Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Allan Kardec · Capítulo 4 de 13

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Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Março

REVISTA ESPIRITA

 

JORNAL

 

DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

10o ANO NO. 3 MARÇO 1867

 

DA HOMEOPATIA NAS DOENÇAS MORAIS.

Pode a homeopatia modificar as disposições morais? Tal é a questão que se colocam certos médicos homeopatas, e à qual eles não hesitam em responder afirmativamente, apoiando-se sobre os fatos. Tendo em vista a sua extrema gravidade, vamos examiná-la com cuidado de um ponto de vista a que nos parece ter sido negligenciado por esses senhores, todos Espiritualistas e mesmo Espíritas que são, sem dúvida, porque há bem poucos médicos homeopatas que não sejam um ou o outro. Mas, para a inteligência de nossas conclusões, algumas explicações preliminares, sobre as modificações dos órgãos cerebrais, são necessárias, sobretudo para as pessoas estranhas à fisiologia.

Um princípio que a simples razão faz admitir, que a ciência constata cada dia, é que não há nada de inútil na Natureza, que, até nos mais imperceptíveis detalhes, tudo tem um objetivo, uma razão de ser, uma destinação. Este princípio é particularmente evidente pelo que se prende ao organismo dos seres vivos.

De todos os tempos, o cérebro foi considerado como o órgão da transmissão do pensamento, e a sede das faculdades intelectuais e morais. É hoje reconhecido que certas partes do cérebro têm funções especiais, e são afetadas a uma ordem particular de pensamentos e sentimentos, ao menos no que concerne à generalidade; é assim que, instintivamente, coloca-se, na parte anterior, as faculdades que são do domínio da inteligência, e que uma fronte fortemente deprimida e estreita tem para todo o mundo um sinal de inferioridade intelectual. As faculdades afetivas, os sentimentos e as paixões, por isto mesmo, têm sua sede nas outras partes do cérebro.

Ora, considerando-se que os pensamentos e os sentimentos são excessivamente múltiplos, e falando deste princípio de que tudo tem sua destinação e sua utilidade, é permitido concluir que, não só cada feixe fibroso do cérebro corresponde a uma faculdade geral distinta, mas que cada fibra corresponde à manifestação de uma das nuanças desta faculdade, como cada corda de um instrumento corresponde a um som particular. É uma hipótese, sem dúvida, mas que tem todos os caracteres da probabilidade, e cuja negação não infirmaria as conseqüências que deduziremos do princípio geral; ela nos ajudará em nossa explicação.

O pensamento é independente do organismo? Não vamos discutir aqui esta questão, nem refutar a opinião materialista segundo a qual o pensamento é secreta do pelo cérebro, como a bile o é pelo fígado, nasce e morre com esse órgão; além de suas funestas conseqüências morais, esta doutrina tem contra si de nada explicar.

Segundo as doutrinas espiritualistas, que são as da imensa maioria dos homens, a matéria, não podendo produzir o pensamento, este é um atributo do Espírito, do ser inteligente, que, quando está unido ao corpo, se serve dos órgãos especialmente destinados à sua transmissão, como se serve dos olhos para ver, dos pés para caminhar. O Espírito, sobrevivendo ao corpo, o pensamento também o segue.

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Segundo a Doutrina Espírita, não só o Espírito sobrevive, mas preexiste ao corpo; não é um ser novo; quando nasce, traz as idéias, as qualidades e as imperfeições que possuía; assim se explicam as idéias, as aptidões e as tendências inatas. O pensamento é, pois, preexistente e sobrevivente ao organismo. Este ponto é capital, e é por falta de tê-lo reconhecido, que tantas questões permaneceram insolúveis.

Todas as faculdades e todas as aptidões estando na natureza, o cérebro contém os órgãos, ou pelo menos o germe dos órgãos necessários à manifestação de todos os pensamentos. A atividade do pensamento do Espírito sobre um ponto determinado leva ao desenvolvimento da fibra, ou, querendo-se, do órgão correspondente; se uma faculdade não existe no Espírito, ou se, existindo, ela deve permanecer no estado latente, o órgão correspondente, estando inativo, não se desenvolve ou se atrofia. Se o órgão está atrofiado congenitamente, a faculdade não podendo se manifestar, o Espírito parece dela estar privado, se bem que a possua, em realidade, uma vez que lhe é inerente. Enfim, se o órgão primitivamente em seu estado normal, se deteriora no curso da vida, a faculdade, de brilhante que era, se ofusca, depois se apaga, mas não se destrói; não é senão um véu que a obscurece.

Segundo os indivíduos, há faculdades, aptidões, tendências que se manifestam desde o próprio início da vida, outras se revelam em épocas mais tardias, e produzem as mudanças de caráter e de disposições que se notam em certas pessoas. Neste último caso, geralmente, não são disposições novas, mas aptidões preexistentes que dormitam até que uma circunstância venha estimular e despertar. Pode-se estar certo de que as disposições viciosas que se manifestam às vezes subitamente e tardiamente, tinham seu germe preexistente nas imperfeições do Espírito, porque este, caminhando sempre para o progresso, se for essencialmente bom, não pode se tornar mau, ao passo que, se for mau pode se tornar bom.

O desenvolvimento ou a depressão dos órgãos cerebrais segue o movimento que se opera no Espírito. Essas modificações são favorecidas em toda idade, mas sobretudo na juventude, pelo trabalho íntimo de renovação que se opera incessantemente no organismo da maneira seguinte:

Os principais elementos do organismo são, como se sabe, o oxigênio, hidrogênio, o azoto e o carbono que, pelas suas múltiplas combinações, formam o sangue, os nervos, os músculos, os humores, e as diferentes variedades de substâncias. Pela atividade das funções vitais, as moléculas orgânicas são incessantemente expulsas do corpo pela transpiração, pela exalação e todas as secreções, de sorte que se elas não forem substituídas. O corpo se enfraquece, acaba por perecer. A nutrição e a aspiração trazem, sem cessar, novas moléculas destinadas a substituir aquelas que dele se vão; de onde se segue que, num tempo dado, todas as moléculas orgânicas são inteiramente renovadas, e que numa certa idade, delas não existe mais uma única daquelas que formaram o corpo em sua origem. É o caso de uma casa da qual se arrancassem as pedras uma a uma, substituindo-as na medida por uma nova pedra da mesma forma e do mesmo tamanho, e assim por diante até a última. Ter-se-ia sempre a mesma casa, mas formada de pedras diferentes.

Assim ocorre com o corpo, cujos elementos constitutivos são, dizem os fisiologistas, totalmente renovados a cada sete anos. As diversas partes do organismo subsistem sempre, mas os materiais são mudados. Destas mudanças, gerais ou parciais, nascem as modificações que sobrevêm, com a idade, no estado sanitário de certos órgãos, as variações que sofrem os temperamentos, os gostos, os desejos que influem sobre o caráter.

As aquisições e as perdas não estão sempre em perfeito equilíbrio. Se as aquisições se sobrepõem às perdas, o corpo cresce ou engrossa; se o contrário ocorre, o corpo diminui. Assim se explicam o crescimento, a obesidade, o emagrecimento, a decrepitude.

 

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A mesma causa produz a expansão ou aparada do desenvolvimento dos órgãos cerebrais, segundo as modificações que se operam nas preocupações habituais, das idéias e do caráter. Se as circunstâncias e as causas que agem diretamente sobre o Espírito, provocando o exercício de uma aptidão ou de uma paixão, permanecida até então no estado de inércia, a atividade que se produz no órgão correspondente, a ele faz afluir o sangue e com ele as moléculas constitutivas do órgão que cresce e toma da força em proporção dessa atividade. Pela mesma razão, a inatividade da faculdade produz o enfraquecimento do órgão; como também uma atividade muito grande e muito persistente pode conduzi-lo à desorganização ou ao enfraquecimento, por uma espécie de desgaste, assim como ocorre a uma corda muito esticada.

As aptidões do Espírito são, pois, sempre uma causa, e o estado dos órgãos um efeito. Pode ocorrer, no entanto, que o estado dos órgãos seja modificado por uma causa estranha ao Espírito, tal como doença, acidente, influência atmosférica ou climática; então são os órgãos que reagem sobre o Espírito, não em alterando suas faculdades, mas em perturbando-lhe a manifestação.

Um efeito semelhante pode resultar das substâncias ingeridas no estômago como alimentos ou medicamentos. Estas substâncias ali se decompõem, e os princípios essenciais que elas contêm, misturados ao sangue, são levados, pela corrente da circulação em todas as partes do corpo. Está reconhecido, pela experiência, que os princípios ativos de certas substâncias se dirigem mais particularmente sobre tal ou tal víscera: o coração, o fígado, os pulmões, etc., e ali produzem efeitos reparadores ou deletérios segundo sua natureza e suas propriedades especiais. Alguns, agindo desta maneira sobre o cérebro, podem exercer sobre o conjunto ou sobre partes determinadas, uma ação estimulante ou estupefaciente, segundo a dose e o temperamento, como por exemplo, as bebidas alcoólicas, o ópio e outros.

Nós nos estendemos um pouco sobre os detalhes que precedem, a fim de fazer compreender o princípio sobre o qual se apoia, com uma aparência de lógica, a teoria das modificações do estado moral por meios terapêuticos. Este princípio é o da ação direta de uma substância sobre uma parte do organismo cerebral tendo por função especial servir à manifestação de uma faculdade, de um sentimento ou de uma paixão, porque não pode vir ao pensamento de ninguém que essa substância possa agir sobre o Espírito.

Estando, pois, admitido que o princípio das faculdades está no Espírito, e não na matéria, suponhamos que se lhe reconhecesse, a uma substância, a propriedade de modificaras disposições morais, de neutralizar um mau pendor, isto não poderia ser senão pela sua ação sobre o órgão correspondente a esse pendor, a ação que teria por efeito deter o desenvolvimento desse, de atrofiá-lo ou de paralisá-lo se está desenvolvido; torna-se evidente que, neste caso, não se suprime o pendor, mas a sua manifestação, absolutamente como se se tirasse a um músico o seu instrumento.

Provavelmente, foram os efeitos dessa natureza que certos homeopatas observaram, e lhes fizeram acreditar na possibilidade de corrigir, com a ajuda de medicamentos apropriados, os vícios tais como o ciúme, o ódio, o orgulho a cólera, etc. Uma tal doutrina, se fosse verdadeira, seria a negação de toda responsabilidade moral, a sanção do materialismo, porque então a causa de nossas imperfeições estaria só na matéria; a educação moral se reduziria a um tratamento médico; o homem mais mau poderia tornar-se bom sem grandes esforços, e a Humanidade poderia ser regenerada com a ajuda de algumas pílulas. Se, ao contrário, como isto não parece duvidoso, as imperfeições são inerentes à própria inferioridade do Espírito, não se o melhoraria mais modificando seu envoltório carnal, do que não endireitando um corcunda, dissimulando sua disformidade sob o talhe de sua roupa.

Não duvidamos, no entanto, que tais resultados tenham sido obtidos em alguns casos particulares, porque, para firmar um fato tão sério, é preciso ter observado; mas estamos convencidos de que se desprezou sobre a causa e sobre o efeito. Os

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medicamentos homeopáticos, por sua natureza etérea, têm uma ação de alguma sorte molecular; sem contradita, eles podem, mais do que outros, agir sobre as partes elementares e fluídicas dos órgãos, e modificar-lhes a constituição íntima. Se, pois, é racional admiti-lo, todos os sentimentos da alma têm sua fibra cerebral correspondente para a sua manifestação, um medicamento que agisse sobre esta fibra, seja para a paralisá-la, seja para exaltar-lhe a sensibilidade, paralisaria ou exaltaria por isto mesmo a expressão do sentimento, do qual seria o instrumento, mas o sentimento com isto não subsistiria menos. O indivíduo estaria na posição de um assassino ao qual se tirasse a possibilidade de cometer os crimes cortando-lhe os braços, mas que nisto não conservaria menos o desejo de matar. Seria, pois, um paliativo, mas não um remédio curativo. Não se pode agir sobre o ser espiritual senão pelos meios espirituais; a utilidade dos meios materiais, se o efeito acima fosse constatado, seria talvez de dominar mais facilmente o Espírito, de torná-lo mais flexível, mais dócil e mais acessível às influências morais; mas se embalaria de ilusões esperando-se de um medicamento qualquer um resultado definitivo e durável.

Isto seria de outro modo tratando-se de ajudar à manifestação de uma faculdade existente. Suponhamos um Espírito inteligente encarnado, não tendo ao seu serviço senão um cérebro atrofiado, e não podendo, consequentemente, manifestar as suas idéias, seria para nós um idiota. Em admitindo, o que cremos possível à homeopatia mais do que a todo outro gênero de medicação, que se possa dar mais flexibilidade e sensibilidade às fibras cerebrais, o Espírito manifestaria seu pensamento, como um mudo ao qual teria se desamarrado a l íngua. Mas se o Espírito sendo idiota por si mesmo, tivesse a seu serviço o cérebro do maior gênio, com isto não seria menos idiota. Um medicamento qualquer não podendo agir sobre o Espírito, não poderia dar-lhe o que ele não tem, nem tirar-lhe o que ele tem; mas agindo sobre o órgão de transmissão do pensamento, pode facilitar esta transmissão sem que, por isto, nada seja mudado ao estado do Espírito. O que é difícil, o mais freqüentemente mesmo impossível no idiota de nascença, porque ele tem a parada completa e quase sempre geral do desenvolvimento nos órgãos, torna-se possível quando a alteração é acidental e parcial. Neste caso, não é o Espírito que se aperfeiçoa, são seus meios de comunicação.

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EXPLORAÇÃO DAS IDÉIAS ESPÍRITAS.

A PROPÓSITO DOS RELATÓRIOS DE MIRETTE.

Vários jornais deram conta, com elogio, do romance de Mirette, do qual falamos n Revista de fevereiro de 1867. Não podemos senão felicitar os escritores que não detiveram as idéias contidas nesta obra, embora contrárias às sua convicções. É um progresso, porque houve um tempo em que somente a cor espírita teria sido um motivo de reprovação. Viu-se com que parcimônia e com que extensão embaraçada os próprios amigos de Théophile Gautier falaram de seu romance, de Spirite. É verdade que, fora o que toca ao mundo espiritual, o caráter essencialmente moral de Mirette, pouco flanco presta à zombaria. Por cético que se seja, não se ri do que tem por conseqüência o bem.

A crítica tem se dirigido principalmente sobre este ponto: Por que misturar o sobrenatural a um simples relato? Era útil à ação se apoiar sobre fatos de visões e de aparições? Que necessidade tinha o autor de transportar seus heróis no mundo imaginário da vida espiritual para chegarão cumprimento da reparação decretada pela Providência? Não temos milhares de histórias muito edificantes sem o emprego de semelhantes recursos?

Seguramente, isso não era necessário; mas diremos a esses senhores: se o Sr. Sauvage tivesse feito um romance católico, lhe faríeis, céticos como sois, uma censura

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por empregar como recurso de ação o inferno, o paraíso, os anjos, os demônios, e todos os símbolos da fé? Perfazer intervir os deuses, as deusas, o Olimpo e o Tártaro num romance pagão? Por que, pois, achar mau que um escritor, que seja Espírita ou não, utilize os elementos que lhe oferece o Espiritismo, que é uma crença como uma outra, tendo seu lugar ao sol, se esta crença se presta ao seu assunto? Com menos forte razão pode-se censurá-lo se, em sua convicção, ali vê os meios providenciais para chegarão castigo dos culpados e à recompensa dos bons.

Se, pois, no pensamento do escritor essas crenças são verdadeiras, porque não as exporia num romance tão bem quanto numa obra filosófica? Mas há mais: é que, como dissemos muitas vezes, essas mesmas crenças abrem à literatura e às artes um campo vasto e novo de exploração, de onde tirarão a mancheias quadros impressionantes e as situações mais atraentes. Vede o partido que tirou dele Barbara, todo incrédulo que era, em seu romance do Assassinat du Pont-Rouge. (Revista de janeiro de 1867, página 14). Somente como o foi com a arte cristã, aqueles que tiver uma fé, as aproveitarão melhor; nele encontrarão motivos de inspiração que jamais terão aqueles que não fazem senão obras de fantasia.

As idéias espíritas estão no ar; elas são abundantes, como se sabe, na literatura atual; os escritores mais céticos nelas têm recursos sem disto desconfiar, levados, pela própria força do raciocínio, a empregá-los como explicações ou meios de ação. Foi assim que, muito recentemente, o Sr. Ponson du Terrail, que mais de uma vez alegrou-se às expensas do Espiritismo e de seus adeptos, num romance folhetim, intitulado Mon Village, publicado no Moniteur, da noite (7 de janeiro de 1867), assim se exprimiu:

"Estas duas crianças já se amavam, e talvez não ousaram jamais dize-lo entre si.

"O amor, às vezes, é instantâneo, e creriam de boa vontade na transmissão das almas e na pluralidade das existências. Quem sabe? Essas duas almas que tremem ao primeiro contato, e que, recentemente, se acreditavam desconhecidas uma da outra, não foram elas irmãs outrora?

"E, como chegaram na Grand'Rue de Saint-Florentin, cruzaram com um homem que caminhava muito rapidamente e que, à sua visão, sentiu uma espécie de comoção elétrica. Este homem era o Mulot, que saía do café do Univers. Mas o Sr. Anatole e Mignonne não o viram. Recolhidos e silenciosos, viviam por assim dizer neles mesmos, suas almas estavam longe, sem dúvida, desta Terra que eles pisavam."

O autor viu, pois, no mundo, situações semelhantes àquelas que ele quer pintar, e que são um problema para o moralista; ali não encontra solução lógica se não em admitindo que essas duas almas encarnadas, solicitadas uma para outra por uma irresistível atração, puderam ser irmãs numa outra existência. Onde hauriu ele este pensamento? sem dúvida, isto não foi nas obras espíritas que provavelmente não leu, assim como o provam os erros de fato que ele comete cada vez que fala da Doutrina. Ele o tirou nessa corrente de idéias que atravessa o mundo, às quais os próprios incrédulos não podem escapar, e que crêem de boa fé tirar de seu próprio fundo. Tudo em combatendo o Espiritismo, trabalham, sem o querer, para lhe acreditar os princípios. Pouco importa a via pela qual esses princípios se infiltram; mais tarde se reconhecerá que não lhe falta senão o nome.

Sob o título de Conto de Natal, o Avenir National de 25 de dezembro de 1866, publicou um artigo do Sr. Taxile Delort, escritor muito pouco espírita, como se sabe, no qual o autor supõe um jornalista sentado, na véspera de natal, perto do fogo, perguntando a si mesmo em que tinha se tornado a boa nova que os anjos, em semelhante dia, tinham vindo, há dois mil anos, anunciar ao mundo. Como ele se entregava às suas reflexões, o jornalista ouviu uma voz firme e doce que lhe dizia:

 

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"Eu sou o Espírito; o da Revolução; que fortalece os indivíduos e os povos; trabalhadores, de pé! o passado conserva ainda um sopro de vida, desafia o futuro. O progresso, mentira ou utopia, se vos exclama; não escuteis essa vozes enganosas; para tomar forcas e caminhar avante, olhai um momento atrás de vós.

"O progresso é invencível; ele se serve mesmo daqueles que lhe resistem para avançar."

Não seguiremos o jornalista e o Espírito no diálogo que se estabeleceu entre eles, e no qual este último desenrolou o futuro, porque eles caminham num terreno que nos está interditado; somente faremos notar que meio empregou o autor para chegar aos seus fins. Este meio, aos seus olhos, é de pura fantasia, mas não ficaríamos surpresos que um verdadeiro Espírito haja soprado a frase acima, que sublinhamos.

Desempenha-se neste momento, no teatro do Ambigu, um drama dos mais emocionantes, intitulado Maxwel, pelo Sr. Jules Barbier, e eis aqui em duas palavras o nó da intriga.

Um pobre tecelão, de nome Butler, é acusado do assassínio de um gentil homem, e todas as aparências são de tal modo contra ele que é condenado pelo juiz Maxwel a serem forcado. Só um homem poderia justificá-lo, mas não se sabe o que lhe aconteceu. No entanto, a mulher do tecelão, num acesso de sono sonambúlico, viu esse homem e o descreveu; poder-se-ia, pois, reencontrá-lo. Um bom e sábio doutor que crê no sonambulismo, amigo do juiz Maxwel, veio informá-lo desse incidente, a fim de obter um adiamento da execução; mas Maxwel, cético com relação às faculdades que considera sobrenaturais, mantém a sua sentença, e a execução tem lugar. Há algumas semanas daí, esse homem reaparece e conta o que se passou. A inocência do condenado é demonstrada, e a visão da sonâmbula justificada.

No entanto, o verdadeiro assassino permaneceu desconhecido. Quinze anos se passam, durante os quais se verifica uma multidão de incidentes. O juiz, acabrunhado de remorso, devota sua vida à procura do culpado. A viúva de Butler, que é expatriada levando sua filha, morre na miséria. Mais tarde essa filha se torna cortesã na moda, sob um outro nome. Uma circunstância fortuita coloca-lhe nas mãos a faca que tinha servido ao assassino; como sua mãe, ela entra em sonambulismo, e este objeto, como um fio condutor, retornando-a ao passado, ela conta todas as peripécias do crime e revela o verdadeiro culpado que não é outro senão o próprio irmão do juiz Maxwel.

Não é a primeira vez que o sonambulismo é posto em cena; mas o que distingue o drama novo é que ali é representado sob uma luz eminentemente séria e prática, sem nenhuma mistura de maravilhoso, e em suas conseqüências mais graves, uma vez que ele serve de meio de protesto contra a pena de morte. Em provando que o que os homens não podem ver pelos olhos do corpo, não está escondido aos da alma, é demonstrar a existência da alma, e a sua ação independente da matéria. Do sonambulismo ao Espiritismo a distância não é grande, uma vez que se explicam um pelo outro; tudo o que tende a propagar um, tende igualmente a propagar o outro. Os Espíritos não se enganaram quando anunciaram que a idéia espírita brilharia por todas as espécies de caminhos. A dupla vista e a pluralidade das existências, confirmadas pelos fatos, e acreditadas por uma multidão de publicações, entram cada dia mais diante das crenças, e não se admira mais; são duas portas completamente abertas ao Espiritismo.

ROBINSON CRUSOE ESPÍRITA.

Quem teria desconfiado de que o inocente livro de Robinson estivesse maculado dos princípios do Espiritismo, e que a juventude na mão da qual o colocaram sem desconfiança, pudesse nele haurir a doutrina malsã dos Espíritos? Nós mesmos o ignoraríamos se um dos nossos assinantes não tivesse assinalado as passagens seguintes, que se acham nas edições completas, mas não nas edições resumidas.

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Esta obra, na qual se viu principalmente as aventuras curiosas próprias para divertir as crianças, está cheia de uma alta filosofia moral e de um profundo sentimento religioso.

Lê-se, à página 164 (edição ilustrada por Granville): "Estes pensamentos me inspiraram uma tristeza que durou muito tempo; mas, enfim, eles tomaram uma outra direção; senti o que devia de reconhecimento ao céu, que tinha me impedido de me entregar a um perigo cuja existência eu ignorava. Este assunto fez renascer em mim uma reflexão que já me tinha vindo mais de uma vez, depois que tinha reconhecido o quanto, em todos os perigos da vida, a Providência mostrou a sua bondade por disposições cujo fim não compreendemos. Freqüentemente, com efeito, saímos dos maiores perigos por vias maravilhosas; com freqüência, um impulso secreto nos decide de repente, num momento de grande incerteza, a tomar tal caminho antes que tal outro, que nos teria conduzido à nossa perda.

"Eu me fiz, pois, uma lei de jamais resistir a essas vozes misteriosas que nos convidam a tomar tal partido, a fazer ou não fazer tal coisa, se bem que nenhuma razão apoie esse impulso secreto. Eu poderia citar mais de um exemplo onde o respeito a semelhantes advertências tiveram um pleno sucesso, sobretudo na última parte de minha permanência nessa ilha infeliz, sem contar muitas outras ocasiões que deveram me escapar e às quais eu teria dado atenção, se meus olhos estivessem abertos desde então sobre este ponto. Mas nunca é muito tarde para ser sábio, e eu aconselho a todos os homens que refletem, cuja existência estaria sujeita, como a minha, a acidentes extraordinários, mesmo às vicissitudes mais comuns, de nunca negligenciar esses avisos íntimos da Providência, qualquer que seja a inteligência invisível que no-los transmita.

Página 284:

"Freqüentemente, tinha ouvido pessoas muito sensatas dizerem que tudo o que se nos contam os sonhos e as aparições, se explicam pela força da imaginação; que jamais um Espírito apareceu a alguém; mas, que sonhando assiduamente com aqueles que perdemos, eles se tornam de tal modo presentes no pensamento, que, em certas circunstâncias, se crê vê-los, falar-lhes, ouvir suas respostas, e que tudo isto não é senão uma ilusão, uma sombra, uma lembrança.

"Por mim, não posso dizer se existem, no tempo presente, as aparições verdadeiras, os espectros, pessoas mortas que retomam a errar pelo mundo, ou se as histórias que fazem sobre estas espécies de fatos são fundadas unicamente sobre as visões de cérebros enfermos, de imaginações exaltadas e desordenadas; mas sei que a minha chega a um tal ponto de exitação, me lança em tais excessos de vapores fantásticos, onde não importa que nome sequer dar-lhe, que creio às vezes estar em minha ilha, em meu velho castelo atrás da floresta; vejo meu Espanhol, o pai de Sexta-feira, e os marinheiros condenados que eu tinha deixado nessas margens; creio mesmo conversar com eles; e embora estivesse bem desperto, eu os olhava firmemente, como se tivessem estado diante de mim. Isto ocorre muito freqüentemente para me assustar. Uma vez, em meu sono, o primeiro Espanhol e o velho selvagem me contaram, em termos tão naturais e tão enérgicos, as maldades de três marinheiros piratas, que é com efeito surpreendente. Disseram-me como esses homens perversos tinham tentado assassinar os Espanhóis, depois de terem queimado todas suas provisões, no desejo de fazê-los morrer de fome; e este fato. que eu não podia saber então e que se acha verdadeiro, me foi mostrado tão claramente por minha imaginação, que fiquei convencido de sua realidade. Do mesmo modo acreditei nas conseqüências deste sonho. Eu escutava os lamentos do Espanhol com uma profunda emoção; fiz vir os três culpados diante de mim, e os condenei a serem enforcados. Ver-se-á, em seu lugar, o que havia de exato neste sonho. Mas como estes fatos me foram assim revelados? Por qual secreta comunicação dos Espíritos invisíveis, me eram trazidos? É o que não pude explicar. O todo não era literalmente verdadeiro; mas os pontos principais estavam confundidos com a realidade, e a conduta infame destes três celerados endurecidos tinha sido muito além do que se poderia supor. Meu

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sonho, a esse respeito, não tinha senão muita semelhança com os fatos; além disto, eu quis, quando me encontrava na ilha, puni-los muito severamente, e, se os tivesse feito enforcar, teria sido justificado pelas leis divinas e humanas."

Página 289:

"Nada me demonstra mais claramente a realidade de uma vida futura e de um mundo invisível do que o concurso das causas secundadas com certas idéias que nos formamos interiormente, sem ter recebido nem dado, a seu respeito, nenhuma comunicação humana."

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TOLERÂNCIA E CARIDADE.

CARTA DO NOVO ARCEBISPO DE ALGER.

O Véritéde Lyon, de 17 de fevereiro, publicou a carta seguinte, que o Mons. Lavigerie, bispo de Nancy, nomeado o arcebispo de Alger, escreveu ao Sr. prefeito de Alger, em data de 15 de janeiro último:

"Senhor Prefeito,

"Venho de saber, pelo Moniteur, a novidade oficial de minha promoção a arcebispo de Alger, e embora não possa exercer nenhum ato de meu ministério na diocese, sem ter recebido primeiro a missão e a instituição da Santa Sé, no entanto não posso permanecer insensível aos assentos dolorosos que ressoam em toda a França e que nos chegam ao pé do Atlas. A administração municipal de Alger tomou a generosa iniciativa de uma subscrição pública para as vítimas do último tremor de terra. Permiti-me enviar meu óbolo por vosso intermédio. Encontrareis sob esta dobra uma soma de mil francos: é tudo o que a minha pobreza me permite fazer, mas este pouco, pelo menos o faço de grande coração.

"Desejo que esta soma seja distribuída igualmente, e sem distinção de raças nem de cultos, entre todos aqueles que foram atingidos pelo flagelo. Se todos não devem, mais tarde, reconhecer-me por seu pai, eu, eu reclamo o privilégio de amá-los igualmente como meus filhos. Tomei por divisa de minhas armas episcopais uma única palavra: caridade! e a caridade não conhece nem Gregos, nem bárbaros, nem infiéis, nem israelitas; assim como fala o apóstolo São Paulo, ela não deve ver, em todos os homens, senão a imagem viva de Deus! Que eu possa, se ele me chama logo ao vosso meio, dar a todos, por meus atos e por minhas palavras, o exemplo e o amor desta virtude que prepara todas as outras.

"Aceitai, Senhor Prefeito, a expressão dos sentimentos de respeitoso devotamento com os quais tenho a honra de ser vosso humilde e obediente servidor.

"CHARLES,

"Bispo de Nancy, nomeado arcebispo de Alger."

O novo arcebispo de Alger se anuncia por um ato de beneficência que é uma digna introdução; mas o que vale ainda mais, e que será sobretudo apreciado, são os princípios de tolerância pelos quais ele inaugura sua administração. Em lugar do anátema, é a caridade que confunde todos os homens num mesmo sentimento de amor, sem distinção de crença, porque todos são a viva imagem de Deus. Aí estão as verdadeiras palavras evangélicas. Ele não fala dos Espíritas, contra os quais seu predecessor tinha lançado todos os raios da maldição. (Ver a Revista de novembro de 1863, página 336.) Mas é provável que se a sua tolerância se estende aos judeus e aos infiéis, ela não pode fazer

 

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exceção para aqueles que, em conformidade com as palavras do Cristo, inscrevem em sua bandeira: Fora da caridade não há salvação.

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LINCOLN E SEU ASSASSINO.

Extraído do Banner of Light de Boston.

Análise de uma comunicação de Abrahan Lincoln, obtida por um médium de

Ravenswood.

"Quando Lincoln saiu de seu atordoamento, e despertou no mundo dos Espíritos, ele ficou surpreso e perturbado, porque não tinha a menor idéia de que fora morto. O tiro que o atingiu tinha suspendido instantaneamente toda sensação, e ele não compreendeu o que lhe havia ocorrido. Ele era bastante espiritualizado para compreender o que é a morte, e não ficou, como muitos outros, admirado da nova existência na qual se achava transportado. Ele se viu rodeado por muitas pessoas que sabia mortas há muito tempo, e entendeu logo a causa de sua morte. Foi recebido cordialmente por muitas pessoas para as quais tivera simpatia. Compreendeu a sua afeição por ele, e de um golpe de vista, pôde abarcar o mundo feliz no qual tinha entrado.

"No mesmo instante experimentou um sentimento de angústia pela dor que deveria sentir sua família, e uma grande ansiedade a respeito das conseqüências poderiam ter para seu país. Esses pensamentos o conduziram violentamente sobre a Terra.

"Tendo sabido que o William Booth estava mortalmente ferido, veio para ele e se inclinou sobre o seu leito de morte. Neste momento, Lincoln tinha recobrado a perfeita consciência e a tranqüilidade de seu Espírito, e esperou com calma o despertar de Booth na vida espiritual.

"Booth, em despertando, não ficou admirado porque esperava a sua morte. O primeiro Espírito que ele reencontrou foi Lincoln; ele o olhou com uma grande audácia, e como se se glorificasse do ato que havia cometido. O sentimento de Lincoln, a seu respeito, no entanto, não respirava nenhuma idéia de vingança, muito ao contrário; ele se mostrava doce e bom, e sem a menor animosidade a seu respeito. Booth não pôde suportar este estado de coisas, e o deixou cheio de emoção.

"O ato que cometeu teve vários motivos; primeiro, sua falta de julgamento que o fazia considerar como meritório, e em seguida seu amor desregrado aos louvores que o tinha persuadido que seria cumulado de elogios e olhado como um mártir.

"Depois de ter vagueado, se achou de novo atraído para Lincoln. Algumas vezes está cheio de arrependimento, de outras vezes seu orgulho o impede de se emendar. Todavia, ele compreende o quanto seu orgulho é vão, sabendo sobretudo que não pode esconder, como quando vivo, nenhum dos sentimentos que o agitam, e que seus pensamentos de orgulho, de vergonha ou de remorsos são conhecidos daqueles que o cercam. Sempre em presença de sua vítima, e dele não recebendo senão marcas de bondade, eis seu estado atual e sua punição. Quanto a Lincoln, sua bondade ultrapassou o que se havia podido esperar."

Nota. A situação desses dois Espíritos está em todos os pontos conforme aquela da qual vemos diariamente os exemplos nos relatos de além-túmulo. Ela é perfeitamente racional, e em relação com o caráter dos dois indivíduos.

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POESIAS ESPÍRITAS.

A BERNARD PALISSY.

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Quando sobre nosso futuro, incerto e flutuante,

Eu duvidava, apesar de mim, da imortalidade,

Tu vens ao meu chamado, e tua mão benfazeja

Rasgou a venda da incredulidade;

Dize-me, pois: De onde vinha a doce simpatia

Que te fazia deixar uma celeste morada?

Era uma lembrança de uma anterior vida

Que deixava em teu coração um fraternal amor?

Talvez, caro Espírito, numa outra existência

Foste meu protetor, meu guia, meu apoio.

Mas eu interrogo em vão: Deus, em sua previdência,

Pôs sobre meus olhos o véu do esquecimento

Esperando o tempo em que veria tua esfera,

Onde meu Espírito poderá se elevar até ti!

Se devo retornar sobre esta triste Terra,

Meu bem amado Bernard, pense sempre em mim.

Srta. L. O. Lieutaud, de Rouen.

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A LIGA DO ENSINO.

Vários de nossos correspondentes estão admirados por não termos ainda falado da associação designada sob o título de Liga do ensino. Por seu caráter progressivo, esse projeto lhes parece merecer as simpatias do Espiritismo; no entanto, antes de nisto tomar parte, desejariam ter nossa opinião. Em lhes agradecendo por esse novo testemunho de confiança, lhes repetiremos o que dissemos muitas vezes, a saber: Jamais tivemos a pretensão de coordenar a liberdade de ninguém, nem de impor nossas idéias a quem quer que seja, não as considerando como devendo fazer lei. Guardando o silêncio, quisemos não pre julgar a questão e deixar mais inteira a liberdade de cada um. Quanto ao motivo de nossa abstenção pessoal, não temos nenhuma razão de calá-la, e uma vez que se deseja conhecê-la, a di-la-emos francamente.

Nossa simpatia, como a de todos os Espíritas, consente todas as idéias progressivas, e todas as instituições que tendem a propagá-las; mas ainda é preciso que esta simpatia tenha um objeto determinado. Ora, até o presente, a liga do ensino não nos oferece senão um título, sedutor é verdade, mas nenhum programa definido, nenhum plano traçado, nem objetivo preciso. Este título tem mesmo o inconveniente de sertão elástico, que poderia se prestara combinações muito divergentes em suas tendências e em seus resultados. Cada um pode entendê-lo à sua maneira, e, sem dúvida, se faz por antecipação um plano conforme sua maneira de ver; poder-se-ia, pois, dar-se que quando ele estiver em execução, a coisa não responda à idéia que certas pessoas dela tinham feito; daí as defecções inevitáveis.

Mas, diz-se, não se arrisca nada, uma vez que são os próprios subscritores que regularão o emprego dos fundos. - Razão a mais para que não se entenda, e, nesse conflito de opiniões e de objetivos diversos, forçosamente, haverá decepções.

Com um objetivo bem definido, ao contrário, um plano claramente traçado, sabe-se a que empenha, ou pelo menos sabe-se se da sua adesão a uma coisa praticável ou a uma utopia; pode-se apreciar a sinceridade da intenção, o valor da idéia, a combinação mais ou menos feliz dos órgãos, as garantias de estabilidade, e calcular as chances de sucesso ou de insucesso. Ora, na espécie, esta apreciação não é possível, uma vez que a idéia fundamental está cercada de mistério, e que é preciso aceitar sua palavra como boa. Queremos crê-la perfeita, o desejamos sinceramente, e quando o bem que deve dela

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sair nos for demonstrado, e que nele veremos sobretudo o lado prático, nós a aplaudiremos de todo o coração; mas, antes de dar nossa adesão ao que quer que seja, queremos poder fazê-lo com conhecimento de causa; temos a ver muito claro em tudo o que fazemos, e saber onde colocamos o pé. No estado das coisas, não tendo os elementos necessários para louvar ou censurar, reservamos o nosso julgamento.

Essa maneira de ver que é toda pessoal, não saberia obrigar aqueles que se crêem suficientemente esclarecidos.

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DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

COMUNICAÇÃO COLETIVA.

(Sociedade de Paris, 1O de novembro de 1866. Médium M. Bertrand.)

Em 1O de novembro último, estando a Sociedade reunida, como de hábito, para a comemoração dos mortos, recebeu um grande número de comunicações, entre as quais uma sobretudo se distinguiu pelo seu feitio inteiramente novo, e que consiste numa seqüência de pensamentos destacados, cada um assinado com um nome diferente, que se encadeiam e se completam uns pelos outros. Eis esta comunicação:

Meus amigos, quantos Espíritos, ao vosso redor, que gostariam de se comunicar convosco e vos dizer que vos amam; e quanto serieis felizes se o nome de todos aqueles que vos são caros fosse pronunciado na mesa dos médiuns! Que felicidade! que alegria, para cada um de vós, se vosso pai, vossa mãe, vosso irmão, vossa irmã, Vossos filhos e vossos amigos viessem vos falar! Mas compreendeis que é impossível que sejais todos satisfeitos; o número dos médiuns não bastaria; mas o que não é impossível é que um Espírito, em nome de todos os vossos parentes e amigos, venha vos dizer: Obrigado pela vossa boa lembrança e vossas preces ardentes; coragem! tende a esperança de que um dia, depois de vossa libertação, viremos todos vos estender a mão. Ficai persuadidos de que o que o Espiritismo vos ensina é o eco das leis do Todo-Poderoso; pelo amor, tornai-vos todos irmãos, e vos aliviais do pesado fardo que carregais.

Agora, caros amigos, todos os vossos Espíritos protetores virão lhes dar o seu pensamento. Tu, médium, escuta e deixa teu lápis ir segundo a sua idéia.

A medicina faz o que fazem os lagostins assustados;

Dr. DEMEURE.

Porque o magnetismo progride e que, progredindo, ele esmaga a medicina atual para substituí-la.

MESMER.

A guerra é um duelo que não cessará senão quando os combatentes tiverem força igual;

NAPOLEÃO.

Força igual materialmente e moralmente.

GENERAL BERTRAND.

A igualdade moral reinará quando o orgulho for destituído.

GENERAL BRUNE.

As revoluções são abusos que destroem outros abusos;

LOUIS XVI.

 

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Mas esses abusos fazem nascer a liberdade. (Nenhum nome).

Para ser iguais é preciso ser irmãos; sem fraternidade, nenhuma igualdade e nenhuma liberdade.

LAFAYETTE.

A ciência é o progresso da inteligência;

NEWTON.

Mas o que lhe é preferível é o progresso moral.

JEAN REYNAUD.

A ciência permanecerá estacionaria até que a moral a tenha alcançado. FRANÇOIS ARAGO.

Para desenvolver a moral é preciso primeiro extirpar o vício.

BERANGER.

Para destruir o vício é preciso desmascará-lo;

EUGÈNE SUE.

É o que todos os Espíritos fortes e superiores procuram fazer.

JACQUES ARAGO.

Três coisas devem progredir: a música, a poesia, a pintura. A música transporta a alma impressionando o ouvido;

MEYERBEER.

A poesia transporta a alma abrindo o coração.

CASIMIR DELAVIGNE.

A pintura transporta a alma agradando aos olhos.

FLANDRIN.

A poesia, a música e a pintura são irmãs e se dão a mão; uma para abrandar o coraçao, a outra para abrandar os costumes, e a última para abrir a alma; todas as três para vos elevar ao vosso Criador.

ALFRED DE MUSSET.

Mas nada, nada deve momentaneamente mais progredir do que a filosofia; ela deve dar um passo imenso, deixando estacionar a ciência e as artes, mas para elevá-las tão alto, quando disto for tempo, que esta elevação será muito sutil para vós hoje.

Em nome de todos,

SÃO LUÍS.

Em 6 de dezembro, o Sr. Bertrand obteve, no grupo do Sr. Desliens, uma comunicação do mesmo gênero, que, de alguma sorte, é a continuação da precedente.

O amor é uma lira cujas vibrações são os acordes divinos.

HÉLOÍSE.

O amor tem três cordas em sua lira: a emanação divina, a poesia e a melodia; se uma delas falta, os acordes, são imperfeitos.

ABÉLARD.

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O amor verdadeiro é harmonioso; suas harmonias embriagam o coração elevando a alma. A paixão entristece os acordes, abaixando a alma.

BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.

Era o amor o que Diógenes procurava procurando um homem...que veio alguns séculos mais tarde, e que o ódio, o orgulho e a hipocrisia crucificaram.

SÓCRATES.

Os sábios da Grécia, algumas vezes, o foram mais em seus escritos e em suas palavras do que em sua pessoa.

PLATÃO.

Ser sábio é amar; procuremos, pois, o amor pejo caminho da sabedoria. FÉNELON.

Não podeis ser sábios, se não saberdes vos elevar acima da maldade dos homens. VOLTAIRE.

O sábio é aquele que não crê sê-lo.

CORNEILLE.

Quem se crê pequeno é grande; quem se crê grande é pequeno.

LAFONTAINE.

O sábio se crê ignorante, e quem se crê sábio é ignorante.

ESOPO.

A humildade se crê ainda orgulhosa, e quem se crê humilde não o é. RACINE.

Não confundais com os humildes aqueles que dizem, por fingida modéstia, ou por interesse, o contrário do que são: estaríeis no erro. Neste caso a verdade se cala. BONNEFOND.

O gênio se possui por inspiração e não se adquire; Deus quer que as coisas maiores sejam descobertas ou inventadas por seres sem instrução, a fim de paralisar o orgulho, para tornar o homem solidário do homem.

FRANÇOIS ARAGO.

Não tratam de loucos senão aqueles cujas idéias não são timbradas pela autoridade da ciência; é assim que aqueles que crêem tudo saber, rejeitam os pensamentos de gênio daqueles que não sabem nada.

BERANGER.

A crítica é o estimulante do estudo, mas é a paralisação do gênio.

MOLIÈRE.

A ciência aprendida não é senão o esboço da ciência inata; ela não se torna inteligente senão na nova encarnação.

J.-J. ROUSSEAU.

 

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A encarnação é o sono da alma; as peripécias da vida lhe são os sonhos. BALZAC.

Algumas vezes a vida não é senão um horrível pesadelo para o Espírito, e, freqüentemente, tarda-lhe para que esteja finda;

LA ROCHEFOUCAULT.

Ali está a sua prova; se resiste, dá um passo para o progresso, se não, entrava o caminho que deve conduzi-lo ao porto.

MARTIN.

Ao despertar da alma que saiu vitoriosa das lutas terrestres, o Espírito é maior e mais elevado; se ele sucumbe, encontra-se tal qual era.

PASCAL.

É negar o progresso o querer que a língua seja o emblema da imutabilidade de uma doutrina religiosa; além disto, é forçar o homem a orar mais de lábios do que de coração. DESCARTES.

A imutabilidade não reside na forma das palavras, mas no verbo do pensamento. LAMENNAIS.

Jesus dizia aos seus apóstolos para irem pregar o Evangelho em seu idioma, e que todos os povos os compreenderiam.

LACORDAIRE.

A fé desinteressada faz milagres.

BOILEAU.

A doutrina de Jesus não se sente e não se compreende senão pelo coração; qualquer que seja, pois, a maneira pela qual se fale, ela é sempre o amor e a caridade. BOSSUET.

As preces ditas ou escritas que não são compreendidas, deixam vagar os pensamentos, permitindo aos olhos se distraírem pelo fausto das cerimônias.

MASSILLON.

Tudo mudará, sem, no entanto, retornar à simplicidade de antes, o que seria a negação do progresso. As coisas se farão sem fausto e sem orgulho.

SIBOUR.

O amor triunfará, e virão com ele: a sabedoria, a caridade, a prudência, a força, a ciência, a humildade, a calma, a justiça, o gênio, a tolerância, o entusiasmo e a glória majestosa e divina esmagará, pelo seu esplendor: o orgulho, a inveja, a hipocrisia, a maldade eo ciúme que arrastam atrás de si a preguiça, a gulodice e a luxúria.

EUG. SUE.

O amor reinará, e para que ele não tarde, é preciso, corajoso Diógenes, tomar na mão o facho do Espiritismo, e mostrar aos humanos os vermes roedores que formam ferida em sua alma.

SÃO LUÍS.

 

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Nota. Este gênero de comunicação levanta uma questão importante. Como os fluidos de um número muito grande de Espíritos podem se assimilar quase instantaneamente com o fluido do médium, para transmitir-lhe seu pensamento, ao passo que essa assimilação, freqüentemente, é difícil da parte de um só Espírito, e não se estabelece, geralmente, senão com o tempo?

O guia espiritual do médium parece tê-lo previsto, porque dois dias depois deu, espontaneamente a explicação adiante.

"A comunicação que obtivestes no dia de Todos os Santos, assim como a última que dela é o complemento, embora nela haja nomes repetidos, foram obtidas da maneira seguinte: como sou teu Espírito protetor, meu fluido é similar ao teu. Coloquei-me acima de ti, transmitindo-te, o mais exatamente possível, os pensamentos e os nomes dos Espíritos que desejaram se manifestar. Eles formaram ao redor de mim uma assembléia cujos membros ditavam, alternativamente, todos os pensamentos que te transmiti. Isto foi espontâneo, e o que tornou naquele dia as comunicações mais fáceis, foi que os Espíritos presentes tinham saturado o apartamento com os seus fluidos.

"Quando um Espírito se comunica com um médium, ele o faz com tanto mais facilidade quanto as relações fluídicas estejam melhor estabelecidas entre eles, senão o Espírito é obrigado, para comunicar seu fluido ao médium, a estabelecer uma espécie de corrente magnética que chega ao cérebro deste último; e se o Espírito, em razão de sua inferioridade, ou de qualquer outra causa, não pode estabelecer essa corrente ele mesmo, ele recorre à assistência do guia do médium, e as relações se estabelecem como venho de indicá-lo."

SLENER.

Um outra questão é esta: Entre esses Espíritos, não há os que estão encarnados neste mundo ou em outros, e, neste caso, como podem se comunicar? Eis a resposta que disto nos foi dada:

"Os Espíritos de um certo grau de adiantamento têm uma irradiação que lhes permite se comunicar simultaneamente em vários pontos. Em alguns, o estado de encarnação não amortece essa irradiação de maneira bastante completa para os impedir de se manifestarem mesmo no estado de vigília. Quanto mais o Espírito é avançado, mais são fracos os laços que o unem à matéria do corpo; ele está num estado quase constante de desligamento, e pode-se dizer que está lá onde dirige seu pensamento."

UM ESPÍRITO.

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MANGIN, O CHARLATÃO.

Todo o mundo conheceu esse vendedor de lápis que, montado sobre uma viatura ricamente decorada, vestido com um capacete brilhante e uma roupa estranha foi, durante muitos anos, uma das celebridades das ruas de Paris. Não era um charlatão vulgar, e aqueles que o conheceram pessoalmente concordavam em lhe reconhecer uma inteligência pouco comum, uma certa elevação no pensamento, e qualidades morais acima de sua profissão nômade. Ele morreu no ano último, e desde então se comunicou várias vezes espontaneamente a um de nossos médiuns. Segundo o caráter que se lhe reconheceu, não se ficou surpreso do verniz filosófico que se encontra em suas comunicações.

Paris, 20 de dezembro de 1866, grupo do Sr. Desliens, médium, Sr. Bertrand.

O LÁPIS.

 

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O lápis é a palavra do pensamento. Sem o lápis o pensamento fica mudo e incompreendido de vossos sentidos grosseiros. O lápis é a alma ofensiva e defensiva do pensamento; é a mão que fala e se defende.

O lápis!.....e sobre tudo o lápis Mangin!... Oh! perdão... eis que me torno egoísta!... Mas por que não poderia eu, como outrora, fazer o elogio de meus lápis? Não são bons?... Tendes o que deles lamentar? Ah! se estivesse ainda no meu veículo francês com a minha roupa romana... me creríeis... eu sei tão bem passar minha lábia, e o pobre basbaque creria branco o que era negro, muito simplesmente porque

Mangin, o célebre charlatão, o teria dito!.....Eu disse charlatão...Não, aperfeiçoador... Vamos! os fregueses, desatai os cordões de vossa bolsa; comprai destes soberbos lápis mais negros do que a tinta e duros como pedra...Acorrei, acorrei, a venda vai acabar!...Ah! aqui, que é que digo, pois?... Creio, na verdade, que me engano de papel, e que acabei muito mal, depois de ter bem começado...

Todos vós, armados de latas, sentados ao redor desta mesa, ide dizer e provar aos jornalistas orgulhosos que Mangin não está morto. Ide dizer àqueles que esqueceram minha mercadoria, porque não estou mais lá para fazê-los crer em suas admiráveis qualidades, ide dizer a todo esse mundo que eu vivo ainda e que, se estou morto, foi para viver melhor...

Ah! Srs. jornalistas, zombais de mim, e, no entanto, se, em lugar de me considerarem como um charlatão escamoteando a moeda humana, tivésseis me estudado mais atentamente e filosoficamente, teríeis reconhecido um ser tendo reminiscências de seu passado. Teríeis compreendido o porquê de meu gosto por essa roupa de guerreiro romano, o porquê dessas arengas em praça pública. Teríeis dito, então, que, sem dúvida, eu fui soldado ou general romano e não vos teríeis enganado.

Vamos! vamos! comprai, pois, os lápis, usai-os; mas vos sirvais deles utilmente, não como eu para perorar sem motivo, mas para propagar esta bela doutrina que muitos entre vós não seguem senão de muito longe.

Armai-vos, pois, de vossos lápis, e abri um largo caminho nesse mundo de incredulidade. Fazei tocar com o dedo, a todos esses São Tomes incrédulos as sublimes virtudes do Espiritismo que farão que um dia todos os homens sejam irmãos.

MANGIN.

(Grupo do Sr. Delanne; 14 de janeiro de 1867. Médium, Sr. Bertrand).

O PAPEL

Falei de lápis e de charlatanismo, mas não falei ainda do papel. É que, sem dúvida, me reservava isto para esta noite.

Ah! quanto eu gostaria de ser papel; não quando se avilta em fazer o mal, mas, ao contrário, quando cumpre o seu verdadeiro papel que é de fazer o bem! Com efeito, o papel é o instrumento que, de combinação com o lápis, semeia aqui e ali os nobres pensamentos do espírito. O papel é o livro aberto onde todos podem haurir como olhar os conselhos úteis à sua viagem terrestre!...

Ah! quanto eu gostaria de ser papel, a fim de cumprir como ele o papel de moralizador e de instrutor, dando a cada um os encorajamentos necessários para suportar os males que são, muito freqüentemente, causas de tantas vergonhosas fraquezas!...

Ah! se eu fosse papel, aboliria todas as leis egoístas e tirânicas, para não deixar irradiar senão aquelas que proclamam a igualdade. Eu não gostaria de falar senão de amor e de caridade. Eu gostaria que todos fossem humildes e bons, e que o mau se tornasse melhor, que o orgulhoso se tornasse humilde, que o pobre se tornasse rico, que

 

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a igualdade, enfim, brilhasse e estivesse, em todas as bocas, como a expressão da verdade, e não na esperança de esconder o egoísmo e a tirania que possuem o coração.

Se eu fosse papel, gostaria de ser branco para o inocente, verde para aquele que não tem a esperança de um alívio para os seus males. Eu gostaria de ser de ouro, nas mãos do pobre, da felicidade nas mãos do aflito, do bálsamo nas do doente. Eu gostaria de ser o perdão de todas as ofensas. Não condenaria, não maldiria, não lançaria anátema; não criticaria com malevolência; não diria nada que pudesse fazer mal a outrem. Enfim, eu faria o que fazeis: eu não gostaria senão de ensinar o bem e falar desta bela Doutrina que vos reúne todos e sob todas as formas; eu professarei sempre esta sublime máxima: Amai-vos uns e outros.

Aquele que quisesse retornar sobre a Terra, não como charlatão, não para vender somente lápis, mas para a isto juntara venda do papel, e que dissesse a todos: o lápis não pode ser útil sem o papel e o papel não pode prescindir do lápis.

MANGIN.

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A SOLIDARIEDADE.

(Paris, 26 de novembro de 1866, médium Sr. Sabb.....)

Glória a Deus, e paz aos homens de boa vontade! O estudo do Espiritismo não deve ser vão. Para certos homens levianos, ele é um passatempo; para os homens sérios, ele deve ser sério.

Refleti em uma coisa antes de tudo. Não estais sobre a Terra para nela viver à moda dos animais, para nela vegetar à maneira das gramíneas ou das árvores. As gramíneas e as árvores têm a vida orgânica, e não têm a vida inteligente, do mesmo modo que os animais não têm a vida moral. Tudo vive, tudo respira na Natureza, soo homem sente e se sente.

Quanto aqueles são insensatos e a se lamentar, que se menosprezam bastante para se comparara um talo de erva, ou a um elefante! Não confundais nem os gêneros nem as espécies. Não são os grandes filósofos e os grandes naturalistas que vêem, no Espiritismo, por exemplo, uma nova edição da metempsicose, e sobretudo de uma metempsicose absurda. A metempsicose é o sonho de um homem de imaginação, ela não é outra coisa. Um animal, um vegetal produzido são congêneres, nada de mais nem nada de menos. Isto seja dito, para impedir velhas idéias falsas de se acreditarem de novo, à sombra do Espiritismo.

Homem, sede homem; sabei donde vindes e para onde ides. Sois o filho amado daquele que tudo fez e que vos deu um fim, um destino que deveis cumprir sem conhecê-lo absolutamente. Sois necessários aos seus desígnios, à sua glória, à sua própria felicidade? Perguntas ociosas, uma vez que são insolúveis. Vós SOIS, sede-o reconhecendo; mas, ser não é tudo, é preciso ser segundo as leis do Criador, que são vossas próprias leis. Lançai na existência, sois ao mesmo tempo causa e efeito. Nem como causa, nem como efeito, podeis, pelo menos quanto ao presente, determinar o vosso papel, mas as vossas leis podeis segui-las. Ora, a principal é esta: O homem não é um ser isolado, é um ser coletivo. O homem é solidário do homem. É em vão que procura o complemento do seu ser, quer dizer, a felicidade em si mesmo ou naquilo que o cerca isoladamente: ele não pode encontrá-lo senão no HOMEM ou na Humanidade. Não fazeis, pois, nada para ser pessoalmente felizes, enquanto a infelicidade de um membro da Humanidade, de uma parte de vós mesmos, possa vos afligir.

É da moral o que vos ensino lá, mas direis, ora a moral é um velho lugar comum. Olhai ao vosso redor, o que nade mais ordinário, de mais comum, do que o retorno periódico do dia e da noite, do que a necessidade de vos alimentar e de vos vestir? É a isto que tendem todos os vossos cuidados, todos os vossos esforços. É o preciso, a parte

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material de vosso ser o exige. Mas vossa natureza não é dupla, não sois mais espírito do que corpo? Como, pois, se dá que vos seja mais duro de vos ouvir lembrar as leis morais do que de aplicar a todo instante as leis físicas? Se estivésseis menos preocupados e menos distraídos, esta repetição não seria tão necessária.

Não nos afastemos de nosso assunto: O Espiritismo bem compreendido é para a vida da alma o que o trabalho material é para a vida do corpo. Ocupai-vos dele neste objetivo, e tende por certo que, quando o tereis feito, para vos melhorar moralmente, a metade do que fizestes para melhorar a vossa existência material, tereis feito dar um grande passo à Humanidade.

UM ESPÍRITO.

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TUDO VEM A SEU TEMPO.

(Odessa, grupo de família, 1866. Médium, senhorita M...)

Pergunta. - Lendo, na Véritéde 1866, as experiências magnéticas, com elas fiquei maravilhado, e pensei em mim mesmo que essa força, tão espantosa poderia, talvez, ser a causa de todas as maravilhas, de todas as belezas, incompreensíveis para nós, dos planetas superiores, e dos quais os Espíritos nos dão descrições. Peço aos bons Espíritos me esclarecerem a este respeito?

Resposta. - Pobres homens! A avidez de saber, a impaciência devoradora de ler no livro da criação, tudo vos vira a cabeça e ofusca vossos olhos habituados à obscuridade, quando caem sobre algumas passagens que vosso espírito, ainda escravo da matéria, não pode compreender. Mas, tende paciência, os tempos são chegados. Já o grande arquiteto começa a desenrolar, pouco a pouco, diante de vossos olhos, o plano do edifício do Universo, já levanta um canto do véu que vos esconde a verdade, e um raio de luz vos clareia. Contentai-vos com essas primícias; habituai vossos olhos à doce claridade da aurora, até que possam suportar o esplendor do sol brilhando em todo o seu brilho.

Agradecei ao Todo-Poderoso, cuja bondade infinita prepara vossa fraca visão, levantando gradualmente o véu que a cobre. Se o levantasse de repente, serieis ofuscados e nada veríeis; cairíeis na dúvida, na confusão, na ignorância da qual apenas sais. Já vos foi dito que tudo vem a seu tempo: não o antecedeis por vossa muito grande avidez de tudo saber. Deixai ao Mestre a escolha do método que ele julga mais conveniente para vos instruir. Tendes diante de vós uma sublime obra: "a Natureza, sua essência, suas forças"; ela começa pelo ABC. Aprendei, primeiro a soletrar, a compreender essas primeiras páginas; progredi com paciência e perseverança, e chegareis até o fim, ao passo que saltando páginas e capítulos, o conjunto vos parece incompreensível. Aliás, não está nos desígnios do Todo-Poderoso que o homem saiba tudo. Conformai-vos, pois, à sua vontade, que tem por objetivo o vosso bem.

Lede no grande livro da Natureza; instruí-vos, esclarecei o vosso espírito, contentai-vos em saber o que Deus julga a propósito de vos ensinar durante a vossa permanência na Terra; não tereis o tempo de chegar até a última página, e não a lereis senão quando estiverdes desligados da matéria, quando vossos sentidos espiritualizados vos permitirem compreendê-la.

Sim, meus amigos, aprendei e instruí-vos, e, antes de tudo, progredi em moralidade pelo amor do próximo, pela caridade, pela fé: é o essencial, é o passaporte à visão do qual as portas do santuário infinito vos serão abertas.

HUMBOLDT.

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O RESPEITO DEVI DO ÀS CRENÇAS PASSADAS.

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(Paris, grupo Delanne, 4 de fevereiro de 1867. Médium, Sr. Morin.)

A fé cega é o pior de todos os princípios! Crer com fervor num dogma qualquer, quando a sã razão se recusa a aceitá-lo como uma verdade, é fazer ato de nulidade e de se privar, voluntariamente, do mais belo de todos os dons que nos tenha feito o Criador; é renunciar à liberdade de julgar, ao livre arbítrio que deve presidir a todas as coisas na medida da justiça e da razão.

Geralmente, os homens são negligentes e não crêem numa religião senão por desencargo de consciência, e para não rejeitar inteiramente essas boas e doces preces que embalaram a sua juventude, e que a sua mãe lhes ensinava junto da lareira, quando a noite trazia com ela a hora do sono; mas essa lembrança se apresenta algumas vezes ao seu espírito, freqüentemente, é com um sentimento de lamento que fazem um retorno para esse passado, onde os cuidados da idade madura estavam ainda escondidos na noite do futuro.

Sim, todo homem lamenta essa idade de negligência, e muito poucos podem sonhar com seus jovens anos!. ..Mas que dele resta um instante depois?... - Nada!...

Comecei a dizer que a f é cega é perniciosa; mas não seria preciso sempre rejeitar, como essencialmente mau, tudo o que parece manchado de abuso, composto de erros e sobretudo inventado, sem razão para a glória dos orgulhosos e o benefício dos interesses.

Espíritas, deveis saber melhor do que ninguém que nada se cumpre sem a vontade do Senhor supremo; cabe, pois, a vós bem refletir antes de formular o vosso julgamento. Os homens são vossos irmãos encarnados, e é possível que no número dos trabalhos dos tempos antigos estejam vossos obras realizadas numa existência anterior. Os Espíritas devem, antes de tudo, ser lógicos com o seu ensino, e não lançar a pedra às instituições e às crenças de uma outra época, unicamente porque são de uma outra época. A sociedade atual teve necessidade, para se tornar o que é, que Deus lhe distribuísse pouco a pouco a luz e o saber.

Não vos cabe, pois, julgar se os meios empregados por ele foram bons ou maus. Não aceiteis senão o que vos parece racional e lógico; mas não esqueçais que as velhas coisas tiveram a sua juventude, e que o que ensinais hoje se tornará velho a seu turno. Respeitai, pois, a velhice! Os velhos são vossos pais, como as velhas coisas foram as precursoras das coisas novas. Nada envelhece, e se faltais a este princípio para tudo o que é venerável, faltareis com o vosso dever, mentis à doutrina que professais.

As velhas crenças elaboraram a renovação que começa a se realizar!...Todas, enquanto não eram exclusivamente materiais, possuíam uma centelha da verdade. Lamentai os abusos que se introduziram no ensino filosófico, mas perdoai os erros de uma outra época, se quereis a vosso turno ser escusados nos vossos, ulteriormente. Não deis vossa fé ao que vos pareça mau, mas não creiais, não mais, que tudo o que vos é ensinado hoje seja a expressão da verdade absoluta. Crede que, em cada época, Deus alarga o horizonte dos conhecimentos em razão do desenvolvimento intelectual da Humanidade.

LACORDAIRE.

 

A COMÉDIA HUMANA.

(Paris, grupo Desliens, 29 de novembro de 1866. Médium, Sr. Desliens).

A vida do Espírito encarnado é como um romance, ou antes como uma peça de teatro, da qual cada dia percorre-se uma folha contendo uma cena. O autor é o homem; os personagens são as paixões, os vícios e as virtudes, a matéria e a inteligência,

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disputando a posse do herói que é o Espírito. O público é o mundo em geral durante a encarnação, os Espíritos na erraticidade, e o censor que examina a peça para julgá-la em última instância e estipular uma censura ou um louvor ao autor é Deus.

Fazei, pois, de sorte de vos fazer aplaudir o mais freqüentemente possível e de não ouvirdes, senão raramente, o barulho do apito ressoar desagradavelmente em vosso ouvido. Que a intriga seja sempre simples, e não procureis o interesse senão nas situações naturais que possam servir para fazer triunfar a virtude, desenvolver a inteligência e moralizar o público.

Durante a execução da obra, a intriga posta em movimento pela inveja, pode tentar criticar as melhores passagens, e não incensar senão aqueles que são medíocres ou maus. Fechai o ouvido a essas adulações, e lembrai-vos que a posteridade vos apreciará o vosso justo valor! Deixareis um nome obscuro ou ilustre, mancha do de vergonha ou coberto de glória, segundo o mundo; mas quando a peça acabar e a cortina, atirada sobre a última cena, vos colocar em presença do gerente universal, do diretor infinitamente poderoso do teatro onde se passa a comédia humana, e ali não haverá nem aduladores, nem cortesãos, nem invejosos, nem ciumentos: estareis a sós com o juiz supremo, imparcial, eqüitativo, justo.

Que a vossa obra seja séria e moralizadora, porque é a única que tem algum peso na balança do Todo-Poderoso.

É preciso que cada um restitua à sociedade pelo menos o que dela recebe. Aquele que dela tendo recebido a assistência corpórea e espiritual que lhe permite viver, dela se vá sem restituir ao menos o que lhe dispensou, é um ladrão, porque esbanjou uma parte do capital inteligente e nada produziu.

Todo o mundo não pode ser homem de gênio, mas todos podem e devem ser honestos, bons cidadãos, e restituir à sociedade o que a sociedade lhes emprestou.

Para que o mundo esteja em progresso, é preciso que cada um deixe uma lembrança útil de sua personalidade, uma cena a mais nesse número infinito de cenas úteis que os membros da Humanidade deixaram desde que a vossa Terra serve de lugar de habitação aos Espíritos.

Fazei, pois, que se leia com interesse cada uma das folhas de vosso romance, e que não se a percorra unicamente de olhar, para fechá-la com tédio, antes de dela ter lido a metade.

EUGÈNE SUE.

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NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUMEN

Relato de outra Terra

Por Camille Flammarion, professor de astronomia, ligado ao observatório de Paris.

Este não é um livro, mas um artigo que poderia fazer um livro interessante e sobretudo instrutivo, porque seus dados são fornecidos pela ciência positiva, e tratados com a clareza e a elegância que o jovem sábio traz em todos os seus escritos. O Sr. Camille Flammarion é conhecido de todos os nossos leitores por sua excelente obra sobre a Pluralidade dos mundos habitados, e pelos artigos científicos que publica no Siècle. o o Aquele do qual vamos dar conta foi publicado na Revue du XÍX século, de 1 de

fevereiro de 1867 (1-(1) Cada número forma um volume de 160 páginas grandes in-8. Preço 2 fr. Paris, livraria internacional, 15, bulevard Montmartre, e 18, avenida Montaigne, palais Pompéien.).

 

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O autor supõe uma conversa entre um indivíduo vivo chamado Sitiens, e o Espírito de um de seus amigos chamado Lumen, que lhe descreve seus últimos pensamentos terrestres, as primeiras sensações da vida espiritual, e as que acompanham o fenômeno da separação. Esse quadro é de uma conformidade perfeita com o que os Espíritos nos ensinaram a esse respeito; é o Espiritismo mais exato, menos a palavra que não é pronunciada. Será julgado pelas citações seguintes:

"A primeira sensação de identidade que se sente depois da morte parece aquela que se sente ao despertar durante a vida, quando, retornando pouco a pouco à consciência da manhã, se está ainda atravessado pelas visões da noite. Solicitado pelo futuro e pelo passado, o Espírito procura, ao mesmo tempo, retomar plena posse de si mesmo e agarraras impressões fugidias do sonho desvanecido, que passam ainda nele com o seu cortejo de quadros e de acontecimentos. Por vezes, absorvido por essa retrospecção de um sonho cativante, sente sob a pálpebra que se fecha, as urdiduras da visão se renovarem, e o espetáculo continuar; ao mesmo tempo, ele cai no sonho e numa espécie de sonolência. Assim balança a nossa faculdade pensante ao sair desta vida, entra uma realidade que ela ainda não compreende, e um sonho que não está completamente desaparecido."

Nota. Nesta situação do Espírito, não há nada de espantoso em que alguns não creiam estar mortos.

"A morte não existe. O fato que designais sob este nome, a separação do corpo e da alma, não se efetua, verdadeiramente dizendo, sob uma forma material comparável às separações químicas dos elementos dissociados que se observam no mundo físico. Não se percebe mais dessa separação definitiva, que nos parece tão cruel do que a criança recém-nascida não se percebe de seu nascimento; somos nascidos na vida futura como o fomos na vida terrestre. Unicamente, não estando mais envolvida das faixas corpóreas que a revestem neste mundo, adquire mais prontamente a noção de seu estado e de sua personalidade. Esta faculdade de percepção varia. no entanto, de uma alma a outra. Há as que, durante a vida do corpo, não se elevaram jamais para o céu e jamais se sentiram ansiosas em penetrar as leis da criação. Aquelas, ainda dominadas pelos apetites corpóreos, permanecem por muito tempo no estado de perturbação inconsciente. Há outras delas, felizmente, que, desde esta vida, voam sobre suas aspirações aladas para os cimos do belo eterno; aquelas vêem chegar com calma e serenidade o instante da separação; elas sabem que o progresso é a lei da existência e que entrarão, no além, numa vida superior àquela sua daqui; seguem passo a passo a letargia que prepara o seu coração, que quando o último batimento, lento e insensível, o detém em seu curso, elas já estão acima de seu corpo, do qual observaram o adormecimento, e, livrando-se dos laços magnéticos, elas se sentem rapidamente levadas, por uma força desconhecida, para o ponto da criação onde suas aspirações, seus sentimentos, suas esperanças, as atraem.

"Os anos, os dias e as horas são constituídos pelos movimentos da Terra. Fora destes movimentos o tempo terrestre não existe mais no espaço; é, pois, absolutamente impossível ter noção desse tempo."

Nota. - Isto é rigorosamente verdadeiro; também quando os Espíritos querem nos especificar uma duração inteligível para nós, são obrigados a se identificarem de novo com os hábitos terrestres, de se refazerem homens, por assim dizer, a fim de se servir dos mesmos pontos de comparação. Logo depois de sua libertação, o Espírito de Lumen é transportado com a rapidez do pensamento para o grupo de mundos compondo o sistema de estrelas designado em astronomia sob o nome de Capellaou a Chèvre. A teoria que dá da visão da alma é notável.

"A visão de minha alma era de um poder incomparavelmente superior àquela dos olhos do organismo terrestre que eu vinha de deixar; e, observação surpreendente, seu poder me parecia submetido à vontade. Que me baste vos fazer pressentir que, em lugar de ver simplesmente as estrelas no céu, como as vedes na Terra, eu distinguia

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claramente os mundos que gravitam em torno; quando desejava não mais vera estrela, a fim de não estar mais torturado pelo exame desses mundos, ela desaparecia de minha visão, e me deixava em excelentes condições para observar um desses mundos. Além disto, quando minha visão se concentrava sobre um mundo particular, chegava a distinguires detalhes de sua superfície, os continentes e os mares, as nuvens e os rios. Por uma intensidade particular de concentração na visão da minha alma, chegava a ver o objeto sobre o qual ela se concentrava, como, por exemplo, uma cidade, um campo, os edifícios, as ruas, as casas, as árvores, as veredas; reconhecia mesmo os habitantes e seguia as pessoas nas ruas e nas habitações. Bastava-me para isto limitar meu pensamento ao quarteirão, à casa, ou ao indivíduo que eu queria observar. No mundo a margem do qual acabava de chegar, os seres, não encarnados num envoltório grosseiro como o deste mundo, mas, livres e dotados de faculdades de percepções elevada a um eminente grau de poder, podem perceber distintamente os detalhes que, nessa distância, estariam absolutamente ocultos às organizações terrestres.

SITIENS. É que se servem para isso de instrumentos superiores aos nossos telescópios?

LUMEN. Se, por ser menos rebelde à admissão desta maravilhosa faculdade, vos é mais fácil concebê-los munidos de instrumentos, vós o podeis por teoria. Mas devo vos advertir que essas espécies de instrumentos não são exteriores a esses seres, e que pertencem ao próprio organismo da visão. É bem entendido que essa construção ótica e esse poder de visão são naturais nesses mundos, e não sobrenaturais. Pensai um pouco nos insetos que gozam da propriedade de encurtar ou de alongar seus olhos, como os tubos de uma luneta, de inchar ou achatar seu cristalino para dele fazer uma lupa de diferentes graus, ou ainda de concentrar ao mesmo foco uma multidão de olhos apontados como tantos microscópios para agarrar o infinitamente pequeno, e podereis mais legitimamente admitir a faculdade desses seres ultra terrestres."

O mundo em que se encontra Lumen está a uma distância tal da Terra que a luz não chega de um ao outro senão ao cabo de setenta e dois anos. Ora, nascido em 1793 e morto em 1864, na sua chagada em Capela, donde leva a sua visão sobre Paris, Lumen não reconhece mais a Paris que vem de deixar. Os raios luminosos partidos da Terra, não chegando a Capela senão depois de setenta e dois anos, lhe chegava a imagem do que ali se passou em 1793.

Ali está a parte realmente científica do relato; todas as dificuldades nele são resolvidas da maneira mais lógica. Os dados, admitidos em teoria pela ciência, ali são demonstrados pela experiência; mas esta experiência não podendo ser feita diretamente pelos homens, o autor supõe um Espírito que dá conta dessas sensações, e colocado em condições de poder estabelecer uma comparação entre a Terra e o mundo que habita.

A idéia é engenhosa e nova. É a primeira vez que o Espiritismo verdadeiro e sério, embora sob o anonimato, é associado à ciência positiva, e isto por um homem capaz de apreciar um e o outro, e de compreender o traço de união que deverá religá-los um dia. Esse trabalho, ao qual reconhecemos, sem restrição uma importância capital, nos parece ser um daqueles que os Espíritos nos anunciaram como devendo marcar o presente ano. Analisaremos esta segunda parte num próximo artigo.

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NOVA TEORIA MÉDICO-ESPÍRITA

pelo doutor BRIZIO, de Turin.

Não conhecemos esta obra senão pelos prospectos em língua italiana que nos foram endereçados, mas não podemos senão nos alegrar em ver a deligência das nações

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estrangeiras em seguir o movimento espírita, e felicitares homens de talento que entram no caminho das aplicações do Espiritismo à ciência. A obra do doutor Brizio será publicada em 20 ou 30 entregas a 20 c. cada uma, e sua impressão será começada desde que tiver 300 subscritores. Subscreve-se em Turin, na livraria Degiorgis, via Nuova.

O LIVRO DOS MÉDIUNS, tradução em espanhol sobre a 9a edição francesa: Madrid, - Barcelona, - Marseille, - Paris, no escritório da Revista Espírita.

ALLAN KARDEC

 

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