Revista Espírita - Décimo Ano (1867)
Setembro
REVISTA ESPIRITA
JORNAL
DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
10o ANO NO. 9 SETEMBRO 1867
CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (1)
(1) Este artigo é extra ido de uma obra nova que colocamos neste momento no prelo e que aparecerá antes do fim deste ano. Uma razão de oportunidade nos levou a publicar por antecipação este extrato na Revista; apesar de sua extensão, acreditamos dever inseri-lo em uma só vez para não interromper o encadeamento das idéias. A obra inteira será do formato e do volume de O Céu e o Inferno.
1. - Pode-se considerar o Espiritismo como uma revelação? Neste caso, qual é o seu caráter? Sobre o que está fundada a sua autenticidade? Por quem e de que maneira foi ela feita? A Doutrina Espírita é uma revelação no sentido litúrgico da palavra, quer dizer, ela é, em todos os pontos, o produto de um ensino oculto vindo do Alto? Ela é absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade toda feita, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazer uso de suas faculdades, uma vez que lhes pouparia o trabalho da pesquisa? Qual pode ser a autoridade do ensino dos Espíritos, se não são infalíveis e superiores à Humanidade? Qual é a autoridade da moral que eles pregam, se essa moral não é outra senão a do Cristo que é conhecida? Quais são as verdades novas que nos trazem? O homem tem necessidade de uma revelação e não pode encontrar em si mesmo, e em sua consciência, tudo o que lhe é necessário para conduzir-se? Tais são as perguntas sobre as quais importa estar fixado.
2. - Definamos primeiro o sentido da palavra revelação.
Revelar, derivado da palavra voile (do latim velum), significa literalmente tirar o véu; e, no figurado: descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar, a mais geral, se diz de toda coisa ignorada que vêm à luz, de toda idéia nova que coloca sobre o caminho daquilo que não se sabia.
Deste ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da natureza são revelações, e pode-se dizer que há para nós uma revelação incessante; a astronomia nos revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a geologia, a formação da Terra; a química, a lei das afinidades; a fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.
3. - O caráter essencial de toda revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é fazer conhecer um fato; se a coisa for falsa, este não é um fato, e, por conseguinte, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos não é uma revelação; se ela for atribuída a Deus, Deus não podendo nem mentir nem se enganar, ela não pode emanar dele; é preciso considerá-la como o produto de uma opinião pessoal.
4. - Qual é o papel do professor diante de seus alunos, senão o de um revelador? Ele lhes ensina o que não sabem, e que não teriam nem o tempo, nem a possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que trouxeram, cada um, seu contingente de observações, e da qual se aproveitam aqueles que vêm depois deles. O ensino é, pois, em realidade, a revelação
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de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem, a outros que as ignoram, e que, sem isto, seriam sempre ignoradas.
5. - Mas o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que encontrou por si mesmo: é um revelador primitivo; ele traz a luz que, cada vez mais, se vulgariza. Onde nisto estaria a Humanidade, sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempos em tempos?
Mas o que são os homens de gênio? Por que são homens de gênio? De onde vêm? Que se tomam? Notemos que a maioria traz ao nascer faculdades transcendentes e conhecimentos inatos, que um pouco de trabalho basta para desenvolver. Eles pertencem muito realmente à Humanidade, uma vez que nascem, vivem e morrem como nós. Onde, pois, hauriram esses conhecimentos que não puderam adquirir quando vivos? Dir-se-á, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito do que um legume mais grosso e mais saboroso que um outro.
Dir-se-á, com certos espiritualistas, que Deus os dotou de uma alma mais favorecida do que a do comum dos homens? Suposição inteiramente ilógica, uma vez que acusaria Deus de parcialidade. A única solução racional deste problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu por muito mais tempo; que, por conseguinte, mais adquiriu e mais progrediu do que aqueles que são menos avançados. Em se encarnando, traz o que sabe, e como ele sabe muito mais do que os outros, sem ter necessidade de aprender, é o que se chama um homem de gênio. Mas aquilo que ele sabe não é menos o fruto de um trabalho anterior e não o resultado de um privilégio. Antes de renascer, era, pois, Espírito avançado; ele se reencarna, seja para fazer aproveitar aos outros daquilo que sabe, seja para adquirir mais.
Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos esforços de sua inteligência; mas, entregues às suas próprias forças, esse progresso é muito lento, se não forem ajudados por homens mais avançados como o escolar o é por seus professores. Todos os povos têm seus homens de gênio, que vieram, em diversas épocas, dar um impulso e tirá-los de sua inércia.
6. - Desde que se admita a solicitude de Deus para com suas criaturas, por que não se admitiria que os Espíritos capazes, por sua energia e a superioridade de seus conhecimentos, de fazer avançar a Humanidade, se encarnando pela vontade de Deus em vista de ajudar o progresso num sentido determinado; que recebem uma missão, como um embaixador recebe uma de seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm fazer, senão ensinar aos homens as verdades que esses ignoram, e que teriam ignorado ainda durante longos períodos, ? fim de lhes dar um degrau com a ajuda do qual poderão se elevar mais rapidamente? Esses gênios que aparecem através dos séculos, como estrelas brilhantes, deixando atrás de si um longo rastro luminoso sobre a Humanidade, são os missionários, ou, querendo-se, os messias. Se não ensinassem nada aos homens além do que sabem estes últimos, sua presença seria completamente inútil; as coisas novas que lhes ensinam, seja na ordem física, seja na ordem filosófica, são revelações.
Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos, cujas idéias atravessaram os séculos.
7. - No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particularmente das coisas espirituais que o homem não pode saber por si mesmo, que não pode descobrir por meio de seus sentidos, e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou por seus mensageiros, seja por meio da palavra direta, seja pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados sob o nome de profetas ou
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messias, quer dizer, enviados, missionários, tendo missão de transmiti-la aos homens. Considerado sob este ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão.
8. - Todas as religiões tiveram seus reveladores, embora todos estivessem longe de ter conhecido toda a verdade, tinham suas razões de ser providenciais, porque eram apropriados ao tempo e ao meio onde viviam, ao gênio particular dos povos aos quais falavam, e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros de suas doutrinas, não comoveram menos os Espíritos, e, por isto mesmo, semearam germes de progresso que, mais tarde, deveriam desabrochar, ou desabrochariam um dia, ao sol do Cristianismo. Portanto, é errado que lhe lhes lance anátema em nome da ortodoxia, porque um dia virá em que todas essas crenças, tão diversas pela forma, mas que repousam, em realidade, sobre um mesmo princípio fundamental: Deus e a imortalidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, porque a razão terá triunfado dos preconceitos.
Infelizmente, em todos os tempos, as religiões foram instrumentos de dominação; o papel de profeta tentou as ambições secundárias, e se viu surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, ao favor do prestígio deste nome, exploraram a credulidade em proveito de seu orgulho, de sua cupidez ou de sua preguiça, achando mais cômodo viver às expensas de seus patetas. A religião cristã não esteve ao abrigo desses parasitas. A esse respeito, chamamos uma atenção séria sobre o capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo: "Haverá falsos Cristos e falsos profetas."
9. - Há revelações diretas de Deus aos homens? É uma pergunta que não ousaríamos responder nem afirmativamente, nem negativamente, de maneira absoluta. A coisa não é radicalmente impossível, mas nada lhe dá a prova certa. O que não nos poderia ser duvidoso é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se penetram de seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica às quais pertencem e o grau de seu saber pessoal, podem haurir suas instruções em seus próprios conhecimentos, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, ver mesmo mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, puderam, às vezes ser tomados pelo próprio Deus.
Essas espécies de comunicações nada têm de estranhas para quem conhece os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: Pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela visão dos Espíritos instrutores e nas visões e aparições, seja em sonho, seja no estado de vigília, assim como se vêem muitos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer que a maioria dos reveladores é composta de médiuns inspirados, audientes e videntes; de onde não se segue que todos os médiuns sejam reveladores, e ainda menos os intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.
10. - Só os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas sabe-se agora que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos, e que os há deles que se dão falsas aparências; É o que fez dizer São João: "Não creiais em todos os Espíritos, mas vede antes se os Espíritos são de Deus."(Ep. cap. IV, v. 4.)
Pode, pois, ali ter revelações sérias e verdadeiras, como as há hipócritas e mentirosas. O caráter essencial da revelação espirita é o da eterna verdade. Toda revelação manchada de erros ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, freqüentemente em contradição com a lei do Sinai, são a obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo se abrandando, essas mesmas leis caem no desuso, ao passo que o Decálogo permaneceu de pé, como o farol da Humanidade. O Cristo dele fez a base de seu edifício, ao passo que aboliu as
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outras leis; se elas fossem a obra de Deus, teria evitado de tocá-las. O Cristo e Moisés são os dois grande reveladores que mudaram a face do mundo, e aí está a prova da missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.
11.- Uma importante revelação se cumpre na era atual; é a que nos mostra a possibilidade de se comunicar com os seres do mundo espiritual. Este conhecimento não é novo, sem dúvida, mas tinha permanecido até os nossos dias, de alguma sorte, no estado de letra morta, quer dizer, sem proveito para a Humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações a tinham abafado sob a superstição; o homem era incapaz de tirar disso alguma dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, de compreender-lhe a importância, e fazer dela sair a luz que deveria clarear o caminho do futuro.
12. - O Espiritismo tendo nos feito conhecer o mundo invisível, que nos cerca, e no meio do qual vivemos sem disto desconfiar, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam, e por conseqüência o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica da palavra.
13. - Por sua natureza, a revelação espírita tem um duplo caráter; prende-se, ao mesmo tempo, à revelação divina e à revelação científica. Prende-se ã primeira, naquilo em que seu advento é providencial, e não o resultado da iniciativa e de um desejo premeditado do homem; e os pontos fundamentais da doutrina são o fato do ensino dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre as coisas que ignoravam, que não poderiam aprender por si mesmos, e que lhes importa conhecer hoje que estão maduros para compreendê-las. Ela prende-se à segunda, naquilo em que este ensino não é privilégio de nenhum indivíduo, mas que é dado a todo o mundo pela mesma via; que aqueles que o transmitem e aqueles que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; que não fazem abnegação de seu julgamento e de seu livre arbítrio; que o controle não lhe é interditado, mas ao contrário recomendado; enfim, que a Doutrina não foi ditada de uma só vez, nem imposta à crença cega; que ela é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos colocam sob seus olhos, e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara, e das quais tira ele mesmo as conseqüências e as aplicações. Em uma palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que sua fonte é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos, e que a elaboração é o fato do trabalho do homem.
14. - Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente do mesmo modo que as ciências positivas, quer dizer, que aplica o método experimental. Fatos de uma ordem nova se apresentam, que não podem se explicar pelas leis conhecidas; ele os observa, os compara, os analisa, e dos efeitos remontando às causas, chega à lei que os rege; depois, deduzindo-lhe as conseqüências e procurando-lhe as aplicações úteis. Ele não estabelece nenhuma teoria preconcebida; ele não colocou como hipótese, nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da Doutrina; ele concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou com evidência da observação dos fatos, e assim os outros princípios. Não foram os fatos que vieram depois para confirmar a teoria, mas a teoria que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação, e não o produto da imaginação.
15. - Citemos um exemplo. Passa-se, no mundo dos Espíritos, um fato muito singular, e que, seguramente, ninguém teria suspeitado, que é o dos Espíritos que não se acreditam mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o conhecem perfeitamente, não vieram dizer por antecipação: "Há Espíritos que crêem ainda viver a vida terrestre; que conservaram seus gostos, seus hábitos e seus instintos;" mas provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para nos fazer observá-los. Tendo, pois, visto
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Espíritos incertos de seu estado, ou afirmando que estavam ainda neste mundo e crendo vagar em suas ocupações comuns, do exemplo se concluiu a regra. A multiplicidade dos fatos análogos provou que isso não era uma exceção, mas uma das fases da vida espírita; ela permitiu estudar todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; de reconhecer que essa situação é, sobretudo, própria dos Espíritos pouco avançados moralmente, e que ela é particular a certos gêneros de morte; que ela não é senão temporária, mas pode durar dias, meses e até anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Ocorre o mesmo com todos os outros princípios da Doutrina.
16. - Do mesmo modo que a ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este último princípio é uma das forcas da Natureza, que reage incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, disto resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro; que o Espiritismo e a ciência se completam um pelo outro; que a ciência sem o Espiritismo se encontra na impossibilidade de explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria, e que foi por ter feito abstração do princípio espiritual que ela se deteve em tão numerosos impasses; que o Espiritismo sem a ciência lhe faltaria apoio e controle, e poderia se embalar de ilusões. O Espiritismo vindo antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo que vem antes de seu tempo.
17. - Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; elas nascem, umas das outras, à medida em que encontram um ponto de apoio nas idéias e nos conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras que tendo sido cultivada, permaneceu nos erros da infância até o momento em que a física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a química, nada podendo sem a física, deveria lhe suceder de perto, para em seguida marchar de concerto em se apoiando uma sobre a outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia não se tornaram ciências sérias senão com a ajuda das luzes trazidas pela física e pela química. A geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, sentiria a falta de seus verdadeiros elementos de vitalidade; ela não poderia vir senão depois.
18. -A ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos, e de observação em observação, chegou à concepção de um único elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si mesma, é inerte; ela não tem nem vida, nem pensamento, nem sentimento; é-lhe preciso a sua união com o princípio espiritual. Se o Espiritismo não descobriu, nem inventou esse princípio, mas o primeiro, ele o demonstrou por provas irrecusáveis; ele estudou, analisou e lhe deu a ação evidente. Ao elemento material veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis doravante os dois princípios, as duas forças vivas da Natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos explica-se sem dificuldade uma multidão de fatos até então inexplicáveis. Por sua própria essência, e como tendo por objeto o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo, o Espiritismo toca forçosamente à maioria das ciências; ele não poderia vir senão depois da elaboração dessas ciências, e sobretudo depois que elas tivessem provado sua impossibilidade de tudo explicar unicamente pelas leis da matéria.
19. - Acusa-se o Espiritismo de parentesco com a magia e a feitiçaria; mas esquece-se que a astronomia tem por filha primogênita a astrologia judiciária, que não está tão distante de nós; que a química é filha da alquimia, da qual nenhum homem sensato ousaria se ocupar hoje. Ninguém nega, no entanto, que houve, na astrologia e na alquimia, o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. Apesar de suas fórmulas ridículas, a alquimia colocou sobre o caminho dos corpos simples e da lei das afinidades; a astrologia se apoiava sobre a posição e o movimento dos astros que ela havia estudado; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regiam o mecanismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição
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emprestava uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton, Keppler fizeram conhecer essas leis, que o telescópio rasgou o véu, e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar, que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso, e toda a base do maravilhoso se desmoronou.
Ocorre o mesmo com o Espiritismo com relação à magia e à feitiçaria; essas se apoiavam também sobre a manifestação dos Espíritos, como a astronomia sobre o movimento dos astros; mas na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, elas misturavam a essas relações práticas e crenças ridículas, das quais o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação fez justiça. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que aquela que existe entre a astronomia e a astrologia, a química e alquimia; querer confundi-los é provar que disso não se sabe a primeira palavra.
20. - Só o fato da possibilidade de se comunicar com os seres do mundo espiritual tem conseqüências incalculáveis da mais alta gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela, e que tem tanto mais importância, quanto espera todos os homens sem exceção. Este conhecimento não pode deixar de trazer, em se generalizando, uma modificação profunda nos costumes, no caráter, nos hábitos, nas crenças que têm uma tão grande influência sobre as relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas idéias, revelação tanto maior, tanto mais poderosa, quanto ela não está circunscrita a um povo, a uma casta, mas que atinge simultaneamente pelo coração todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.
É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira grande revelação. Vejamos em que elas diferem, e por qual laço elas se ligam uma à outra.
21. - MOISÉS, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano senhor e criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e colocou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa fé primitiva, em se depurando, deveria se derramar sobre toda a Terra.
22. - O CRISTO, tomando da antiga lei o que era eterno e divino, e rejeitando o que não era senão transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescentou a revelação da vida futura, da qual Moisés não tinha falado, a das penas e das recompensas que esperam o homem depois da morte. (Ver Revista Espirita, 1861, p. 90 e 280.)
23. -A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de que ela é a fonte primeira, a pedra angular de toda a doutrina, é o ponto de vista todo novo sob o qual faz encarar a divindade. Não é mais o Deus terrível, ciumento, vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que irriga a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga aqueles que poupam as vitimas; não é mais o Deus injusto que pune todo um povo pela falta de seu chefe, que se vinga do culpado pela pessoa do inocente, que fere as crianças pela falta de seu pai, mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansidão e de misericórdia, que perdoa o pecador arrependido, e dá a cada um segundo as suas obras; não é mais um Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos exércitos presidindo os combates para sustentar a sua própria causa contra o Deus de outros povos, mas o Pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção sobre todos os seus filhos, e os chama todos a si; não é mais o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravização dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: "Vossa verdadeira pátria não é neste mundo, ela está no reino celeste; é lá que os humildes de coração serão elevados e que os orgulhosos serão rebaixados. Não é mais o Deus que faz uma virtude da vingança e ordena restituir olho por olho e dente por dente, mas o Deus de misericórdia, que diz: "Perdoai as ofensas, se quiserdes que vos seja perdoado; restituí o bem pelo mal; não
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fazei a outrem o que não gostaríeis que vos fosse feito." Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as penas mais rigorosas, a maneira pela qual ser adorado, que se ofende na inobservância de uma fórmula, mas o Deus grande, que olha o pensamento e não se honra pela forma; não é mais, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.
24. - Sendo Deus o centro de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme à idéia que elas dão de Deus. Aquelas que fazem dele um Deus vingativo e cruel, crêem honrá-lo por atos de crueldade, pelas fogueiras e as torturas; aquelas que dele fazem um Deus parcial e ciumento, são intolerantes, elas são mais ou menos meticulosas na forma, segundo elas o crêem mais ou menos manchado das fraquezas e das pequenezes humanas.
25. - Toda a Doutrina do Cristo está fundada sobre o caráter que ele atribui à divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, e dizer: Aí está toda a lei e os profetas e dela não há outra. Somente sobre esta crença, ele pôde assentar o princípio da igualdade dos homens diante de Deus, e da fraternidade universal.
Esta revelação dos verdadeiros atributos da divindade, junto à da imortalidade da alma e da vida futura, modificou profundamente as relações mútuas dos homens, lhes impôs novas obrigações, fê-los encarar a vida presente sob uma outra luz; foi, por isto mesmo, toda uma revolução nas idéias, revolução que deveria forçosamente reagir sobre os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, por suas conseqüências é o ponto mais capital da revelação do Cristo, e do qual não se compreendeu bastante a importância; é lamentável dize-lo, é também aquele do qual se esta mais afastado, que se o tem mais desconhecido na interpretação de seus ensinamentos.
26. - No entanto o Cristo acrescenta: Muitas das coisas que vos digo não podeis ainda compreendê-las, e delas teria muitas outras a vos dizer que não compreenderíeis; é porque vos falo por parábolas; mas, mais tarde, eu vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.
Se o Cristo não disse tudo o que teria podido dizer, foi porque acreditou dever deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem em estado de compreendê-las. Como ele declara, seu ensino estava, pois, incompleto, uma vez que anuncia a vinda daquele que deverá completá-lo; ele previa, pois, que desprezariam suas palavras, que desviariam seu ensinamento, em uma palavra, que se desfariam o que fez, uma vez que toda coisa deve ser restabelecida; ora, não se restabelece senão o que tem defeito.
27. - Por que chama ele o novo Messias Consolador? Este nome significativo e sem ambigüidade é toda uma revelação. Ele previa pois, que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a insuficiência daquelas que encontraram na crença que iriam se fazer. Jamais, talvez, o Cristo foi mais claro e mais explícito do que nestas últimas palavras, as quais poucas pessoas guardaram, talvez porque evitaram de colocá-las à luz e de aprofundar-lhes o sentido profético.
28. - Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa, é que faltavam aos homens conhecimentos que estes não poderiam adquirir senão com o tempo, e sem os quais não poderiam compreendê-lo; há coisas que teriam parecido insensatas no estado dos conhecimentos de então. Completar o seu ensino deve, pois, se entender no sentido de explicar e de desenvolver, bem mais do que acrescentar-lhe verdades novas; porque ali tudo se encontra em germe; faltava a chave para entender o sentido de suas palavras.
29. - Mas quem ousa permitir-se interpretar as Escrituras sagradas? Quem tem este direito? Quem possui as luzes necessárias, se não são os teólogos?
Quem o ousa? A ciência primeiro, que não pede permissão a ninguém para fazer conhecer as leis da Natureza, e salta de pés juntos sobre os erros e os preconceitos. -
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Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todo o mundo, e as Escrituras não são mais a arca santa na qual ninguém ousava tocar o dedo, sem se arriscar de ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar às dos teólogos, e por muito esclarecidos que fossem os da Idade Média, e em particular os Pais da Igreja, no entanto, não o eram ainda bastante para não condenar, como heresia, o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e sem remontar mais alto, os de nossos dias não lançaram anátema aos períodos da formação da Terra?
Os homens não puderam explicar as Escrituras senão com a ajuda do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da Natureza, mais tarde reveladas pela ciência; eis porque os próprios teólogos puderam, de boa-fé, se enganar sobre o sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo a todo preço nele encontrar a confirmação de um pensamento preconcebido, giravam sempre no mesmo círculo, sem mudar seu ponto de vista, de tal sorte que ali não viam senão o que queriam nele ver. Por sábios teólogos que fossem, não podiam compreender as causas dependentes de leis que não conheciam.
Mas quem será juiz das interpretações diversas, e freqüentemente contraditórias, dadas fora da teologia? - O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos à medida que novos fatos e novas leis vierem se revelar, saberão fazer a parte dos sistemas utópicos e da realidade; ora, a ciência faz conhecer certas leis; o Espiritismo delas faz conhecer outras; umas e as outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda, até o Cristianismo. Quanto à teologia, ela não saberia judiciosamente escusar as contradições da ciência, então que ela não está sempre de acordo consigo mesma.
30. - O Espiritismo tomando seu ponto de partida nas próprias palavras do Cristo, como o Cristo tomou as suas de Moisés, é uma conseqüência direta de sua doutrina.
À idéia vaga da vida futura, ele acrescenta a revelação do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço, e por aí ele precisa a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.
Ele define os laços que unem a alma e o corpo, e levanta o véu que escondia, aos homens, os mistérios do nascimento e da morte.
Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde ele vai, porque está sobre a Terra, porque nela sofre temporariamente, e ele vê por toda a parte a justiça de Deus.
Ele sabe que a alma progride sem cessar, através de uma série de existências sucessivas, até que ela tenha alcançado o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus.
Ele sabe que todas as almas tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão de progredir em virtude de seu livre arbítrio; que todas são da mesma essência, e que não há entre elas senão a diferença do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e alcançarão o mesmo objetivo, mais ou menos prontamente segundo seu trabalho e sua boa vontade.
Ele sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas do que as outras; que Deus não as criou que sejam privilegiadas nem dispensadas do trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados sob o nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espíritos, como o faziam no estado de homens, mas que avançarão e se melhorarão; que os anjos ou puros Espíritos não são seres à parte na criação, mas Espíritos que alcançaram o objetivo, depois de ter seguido a fieira do progresso; que, assim, não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda criação ressalta da grande lei de unidade que rege o universo, e que todos os seres gravitam para um objetivo comum, que
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é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos às expensas dos outros, todos sendo os filhos de suas obras.
31. - Pelas relações que o homem pode agora estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, há não só a prova material da existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que religa os seres e os mortos deste mundo, e aqueles deste mundo com aqueles dos outros mundos. Ele conhece sua situação no mundo dos Espíritos; segue-os em suas migrações; é testemunha de suas alegrias e de suas dificuldades; sabe porque são felizes ou infelizes, e a sorte que espera ele mesmo segundo o bem ou o mal que fez. Essas relações o iniciam na vida futura, que pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro não é mais uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Então a morte não tem mais nada de atemorizante, porque é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.
32. - Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; cada um sofre as conseqüências diretas e naturais de suas faltas, de outro modo dito, ele é punido por onde pecou; que essas conseqüências duram tão longo tempo quanto a causa que as produziu; que, assim, o culpado sofreria eternamente, se persistisse eternamente no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um se melhorar, cada um pode, em virtude de seu livre arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre de seus excessos por tão longo tempo que não lhe ponha um fim.
33. - Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus a idéia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, freqüentemente infligidas por uma única falta, os suplícios do inferno que não pode abrandar o arrependimento mais ardente e mais sincero, ela se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial, que tudo leva em conta, não fecha jamais a porta do retorno, e, sem cessar, estende a mão ao náufrago em lugar de repeli-lo para o abismo.
34. - A pluralidade das existências, da qual o Cristo colocou o princípio no Evangelho, mas sem mais defini-lo do que muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido que lhe demonstra a realidade e a necessidade para o progresso. Por esta lei, o homem explica todas as anomalias aparentes que a vida humana apresenta; as diferenças de posições sociais; as mortes prematuras que, sem a reen-carnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antigüidade do Espírito, que mais ou menos viveu, mais ou menos aprendeu e progrediu, e que traz, em renascendo, a aquisição de suas existências anteriores. (N° 5.)
35. - Com a doutrina da criação da alma em cada existência, cai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os religa, os laços de família são puramente carnais; não são solidários de um passado em que não existiam; com a do nada depois da morte, toda relação cessa com a vida; eles não são solidários do futuro. Pela reencarnação, são solidários do passado e no futuro; suas relações se perpetuam no mundo espiritual e no mundo corpóreo, a fraternidade tem por base as próprias leis da Natureza; o bem tem um objetivo, o mal as suas conseqüências inevitáveis.
36. - Com a reencarnação caem os preconceitos de raças e de castas, uma vez que o próprio Espírito pode renascer rico ou pobre, grande senhor ou proletário, senhor ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhuma que prepondere em lógica o fato material da reencarnação se, pois, a reencarnação funda-se sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal ela funda-se sobre a mesma lei no da igualdade dos direitos sociais, e, conseqüentemente no da liberdade.
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Os homens não nascem inferiores e subordinados senão pelo corpo; pelo Espírito, eles são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que é nosso subordinado hoje, pode ter sido nosso igual ou nosso superior, talvez um parente ou um amigo, e que podemos nos tornar, por nossa vez, o subordinado daquele ao qual comandamos.
37. - Tirai ao homem o Espírito livre, independente, sobrevivente à matéria, dele fareis uma máquina organizada, sem objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio que o da lei civil, e bom para explorar como um animal inteligente. Nada esperamos depois da morte, nada nos detém para aumentar os gozos do presente; se sofre, não tem em perspectiva senão o desespero e o nada por refúgio. Com a certeza do futuro, a de reencontrar com aqueles a quem amou, o medo de rever aqueles a quem ofendeu, todas as suas idéias mudam. O Espiritismo não teria feito senão tirar o homem da dúvida quanto à vida futura, teria feito mais para a sua melhoria moral do que todas as leis disciplinares que o reprimem algumas vezes, mas não o mudam.
38. - Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não é somente irreconciliável com a justiça de Deus, que toma todos os homens responsáveis pela falta de um único, ela seria um contra-senso, e tanto menos justificável quanto a alma não existia na época em que se pretende fazer remontar a sua responsabilidade. Com a preexistência e a reencarnação, o homem traz, em renascendo, o germe de suas imperfeições passadas, as faltas das quais não pôde se corrigir e que se traduzem por seus instintos natos, suas propensões a tal ou tal vício. Está aí o seu verdadeiro pecado original, do qual sofre muito naturalmente as conseqüências; mas com esta diferença capital de que carrega a pena de suas próprias faltas, e não as da falta de um outro; e esta outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, encorajadora, e soberanamente eqüitativa, que cada existência lhe oferece os meios de resgatar pela reparação, e de progredir, seja em se despojando de alguma imperfeição, seja em adquirindo novos conhecimentos, e isto até que, estando suficientemente purificado, não tenha mais necessidade da vida corpórea, e possa viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e feliz.
Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente, traz em renascendo, qualidades nativas, como aquele que progrediu intelectualmente traz idéias inatas; está identificado com o bem; pratica-o sem esforços, sem cálculo, e, por assim dizer, sem nele pensar. Aquele que está obrigado a combater as suas más tendências, nisto ainda está em luta; o primeiro já venceu, o segundo está em vias de vencer. A mesma causa produz o pecado original e a virtude.
39. - O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e sua ação sobre a matéria. Ele demonstrou a existência do perispírito, suposto desde a antigüidade, e designado por São Paulo sob o nome de Corpo Espiritual, quer dizer, de corpo fluídico da alma depois da destruição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que ele é um dos elementos constitutivos do ser humano; que ele é o veículo de transmissão do pensamento, e que, durante a vida do corpo, serve de laço entre o Espírito e a matéria. O perispírito desempenha um papel tão importante no organismo e em uma multidão de afeccões, que se liga à fisiologia tão bem quanto à psicologia.
40. - O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma, abrem novos horizontes à ciência, e dá a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos até então por falta de se conhecer a lei que os rege; fenômenos negados pelo materialismo, porque se ligam à espiritualidade, qualificados por outros de milagres ou de sortilégios, segundo as crenças. Tais são, entre outros, os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos físicos, da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas
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instantâneas, das obsessões e possessões, etc. Em demonstrando que esses fenômenos repousam sobre leis tão naturais quanto os fenômenos elétricos e as condições normais nas quais podem se reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural, e, conseqüentemente a fonte da maioria das superstições. Se faz crer na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, impede de crer em muitas outras das quais demonstra a impossibilidade e a irracionalidade.
41. - O Espiritismo muito longe de negar ou de destruir o Evangelho, ao contrário, vem confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza que revela, tudo o que disse e fez o Cristo; ele traz a luz sobre os pontos obscuros de seu ensino, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem sem dificuldade com a ajuda do Espiritismo, e as admitem; vêem melhor a sua importância e podem fazer a parte da realidade e da alegoria; o Cristo lhes pareceu maior: não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino.
42. - Se se considera, além disso, o poder moralizador do Espiritismo pelo objetivo que ele assinala para todas as ações da vida, pelas conseqüências do bem e do mal que ele faz tocar com o dedo; a força moral, a coragem, as consolações que dá nas aflições por uma inalterável confiança no futuro, pelo pensamento de ter perto de si os seres que se amou, a segurança de revê-los, a possibilidade de conversar com eles, enfim, pela certeza de que tudo o que se fez, tudo que se adquiriu em inteligência, em ciência, em moralidade, até a última hora da vida, nada está perdido, que tudo aproveita ao adiantamento, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com relação ao Conso/ador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento de regeneração, a promessa de seu advento se encontra do mesmo modo realizada, porque, pelo fato, ele é que é o verdadeiro Consolador (1). (1) Muitos pais de família deploram a morte prematura de crianças pela educação das quais fizeram grandes sacrifícios, e dizem a si mesmos que tudo isso é pura perda. Com o Espiritismo, não lamentam esses sacrifícios, e estariam prontos a fazê-lo, mesmo com a certeza de ver morrer seus filhos, porque sabem que, se estes últimos não aproveitam desta educação no presente, ela servirá, primeiro ao seu adiantamento como Espírito, depois isso será tanto adquirido para uma nova existência, e que quando retornarem, terão uma bagagem intelectual que os tomará mais aptos para adquirirem novos conhecimentos. Tais são essas crianças que trazem, em nascendo, idéias inatas, e que sabem, por assim dizer, sem ter necessidade de aprender. Se, como pais não têm a satisfação imediata de ver seus filhos aproveitarem essa educação, disto gozarão certamente mais tarde, seja como Espíritos, seja como homens. Talvez serão de novo os pais dessas mesmas crianças que se dizem felizmente dotadas pela Natureza, e que devem suas aptidões a uma precedente educação; como também, se as crianças voltam mal em conseqüência da negligência de seus pais, estes podem ter que deles sofrer mais tarde pelas contrariedades e desgostos que lhes suscitarão numa nova existência.
43. - Se, a esses resultados, acrescentar-se a rapidez inaudita da propagação do Espiritismo, apesar de tudo que se fez para abatê-lo, não se pode desconvir que a sua vinda não seja providencial, uma vez que triunfa de todas as forças e de todas as más vontades humanas. A facilidade com o qual é aceito por um tão grande número, e isto sem constrangimento, e sem outros recursos do que o poder da idéia, prova que ele responde a uma necessidade: a de crer, depois do vazio cavado pela incredulidade, e que, por conseqüência, ele veio a seu tempo.
44. - Os aflitos são em grande número, não é, pois, surpreendente que tantas pessoas acolham uma doutrina que consola de preferência àquelas que desesperam; porque é aos deserdados, mais do que aos felizes do mundo, que se dirige o Espiritismo. O doente vê chegar o médico com mais alegria do que aquele que está bem; ora, os aflitos são os doentes, e o Consolador é o médico.
Vós que combateis o Espiritismo, se quiserdes que se o deixe para vos seguir, dai mais e melhor do que ele; curai mais seguramente as feridas da alma; fazei como o mercador que, para lutar contra um concorrente, dá a mercadoria de melhor qualidade e a
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melhor preço. Dai, pois, mais consolações, mais satisfações do coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; fazei do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não penseis vencê-lo, vós, com a perspectiva do nada, vós, com a alternativa das chamas do inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua. Que diríeis do comerciante que tratasse de toucos todos os clientes que não querem a sua mercadoria, e vão à casa do vizinho? Fazeis do mesmo modo, tachando de loucura e de inépcia todos aqueles que não querem vossas doutrinas, que têm o erro de não achar de seu gosto (1). (1) O Espiritismo não é contrário à crença dogmática com respeito à natureza do Cristo, e, neste caso, pode-se dizer o complemento do Evangelho, se o contradiz?
A solução desta questão não toca senão de maneira acessória ao Espiritismo, que não tem que se preocupar dogmas particulares de tal ou de tal religião; simples doutrina filosófica, não se coloca nem em combatente, nem em adversário sistemático, de nenhum culto, e deixa a cada um a sua crença.
A questão da natureza do Cristo é capital do ponto de vista cristão; ela não pode ser tratada levianamente, e não são as opiniões pessoais nem de homens nem de Espíritos que podem decidi-lo; em semelhante assunto, não basta afirmar ou negar, é necessário provar; ora, de todas as razões alegadas pró ou contra, não há dentre elas nenhuma que não seja mais ou menos hipotética, uma vez que todas são controversas; os materialistas não viram a coisa senão com os olhos da incredulidade e a negação prévia; os teólogos, com os olhos da fé cega, e a decisão tomada da afirmação; nem uns nem os outros estão nas condições de imparcialidade necessárias; interessados em sustentar sua opinião, não viram e procuraram senão o que poderia lhes ser favorável, e fecharam os olhos sobre o que poderia lhes ser contrário. Se há muito tempo a questão é agitada, ela não está ainda resolvida de maneira peremptória, é que faltaram os únicos elementos que poderiam dar-lhe a chave, absolutamente como faltava aos sábios da antigüidade o conhecimento das leis da luz para explicar o fenômeno do arco-íris. O Espiritismo é neutro na questão; ele não tem mais interesse em uma solução do que em uma outra; caminhou sem isso, e caminhará ainda qualquer que lhe seja o resultado; colocado fora dos dogmas particulares, isso não é para ele uma questão de vida ou de morte. Quando o abordar, apoiará todas as suas teorias sobre os fatos, e a resolverá pelos fatos, e isto em tempo oportuno; se tivesse havido urgência, ela já teria sido resolvida. Os elementos de uma solução são hoje completos, mas o terreno não está ainda pronto para receber a semente; uma solução prematura, qualquer que ela seja, encontraria muita oposição de parte a parte, e afastaria do Espiritismo mais partidários do que ela lhe daria; eis porque a prudência nos faz um dever nos abstermos de toda polêmica sobre esse assunto, até que estejamos seguros de podermos colocar o pé sobre um terreno sólido. A espera disto, deixamos discutir o pró e o contra fora do Espiritismo sem nisso tomar parte , deixando as duas partes esgotarem seus argumentos. Quando o momento for propício, traremos na balança não mais a nossa opinião pessoal que não tem nenhum peso e não pode fazer lei, mas fatos até este momento não observados, e então cada um poderá julgar com conhecimento de causa. Tudo que podemos dizer, sem prejulgar a questão, é que a solução, em qualquer sentido que ela seja dada, não contradirá nem os atos nem as palavras do Cristo, mas, ao contrário, os confirmará elucidando-os.
Àqueles, pois, que nos perguntam o que o Espiritismo diz da natureza do Cristo, respondemos invariavelmente: "É uma questão de dogma estranha ao objetivo da doutrina." O objetivo que todo Espírita deve perseguir, se quiser merecer esse título, é a sua própria melhoria moral. Sou melhor do que era? Corrigi-me de algum defeito? Fiz bem ou mal ao meu próximo? Eis o que todo Espírita sincero e convicto deve se perguntar. Que importa saber se o Cristo era Deus ou não, sendo-se sempre egoísta, orgulhoso, ciumento, invejoso, colérico, maldizente, caluniador? A melhor maneira de honrar o Cristo é imitá-lo em sua conduta; mais se o eleve em seu pensamento, menos se ó digno dele, e mais se o insulta e o profana, fazendo o contrário daquilo que ele disse. "O Espiritismo diz a seus adeptos: praticai as virtudes recomendadas pelo Cristo, e sereis mais cristãos do que muitos daqueles que se dão por tais." Aos católicos, protestantes e outros, ele diz: "Se temeis que o Espiritismo perturbe vossa consciência, não vos ocupeis dele." Ele não se dirige senão àqueles que vêm a ele livremente, e que dele têm necessidade. Ele não se dirige àqueles que têm uma fé qualquer e a quem essa fé basta, mas àqueles que não a têm ou que duvidam, e lhes dá a crença que lhes falta, não mais a do catolicismo do que a do protestantismo, do judaísmo ou do islamismo, mas a crença fundamental, base indispensável de toda religião; aí termina o seu papel. Esta base posta, cada um fica livre de seguir o caminho que satisfaça melhor à sua razão.
45. - A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; está aí um caráter essencial de uma grande importância. Ela é coletiva no sentido de que não foi feita por privilégio de ninguém; que ninguém, por conseguinte, pode dela se dizer o profeta exclusivo. Ela foi feita simultaneamente sobre toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades, de todos os tempos e de todas as condições,
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desde o mais baixo até o mais alto da escala, segundo esta predição reportada pelo autor dos Atos dos apóstolos: "Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei de meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; as pessoas jovens terão visões, e vossos velhos terão sonhos." Ela não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de união (1). (1) Nosso papel pessoal, no grande movimento das idéias que se prepara pelo Espiritismo, e que já começa a se operar, é a de um observador atento que estuda os fatos para deles procurar a causa e dela tirar as conseqüências. Confrontamos todos aqueles que nos foi possível juntar; comparamos e comentamos as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos do globo, depois coordenamos o todo metodicamente; em uma palavra, temos estudado e dado ao público o fruto de nossas pesquisas, sem atribuir ao nosso trabalho outro valor que o de uma obra filosoficamente deduzida da observação e da experiência, sem jamais nos termos colocado como chefe de doutrina, nem ter querido impor nossas idéias a ninguém. Publicando-as, nós usamos de um direito comum, e aqueles que as aceitam o fazem livremente. Se essas idéias encontraram numerosas simpatias, é que elas têm a vantagem de responder às aspirações da maioria, do que não poderíamos tirar vaidade, uma vez que a sua origem não nos pertence. Nosso maior mérito é o da perseverança e do devotamento à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros teriam podido fazer como nós; é por isso que jamais tivemos a pretensão de nos crer profeta ou messias, e ainda menos de nos dar por tal.
Sem ter nenhuma das qualidades exteriores da mediunidade efetiva, não contestamos em sermos assistidos em nossos trabalhos pelos Espíritos, porque temos deles provas muito evidentes para disto duvidar, o que devemos, sem dúvida, à nossa boa vontade, e o que é dado a cada um de merecer. Além das idéias que reconhecemos nos serem sugeridas, é notável que os assuntos de estudo e observação, em uma palavra, tudo o que pode ser útil à realização da obra, nos chega sempre a propósito, - em outros tempos eu teria dito: como por encantamento; - de sorte que os materiais e os documentos do trabalho jamais nos fazem falta. Se temos que tratar de um assunto, estamos certos que, sem pedi-lo, os elementos necessários à sua elaboração nos são fornecidos, e isto por meios que nada têm senão de muito natural, mas que são, sem dúvida, provocados por colaboradores invisíveis, como tantas coisas que o mundo atribui ao acaso.
46. - Sendo as duas primeiras revelações o produto de um ensino pessoal, forçosamente, foram localizadas, quer dizer, que elas tiveram lugar sob um único ponto, ao redor do qual a idéia se propagou passo a passo; mas foram precisos muitos séculos para que elas atingissem as extremidades do mundo, sem invadi-lo por inteiro. A terceira tem isto de particular, que não estando personificada num indivíduo, ela se produziu simultaneamente sobre milhares de pontos diferentes, que todos se tornaram centros ou focos de irradiação. Esses centros se multiplicando, seus raios se tocam de novo, pouco a pouco, como os círculos formados por uma multidão de pedras lançadas na água; de tal sorte que, em um tempo dado, acabarão por cobrir a superfície inteira do globo.
Tal é uma das causas da rápida propagação da Doutrina. Se ela tivesse surgido sobre um único ponto, se tivesse sido a obra exclusiva de um homem, teria formado seita ao seu redor; mas meio século não teria talvez se escoado antes que ela atingisse os limites da região onde ela teria nascido, ao passo que depois de dez anos, ela já tem balizas plantadas de um pólo ao outro.
47. - Esta circunstância estranha na história das doutrinas, dá a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível; com efeito, comprimindo-a sobre um ponto, em uma região, é materialmente impossível comprimi-la sobre todos os pontos, em todos os países. Por um lugar onde ela for entravada, haverá milhares deles ao lado onde ela florirá. Muito mais, sendo atingida num indivíduo, não se pode atingi-la nos Espíritos que lhe são a fonte. Ora, como os Espíritos estão por toda a parte, e que deles haverá sempre, se, por impossível, se chegasse a abafá-la sobre todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque repousa sobre um fato, que este fato está na Natureza, e que não se podem suprimir as leis da Natureza. Eis do que devem se persuadir aqueles que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista Espirita, fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.)
48. - No entanto, esses centros disseminados teriam podido permanecer ainda muito tempo isolados uns dos outros, confinados que são alguns em regiões distantes. Seria preciso entre eles um traço de união que os colocassem em comunhão de pensamentos com seus irmãos em crença, em lhes informando o que se faz alhures.
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Esse traço de união, que teria faltado ao Espiritismo na antigüidade, encontra-se nas publicações que vão por toda a parte, que condensam sob uma forma única, concisa e metódica, o ensino dado por toda a parte sob formas múltiplas e em línguas diversas.
49. -As duas primeiras revelações não poderiam ser senão o resultado de um ensino direto; elas deveriam se impor à fé pela autoridade da palavra do mestre, não estando os homens bastante avançados para concorrerem à sua elaboração.
Observamos, todavia, entre elas, uma nuança bem sensível que se prende ao progresso dos costumes e das idéias, se bem que elas tenham sido feitas no mesmo povo e no mesmo meio, mas com quase dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; ela não admite discussão e se impõe a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; ela é livremente aceita e não se impõe senão pela persuasão; ela é controvertida mesmo quando em vida de seu fundador, que não desdenhava discutir esse assunto com seus adversários.
50. - A terceira revelação vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual, onde a inteligência desenvolvida não pode se dispor a um papel passivo, onde o homem não aceita nada cegamente, mas quer ver aonde é conduzido, saber o porquê e o como de cada coisa, devia ser, ao mesmo tempo, o produto de um ensino e o fruto de um trabalho, da pesquisa e do livre exame. Os Espíritos não ensinam senão justamente o que é preciso para pôr sobre o caminho da verdade, mas se abstêm de revelar o que o homem pode achar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e de submeter tudo ao cadinho da razão, deixando-o mesmo, freqüentemente, adquirir a experiência às suas expensas. Eles lhe dão o princípio, os materiais, para deles tirar proveito e pô-los à obra (n° 15).
51. - Os elementos da revelação espírita tendo sido dados simultaneamente sobre uma multidão de pontos, a homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, é bem evidente que as observações não poderiam ser feitas por toda a parte com o mesmo proveito; que as conseqüências a delas tirar, a dedução das leis que regem essa ordem de fenômenos, em uma palavra, a conclusão que devia assentar as idéias, não podiam sair senão do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito num círculo restrito, não vendo, o mais freqüentemente, senão uma ordem particular de fatos, algumas vezes em aparência contraditórios, não tendo geralmente relações senão com uma mesma categoria de Espíritos, e, além disto, entravada pelas influências locais e o espírito de partido, se encontrava na impossibilidade material de abarcar o conjunto e, por isto mesmo, na impossibilidade de ligar as observações isoladas a um princípio comum. Cada um apreciando os fatos do ponto de vista de seus conhecimentos e de suas crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, haveria tido logo tantas teorias e sistemas quantos centros, e dos quais nenhum teria podido ser completo, por falta de elementos de comparação e de controle.
52. - É de notar, além disto, que em nenhuma parte o ensino espírita foi dado de maneira completa; ele toca a um tão grande número de observações, a assuntos tão diversos, que exigem tanto conhecimentos, quanto aptidões medianímicas especiais, que teria sido impossível reunir no mesmo ponto todas as condições necessárias. O ensino devendo ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os assuntos de estudo e de observação, como em certas fábricas a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida entre diferentes trabalhadores.
A revelação é assim feita parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários, e é desta maneira que ela prosseguirá ainda neste momento, porque tudo não está revelado. Cada centro encontra, nos outros centos, o complemento daquilo que obtém, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinos parciais, que constituíram a Doutrina Espirita.
Era, pois, necessário agrupar os fatos esparsos para ver a sua correlação, recolher os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e
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sobre todos os assuntos, para compará-los, analisá-los, estudar as analogias e as diferenças. As comunicações sendo dadas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, seria preciso apreciar o grau de confiança que a razão permitia lhes conceder, distinguir as idéias sistemáticas individuais e isoladas daquelas que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias das idéias práticas; desmentir aquelas que eram notoriamente desmentidas pelos dados das ciências positivas e da lógica sadia; utilizar os próprios erros, as informações fornecidas pelos próprios Espíritos de mais baixo estágio, para o conhecimento do estado do mundo invisível, e dele formar um todo homogêneo. Seria preciso, em uma palavra, um centro de elaboração, independente de toda idéia preconcebida, de todo preconceito de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, devesse ela ser contrária às suas opiniões pessoais. Este centro se formou por si mesmo, pela força das coisas, e sem desígnio premeditado (1). (1) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez entrar o Espiritismo na via filosófica, pela dedução das conseqüências morais dos fatos, que abordaram todas as partes da doutrina, tocando as questões mais importantes que ela levanta, foi, desde o seu aparecimento, o ponto de união para o qual espontaneamente convergiram os trabalhos individuais. É notório que, da publicação deste livro, data a era do Espiritismo filosófico, até ali permanecido no domínio das experiências de curiosidade. Se este livro conquistou as simpatias da maioria, foi porque era a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria, e respondia às suas aspirações; foi também porque cada um nele encontrou a confirmação ou uma explicação racional do que obtinha em particular. Se ele estivesse em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, não teria tido nenhum crédito, e teria prontamente caído no esquecimento. Ora, a que se reuniu? Não foi ao homem que não é nada por si mesmo, agente principal que morre e desaparece, mas à idéia que não perece, quando ela emana de uma fonte superior ao homem.
Essa concentração espontânea das forcas esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem, ao mesmo tempo, os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que fizeram nascer a Doutrina, os resultados morais, os devotamentos e os desfaletimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas. Em presença destes testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, na seqüência, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?
53. - Desse estado de coisas resultou uma dupla corrente de idéias: umas indo das extremidades ao centro, as outras retornando do centro à circunferência. Foi assim que a Doutrina prontamente caminhou para a unidade, apesar da diversidade de fontes de onde ela emanou; que os sistemas divergentes pouco a pouco caíram, pelo fato de seu isolamento, diante do ascendente da opinião da maioria, por falta de ali encontrar ecos simpáticos. Uma comunhão de pensamentos foi, desde então, estabelecida entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, se compreendem e simpatizam de um canto do mundo ao outro.
Os Espíritas, que se acharam mais fortes, lutaram com mais coragem, e caminharam com passo mais seguro, quando não são mais vistos isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um laço que os ligava à grande família; os fenômenos dos quais eram testemunhas não lhes pareceram mais estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam ligá-los às leis gerias da harmonia, abarcar de um golpe de vista o edifício, e ver em todo o conjunto um objetivo grande e humanitário (1). (1) Um testemunho significativo, tão notável quanto tocante desta comunhão de pensamentos que se estabelecem entre os Espíritas pela conformidade das crenças, são os pedidos de preces que nos vêm das regiões mais longínquas, desde o Peru até a extremidade da Ásia, da parte de pessoas de religiões e de nacionalidades diversas, e que jamais vimos. Não é o prelúdio da grande unificação que se prepara? a prova das raízes sérias que toma por toda a parte o Espiritismo?
É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de fazer cisão proclamando princípios divergentes, do mesmo modo que aqueles que, por razões de amor-próprio ou outras, não querendo ter o ar de sofrer a lei comum, acreditaram-se bastante fortes para caminhar sozinhos, com bastante luzes para não necessitarem de conselhos, nenhum chegou a constituir uma unidade preponderante e viável; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia isso ser de outro modo, desde que, para se distinguir, em lugar de se esforçarem por dar uma maior soma de satisfações, rejeitaram os princípios da doutrina precisamente os que de fato eram os mais poderosos atrativos, o que não há de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Se tivessem compreendido a força dos
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elementos morais que constituíram a unidade, não teriam se embalado numa ilusão quimérica; mas tomando seu pequeno círculo pelo universo, não viram nos adeptos senão uma pequena associação que poderia facilmente ser derrubada por uma contra associação. Era equivocar-se estranhamente sobre os caracteres essenciais da Doutrina, e este erro não podia conduzir senão a decepções, porque não se fere impunemente o sentimento de uma massa que tem convicções assentadas sobre bases sólidas; em lugar de romper a unidade, quebraram o único laço que poderia lhes dar a força e a vida (Ver revista Espirita, abril de 1866, páginas 106 e 111: O Espiritismo sem os Espíritos: o Espiritismo independente.)
54. - Não há nenhuma ciência que tenha saído inteiramente do cérebro de um homem; todas, sem exceção, são o produto de observações sucessivas se apoiando sobre as observações precedentes, como sobre um ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam para com o Espiritismo; é por isso que o seu ensino é graduado; senão à medida que os princípios sobre os quais devem se apoiar estejam suficientemente elaborados, e que a opinião está madura para assimilá-los. É mesmo notável que todas as vezes que os centros particulares quiseram abordar questões prematuras, não obtiveram senão respostas contraditórias não concludentes. Quando, ao contrário, o momento favorável chegou, o ensino foi idêntico sobre toda a linha, na quase universalidade dos centros.
Há, no entanto, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências uma diferença capital, é que estas não chegaram ao ponto onde chegaram senão depois de longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao Espiritismo, senão para atingir o ponto culminante, pelo menos para recolher uma soma muito grande de observações próprias para constituírem uma doutrina. Isto prende-se à multidão inumerável de Espíritos que, pela vontade de Deus, manifestaram-se simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Disto resulta que todas as partes da doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, o foram quase simultaneamente em alguns anos, e que bastou agrupá-las para delas formar um todo.
Deus quis que assim fosse, primeiro para que o edifício ficasse mais prontamente feito; em segundo lugar, para que se pudesse, pela comparação, ter um controle por assim dizer imediato e permanente na universalidade do ensino, cada parte não tendo valor e autoridade senão pela conexão com o conjunto, todas devendo se harmonizarem, e chegar cada uma a seu tempo e em seu lugar. Não confiando a um único Espírito o cuidado da promulgação da doutrina, quis, além disto, que o menor quanto o maior, entre os Espíritos como entre os homens, trouxesse sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas as doutrinas saídas de uma fonte única.
De um lado, cada Espírito, do mesmo modo que cada homem, não tendo senão uma soma limitada de conhecimentos, individualmente estão inabilitados para tratarem ex professo as inumeráveis questões em que o Espiritismo toca; eis igualmente porque a Doutrina, para cumprir os objetivos do Criador, não poderia ser a obra de um único Espírito, nem de um único médium; ela não poderia sair senão da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros. (Ver em O Evangelho Segundo o Espiritismo, introdução, p. VI, e Revista Espírita, abril de 1864, p. 90: Autoridade da Doutrina Espírita; controle universal do ensino dos Espíritos.)
55. - Um último caráter da revelação espírita, e que ressalta das próprias condições nas quais foi feita, é que, se apoiando sobre fatos, ela é e não pode ser senão essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela contrai aliança com a ciência, que, sendo a exposição das leis da Natureza, em uma certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, o autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam a Deus em lugar de rebaixá-lo; elas não destroem senão o que os homens edifícaram sobre as idéias falsas que se fizeram de Deus.
O Espiritismo não coloca, pois, como princípio absoluto senão o que é demonstrado com evidência, ou que ressalta logicamente da observação. Tocando em todos os ramos
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da economia social, aos quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que elas sejam, chegadas ao estado de verdades práticas, e saídas do domínio da utopia, sem isto ele se suicidaria; cessando de ser o que ele é, mentiria à sua origem e ao seu objetivo providencial. O Espiritismo, caminhando com o progresso, não será jamais transbordado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está no erro sobre um ponto, ele se modificará sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita (1). (1) Diante das declarações tão claras e tão categóricas quanto as que estão contidas neste capítulo, caem todas as alegações de tendência ao absolutismo e a autocracia dos princípios, todas as falsas assimilações que, pessoas prevenidas ou mal informadas, emprestam à Doutrina. Essas declarações, aliás, não são novas; nós a temos muito freqüentemente repetidas em nossos escritos, para não deixar nenhuma dúvida a esse respeito. Elas nos assinalam, além disso, o nosso verdadeiro papel, o único que ambicionamos: o de trabalhador.
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ROBINSON CRUSOÉ ESPÍRITA.
- Continuação –
Na Revista Espírita de março de 1867, página 74, citamos algumas passagens das aventuras de Robinson, marcadas de um pensamento evidentemente espírita. Devemos à cortesia de um de nossos correspondentes de Anvers o conhecimento do complemento dessa história, onde os princípios do Espiritismo estão expressados e afirmados de maneira muito mais explícita e não se encontra em nenhuma das edições modernas. A obra completa, traduzida do inglês sobre a edição original, compreende três volumes e faz parte de uma coleção em trinta e poucos volumes intitulados: Viagens imaginárias, sonhos, visões e romances cabalísticos, impresso em Amsterdã em 1787.0 título traz que ela se encontra também em Paris, rua e hotel Serpente.
Os dois primeiros volumes dessa coleção contêm as viagens propriamente ditas de Robinson; o terceiro volume, que nosso correspondente de Anvers consentiu em nos confiar, tem portítulo:Re/7exões sérias e importantes de Robinson Crusoé. O tradutor disse em seu prefácio:
"Eis enfim o enigma das aventuras de Robinson Crusoé; é uma espécie de Telêmaco burguês, cujo objetivo é levar os homens comuns à virtude e à sabedoria, pelos acontecimentos acompanhados de reflexões. Há, portanto, alguma coisa a mais na história de Robinson do que nas aventuras de Telêmaco; não é um simples romance, é antes uma história alegórica, da qual cada incidente é um emblema de algumas particularidades da vida de nosso autor. Nisso não dou mais vantagem sobre este artigo, porque ele mesmo tratou a fundo, em seu prefácio, que traduzi do inglês, e doqual aconselho muito a leitura a todos esses homens rudes, que se fizeram um hábito bastante ridículo saltar todos os discursos preliminares dos livros.
"A obra que se dá aqui ao público, e que faz o terceiro volume de Robinson Crusoé, é muito diferente das duas partes precedentes, embora tenda ao mesmo fim. O autor nela coloca, por assim dizer, a última mão em seu projeto de reformar os homens, e de convidá-los a se conduzirem de maneira digna da excelência de sua natureza. Não estando contente de lhes ter dado instruções envolvidas em fábulas, achou bom estender os seus preceitos, e dá-los de maneira direta, a fim de que nada nela escape à penetração do grande número de leitores que não têm bastante gênio para desembaraçar a alma da alegoria, do corpo que o envolve."
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Este volume compreende duas partes; na primeira, Robinson reentra na vida calma do lar, se entrega às meditações sugeridas pelas peripécias de sua existência agitada; essas reflexões estão marcadas por uma alta moralidade e de um profundo sentimento religioso, no gênero destes:
Página 301. -"Reconheçamos, querendo-se, que não podemos compreender a imutabilidade da Natureza, e das ações de Deus, e que nos é absolutamente impossível conciliá-la com essa variedade da Providência, que, em todas as suas ações, nos parece numa liberdade inteira e perfeita de formar todos os dias novos planos, de virar os acontecimentos de um tal e de um tal lado, como apraz à soberana sabedoria. Pode-se concluir do fato de que não saberíamos conciliar essas coisas, que elas são absolutamente incompatíveis? Valeria tanto sustentar que a natureza de Deus é inteiramente incompreensível, porque não a compreendemos, e que, na Natureza, todo fenômeno onde não penetramos, é impenetrável. Onde está o filósofo que ouse se gabar de compreender a causa que faz girar para o pólo uma agulha imantada, e a maneira pela qual a virtude magnética é comunicada por um simples toque? Quem me dirá por que essa virtude não pode ser comunicada senão ao ferro, e por que a agulha não se liga ao ouro, à prata e aos outros metais? Que comércio secreto há entre o ímã e o pólo do norte, e por qual força misteriosa a agulha que se esfregou se volta para lado do pólo do sul, desde que se tenha passado a linha equinoxial? Nada compreendemos dessas operações da Natureza, no entanto, nossos sentidos nos asseguram da maneira mais incontestável do mundo, da realidade dessas operações. A menos que levemos o ceticismo até o mais alto grau do absurdo, devemos confessar que não há nada de contraditório nesses fenômenos, embora nos seja impossível conciliar-lhes o conjunto, e que são compreensíveis, embora não os compreendamos.
"Por que a nossa sabedoria não nos leva a seguir o mesmo método de raciocinar com ao objeto da questão? É natural crer que, apesar dessa aparência de mudança que descobrimos nos atos da providência, apesar desses planos que parecem se destruir mutuamente, e se elevar um sobre a ruína do outro, nada é mais certo e mais real do que a imutabilidade da Natureza e dos decretos de Deus. Que há de mais temerário do que alegar a fraqueza e a pequena extensão da razão como uma prova contra e existência das coisas? Nada é mais ridículo que raciocinar justo sobre os limites de nosso espírito, com relação aos objetos limitados da física, e de não dar atenção à natureza de nossa alma, quando se trata das operações de um ser infinito, tão superioras nossas fracas luzes.
"Se é, pois, razoável crer que a Providência divina é livre em suas ações, e que, dirigida por sua própria soberania ela segue, no curso ordinário das coisas humanas, esses métodos que acha oportunos, é nosso dever ligar um comércio estreito com essa parte ativa da providência, que influi diretamente em nossa conduta, sem nos embaraçar o espírito com vãs discussões sobre a maneira pela qual essa providência influi em nossos assuntos, e sobre o objetivo que ela se propõe.
"Entrando nessa correspondência com essa virtude ativa da sabedoria de Deus, devemos nela examinares caminhos, tanto quanto eles pareçam acessíveis à nossa penetração e às nossas pesquisas; devemos prestar a mesma atenção à voz secreta que já tive o cuidado de descrever, quanto àquela voz clara e forte que nos fala nos acontecimentos mais próprios a nos tocar.
"Quem não se faz um estudo sério de penetrar no sentido dessa voz secreta que se oferece à sua intenção, se priva, deliberadamente, de um grande número de conselhos úteis e de grandes consolações, das quais, muito freqüentemente, sente a necessidade na carreira que deve correr neste mundo.
"Que consolação não é para aqueles que escutam essa voz, de ver, a cada momento, que um poder invisível e infinitamente poderoso ocupa-se de conservá-los e de manejar os seus interesses! Com essa atenção religiosa, não é possível não se aperceber
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dessa proteção; não é possível refletir sobre essa liberdade inesperada que todo homem encontra na variedade dos incidentes da vida humana, sem ver, evidentemente, que não o deve à sua própria prudência, mas unicamente ao socorro eficaz de um poder infinito, que o favorece porque o ama." - A segunda parte, intitulada: Visão do mundo angélico, contém o relato dos fatos que pertencem mais particularmente à ordem dos fatos Espíritas, e aos quais retiramos as passagens seguintes:
Página 359. -"O Espírito que apareceu a Saul devia ser, segundo penso, um bom Espírito, que se chamava o anjo de um homem, como parece pelo que disse àquela serva dos Atos do Apóstolos, vendo diante da porta Pedro sair miraculosamente da prisão. Tomando-se a coisa desta maneira, ele confirma a minha idéia, no que toca ao comércio dos Espíritos puros com os Espíritos enfermos em corpos, e no que toca às vantagens que os homens podem retirar de um tal comércio. - Aqueles que pretendem que esse foi um mau Espírito devem supor, ao mesmo tempo, que Deus pode se servir do diabo como de um profeta, colocar na boca da mentira as verdades que acha bom revelar aos homens, e sofrer que pregue aos transgressores de suas leis, a justiça dos castigos que resolveu lhes infligir. Não sei de que meio indireto esses intérpretes se serviram para salvar todos os inconvenientes de uma tal opinião; por mim, não vejo que convenha à sua majestade divina emprestar a Satã seu Espírito de verdade, e dele fazer um pregador e um profeta."
Página 365. - "Os mais diretos efeitos de nosso comércio com as inteligências puras, e que me parecem tão sensíveis que é impossível negá-los, são: os sonhos, certas vozes, certos ruídos, as advertências, os pressentimentos, as apreensões, uma tristeza involuntária."
Página 380.-"Parece-me que examinais com muita atenção a natureza dos sonhos e as provas que deles se podem tirar da realidade do mundo dos Espíritos; mas, dizei-me, eu vos peço, o que pensais dos sonhos que nos vêem todo desperto, transportes, êxtases, visões, ruídos, voz, pressentimentos? Não vedes que são provas ainda mais forte do que a própria verdade, uma vez que elas nos tocam no tempo que a nossa razão está senhora de si mesma, e que a sua luz não é envolvida dos vapores do sono?"
Página 393. - "Eu vi ainda, como de um único golpe de vista, a maneira pela qual esses maus Espíritos exercem o seu poder; até a que ponto ele se estende, que obstáculos têm a superar, e quais outros Espíritos se opõem ao sucesso de seus abomináveis desígnios...
"... Embora o diabo esteja a seu serviço, um número infinito de ministros infiéis, que nada negligenciam para executar seus projetos, não há somente um número igual, mas infinitamente maior de Anjos e de bons Espíritos que, armados de um poder superior, vigiam de um lugar muito mais elevado, sobre a sua conduta, e fazem todos os seus esforços para fazer fracassar as suas maquinações. Esta descoberta faz ver ainda mais claramente que nada poderia fazer senão pela .sutileza e pela astúcia, sustentadas de uma vigilância e de uma atenção extraordinária, uma vez que a mortificação de se ver a todo momento detido e transtornado em seus desígnios pela prudente atividade dos bons Espíritos, que têm o poder de castigar e de decompô-lo, como um homem faz a um mau cão de guarda que espreita os que passam para se lançar sobre eles."
Página 397. - "As inspirações não são outra coisa, a meu ver, do que discursos que nos são imperceptivelmente soprados ao ouvido, ou pelos bons anjos que nos favorecem, ou por esses diabos insinuadores que nos espreitam continuadamente para nos fazer dar em alguma armadilha. A única maneira de distinguir os autores desses discursos é de ficarem guarda quanto à natureza dessas inspirações, e examinar se elas tendem a nos levar ao bem ou ao mal."
Página 401. - "Vale infinitamente mais para nós que um véu espesso nos esconda esse mundo invisível tão bem quanto a conduta da Providência em relação ao futuro. A bondade divina parece mesmo naquilo que o comércio dos Espíritos e as advertências
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que nos são dadas são efetuadas de maneira alegórica pelas inspirações e pelos sonhos, e não de maneira direta, clara, evidente. Aqueles que desejam uma visão mais distinta das coisas futuras, não sabem o que desejam, e, se seus desejos fossem atendidos, encontrariam talvez a sua curiosidade cruelmente punida."
Página 408. - "Uma manhã que ela tinha despertado, e que uma multidão de pensamentos aflitivos entram em seu espírito, ela sente com força, em sua alma, uma espécie de voz que lhe diz: Escrevei-lhe uma carta. Essa voz era tão inteligível e tão natural, que, se ela não estivesse certa de estar sozinha, teria acreditado que essas palavras haviam sido pronunciadas por alguma criatura humana. Durante vários dias, elas lhe foram repetidas a cada momento; enfim, passeando no quarto onde estava escondida, cheia de pensamentos sombrios e melancólicos, ela os ouviu de novo, e respondeu muito alto: Aquém quereis, pois, que se escreva? E a voz lhe replicou imediatamente: Escrevei ao juiz. Estas palavras lhe foram ainda repetidas em diferentes vezes, e a levaram, enfim, a tomar da pena e se pôr em estado de compor uma carta, sem ter no espírito nenhuma idéia necessária ao seu desígnio; dabiturin hoec hora, etc. Os pensamentos e as expressões não lhe faltaram; correram de sua pena com tanta abundância e uma tão grande facilidade, que ela isso fez no maior espanto e que nela concebeu as mais fortes esperanças de um feliz sucesso."
Página 413. -"O que se pode, no entanto, se imaginar lá em cima de mais racional, é que esses Espíritos nos dão, nessas ocasiões, todas as luzes que estão em estado de nos dar, e que nos dizem o que sabem, ou pelo menos tudo o que seu mestre e o nosso lhes permitem nos comunicar. Se não tinham um desígnio real e sincero de nos favorecer e de nos garantir da infelicidade que nos pende sobre a cabeça, não nos diriam nada de tudo, e, conseqüentemente, se suas advertências não são mais extensas e melhor desenvolvidas, é certo que não deve estar em seu poder nos dar mais úteis."
Página 416. - "Uma vez que sentimos pressentimentos que são verificados pela experiência, é preciso, por necessidade, que haja Espíritos instruídos do futuro; que haja uma morada para os Espíritos onde as coisas futuras se desenvolvem à sua penetração, e que não saberíamos melhor fazer do que acrescentar fé às novidades que nos vêm de lá. O dever de prestar atenção a esses pressentimentos não é a única conseqüência que se pode tirar desta verdade; há outras delas que podem nos ser de uma utilidade muito considerável:
" 1 ° E/a nos explica a natureza do mundo dos Espíritos e nos prova a certeza de nossa alma depois da morte;
"2° Ela nos faz ver que a direção da Providência, em relação aos homens e aos acontecimentos futuros, não é tão oculta aos habitantes do mundo espiritual quanto ela o é a nós;
"3° Disso podemos concluir que a penetração dos Espíritos desligados da matéria é de um bem maior em extensão do que a dos Espíritos encerrados nos corpos, uma vez que os primeiros sabem o que deve nos ocorrer, quando nós mesmos o ignoramos.
"A persuasão da existência do mundo dos Espíritos nos pode ser útil de muitas maneiras diferentes. Somos senhores, sobretudo, de tirar grandes vantagens da certeza em que estamos que sabem revelar o futuro, e nos comunicar as luzes que têm lá em cima, de maneira que nos faça vigiar a nossa conduta, evitar infelicidades, pensarem nossos interesses e mesmo esperara morte de uma alma firme e de um Espírito preparado a receber com constância e com uma firmeza cristã. Este seria também um meio seguro de se alargar a esfera de nossas luzes e nos fazer raciocinar com justeza sobre o verdadeiro valor das coisas.
Página 427. - "Se se fizesse um semelhante uso (arrependimento e reforma de má conduta) das aparições reais do diabo, estou convencido de que este seria um meio de expulsá-lo para sempre do mundo invisível. É muito natural crer que nos realizariam visitas muito raras, se estivessem persuadidos, por sua experiência, de que elas nos
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levariam à virtude, muito longe de nos armarem armadilhas; pelo menos, jamais viriam nos ver de seu próprio movimento, e seria preciso uma força superior para isso determiná-lo."
Página457.-"Minha conversão vem diretamente do céu. A luz que cerca São Paulo, no caminho de Damasco, não o feriu mais vivamente do que aquela que me ofuscou. É verdade que não estava acompanhada por qualquer voz do céu, mais estou seguro de que uma voz secreta falou eficazmente à minha alma; ela me fez compreender que eu estava exposto à cólera desse poder, dessa majestade, desse deus que neguei antes com toda a impiedade imaginável."
Página 462. -"Em uma palavra, semelhantes acidentes são de uma grande força para nos convencer da influência da Providência divina nos assuntos humanos, por pequenas que sejam em aparência, da existência de um mundo invisível, e da realidade do comércio das existências puras com os Espíritos enfermos no corpo. Eu espero que não terei nada dito sobre essa matéria delicada, que seja própria a levar meus leitores para fantasias absurdas e ridículas. Pelo menos posso protestar que disto não tive o desígnio, e que a minha intenção foi unicamente excitar no coração dos homens sentimentos respeitosos pela divindade e a docilidade para as advertências dos bons Espíritos que se interessam por aquilo que nos concerne."
Nota. - Há quase um século que Daniel de Foè, o autor de Robinson, escreveu essas coisas que dir-se-iam emprestadas, até nas expressões, à Doutrina Espírita moderna. Em uma segunda comunicação dada à Sociedade de Paris, em seguida à leitura desses fragmentos, ele explicou suas crenças sobre este ponto, dizendo que ele pertencia à seita dos teósofos, seita que, com efeito, professava estes mesmos princípios. Por que, pois, esta doutrina não tinha tomado então a extensão que tem hoje? Para isto, há várias razões: 1o os teósofos tinham suas doutrinas quase secretas; 2° a opinião das massas não estava ainda madura para assimilá-las; 3° era preciso que uma sucessão de acontecimentos desse um outro curso às idéias; 4° era preciso que a incredulidade preparasse os caminhos, e que, pelo seu desenvolvimento, ela fez sentir o vazio que cava sob os passos da Humanidade, e a necessidade de alguma coisa para enchê-lo; 5° enfim, a Providência não tinha julgado que fosse ainda tempo de tornar gerais as manifestações dos Espíritos; foi a generalização desta ordem de fenômenos que vulgarizou a crença nos Espíritos, e a doutrina que dela foi o corolário.
Se as manifestações tivessem permanecido o privilégio de alguns indivíduos, o Espiritismo não teria ainda saído do lar onde nasceu; estaria ainda, para as massas, no estado de teoria, de opinião pessoal, sem consistência; é a sanção prática que, de um canto do mundo ao outro, e quase instantaneamente, todos encontraram nas manifestações, provocadas ou espontâneas, que vulgarizou a Doutrina, e lhe dá uma força irresistível, malgrado aqueles que a combatem.
Se bem que os teósofos tenham tido pouca ressonância e tenham apenas saído da obscuridade, seus trabalhos não se perderam por essa causa; eles semearam germes que não deveriam frutificar senão mais tarde, mas que formaram homens predispostos à aceitação das idéias espíritas, assim como o fez a seita dos swedenborgianos, e, mais tarde, a dos fourrieristas. É de notar que jamais uma idéia pouco grande fez uma erupção brusca no mundo. Freqüentemente ela lança seus balões de ensaio vários séculos antes de sua eclosão definitiva; é o trabalho de criação.
NOTÍCIA BIBLIOGRÁFICA
DEUS NA NATUREZA
Por Camille Flammarion (1) (1) Um grande volume in-12. Preço, 4fr. Paris, DidiereComp., cais
dos Grands-Augustins, 35.
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Depois de haver tratado, como se sabe, do ponto de vista da ciência, a questão da habitabilidade dos mundos, que se liga intimamente ao Espiritismo, o Sr. Flammarion aborda hoje a demonstração de uma outra verdade, a mais capital sem contradita, porque é a pedra angular do edifício social, aquela também sem a qual o Espiritismo não teria a sua razão de ser. A existência de Deus. O título de sua obra: Deus na Natureza, dela resume toda a economia; ele disse de início que não é um livro litúrgico, nem místico, mas filosófico.
Do ceticismo de um grande número de sábio, conclui-se erradamente que a ciência, por si mesma, é ateia, ou conduz fatalmente ao ateísmo; é um erro que o Sr. Flammarion trata de refutar, demostrando que se os sábios não viram Deus em suas pesquisas, foi porque não quiseram vê-lo. Todos os sábios, aliás, estão longe de ser ateus, mas confundem-se, freqüentemente, os ceticismo com relação aos dogmas particulares de tal ou tal culto com o ateísmo. O Sr. Flammarion se dirige especialmente à classe dos filósofos que fazem abertamente profissão de materialismo.
"O homem, diz ele, traz em sua natureza uma tão imperiosa necessidade de se deter em convicção, particularmente ao ponto de vista da existência de um ordenador do mundo e da destinação dos seres, que se nenhuma fé não o satisfaz, ele tem necessidade de se demonstrar que Deus não existe, e procura o repouso de sua alma no ateísmo e na doutrina do nada. Também a questão atual que nos apaixona não é mais saber qual é a forma do Criador, o caráter da mediação, a influência da graça, nem discutir o valor dos argumentos teológicos: a verdadeira questão é saber se Deus existe ou se não existe."
Nesse trabalho, o autor procedeu da mesma maneira que em sua Pluralidade dos mundos habitados, colocou-se sobre o próprio terreno de seus adversários. Se tivesse haurido seus argumentos na teologia, no Espiritismo ou em doutrinas espiritualistas quaisquer, teria colocado premissas que teriam sido rejeitadas. É porque ele toma a dos negadores e demostra, pelos próprios fatos, que se chega a uma conclusão diametralmente oposta; ele não invoca novos argumentos controvertidos; não se perde nas nuvens da metafísica, do subjetivo e do objetivo, nas sutilezas da dialética; permanece sobre o terreno do positivismo; combate os ateus com os suas próprias armas; tomando um a um seus argumentos, os destrói com a ajuda da própria ciência que eles invocam. Não se apoia sobre a opinião dos homens; sua autoridade é a Natureza e nela mostra Deus em tudo e por toda a parte.
"A Natureza explicada pela ciência, diz ele, no-lo mostrou num caráter particular. Ele está lá, visível, como a força íntima de todas as coisas. Nenhuma poesia humana nos pareceu comparável à verdade natural, e o verbo eterno falou com mais eloqüência nas obras mais modestas da Natureza, do que o homem em seus cantos mais pomposos."
Dissemos os motivos que induziram o Sr. Flammarion a se colocar fora do Espiritismo, e não podemos senão aprová-lo; se algumas pessoas pensam que por antagonismo pela Doutrina, bastaria, para desenganá-los, citara passagem seguinte:
"Poderíamos acrescentar, para fechar o capítulo da personalidade humana, algumas reflexões sobre certos assuntos de estudo ainda misteriosos, mas não insignificantes. O sonambulismo natural, o magnetismo, o Espiritismo, oferecem aos experimentadores sérios que sabem examiná-los cientificamente, fatos característicos que bastariam para demonstrar a insuficiência das teorias materialistas.
É triste, nós o confessamos, para o observador consciencioso, ver o charlatanismo cínico insinuar sua atividade pérfida em causas que deveriam ser respeitadas; é triste constatar que noventa e nove fatos sobre cem podem ser falsos ou imitados; mas um único fato bem constatado desmancha todas as negações. Ora, que partido tomam certas doutas personagens diante desses fatos? Elas o negam simplesmente. "A ciência não duvida, diz em particular o Sr. Buchner, que todos os casos de pretensa clarividência não sejam efeitos de malabarismo e de conluio. A lucidez é, por razões naturais, uma
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impossibilidade. Está nas leis da natureza que os efeitos dos sentidos sejam limitados a certos limites do espaço que não possam transpor. Ninguém tem a faculdade de adivinhar os pensamentos nem de ver com os olhos fechados o que se passa ao redor de si. Estas verdades são baseadas sobre as leis naturais que são imutáveis e sem exceção." "Ora! senhor juiz, vós as conheceis bem, pois, as leis naturais? Homem feliz! Que não sucumbistes sob o excesso de vossa ciência! Mas quê? Viro duas páginas, e eis o que leio:
"O sonambulismo é um fenômeno do qual, infelizmente, não temos senão observações muito inexatas, embora fosse de desejar que tivéssemos dele noções precisas por causa de sua importância para a ciência. No entanto, sem dele ter os dados certos (escutai!), pode se relegar entre as fábulas todos os fatos maravilhosos que se contam dos sonâmbulos. Não é dado a um sonâmbulo escalar muros, etc." Ah! senhor, que raciocinais, pois, sabiamente! e que teríeis feito bem, antes de escrever, saber um pouco daquilo que pensais!"
Um relatório analítico da obra exigiria desenvolvimentos que a falta de espaço nos interdita, e seria, aliás, supérfluo. Bastar-nos-ia mostrar o ponto de vista em que se coloca o autor para fazer-lhe compreender a utilidade. Reconciliara ciência com as idéias espiritualistas é aplainar os caminhos de sua aliança com o Espiritismo. O autor fala em nome da ciência pura e não de uma ciência fantasista ou superficial, e o faz com a autoridade que lhe dá o seu saber pessoal. Seu livro é um daqueles que têm um lugar marcado nas bibliotecas espíritas, porque é uma monografia de uma das partes constituintes da Doutrina, onde o crente encontra com que se instruir tão bem quanto o incrédulo. Teremos mais de uma vez ocasião de retornar ao assunto.
ALLANKARDEC.
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