acreditava nó amor do marido. Sentira nos seus olhos, nos beijos, na sua emoção, que ele a queria e essa descoberta aumentava sua felicidade. Quanto tempo perdido! Mas agora, dali por diante, tudo seria felicidade. Seu filho logo esqueceria o amor impossível e por certo encontraria alguém que o fizesse feliz.

Naquela tarde, quando Luciana chegou para tocar com Maria Lúcia, ela sentia-se alegre e bem-disposta. Recebeu a moça com carinho e fez-lhes companhia na sala de música, interessando-se pelas novidades musicais que Luciana trouxera, atrevendo-se a tocar uma delas, apesar de tratar-se de uma música popular.

Luciana sentia-se contente observando a mudança de Maria Helena, e Maria Lúcia, surpreendida com a atitude materna, inibia-se. Quando ela saiu, considerou:

— O que aconteceu com ela? Nunca a vi desse jeito. Ainda ontem estava irritada e num dos seus piores dias.

— Alguma coisa boa. Ela estava radiosa, feliz.

— É estranho!

— Por quê?

— Ela nunca foi assim.

— Pois eu gostei. D. Maria Helena parece outra pessoa.

— Não sei, não. Será que ela está bem da cabeça?

Luciana riu francamente.

— Claro. Afinal não era você quem se queixava do ar “duro” de sua mãe? Ela está mudando e para melhor. Não lhe parece?

— Bem... de fato... hoje ela estava como sempre eu desejei que fosse, mas...

— Mas nada. Vamos aproveitar esse estado de espírito, essa alegria só nos fará bem.

— Você sabe que ando triste. Ulisses não tem aparecido.

— Jarbas tem vindo sempre — respondeu Luciana com voz intencional.

— Ele não me interessa. Gosto de Ulisses, acho que estou apaixonada por ele.

Luciana não respondeu. Depois de alguns instantes, tornou:

— Você já tocou essa valsa? Ë linda. Experimente.

Maria Lúcia olhou a partitura e pediu:

— Toque você. Ainda não sei essa.

Luciana começou a tocar, e Maria Lúcia envolvida pela música, esqueceu a preocupação de momentos antes. Luciana contudo, pensava com tristeza na atração que Maria Lúcia sentia por Ulisses. Ele não era digno dela e não a

157

 

amava. Era a ela, Luciana, que ele dizia amar. Apesar de não corresponder a esse amor, temia que Maria Lúcia descobrisse e se sentisse preterida. Mesmo tendo mudado, ela sabia que a moça ainda não se sentia plenamente segura. Por vezes, pequenas coisas a afetavam, fazendo-a retomar, embora fracamente, algumas atitudes antigas.

Luciana sabia que Maria Lúcia ainda precisava de certo apoio para poder

definitivamente conquistar a alegria de viver. Sentia imenso carinho por ela e não desejava que nada pudesse feri-la. Ela ainda não estava madura o bastante para enfrentar os problemas da vida. Necessitava um pouco mais de tempo. Vendo-a alegre e atenta, procurou afastar a preocupação.

A porta abriu-se e João Henrique entrou, acompanhado de Ulisses e

Jarbas.

— Sabia que eram vocês! Com essa música linda! — Foi logo

abraçando Luciana e beijando a irmã.

Após os cumprimentos, João Henrique tornou:

— Fiquem aí, vou tomar um banho e desço em seguida.

Maria Lúcia estava pouco enrubescida pela surpresa, calada. Luciana

tomou a palavra:

— Vamos nos sentar. Preferem Conversar, certamente — Por favor, Continue tocando. Não queremos interromper. Essa música

é nova? — indagou Jarbas, interessado.

- É.

— É linda. Não acha, Ulisses?

— Acho. Toque por favor, desejamos ouvi-la. Ulisses a olhava com

admiração.

Luciana não disse nada. Começou a tocar e Jarbas aproximou-se de

Maria Lúcia, olhando-a embevecido.

— Está cada dia mais bonita, — disse.

A moça baixou os olhos para esconder seu desagrado. Quando ele

perceberia que ela não o queria? Temia que Ulisses, para respeitar o amigo, não a quisesse namorar. Afastou-se dele dirigindo-se ao piano, ao lado de Luciana que procurou acabar o constrangimento, animando a Participação de todos, tocando modinhas em voga e quando João Henrique voltou, o ambiente estava alegre e descontraído.

Os rapazes despediram-se e Luciana ficou um pouco mais. No fim da

tarde, ela saiu. Havia caminhado alguns passos quando Ulisses a interceptou.

— Luciana.

A moça parou. Vendo-o, esperou.

— Preciso falar-lhe.

Ela esboçou ligeiro gesto de Contrariedade.

— Estivemos juntos até a pouco. Por que só agora?

- É um assunto sério, particular Não podia falar diante dos Outros.

— De que se trata?

— Venha, permita-me levá-la em casa. Pelo Caminho Conversaremos. — Não. Diga logo o que quer. Pretendo ir só para casa.

— Talvez mude de idéia depois da nossa conversa. Vamos pelo menos sair daqui, a não ser que não se importe que nos vejam juntos.

Luciana pensou em Maria Lúcia e Concordou:

— Está bem, vamos andar um pouco. Quando se distanciaram, Ulisses disse com voz suave:

158

 

— Luciana, desde que a vi não consigo pensar em outra coisa. Estou

apaixonado!

Luciana parou constrangida.

— Por favor, — pediu — não continue.

— Estou louco por você! Não tenho dormido, não consigo sequer

trabalhar!

Ele tomou as mãos dela apertando-as com força enquanto ela tentava

desvencilhar-se.

— Ulisses! Contenha-se!

— Não suporto mais sua indiferença! Você vai ser minha de qualquer

jeito.

Enrubescida, Luciana, tendo conseguido desvencilhar-se, disse nervosa: — Deixe-me em paz. Não estou interessada em você. Nunca alimentei

suas esperanças.

Dominado pela emoção, ele tentou abraçá-la.

— Por favor! Estamos na rua. Contenha-se!

Ele sequer parecia ouvi-la, abraçou-a forte, tentando beijar-lhe os lábios.

Assustada, Luciana empurrou-o com força sem conseguir sair. A rua estava deserta, já começava a escurecer. Ulisses puxou-a para um portão, encostando-a, dizendo sôfrego:

— Hoje não a deixarei ir, antes que saiba o quanto a quero. Beijava-a na face ardorosamente, apertava-a com redobrada força.

Luciana entre a raiva e o receio, sentia o rosto afogueado e lágrimas descerem pelas faces. Atordoada, colérica, disse com voz que lutou por tornar firme:

— Deixe-me! Tenho nojo de você. Jamais serei sua! Ulisses sentiu como se lhe jogassem um balde de água fria. — Por que se faz de santa? Não se envergonha com o que faz? Eu é que

deveria ter nojo de uma mulher tão baixa como você! Não vai se livrar de mim dessa forma. Vai agora comigo para um lugar onde estaremos a sós, ou eu conto tudo que sei! Desmascaro sua pouca vergonha. Quero ver se D. Maria Helena a receberá depois de saber a verdade!

Imobilizada pela surpresa, Luciana sentiu um mal-estar. Tudo começou

rodar à sua volta. Foi quando o portão em que estavam encostados abriu-se e uma voz enérgica perguntou:

— O que está acontecendo aqui?

Luciana antes de desmaiar ainda teve forças para dizer:

— Socorro! Ajude-me por favor!

Quando acordou, estava estendida em um sofá, e um rosto ansioso de

mulher debruçava-se sobre ela. Ainda atordoada, Luciana perguntou:

— O que aconteceu? Onde estou?

— Graças a Deus. Está tudo bem. Você desmaiou. Está em minha casa. Luciana tentou sentar-se, conseguindo com alguma dificuldade. — Desculpe — disse.

— Sente-se melhor?

— Sim. — calou-se recordando-se de Ulisses. — Meu Deus, foi horrível! — Tome um pouco de água. Sentir-se-á melhor. Luciana aceitou, segurando o copo com as mãos trêmulas. Fixou o rosto

da sua interlocutora Gostou dela. Mulher dos seus quarenta, rosto bonito e agradável, fina e bem vestida. Acanhada, Luciana passou as mãos pelos cabelos, tentando ajeitar-se e compor a roupa em desalinho

159

 

— Meu nome é Margarida Fontes, e este é meu irmão José Antônio. Foi aí que Luciana viu o moço alto, magro, cabelos castanhos, rosto

claro, queixo proeminente, testa larga, traje elegante, que se levantara de uma poltrona e aproximava-se.

— Meu nome é Luciana. Sou muito grata pela ajuda. Lamento haver dado

trabalho. Agora creio que já posso ir. Vovó deve estar preocupada, já escureceu!

— Apesar do Susto que dei no atrevido, não é aconselhável sair sozinha

por essas ruas escuras.

— Antes de ir, gostaria de dizer que jamais poderei agradecer o bastante.

O portão abriu na hora em que eu não suportava mais.

— Eu estava lendo na varanda quando ouvi um ruído e vi o portão

balançar. Aproximei-me, ouvi o que diziam. vi logo que você estava sendo agredida. Abri o portão e aproveitando o Susto do patife, dei-lhe um safanão e obriguei-o a correr. Segurei você que desabou de vez. Chamei Margarida para ajudá-la.

— Gostaria de dizer que não tenho nada com esse moço. Ele é amigo dos filhos do Dr. José Luiz e D. Maria Helena. freqüenta a casa , parecia-me de bons costumes. D. Maria Helena quase sempre manda seu chofer levar-me. Hoje, como era cedo, não quis molestá-la. Ulisses esperou-me fora e não aceitou minha recusa. Eu nunca lhe dei esperanças. Além de não amá-lo, Maria Lúcia, a quem estimo como irmã, é apaixonada por ele.

— Pobre moça — comentou Margarida. — Apaixonar-se por um patife

desses.

— Seja como for, não desejo desgostá-la.

— Sugiro que se acautele. Ele é um mau-caráter. Nunca erro quando

vejo um — sugeriu José Antônio com um sorriso.

Possuía lindos dentes e covinhas quando sorria. Luciana sorriu mais

calma.

— Não facilitarei mais as coisas para ele. Agora preciso ir. Vovó deve

estar preocupada.

— Mandei preparar um chá, aceita uma xícara? — ofereceu Margarida. — É muita gentileza sua, contudo preciso ir.

— Aceite. Dez minutos a mais não fará diferença. Depois José Antônio a

levará até sua casa.

— Não será preciso. Estou bem, creia.

— Depois do que houve, não podemos permitir que saia sozinha.

Acompanharei você até sua casa.

— Está bem. Aceito.

— Assim é que se fala — concluiu Margarida levantando-se.

— Vou mandar servir o chá.

Saiu da sala e José Antônio esclareceu:

— Se não aceitasse, ela se sentiria frustrada. Sente-se por favor.

Conhece os Camargo há muito tempo?

— Sou amiga de Maria Lúcia. Dou-lhe aulas de piano. — É professora de piano?

— Oh! Não. Maria Lúcia vivia muito só e foi a forma de nos tornarmos

amigas. Com o tempo, isso aconteceu realmente. Nos vemos com freqüência. Tanto eu quanto vovó gostamos muito de toda a família.

— Meu pai foi muito amigo do pai de D. Maria Helena. Quando eu era

160

 

criança, freqüentávamos a casa. Depois do falecimento de papai e do casamento dela, não nos vimos mais.

— Vamos ao nosso chá — convidou Margarida aparecendo na porta.

Depois de lavar as mãos e certificar-se de que estava apresentável,

Luciana sentou-se junto com seus novos amigos, ao redor de pequena mesa redonda, arrumada com gosto, onde além do bule fumegante de chá, havia deliciosas iguanas.

Mas isso é uma festa! — Considerou Luciana com Sinceridade A vida é uma festa. Há que reverenciá-la constantemente

— Concordou Margarida.

Luciana sorriu alegre. Sentia-se á vontade como se os conhecesse de longa data. Após o chá e a palestra agradável, Luciana quis ir para casa. Não desejava preocupar a avó. Abraçou Margarida com gratidão e ofereceu a casa. Abraçaram-se novamente e Luciana instalou-se no automóvel de José Antônio.

Sentia-se protegida e grata. Indicou o caminho e ao chegar Convidou-o a

conhecer Egle. Esta os recebeu com atenção, convidando José António a entrar. Na sala, instalados em gostosa poltrona, Luciana relatou o que lhe acontecera. Egle ouviu em silêncio. Luciana finalizou:

— Pois é, vovó, o Sr. José António e D. Margarida foram muito gentis. Ele fez questão de acompanhar-me.

— Não sei como agradecer-lhe. — disse Egle com um brilho agradecido nos olhos. — Luciana é um tesouro. Deus os abençoe por isso.

— Qualquer pessoa teria feito o que fizemos. Apesar do fato desagradável, creia que tivemos grande prazer em conhecer Luciana. Margarida a apreciou muito.

— São tão bondosos! — Considerou Luciana.

— Conheço minha irmã. Afirmo que ela não faz amizades com facilidade. Creia, conhecê-la nos deu grande prazer.

A conversa decorreu amena e quando José Antônio se despediu, as

duas sentiam que haviam reencontrado novos amigos. Quando se viram a sós, Egle comentou:

— Que moço agradável. Fino, educado. Tenho impressão de conhecê-lo de algum lugar.

— Você também? Vovó, sinto que tanto ele quanto Margarida são Velhos conhecidos.

— A irmã também é gentil?

— Muito. Gostei dela. Alegre, cheia de vida, ao mesmo tempo, serena. Ë uma pessoa iluminada.

— Tanto assim?

— A primeira impressão foi essa.

— Você nunca se engana com as pessoas. Quero conhecê-la. Podemos

convidá-la a um chá aqui em casa. Desejo agradecer o que fez por você.

— Seria ótimo.

— Quanto a Ulisses, não deve mais sair sozinha.

— Ele estava furioso. Parecia louco. Falava coisas que não entendi.

Ameaçou-me.

— Seria prudente falar a Maria Helena. Não é aconselhável receber esse

patife dentro de casa.

Luciana abanou a cabeça.

161

 

— Não. Isso não. Ele é amigo de João Henrique. Depois Maria Lúcia

sofreria muito.

— Seria bom para ela. Essa ilusão poderá prejudicá-la. — Tenho medo. Ela ainda não se sente de todo segura. Tenho comigo

que ela acabará por esquecer essa paixão, sem que seja preciso fazê-la sofrer.

— Ainda penso que seria melhor contar.

— Não. Tomarei cuidado. O que houve hoje não se repetirá. Não andarei

sozinha pelas ruas. Pelo menos por algum tempo, até que esse capricho de Ulisses passe.

— Você quer jantar?

— Não, vovó. O lanche de Margarida estava delicioso. Egle passou o braço sobre os ombros de Luciana: — Quem sente Deus dentro do coração sempre está protegida. Hoje, em

minhas preces de gratidão, estarão mais duas pessoas.

Luciana concordou:

— Sabe, vovó? Apesar de tudo, sinto-me muito feliz.

Luciana não viu o brilho comovido nos olhos de Egle, nem sentiu que além dela, Suzane também abraçava-a com amor. Seu pensamento estava longe, perdido em uns olhos castanhos e profundos, um sorriso franco e acolhedor, que lhe dava ares de menino e colocava deliciosas covinhas em sua face.