Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Allan Kardec · Capítulo 8 de 13

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Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Julho

REVISTA ESPIRITA

 

JORNAL

 

DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

10o ANO NO. 7 JULHO 1867

 

CURTA EXCURSÃO ESPÍRITA.

A sociedade de Bordeaux, reconstituída, assim como dissemos em nosso número precedente, e se reuniu este ano, como no ano passado, em um banquete que teve lugar no dia do Pentecostes, banquete simples, dizemos em seguida, como convém em semelhante circunstância, e com pessoas cujo objetivo principal é encontrar uma ocasião de se reunir e estreitar os laços de fraternidade; a afetação e o luxo ali não teriam sentido. Apesar das ocupações que nos retinham em Paris, pudemos acederão gracioso e insistente convite que nos foi feito para a ele assistir. O do ano último, que foi o primeiro, não tinha reunido senão três dezenas de convivas; o deste ano havia deles quatro vezes mais, dos quais vários vindos de uma grande distância; Toulouse, Marmande, Villeneuve, Libourne, Niort, Blayee até Carcassonne, que está a 80 léguas, ali tinham seus representantes. Todas as classes da sociedade estavam nele confundidas numa comunidade de sentimentos; lá se encontravam o artesão, o cultivador ao lado do burguês, do negociante, do médico, dos funcionários, dos advogados, dos homens de ciência, etc.

Seria supérfluo acrescentar que tudo se passou como isto deveria ser entre pessoas que têm por divisa: Tora da caridade não há salvação," e que professam a tolerância por todas as opiniões e todas as convicções. Também, nas alocuções de circunstância que foram pronunciadas, nem uma palavra foi dita, cuja suscetibilidade mais sombria pudesse chocar; nossos maiores adversários mesmo se ali tivessem se encontrado, não teriam ouvido uma palavra, nem uma alusão à sua proposta.

A autoridade tinha se mostrado cheia de benevolência e de cortesia com respeito a esta reunião, e lhe devemos o agradecimento. Ignoramos se ela ali estava representada de maneira oculta, mas, seguramente, ela pôde se convencer ali, como sempre, de que as doutrinas professadas pelos Espíritas, longe de serem subversivas, são uma garantia de paz e de tranqüilidade; que a ordem pública nada tem a temer de pessoas cujos princípios são os do respeito às leis, e que, em nenhuma circunstância, não cederam às sugestões dos agentes provocadores que procuravam comprometê-los. Vistos sempre se retirarem e se absterem de toda manifestação ostensiva, todas as vezes que puderam temer que se fizesse ali um pretexto de escândalo.

É fraqueza de sua parte? Certamente, não; ao contrário, é a consciência da força de seus princípios que os torna calmos, e a certeza que têm da inutilidade dos esforços tentados para abafá-los; quando se abstêm, não é para colocar suas pessoas ao abrigo, mas para evitar o que poderia recair sobre a Doutrina. Eles sabem que ela não tem necessidade de demonstrações exteriores para triunfar. Vêem suas idéias germinarem por toda a parte se propagarem com uma força irresistível; que necessidade teriam de fazer barulho? Eles deixam esse cuidado aos seus antagonistas, que, por seus clamores,

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ajudam a propagação. As próprias perseguições são o batismo necessário a todas as idéias novas um pouco grandes; em lugar de anulá-las, elas lhes dão o brilho; mede-se a sua importância pela obstinação que se põe em combatê-las. As idéias que não se aclimatam senão à força de reclames e de encenações não têm senão uma vitalidade factícia e de curta duração; as que se propagam por si mesmas e pela força das coisas têm a vida nelas, e são as únicas duráveis; é o caso em que se encontra o Espiritismo.

A festa terminou por uma coleta feita em proveito dos infelizes, sem distinção de crenças, e com uma precaução cuja sabedoria não se pode senão louvar. Para deixar toda liberdade, não humilhar ninguém, e não estimular a vaidade daqueles que dariam mais do que os outros, as coisas foram dispostas de maneira a que ninguém, nem mesmo os coletores, soubesse o que cada um havia dado. A receita foi de 85 fr., e os comissários foram imediatamente designados para dela fazer o emprego.

Apesar da brevidade da nossa permanência em Bordeaux, pudemos assistir a duas sessões da sociedade: uma consagrada ao tratamento dos doentes, e a outra aos estudos filosóficos. Pudemos assim constatar, por nós mesmos, os bons resultados que são sempre o fruto da perseverança e da boa vontade. No relatório que publicamos em nosso número precedente sobre a sociedade bordalesa, pudemos, com conhecimento de causa, acrescentar as nossas felicitações pessoais. Mas ela não deve se dissimular de que quanto mais prosperar, mais será o alvo dos ataques de nossos adversários; que ela desconfie, sobretudo, das surdas manobras que poderiam urdir contra ela, e dos pomos de discórdia que, sob a aparência de um zelo exagerado, poderiam lançarem seu seio.

Estando o tempo de nossa ausência de Paris limitado pela obrigação de para lá regressar em dia determinado, não pudemos, lamentavelmente, ir aos diferentes centros para os quais fomos convidados; não pudemos senão nos deter alguns instantes em Tours e em Orléans que se encontravam em nossa rota. Lá também pudemos constatar o ascendente que a Doutrina adquire a cada dia na opinião, e seus felizes resultados que, por não serem ainda senão individuais, não são por isto menos satisfatórios.

Em Tours a reunião deveria ter quase cento e cinqüenta pessoas, tanto da cidade quanto das vizinhanças, mas, em conseqüência da precipitação com a qual a convocação foi feita, somente os dois terços delas puderam ali ir. Uma circunstância imprevista não tendo permitido o aproveitamento da sala que havia sido escolhida, reuniu-se, em uma magnífica noite, no jardim de um dos membros da sociedade. Em Oriéans os Espíritas são menos numerosos, mas esse centro não contou com número menor de adeptos sinceros e devotados, aos quais ficamos felizes de apertar a mão.

Um fato constante e característico, e que se deve considerar como grande progresso, é a diminuição gradual e quase geral das prevenções contra as idéias espíritas, mesmo entre aqueles que não as partilham; reconhece-se agora a todos o direito de ser Espírita, como o de ser judeu ou protestante; é alguma coisa. As localidades onde, como em llliers, no departamento de Eure-et-Loir, amotinaram-se os moleques para fazê-los correr sob golpes de pedras, são exceções cada vez mais raras.

Um outro sinal de progresso não menos característico é a pouco importância que, por toda a parte, os adeptos, mesmo nas classes menos esclarecidas, dão aos fatos de manifestações extraordinárias. Se os efeitos deste gênero se produzem espontaneamente, se os constata mas não comovem mais, não são procurados, e se liga ainda menos em provocá-los. Estima-se pouco o que não satisfaz senão os olhos e a curiosidade; o objetivo sério da Doutrina, suas conseqüências morais, os recursos que ela pode oferecer para o alívio do sofrimento, a felicidade de reencontrarem os parentes ou amigos que se perdeu e de conversar com eles, escutar os conselhos que vêm dar, fazem o objeto exclusivo e preferido das reuniões espíritas. Nos próprios campos e entre os artesãos, um poderoso médium de efeitos físicos seria menos apreciado do que um bom médium escrevente dando, por comunicações racionais, a consolação e a esperança. O que se procura na Doutrina, antes de tudo, é o que toca o coração. É uma coisa notável a

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facilidade com a qual as pessoas, mesmo as mais ilustres, compreendem e assimilam os princípios desta filosofia; é porque não é necessário ser sábio para ter coração e julgamento. Ah! dizem eles, se nos tivessem sempre nos falado assim, jamais teríamos duvidado de Deus e de sua bondade, mesmo nas piores misérias!

Sem dúvida, é alguma coisa crer, porque já é um pé colocado no bom caminho; mas a crença sem a prática é uma letra morta; ora, somos felizes em dizer que, em nossa curta excursão, entre numerosos exemplos dos efeitos moralizadores da Doutrina, encontramos bom número desses Espíritas de coração que se poderia dizer completos se fosse dado ao homem ser completo no que quer que seja, e que se pode considerar como os tipos da geração futura transformada; há-os de todos os sexos, de todas as idades e de todas as condições, desde a juventude até o limite extremo da idade, que realizam desde esta vida as promessas que nos são feitas para o futuro. Eles são fáceis de reconhecer; há em todo o seu ser um reflexo de franqueza e de sinceridade que comanda a confiança; desde o início sente-se que não há nenhum pensamento dissimulado sob palavras douradas ou hipócritas elogios. Ao redor deles, e mesmo na mediocridade, sabem fazer reinar a calma e o contentamento. Nesses interiores benditos respira-se uma atmosfera serena que reconcilia com a Humanidade, e compreende-se o reino de Deus sobre a Terra; felizes aqueles que sabem disto gozar por antecipação! Em nossas viagens espíritas, é menos o número de crentes que calculamos e que mais nos satisfaz, que aqueles desses adeptos que são a honra da Doutrina e que são dela, ao mesmo tempo, os mais firmes sustentáculos, porque a fazem estimar e respeitar neles.

Vendo o número dos felizes que o Espiritismo faz, esquecemos facilmente as fadigas inseparáveis de nossa tarefa. Está aí uma satisfação, um resultado positivo, que a mais obstinada malevolência não pode nos tirar; poder-se-ia nos tirara vida, os bens materiais, mas jamais a felicidade de ter contribuído para levar a paz aos corações ulcerados. Para quem sonde os motivos secretos que fazem certos homens agir, há lamas que mancham aqueles que a lançam, e não aqueles a quem a lançam.

Que todos aqueles que nos deram, nesta última viagem, tão tocantes testemunhos de simpatia, recebam aqui nossos muito sinceros agradecimentos, e estejam seguros de que serão pagos em retorno.

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A LEI E OS MÉDIUNS CURADORES.

Sob o título de Um Mistério, vários jornais do mês de maio último reportaram o fato seguinte:

"Duas senhoras do bairro Saint-Germain se apresentaram, num destes últimos dias, na casa do comissário de seu quarteirão e lhe assinalaram o nome P..., que tinha, disseram elas, abusado de sua confiança e de sua credulidade, em lhes afirmando que as curaria de doenças, contra as quais seus cuidados tinham sido impotentes.

Tendo aberto, a esse respeito, um inquérito, o magistrado concluiu de que P... passava por um hábil médico, cuja clientela aumentava cada dia, e que fazia curas extraordinárias.

"Segundo suas respostas às perguntas do comissário, P... parecia convencido que é dotado de uma faculdade sobrenatural que lhe dará o poder de curar nada senão pela imposição das mãos sobre os órgãos doentes.

"Durante vinte anos ele foi cozinheiro; e era mesmo citado por um dos hábeis em seu ofício, que abandonou há um ano para se consagrar à arte de curar.

"A se crer nele, teria tido várias visões e aparições misteriosas nas quais um enviado de Deus lhe teria revelado que tinha a cumprir, sobre a Terra, uma missão de humanidade, à qual não deveria falhar sob pena de ser condenado. Obedecendo, disse

 

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ele, a essa ordem vinda do céu, o antigo cozinheiro instalou-se num apartamento da rua Saint-Placide, e os doentes não tardaram em fartar-se em suas consultas.

"Ele não prescreve medicamentos; examina o paciente que deve tratar quando está em jejum, apalpa-o, procura e descobre a sede do mal, sobre o qual aplica suas mãos dispostas em cruz, pronuncia algumas palavras que são, disse ele, o seu segredo; depois, na sua prece, um Espírito invisível vem e leva o mal.

"P..., certamente, é um louco; mas o que há de extraordinário, de inexplicável, é que ele provou, assim como o inquérito constatou, que, por esse singular procedimento, curou mais de quarenta pessoas afetadas de doenças graves.

"Várias lhe testemunharam seu reconhecimento pelos dons em dinheiro; uma velha senhora, proprietária nas cercanias de Fontainebleau, o tem, por um testamento encontrado em sua casa, onde uma perquirição foi praticada, por seu herdeiro com uma quantia de 40.000 f r.

"P... foi mantido em estado de encarceramento, e seu processo, que, sem dúvida, não tardará em ocorrer na polícia correcional, promete ser curioso."

Não nos fazemos nem o apologista nem o detrator do Sr. P..., que não conhecemos. Ele está em boas ou más condições? É sincero ou charlatão? Ignoramo-lo; será o futuro que no-lo provará; não tomamos fato e causa nem pró nem contra ele. Mencionamos o fato tal como nos foi reportado, porque vem juntar-se a todos aqueles que acreditam na idéia de existência de uma dessas faculdades estranhas que confundem a ciência e aqueles que não querem nada admitir fora do mundo visível e tangível. À força de deles ouvir falar e de veros fatos se multiplicarem, se está muito forçado a convir que há alguma coisa, e pouco a pouco se faz a distinção entre a verdade e a hipocrisia.

No relato que precede, sem dúvida, notou-se esta curiosa passagem, e a contradição não menos curiosa que ela encerra:

"P..., certamente, é um louco, mas o que há de extraordinário, de inexplicável, é que ele provou, assim como o constata o inquérito, que, por esse singular procedimento, ele curou mais de quarenta pessoas afetadas de doenças graves."

Assim, o inquérito constata as curas; mas porque o meio que ele emprega é inexplicável, e não é reconhecido pela Faculdade, ele, certamente, é louco. A esta conta, o abade príncipe de Hohenlohe, cujas curas maravilhosas reportamos na Revista de dezembro de 1866, p. 368, era um louco; o venerável cura d'Ars, que, ele também, fazia curas poresses singulares procedimentos, era um louco, e tantos outros; o Cristo, que curava sem diploma e sem emprego de medicamentos, era louco, e teria pago muitas das multas em nossos dias. Louco ou não, quando há cura, há muitas pessoas que preferem ser curadas por um louco a serem enterradas por um homem de bom senso.

Com um diploma, todas as excentricidades médicas são permitidas.

Um médico, cujo nome esquecemos, mas que ganha muito dinheiro, emprega um procedimento de outro modo bem bizarro; com um pincel ele maquila o rosto de seus doentes com pequenos losangos vermelhos, amarelos, verdes, azuis dos quais cerca os olhos, o nariz, a boca em quantidade proporcional à natureza da doença. Sobre que dado científico está fundado esse gênero de medicação? Um mau gracejo do redator pretendeu que para se poupar de enormes despesas de publicidade, esse médico os fazia levar grátis por seus doentes, sobre seu rosto. Vendo nas ruas esses rostos tatuados, pergunta-se naturalmente o que é? E os doentes respondem: É o procedimento do célebre doutor um tal. Mas ele é médico; que seu procedimento seja bom, mau ou insignificante, não está aí a questão; tudo lhe é permitido, mesmo ser charlatão: está autorizado pela Faculdade; que um indivíduo não diplomado queira imitá-lo, será perseguido por trapaça.

Reclama-se sobre a credulidade do público a respeito dos charlatães; admira-se da afluência que se leva a alguém que anuncia um novo meio de curar, nos sonâmbulos,

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curadores e outros; da predileção pelos remédios de doméstica e se o liga à inépcia da espécie humana! A verdadeira causa liga-se à vontade muito natural que os doentes têm de se curar, e ao insucesso da medicina num muito grande número de casos; se os médicos curassem mais freqüentemente e mais seguramente, não se iria a outra parte; ocorre mesmo, quase sempre, que não se tem recursos a meios excepcionais senão depois de ter esgotado inutilmente os recursos oficiais; ora, o doente que quer ser curado a qualquer preço, pouco se incomoda de sê-lo segundo a regra ou contra a regra.

Não repetiremos aqui o que está hoje claramente demonstrado sobre as causas de certas curas, inexplicáveis somente para aqueles que não querem se dar ao trabalho de remontar à fonte do fenômeno. Se a cura tem lugar, é um fato, e esse fato tem uma causa; é mais racional negá-la do que procurá-la? - É o acaso, dir-se-á; o doente curou-se sozinho. - Seja; mas então o médico que o declarou incurável dava prova de uma grande ignorância. E depois, se houver vinte, quarenta, cem curas semelhantes, será sempre o acaso? Isto seria, é preciso convir, um acaso singularmente perseverante e inteligente, ao qual poder-se-ia dar o nome de doutor Acaso.

Examinaremos a questão sob um ponto de vista mais sério.

As pessoas não diplomadas que tratam os doentes pelo magnetismo; pela água magnetizada que não é senão uma dissolução do fluido magnético; pela imposição das mãos, que é uma magnetização instantânea e poderosa; pela prece, que é uma magnetização mental; com o concurso dos Espíritos, o que é ainda uma variedade de magnetização, são elas passíveis da lei contra o exercício ilegal da medicina?

Os termos da lei, certamente, são muito elásticos, porque ela não especifica os meios. Rigorosamente e logicamente não se pode considerar como exercendo a arte de curar, senão aqueles que dela fazem profissão, quer dizer, que dela tirem proveito. No entanto, viram-se condenações pronunciadas contra indivíduos se ocupando desses cuidados por puro devotamento, sem nenhum interesse ostensivo ou dissimulado. O delito está, pois, sobretudo, na prescrição dos remédios. No entanto, o desinteresse notório é geralmente tomado em consideração como circunstância atenuante.

Até o presente, não se tinha pensado que uma cura pudesse ser operada sem o emprego de medicamentos; a lei, pois, não previu o caso de tratamentos curativos sem remédios, e não seria senão por extensão que se a aplicaria aos magnetizadores e aos médiuns curadores. A medicina oficial não reconhecendo nenhuma eficácia no magnetismo e seus anexos e ainda menos na intervenção dos Espíritos, não se poderia legalmente condenar, por exercício ilegal da medicina, os magnetizadores e os médiuns curadores que nada prescrevem, ou nada mais do que água magnetizada, porque então isto seria reconhecer oficialmente uma virtude ao agente magnético, e colocá-lo na classe dos meios curativos; isto seria compreender o magnetismo e a mediunidade curadora na arte de curar, e dar um desmentido à faculdade. O que se faz, algumas vezes, em semelhante caso, é condenar por delito de espoliação fraudulenta, e abuso de confiança, como fazendo pagar uma coisa sem valor, aquele que dela tira um proveito direto ou indireto, ou mesmo dissimulado sob o nome de retribuição facultativa, véu no qual não é preciso sempre se fiar. A apreciação do fato depende inteiramente da maneira de encarar a coisa em si mesma; é freqüentemente uma questão de opinião pessoal, a menos que não haja abuso presumido, caso no qual a questão de boa fé entra sempre em linha de conta; a justiça, então, aprecia as circunstâncias agravantes ou atenuantes.

Ocorre inteiramente de outro modo para aquele cujo desinteresse é confirmado e completo; desde que não prescreve nada e não recebe nada, a lei não pode atingi-lo, ou bem seria preciso lhe dar uma extensão que nem o espírito nem a letra comportam. Onde não há nada a ganhar, não se poderia ver o charlatanismo. Não há nenhum poder no mundo que possa se oporão exercício da mediunidade ou magnetização curadora, na verdadeira acepção da palavra.

 

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No entanto, dir-se-á, o Sr. Jacob não fazia pagar nada, e por isto não foi menos interditado. Isto é verdade, mas não foi nem perseguido, nem condenado pelo fato do qual se tratava; a interdição era uma medida de disciplina militar, por causa da perturbação que poderia causar ao campo de influência das pessoas que a ela se entregavam, e, se depois, foi desculpada dessa interdição, foi que isso lhe foi conveniente. Se ela não tivesse pertencido ao exército, ninguém poderia inquietá-lo. (Vide, Revista de março de 1865, página 76: 0 Espiritismo e a Magistratura.)

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ILLIERS E OS ESPÍRITAS.

Sob este título, o Journal de Chartres, de 20 de maio último, continha a correspondência seguinte:

"llliers, 20 de maio de 1867.

"Estamos no mês de maio ou no carnaval? Acreditei-me nesta última época no último domingo. Como atravesso llliers, pelas quatro horas da tarde, encontrei-me em face de um ajuntamento de sessenta, oitenta, cem moleques talvez, seguidos de uma multidão numerosa gritando a plenos pulmões, à luz dos Lampiões: Lá vai o feiticeiro! lá vai o feiticeiro! lavai o cão louco! lá vai Grezelle! e acompanhando de vaias um bravo e plácido camponês, de olhar desvairado, com ar espantado, que ficou muito feliz em encontrar uma mercearia para lhe servir de refúgio. É que, depois dos cantos e das vaias, vinham as injúrias e voavam as pedras, e o pobre diabo, sem esse asilo, talvez tivesse um mau partido.

"Perguntei a um grupo que ali se encontrava o que isso queria dizer; foi-me contado que, há algum tempo, todas as sextas-feiras havia uma reunião de Espíritas na Sorcellerie, comuna de Vieuvicq, à porta de llliers. O grande Pontífice que presidia essas reuniões era um maçon chamado Grezelle, era esse infeliz que vinha de se ver tão maltratado. É que, dizia-se, há alguns dias, tinham se passado coisas muito esquisitas. Ele teria visto o diabo, teria evocado as almas que lhe teriam revelado coisas pouco lisongeiras para certas famílias.

Breve, várias mulheres teriam se tornado loucas, e certos homens caminharam sobre seus traços; parece mesmo que o Pontífice abre a caminhada; sempre que uma jovem de llliers perdeu totalmente a cabeça. Ter-lhe-iam dito que, por certas faltas, lhe seria preciso que fosse ao purgatório. Sexta-feira, ela dava seus adeuses a todos os seus parentes e vizinhos, e sábado, depois de ter feito seus preparativos de partida, ela ia se jogar no rio; felizmente foi vigiada e chegaram bastante a tempo para retardar a viagem.

"Compreende-se que este acontecimento tenha emocionado a opinião pública. A família dessa jovem tinha se exaltado, e vários membros armados de um bom chicote foram levá-lo ao Pontífice, que teve a felicidade de escapar de suas mãos. Ele queria deixar a Sorcellerie de Vieuvicq para vir estabelecer sua algazarra em llliers, em lugar dito a Folie-Valleran. Disseram que dois bravos pais de família que lhe serviam de meninos de coro pediram-lhe para não vir para Ia Folie, é a loucura que irá nele; falou-se também que a polícia dele iria se ocupar.

"Deixai, pois, os moleques de llliers se divertirem. Eles bem saberão dele triunfar. Há dessas coisas que morrem aniquiladas pelo ridículo.

"LÉON GAUBERT."

O mesmo jornal, em seu número de 13 de junho de 1867, contém o que se segue:

 

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Em resposta a uma carta trazendo a assinatura do Sr. Léon Gaubert, publicada em nosso número de 26 de maio último, recebemos a comunicação seguinte, à qual conservamos, escrupulosamente, a sua originalidade:

"La Certellerie, 4 de junho de 1867.

"Senhor Redator,

"Em vosso jornal de 26 de maio, tornastes pública uma carta na qual vosso correspondente me aniquila para vos fazer ver como fui maltratado em llliers. Pedreiro e pai de família, tenho o direito de reparação depois de ter sido tão violentamente atacado, e espero que venhas a consentir em conhecer a verdade depois de deixar propagar o erro.

"É bem verdade, como essa carta o diz, que as crianças da escola e muitas pessoas que estimava, me perseguem cada vez que passo por llliers. Duas vezes, sobretudo, deixei de sucumbir aos golpes de pedras, de bastões e outros objetos que se lançaram sobre mim, e hoje ainda, se fosse a llliers onde sou muito conhecido, seria cercado, ameaçado, maltratado. Além dos materiais que chovem, enche-se o ar de injúrias: louco, feiticeiro, espírita, tais são as doçuras mais comuns com que me regalam. Felizmente, nada há de verdadeiro nisso, tudo o que vosso correspondente vos escreveu (o texto traz: tudo o que vosso correspondente acrescenta), é falso e jamais existiu senão na imaginação das pessoas que procuraram amotinar a população contra nós.

"O Sr. Léon Gaubert, que assinou vossa carta, é completamente desconhecido na região; disseram-me que é um anônimo, se bem retive a palavra. Eu digo que se se esconde, é que se sente que não se faz bem; diria, pois, com toda a franqueza, ao Sr. Léon Gaubert: Fazei como eu, colocai o vosso verdadeiro nome.

"O Sr. Léon Gaubert disse que uma senhora, em conseqüência de excitações e de práticas espíritas, tornou-se louca e quis se afogar. Não sei se realmente ela quis se afogar; muitas pessoas me dizem que isso não é verdadeiro, mas, quando mesmo o fosse, com isso não tenho absolutamente nada. Essa mulher é uma revendedora, sua reputação está feita aqui há muitíssimo tempo, e não se falava ainda de Espiritismo quando já era como aqui (o texto traz conhecida aqui), como ela o é nesta hora. Suas irmãs a ajudam a perseguir-me. Eu vos declaro que ela jamais se ocupou de Espiritismo: seus instintos a levam numa direção contrária. Ela jamais assistiu às nossas reuniões, e jamais colocou os pés na casa de nenhum Espírita da região.

"Porque, pois, dir-me-eis, vos querela, e porque se vos quer tanto em llliers? É um enigma para mim; não percebi senão uma coisa, é que muitas pessoas, antes que a primeira cena aparecesse, disso pareciam instruídas antecipadamente, e nesse dia, quando entrei nas ruas de llliers, notei bem o povo nas portas e nas janelas.

"Sou um trabalhador honesto, Senhor; ganho honradamente o meu pão. O Espiritismo não me impede de nenhum modo de trabalhar, e se alguém tiver a menor censura séria a me dirigir, que nada tema. Nós temos leis, e, nas circunstâncias em que me encontro, o primeiro que peço é que as leis do país sejam bem observadas.

"Quanto a ser Espírita, disto nada escondo; é muito verdadeiro, sou Espírita. Meus dois rapazes, jovens ativos, organizados e florescentes, ambos são médiuns. Um e o outro amam o Espiritismo e, como seu pai, crêem, oram, trabalham, se melhoram e tratam de se elevarem. Mas, que mal haveria aí? Quando a cólera me diz para me vingar, o Espiritismo me detém e me diz: Todos os homens são irmãos; faze o bem àqueles mesmos que te fazem o mal, e me encontro mais calmo, mais forte.

"O cura me recusou o confessionário, porque sou Espírita; se eu viesse carregá-lo com todos os crimes possíveis, ele me absolveria; mas Espírita, crendo em Deus e fazendo o bem segundo o meu poder, não encontro graça aos seus olhos. Muitas pessoas de llliers não fazem de outro modo, e tal de nossos inimigos que, nessa hora, me

 

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lança a pedra porque sou Espírita, faria melhor me absolvendo, e me aplaudiria o dia em que me encontrasse numa orgia."

Nota. Este parágrafo entre aspas, que estava na carta original, foi suprimido pelo jornal.

"Para agradar, eu não saberia dizer negro quando vejo branco; tenho convicções; o Espiritismo é para mim a mais bela das verdades; que quereis? Se quer me forçar a dizer o contrário daquilo que penso, de tudo que vejo, e quando se fala tanto de liberdade, é preciso que seja suprimida na prática?

"Vosso correspondente disse que eu queria deixar a Sorcellerie para ir estabelecer minha feitiçaria na Folie-Valleran. Ao ver o Sr. Léon Gaubert inventar tantas palavras desagradáveis, verdadeiramente, dir-se-ia que ele está possuído da raiva de dar, sobre a cabeça de todo o mundo, os mais desajeitados golpes com colher de pedreiro. O Sr. Valleran é um dos proprietários mais respeitáveis da região, e, levantando uma construção magnífica, fez ganhar dinheiro a muitos obreiros por um trabalho honesto e lucrativo. Tanto pior para aquele que nisto está vexado ou não o imitaria senão com recuos.

"Sede bastante bom, Senhor, para fazer parte de minha carta aos vossos leitores, e desenganar como justas as pessoas que, na primeira carta publicada por vós, induziram ao erro.

"Aceitai, etc.

"GREZELLE."

O redator do jornal disse que conserva escrupulosamente essa carta em sua originalidade; sem dúvida, ele quer dizer por aí a forma do estilo que, num pedreiro da aldeia, não é a de um literato. É provável que num estilo mais incorreto ainda, esse pedreiro tivesse escrito contra o Espiritismo, não se o teria achado ridículo. Mas uma vez que se prendia tão escrupulosamente em conservar a originalidade da carta, por que suprimir um parágrafo? Em caso de inexatidão a responsabilidade recairia sobre seu autor. Para estar rigorosamente no verdadeiro, o jornal deveria acrescentar que tinha primeiro recusado a publicação dessa carta, e que não cedeu senão diante da iminência de perseguições judiciárias, cujas conseqüências eram inevitáveis, uma vez que se tratava de um homem estimado, atacado pelo próprio jornal, em sua honra e sua consideração.

O autor da primeira carta, sem dúvida, pensou que a deturpação burlesca dos fatos não bastaria para lançar o ridículo sobre os Espíritas; acrescentou uma grande malícia, transformando o nome da localidade, que é Ia Certellerie no de Ia Sorcellerie; é talvez mais espirituoso para as pessoas que gostam do sal grosso, mas não do sal ático, e ainda menos o requerido; este gênero de ridículo nunca matou nada.

É preciso considerar esses fatos como lamentáveis? Eles o são, sem dúvida, para aqueles que lhes foram as vítimas, mas não para a Doutrina, à qual não podem senão aproveitar.

De duas coisas uma: ou as pessoas que se reúnem nessa localidade se entregam a uma indigna comédia, ou são pessoas honradas, sinceramente Espíritas. No primeiro caso, é prestar um grande serviço à Doutrina desmascarando aqueles que dela abusam ou que misturam seu nome a práticas ridículas. Os Espíritas sinceros não podem senão aplaudir a tudo o que tende a desembaraçar o Espiritismo dos parasitas de má-fé, sob qualquer forma que se apresentem, e jamais tomaram fato e causa pelos escamoteadores e pelos charlatães. No segundo, ele não pode senão ganhar pela ressonância que lhe dá uma perseguição apoiada sobre fatos controversos, porque ela excita as pessoas a se perguntarem daquilo que é; ora, o Espiritismo não pede senão ser conhecido, sendo bem certo que um exame sério é o melhor meio de destruir as prevenções naqueles que não o conhecem. Não estaríamos, pois, surpresos que essa empresa frustrada não tenha um

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resultado diferente daquele que dela esperavam aqueles que a provocaram, e que ela não seja a causa de uma recrudescência no número dos adeptos da localidade. Assim o foi por toda parte onde uma oposição um pouco violenta se manifestou.

Que fazer, então, dir-se-ão os adversários? Se deixarmos fazer, o Espiritismo caminha; se agirmos contra, ele caminha mais depressa. - A resposta é muito simples: reconhecer que o que não se pode impedir está na vontade de Deus, e que o melhor a fazer é deixá-lo passar.

Dois de nossos correspondentes, estranho um ao outro, nos transmitiram, sobre esses fatos, notícias precisas e perfeitamente concordantes. O Sr. Quômes d'Arras, um deles, homem de ciência e escritor distinto, no primeiro relato desses acontecimentos, reportou que o jornal de Chartres, ignorando a causa do conflito, não quis se apressar em tomar a defesa dos fatos nem das pessoas que abandonou à severidade da crítica se as merecessem; mas tomou a do Espiritismo. Numa carta cheia de moderação e de conveniência dirigida ao jornal, se prende a demonstrar que, se os fatos fossem tais quanto eram reportados pelo Sr. Léon Gaubert, o Espiritismo nisso não estava por nada quando o mesmo se pudesse ter lhe tomado o nome. Toda pessoa imparcial teria considerado como um dever dar lugar a uma retificação tão legítima. Isto não foi assim, e as reiteradas instâncias não levaram senão a uma recusa formal. Isto se passava antes da carta de Grezelle, que, assim como se viu, deveria ter a mesma sorte. Se o jornal temesse levantarem suas colunas a questão do Espiritismo, não deveria admitir a carta do Sr. Gaubert; se reservar o direito de atacar, e recusar o da defesa, é um meio fácil, mas pouquíssimo lógico, de se dar razão.

O Sr. Quômes d'Arras, a fim de se dar conta, por si mesmo, do estado das coisas, foi para os lugares. Consentiu em nos enviar um relatório detalhado de sua visita; lamentamos que a extensão desse documento, não nos permita publicá-lo neste número, onde já tudo o que deveria nele estar não pôde encontrar lugar; resumimos suas conseqüências principais. Eis o que aprendi em llliers, junto de diferentes pessoas honradas, estranhas ao Espiritismo.

Grezelle é um excelente pedreiro, proprietário de La Certellerie. Longe de disparatar, todos aqueles que o conhecem não podem senão prestar justiça ao seu bom senso, aos seus hábitos de ordem, de trabalho, de regularidade. É um bom pai de família; todo o seu erro é o de inquietar os materialistas e os indiferentes da região, por suas afirmações enérgicas, multiplicadas, sobre a alma, sobre suas manifestações depois da morte, e sobre nossos destinos futuros. Ele está longe de ser, na região, o único partidário do Espiritismo que ali conta, em Brou, sobretudo, adeptos numerosos e devotados.

Quanto às mulheres que, segundo o Journal de Chartres, o Espiritismo teria tornado loucas, ou arrastado para atos culpáveis, é uma pura invenção. O fato ao qual faz alusão é o de uma revendedora muito conhecida em llliers, dada à bebida, e cuja razão sempre foi f raça. Ela zangou-se com Grezelle e disse mal dele, não se sabe por quê. Como as idéias espíritas circulam na região, deve delas ter ouvido falar, e as misturou aos seus propósitos incoerentes, mas delas jamais se ocupou seriamente. Quanto aoterquerido se afogar, este pensamento não teria nada de impossível, tendo em vista seu estado habitual: mas o fato parece controvertido.

Dali, o Sr. Quômes d'Arras foi para La Certellerie, a cinco quilômetros além de llliers. "Chegando, disse ele, perguntei pela casa da senhora Jacquet, da qual se me havia dito o nome em llliers. Ela estava no jardim, com o seu filho, no meio das flores, ocupada com os trabalhos de agulha. Logo que soube o motivo de minha viagem, conduziu-me à sua casa, onde fomos logo reunidos por sua criada, jovem de vinte anos, médium falante e Espírita fervorosa, porGrezelle e seu filho primogênito, com a idade de vinte anos. Não foi necessário conversar por muito tempo com esse grupo de pessoas para se perceber que se achava em relação, não com espíritos agitados, pesarosos, singulares, exaltados ou fanáticos, mas com pessoas sérias, razoáveis, benevolentes, de uma sociabilidade

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perfeita; franqueza, limpidez, simplicidade, amor ao bem, tais eram os traços salientes que se pintavam em seu exterior, em suas palavras, e, eu o confessarei à minha confusão, não me esperava tão bem.

"Grezelle tem quarenta e cinco anos, é casado e tem dois rapazes; ambos são médiuns escreventes, assim como ele. Ele me contou com calma os sofrimentos que suportou e as astúcias das quais foi objeto. A senhora Jacquet me disse também que na região muitas pessoas alimentam contra eles os piores sentimentos porque são Espíritas. Aos meus olhos pareceu muito provável, e na seqüência adquiri a mais completa certeza, que essas diversas famílias são tranqüilas, benevolentes para com todo o mundo, incapazes de fazer o mal a alguém, sinceramente presas a todos os seus deveres; admiro, e disto rendo graças ao céu, a firmeza, a força de caráter, a solidez das convicções, o profundo apego ao bem dessas excelentes pessoas que, no campo, sem grande instrução, sem encorajamentos e sem recursos visíveis, cercadas de inimigos e de zombadores, mantêm alto, há quatro anos, seus princípios, sua fé, suas esperanças; elas têm para defender a sua bandeira contra os risos uma coragem que, infelizmente, muito freqüentemente, faz falta ainda aos nossos sábios das cidades, e mesmo a muitos Espíritas avançados.

"Grezelle, o único que foi positivamente maltratado, embora faça três anos que é Espírita, tem todo o fervor de um neófito, todo o zelo de um apóstolo, e também toda a atividade exuberante de uma natureza pronta, enérgica e empreendedora. Em razão de seus negócios, está continuamente misturado à população da região, e, cheio de Espiritismo, o amam mais do que a vida, não pode se impedir de dele falar, de fazê-lo ressaltar, e de mostrar-lhe as belezas, as grandezas, as maravilhas de uma palavra realmente esmagadora e forte, ele produz no meio dos indiferentes que o cercam o efeito do fogo sobre a água. Como não leva em conta nem o tempo, nem as circunstâncias contrárias, poder-se-ia dizer que peca um pouco por excesso de zelo, e talvez, também, por falta de prudência."

No dia seguinte, ao anoitecer, o Sr. Quômes assistia, na casa de Grezelle, a uma sessão espírita composta de dezoito a vinte pessoas, entre as quais se encontravam o prefeito, as notabilidades do lugar, as pessoas de uma honradez notória, que, certamente, não foram a uma assembléia de loucos e de iluminados. Tudo ali se passou na mais perfeita ordem, com o mais perfeito recolhimento, e sem o menor vestígio das práticas ridículas de magia e de feitiçaria. Começa-se pela prece, durante a qual todo o mundo se coloca de joelhos. Às preces tiradas do Evangelho Segundo o Espiritismo, acrescentam-se a prece da noite e outras, tiradas do ritual comum da Igreja. "Nossos detratores, sobretudo os eclesiásticos, acrescenta o Sr. Quômes, não tivessem talvez notado, sem embaraço e sem admiração, o fervor dessas almas sinceras, e sua atitude recolhida denotando um sentimento religioso profundo. Ali havia seis médiuns, dos quais quatro homens e duas mulheres, entre as quais a criada da senhora Jacquet, médium falante e escrevente. As comunicações são, em geral, fracas de estilo, as idéias nelas são diluídas e sem encadeamento; algumas manias mesmo aparecem no modo de comunicação; mas, em suma, nada há de mau, de perigoso, e tudo o que se obtém edifica, fortalece, traz o espírito ao bem ou o eleva a Deus.

O Sr. Quômes encontrou, entre os Espíritas, a sinceridade e um devotamento a toda a prova, mas também uma falta de experiência à qual se esforçou para suprir por seus conselhos. O fato essencial que ele constatou é que nada, na sua maneira de agir, justifica o quadro ridículo que dele faz o Journal de Chartres. Os atos selvagens que se passaram em llliers foram, pois, evidentemente suscitados pela malevolência, e parecem ter sido premeditados.

De nossa parte, estamos felizes que isso seja assim, e felicitamos nossos irmãos do cantão de llliers dos excelentes sentimentos que os animam.

 

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As perseguições, como dissemos, são a lei inevitável de todas as grandes idéias novas, que todas têm tido mártires; aqueles que os suportam serão felizes um dia por haverem sofrido pelo triunfo da verdade. Que perseverem, pois, sem desanimar e sem se enfraquecer, e serão sustentados pelos bons Espíritos que os observam; mas também que não renunciem jamais à prudência que comanda as circunstâncias, e que evitem com cuidado tudo o que poderia dar presa aos nossos adversários; é no interesse da Doutrina.

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EPIDEMIA DA ILHA MAURICE

Há alguns meses, um de nossos médiuns, o Sr. T..., que, freqüentemente, cai em sonambulismo espontâneo, sob a magnetização dos Espíritos, nos disse que a ilha Maurice estava, nesse momento, assolada por uma epidemia terrível, que dizimava a população. Esta previsão foi realizada, mesmo com circunstâncias agravantes. Acabamos de receber, de um de nossos correspondentes da Ilha Maurice, uma carta datada de 8 de maio e da qual extraímos as passagens seguintes.

"Vários Espíritos nos anunciaram, alguns claramente, os outros em termos proféticos, um flagelo destruidor prestes a nos atingir. Tomamos essas revelações do ponto de vista moral e não do ponto de vista físico. Súbito uma doença estranha eclodiu sobre nossa pobre ilha; uma febre sem nome, que reveste todas as formas, começa docemente, hipocritamente, depois cresce e derruba todos aqueles que pode atingir. É agora uma verdadeira peste; os médicos dela não entendem nada; todos aqueles que dela foram atingidos não puderam se curar até o presente. São acessos terríveis que nos cansam e nos torturam durante doze horas, pelo menos, atacando em seqüência cada órgão importante; depois, o mal cessa durante um dia ou dois, deixando a doença coberta até seu próximo retorno, e se caminha assim, mais ou menos rapidamente, para o termo fatal.

Por mim, vejo nisto tudo um desses flagelos anunciados, que devem retirar do mundo uma parte da geração presente, e destinados a operar uma renovação tornada necessária. Vou vos dar um exemplo das infâmias que se passam aqui.

A quinina, em dose fortíssima, susta os acessos por alguns dias somente; é o único específico capaz de deter, momentaneamente pelo menos, o progresso da cruel doença que nos dizima.

Os negociantes e os farmacêuticos tinham dela uma certa quantidade que lhes chegava a quase 7 f r. a onça, ora, como esse remédio estava fortemente comprado portodo o mundo, esses senhores aproveitaram a ocasião para elevarem o preço da poção de um indivíduo, de 1 f r. preço comum, até 15 f r. Depois a quinina veio a faltar; quer dizer que aqueles que a tinham, e que a recebiam pelas malas, vendiam-na ao preço fabuloso de 2 f r. 50 c. o grão no varejo, e no atacado 675 e 800 f. a onça. Numa poção entram, pelo menos, 30 grãos, o que faz 75 f r. a poção. Só os ricos podiam, pois, dela se proporcionar, e esses comerciantes viam com indiferença os milhares de infelizes expirarem ao redor deles, por falta de dinheiro necessário para se proporcionar esse medicamento.

Que dizeis disto? Pois bem! é a história! Ainda neste momento, a quinina chega em quantidade; as lojas dos farmacêuticos dela regurgitam, mas, não obstante, não querem dar uma dose a menos de 12 f r. 50 c.; também os pobres morrem sempre olhando com um olhar desolado esse tesouro que não podem alcançar!

Eu mesmo fui atingido pela epidemia, e dela estou em minha quarta recaída. Eu me arruino em quinina. Isto prolonga a minha existência, mas se, como temo, as recaídas continuem, na verdade, caro senhor, é bastante provável que dentro em pouco, eu terei o prazer de assistir em Espírito às vossas sessões parisienses, e nelas tomar parte, se Deus o permitir. Uma vez no mundo dos Espíritos, estarei mais perto de vós e da

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Sociedade, do que não o sou na ilha Maurice; em um pensamento vou às vossas sessões sem fadiga e sem medo de mau tempo. De resto, não tenho o menor medo, eu vos juro; sou muito sinceramente Espírita por isto. Todas as minhas precauções estão tomadas, e se vier a deixar o mundo, disto sereis instruído.

À espera disso, caro senhor, tende a bondade de rogar aos meus irmãos da Sociedade Espírita de juntar suas preces às nossas para as infelizes vítimas da epidemia, pobres Espíritos muito materiais, na maioria, e cujo desligamento deve ser penoso e longo. Rogamos também por aqueles, muito diferentemente infelizes, que ao flagelo da doença, acrescentam o de desumanidade.

Nosso pequeno grupo está disseminado há três meses; todos os membros foram mais ou menos atingidos, mas nenhum de nós morreu até o presente.

Recebei, etc.

É preciso ser verdadeiramente Espírita para encarar a morte com esse sangue-frio e essa indiferença, então quando ela estende suas devastações ao nosso redor, e quando dela se sente o golpe; é que em semelhante caso, afé séria no futuro, tal qual só o Espiritismo pode dar, proporciona uma força moral que é por si mesma um poderoso preservativo, assim como isto foi dito a propósito do cólera. (Revista de novembro de 1865, página 336). Isto não é dizer que, nas epidemias, os Espíritas sejam necessariamente poupados, mas é certo que, em semelhante caso, foram até o presente os menos atingidos. Vai sem dizer que se trata dos Espíritas de coração, e não daqueles que deles não têm senão a aparência.

Os flageles destruidores, que devem maltratara Humanidade, não sobre um ponto do globo, mas por toda a parte, são pressentidos de todas as partes pelos Espíritos.

A comunicação seguinte, verbal e espontânea, foi dada sobre esse assunto e em conseqüência da leitura da carta acima.

 

(Sociedade de Paris, 21 de junho de 1867; méd. Sr. Morin, ou sonambulismo espontâneo.)

"A hora avança, a hora marcada no grande e perpétuo relógio do infinito, a hora na qual vai começar a se operara transformação de vosso globo para fazê-lo gravitar para a perfeição. Foi-vos dito, freqüentemente, que os mais terríveis flageles dizimariam as populações; não é preciso que tudo morra para se regenerar? Mas o que é isto? A morte não é senão a transformação da matéria, o Espírito não morre: ele não faz senão mudar de habitação. Observai, e vereis começar a realização de todas essas previsões. Oh! quantos são felizes, aqueles que nessas terríveis provas a fé espírita tocou! eles permanecem calmos no meio da tormenta, como o marinheiro aguerrido diante da tempestade.

"Eu, neste momento personalidade espiritual, freqüentemente acusado pelas personalidades terrestres, de brutalidade, de dureza, de insensibilidade!... É verdade, contemplo com calma todos esses flageles destruidores, todos esses terríveis sofrimentos físicos; sim, eu atravesso sem me emocionar todas essas planícies devastadas, juncadas de restos humanos! Mas se pude fazê-lo, foi porque a minha visão espiritual se leva além desses sofrimentos; é que, antecipando sobre o futuro, ele se apoia sobre o bem estar geral que será a conseqüência desses males passageiros para a geração futura, para vós mesmos que fareis parte dessa geração, e que recolhereis então os frutos que tiverdes semeado.

"Espírito do conjunto, olhando do alto de uma esfera que ele habita (freqüentemente ele fala dele na terceira pessoa), seu olhar permanece seco; no entanto, sua alma palpita, seu coração sangra em face de todas as misérias que a Humanidade deve atravessar,

 

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mas a visão espiritual repousa do outro lado do horizonte, contemplando o resultado que lhe será a continuação certa.

"A grande emigração é útil, e a hora se aproxima em que ela deverá se efetuar... ela já começa... Aquém será fatal ou proveitosa? Olhai bem, observadores; considerai os atos desses exploradores dos flagelos humanos e distinguireis, mesmo com os olhos do corpo, os homens predestinados à queda. Vede-os depois da carniça, enrijecidos no ganho, presos como em sua vida a todas as posses terrestres, e sofrendo mil mortes na perda de uma parcela daquilo que, no entanto, lhe será preciso deixar... Quanto será terrível, para eles, a pena de talião, porque, no exílio que os espera, verão lhe recusar um copo d'água para estancar a sua sede!... Olhai-os, aqueles, reconhecereis neles, sob as riquezas que acumulam às expensas dos infelizes, os futuros humanos caídos! Considerai seus trabalhos e a vossa consciência vos dirá se esses trabalhos devem ser pagos lá em cima, ou nesse mundo! Olhai-os bem, homens de boa vontade, e vereis que ojoio começa, desde esta Terra, a ser separado do bom grão.

"Minha alma é forte, minha vontade é grande! -minha alma é forte, porque sua força é o resultado de um trabalho coletivo de alma a alma; minha vontade é grande, porque ela tem por ponto de apoio a imensa coluna formada de todos os sentimentos de justiça e de bem, de amor e de caridade. Eis porque sou forte, eis porque sou calmo para olhar; eis porque seu coração que bate a se romper em seu peito não se comove. Se a decomposição é instrumento necessário da transformação, assista, ó minha alma, calma e impassível, a essa destruição!"

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VARIEDADES

FATO DE IDENTIDADE.

Um de nossos correspondentes de Maine-et-Loire nos transmite o fato seguinte, que se passou sob seus olhos, como prova de identidade.

O Sr. X.....estava, há algum tempo, gravemente doente em C...... em Touraine, e onde se esperava sua morte a cada instante. No dia 23 de abril último, tínhamos em nosso grupo, por alguns dias, uma senhora médium a quem devemos comunicações muito interessantes. Veio ao pensamento de um dos assistentes, que conhecia o Sr. X..., de pedir a um Espírito familiar de nosso grupo, Espírito leviano, mas não mau, se esse Senhor estava morto. - Sim, respondeu. - Mas, é bem verdadeiro, porque falas algumas vezes levianamente?- O Espírito respondeu de novo afirmativamente. No dia seguinte, o Sr. A. C..., que até então tinha sido pouco crente, e que conhecia tão particularmente o Sr. X..., quis tentar evocá-lo ele mesmo, se, com efeito estava morto. O Espírito veio imediatamente ao seu chamado e disse: "Por favor, não me esqueçais; orai por mim." - Há quanto tempo estais morto? perguntou-me o Sr. A. C. - Um dia. - Quando fostes enterrado? - Esta tarde, às quatro horas. - Sofreis? -Tudo o que uma alma pode sofrer. - Conservais-me rancor? - Sim. - Porquê? - Sempre fui muito rígido convosco.

As relações desses dois Senhores sempre tinham sido f rias, embora perfeitamente polidas. O Espírito, rogado para assinar, deu as três inicias de seus pre nomes e de seu nome. No mesmo dia, o Sr. A. C. recebeu uma carta, anunciando-lhe a morte do Sr. X... À noite, depois do jantar, golpes se fizeram ouvir. O Sr. A. C. pegou a caneta e escreveu sob o ditado batido pelo Espírito:

Eu fui ambicioso, todo homem o é sem dúvida;

Mas jamais rei, pontífice ou chefe ou cidadão,

Concebeu um projeto tão grande quanto o meu.

 

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As pancadas eram fortes, acentuadas, quase imperiosas, como vindo de um Espírito iniciado há muito tempo nas relações do mundo invisível com os homens. O Sr. X.....tinha cumprido altas funções administrativas; talvez, no lazer da retirada e sob a influência de lembranças de suas antigas ocupações, seu Espírito tinha elaborado um grande projeto. Uma carta recebida há dois dias confirma todos detalhes acima.

Nota. Sem dúvida, este fato nada tem de extraordinário e que não se encontre freqüentemente; mas esses fatos íntimos não são sempre os menos instrutivos e os menos convincentes; eles fazem mais impressão nos círculos onde se passam do que não o fariam os fenômenos estranhos que se olham como excepcionais. O mundo invisível ali se revela em condições de simplicidade que o aproxima de nós, e convencem melhor da continuidade de suas relações com o mundo visível; em uma palavra, os mortos e os vivos ali estão mais em família e se reconhecem melhor. Os fatos deste gênero, por sua multiplicidade e pela facilidade de obtê-los, mais contribuíram para a propagação do Espiritismo do que as manifestações que têm as aparências do maravilhoso. Um incrédulo será bem mais tocado por uma simples prova de identidade dada espontaneamente, na intimidade, por algum parente, amigo ou conhecido, do que pelos prodígios que não o tocam senão pouco, e nos quais não crê.

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POESIA ESPÍRITA.

AOS ESPÍRITOS PROTETORES.

Mais alto, mais alto ainda! Toma teu vôo, ó minha alma

Para esse puro ideal que Deus te revelou!

Para este lugar todos os céus, e esses mundos em chama,

Para o absoluto infinito, eu me sinto chamado.

De Jacob, adormecido, escalarei a escala,

Subirei sempre e não descerei;

Porque, benevolente e doce, de mão fraterna,

No caminho, um Espírito assegurará meus passos.

Ele me mostra o objetivo, me ama, me consola;

Está lá, eu sinto, e escuto a sua voz

Ressoar em meu coração, como um sopro do Eolo

Ressoa sobre os montes, as planícies e os bosques!

Que me importa seu nome! Ele não é da Terra;

Anjo misterioso dos celestes amores,

Tem do desconhecido o encanto solitário;

Ele habita bem longe, inefáveis moradas!

Lá!... seu corpo, que um raio de glória transfigura,

Tem a sutileza do impalpável éter;

Ele ignora os males da fraca natureza,

E, todavia, é bom, porque sofreu.

Tu me falas no silêncio,

Vejo-te na obscuridade;

Tu me fazes pressentir antes

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As glórias da eternidade.

Se faço o mal, tu me relevas:

Em minhas vigílias e em meus sonhos,

O que empreendo tu arrematas;

Facho que, numa sombra, brilha,

És tu quem sustentas minha coragem,

Que empurras minha nau para a praia,

Que me preservas na tempestade,

E que me clareias na noite.

Tu dizes: amor; tu dizes: prece;

Tu dizes: esperança; tu dizes: virtude,

E dás o nome de irmão

À humilde criança, fraca, abatida;

Tão forte, procuras minha fraqueza,

Tão grande, procuras minha baixeza

E tão afortunado, minha aflição.

Anjo bendito, guardião sagrado,

Teu fluido depurado se mistura

Ao meu envoltório mortal,

E eu sinto o vento de tua asa

Passar sobre meu coração embriagado.

Quem sejas, obrigado, cara alma,

Obrigado, meu irmão do além;

Criança, velho, ou jovem mulher,

Que me importa! não estás lá?

Tu planas freqüentemente sobre minha

Tu que, em teu curso inquieto

Atravessaste algum cometa,

Alguma terra em formação;

Habitas na atmosfera,

Marte ou Saturno, enorme esfera,

Desces da Ursa polar,

De Aldebaran ou de Orion?

E que me faz onde tu resides!

E que me importa de onde tu vens!

Que céus estranhos e esplêndidos,

Quando eu te sinto, valem os meus?

Saudação, pois, ó minha doce estrela;

Guia meu incerto véu,

Sobre o mar que a bruma vela,

Longe dos escolhos, longe do perigo.

Sois um farol na tormenta,

Levantando sobre a vaga espumante,

A luz amiga e trêmula,

E vem me surpreender depois do exílio.

JULES-STANY DOINEL (d'Aurillac).

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NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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O ROMANCE DO FUTURO.

Por E. Bonnemère.

No ano último, os Espíritos nos disseram que dentro em pouco a literatura entraria no caminho do Espiritismo, e que 1867 veria aparecer várias obras importantes. Pouco depois apareceu, com efeito, o Spirite, de Théophile Gautier; era, como o dissemos, menos um romance espírita do que o romance do Espiritismo, mas que teve a sua importância pelo nome do autor.

Veio em seguida, no começo deste ano, a tocante e graciosa história de Mirette. Nessa ocasião, o Espírito do doutor Morei Lavallée disse à Sociedade:

"O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as formas; mas é ainda o talo verde que encerra a espiga do trigo e espera para mostrá-la que o calor da primavera a tenha feito amadurecer e entreabrir-se. 1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano se abre sob os auspícios de Mirette, e não se escoará sem ver aparecer novas publicações do mesmo gênero, e mais sérias ainda, neste sentido de que o romance se fará filosofia e que a filosofia se fará história." (Revista de fevereiro de 1867, página 64.)

Estas palavras proféticas se realizam; temos por certo que uma obra importante aparecerá dentro em pouco; essa não será um romance, que se pode considerar como uma obra de imaginação e de fantasia, mas a própria filosofia do Espiritismo, altamente proclamada e desenvolvida por um nome que poderá dar a refletir aqueles que pretendem que todos os partidários do Espiritismo são loucos.

À espera disto, eis uma obra que não tem do romance senão o nome, porque a intriga nela é quase nula, e não é senão um quadro para desenvolver, sob forma de conversa, os mais altos pensamentos da filosofia moral, social e religiosa. O título de Romance do futuro não parece me ter sido dado senão por alusão às idéias que regerão a sociedade no futuro, e que não estão, no instante, senão no estado de romance. O Espiritismo nele não está nomeado, mas pode tanto melhor reivindicar-lhe as idéias, que a maioria parece haurida textualmente na Doutrina, e que se dele há algumas que se afastam um pouco, elas são em pequeno número e não tocam no fundo da questão. O autor admite a pluralidade das existências, não só como racional, conforme à justiça de Deus, mas como necessária, indispensável ao progresso da alma, e adquirida da sã filosofia; mas o autor parece pender a crer, embora não o diga claramente, que a sucessão das existências se cumpre antes de mundo em mundo do que no mesmo meio, porque não fala de maneira explícita das existências múltiplas sobre o mesmo mundo, se bem que esta idéia possa ser subentendida. Talvez esteja aí um dos pontos mais divergentes, mas que, de resto, não prejudica de nenhum modo o fundo, uma vez que, em definitivo, o princípio seria o mesmo.

Essa obra pode, pois, ser colocada na classe dos livros mais sérios destinados a vulgarizar os princípios filosóficos da Doutrina no mundo literário onde o autor ocupa uma posição distinta. Foi-nos dito que, quando a escreveu, não conhecia o Espiritismo; isto parece difícil, mas se o foi assim, essa seria uma das mais brilhantes provas da fermentação espontânea dessas idéias e de seu irresistível poder, porque só o acaso não faz encontrar tantos investigadores sobre o mesmo terreno.

O prefácio não é a parte menos curiosa desse livro. Nele o autor explica a origem de seu manuscrito. "Qual é, diz ele, minha colaboração no Romance do futuro? Somos dois, ou três, ou bem o autor não se chama legião? Deixo essas coisas à apreciação do leitor, depois de lhe ter contado uma aventura muito verídica, se bem que tenha todas as aparências de uma história do outro mundo."

Tendo um dia parado numa modesta aldeia da Bretanha, a senhora do albergue me contou que havia na região um jovem que fazia coisas extraordinárias, verdadeiros milagres. "Sem ter nada aprendido, disse ela, ele disso sabe mais do que o padre, o

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médico e o notário juntos e do que todos os feiticeiros reunidos. Ele se encerra todas manhãs em seu quarto; vê-se sua lâmpada através das cortinas, porque lhe é necessária sua lâmpada, mesmo quando faz dia, e então ele escreve coisas que jamais ninguém viu, mas que são soberbas. Ele vos anuncia desde seis meses antes, o dia, a hora, o minuto em que cairá em seus grandes acessos de feitiçaria. Uma vez que ele tenha dito ou escrito, disso não sabe mais nada, mas é verdadeiro como palavra do Evangelho, e infalível como decisão do papa, em Roma. Ele cura ao primeiro toque, e sem se fazer pagar, aqueles que lhe são simpáticos, e na barba do médico, os doentes que este não cura por seu dinheiro. O Sr. padre disse que isso não pode ser senão o diabo que lhe dá o poder de curar àqueles a quem o bom Deus envia as doenças para o seu bem, a fim de prová-los ou de castigá-los."

"Eu fui vê-lo, acrescenta o autor, e minha boa estrela quis que lhe fosse simpático. Era um jovem de vinte e cinco anos, ao qual seu pai, rico agricultor do cantão, havia feito dar uma certa educação, o que quer que dele haja dito meu hospedeiro; simples, melancólico e sonhador, levando a bondade até a excelência, e dotado de um temperamento no qual o sistema nervoso dominava sem contrapeso. Ele se levanta de madrugada, preso de uma febre de inspiração que não pode dominar, e derrama em ondas sobre o papel as idéias estranhas que germinam delas, com seu desconhecimento, e freqüentemente, apesar dele, em seu cérebro.

"Eu o vi trabalhando. No espaço de uma hora, cobria invariavelmente seu caderno de quinze ou dezesseis páginas escritas, sem hesitação, sem rasuras, sem se deter um segundo a procurar uma idéia, uma f rase, uma palavra. Era uma torneira aberta, de onde a inspiração jorrava em jato sempre igual. Absolutamente mudo durante essas horas de trabalho obstinado, os dentes cerrados e os lábios contraídos, a palavra lhe retomava no instante em que o relógio soava a retomada dos trabalhos campestres. Ele entrava, então, na vida de todo o mundo e tudo o que vinha de pensar ou descrever durante essas duas ou três horas de uma existência se apagava pouco a pouco de sua memória, como o sonho que se desvanece e desaparece à medida que se desperta. No dia seguinte, expulso de sua cama por uma força invencível, recomeçava a obra e continuava a frase ou a palavra começada no dia precedente.

"Abriu-me um armário no qual se acumulavam os cadernos carregados assim de sua escrita. - O que há em tudo isto? perguntei-lhe. - Eu o ignoro tanto quanto vós, respondeu-me sorrindo. - Mas como tudo isto vos vem? - Não posso senão vos renovar a mesma resposta: eu o ignoro tanto quanto vós. Às vezes sinto que está em mim; outras vezes ouço que se mo diz. Então, sem disso ter consciência e sem ouvir o barulho de minhas próprias palavras, eu o repito àqueles que me cercam, ou bem o escrevo.

"Isto constitui em torno de dezessete mil páginas, escritas em quatro anos. Ali se encontravam uma centena de novelas e de romances, de tratados sobre diversos assuntos, de receitas médicas e outras, de máximas, etc. Dali anotei sobretudo isto:

"Estas coisas me são reveladas, a mim simples de espírito e de instrução, porque, delas não sabendo nada, não tendo a seu respeito idéias preconcebidas, estou mais apto a assimilar as idéias dos outros.

"Os seres superiores, os primeiros partidos, depurados ainda pela transformação, vêm me envolver e me dizer:

"Dão-vos tudo o que não se ensina e que pode esclarecer o mundo onde temos, em partindo, deixado nossa marca inapagável. Mas é preciso reservar sua parte ao trabalho pessoal, sem intrometer-se sobre a ciência adquirida, nem sobre o trabalho que cada um pode e deve fazer."

"Nessa imensa confusão, escolhi um simples idílio, obra de fantasia, estranha, impossível, e na qual são lançadas, sob uma forma mais ou menos leviana, as bases de uma nova cosmogonia toda inteira. Nesses cadernos, esse estudo tinha por título: 1'Unité, que acreditei dever substituir pelo de Roman de l'Avenir." Eis o dado principal do assunto.

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Paul de Villeblanche morava na Normandie, com o seu pai, nos restos de um velho castelo, outrora morada senhorial de sua família, arruinada e dispersada pela Revolução. Era um jovem de uns vinte anos, de uma alta inteligência, com idéias mais amplas e mais avançadas, e que tinha colocado de lado todos os preconceitos de raça.

No mesmo cantão, vivia uma velha marquesa muito devota, que, para resgatar seus pecados e salvar sua alma, tinha imaginado tirar da miséria e da lama social uma pequena Cigana para dela fazer uma religiosa; desta maneira, pensava ela, teria assegurado ter alguém que, por reconhecimento e por dever, oraria sem cessar por ela, durante sua vida e depois de sua morte. Esta jovem foi, pois, educada no convento em torno de oito anos, e em esperando que tomasse o véu, vinha de dois em dois anos passar seis semanas na casa de sua benfeitora. Mas esta jovem, de uma rara inteligência, tinha intuitivamente sobre muitas coisas idéias à altura das de Paul. Ela tinha então dezesseis anos. Numa de suas férias, os dois jovens se encontram, se ligam numa afeição toda fraterna, e têm junto das conversas onde Paul desenvolve à sua inteligente companheira os princípios filosóficos novos para ela, mas que esta compreende sem esforço e freqüentemente adiantadamente. Estas duas almas de elite estão à altura uma da outra. O romance acaba por um casamento, como de interesse, mas ali ainda não há senão um pretexto para dar uma lição prática sobre pontos mais importantes da ordem social e os preconceitos de castas.

Inscrevemos de boa vontade este livro em nome daqueles que é útil propagar, e que têm seu lugar marcado na biblioteca dos Espíritas.

São essas conversas que fazem o assunto principal do livro; o resto não é senão um quadro muito simples para a exposição das idéias que deverão um dia prevalecer na sociedade.

Para reportar tudo o que, desse ponto de vista, mereceria sê-lo, seria preciso citar a metade da obra; reproduzimos somente alguns pensamentos que poderão fazer julgar do espírito no qual está concebida.

"Encontrar é a recompensa de ter procurado, e tudo o que nós mesmos podemos fazer, não é preciso pedi-lo aos outros."

"O mundo é um vasto canteiro de obras no qual Deus distribui, a cada um, a sua tarefa, nos dispensando o nosso trabalho segundo nossas forças. Desse imenso choque de inteligências diversas, opostas, hostis em aparência, a luz jorra, sem que ela se extinga na hora de nosso último sono. Ao contrário, a marcha constante das gerações que se sucedem, traz uma nova pedra ao edifício social; a luz se torna mais brilhante quando uma criança nasce trazendo, para continuar o progresso, o primeiro elemento de uma inteligência sempre renovada."

"Mas a marquesa me repete, sem cessar (diz a jovem), que nascemos todos maus, que não diferimos senão pela maior ou a menor propensão para o pecado, e que a existência toda inteira é uma luta contra nossos pendores, que todos tenderiam à condenação eterna, se a religião que ela me ensina não nos retivesse sobre a borda do abismo.

"- Não creia nesses blasfemadores. Deus seria o agente do mal, se não tivesse colocado em cada um de nós a bússola que deve guiar nossos passos para o cumprimento de nossos destinos, e se o homem não tivesse podido caminhar em seu caminho até o dia em que a Igreja veio corrigir a obra imperfeita e mal sucedida do Eterno."

"Quem sabe se, na imensa rotação do mundo, nossos filhos não se tomarão nossos pais ao seu turno, e se não nos restituirão intacta essa soma de misérias que lhes teremos deixado em partindo?"

"Nenhum mal pode vir de Deus, no tempo nem na eternidade. A dor é nossa obra, é o protesto da Natureza para nos indicar que não estamos mais nos caminhos que ela assinala à atividade humana. Ela se torna um meio de salvação, porque é seu próprio

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excesso que nos impele para diante, incita nossa preguiçosa imaginação, e nos leva a fazer as grandes descobertas que acrescentam ao bem-estar daqueles que devem passar neste globo depois de nós."

"Cada um de nós é um dos anéis dessa cadeia sublime e misteriosa quer e liga todos os homens entre si, como também com a criação toda inteira, e que, jamais nem nenhuma parte, poderia ser quebrada."

"Depois da morte, os órgãos usados têm necessidade de repouso, e o corpo devolve à terra os elementos dos quais se constituem ao infinito os seres que se sucedem. Mas a vida renasce da morte."

"Nós partimos, levando conosco a lembrança dos conhecimentos adquiridos neste mundo; o mundo onde iremos nos dará os seus, e nós os agruparemos em feixe para formar o progresso."

"Todavia, arrisca a jovem, haverá um fim, um inevitável fim, tão distante quanto tu o supões.

- Por que limitar a eternidade, depois de tê-la admitido em princípio?

O que se chama o fim do mundo não é senão uma figura. Jamais houve começo, nem jamais haverá o fim do mundo; tudo vive, tudo respira, tudo é povoado. Para que o julgamento final possa chegar, seria preciso um cataclismo geral que fizesse entrar o universo inteiro no nada. Deus que tudo criou não pode destruir a sua obra. Por que o aniquilamento da vida?"

"A morte, sem dúvida, é inevitável. Mas melhor compreendida no futuro, essa morte que nos espanta não será mais do que a hora prevista, em vista talvez da partida, para fornecer uma nova etapa. Um chega, o outro se coloca no caminho, e a esperança enxuga os prantos que correm no instante dos adeuses. A imensidade, o infinito, a eternidade prolongam, aos nossos olhares ávidos, suas perspectivas, das quais o desconhecido nos atrai. Já mais aperfeiçoados, faremos uma mais bela viagem, depois ainda tomaremos a partir, e caminharemos sempre para nos elevar sem cessar. Porque depende de nós que a morte seja a recompensa do dever cumprido, ou o castigo, quando a obra ordenada não tiver sido feita."

"Em qualquer lugar que estejamos no universo, ligamo-nos por laços misteriosos e sagrados que nos tornam solidários uns dos outros, e recolheremos fatalmente a colheita do bem e do mal que cada um de nós semeou atrás de si antes de partir para a grande viagem."

"A criança que nasce traz seu germe de progresso; o homem que morre deixa seu lugar para que, depois dele, o progresso se cumpra, e que venha continuar a ali trabalhar ele mesmo, trazendo alhures, e num outro ser, sua alma aperfeiçoada."

"Aqueles a quem tu deves o dia expiaram, nesta vida, as faltas de um passado misterioso. Ele sofreram, mas sofreram corajosamente. O Deus de amor e de misericórdia tem necessidade deles, sem dúvida, para uma missão mais importante num outro mundo. Chamou-os a si, lhes concedendo assim o salário merecido antes que a jornada tivesse terminado por inteiro.

(A propósito de uma jovem que, ainda criança, operava curas surpreendentes indicando os remédios por intuição.)

Isto fez ruído, e a principal autoridade, o cura, se emocionou e interveio. Uma criança fazia, por meios naturais, o que nenhum médico com sua ciência, nem ele com suas preces podiam obter!... Evidentemente, era possuída. Para os homens de pequena fé e de inteligência obtusa, é Deus que, no objetivo de nos castigar, como se não houvesse a eternidade diante dele, ou de nos provar, como se não soubesse o que vamos fazer, nos envia todos os males, os flageles de todo gênero, as ruínas, a perda daqueles que nos são caros; é Satã, ao contrário, que dá a prosperidade, faz encontrar os

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tesouros, cura os doentes, e nos prodigaliza todas as felicidades, todas as alegrias deste mundo. Deus, enfim, segundo eles, faz o mal, ao passo que o diabo é o autor de todo o bem. Maria foi, pois, exorcizada, rebatizada o que quer que aconteça, a fim de que ela não possa mais aliviar seus semelhantes. Mas nada lhe fez, e ela continua a fazer o bem em seu redor.

- Mas tu, que sabes tudo, Paul, que dizes de tudo isso?

Se jamais creio naquilo que a minha razão repele, respondeu o jovem conde, não nego os fatos atestados por numerosas testemunhas, pelo único motivo de que a ciência não sabe ainda explicá-los. Deus deu aos animais o instinto de ir direto para a planta que pode curaras raras doenças que os atingem; por que nos teria recusado esse precioso privilégio? Mas o homem saiu dos caminhos que o Criador lhe havia assinalado; ele se pôs em hostilidade com a Natureza, da qual deixou de escutar as advertências. Essa luz se apaga nele, e a ciência veio substituir o instinto que, em sua altivez de chegar, ela negou, combateu, perseguiu, aniquilando-o tanto quanto estava nela fazê-lo. Mas quem pode afirmar que não sobrevive em alguns seres simples e primitivos, decididos a se esclarecer documente de todas as claridades que eles mesmos entrevêem, animados que estão do desejo de vir em ajuda dos sofrimentos de outrem? Quem sabe se Maria, tendo já vivido outrora entre essas populações na infância, nas quais o instinto sobrevive ainda e que sabem maravilhosos segredos, ou bem em algum mundo mais avançados de onde suas faltas a fizeram cair, Deus não lhe concede de se lembrar das coisas que os outros esqueceram?

"Não é, para cada um de nós, certos conhecimentos que nos parece encontrar em nós mesmos, tanto o estudo deles nos é fácil, ao passo que outros não podem penetrar em nosso espírito, sem dúvida, porque eles vêm tocá-lo pela primeira vez, ou porque várias gerações acumularam sobre eles montanhas de ignorância e de esquecimento?"

(A propósito das visões nos sonhos.)

"É a alma mantida em seu exílio que conversa com a alma liberta de sua parte terrestre; também essas visões são clareadas por um raio luminoso que deixa entrever, aos pobres humanos, o quanto é resplendente o ponto onde chegaram aqueles que souberam dirigir sua equipe sobre os oceanos perigosos, onde flutua a existência."

"Sem dúvida, nos mundos diferentes, nossos corpos se constituem de elementos diferentes, e ali revestimos um outro envoltório, mais perfeito ou mais imperfeito, segundo o meio onde devem agir. Mas sempre é certo que esses corpos vivem, todos animados pelo mesmo sopro de Deus; que a transmissão das almas se faz, em uns como nos outros planetas sem número que povoam o espaço infinito, e que sendo a emanação de Deus, existem identicamente os mesmos em todos os mundos. Do outro lado da vida, nos dá uma alma sempre purificada, que nos permite nos aproximar incessantemente do céu; só nossa vontade a faz desviar, às vezes, do caminho reto.

Todavia, Paul, ensinam-nos que ressuscitaremos com os nossos corpos de hoje!

- Loucura e orgulho tudo isso! Nossos corpos não pertencem a nós, mas a todo o mundo, aos seres que devoramos ontem, àqueles que nos devorarão amanhã. São de um dia; a Terra no-los empresta, e nos retomará. Só a nossa alma nos pertence, só ela é eterna, como tudo que vem de Deus e a ele retorna."

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DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

LUTA DOS ESPÍRITOS PARA RETORNAR AO BEM.

Paris, 24 de março de 1867. Médium Sr. Rui.)

 

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Obrigado, caro irmão, pela vossa compaixão por aquele que expia, pelo sofrimento, as faltas que cometeu; obrigado por vossas boas preces inspiradas por vosso amor aos vossos irmãos. Chamai-me algumas vezes, esse será um encontro ao qual jamais faltarei, disso ficai assegurado. Eu vos disse numa comunicação dada na Sociedade, que depois de ter sofrido me seria permitido vir vos dar a minha opinião em algumas questões das quais vos ocupais. Deus é tão bom, que depois de me ter imposto a expiação pelo sofrimento, teve piedade de meu arrependimento, porque sabe que, se fali, foi por fraqueza, e que o orgulho é filho da ignorância. É-me permitido instruir-me e se não posso, como os bons Espíritos que deixaram a Terra, penetrar os mistérios da criação, posso estudar os rudimentos da ciência universal, a fim de progredir e ajudar os meus irmãos a progredirem também.

Dir-vos-ei a relação que existe entre o estado da alma e a natureza dos fluidos que o envolvem em cada meio onde ele se encontra momentaneamente colocado; e se, como isto vos foi dito, a alma pode sanear os fluidos, crede bem que o pensamento impuro os vicia. Julgai de que esforços deve fazer o Espírito que se arrepende, para combater a influência desses fluidos dos quais está envolvido, aumentado ainda pela reunião de todos os maus fluidos que lhe trazem, para abafá-lo, os Espíritos perversos. Não creiais que me basta querer melhorar-me, para expulsar os Espíritos do orgulho do qual estive cercado durante a minha estada sobre a Terra. Estão sempre perto de mim, procurando me relerem sua atmosfera malsã. Os bons Espíritos vêm me esclarecer, me trazer a força da qual tenho necessidade para lutar contra a influência dos maus Espíritos, depois se afastam para me deixar entregue às minhas próprias f orcas para lutar contra o mal. É então que sinto a influência benfazeja de vossas boas preces, porque, sem sabê-lo, continuais a obra dos bons Espíritos de além-túmulo.

Vede, caro irmão, que tudo se encadeia na imensidade; que todos somos solidários uns com os outros, e que não há um único bom pensamento que não leve com ele os frutos do amor, da melhoria e do progresso moral. Sim, tendes razão em dizer aos vossos irmãos que sofrem que uma palavra basta para explicar o Criador; que esta palavra deve ser a estrela que guia cada Espírito, em qualquer grau da escala espírita a que pertença por todos os seus pensamentos, por todos os seus atos, nos mundo inferiores como nos mundos superiores; que esta palavra, o evangelho de todos os séculos, o alfa e o ômega de toda a ciência, a luz da verdade eterna, é amor! Amor de Deus, amor de seus irmãos. Felizes aqueles que pedem por seus irmãos que sofrem. Suas provas na Terra se tornarão leves, e a recompensa que os espera será acima de suas esperanças!...

Vede, caro irmão, o quanto o Senhor é cheio de misericórdia, uma vez que, apesar de meus sofrimentos, me permite vir vos falar a linguagem de um bom Espírito.

A...

ALLANKARDEC.

 

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