Revista Espírita - Décimo Ano (1867)
Abril
REVISTA ESPIRITA
JORNAL
DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
10o ANO NO. 4 ABRIL 1867
GALILEU
A PROPÓSITO DO DRAMA DO SR. PONSARD.
O acontecimento literário do dia é a representação de Galileu, drama em versos do Sr. Ponsard. Embora nele não haja questão de Espiritismo, a este se liga por um lado essencial: o da pluralidade dos mundos habitados, e deste ponto de vista podemos considerá-lo como uma das obras que são chamadas a favorecer o desenvolvimento da Doutrina, popularizando um de seus principais fundamentos.
O destino da Humanidade está ligado à organização do Universo, como o do habitante está à sua habitação. Na ignorância desta organização, o homem teve que se fazer, sobre seu passado e sobre seu futuro, idéias em relação com o estado desses conhecimentos. Se ele tivesse sempre conhecido a estrutura da Terra, jamais teria pensado em colocar o inferno em suas entranhas; se tivesse conhecido o infinito do espaço e a multidão dos mundos que nele se movem, não teria localizado o céu acima do céu das estrelas; não teria feito da Terra o ponto central do Universo, a única habitação dos seres vivos; não teria condenado a crença nos antípodas como uma heresia; se tivesse conhecido a geologia, jamais teria acreditado na formação da Terra em seis dias, e a sua existência há seis mil anos.
A idéia mesquinha que o homem se fazia da criação deveria lhe dar uma idéia mesquinha da divindade. Ele não pôde compreender a grandeza, o poder, a sabedoria infinitos do Criador senão quando seu pensamento pudesse abarcar a Imensidade do Universo e a sabedoria das leis que o regem, como se julga o gênio de um mecânico sobre o conjunto, a harmonia e a precisão do mecanismo, e não à vista de uma única engrenagem. Só então suas idéias puderam crescer e se elevarem acima de seu horizonte limitado. Suas crenças religiosas, em todo os tempos, foram calcadas sobre a idéia que se fazia de Deus e de sua obra; o erro de suas crenças sobre a origem e o destino da Humanidade tinha por causa sua ignorância das verdadeiras leis da Natureza; se ele tivesse, desde a origem, conhecido essas leis, seus dogmas teriam sido diferentes.
Galileu, revelando, um dos primeiros, as leis do mecanismo do Universo, não por hipóteses, mas por uma demonstração irrecusável, abriu o caminho a novos progressos; deveria, por isto mesmo, produzir uma revolução nas crenças, destruindo as bases dos sistemas científicos errôneos, sobre as quais se apoiavam.
A cada um a sua missão. Nem Moisés, nem o Cristo tinham a de ensinar aos homens as leis da ciência; o conhecimento dessas leis deveria ser o resultado do trabalho e das pesquisas do homem, da atividade e do desenvolvimento de seu próprio espírito, e não de uma revelação a priori, que lhe teria dado o saber sem dificuldade. Eles não deveram e não puderam lhe falar senão uma linguagem apropriada ao seu estado intelectual, de outro modo não o teriam compreendido. Moisés e o Cristo tiveram sua missão moralizadora; a gênios de outra ordem são deferidas as missões científicas. Ora,
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como as leis morais e as leis da ciência são leis divinas, a religião e a filosofia não podem ser verdadeiras senão pela aliança dessas leis.
O Espiritismo está fundado sobre a existência do princípio espiritual, como elemento constitutivo do Universo; repousa sobre a universalidade e a perpetuidade dos seres inteligentes, sobre seu progresso indefinido através dos mundos e das gerações; sobre a pluralidade das existências corpóreas necessárias ao seu progresso individual; sobre sua cooperação relativa, como encarnados ou desencarnados, na obra geral, na medida do progresso realizado; sobre a solidariedade que liga todos os seres de um mesmo mundo e dos mundos entre si. Neste vasto conjunto, encarnados e desencarnados, cada um em sua missão, seu papel, os deveres a cumprir, desde os mais ínfimos até os anjos, que não são outros senão Espíritos humanos chegados ao estado de puros Espíritos, e aos quais são confiadas as grandes missões, os governos dos mundos, como a generais experimentados: em lugar das solidões desertas do espaço sem limite, por toda a parte a vida e a atividade, nenhuma parte ociosamente inútil; por toda a parte o emprego dos conhecimentos adquiridos; por toda a parte o desejo de avançar ainda, e de aumentar a soma da felicidade, pelo uso útil das faculdades da inteligência. Em lugar de um existência efêmera e única, passada sobre um pequeno canto de terra, que decide para sempre a sua sorte futura, impõe limites ao seu progresso, e torna estéril, para o futuro, o trabalho que se dá para se instruir, o homem tem por domínio o Universo; nada do que ele sabe e do que ele faz está perdido; o futuro é dele; em lugar do isolamento egoísta, a solidariedade universal; em lugar do nada, segundo alguns, a vida eterna; em lugar de uma beatitude contemplativa perpétua, segundo outros, que dela faria uma inutilidade perpétua, um papel ativo proporcional ao mérito adquirido; em lugar de castigos irremissíveis para faltas temporárias, a posição que cada um se dá pela sua perseverança no bem ou no mal; em lugar de uma mancha original que torna passível de faltas que não se cometeu, a conseqüência natural de suas próprias imperfeições inatas; em lugar das chamas do inferno, a obrigação de reparar o mal que se fez, e de recomeçar o que se fez mal; em lugar de um Deus colérico e vingativo, um Deus justo e bom, levando em conta todos os arrependimentos e todas as boas vontades.
Tal é, em resumo, o quadro que apresenta o Espiritismo, e que ressalta da própria situação dos Espíritos que se manifestam; não é mais uma simples teoria, mas um resultado de observação. O homem que encara as coisas deste ponto de vista sente-se crescer; ele se revela aos seus próprios olhos; é estimulado em seus instintos progressivos vendo uma finalidade aos seus trabalhos, aos seus esforços para se melhorar.
Mas pá rã compreender o Espiritismo em sua essência, na imensidade das coisas que ele abarca, para compreender o objetivo da vida e o destino do homem, não seria preciso relegara Humanidade sobre um pequeno globo, limitara sua existência a alguns anos, diminuir o criador e a criatura; para que o homem possa se fazer uma idéia justa de seu papel no Universo, seria preciso que compreendesse, pela pluralidade dos mundos, o campo aberto às suas explorações futuras e à atividade de seu espírito; para recuar indefinidamente os limites da criação, para destruir seus preconceitos sobre os lugares especiais de recompensa e de punição, sobre os diferentes estágios dos céus, seria preciso que ele penetrasse as profundezas do espaço; que, em lugar do cristalino e do empíreo, vê ali circular, numa majestosa e perpétua harmonia, os mundos inumeráveis semelhantes ao seu; que por toda a parte seu pensamento encontra a criatura inteligente.
A história da Terra se liga à da Humanidade; para que o homem possa se desfazer de suas mesquinhas e falsas opiniões sobre a época, a duração e o modo de criação de nosso globo, de suas crenças lendárias sobre o dilúvio e sua própria origem; para que consinta em desalojar do seio da Terra o inferno e o império de Satã, é preciso que ele possa ler, nas camadas geológicas, a história de sua formação e de suas revoluções físicas. A astronomia e a geologia, secundadas pelas descobertas da física e da química,
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apoiadas sobre as leis da mecânica, são as duas poderosas alavancas que atacaram vivamente seus preconceitos sobre a sua origem e o seu destino.
A matéria e o espírito são os dois princípios constitutivos do Universo; mas o conhecimento das leis que regem a matéria deve preceder o das leis que regem o elemento espiritual; só os primeiros podiam combater vitoriosamente os preconceitos pela evidência dos fatos. O Espiritismo, que tem por objeto especial o conhecimento do elemento espiritual, não deveria vir senão sob as ordens de outro; para que ele possa lançar seu vôo e levar os frutos, para que possa ser compreendido em seu conjunto, seria preciso que ele encontrasse o terreno preparado, o campo do espírito humano deslocado dos preconceitos e das idéias falsas, senão na totalidade, pelo menos em grande parte, sem isto não teria havido senão um Espiritismo estreito, bastardo, incompleto, e misturado a crenças e a práticas absurdas como é hoje entre os povos atrasados. Considerando-se a situação moral atual das nações avançadas, reconhecer-se-á que ele veio em tempo oportuno para encher os vazios que se fazem nas crenças.
Galileu descobriu o caminho; rasgando o véu que esconde o infinito, ele alargou o domínio da inteligência, e deu um golpe fatal nas crenças errôneas; destruiu mais de superstições e de idéias falsas do que todas as filosofias, porque as solapou pela base, mostrando a realidade. O Espiritismo deve o lugar que ocupa à classe dos grandes gênios que lhe franquearam o caminho abaixando as barreiras que a ignorância lhe opunha. As perseguições das quais foi objeto, e que são o destino de quem ataque os preconceitos e as idéias recebidas, o engrandeceram aos olhos da posteridade, ao mesmo tempo que humilharam os perseguidores. Quem é hoje o maior, deles ou dele?
Lamentamos que a falta de espaço não nos permita citar alguns fragmentos de belo drama do Sr. Ponsard. Fá-lo-emos no próximo número.
DO ESPÍRITO PROFÉTICO.
Pelo conde Joseph de Maistre.
O conde Joseph de Maistre, nascido em Chambéry em 1752, morto em 1821, foi enviado pelo rei da Sardanha, como ministro plenipotenciário na Rússia, em 1803. Ele deixou esse país em 1817 quando da expulsão dos Jesuítas, dos quais tinha abraçado a causa. Entre suas obras, uma das mais conhecidas na literatura e no mundo religioso, é aquela que foi intitulada: Soirées de Saint-Pétersbourg, publicada em 1821. Embora escrita num ponto de vista exclusivamente católico, certos pensamentos parecem inspirados pela previsão dos tempos presentes, e, a este título, merecem uma atenção particular. As passagens seguintes foram tiradas da décima primeira entrevista, tomo II, página 121, edição de 1844.
.....Mais do que nunca, Senhores, devemos nos ocupar dessas altas especulações, porque nos é preciso estar prontos para um acontecimento imenso na ordem divina, para o qual caminhamos com uma velocidade acelerada que deve impressionar todos os observadores. Não há mais religião sobre a Terra: o gênero humano não pode permanecer neste estado. Terríveis oráculos anunciam, aliás, que os tempos são chegados.
Vários teólogos, mesmo católicos, acreditaram que fatos da primeira ordem e pouco distantes estão anunciados na revelação de São João, e embora os teólogos protestantes não tenham debitado, em geral, senão tristes sonhos sobre esse mesmo livro, onde jamais viram o que desejavam, no entanto, depois de ter pago esse infeliz tributo ao fanatismo de seita, vejo que certos escritores desse partido adotam já o princípio que: Várias profecias contidas no Apocalipse se reportam aos nossos tempos modernos. Um desses escritores mesmo foi levado até a dizer que o acontecimento já tinha começado, e que a nação francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações.
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Talvez não haja um homem verdadeiramente religioso na Europa (falo da classe instruída), que não espere neste momento alguma coisa de extraordinário; ora dizei-me, Senhores, credes que esse acordo de todos os homens possa ser desprezado? Não é nada esse grito geral que anuncia grandes coisas? Remontai aos séculos passados; transportai-vos ao nascimento do Salvador. Nessa época uma voz alta e misteriosa, partida das regiões orientais, não gritava: "O Oriente está sobre o ponto de triunfar? O vencedor partirá da Judéia; um filho divino nos é dado; ele vai aparecer; ele desce do mais alto dos céus; ele restabelecerá a idade de ouro sobre a Terra." Vós sabeis o resto.
Essas idéias estavam universalmente difundidas, e como elas se prestavam infinitamente à poesia, o maior poeta latino delas se apoderou e as revestiu das cores mais brilhantes em seu Pollion, que foi depois traduzido em belíssimos versos gregos, e lido nesta língua no concilio de Nicéia, por ordem do imperador Constantino. Certamente era muito digno da Providência ordenar que esse grande brado do gênero humano ressoasse para sempre nos versos imortais de Virgílio; mas a incurável credulidade de nosso século, em lugar de ver nessa peça o que ela realmente encerra, quer dizer, um monumento inefável do espírito profético que se agitava então no universo, se diverte em nos provar sabiamente que Virgílio não era profeta, quer dizer, que uma f lauta não sabe a música, e que não há nada de extraordinário na décima primeira poesia pastoril desse poeta. O materialismo que mancha a filosofia de nosso século o impede de ver que a doutrina dos Espíritos, e, em particular, a do espírito profético, é inteiramente plausível em si mesma, e, além disto, o melhor sustentáculo para a tradição, a mais universal e a mais imponente, do que foi jamais. Como a eterna doença do homem é de penetrar o futuro, é uma prova certa que ele tem direitos sobre esse futuro, e que há meios de atingi-lo, pelo menos em certas circunstâncias. Os oráculos antigos prendiam-se a esse movimento interior do homem que o adverte de sua natureza e de seus direitos. A pesada erudição de Van Dale, e as alegres frases de Fontenelle foram empregadas em vão, no século passado, para estabelecer a nulidade geral desses oráculos. Mas, o que quer que seja, jamais o homem teria recorrido aos oráculos, jamais teria podido imaginá-los, se não tivesse partido de uma idéia primitiva em virtude da qual os considerava como possíveis, e mesmo como existentes.
O homem está sujeito ao tempo, e, no entanto, por sua natureza, estranho ao tempo. O profeta gozava do privilégio de sair do tempo; suas idéias não sendo mais distribuídas na duração, se tocam em virtude da simples analogia, e se confundem, o que, necessariamente derrama uma grande confusão em seus discursos. O próprio Salvador se submeteu a esse estado quando, entregue voluntariamente ao espírito profético, as idéias análogas de grandes desastres, separadas do tempo, o levaram a misturar a destruição de Jerusalém à do mundo. Foi ainda assim que Davi. conduzido por seus próprios sofrimentos a meditar sobre "a justa perseguição," sai de repente do tempo e se exclama, presente no futuro: "Eles atravessaram meus pés e minhas mãos; e contaram meus ossos; partilharam minhas roupas; lançaram sorte sobre as minhas vestes." (Ps. XXV, v. 17.)
Poder-se-iam acrescentar outras reflexões tiradas da astrologia judiciária, dos oráculos, das adivinhações em todos os gêneros, cujos abusos, sem dúvida, desonraram o espírito humano, mas que tinham, no entanto, uma base verdadeira, como todas as crenças gerais. O espírito profético é natural ao homem, e não cessará de agitar no mundo. O homem, tentando, em todas as épocas e em todos os lugares, penetrar no futuro, declara que não foi feito para o tempo, porque o tempo é alguma coisa forçada, que não pede senão acabar. Daí vem que, em nossos sonhos, jamais temos a idéia do tempo, e que o estado do sono foi sempre julgado favorável às comunicações divinas.
Se me perguntardes em seguida o que é esse espírito profético de que falei há pouco, eu vos responderei que "jamais houve no mundo grandes acontecimentos que não foram preditos de alguma forma." Maquiavel foi o primeiro homem de meu conhecimento
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que avançou essa proposição; se nisso vós mesmos refletirdes, achareis que a sua afirmativa está justificada por toda a história. Disto tendes um último exemplo na Revolução francesa, predita de todos os lados e da maneira mais incontestável.
Mas para retornar ao ponto de que parti, acreditai que ao século de Virgílio faltavam bons espíritos que zombavam e "do grande ano, e do século de ouro, e da casta Lucine, e da augusta mãe, e do misterioso filho?" No entanto, tudo isto tinha ocorrido: "O filho, do alto do céu, estava prestes a descer." E podeis ver em vários escritos, principalmente nas notas que Pope juntou à sua tradução em versos do Pollion, que essa peça poderia passar por uma versão de Isaías. Por que quereis que disto não seja o mesmo hoje? O universo está à espera. Como desprezaríamos esta grande persuasão; e com que direito condenaríamos os homens que, advertidos por esses sinais divinos, se entregam a santas pesquisas?
Quereis uma nova prova daquilo que se prepara? Procurai nas ciências; considerai bem a marcha da química, da própria astronomia, e vereis onde elas nos conduzem. Creríeis, por exemplo, se disto não estivésseis advertidos, que Newton nos leva a Pitágoras, e que incessantemente será demonstrado que os corpos celestes são movidos precisamente como os corpos humanos, por inteligências que lhes estão unidas, sem que se saiba como? No entanto, é o que está no ponto de se verificar, sem que haja logo algum meio de debater. Esta doutrina, sem dúvida, poderá parecer paradoxal e mesmo ridícula, porque a opinião circundante o impõe; mas, esperai que a afinidade natural da religião e da ciência as reúna na cabeça de um único homem de gênio; o aparecimento desse homem não poderia estar distante, e talvez mesmo já exista. Aquele será famoso e porá fim ao século dezoito que dura sempre; porque os séculos intelectuais não se regem pelo calendário como os séculos propriamente ditos. Então, as opiniões que nos parecem hoje ou bizarras ou insensatas, serão axiomas dos quais não será permitido duvidar, e se falará de nossa estupidez atual como falamos da superstição da idade média. Já mesmo a força das coisas constrangeu alguns sábios da escola material a fazerem concessões que os aproximam do Espírito. E outros, não podendo impedir de pressentir essa tendência surda de uma opinião poderosa, tomam contra ela precauções que, talvez, fazem sobre os verdadeiros observadores mais impressão do que uma resistência direta. Daí a sua atenção escrupulosa para não empregar senão expressões materiais. Jamais se trata em seus escritos: senão de leis mecânicas, de princípios mecânicos, de astronomia física, etc. Não é porque não sintam muito bem que as teorias materiais não contentam de nenhum modo a inteligência, porque há alguma coisa evidente, para o espírito humano não preocupado, é que os movimentos do Universo não podem se explicar unicamente pelas leis mecânicas; mas é precisamente porque o sentem, que colocam, por assim dizer, palavras em guarda contra a verdade. Não se quer confessá-lo, mas não se é mais detido senão pelo compromisso ou por respeito humano. Os sábios europeus são, neste momento, espécies de conjurados ou de iniciados, como vos agrade chamar, que fizeram da ciência uma espécie de monopólio, e que não querem absolutamente que se saiba mais ou de outro modo que eles. Mas essa ciência será incessantemente infamada por uma posteridade iluminada que acusará justamente os adeptos de hoje de não terem sabido tirar, das verdades que Deus lhes tinha entregue, as conseqüências mais preciosas para o homem. Então, toda a ciência mudará de face; o espírito por muito tempo destronado retomará o seu lugar.
Será demonstrado que as tradições antigas são todas verdadeiras; que o paganismo inteiro não é senão um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limpá-las, por assim dizer, e remetê-las ao seu lugar, para vê-las brilhar com todos os seus raios. Em uma palavra, todas as idéias mudarão; e uma vez que, de todos os lados, uma multidão de eleitos exclamará concorde: "Vinde, Senhor, vinde!" porque censuraríeis esses homens que se lançam nesse futuro majestoso e se glorificam por adivinhá-lo. Como os poetas que, até nos tempos de fraqueza e de decrepitude, apresentam ainda
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alguns pálidos clarões do espírito profético, os homens espiritualizados sentem algumas vezes movimentos de entusiasmo e inspiração que os transportam para o futuro, e lhes permitem pressentir os acontecimentos que o tempo amadurece na distância.
Lembrai-vos, senhor conde, o elogio que me dirigistes sobre a minha erudição a respeito do número três. Este número, com efeito, se mostra de todos os lados, no mundo físico como no mundo moral, e em todas as coisas divinas. Deus falou uma primeira vez aos homens sobre o monte Sinai, e esta revelação foi restringida, por razões que ignoramos, nos limites estreitos de um único povo e de um único país. Depois de quinze séculos, uma segunda revelação se dirige a todos os homens sem distinção, e é a da qual gozamos. Mas a universalidade de sua ação deveria ser ainda infinitamente restringida pelas circunstâncias de tempo e de lugar. Quinze séculos a mais deveriam se escoar antes que a América visse a luz, e suas vastas regiões escondem ainda uma multidão de hordas selvagens tão estranhas ao grande benefício, que se seria levado a crer que elas dele são excluídas por natureza em virtude de algum anátema primitivo inexplicável. Só o grande Lama tem mais súditos espirituais do que o papa; a Bengala tem sessenta milhões de habitantes, a China tem duzentos milhões deles, o Japão vinte e cinco ou trinta. Contemplai esses arquipélagos do grande Oceano que formam hoje uma quinta parte do mundo. Vossos missionários, sem dúvida, fizeram esforços maravilhosos para anunciar o Evangelho em algumas dessas regiões longínquas, mas vede com que sucesso. Quantas miríades de homens que a boa nova jamais alcançará! A cimitarra do filho de Ismael não expulsou inteiramente o Cristianismo da África e da Ásia? E, em nossa Europa, que espetáculo se oferece ao olhar religioso!.....
Contemplai este quadro lúgubre; juntai nele à espera dos homens escolhidos, e vereis se os iluminados erraram ao considerar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da toda-poderosa bondade em favor do gênero humano. Eu não terminaria se quisesse juntar todas as provas que se reunissem para justificar esta grande espera. Ainda uma vez, não censureis as pessoas que dela se ocupam que vêem, na própria revelação, razões de prever uma revelação da revelação. Chamai, se o quiserdes, estes homens iluminados, estarei inteiramente de acordo convosco, tendo em vista que pronunciais este nome seriamente.
Tudo anuncia, e vossas próprias observações o demonstram, eu não sei que grande unidade para a qual caminhamos a grande passo. Não podeis, pois, sem vos pôr em contradição consigo mesmo, condenar aqueles que saúdam de longe essa unidade, e que tentam, segundo suas forças, penetrar os mistérios tão temíveis, sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, tão consoladores para nós.
E não dizeis que tudo está dito, que tudo está revelado, e que não nos é permitido esperar nada de novo. Sem dúvida, nada nos falta para a salvação; mas, da parte dos conhecimentos divinos, nos falta muito; e, quanto às manifestações futuras, tenho, como vedes, mil razões para esperá-las, ao passo que não tendes nenhuma para me provar o contrário. O hebreu que cumpria a lei não estava em segurança de confiança? Eu vos citaria, se fosse preciso, não sei quantas passagens da bíblia que prometem ao sacrifício judaico e ao trono de Davi uma duração igual à do sol. O judeu, que disso tinha a aparência, tinha toda a razão, até o acontecimento, de crer no reino temporal do Messias; todavia, se enganava, como se viu depois; mas sabemos o que espera a nós mesmos? Deus estará conosco até a consumação dos séculos; as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, etc.; muito bem! Disto resulta, eu vos peço, que Deus proibiu toda manifestação nova, e que não lhe é mais permitido nos ensinar nada além do que sabemos? isto seria, é preciso confessá-lo, um estranho raciocínio.
Uma nova efusão do Espírito Santo estando doravante na classe das coisas mais razoavelmente esperadas, é preciso que os pregadores desse dom novo possam citar as Escrituras santas a todos os povos. Os apóstolos não são tradutores; eles têm muitas outras ocupações; mas a Sociedade bíblica, instrumento cego da Providência, prepara
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suas diferentes versões que os verdadeiros enviados explicarão um dia em virtude de uma missão legítima, nova ou primitiva, não importa! que expulsará a dúvida da cidade de Deus; e é assim que os terríveis inimigos da unidade trabalham para estabelecê-la.
Nota. - Estas palavras são tanto mais notáveis quanto elas emanam de um homem de um mérito incontestável como escritor, e que é tido em grande estima no mundo religioso. Talvez nelas não se tenha visto tudo o que encerram, mas elas são um protesto evidente contra o absolutismo e o exclusivismo estreito de certas doutrinas. Elas denotam no autor uma amplitude de visão que frisam a independência filosófica. A ortodoxia foi muitas vezes escandalizada por menos. As passagens sublinhadas são bastante explícitas para que seja supérfluo comentá-las; os Espíritas, sobretudo, lhe compreenderão facilmente a importância. Seria impossível não ver-lhe a previsão das coisas que se passam hoje e daquelas que o futuro reserva à Humanidade, tanto essas palavras têm relação com o estado atual, e com o que os Espíritos anunciam por toda a parte.
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COMUNICAÇÃO DE JOSEPHDEMAISTRE.
(Sociedade de Paris, 22 de março de 1867. Méd. Sr. Desliens.)
Pergunta. Segundo os pensamentos contidos nos fragmentos que acabaram de ser lidos, pareceis ter sido animado, vós mesmo, do espírito profético do qual falais, e que descreveis tão bem. Meio século apenas nos separa da época em que escrevestes essas linhas notáveis, que já vemos as nossas previsões se realizarem. Talvez não seja no ponto de vista exclusivo em que colocastes, então, vossas crenças, mas, certamente, tudo nos mostra como iminente e em vias de se cumprir, a grande revolução moral que pressentistes e que as idéias novas preparam. O que dissestes tem uma relação tão evidente com o Espiritismo, que podemos, com toda a razão, vos considerar como um dos profetas de seu advento. Sem dúvida que a Providência vos colocou no meio em que, pelo próprio fato de vossos princípios, as vossas palavras deveriam ter mais autoridade. Foram elas compreendidas pelo vosso partido? Este as compreende ainda agora? É permitido disto duvidar.
Hoje que podeis encarar as coisas de maneira mais ampla, e abarcar mais vastos horizontes, ficaríamos felizes em ter a vossa apreciação atual sobre o espírito profético, e sobre a parte que deve ter o Espiritismo no movimento regenerador.
Além disto ficaríamos muito honrados se pudéssemos contar convosco, doravante, em nome dos bons Espíritos que querem muito concorrer para a nossa instrução.
Resposta. - Senhores, se bem que não seja a primeira vez que me encontro entre vós, como aqui me introduzi oficialmente hoje, vos pedirei aceitar os meus agradecimentos pelas palavras benevolentes que consentistes em pronunciar em minha intenção, e receber as minhas felicitações pela sinceridade e o devotamento que presidem os vossos trabalhos.
O amor da verdade foi o meu único guia, e se fui quando vivo o partidário de uma seita que se aprendeu a julgar com severidade, é que eu acreditava encontrar nela os elementos, a força de ação necessários para chegar ao conhecimento desta verdade que eu suspeitava. - Vi a terra prometida, mas não pude nela penetrar quando vivo. Mais felizes do que eu, senhores, aproveitai o favor que vos é concedido por vossa boa vontade, melhorando vosso coração e vosso espírito, e fazendo partilhar vossa felicidade a todos aqueles de vossos irmãos em humanidade, que não opuseram à vossa propaganda senão a reserva natural a cada homem colocado em face do desconhecido.
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Como eles, teria querido raciocinar vossa crença antes de aceitá-la, mas não a teria difamado, por bizarros que sejam seus meios de manifestação, pela única razão de que ela poderia prejudicar os meus interesses ou que me agradasse com ela agir assim.
Pudestes disto vos convencer, eu estava com o clero, adepto da moral do Evangelho, mas, eu não estava com ele, partidário da imutabilidade do ensino e da impossibilidade de novas manifestações da vontade divina. Penetrado das santas Escrituras que li, reli e comentei, a letra e o Espírito me faziam prever o advento novo. Disto agradeço a Deus, porque era feliz em esperança, por mim que sentia intuitivamente que participaria da felicidade de conhecer as novas verdades, em qualquer lugar que fosse; por meus irmãos em humanidade que veriam se dissipar as trevas da ignorância e do erro diante de uma evidência irrecusável.
O Espírito profético abrasa o mundo inteiro com seus eflúvios regeneradores. - Na Europa, como na América, na Ásia, por toda a parte, entre os católicos como entre os muçulmanos, em todos os países, em todos os climas, em todas as seitas religiosas, a nova revelação se infiltra, com a criança que nasce, com o jovem que se desenvolve, com a velhice que se vai. - Uns chegam com os materiais necessários para a edificação da obra; outros aspiram a um mundo que lhes revelará os mistérios que o pressentem. - E, se a perseguição moral vos dobra sob o seu jugo, se o interesse material, a posição social detêm alguns dos filhos do Espírito, em sua marcha ascendente, aqueles serão os mártires do pensamento, cujos suores intelectuais fecundarão o ensino, e prepararão as gerações do futuro para uma vida nova.
O Espiritismo, na França, se manifesta sobre um outro nome na Ásia. Há agentes nas diferentes nuanças da religião católica, como os há entre os sectários da religião muçulmana. - Naquele lugar, a revelação, num grau inferior de desenvolvimento, é afogada no sangue; mas, ela não persegue menos a sua marcha, e as suas ramificações cercam o mundo numa vasta rede, cujas malhas vão se apertando à medida que o elemento regenerador se revela mais. - Os católicos, os protestantes, procurando fazer penetrar a nova crença entre os filhos do Islã, teriam encontrado obstáculos insuperáveis, e muitos raros adeptos teriam vindo se alinhar sob a sua bandeira.
O espírito profético ali tomou uma outra forma; assimilou sua linguagem, suas instruções, às formas materiais e aos pensamentos íntimos daqueles aos quais se dirigia. - Bendizei nisto a Providência que vê melhor que vós como e porque ela deve conduzir o movimento que impulsiona os mundos para o infinito.
A aspiração a novos conhecimentos está no ar que se respira, no livro que se escreve, no quadro que se pinta; a idéia se imprime sobre o mármore do estatuário, como sob a penado historiador, e tal, que seria espantoso estar alinhada entre os Espíritas, é um instrumento do Todo-Poderoso para a edificação do Espiritismo.
Interrompo esta comunicação que se torna fatigante para o médium que não está habituado ao meu influxo fluídico. Continuá-la-ei uma outra vez, e virei, uma vez que tal é o vosso desejo, trazer a minha parte de ação aos vossos trabalhos, não me contentando mais de a eles assistir, testemunha invisível, ou inspirador desconhecido, como já o fiz muitas vezes.
J.DEMAISTRE.
A LIGA DO ENSINO.
2- Artigo.
(Ver o no precedente, página 79.)
A propósito do artigo que publicamos sobre a liga do ensino, recebemos do Sr. Mace, seu fundador, a carta seguinte, que nos fazemos um dever publicar. Se expusemos os motivos sobre os quais nós apoiamos a opinião restritiva que emitimos, é de toda eqüidade mostrar as explicações do autor.
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Beblenheim, 5 de março de 1867.
Senhor,
O Sr. Ed. Vauchez me comunicou o que dissestes da liga do ensino, na Revista Espírita, e tomo a liberdade de vos dirigir, não uma resposta para publicar em vossa Revista, mas algumas explicações pessoais sobre o objetivo que persigo, e o plano que levantei. Ficaria feliz se elas pudessem dissipar os escrúpulos que vos detêm, e vos ligar a um projeto que, pelo menos em meu espírito, não é vago quanto nele vistes.
Trata-se de agrupar, em cada localidade, todos aqueles que se sentem prontos a fazer atos de cidadãos contribuindo pessoalmente para o desenvolvimento da instrução pública ao seu redor. Cada grupo terá, necessariamente, de fazer seu próprio programa, a medida de sua ação sendo, necessariamente, determinada por seus meios de ação. Lá, ser-me-ia muito impossível de nada precisar; mas a natureza dessa ação, o ponto capital, eu o precisei da maneira mais clara e mais limpa: Fazer da instrução pública pura e simples, fora de toda preocupação de seita e de partido; está aí um primeiro artigo uniforme, escrito antecipadamente na cabeça de todos os prospectos; lá estará a sua unidade moral. Todo círculo que viesse a infringi-lo sairia de pleno direito da liga.
Sois, disto não saberia duvidar, muito leal para não convir que não teria lugar depois disso para nenhuma decepção quando se viesse à execução. Não poderia nela haver frustrados senão aqueles que teriam entrado na liga com a esperança secreta de fazê-la servir ao triunfo de uma opinião particular: eles estão prevenidos.
Quanto às intenções que poderia o autor ter do próprio projeto e à confiança que convém lhe conceder, permiti-me de nisto me prender a resposta que eu já dei uma vez a uma suspeita nos Annales du travail, e do qual vos peço querer ter conhecimento. Ela se dirige a uma dúvida sobre as minhas tendências liberais; ela pode se dirigir muito bem às dúvidas que poderiam se levantar em outros espíritos sobre a lealdade de minha declaração de neutralidade.
Ouso esperar, senhor, que estas explicações vos pareceram suficientemente f ranças para modificar a vossa primeira impressão, e que achareis bom, se assim o é, de dize-lo aos vossos leitores. Todo bom cidadão deve o apoio de sua influência pessoal ao que reconhece útil, e me sinto tão convencido da utilidade de nosso projeto da Liga, que me parece impossível que ela possa escapar a um espírito tão experimentado quanto o vosso.
Recebei, senhor, minhas muito cordiais e fraternas saudações;
JEAN MACE.
A estacaria, o Sr. Mace quis juntar o no dos Annales du travail, onde se encontra a resposta mencionada acima, e que reproduzimos integralmente.
Beblenheim, 4 de janeiro de 1867.
Senhor redator,
A objeção que fizestes relativamente a uma modificação possível de minhas idéias liberais, e consequentemente, ao perigo possível também, de uma direção má dada ao ensino da Liga, essa objeção me parece aflitiva, e vos peço a permissão de responder àqueles que vo-la fizeram, não pelo que me concerne, -julgo-o inútil, - mas em honra de minha idéia que não compreenderam. A Liga nada ensina, e não terá direção a dar; é, pois, supérfluo se inquietar desde o presente com as opiniões mais ou menos liberais daquele que procura fundá-la.
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Apelo a todos aqueles que tomam de coração o desenvolvimento da instrução em seu país e que desejam nela trabalhar, seja sobre os outros, ensinando, seja sobre si mesmos, aprendendo. Eu os convido a se associarem sobre todos os pontos do território; a fazer ato de cidadãos, combatendo a ignorância, e de sua bolsa, e de sua pessoa, o que vale ainda mais; a importunar homem a homem, os maus pais que não enviam seus filhos à escola; afazer vergonha aos camaradas que não sabem nem ler, nem escrever, e a lembrá-los que é sempre tempo; se for preciso, colocar-lhes o livro e a pena à mão, improvisando professores, cada um daquilo que sabe; a criar cursos e bibliotecas, em prover todos ignorantes que desejarem cessar de sê-lo; a formar, enfim, por toda a França, um único feixe para se prestar um mútuo apoio contra as influências inimigas, - os há deles, infelizmente, de uma elevação, considerados perigosos, no nível intelectual do povo.
Que tudo isto venha a se fazer, em que, se vos apraz, e em qual sentido inquietante esse movimento universal poderia ser dirigido não importa por quem? Que se organize, por exemplo, em Paris, entre obreiros, as Sociedades de cultura intelectual, como as que existem por centenas nas cidades da Alemanha, e da qual o Sr. Edouard Pfeiffer, o presidente da associação de instrução popular de Wurtemberg, explicou o funcionamento de maneira tão interessante no ns da Cooperação, de 30 de setembro último, que no subúrbio de Saint-Antoine, no quarteirão do Templo, em Montmartre, nos Batignolles, grupos de trabalhadores, entrados na Liga, se entende em conjunto para se darem, em certos dias, noitadas de instrução com professores de boa vontade, ou mesmo retribuídos, por que não? os obreiros ingleses e alemães não se recusam a esse luxo, - eu gostaria muito de saber o que virão fazer lá as doutrinas de um professor de senhoritas que dá sua classe em Beblenheim, e que não tem nenhuma inveja de mudar de alunos. - É que aquelas pessoas não estarão entre eles? É que não terão permissões para se perguntar?
Não é que me proíbo ter uma doutrina em matéria de ensino popular. Seguramente, tenho uma; eu não me teria permitido, sem isto, de me colocar com a minha própria autoridade, na cabeça de um movimento como este. Hei-la tal como venho de formulá-la no Annuaire de 1'association, de 1867. É a própria negação de toda direção "em tal sentido mais que em outro" para me servir da expressão daqueles que não estão inteiramente seguros de mim, e me declaro pronto a colocar ao seu serviço tudo o que eu possa ter de autoridade pessoal, - não temo disso falar porque tenho consciência de tê-lo legalmente ganho:
"Anunciar o ignorante num sentido ou num outro não adianta em nada e não o adianta. Ele permanece em seguida à mercê das pregações contrárias, e delas não sabe pouco mais lento do que antes. Que ela aprenda o que sabem aqueles que o pregam, é coisa diferente; estará no estado dele mesmo pregar, e aqueles que temam que seja para si mesmo um mau pregador podem se tranqüilizar antecipadamente. A instrução não tem duas maneiras de agir sobre aqueles que a possuem. Se dela se encontram bem por sua conta, por que não prestaria o mesmo serviço aos outros?"
Se vossos correspondentes "de fora" conhecem o modo mais liberal de entender a questão do ensino popular, que consintam em me ensiná-lo. Eu não o conheço.
JEANMACÉ.
P.-S. Vós me pedis para responder a uma pergunta que vos foi feita sobre o destino futuro das somas subscritas para a Liga.
Uma subscrição aberta presentemente está destinada a cobrir as despesas de propaganda do projeto. Em cada boletim publicarei, como acabo de fazê-lo no primeiro, o estado das receitas e das despesas, e darei minhas contas, com peças de apoio, à comissão que será nomeada para este efeito, na primeira assembléia geral.
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Quando a Liga for constituída, o emprego das cotizações anuais deverá estar determinado - pelo menos é minha opinião - no seio dos grupos aderentes que se formem. Cada grupo fixará ele mesmo a parte que lhe conviria distribuir ao fundo geral de propaganda da obra, onde iriam igualmente as cotizações dos aderentes que se julgassem no propósito de se iniciar num grupo especial.
REFLEXÕES SOBRE AS CARTAS PRECEDENTES.
Isto prende-se, sem dúvida, à falta de perspicácia de nossa inteligência, mas confessamos, com toda a humildade, não ser mais esclarecidos do que antes; diremos mesmo que as explicações acima vêm confirmara nossa opinião. Nos havia sido dito que o autor do projeto tinha um programa bem definido, mas que se reservava fazê-lo conhecer quando as adesões fossem suficientes. Esta maneira de proceder não nos pareceu nem lógica, nem prática, porque não se pode racionalmente aderir ao que não se conhece; ora, a carta que o Sr. Mace consentiu nos escrever, não dá de nenhum modo a entender que isto seja assim; ela diz ao contrário: "Cada grupo terá necessariamente de fazer ele mesmo seu programa, o que significa que o autor não tem um que lhe seja pessoal. Disto resulta que, se houver mil grupos, pode ali ter mil programas; é a porta aberta à anarquia dos sistemas.
Ele acrescenta, é verdade, que o ponto capital será precisado da maneira mais clara e mais limpa pela indicação do objetivo que é de: "Fazer da instrução pura e simples fora de toda preocupação de seita e de partido." O objetivo é louvável, sem dúvida, mas não vemos nele senão uma boa intenção, e não a precisão indispensável nas coisas práticas.
"Todo círculo, acrescenta ele, que viesse a infringi-lo sairia de pleno direito da Liga." Está aí a medida combinatória; pois bem! esses círculos com ela estarão quites para sair da Liga, e para formar outras delas ao lado, sem crer desmerecido em que quer que seja; eis, pois, a Liga principal rompida desde seu princípio, por falta de uma unidade de vista e de conjunto. O objetivo indicado é tão geral que se presta a uma falta de aplicações muito contraditórias, e que, cada um a interpretando segundo suas opiniões pessoais, crera estar na verdade. Aliás, onde está a autoridade que pode legalmente pronunciar essa exclusão? Dela não há; não há nenhum centro regulador tendo qualidade para apreciar ou controlar os programas individuais que se afastassem do plano geral. Tendo cada grupo sua própria autoridade, e seu centro de ação, é o único juiz do que faz; em tais condições, cremos num acordo impossível.
Não vemos, até aqui, nesse projeto, senão uma idéia geral; ora, uma idéia não é um programa. Um programa é uma linha traçada da qual não se pode afastar conscientemente, um plano combinado nos mais minuciosos detalhes, e que não deixa nada ao arbítrio, onde todas as dificuldades de execução estão previstas, onde os caminhos e os meios estão indicados. O melhor programa é aquele que deixa o menos possível ao imprevisto.
"Era-me bem impossível algo precisar, disse o autor, uma vez que a medida de ação de cada grupo será necessariamente determinada por seus meios de ação;" em outros termos, pelos recursos materiais dos quais poderá dispor. Mas não está lá uma razão. Todos os dias se fazem planos, elaboram-se projetos, subordinados aos meios eventuais de execução; é somente vendo um plano, que o público se decide a ele se associar segundo lhe compreenda a utilidade e nele veja os elementos de sucesso.
O que precisaria ter sido feito antes de tudo, teria sido de assinalar com precisão as lacunas do ensino que se propõe a preencher, as necessidades às quais se quer prover; dizer: se se entendia favorecer a gratuidade do ensino retribuindo ou indenizando os professores e as professoras; fundar escolas onde não as há; suprir a insuficiência do
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material de instrução nas escolas muito pobres para deles se proverem; forneceres livros às crianças que não podem se proporcioná-los: instituir prêmios de encorajamento para os alunos e os professores; criar cursos de adultos; pagar homens de talento para irem. como missionários, fazer conferências instrutivas nos campos, e destruir as idéias supersticiosas com a ajuda da ciência; definir o objeto e o espírito desses cursos e dessas conferências, etc., estas coisas ou outras. Só então o objetivo teria sido nitidamente especificado. Depois, poder-se-ia dizer: "Para atingi-lo, são necessários recursos materiais; apelamos aos homens de boa vontade, aos amigos do progresso, àqueles que simpatizam com nossas idéias; que formem comissões por departamentos, circunscrições, cantões ou comunas, encarregadas de receber as subscrições. Não haveria caixa geral e central, cada comissão teria a sua da qual dirigiria o emprego segundo programa traçado, em razão dos recursos dos quais poderia dispor; se recolhe muito, fará muito, se recolhe pouco, fará menos. Mas haverá uma comissão diretora, encarregada de centralizar as informações, de transmitires avisos e as instruções necessárias, de resolver as dificuldades que poderiam surgir, de imprimir ao conjunto a marca de unidade, sem a qual a liga seria uma palavra vã. Uma liga se entende de uma associação de indivíduos caminhando de comum acordo e solidariamente para a realização de um objetivo determinado; ora, desde o instante que cada um pode entender esse objetivo à sua maneira, e agir à sua vontade, não há mais nem liga, nem associação.
Não se trata somente aqui de um objetivo a alcançar; desde o instante que sua realização repousa sobre capitais a recolher por via de subscrições, há combinações financeiras; a parte econômica do projeto não pode ser deixada ao capricho dos indivíduos, nem ao acaso dos acontecimentos, sob pena de periclitar; ela pede uma elaboração preliminar séria, um plano concebido com previdência em previsão de todas as eventualidades.
Um ponto essencial no qual parece não se ter pensado, é este: O objetivo que se propõe sendo permanente, e não temporário como quando se trata de um infortúnio a aliviar, ou de um monumento a elevar, exige recursos permanentes. A experiência provando que não se pode jamais contar sobre subscrições voluntárias regulares e perpétuas, operando-se diretamente com o produto das subscrições, esse produto seria logo absorvido. Querendo-se que a operação não seja detida em sua própria fonte, é preciso constituir uma renda para não viver sobre seu capital; conseqüentemente, capitalizar as subscrições da maneira mais segura e mais produtiva. Como? com que garantia e sob qual controle? Eis o que todo projeto, repousando sobre um movimento de capitais, antes de tudo, deve prever e determinar antes de nada encaixar, como deve igualmente determinar o emprego e a repartição dos fundos pagos por antecipação, no caso em que, por uma causa qualquer, não lhe seria dada seqüência. Por sua natureza, o projeto comporta uma parte econômica, tanto mais importante quanto é dela que depende seu futuro, e que aqui falta totalmente.
Suponhamos que antes do estabelecimento das sociedades de seguro, um homem tivesse dito: "Os incêndios fazem diariamente devastações; pensei que, em se associando, em se cotizando, poder-se-ia atenuar os efeitos do flagelo; como? eu o ignoro; subscrevei primeiro, e avisaremos em seguida; procurareis vós mesmo o meio que vos convenha melhor, e tratareis de vos entender" sem dúvida, a idéia teria sorrido a muitos; mas quando se estivesse posto à obra, quantas dificuldades práticas não seriam discordantes por falta de ter havido uma base preliminarmente elaborada! Parece-nos que o caso aqui é quase o mesmo.
A carta publicada nos Annalis du travail, e reportada acima, não elucida mais a questão; ela confirma que o plano e a execução do projeto são deixados ao arbítrio e à iniciativa dos subscritores; ora, quando a iniciativa é deixada a todo o mundo, ninguém a toma. Aliás, se os homens têm bastante julgamento para apreciar se o que se lhes
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oferece é bom ou mal, todos não estão aptos a elaborar uma idéia, sobretudo quando ela abarca um campo tão vasto quanto este. Essa elaboração é o complemento indispensável da idéia primeira. Uma liga é um corpo organizado que deve ter um regulamento, estatutos, para caminhar em conjunto, se ela quer chegar a um resultado. Se o Sr. Mace tivesse estabelecido os estatutos, mesmo provisórios, com a condição de submetê-los mais tarde à aprovação dos subscritores que estariam livres para modificá-los, assim como isto se pratica em todas as associações, ele teria dado um corpo à Liga, um ponto de união, ao passo que ela não tem nem um nem o outro. Dizemos mesmo que ela não tem bandeira, uma vez que está dito na carta pre citada: A liga não ensina nada e não terá direção a dar; portanto, é supérfluo se inquietar, desde o presente, com opiniões mais ou menos liberais daquele que procura fundá-la. Conceberíamos este raciocínio se se tratasse de uma operação industrial; mas numa questão tão delicada quanto o ensino, que é encarado em pontos de vista tão controversos, que toca os mais graves interesses da ordem social, não compreendemos que possa ser feita abstração da opinião daquele que, a título de fundador, deve ser a alma do empreendimento. Aquela afirmativa é um erro lamentável.
Do vago que reina na economia do projeto, resulta que, em subscrevendo, ninguém sabe a que e para que se alista, uma vez que não sabe que direção tomará o grupo do qual fará parte; que se encontrará mesmo subscritores que não fazem parte de nenhum grupo. A organização desses grupos não está mesmo determinada; suas circunscrições, suas atribuições, sua esfera de atividade, tudo é deixado no desconhecido. Ninguém tem qualidade para convocá-los; contrariamente ao que se pratica em semelhante caso, nenhuma comissão de fiscalização foi instituída para regular e controlar o emprego dos fundos dados por antecipação e que servem para pagar as despesas de propaganda da idéia. Uma vez que há despesas gerais pagas com os fundos dos subscritores, seria preciso que estes últimos soubessem em que elas consistem. O autor quer lhes deixar toda latitude para se organizarem como entenderem; não quer ser senão o promotor da idéia; seja, e longe de nós o pensamento de levantar contra a sua pessoa a menor suspeita de desconfiança; mas dizemos que para a marcha regular de uma operação desse gênero e para assegurar seu sucesso, há medidas preliminares indispensáveis que foram totalmente negligenciadas, o que vemos com pesar, no próprio interesse da coisa; se é de propósito, acreditamos o pensamento mal fundado; se é esquecimento, é deplorável.
Não temos qualidade para dar nenhum conselho nesta questão, mas eis geralmente como se procede em semelhante caso.
Quando o autor de um projeto que necessita de um apelo à confiança do público, não quer assumir sozinho sobre ele a responsabilidade da execução, e também no objetivo de se cercar de mais luzes, ele reúne primeiro ao redor de si um certo número de pessoas cujos nomes são uma recomendação, que se associam à sua idéia e a elaboram com ele. Estas pessoas constituem uma primeira comissão, seja consultiva, seja cooperativa, provisória até a constituição definitiva da operação e a nomeação de um conselho permanente de vigilância pelos interesses. Essa comissão é para estes últimos uma garantia pelo controle que exerce sobre as primeiras operações das quais está encarregado de dar conta, assim como das primeiras despesas. Além disto, é um apoio e uma descarga de responsabilidade para o fundador. Este, falando em seu nome, e se ajudando com o conselho de vários, haure, nessa autoridade coletiva, uma força moral sempre mais preponderante sobre a opinião das massas do que a autoridade de um só. Se se tivesse procedido assim para a Liga do ensino, e se este projeto tivesse sido apresentado nas formas usuais, e em condições mais práticas, os adeptos, sem nenhuma dúvida, teriam s ido mais numerosos, mas tal qual é, deixa muitos na indecisão, segundo a nossa opinião.
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Embora esse projeto esteja entregue à publicidade, e, conseqüentemente, ao livre exame de todos, dele não teríamos falado, se a isto de alguma forma não tivéssemos sido constrangidos pelos pedidos que nos foram endereçados. Em princípio, sobre as coisas às quais, do nosso ponto de vista, não podemos dar uma inteira aprovação, preferimos guardar o silêncio, a fim de não lhe trazer nenhum entrave. Novas explicações nos tendo sido pedidas, a propósito de nosso último artigo, acreditamos necessário motivar nossa maneira de ver com mais precisão. Mas, ainda uma vez, não damos senão nossa opinião que não obriga a ninguém; estaríamos felizes de ser somente de nossa opinião, e que o acontecimento venha a provar que não nos enganamos. Associamo-nos de grande coração à idéia-mãe, mas não ao seu modo de execução.
MANIFESTAÇÕES ESPONTÂNEAS.
MOINHO DE VICQ-SUR-NAHON,
Sob o título de: O diabo do moinho, o Moniteur de l'lndre, deie fevereiro de 1867, contém o relato seguinte:
"O senhor Garnier, Francês, é fazendeiro e moleiro no burgo de Vicq-sur-Nahon. É, gostamos de pensá-lo, um homem pacífico, e, no entanto, depois do mês de setembro, seu moinho é o teatro de fatos miraculosos, próprios a fazer supor que o Diabo, ou ao menos um Espírito engraçado, ali fez escolha de domicílio. Por exemplo, parece fora de dúvida que, diabo ou Espírito, o autor dos fatos que vamos contar, gosta de dormir à noite, porque ele não trabalha senão de dia.
"Nosso Espírito gosta de brincar com os lençóis das camas. Ele os toma sem que ninguém disto se aperceba, transporta-os e vai escondê-los seja no vigamento, seja no forro, seja debaixo das réstias de feno. Ele transporta de uma estrebaria a uma outra os lençóis da cama do moço das estrebarias, e são encontrados mais de uma hora depois sob o feno ou na manjedoura. Para abrir as portas, o Espírito de Vicq-sur-Nahon não tem necessidade de chave. Um dia o senhor Garnier, em presença de seus domésticos, fechou com dupla volta a porta da padaria e colocou a chave em seu bolso, e, no entanto, essa porta se abre quase imediatamente sob os olhos de Garnier e de seus domésticos, sem que pudessem explicar como.
"Uma outra vez, em 1o de janeiro, - um modo inteiramente novo de desejar o bom ano a alguém, - um pouco antes da noite, a cama de penas, os lençóis, os cobertores de uma cama colocada num quarto foram levantados sem que a cama fosse desarrumada, e ser e encontram esses objetos no chão perto da porta do quarto. Garnier e os seus imaginam, então, na esperança de conjurar toda essa feitiçaria, de mudar as camas de quarto, o que com efeito ocorreu; operada a mudança os fatos diabólicos, que acabamos de contar, recomeçaram cada vez mais. Em diferentes repetições, um moço da estrebaria encontra aberto o cofre onde se guardam os bens, e estes espalhados na estrebaria.
"Mas eis duas circunstâncias onde se revelam toda a habilidade diabólica do Espírito. Entre os domésticos do senhor Garnier se encontra uma jovem de 13 anos, chamada Marie Richard. Um dia, esta criança, estando num quarto, viu, de repente, se endireitar sobre a cama um pequeno oratório, e todos os objetos colocados sobre o fogão, 4 vasos, 1 cristo, 3 copos, duas taças, em uma das quais estava a água benta, e uma pequena garrafa cheia também de água benta, irem, sucessivamente, como obedecendo à ordem de um ser invisível, tomando lugar sobre o altar improvisado. A porta do quarto estava entreaberta, e a mulher do irmão da pequena Richard perto da porta. Uma sombra saiu da capela, no dizer da pequena Richard, se aproximou da criança e a encarregou de convidar seus senhores a dar um pão bento e afazer dizer uma missa. A criança prometeu-o; durante nove dias a calma reinou no moinho; Garnier fez dizer a missa pelo
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cura de Vicq, ofereceu um pão bento, e desde o dia seguinte, 15 de janeiro, os sortilégios recomeçaram.
"A chave das portas desapareceram; as portas que se deixou abertas se acham fechadas, e um serralheiro chamado para abrir a porta do moinho, não pôde ali chegar e se viu na necessidade de desmontar a fechadura. Estes últimos fatos se passaram a 29 de janeiro. No mesmo dia, pelo meio-dia, como as domésticas tomavam suas refeições, a jovem Richard toma um cântaro de bebida, se serve a beber, e o relógio do senhor Garnier, pendurado em um prego do fogão, caiu em seu copo. Recoloca-se o relógio no fogão; mas a jovem Richard, servindo-se de um prato servido sobre a mesa, conduz o relógio com sua colher. Pela terceira vez, pendura-se o relógio em seu lugar, e, pela terceira vez, a pequena Richard o encontra num pote que fervia diante do fogo, assim como uma pequena garrafa encerrando um medicamento, e do qual a rolha lhe salta aos olhos.
"Breve, o terror se apoderou dos habitantes do moinho; ninguém quis mais ficar na casa enfeitiçada. Enfim, Gamier tomou a decisão de prevenir o Sr. comissário de polícia de Valençay, que foi a Vicq, acompanhado de dois guardas civis. Mas o diabo não julgou conveniente se mostrara os agentes da autoridade. Somente estes aconselharam Garniera despedira jovem Richard, o que logo fez. Teria esta medida bastado para colocar o diabo em derrota? Esperemo-lo, para o repouso das pessoas do moinho." Num número posterior, o Moniteurde l'lndre contém o seguinte: "Contamos, em seu tempo, todas os sortilégios que se passaram no moinho de Vicq-sur-Nahon, do qual o senhor Garnier é locatário. Esses sortilégios, até o presente cômicos, começaram a girar para a tragédia. Depois das falsas, dos malabarismos, das cenas de prestidigitação, eis que o diabo recorre ao incêndio.
"Em 12 deste mês, duas tentativas de incêndio ocorreram quase simultaneamente, nas estrebarias do senhor Garnier. A primeira teve lugar pelas cinco horas da tarde. O fogo pegou na palha, ao pé da cama dos jovens moleiros. O segundo incêndio manifestou-se em torno de uma hora depois do primeiro, mas numa outra estrebaria. O fogo pegou igualmente ao pé de uma cama e na palha.
"Esses dois incêndios foram felizmente extintos pelo pai de Garnier, com a idade de oitenta anos, e seus domésticos, prevenidos pela chamada Marie Richard.
"Nossos leitores devem se lembrar de que essa jovem, com a idade de 14 anos, era a primeira sempre a perceber os sacrilégios que ocorriam no moinho, se bem que, pelos conselhos que lhe tinham dado, Garnier havia demitido de sua casa a jovem Richard. Quando os dois incêndios se manifestaram, esta jovem tinha retornado há quinze dias à casa do senhor Garnier. Foi ela ainda quem percebeu o primeiro dos dois incêndios de 12 de março.
"Depois das pesquisas feitas no moinho, as suspeitas caíram sobre dois domésticos.
"A família Garnier foi de tal modo atingida pelos acontecimentos dos quais seu moinho foi o teatro, que ela está persuadida de que o diabo, ou pelo menos algum Espírito malfazejo, elegeu domicílio em sua moral." Um de nossos amigos escreveu ao senhor Garnier, pedindo-lhe para saber se os fatos narrados pelo jornal eram reais ou contos feitos a prazer, e, em todos os casos, o que poderia ter de verdadeiro ou de exagero nesse relato.
O Sr. Garnier respondeu que tudo era de uma perfeita exatidão e conforme a declaração que ele mesmo tinha feito ao comissário de polícia de Valençay. Confirmou também os dois incêndios e acrescentou: O próprio jornal não contou tudo. Segundo sua carta, os fatos se produziam de quatro a cinco meses, e não foi senão, perdendo a paciência por sua repetição, sem poder descobrir-lhe o autor, que ele fez a sua declaração. Termina dizendo: "Eu não sei, senhor, com qual objetivo me pedis essas informações; mas, se tendes algum conhecimento daquelas coisas, eu vos peço para tomar parte em minhas dificuldades, porque vos asseguro que não estamos à vontade em
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nossa casa. Se puderdes achar um meio de descobrir o autor de todos esses fatos escandalosos, prestar-nos-eis um grande serviço."
Um ponto importante a esclarecer era de saber qual podia ser a participação da jovem, seja voluntariamente por malícia, seja inconscientemente por sua influência. Sobre esta questão, o senhor Garnier disse que a criança não tendo estado fora da casas e não durante quinze dias, não pôde julgar o efeito de sua ausência; mas que não tinha nenhuma suspeita sobre ela, como maldade, não mais do que sobre os seus outros domésticos; que ela tinha quase sempre anunciado o que se passava fora de seu entendimento; que, assim, ela dissera várias vezes: "Eis que a cama se transtorna em tal quarto," e que nele entrando sem perdê-la de vista, achava-se o leito transtornado; que ela semelhantemente preveniu dos dois incêndios ocorridos depois de seu retorno.
Estes fatos, como se vê, pertencem ao mesmo gênero de fenômenos de Poitiers (Revista de fevereiro e março de 1864, páginas 47 e 78, - id., maio de 1865, página 134); de Marseille (abril de 1865, página 121); de Dieppe (março de 1860, página 76), e tantas outras que se podem chamar manifestações barulhentas e perturbadoras.
Faremos primeiro notar a diferença que existe entre o tom deste relato e o do jornal de Poitiers na ocasião do que se passou nesta cidade. Lembra-se do dilúvio de sarcasmos que fez chover a esse respeito aos Espíritas, e sua persistência em sustentar, contra a evidência, que isso não poderia ser senão a obra de maus gracejadores que não se tardaria a descobrir, e que, em definitivo, jamais foram descobertos. O Moniteur deTIndre, mais prudente, se limita a um relato que não é condimentado com nenhum gracejo deslocado, e que implique antes uma afirmação do que uma negação.
Uma outra observação é que os fatos deste gênero tiveram lugar bem antes que o Espiritismo fosse questão, e que depois quase sempre se passaram entre pessoas que não o conheciam nem mesmo de nome, o que exclui toda influência devida à crença e à imaginação. Se se acusasse os Espíritas de simularem estas manifestações com um objetivo de propaganda, perguntar-se-ia que poderiam elas produzir antes que não eram Espíritas.
Não conhecendo o que se passou no moinho de Vicq-sur-Nahon senão pelo relato que dele foi feito, nos limitamos a constatar aqui que nada se afasta do que o Espiritismo admite a possibilidade, nem das condições normais nas quais semelhantes fatos podem se produzir; e esses fatos se explicam por leis perfeitamente naturais, e, conseqüentemente, nada têm de maravilhoso. Soa ignorância dessas leis pôde, até este dia, fazê-los considerar como efeitos sobrenaturais, assim como o foi com quase todos os fenômenos dos quais a ciência mais tarde revelou as leis.
O que pode parecer mais extraordinário, e se explica menos facilmente, é o fato das portas abertas depois de terem sido cuidadosamente fechadas à chave. As manifestações modernas disto oferecem vários exemplos, um fato análogo se passou em Limoges, há alguns anos (Revista de agosto de 1860, página 249). Do fato de que o estado de nossos conhecimentos não nos permita deles dar ainda uma explicação concludente, isto não pre julgaria nada, porque estamos longe de conhecer todas as leis que regem o mundo invisível, todas as forças que este mundo encerra, todas as aplicações das leis que conhecemos. O Espiritismo não disse ainda a sua última palavra, muito longe disto, não mais sobre as coisas físicas do que sobre as coisas espirituais. Muitas das descobertas serão o fruto de observações ulteriores. O Espiritismo não fez, de alguma sorte, até o presente, senão colocar os primeiros degraus de uma ciência cuja importância é desconhecida. Com a ajuda do que já descobriu, ele abre àqueles que virão depois de nós o caminho das investigações numa ordem especial de idéias. Não procede senão por observações e deduções. Se um fato é constatado, se diz que ele deve ter uma causa, e que esta causa não pode ser senão natural, e então ele a procura. Na falta de uma demonstração categórica, pode dar uma hipótese, mas até a confirmação, não a dá senão
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como hipótese, e não como verdade absoluta. A respeito do fenômeno das portas abertas, como o dos transportes através dos corpos rígidos, nisto está ainda reduzido a uma hipótese baseada sobre as propriedades fluídicas da matéria, muito imperfeitamente conhecidas, ou, dizendo melhor, que não são ainda senão suspeitadas. Se o fato em questão for confirmado pela experiência, ele deve ter, como o dissemos, uma causa natural; se se repete, é que não é uma exceção, mas a conseqüência de uma lei. A possibilidade da libertação de São Pedro em sua prisão, narrada nos Atos dos apóstolos, cap. XII, seria assim demonstrada sem que tivesse necessidade de se recorrer a um milagre.
De todos os efeitos medianímicos, as manifestações físicas são as mais fáceis de simular; também é preciso se guardar de aceitar muito levianamente como autênticos os fatos deste gênero, quer sejam espontâneos como os do moinho de Vicq-sur-Nahon, ou conscientemente provocados por um médium. A imitação não poderia, é verdade, ser senão grosseira e imperfeita, mas com a agilidade pode-se facilmente se enganar, como se o fez num tempo pela dupla vista, àqueles que não conheciam as condições nas quais os fenômenos reais podem se produzir. Vimos supostos médiuns, de uma rara habilidade, simular os transportes, a escrita direta e outros gêneros de manifestações.
É preciso, pois, não admitir senão conscientemente a intervenção dos Espíritos nessas espécies de coisas.
No caso do qual se trata, não afirmamos essa intervenção; limitamo-nos a dizer que ela é possível. Só os dois começos de incêndio poderiam fazer supor um ato humano, suscitado pela maldade que, sem dúvida, o futuro fará descobrir. No entanto, é bom notar que, graças à clarividência da jovem, suas conseqüências puderam ser prevenidas. Com exceção deste último fato, os outros não eram senão travessuras sem conseqüências deploráveis. Se são a obra dos Espíritos, não podem provir senão de Espíritos levianos, se divertindo com os medos e as impaciências que causam. Sabe-se que os há de todos os caracteres, como neste mundo. O melhor meio para se desembaraçar deles é de não se inquietar com eles, e cansar a sua paciência que jamais é de longa duração, quando vêem que deles não tomam nenhum cuidado, o que se lhes prova rindo eles mesmos de suas malícias e desafiando-os para que façam mais. O meio mais seguro de excitá-los a perseverar é de se atormentar e de se encolerizar contra eles. Pode-se ainda deles se desembaraçar evocando-os com a ajuda de um bom médium, e pedindo por eles; então, conversando com eles, pode-se saber o que são e o que querem, e fazê-los escutar a razão.
Essas espécies de manifestações têm, de resto, um resultado mais sério; o de propagar a idéia do mundo invisível que nos cerca; e de afirmar a sua ação sobre o mundo material. É por isto que elas se produzem de preferência entre pessoas estranhas ao Espiritismo, antes que entre os Espíritas, que delas não têm necessidade para se convencerem.
A fraude, em semelhante caso, algumas vezes podem não ser senão uma inocente brincadeira, ou um meio de se dar importância fazendo crer em uma faculdade que não se possui, ou que não se possui senão imperfeitamente; mas, o mais freqüentemente, ela tem por móvel um interesse patenteou dissimulado, e por objetivo explorar a confiança de pessoas muito crédulas ou inexperientes; é então uma verdadeira exploração. Seria supérfluo insistir para dizer que aqueles que se tornam culpados de mentiras desse gênero não fossem para isto solicitados senão pelo amor-próprio, não são Espíritas, quando mesmo se dêem portais. Os fenômenos reais têm um caráter sui generis, e se produzem em circunstâncias que desafiam toda suspeita. Um conhecimento completo desses caracteres e dessas circunstâncias podem facilmente fazer descobrir a fraude.
Se estas explicações vão ao conhecimento do senhor Garnier, nelas encontrará resposta à pergunta que fez em sua carta.
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Um de nossos correspondentes nos transmite um relato, escrito por uma testemunha ocular, de manifestações análogas que ocorreram em janeiro último, no burgo de Basse-lndre (Loire-lnférieure). Elas têm consistido em pancadas com obstinação durante várias semanas, e que têm emocionado todos os habitantes de uma casa. Todas as pesquisas e as investigações da autoridade para descobrir-lhe a causa não chegaram a nada. De resto, esse fato não apresenta nenhuma particularidade muito notável, se não for senão, como todas as manifestações espontâneas, chamar a atenção sobre os fenômenos, espíritas.
Como fato de manifestações físicas, aquelas que se produzem assim espontaneamente, exercem sobre a opinião pública uma influência infinitamente maior do que os efeitos provocados diretamente por um médium, seja porque elas têm mais ressonância e notoriedade, seja porque elas dão menos presa à suspeita de charlatanismo e de prestidigitação.
Isto nos lembra um fato que se passou em Paris, no mês de maio do ano último. Ei-lo, tal como foi contado no tempo pelo Petit Journal.
MANIFESTAÇÕES DE MÉNILMONTANT.
"Um fato singular se renova freqüentemente no quarteirão Ménilmontant, sem que se tenha podido ainda explicar-lhe a causa.
"O Sr. X..., fabricante de bronzes, mora num pavilhão que se acha no fundo da casa; nele se entra pelo jardim. As oficinas estão à esquerda e a sala de jantar está à direita. Uma campainha está colocada acima da porta da sala de jantar; naturalmente, o cordão está na porta do jardim. A caminhada é bastante longa para que uma pessoa, tendo soado, não possa desaparecer antes que não se tenha vindo abrir.
"Várias vezes o contramestre, tendo ouvido a campainha, foi à porta e não viu ninguém. Acreditou-se, no início, numa mistificação; mas se achou bom ficar à espreita e se assegurar de que nenhum fio condutor chegasse à campainha, não se pôde nada descobrir, e o manejo continuava sempre. Um dia mesmo a campainha se agitou enquanto o Sr. eaSra. X... se achavam precisamente embaixo e um aprendiz estava na ala diante do cordão. Este fato se renovou três vezes na mesma noite. Acrescentamos que às vezes a campainha se agitava muito docemente, às vezes de maneira muito barulhenta.
"Há alguns dias, esse fenômeno tinha cessado, mas, anteontem, à noite, se renovou com mais persistência.
"A Sra. X... é uma mulher muito piedosa; é uma crença em seu país que os mortos vêm reclamar as preces dos parentes. Ela pensou em sua tia defunta e acreditou ter encontrado a explicação; mas preces, missas, novenas, nada adiantou; a campainha tilinta sempre.
"Um metalúrgico distinto, aquém o fato foi contado, pensou que era um fenômeno científico e que uma certa quantidade de água forte e de vitríolo, que se achava na oficina, poderia libertar uma força bastante grande para fazer mover o fio de ferro; mas esta substância tendo sido afastada, o fato não parou de se produzir.
"Não procuraremos explicá-lo, é o ofício dos sábios, diz Ia Patrie, que poderia bem se enganar. Estas espécies de mistérios se explicam, freqüentemente, por fim, sem que a ciência tenha ali constatado o menor fenômeno ainda desconhecido."
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DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS
MISSÃO DA MULHER.
(Lyon, 6 de julho de 1866, grupo da Sra. Ducard, méd. Sra. B...)
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Cada dia os acontecimento da vida vos trazem ensinamentos de natureza a vos servir de exemplo, e, no entanto, passais sem compreendê-los, sem tirar uma dedução útil das circunstâncias que os provocaram. No entanto, nessa união íntima da Terra e do espaço, dos Espíritos livres e dos Espíritos cativos, presos ao cumprimento de sua tarefa, há desses exemplos cuja lembrança deve perpetuar-se entre vós: é a paz proposta na guerra. Uma mulher cuja posição social atrai todos os olhos, para lá vai, humilde irmã de caridade, levar a todos o consolo de sua palavra, o afeto de seu coração, a carícia de seus olhos. Ela é imperatriz, sobre sua fronte brilha a coroa de diamantes e ela esquece a sua posição, esquece o perigo para acorrerão meio do sofrimento, dizer a todos: "Consolai-vos, eis-me! Não sofrais mais, eu vos falo; ficai sem inquietações, eu tomarei cuidado de vossos órfãos!... O perigo é iminente, o contágio está no ar, e, no entanto, ela passa, calma e radiosa, no meio desses leitos, onde pernoita a dor. Ela não calculou nada, nada teme, ela foi onde a chamava o seu coração, como a brisa vai refrescar as flores murchas e endireitar seu talos vacilantes.
É o exemplo de devotamento e de abnegação, quando os esplendores da vida deveriam engendrar o orgulho e o egoísmo, certamente, é um estímulo para as mulheres que sentem vibrar em si essa distinção de sentimento que Deus lhes deu para cumprirem sua tarefa; porque são principalmente encarregadas de difundir a consolação e sobretudo a conciliação. Não têm elas a graça e o sorriso, o encanto da voz e a doçura da alma? É a elas que Deus confia os primeiros passos de seus filhos; ele as escolheu como as nutrizes das doces criaturas que vão nascer.
Este Espírito rebelde e orgulhoso, cuja existência será uma luta constante contra a infelicidade, não vem lhes pedir para inculcar outras idéias do que aquelas que traz ao nascer? É para elas que estendem suas pequenas mãos, e sua voz, outrora rude e seus acentos, que vibram como um cobre, se abrandarão como um doce eco quando dirá: mamãe.
É a mulher que ele implora, esse doce querubim que vem ensinar a ler no livro da ciência; é para lhe agradar que fará todos os seus esforços para se instruir e se tornar útil à Humanidade. - É ainda para ela que estende as mãos, esse jovem que se afastou em sua rota, e que quer retornar ao bem; ele não ousaria implorar seu pai do qual teme a cólera, mas sua mãe, tão doce, tão generosa, não terá para ele senão esquecimento e perdão.
Não são elas as flores animadas da vida, os devotamentos inalteráveis, essas almas que Deus criou mulheres. Elas atraem e encantam. São chamadas à tentação, mas se deveria chamá-las à lembrança; porque sua imagem permanece gravada em caracteres inapagáveis no coração dos seus filhos, quando elas não estão mais; não é no presente que são apreciadas, é no passado, quando a morte as restitui a Deus. - Então seus filhos as procuram no espaço, como o marinheiro procura a estrela que deverá conduzi-lo ao porto. Elas são a esfera de atração, a bússola do Espírito permanecido sobre a Terra, e que espera reencontrá-las no céu. Elas são ainda a mão que conduz e sustenta, a alma que inspira e a voz que perdoa, e do mesmo modo que foram o anjo do lar terrestre, se tornam o anjo consolador que ensina a orar.
Oh! vós que fostes oprimidas sobre a Terra, mulheres que vos acreditastes as escravas do homem, porque estáveis submetida ao seu domínio, vosso reino não é deste mundo! Contentai-vos, pois, com a sorte que vos está reservada; continuai a vossa tarefa; permanecei as medianeiras entre o homem e Deus, e compreendei bem a influência de vossa intervenção. -Aquele é um Espírito ardente, impetuoso, e o sangue fervilha em suas veias; vai se impor, será injusto; mas Deus colocou a doçura em vossos olhos, acaricia em vossa voz; olhai-o, falai-lhe, a cólera se acalmará e a injustiça será afastada. Talvez tereis sofrido, mas tereis poupado uma falta ao vosso companheiro de caminho e a vossa tarefa se cumpre. Aquele, ainda, é infeliz, sofre, a fortuna o abandona, se crê um pária!...
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Mas, há lá, um devotamento à prova, uma abnegação constante para levantar esse moral abatido, para restituir a esse Espírito a esperança que o tinha abandonado.
Mulheres, sois as companheiras inseparáveis do homem; formais com ele uma cadeia indissolúvel que a infelicidade não pode romper, que a ingratidão não deve manchar, e que não poderia se quebrar, porque o próprio Deus a formou, e. se bem que tendes às vezes na alma esses sombrios cuidados que acompanham a luta, regozijai-vos no entanto, porque nesse imenso trabalho da harmonia terrestre, Deus vos deu a mais bela parte.
Coragem, pois! Ó vós que viveis humildemente trabalhando para melhorar vosso interior, Deus vos sorri, porque vos deu essa amenidade que caracteriza a mulher; que elas sejam imperatrizes, irmãs de caridade, humildes trabalhadoras ou doces mães de família, são todas filiadas sob a mesma bandeira e levam escritas na fronte e no coração estas duas palavras mágicas que enchem a eternidade: Amor e caridade.
CÁRITA.
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BIBLIOGRAFIA.
Mudança do título de Ia Vérité, de Lyon.
O jornal Ia Vérité, de Lyon, vem de mudar o seu título; a partir de 10 de março de 1867, ele toma o de La tribune universelle, Journal de Ia libre conscience e de Ia libre pensée. Ele o anuncia e lhe expõe os motivos na nota seguinte, inserta no número de 24 de fevereiro.
Aos nossos irmãos e irmãs espíritas.
Philaléthès, o combatente infatigável que conheceis, pensou dever vos informar que, doravante, ele dirigirá suas investigações para a filosofia geral e não mais somente para o Espiritismo, do qual, graças aos seus preconceitos, os sábios não querem mesmo ouvir o nome. Mas não seria preciso vos imaginar, caros irmãos e irmãs, que, levantando a etiqueta do saco, depois de fortemente indiferente, ele queira lançá-lo, não mais do que nós mesmos, o conteúdo às urtigas! No que nos concerne pessoalmente, ficaríamos desolados que nossos leitores pudessem suspeitar um único instante de desertar uma idéia para a qual dispensamos todas as forças vivas das quais éramos capazes. A idéia espírita faz hoje parte integrante de nosso ser, e nos arrancá-la seria consagrar à morte o nosso coração, o nosso espírito.
Se somos espíritas, todavia, é precisamente porque cremos sê-lo no verdadeiro sentido da palavra, queremos nos mostrar caridosos, tolerantes para com todos os sistemas opostos, e queremos correr para eles, uma vez que se recusam vir a nós.
A etiqueta de Espíritas, colada à nossa fronte é para vós um espantalho, senhores negadores? pois bem, consentimos de boa vontade arrancá-la, nos reservando colocá-la alto em nossas almas. Não nos chamaremos, pois, mais LA VÉRITÉ, journaldu Spiritisme, mas LATRIBUNE UNIVERSELLE, journal de Ia libre conscience e de Ia livre pensée. Este terreno é tão vasto quanto o mundo, e os sistemas de todas as espécies podem nele debater à sua vontade, riscar os passe de armas com os trânsfugas de Ia Vérité, que reclamarão para eles mesmos o direito concedido a todos: a discussão. É então que, inflamados pela luta, inspirados pela fé e guiados pela razão, esperamos fazer brilhar, aos olhos de nossos adversários, uma luz tão viva, que Deus e a imortalidade se erguerão diante deles, não mais como um horrendo fantasma, produto dos séculos de ignorância, mas como uma doce e suave visão onde repousará, enfim, a Humanidade inteira.
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E. E.
CARTA DE UM ESPIRITISTA
(Carta de um Espírita)
Ao doutor Francisco de Paula Canalejas.
Brochura impressa em Madrid (1-(1) Imprensa de Manuel Galiano, Praça dos Ministérios, 3.), em língua espanhola, contendo os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, tirados de O que é o Espiritismo, com esta dedicatória:
"Ao senhor Allan Kardec, o primeiro que descreveu com método e coordenou com clareza os princípios filosóficos da nova escola, é dedicado este fraco trabalho, por seu devotado correligionário." Apesar dos entraves que as idéias novas encontram em seu país, o Espiritismo aqui encontra simpatias mais profundas do que se poderia supô-lo, principalmente nas classes elevadas, onde conta adeptos numerosos, fervorosos e devotados; porque lá, em fato de opiniões religiosas, os extremos se tocam e, como aliás por toda a parte, os excessos de uns produzem reações contrárias. Na antiga e poética mitologia, ter-se-ia feito do fanatismo o pai da incredulidade.
Felicitamos o autor deste opúsculo pelo seu zelo pela a propagação da Doutrina, e lhe agradecemos por sua graciosa dedicatória, assim como as boas palavras que acompanham o envio da brochura. Seus sentimentos e aqueles de seus irmãos em crença se refletem nestas frases características de sua carta: "Estamos prontos para tudo, mesmo para abaixara cabeça para receber o martírio, do mesmo modo que a levantamos muito alto para confessar a nossa fé."
ALLAN KARDEC.
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