Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Allan Kardec · Capítulo 2 de 13

Páginas do PDF

Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Janeiro

REVISTA ESPIRITA

 

JORNAL

 

DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

10o ANO NO. 1 JANEIRO 1867

 

AOS NOSSOS CORRESPONDENTES

A época da renovação das assinaturas, a 1 O de janeiro, é, como todos os anos, para a maioria de nossos correspondentes da França e do estrangeiro, a ocasião de nos dar novos testemunhos de simpatia dos quais somos profundamente tocados.

Na impossibilidade material em que nos encontramos de responder a todos, roga-mos-lhes consentirem em receber aqui a expressão de nossos agradecimentos sinceros e da reciprocidade de nossos votos, rogando-lhes estarem persuadidos de que não nos es-quecemos, em nossas preces, de nenhum deles, encarnados ou desencarnados, que se nos recomendam.

Os testemunhos que se consentem nos dar são, para nós, poderosos encorajamen-tos e muito doces compensações que nos fazem esquecer facilmente as dificuldades e as fadigas do caminho. E como não as esqueceríamos, quando vemos a Doutrina crescer sem cessar, superar todos os obstáculos, e que cada dia nos traz novas provas do bene-fício que distribui! Agradecemos a Deus do insigne favor que nos concede de ser teste-munha de seus primeiros sucessos, e de entrever o seu futuro. Nós lhe rogamos nos dar as forças físicas e morais necessárias para cumprir o que nos resta fazer antes de retor-nar ao mundo dos Espíritos.

Àqueles que querem fazer muitos votos para o prolongamento de nossa estada nes-te mundo, no interesse do Espiritismo, diremos que ninguém é indispensável para a exe-cução dos desígnios de Deus; o que fizemos, outros teriam podido fazê-lo, e o que não podemos fazer, outros o farão; quando, pois, lhe aprouver nos chamar, ele saberá prover a continuação de sua obra. Aquele que está chamado a tomar-lhe as rédeas cresce na sombra e se revelará, quando disto for tempo, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos que o assinalarão à atenção de todos.

Nesta hora ele próprio se ignora, e é útil, para o momento, que se mantenha ainda à parte.

Cristo disse: "Quem se eleva será rebaixado." É, pois, entre os humildes de coração que ele será escolhido, e não entre aqueles que quererão se elevar de sua própria autori-dade e contra a vontade de Deus; aqueles disso não recolherão senão vergonha e humi-lhação, porque os orgulhosos e os presunçosos serão confundidos. Que cada um leve a sua pedra ao edifício e se contente com o papel de simples obreiro; Deus, que lê no fundo dos corações, saberá dar a cada um o justo salário do seu trabalho.

A todos os nossos irmãos em crença diremos: "Coragem e perseverança, porque o momento das grandes provas se aproxima. Fortalecei-vos nos princípios da Doutrina, e penetrai-os cada vez mais; alargai as vossas vistas; elevai-vos pelo pensamento acima do círculo limitado do presente, de maneira a abarcar o horizonte do infinito; considerai o fu-turo, e então a vida presente, com seu cortejo de misérias e de decepções, vos aparecerá como um ponto imperceptível, como um minuto doloroso que logo não deixa mais traços

 

2

na lembrança; as preocupações materiais parecem mesquinhas e pueris junto aos es-plendores da imensidão.

Felizes aqueles que tirarem, na sinceridade de sua fé, a força da qual terão necessi-dade: aqueles bendirão a Deus de lhes ter dado a luz; reconhecerão a sua sabedoria em seus objetivos insondáveis e nos meios, quaisquer que sejam, que emprega para o seu cumprimento. Caminharão através dos escolhos com a serenidade, a firmeza e a confian-ça que dá da certeza de atingir o porto, sem se deter nas pedras que ferem os pés.

É nas grandes provas que se revelam as grandes almas; é então também que se re-velam os corações verdadeiramente espíritas, pela coragem, pela resignação, pelo devo-tamento, pela abnegação, e pela caridade sob todas suas formas, dos quais dão o exem-plo. (Ver artigo do mês de outubro de 1866: Os tempos são chegados.)

____________________

GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO

SOBRE O MOVIMENTO DO ESPIRITISMO.

Não é duvidoso para ninguém, muito mais para os adversários do que para os parti-dários do Espiritismo, que esta questão agita, mais do que nunca, os espíritos. Esse mo-vimento é, como alguns afetam dize-lo, um fogo de palha? Mas esse fogo de palha dura há quinze anos, em lugar de se extinguir, a sua intensidade não faz senão crescer ano a ano; ora, não está aí o caráter das coisas efêmeras e que não se dirigem senão à curiosi-dade. O último levante geral sob o qual esperava-se abafá-lo, não fez senão reavivá-lo superexcitando a atenção dos indiferentes. A tenacidade desta idéia nada tem que possa surpreender quem sondou a profundeza e a multiplicidade das raízes pelas quais ela se liga aos mais sérios interesses da Humanidade. Aqueles que se espantam com isto dele não viram senão a superfície; a maioria mesmo não o conhece senão pelo nome, mas não lhe compreende nem o objetivo, nem a importância.

Se uns combatem o Espiritismo por ignorância, outros o fazem precisamente porque lhe sentem toda a importância, que nele pressentem o futuro e nele vêem um poderoso elemento regenerador. É preciso muito se persuadir de que certos adversários se conver-teram. Se eram menos convencidos das verdades que ele encerra, não lhe farão tanta oposição. Sentem que a garantia de seu futuro está no bem que ele faz; fazer ressaltar esse bem aos seus olhos, longe de acalmá-los, é acrescentar à causa de sua irritação. Tal foi, no século XV, a numerosa classe dos escreventes copistas que teriam de boa vontade feito queimar Gutenberg e todos os impressores; assim não teria sido em lhes demonstrando os benefícios da imprensa, que ia suplantá-los, que os teria apaziguado.

Quando uma coisa está na verdade e que o tempo de sua eclosão chegou, apesar de tudo ela caminha sozinha. A poderosa ação do Espiritismo está atestada pela sua ex-pansão persistente, apesar do pouco esforço que fez para se difundir. É um fato consta-tado, que os adversários do Espiritismo dispensaram mil vezes mais força para abatê-lo, sem a isto chegar, do que seus partidários não o empregaram para propagá-lo. Ele avan-ça por assim dizer sozinho, semelhante a um curso de água que se infiltra nas terras, e abre uma passagem à direita se se o detém à esquerda, e pouco a pouco mina as pedras mais duras e acaba por fazer desmoronar as montanhas.

Um fato notório é que, em seu conjunto, a marcha do Espiritismo não sofreu nenhum tempo de parada; ela pôde ser entravada, comprimida, abrandada em algumas localida-des pelas influências contrárias; mas, como o dissemos, a corrente, barrada em um pon-to, se divide em uma multiplicidade de filetes. No entanto, à primeira vista dir-se-ia que a sua marcha é menos rápida do que o foi nos primeiros anos; disto é preciso inferir que se a desampara, que encontra menos simpatias? Não, mas simplesmente que o trabalho que se realiza, neste momento, é diferente, e, por sua natureza, menos ostensivo.

 

3

Desde o início, como já dissemos, o Espiritismo reuniu nele todos os homens nos quais estas idéias, de alguma sorte, estavam em estado de intuição; ele bastou se apre-sentar para ser compreendido e aceito. Imediatamente, ele recolheu abundantemente por toda a parte onde encontrou o terreno preparado. Feita esta primeira colheita, restavam os terrenos incultos que necessitaram de mais trabalho. Agora, é através das opiniões refratárias que ele deverá mostrar-se, e é o período em que nos encontramos. Semelhan-te ao mineiro que ergue sem dificuldade as primeiras camadas de terra móvel, ele chegou à rocha que é preciso cortar, e no seio da qual não pode penetrar senão pouco a pouco. Mas não há rocha, tão dura que seja, que resista indefinidamente a uma ação dissolvente contínua. Sua marcha é, pois, ostensivamente menos rápida, mas se, num tempo dado, não reúne também grande número dos adeptos francamente devotados, não abala menos as convicções contrárias, que caem, não de repente, mas pedaço a pedaço, até que a passagem seja feita. É o trabalho ao qual assistimos, e que marca a fase atual da Doutri-na.

Esta fase é caracterizada por sinais inequívocos. Examinando-se a situação, torna-se evidente que a idéia ganha a cada dia terreno, que ela se aclimata; encontra menos oposição; dela se ri menos, e aqueles mesmos que não a aceitam ainda, começam a lhe conceder o direito de burguesia entre as opiniões. Os Espíritas não são mais mostrados ao dedo como outrora e considerados como animais curiosos; é o que, sobretudo, aque-les que viajam estão em condições de constatar. Por toda a parte encontram mais simpa-tia, ou menos antipatia pela coisa. Não se pode negar que não esteja aí um progresso real.

Para compreender as facilidades e as dificuldades que o Espiritismo encontra em seu caminho, é preciso se representar a diversidade das opiniões através das quais ele deve abrir uma passagem. Não se impondo jamais nem pela força nem pelo constrangi-mento, mas unicamente pela convicção, encontrou uma resistência mais ou menos gran-de, segundo a natureza das convicções existentes, com as quais podia mais ou menos facilmente assimilar, das quais umas o receberam de braços abertos, ao passo que outras o repeliram com obstinação.

Duas grandes correntes de idéias dividem a sociedade atual: o Espiritualismo e o materialismo; embora este último forme uma incontestável minoria, não se pode se dissi-mular que haja tomado uma grande extensão há alguns anos. Um e o outro se fracionam em uma multidão de nuanças que podem se resumir nas principais categorias seguintes:

1- Os fanáticos de todos os cultos, - 0.

2- Os crentes satisfeitos, tendo convicções absolutas, fortemente atrasadas e sem restrição, embora sem fanatismo, sobre todos os pontos do culto que professam e que com eles estão satisfeitos. Esta categoria compreende também as seitas que, por isto mesmo que elas fizeram cisão e operaram reforma, se crêem na posse de toda a verda-de, e são, às vezes, mais absolutas que as religiões mães. - 0.

3- Os crentes ambiciosos, inimigos das idéias emancipadoras que poderiam lhes fa-zer perder o ascendente que exercem sobre a ignorância. - 0.

4-Os crentes pela forma, que, por interesse, simulam uma f é que não têm, e quase sempre se mostram mais rígidos e mais intolerantes do que os religiosos sinceros. - 0.

5- Os materialistas por sistema, que se apoiam sobre uma teoria raciocinada e da qual muito se obstinam contra a evidência, por orgulho, para não confessar que puderam se enganar; eles são, na maioria, tão absolutos e tão intolerantes em sua incredulidade quanto os fanáticos religiosos o são em sua crença. - 0.

6- Os sensualistas, que repelem as doutrinas espiritualistas e espíritas com medo que venham lhes perturbar em seus gozos materiais. Fecham os olhos para não ver. - 0.

7- Os negligentes, que vivem o dia-a-dia sem se preocupar com o futuro. A maioria não saberia dizer se são espiritualistas ou materialistas; o presente é para eles a única coisa séria. - 0.

4

8- Os panteístas, que não admitem uma divindade pessoal, mas um princípio espiri-tual universal no qual se confundem as almas, como as gotas de água no oceano, sem conservar a sua individualidade. Esta opinião é um primeiro passo para a espiritualidade, e, conseqüentemente, um progresso sobre o materialismo. Embora um pouco menos re-fratários às idéias espíritas, aqueles que a professam são em geral muito absolutos, por-que é, neles, um sistema preconcebido e racional, e que muitos não se dizem panteístas senão para não se confessarem materialistas. É uma concessão que fazem às idéias es-piritualistas para salvar as aparências. - 1.

9-Os deístas, que admitem a personalidade de um Deus único, criador e soberano senhor de todas as coisas, eterno e infinito em todas as suas perfeições, mas rejeitam todo culto exterior. - 3.

10-Os espiritualistas sem sistema, que não pertencem, por convicção, a nenhum culto, sem repelir nenhum deles, mas que não têm nenhuma idéia decretada sobre o futu-ro. - 5

11- Os crentes progressistas, ligados a um culto determinado, mas que admitem o progresso na religião, e o acordo das crenças com o progresso das ciências. - 5.

12- Os crentes não satisfeitos, em que a fé é indecisa ou nula sobre os pontos de dogmas que não satisfazem completamente a sua razão, e que a dúvida atormenta. - 8.

13- Os incrédulos por falta de melhor, cuja maioria passou da fé à incredulidade e à negação de tudo, por falta de ter encontrado nas crenças, nas quais foram embalados, uma sanção satisfatória para a sua razão, mas nos quais a incredulidade deixa um vazio que ficariam felizes em ver preenchido. - 9.

14- Os livres pensadores, nova denominação pela qual se designam aqueles que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se crêem ligados pelo culto onde o nascimento os coloca sem seu consentimento, nem obrigados à observação de quaisquer práticas religiosas. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; ela pode se aplicar a todas as nuanças do espiritualismo racional, tão bem quanto à incredulidade mais absoluta. Toda crença eclética pertence ao livre pensamento; todo homem que não se guia na fé cega é, por isto mesmo, livre pen-sador; a esse título, os Espíritas são também livres pensadores. Mas para aqueles que se podem chamar os radicais do livre pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, por assim dizer, exclusiva; para eles, ser livre pensador não é somente crer na-quilo que se vê, é não crer em nada; é libertar-se de todo o freio, mesmo do temor de Deus e do futuro; a espiritualidade é uma tortura, e não a querem. Sob o símbolo da e-mancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsiva para a opinião das massas; e, coisa singular, é que em nome deste sím-bolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, atiram a pedra a quem não pense como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre aqueles que se dizem livres pensadores, como entre aqueles que se dizem filósofos. Eles se dividem natural-mente em:

Livres pensadores incrédulos, que entram na 5a categoria. - 0. Livres pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional. - 9.

15- Os Espíritas de intuição, aqueles em que as idéias espíritas são inatas, e que as aceitam como uma coisa que não lhes é estranha. -10.

Tais são as camadas de terreno que o Espiritismo deve atravessar.

Lançando um golpe de vista sobre as diferentes categorias acima, é fácil de ver as que junto às quais ele encontra um acesso mais ou menos fácil, e as que contra às quais se choca a picareta contra o granito. Ele não triunfará destas senão com ajuda dos novos elementos que a renovação trará à Humanidade: esta é a obra Daquele que dirige tudo e que faz surgir os acontecimentos de onde deve sair o progresso.

As cifras colocadas em seguida de cada categoria indicam aproximadamente a pro-porção do número de adeptos, sobre 10, que cada uma forneça ao Espiritismo.

5

Admitindo-se, em média, a igualdade numérica entre essas diferentes categorias, vê-se que a parte refratária, pela sua natureza, abarca quase a metade da população. Como ela possui a audácia e a força material, não se limita a uma resistência passiva: é essencialmente agressiva; daí uma luta inevitável e necessária. Mas este estado de coi-sas não pode ter senão um tempo, porque o passado se vai e o futuro chega; ora, o Espi-ritismo caminha com o futuro.

É, pois, na outra metade que o Espiritismo deve recrutar, e o campo a explorar é muito vasto; é ali que deve concentrar seus esforços e que verá seus limites recuarem. No entanto, essa metade longe de lhe ser inteiramente simpática, ali encontra resistências renitentes, mas não insuperáveis, como na primeira, e cuja maioria prende-se a preven-ções que se apagam à medida que o objetivo e as tendências da Doutrina são melhor compreendidas, e que desaparecerão com o tempo. Podendo-se admirar de uma coisa, é que, apesar da multiplicidade dos obstáculos que encontra, das armadilhas que se lhe estende, tenha podido chegar, em alguns anos, ao ponto onde está hoje.

Um outro progresso, não menos evidente, é o da atitude da oposição. À parte as in-vectivas lançadas, de tempo em tempo, por uma plêiade de escritores, quase sempre os mesmos, que não vêem por toda a parte senão a matéria para rir, que ririam mesmo de Deus, e cujos argumentos se limitam a dizer que a Humanidade torna-se demente, muito surpreende que o Espiritismo haja caminhado sem sua permissão, e é muito raro ver a Doutrina implicar com uma polêmica séria e firme. Em lugar disto, como já fizemos notar em um precedente artigo, as idéias espíritas invadem a imprensa, a literatura, a filosofia; não se as apropria sem confessá-las: é porque vê-se, a cada instante, surgirem nos jor-nais, nos livros, nos sermões, no teatro, pensamentos que se diria hauridos na própria fonte do Espiritismo. Seus autores, sem dúvida, protestariam contra a qualificação de Es-píritas, mas com isto não sofreriam menos a influência das idéias que circulam e que pa-recem justas. É que os princípios sobre os quais repousa a Doutrina são de tal modo ra-cionais, que fermentam numa multidão de cérebros e brilham com o seu desconhecimen-to; eles tocam a tantas questões, que é, por assim dizer, impossível entrar no caminho da espiritualidade sem fazer involuntariamente o Espiritismo. Foi um dos fatos mais caracte-rísticos que marcaram o ano que acaba de se escoar.

É preciso concluir disto que a luta está terminada? Seguramente não, e devemos, ao contrário, mais do que nunca nos manter em guarda, porque teremos assaltos de um ou-tro gênero a sustentar; mas, em esperando, as fileiras se reforçam, e os passos dados para a frente são tanto mais ganhos. Guardemo-nos de crer que certos adversários se dêem por batidos, e de tomar seu silêncio por uma adesão tácita, ou mesmo pela da neu-tralidade. Persuadamo-nos bem que certas pessoas não aceitarão jamais, nem aberta-mente nem tacitamente, o Espiritismo enquanto viverem, como há os que não aceitarão jamais certos regimes políticos; todos os raciocínios para a ele conduzi-los são impoten-tes, porque não o querem a nenhum preço; sua aversão pela Doutrina cresce em razão dos desenvolvimentos que ela toma.

Os ataques a céu aberto tornaram-se mais raros, porque se lhes reconheceu a inuti-lidade; mas não se desespera em vencer com a ajuda de manobras tenebrosas. Longe de dormir numa enganosa segurança, é preciso mais do que nunca desconfiar dos falsos irmãos que se insinuam em todas as reuniões para espiar, e em seguida travestir o que se disse e se fez; que semeiam por mão oculta os elementos de desunião; que, sob a a-parência de um zelo factício e algumas vezes interessado, procuram levar o Espiritismo para fora dos caminhos da prudência, da moderação e da legalidade; que provocam em seu nome atos repreensíveis aos olhos da lei. Não tendo conseguido torná-lo ridículo, porque, por sua essência, é uma coisa séria, seus esforços tendem a comprometê-lo para torná-lo suspeito à autoridade, e provocar contra ele e seus adeptos as medidas de rigor. Desconfiemos, pois, dos beijo de Judas e daqueles que querem nos abraçar para nos sufocar.

6

É preciso se figurar que estamos em guerra e que os inimigos estão à nossa porta, prestes a agarrar a ocasião favorável, e que manejam as inteligências no lugar.

Nesta ocorrência, o que há a fazer? Uma coisa muito simples: se conter estritamente no limite dos preceitos da Doutrina; se esforçar por mostrar o que ela é por seu próprio exemplo, e declinar toda solidariedade com o que poderia ser feito em seu nome e seria de natureza a desacreditá-la, porque isto não saberia ser o fato de adeptos sérios e con-victos. Não basta se dizer Espírita; aquele que o é de coração o prova por seus atos. A Doutrina não pregando senão o bem, o respeito às leis, a caridade, a tolerância e a bene-volência para todos, repudiando toda violência feita à consciência alheia, todo charlata-nismo, todo pensamento interessado no que concerne às realizações com os Espíritos, e todas as coisas contrárias à moral evangélica, aquele que não se afasta da linha traçada não pode incorrer nem em censura fundada, nem em perseguições legais; bem mais, quem toma a Doutrina por regra de conduta, não pode senão se conciliar à estima e à consideração das pessoas imparciais; diante do bem a própria incredulidade zombeteira se inclina, e a calúnia não pode sujar o que é sem mancha. É nestas condições que o Es-piritismo atravessará as tempestades que se acumularem em seu caminho, e que sairá triunfante de todas as lutas.

O Espiritismo não pode mais ser responsável pelos erros daqueles a quem agrada se dizer espíritas, e a religião não o é dos atos repreensíveis daqueles que não têm senão a aparência da piedade. Antes, pois, de fazer recair a censura de tais atos sobre uma doutrina qualquer, é preciso saber se ela contém alguma máxima, algum ensino, que pos-sa autorizá-los ou mesmo desculpá-los. Se, ao contrário, ela os condena formalmente, é evidente que a falta é toda pessoal e não pode ser imputada à doutrina. Mas é uma dis-tinção que os adversários do Espiritismo não se dão ao trabalho de fazer; são muito feli-zes, ao contrário, de encontrar uma ocasião de desacreditá-lo certo ou errado, sem se fazerem escrúpulo de lhe atribuírem o que não lhe pertence, envenenando as coisas mais insignificantes antes que procurar-lhes as causas atenuantes.

Há algum tempo as reuniões espíritas sofreram uma certa transformação. As reuni-ões íntimas e de família estão consideravelmente multiplicadas em Paris e nas principais cidades, em razão da própria facilidade que encontraram para se formarem pelo cresci-mento do número dos médiuns e dos adeptos. No princípio, os médiuns eram raros; um bom médium era quase um fenômeno; era, pois, natural que se agrupassem ao seu redor; mas à medida que esta faculdade se desenvolveu, os grandes centros se f racionaram, como enxames, numa multidão de pequenos grupos particulares, que encontram mais facilidade para se reunir, mais intimidade e mais homogeneidade em sua composição. Este resultado, conseqüência da própria força das coisas, era previsto. Desde a origem, assinalamos os escolhos que, inevitavelmente, deveriam encontrar as sociedades nume-rosas, necessariamente formadas de elementos heterogêneos, abrindo a porta às ambi-ções, e, por isto mesmo, alvo das intrigas, das cabalas, das surdas manobras da malevo-lência, da inveja e do ciúme, que não podem emanar de uma fonte espírita pura. Nas reu-niões íntimas, sem caráter oficial, se é mais senhor de si, conhece-se melhor, e se recebe quem se quer; o recolhimento ali é maior, e sabe-se que seus resultados são mais satisfa-tórios. Conhecemos bom número de reuniões deste gênero, cuja organização não deixa nada a desejar. Há, pois, tudo a ganhar com esta transformação.

O ano de 1866, além disso, viu realizar as previsões dos Espíritos sobre vários pon-tos interessantes para a Doutrina, entre outros sobre a extensão e os novos caracteres que a mediunidade deveria tomar, assim como sobre a produção de fenômenos de natu-reza a chamar a atenção sobre o princípio da espiritualidade, se bem que, em aparência, estranho ao Espiritismo. A mediunidade curadora se revelou à luz nas circunstâncias mais próprias para fazer sensação; ela germina em muitas outras pessoas. Em certos grupos viram-se manifestar numerosos casos de sonambulismo espontâneo, de mediunidade falante, de segunda vista e de outras variedades da faculdade medianímica que puderam

7

oferecer úteis assuntos de estudo. Estas faculdades, sem serem precisamente novas, estão ainda no estado nascente numa multidão de indivíduos; elas não se mostram senão em casos isolados e se ensaiam, por assim dizer, na intimidade; mas com o tempo adqui-rirão mais intensidade e se vulgarizarão. É sobretudo quando se revelam espontanea-mente nas pessoas estranha são Espiritismo que elas chamam mais fortemente a aten-ção, porque não se pode supor de conivência, nem admitir a influência de idéias precon-cebidas. Limitamo-nos assinalar o fato, que cada um pode constatar, e cujo desenvolvi-mento necessitaria de detalhes mais extensos. Aliás, teremos ocasião de a isto retornar em artigos especiais.

Em resumo, se nada de mais estrondoso assinalou a marcha do Espiritismo nestes últimos tempos, podemos dizer que ela prossegue

nas condições normais traçadas pelos Espíritos, e que não temos senão que nos fe-licitar pelo estado das coisas.

__________________

PENSAMENTOS ESPÍRITAS QUE CORREM O MUNDO.

Em nosso último número reportamos alguns pensamentos que se encontram aqui e ali na imprensa, e que o Espiritismo pode reivindicar como partes integrantes da doutrina; continuaremos a reportar de tempos em tempos aqueles que virão ao nosso conhecimen-to. Estas citações têm seu lado útil e instrutivo, no que elas provam a vulgarização das idéias espíritas.

Na revista hebdomanária do Siècle, de 2 de dezembro, o Sr. E. Texier, dando conta de uma nova obra do Sr. P. - J. Stahl, intitulada Bonnes fortunes parisiennes, assim se exprime:

"O que distingue estas Bonnes fortunes parisiennesé a delicadeza de toque na pintu-ra do sentimento, é o bom odor do livro que se respira como uma brisa. Raramente se tinha tratado este assunto tão vasto, tão explorado, tão repetido e sempre novo, o amor, com mais de ciência verdadeira, de observação sentida, mais de tato e de leveza de mão. Diz-se que, numa existência anterior, Balzac tinha sido mulher; poder-se-ia dizer também que Stahl foi uma jovem. Todos os pequenos segredos do coração que se abrem ao con-tato da primeira embriaguez, ele os agarra e os fixa até em suas nuanças mais finas. Fez melhor que estudar as suas heroínas; dir-se-ia que sentiu todas as suas impressões, to-dos os seus estremecimentos, todos os seus lindos choques, - alegria ou dor, - que se sucedem na alma feminina e a enchem aos primeiros brotos da floração de abril."

Não é a primeira vez que a idéia das existências anteriores é expressada fora do Espiritismo. O autor do artigo não poupou outrora os sarcasmos à crença nova, ao assun-to dos irmãos Davenport, em que, como a maioria dos seus confrades em jornalismo, a-creditou e crê talvez ainda a doutrina encarnada. Escrevendo estas linhas, não desconfia-va, sem dúvida, que dela formulava um dos princípios mais importantes. Que o tenha feito seriamente ou não, pouco importa! A coisa não se prova menos do que os próprios incré-dulos encontram-na na pluralidade das existências, não fosse ela admitida senão a título de hipótese, a explicação das aptidões inatas da existência atual. Este pensamento, lan-çado a milhões de leitores pelo vento da publicidade, se populariza, se infiltra nas cren-ças; habitua-se com ele; cada um nele procura a razão de ser de uma multidão de coisas incompreendidas, de suas próprias tendências: aqui em agradando e lá seriamente; a mãe cujo filho, embora seja pouco, é precoce sorri de bom grado com a idéia de que pode ser um homem de gênio. Em nosso século racional, se quer dar-se conta de tudo; repug-na ao maior número ver, nas boas e nas más qualidades trazidas em nascendo, um jogo do acaso ou um capricho da divindade; a pluralidade das existências resolve a questão mostrando que as existências se encadeiam e se completam umas pelas outras. De de-dução em dedução chega-se a encontrar, nesse princípio fecundo, a chave de todos os

8

mistérios, de todas as anomalias aparentes da vida moral e material, das desigualdades sociais, dos bens e dos males deste mundo; o homem sabe, enfim, de onde vem, onde vai, porque está sobre a Terra, porque nela é feliz ou infeliz, e o que deve fazer para as-segurar a sua felicidade futura.

Achando-se racional admitir que já vivemos sobre a Terra, não o é menos que pode-remos nela reviver ainda. Como é evidente, não é o corpo que revive, não pode ser senão a alma; esta alma tem, pois, conservado a sua individualidade; ela não se confundiu no todo universal; para conservar as suas aptidões, é preciso que ela tenha permanecido ela mesma. O único princípio da pluralidade das existências é, como se viu, a negação do materialismo e do panteísmo.

Para que a alma possa cumprir uma série de existências sucessivas no mesmo mei-o, é preciso que ela não se perca nas profundezas do infinito; deve permanecer na esfera de atividade terrestre. Eis, pois, o mundo espiritual que nos cerca, no meio do qual nós vivemos, no qual se derrama a humanidade corpórea, como ele mesmo se derrama nes-ta. Ora, chamai estas almas Espiritos, e eis-nos em pleno Espiritismo.

Se Balzac pôde ser mulher e Stahl uma jovem, as mulheres podem, pois, se encar-nar homens, e, conseqüentemente os homens se encarnarem mulheres. Não há, pois, entre os dois sexos senão uma diferença material, acidental e temporária, uma diferença de veste carnal; mas, quanto à natureza essencial do ser, ela é a mesma. Ora, da igual-dade de natureza e de origem, a lógica conclui pela igualdade dos direitos sociais. Vê-se a que conseqüências conduz tão só o princípio da pluralidade das existências. O Sr. Texi-er não acreditava provavelmente ter dito tanto em algumas linhas que citamos.

Mas, dir-se-á, talvez, o Espiritismo admite a presença das almas no meio de todos e suas relações com os vivos, e eis onde está o absurdo. Escutemos, sobre este ponto, o Sr. abade V..., novo cura de Saint-Vicent de Paul. No discurso que pronunciou no domin-go, 25 de novembro último, para a sua instalação, fazendo o elogio do patrono da paró-quia, ele disse: "O Espírito de São Vicente de Paulo está aqui, eu o afirmo, meus irmãos; sim, está no meio de nós; ele plana sobre esta assembléia; vê-nos, e nos ouve; eu o sinto perto de mim que me inspira." Que teria dito a mais um Espírita? Se o Espírito de São Vicente de Paulo está na assembléia, por quem foi ali atraído, senão o foi pelo pensamen-to simpático dos assistentes? É o que diz o Espiritismo. Se ele está, outros Espíritos po-dem igualmente ali se encontrarem: eis o mundo espiritual que nos cerca. Se o Sr. cura sofreu sua influência, ele pode sofrer a de outros Espíritos, assim como de outras pesso-as; há, pois relações entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo. Se fala pela inspiração deste Espírito, ele é, pois, médium falante; mas se fala, ele pode muito bem escrever sob esta mesma inspiração, e, sem dúvida, o fez mais de uma vez sem disto desconfiar: Ei-lo, pois, médium escrevente inspirado, intuitivo. No entanto, se lhe dissesse que pregou o Espiritismo, disto se defenderia provavelmente com todas as suas forças.

Mas sob qual aparência o Espírito de São Vicente de Paulo podia estar nessa as-sembléia? Se o Sr. cura não o disse, São Paulo o disse: é com o corpo espiritual ou fluídi-co, o corpo incorruptível que reveste a alma depois da morte, e ao qual o Espiritismo dá o nome de perispírito.

O perispírito, um dos elementos constitutivos do organismo humano, constatado pelo Espiritismo, havia sido suposto há muito tempo. É impossível ser mais explícito a este respeito do que o Sr. Charpignon em sua obra sobre o magnetismo, publicada em 1842 (1-(1) Physiologie, médecineetmetaphys/quedumagnétismeporChanpignon, 1 vol. in-8 Paris, Bailliere, 17, rua da Escola de Medicina. Preço: 6 fr.).

Lê-se, com efeito, cap. II, página 355:

"As considerações psicológicas às quais acabamos de nos entregar tiveram por re-sultado nos fixar sobre a necessidade de admitir, na composição da individualidade hu-mana, uma verdadeira trindade, e encontrar nessa composição trinária um elemento de

 

9

natureza essencialmente das duas outras partes, apreensível, antes por suas faculdades fenomenais, do que por suas propriedades constitutivas; porque a natureza de um ser espiritual escapa aos nossos meios de investigações. O homem é, pois, um ser misto, um organismo de composição dupla, a saber: combinação de átomos formando os órgãos, e um elemento de natureza material, mas indecomponível, dinâmico por essência, em uma palavra, um fluido imponderável. Eis para a parte material. Agora, como elemento caracte-rístico da espécie hominal: esse ser simples, inteligente, livre e voluntário, que os psicólo-gos chamam alma..."

Estas citações e as reflexões que as acompanham têm por objetivo mostrar que a opinião está bem menos distante das idéias espíritas que não se poderia crê-lo, e que a força das coisas e a irresistível lógica dos fatos a conduzem por uma inclinação toda natu-ral. Não é, pois, uma vã presunção dizer que o futuro está em nós.

_________________

OS ROMANCES ESPÍRITAS.

O ASSASSINATO DO PONT-ROUGE, POR CH. BARBARA.

O romance pode ser uma maneira de expressar os pensamentos espíritas sem se comprometer, porque o autor receoso de poder sempre responder à crítica zombeteira não entendeu fazer senão uma obra de fantasia, o que é verdadeiro para um grande nú-mero; ora, na fantasia tudo é permitido. Mas, fantasia ou não, o que não o é menos uma das formas em favor da qual a idéia espírita pode penetrar nos meios onde ela não seria aceita sob uma forma séria.

O Espiritismo é ainda muito pouco, ou melhor, muito mal conhecido da literatura, pa-ra ter fornecido o assunto de muitas obras deste gênero; o principal, como se sabe, é o que Théophile Gautier publicou sob o nome de Spirite, e ainda pode-se censurar ao autor por ter se afastado, em vários pontos, da idéia verdadeira.

Uma outra obra da qual igualmente falamos, e que, sem ser feita especialmente em vista do Espiritismo, a ele se liga por um certo lado, é a do Sr. Elie Berthet, publicado em folhetins no S/èc/e, em setembro e outubro de 1865, sob o título de/4 dupla vista. Aqui o autor dá prova de um conhecimento aprofundado dos fenômenos dos quais fala, e seu livro junta a este mérito o do estilo e de um interesse elevado. É, ao mesmo tempo, moral e instrutivo.

A segunda vista, de X.-B. Saintine, publicado em folhetins no grande Moniteur, em fevereiro de 1864, é uma série de novelas que não têm nem o fantástico impossível, nem o caráter lúgubre dos relatos de Edgard Põe, mas a doce e graciosa simplicidade de ce-nas íntimas entre os habitantes deste mundo e os do outro, ao qual o Sr. Saintine crê fir-memente. Se bem que sejam histórias de fantasia, elas se afastam pouco, em geral, dos fenômenos dos quais muitas pessoas puderam ser testemunhas. De resto, nós sabemos que, quando vivo, o autor, que conhecemos pessoalmente, não era nem incrédulo, nem materialista: as idéias espíritas lhe eram simpáticas, e o que escrevia era o reflexo de seu próprio pensamento.

Séraphita de Balzac é um romance filosófico baseado sobre a doutrina de Sweden-borg. Em Consuelo e a Comtesse de Rudofstadt, da senhora George Sand, o princípio da reencarnação desempenha um papel capital. O Drag, da mesma autora, é uma comédia desempenhada, há vários anos, no Vaudeville, cujo enredo é inteiramente espírita. Ela está fundada sobre uma crença popular entre os marinheiros da Provence. O Drag é um Espírito maligno mais traquinas do que mau, e que se alegra em pregar uma má partida. É visto sob a figura de um jovem, exercer sua influência e constranger um indivíduo a es-crever contra sua própria vontade. A imprensa, comumente tão benevolente para com

 

10

esta escritora, se mostrou severa a respeito desta peça, que merecia uma melhor acolhi-da.

A França não é a única que tem o monopólio dessas espécies de produções. O Progrès colonial, da ilha Maurício, publicou em 1865, sob o título de Histórias do outro mundo, contadas pelos Espíritos, um romance que não ocupa menos de vinte e oito folhe-tins, do qual o Espiritismo fazia toda a intriga, e onde o autor, o Sr. de Germonville, deu provas de um conhecimento perfeito de seu assunto.

Em alguns outros romances, a idéia espírita fornece simplesmente o assunto de epi-sódios. O Sr. Aurélien Scholl, em seus Novos mistérios de Paris, publicados pelo Petit Journal, o autor faz intervir um magnetizador que interroga uma mesa pela tiptologia, de-pois uma jovem posta em sonambulismo, cujas revelações coloca alguns dos assistentes sobre os espinhos. A cena é bem feita e perfeitamente verossímil. (Petit Journal de 23 de outubro de 1866.)

A reencarnação é uma das idéias mais fecundas para os romancistas, e que pode fornecer efeitos tanto mais surpreendentes quanto não se afastam em nada das possibili-dades da vida material. O Sr. Charles Barbara, jovem escritor morto há alguns meses numa casa de saúde, dela fez uma das aplicações mais felizes em seu romance intitulado o Assassinato da Ponte-fíouge, que o Evénement recentemente reproduziu em folhetins.

O assunto principal é um agente de câmbio que fugiu para o estrangeiro levando a fortuna de seus clientes. Atraído por um indivíduo numa miserável casa sob o pretexto de favorecer-lhe a fuga, ali é assassinado, despojado, depois lançado ao Seine, de acordo com uma mulher chamada Rosalie, que mora com esse homem. O assassino age com tal prudência e soube tomar tão bem as suas precauções, que todo traço do crime desapa-receu, e que toda suposição de morte foi afastada. Pouco depois ele esposou sua cúmpli-ce Rosalie, e ambos puderam doravante viver no bem-estar, sem medo de nenhuma per-seguição, senão a do remorso, quando uma circunstância veio levar ao auge as suas an-gústias. Eis como ele mesmo conta:

"Essa quietude foi perturbada desde os primeiros dias de nosso casamento. A me-nos da intervenção direta de uma força oculta, é preciso convir que o acaso se mostrou aqui estranhamente inteligente. Tão maravilhoso que parecesse o fato, não pensaríeis mesmo em pô-lo em dúvida, uma vez que, assim como deles tendes a prova viva em meu filho. Muitas pessoas, de resto, não deixariam de nele ver um fato puramente físico e fisio-lógico e de explicá-lo racionalmente. O que quer que seja, notei de repente marcas de tristeza no rosto de Rosalie. Perguntei-lhe a razão disto. Ela evitou de me responder.

"No dia seguinte e nos dias seguintes, sua melancolia não fazia senão crescer, eu a conjurava a me tirar da inquietação. Ela acabou por me confessar uma coisa que não dei-xa de emocionar ao mais alto grau. Na própria primeira noite de nossas núpcias, em meu leito e lugar, se bem que estivéssemos na obscuridade, ela tinha visto, mas viu, pretendia ela, como eu vos vejo, o rosto pálido do agente de câmbio. Ela havia esgotado inutilmente suas forças para expulsar o que ela tomava primeiro por uma simples lembrança; o fan-tasma não saía dos seus olhos senão nos primeiros clarões do crepúsculo. Além disto, o que certamente era de natureza a justificar seu terror, a mesma visão a tinha perseguido com uma tenacidade análoga durante várias noites seguintes.

"Eu simulava um profundo desdém e tratava de convencê-la de que tinha sido vítima unicamente de uma alucinação. Compreendi, pelo desgosto que se apoderou dela e se transformou insensivelmente nesse langor em que a vistes, que eu não tinha conseguido lhe inculcar meus sentimentos. Uma gravidez penosa, agitada, equivalente a uma doença longa e dolorosa, piorou ainda essa doença do espírito; e se um parto feliz, enchendo-a de alegria, teve uma influência salutar sobre o seu moral, esta foi de muito curta duração. Vi-me constrangido, por cima disto, de privá-la da felicidade de ter seu filho junto dela, uma vez que, com relação aos meus recursos oficiais, uma ama de leite morando em mi-nha casa pareceu-me uma despesa acima de meus meios.

11

"Emocionados de sentimentos para parecer dignamente numa pastoral, íamos ver nosso filho de quinzena em quinzena. Rosalie o amava até a paixão, e eu mesmo não estava longe de amá-lo com frenesi; porque, coisa singular, sobre as ruínas amontoadas em mim, só os instintos da paternidade ainda estavam de pé. Eu me abandonava a so-nhos inefáveis; prometia-me fazer dar uma educação sólida ao meu filho, de preservá-lo, se fosse possível, de meus vícios, de minhas faltas, de minhas torturas; era um consolo, minha esperança.

"Quando digo eu, falo igualmente de minha pobre Rosalie, que se sentia feliz com nada senão com a idéia de ver esse filho crescer ao seu lado. Quais não foram, pois, nossas inquietações, nossas ansiedades, quando, à medida que a criança se desenvolvi-a, percebemos no seu rosto linhas que lembravam as de uma pessoa que tínhamos que-rido esquecer pá rã sempre. Isto não foi de início senão uma dúvida sobre a qual guarda-mos o silêncio, mesmo frente a frente um do outro. Depois a fisionomia da criança se a-proximou a este ponto da de Thillard, que Rosalie disso me falou com terror, e que eu mesmo não pude esconder senão pela metade minhas cruéis apreensões. Enfim, a seme-lhança nos pareceu tal que verdadeiramente nos pareceu que o agente de câmbio renas-ceu em nosso filho.

"O fenômeno teria transtornado um cérebro menos sólido que o meu. Muito firme a-inda para ter medo, pretendi permanecer insensível ao golpe que dava à minha afeição paternal, e fazer partilhar minha indiferença com Rosalie eu lhe sustentava que não havia ali senão um acaso; acrescentava que não havia nada de mais variável do que o rosto das crianças, e que, provavelmente, essa semelhança se apagaria com a idade; finalmen-te, na pior das hipóteses, nos seria sempre fácil ter essa criança à parte. Fracassei com-pletamente. Ela se obstinou em ver, na identidade dos dois rostos, um fato providencial, o germe de um castigo assustador que, cedo ou tarde, deveria nos esmagar, e, sob o do-mínio desta convicção, seu repouso foi para sempre destruído.

"De outra parte, sem falar da criança, que era nossa vida? Vós mesmos pudestes observar-lhe a perturbação permanente, as agitações, os abalos cada dia mais violentos. Quando toda a marca de meu crime tinha desaparecido, quando não tinha mais nada a temer absolutamente dos homens, quando a opinião sobre mim tornara-se unanimemente favorável, em lugar de uma segurança fundada nesta razão, eu sentia crescer minhas inquietações, minhas angústias, meus terrores. Eu mesmo me inquietava com as fábulas mais absurdas; no gesto, na voz, no olhar de alguém, eu via uma alusão ao meu crime.

"As alusões mantiveram-me incessantemente sobre o cavalete do carrasco. Lem-brai-vos daquela noite em que o Sr. Durosoir contou uma de suas instruções. Dez anos de dores lancinantes não eqüivaleriam jamais ao que senti no momento em que, saindo do quarto de Rosalie, encontrei-me face a face com o juiz, que me olhava no rosto. Eu era de vidro; ele lia até o fundo de meu peito. Um instante entrevi o cadafalso. Lembrai-vos desde ditado: "Não é preciso falar de corda na casa de um enforcado," e vinte outros de-talhes deste gênero. Era um suplício de todos os dias, de todas as horas, de todos os se-gundos. Qualquer coisa que eu fizesse, faziam-se em meu espírito devastações assusta-doras.

"O estado de Rosalie era muito mais doloroso ainda: ela vivia verdadeiramente nas chamas. A presença da criança na casa chegou a torná-la a morada intolerável. Incessan-temente, dia e noite, vivemos no meio de cenas as mais cruéis. A criança me gelava de horror. Falhei vinte vezes em sufocá-la. Além disto, Rosalie que se sentia morrer, que a-creditava na vida futura, nos castigos, aspirava a se reconciliar com Deus, eu a escarne-cia, a insultava, ameaçava bater nela. Entrei no furor de assassiná-la. Ela morreu a tempo para preservar-me de um segundo crime. Que agonia! Ela não sairá jamais de minha memória.

"Depois já não vivi. Gabava-me de não ter mais consciência: esses remorsos cres-cem ao meu lado, em carne e em osso, sob a forma de meu filho. Esta criança, da qual,

12

apesar da imbecilidade consinto em ser o guardião e o escravo, não cessa de me torturar por seu ar, seus olhares estranhos, pelo ódio instintivo que me traz. Não importa onde eu vá, ele me segue passo a passo, caminha ou se assenta em minha sombra. À noite, de-pois de um dia de fadiga eu o sinto ao meu lado, e seu contato basta para expulsar o so-no de meus olhos ou pelo menos me perturbar com pesadelos. Temo que, de repente, a razão não lhe venha, que sua língua não se desamarre, que não fale e não me acuse.

"A Inquisição, em seu gênio das torturas, o próprio Dante, em sua Suppliciomanie, jamais imaginaram nada tão assustador. Disto me torno manomaníaco. Surpreendo-me desenhando com a caneta o quarto onde cometi meu crime; escrevo embaixo esta legen-da: Neste quarto, envenenei o agente de câmbio Thillard-Ducornet, e assino. Assim é que, em minhas horas de febre, detalhei sobre meu jornal quase palavra por palavra tudo o que vos contei.

"Isto não é tudo. Consegui subtrair meu suplício com os quais os homens castigam os assassinos, e eis que esse suplício se renova para mim quase cada noite.

"Sinto uma mão sobre minha espádua e ouço uma voz que murmura ao meu ouvido:

"Assassino!" Fui levado diante das togas vermelhas; uma pálida figura se endireita diante de mim e exclama: "Hei-lo!" É meu filho. Eu nego. Meu desejo e minhas próprias memórias me são representados com a minha assinatura. Vós o vedes, a realidade se mistura ao sonho e acrescenta ao meu espanto. Assisto, enfim, a todas as peripécias de um processo criminal. Ouço a minha condenação: "Sim, é culpado." Conduzem-me a uma sala escura onde vêm me encontrar o carrasco e seus ajudantes. Quero fugir, os laços de ferro me detêm, e uma voz me grita: "Não há mais para ti misericórdia!" Sinto até a sen-sação de f rio dos ferros sobre meu pescoço. Um padre ora ao meu lado e me convida às vezes ao arrependimento.

"Eu o recuso com mil blasfêmias. Semi-morto, sou balançado pelos movimentos de uma charrete sobre os paralelepípedos de uma cidade; ouço os murmúrios da multidão, comparáveis aos das vagas do mar, e, acima, as imprecações de mil vozes, chego em frente do cadafalso. Escalo seus degraus. Não desperto senão justo na hora em que a faca desliza entre as ranhuras, quando, no entanto, meu sonho não continua quando não sou mais arrastado em presença daquele que quis negar, o próprio Deus, para ali ter os olhos queimados pela luz, para mergulhar no abismo de minhas inquietações, para ali ser supliciado pelo sentimento de minha própria infâmia. Eu sufoco, o suor me inunda, o hor-ror enche a minha alma. Não sei mais quantas vezes sofri esse suplício."

A idéia de fazer reviver a vítima no próprio filho do assassino, e que está aí como a imagem viva de seu crime, atada aos seus passos, é ao mesmo tempo engenhosa e mui-to moral. O autor quis mostrar que, se esse criminoso soube escapar às perseguições dos homens, não saberia subtrair-se às da Providência. Há aqui mais do que o remorso, é a vítima que se ergue sem cessar diante dele, não sob a aparência de um fantasma ou de uma aparição que se poderia considerar um efeito da imaginação ferida, mas sob os tra-ços de seu filho; é o pensamento de que esse filho pode ser a própria vítima, pensamento corroborado pela aversão instintiva da criança, embora idiota, por seu pai; é a luta da ter-nura paternal contra esse pensamento que o tortura, luta horrível, que não permite ao cul-pado gozar pacificamente o fruto de seu crime, como se dele estivesse iludido.

Esse quadro tem o mérito de ser verdadeiro, ou melhor, perfeitamente verossímil; quer dizer que nada se afasta das leis naturais, que sabemos hoje reger as relações dos seres humanos entre si. Aqui, nada de fantástico nem de maravilhosos; tudo é possível e justificado pelos numerosos exemplos que temos de indivíduos renascendo no meio onde já viveram, em contato com os mesmos indivíduos, para ter ocasião de reparar os erros, ou cumprir deveres de reconhecimento.

Admiremos aqui a sabedoria da Providência que lança, durante a vida, um véu sobre o passado, sem o qual os ódios se perpetuariam, ao passo que acabam por se acalmar nesse contato novo e sob o império dos bons procedimentos recíprocos. É assim que,

13

pouco a pouco, o sentimento da fraternidade acaba por suceder ao da hostilidade. No ca-so de que se trata, se o assassino tivesse tido uma certeza absoluta sobre a identidade de seu filho, teria podido procurar sua segurança num novo crime; a dúvida o deixa preso com a voz da natureza, que fala nele pela da paternidade; mas a dúvida era um cruel su-plício, uma ansiedade perpétua pelo temor de que essa fatal semelhança conduzisse à descoberta do crime.

Por outro lado, o agente de câmbio, ele próprio culpado, tinha, senão como encar-nado, mas como Espírito, a consciência de sua posição. Se servia de instrumento ao cas-tigo de seus assassino, a sua posição era também para ele um suplício; assim, esses dois indivíduos, ambos culpados, se puniam um pelo outro, tudo em estando detidos em seu ressentimento mútuo pelos deveres que lhes impõe a natureza. Esta justiça distributiva que castiga por meios naturais, pela conseqüência da própria falta, mas que deixa sempre a porta aberta ao arrependimento e à reabilitação, que coloca o culpado no caminho da reparação, não é ela mais digna da bondade de Deus do que a condenação irremissível às chamas eternas? Porque o Espiritismo recusa a idéia do inferno tal como se a repre-senta, pode-se dizer que ele levanta todo freio às más paixões? Compreende-se esse gênero de punição; é aceito porque é lógico; impressiona tanto mais quanto se o sente equitativo e possível. Esta crença é um freio de outro modo poderoso do que a perspecti-va de um inferno no qual não se crê mais, e do qual se ri.

Eis um exemplo real da influência desta doutrina, por um caso que, se bem que me-nos grave, não prova menos o poder de sua ação:

Um senhor, de nosso conhecimento pessoal, Espírita fervoroso e esclarecido, vive com um parente muito próximo, que diferentes indícios, tendo um grande caráter de pro-babilidade, o fazem crer ter sido seu pai. Ora, esse parente não agia sempre para com ele como o deveria. Sem este pensamento, esse senhor teria, em muitas circunstâncias, para negócios de interesse, usado de um rigor que não estava em seu direito, e provocado uma ruptura; mas a idéia de que esse poderia ser seu pai o deteve; mostrou-se paciente, moderado; suportou o que não teria sofrido da parte de uma pessoa que tivesse conside-rado como lhe sendo estranha. Não havia, da vivência do pai, uma grande simpatia entre este e seu filho; mas a conduta do filho, nesta circunstância, não é de natureza a aproxi-mar espiritualmente, e a destruir as prevenções que os afastavam um do outro? Se se reconhece de maneira certa, sua posição respectiva seria muito falsa e muito incômoda; a dúvida em que está o filho basta para impedir de agir mal, mas o deixa, no entanto, tudo ao seu livre arbítrio. Que o parente haja sido ou não seu pai, o filho nisto não tem menos o mérito do sentimento da piedade filial; se não lhe é nada, lhe será sempre tido em conta seus bons procedimentos, e o verdadeiro Espírito de seu pai disto estará contente.

Vós que zombais do Espiritismo, porque não o conheceis, se soubésseis o que ele contém de poder para a moralização, compreenderíeis tudo o que a sociedade ganhará com a sua propagação, e serieis o primeiro a aplaudi-lo; vós a veríeis transformada sob o império de crenças que conduzem, pela própria força das coisas e pelas próprias leis da Natureza, à fraternidade e à verdadeira igualdade; compreenderíeis que só ele pode triun-far dos preconceitos que são a pedra de toque do progresso social, e em lugar de zombar daqueles que o propagam, vós os encorajaríeis, porque sentiríeis que há de vosso próprio interesse, de vossa segurança. Mas paciência! isto virá, ou, melhor dizendo, isto já vem; a cada dia as prevenções se acalmam, a idéia se propaga, se infiltra sem barulho, e se co-meça a ver que há ali alguma coisa de mais sério do que se pensa. Não está longe o tempo em que os moralistas, os apóstolos do progresso, nele verão a mais possante ala-vanca que jamais tiveram entre as mãos.

Lendo o romance do Sr. Charles Barbara, poder-se-ia crer que era Espírita fervoro-so; não o era nada, no entanto. Ele morreu, dissemos, numa casa de saúde, em se lan-çando pela janela num acesso de febre viva. Era um suicídio, mas atenuado pelas cir-

 

14

cunstâncias. Evocado pouco tempo depois na Sociedade de Paris, e interrogado sobre suas idéias com respeito ao Espiritismo, eis a comunicação que nos deu a esse respeito:

(Paris, 19 de outubro de 1866; méd. Sr. Morin.)

Permiti, senhores, a um pobre Espírito infeliz e sofredor, vos pedir a autorização de vir assistir às vossas sessões, todas de instrução, de devotamento, de fraternidade e de caridade. Eu sou o infeliz que tinha nome Barbara, e, se vos peço esta graça, é que o Es-pírito despojou o velho homem, e não se crê mais tão superior na inteligência quanto o acreditava quando vivo.

Eu vos agradeço pelo vosso chamado, e, tanto quanto está em meu poder, vou ten-tar responder à questão motivada por uma página de uma de minhas obras; mas vos pe-diria, antecipadamente, fazer a parte de meu estado atual, que se ressente fortemente da perturbação, toda natural, de resto, que se sente ao passar bruscamente de uma vida à outra vida.

Estou perturbado por duas causas principais: a primeira prende-se à minha prova que era de suportar as dores físicas que suportei, ou antes, que meu corpo suportou, quando me suicidei. - Sim, senhores, não temo dize-lo, suicidei-me, porque se meu Espíri-to estava afastado por momentos, eu o possuí antes de me ferir sobre o paralelepípedo, e... eu disse: tanto melhor!... Que falta e que fraqueza!... As lutas da vida material tinham acabado para mim, meu nome era conhecido, não tinha mais doravante senão que mar-char no caminho que me estava aberto e que era tão fácil de seguir!... Eu tive medo!... E, no entanto, nas horas de incerteza e de desencorajamento, eu tinha lutado pelo menos. A miséria e suas conseqüências não tinham me desanimado, e foi então quando tudo esta-va acabado para mim, que me exclamei: O passo está dado, tanto melhor*.... Não terei mais a sofrer*. Egoísta e ignorante!...

A segunda, é que, quando, depois de ter errado na vida, entre a convicção do nada e o pressentimento de um Deus que não poderia ser senão uma única força, grande, jus-ta, boa e bela, encontra-se em presença de uma multidão inumerável de seres ou Espíri-tos que vos conheceram, que amastes; que reencontrareis vivas vossas afeições, vossas ternuras, vosso amores; quando vos aperceberdes, em uma palavra, que não fizestes senão mudar de domicílio. Então, concebereis, senhores, que é muito natural que um po-bre ser que viveu entre o bem e o mal, entre a crença e a incredulidade sobre uma outra vida, e é muito natural, digo, que esteja perturbado... de felicidade, de alegria, de emoção, um pouco de vergonha, em se vendo obrigado a confessar a si mesmo que, em seus es-critos, o que ele atribuía à sua imaginação em trabalho, era uma poderosa realidade, e que, freqüentemente, o homem de letras que se bufa de orgulho vendo ler e ouvindo a-plaudir as páginas que crê sua obra, às vezes não é senão um instrumento que escreve sob a influência desses mesmos poderes ocultos dos quais lança o nome ao acaso da caneta num livro.

Quantos grandes autores de todos os tempos escreveram, sem delas conhecerem todo o valor filosófico, páginas imortais, degraus do progresso, colocados por eles e por ordem de uma força superior, para que, num tempo dado, a reunião de todos esses mate-riais esparsos forme um todo tanto mais sólido quanto é o produto de várias inteligências, porque a obra coletiva é a melhor: de resto, é o que Deus assinará ao homem, porque a grande lei da solidariedade é imutável.

Não, senhores, não, não conhecia de nenhum modo o Espiritismo, quando escrevi este romance, e vos confesso que notava eu mesmo com surpresa a forma profunda de algumas linhas que lestes, sem compreender-lhes toda a importância que hoje vejo cla-ramente. Desde que as escrevi, aprendi a rir do Espiritismo, para fazer como meus escla-recidos colegas, e não querer parecer mais avançado no ridículo do que eles mesmos

 

15

não queriam sê-lo. Eu ri!...; choro agora; mas espero também, porque me foi ensinado aqui: todo arrependimento sincero é um progresso, e todo progresso leva ao bem.

Não duvideis disto, senhores, muitos escritores, freqüentemente, são instrumentos inconscientes para a propagação das idéias que as forças invisíveis crêem úteis ao pro-gresso da Humanidade. Não vos admireis, pois, de ver o que escrevem sobre o Espiritis-mo sem nele crerem; para eles é um assunto como um outro que se presta ao efeito, e eles não desconfiam que a isto são levados com o seu desconhecimento. Todos esses pensamentos espíritas que vedes emitidos por aqueles mesmos que, ao lado disto, fa-zem-lhe oposição, são sugeridos, e eles não fazem menos o seu caminho. Fui um deste número.

Orai por mim, senhores, porque a prece é um bálsamo inefável; a prece é a caridade que se deve fazer aos infelizes do outro mundo, e eu sou um deles.

BARBARA.

__________________

VARIEDADES

RETRATO FÍSICO DOS ESPÍRITAS

Lê-se na Francede 14 de setembro de 1866:

"A fé robusta das pessoas que crêem, quando mesmo em todas as maravilhas, mui-to freqüentemente desmentidas, do Espiritismo, é uma verdade admirável. Mostra-se-lhes o truque das mesas girantes, e elas crêem; se lhes revelam as imposturas do armário Da-venport, e elas crêem mais fortemente; se lhes exibem todas as astúcias, lhes fazem to-car a mentira com o dedo, se lhes abrem os olhos para a evidência do charlatanismo, e sua crença com isso não se torna senão mais obstinada. Inexplicável necessidade do im-possível! Credo quia absurdum.

"O Messager franco-américain, de New York, fala de uma convenção dos adeptos do Espiritismo que vêm de se reunir em Providence (Rhode-lsland). Homens e mulheres se distinguem por um ar do outro mundo; palidez da pele a emaciação da face, o profético devaneio dos olhos, perdidos numa vaga oceânica, tais são, em geral, os sinais exteriores do Espírita. Acrescentai que, contrariamente ao uso geral, as mulheres têm seus cabelos cortados rente, àmal-content, como se dizia outrora, ao passo que os homens levam uma cabeleira abundante, absalônica, dos pés à cabeça, descendo até às espáduas. É preci-so, quando se faz comércio com os Espíritos, muito se distinguir do comum dos mortais, da vil multidão.

'Vários discursos, muitos discursos, foram pronunciados. Os oradores sem mais se preocuparem com os desmentidos da ciência, quanto daqueles do senso comum, imper-turbavelmente lembraram a longa série, que cada um sabe de cor, dos fatos maravilhosos atribuídos ao Espiritismo.

"Miss Susia Johnson declarou que, sem querer colocar-se como profetisa, ela previa que os tempos estão próximos em que a grande maioria dos homens não será mais re-belde às místicas revelações da religião nova. Ela apela com todos seus votos, para a criação de numerosas escolas onde as crianças, dos dois sexos, haurirão, desde a mais tenra idade, os ensinamentos do Espiritismo. Não faltaria mais do que isto!"

Sob o título de: Toujours lês Spiriteslo Evènement, de 26 de agosto de 1866, publi-cou um artigo muito longo, do qual extraímos a passagem seguinte:

"Nunca fostes em alguma reunião de Espírita, numa noite de ociosidade ou de curio-sidade? É um amigo que vos conduz geralmente. Eleva-se alto, - os Espíritos gostam de se aproximar do céu, - em algum pequeno apartamento já cheio; entrais abrindo passa-gem.

 

16

"As pessoas se amontoam, rostos bizarros, com gestos de energúmenos. Sufoca-se nessa atmosfera, onde se espremem, onde se inclina para as mesas ou os médiuns, o olhar no teto, o lápis à mão, escrevem as elucubrações que passam por ali. De início, é uma surpresa; procura-se entre todas essas pessoas onde repousar seu olhar, interroga-se, adivinha-se, analisa-se.

"Velhas mulheres com olhos ávidos, pessoas jovens magras e cansadas, a promis-cuidade das classes e das idades, as porteiras da vizinhança e as grandes damas do quarteirão, da indiana e dos guipuras, as poetisas do acaso e as profetas do reencontro, os alfaiates e os laureados do Instituto; confraterniza-se no Espiritismo. Espera-se, fazem-se as mesas girar, se as levanta, lêem-se em altas vozes os rabiscos que Homero ou Dante ditaram aos médiuns sentados. Estes médiuns, estão imóveis, a mão sobre o pa-pel, sonhando. De repente sua mão se agita, brevemente, se debate, cobre as folhas, vai, vai ainda e pára bruscamente. Alguém, então, no silêncio, nomeia o Espírito que acaba de ditar e lê. Ah! essas leituras!

"Ouvi desta vez Cervantes se lamentar da demolição do teatro dos Passa tempos-Cômicos, e Lamennais contar que Jean Joumet era neste mundo seu amigo íntimo. Na maior parte do tempo Lamennais comete faltas ortográficas e Cervantes não sabe uma palavra de espanhol. De outras vezes, os Espíritos emprestam um pseudônimo angélico para disparar ao seu público algum apotegma à Pantagruel. Reescrevem. Respondem-lhes: - Nós vos queixaremos ao vosso chefe de fila!

"O médium que disse a frase entristeceu-se e se descontentou de estar em relação com Espíritos tão desbocados. Perguntei a que legião pertenciam esses mistificadores do outro mundo, e me responderam muito claro: - São Espíritos vagabundos!

"Sei deles mais amáveis, - por exemplo o Espírito desenhista que impeliu a mão do Sr. Victorien Sardou, e fê-lo traçar a imagem da casa que habita lá em cima Beethoven. Profusão de ornamento de folhagens, entrelaçamento de colcheias e semi-colcheias, é um trabalho de paciência que demandaria meses e que foi feito numa noite. Eles mo afir-maram ao menos. Somente o Sr. Sardou poderia disto me convencer.

"Pobre cérebro humano, e quanto estas coisas são dolorosas para se contar! Não fi-zemos, pois, um passo do lado da Razão e da Verdade! Ou, pelo menos, o batalhão dos retardatários engrossa dia a dia, à medida que se avança! É formidável, é quase um exér-cito. Sabeis quanto há de possessos na França, neste momento?

"Mais de dois mil. Os possessos têm seu presidente, Senhora B..., que com a idade de dois anos vive em relação direta com a Virgem. Dois mil! O Auvergne guardou seus milagres, os Cévennes têm sempre seus Camisards. Os livros de Espiritismo, os tratados de misticismo têm sete, oito, dez edições. O maravilhoso é bem a doença de um tempo que, não tendo nada diante do espírito para se satisfazer, se refugia nas quimeras, como um estômago arruinado e privado de carne de açougue, que se alimentasse de gengibre.

"E o número dos loucos aumenta! O delírio é como uma onda que se eleva. Que luz é preciso, pois, encontrar, uma vez que, para destruir essas trevas, a luz elétrica não bas-ta?

"JULES CLARETIE."

Verdadeiramente estar-se-ia errado zangando-se contratais adversários, porque a-creditam de tão boa-fé e tão ingenuamente terem o monopólio do bom senso! O que é também divertido, que os singulares retratos que fazem dos Espíritos éde vê-los gemer dolorosamente sobre esses pobres cérebros humanos que não fazem nenhum passo do lado da razão e da verdade, porque querem a toda força ter uma alma e crer no outro mundo, apesar dos gastos de eloqüência dos incrédulos, para provar que assim não é, para a felicidade da Humanidade; são seus lamentos à vista desses livros espíritas que se derramam sem o socorro dos anúncios, dos reclames e dos elogios pagos da imprensa; desse batalhão de retardatários da razão, que, coisa desesperadora! aumenta todos os

17

dias e se terna tão formidável, que é quase um exército; que nada tendo diante de seu espírito para satisfazê-los, são bastante tolos para recusar a perspectiva do nada que se lhes oferece para encher o vazio. É verdadeiramente desesperador desta pobre Humani-dade bastante ilógica para não preferir nada em troca de alguma coisa, por querer mais reviver do que morrer inteiramente.

Esses gracejos, essas imagens grotescas, mais divertidas do que perigosas, e que seria pueril levar a sério, têm seu lado instrutivo, e é por isto que delas citamos alguns exemplos. Outrora procurava-se combater o Espiritismo por argumentos, maus, sem dú-vida, uma vez que não convenceram ninguém, mas, enfim, se tentava discutir a coisa, bem ou mal; os homens de um valor real, oradores e escritores, para combatê-lo remexe-ram o arsenal das objeções. Que resultou disto? Seus livros são esquecidos e o Espiri-tismo está de pé: eis um fato. Hoje ainda há alguns zombadores da força daqueles que acabamos de citar, pouco incomodados com o valor dos argumentos, para quem rir de tudo é uma necessidade, mas não se discute mais; a polêmica adversa parece ter esgo-tado suas munições, os adversários se contentam em sofrer pelo progresso do que cha-mam uma calamidade, como se sofre pelo progresso de u ma inundação que não se pode deter; mas as armas ofensivas para combatera Doutrina não deram nenhum passo adian-te, e se não se encontrou ainda o fuzil de agulha que possa batê-la, não foi por falta de tê-lo procurado.

Seria trabalho inútil refutar as coisas que se refutam por si mesmas. Aos queixumes com os quais o jornal a France faz preceder o burlesco retrato que ele empresta ao jornal americano, não há senão uma palavra a responder. Se a fé dos Espíritas resiste à revela-ção dos truques e das astúcias do charlatanismo, é que lá não está o Espiritismo; se, mais se coloca a luz as manobras fraudulentas, mais a fé redobra, é que lutais para com-bater precisamente o que ele desaprova e ele mesmo combate; se não são abaladas por vossas demonstrações, é que estais ao lado da questão. Se, quando bateis o Espiritismo não grita, é que bateis de lado, e então os galhofeiros não estão para vós. Desmascaran-do os abusos que fazem de uma coisa, fortalece-se a própria coisa, como se fortalece a verdadeira religião dela estigmatizando os abusos. Aqueles que vivem dos abusos só eles podem se lamentar, em Espiritismo como em religião.

Contradição mais estranha! Aqueles que pregam a igualdade social vêem sob o im-pério das crenças espíritas, os preconceitos de castas se apagarem, as classes extremas se aproximarem, o grande e o pequeno se estenderem mão fraterna, e disto riem! Em verdade, lendo estas coisas, pergunta-se de que lado está a aberração.

______________

NECROLOGIA.

SR. LECLERC

A Sociedade Espírita de Paris vem de ter uma nova perda na pessoa do Sr. Charles-Julien Leclerc, antigo mecânico, com a idade de cinqüenta e sete anos, morto subitamen-te de um ataque de apoplexia fulminante, em 2 de dezembro, no momento em que entra-va na Ópera. Ele morou muito tempo no Brasil, e foi aí que hauriu as primeiras noções do Espiritismo, ao qual o tinha preparado a doutrina de Fourrier, da qual era um zeloso parti-dário. Retornado à França, depois de ter feito uma posição independente por seu traba-lho, se devotou à causa do Espiritismo, do qual facilmente entreviu a alta importância hu-manitária e moralizadora para a classe operária. Era um homem de bem, amado, estima-do e lamentado por todos os que o conheceram, um Espírita, de coração, se esforçando para pôr em prática, em proveito de seu adiantamento moral, os ensinos da Doutrina, um desses homens que honram a crença que professam.

 

18

A pedido de sua família, dissemos sobre o seu túmulo a prece para as almas que acabam de deixar a Terra (O Evangelho Segundo o Espiritismo), e que fizemos seguir das palavras seguintes:

"Caro senhor Leclerc, sois um exemplo da incerteza da vida, uma vez que na ante-véspera de vossa morte, estáveis em nosso meio, sem que nada pudesse fazer pressentir uma partida tão súbita. Deus nos advertiu por ali para nos mantermos sempre prontos a prestar contas do emprego que fizemos do tempo que passamos sobre a Terra; ele nos lembra no momento em que menos o esperamos. Que seu nome seja bendito por vos ter poupado as angústias e os sofrimentos que, às vezes, acompanham o trabalho da sepa-ração.

"Vós vos juntastes àqueles de vossos colegas que vos precederam, e que, sem dú-vida, vieram vos receber no limiar da nova vida; mas essa vida, com a qual estáveis iden-tificado, não deveu ser para vós nenhuma surpresa; nela entrastes como num país co-nhecido, e não duvidamos de que nela gozais da felicidade reservada aos homens de bem, àqueles que praticaram as leis do Senhor.

'Vossos colegas da Sociedade Espírita de Paris se honram por ter contado convosco em suas fileiras, e vossa memória lhes será sempre cara; eles vos oferecem, pela minha voz, a expressão dos sentimentos de muito sincera simpatia que soubestes vos conciliar. Se alguma coisa abranda nossos lamentos desta separação, é o pensamento de que sois feliz como o merecestes, e a esperança de que não vireis menos participar de nossos tra-balhos.

"Que o Senhor, caro irmão, derrame sobre vós os tesouros de sua bondade infinita; nós lhe pedimos para vos conceder a graça de velar sobre vossos filhos, e de dirigi-los no caminho do bem, que seguistes."

O Sr. Leclerc, prontamente libertado, como o supúnhamos, pôde se manifestar na Sociedade na sessão que seguiu ao seu enterro. Conseqüentemente, não houve nenhu-ma interrupção em sua presença, uma vez que tinha assistido à sessão que o havia pre-cedido. Além do sentimento de afeição que nos liga a ele, esta comunicação deveria ter seu lado instrutivo: era interessante conhecer as sensações que acompanham este gêne-ro de morte. Nada do que pode esclarecer sobre as diversas fases dessa passagem, que todo o mundo deve passar, não poderia ser indiferente. Eis esta comunicação:

(Sociedade de Paris, 7 de dezembro de 1866. - Méd. Sr. Desliens.)

Enfim, posso, a meu turno, vir a esta mesa! Já, se bem que minha morte seja recen-te, estive mais de uma vez tomado de impaciência; eu não podia apressar a marcha do tempo. Também tinha a vos agradecer pela vossa solicitude em cercar meu despojo mor-tal, e os pensamentos simpáticos que prodigalizastes ao meu Espírito. Oh! mestre, obri-gado pela vossa benevolência, pela emoção profunda que sentistes em acolhendo meu filho amado. Quanto eu seria ingrato se disto não vos conservasse um reconhecimento eterno!

Meu Deus, obrigado! meus votos estão atendidos. Este mundo, que eu não conhecia senão segundo as comunicações dos Espíritos, posso eu mesmo apreciar-lhe hoje a be-leza. Numa certa medida, senti, aqui chegando, as mesmas emoções, mas infinitamente mais vivas, do que em abordando pela primeira vez a terra da América. Eu não conhecia esse país senão pelo relato dos viajantes, e estava longe de me fazer uma idéia de suas luxuriantes produções; ocorreu o mesmo aqui comigo. Quanto este mundo é diferente do vosso! Cada rosto é a reprodução exata dos sentimentos íntimos; nenhuma fisionomia mentirosa; nenhuma hipocrisia possível; o pensamento se revela todo ao olhar, benévolo ou malévolo, segundo a natureza do Espírito.

Pois bem! vede; sou ainda aqui punido por meu defeito principal, o que eu combatia com tanto trabalho sobre a Terra, e que já cheguei a dominar em parte; a impaciência de

19

me ver entre vós me perturbou a tal ponto que não sei mais exprimir minhas idéias com lucidez, e, no entanto, esta matéria que me arrastava tão freqüentemente à cólera anti-gamente, não está mais lá! Vamos, eu me acalmo, uma vez que é preciso.

Oh! fiquei muito surpreso por este fim inesperado! eu não temia a morte, e a consi-derava há muito tempo como o fim da prova; mas esta morte tão imprevista não me cau-sou menos um profundo abalo... Que golpe para minha pobre mulher!... Como o luto su-cedeu rapidamente ao prazer! Fazia-me uma verdadeira alegria escutar a boa música, mas não pensava estar tão cedo em contato com a grande voz do infinito... Quanto a vida é frágil!... Um glóbulo sangüíneo coagula; a circulação perde sua regularidade, e tudo está acabado!... Eu queria viver ainda alguns anos, ver meus filhos todos estabelecidos; nisto Deus decidiu de outro modo: que a sua vontade seja feita!

No momento em que a morte me atingiu, recebi como um golpe de clava sobre a ca-beça; um peso esmagador me oprimiu; depois, de repente, me senti livre, aliviado. Planei acima de meu despojo; considerei com espanto as lágrimas dos meus, e me dei conta, enfim, do que tinha me acontecido. Prontamente me reconheci. Vi meu segundo filho, chamado pelo telégrafo, a correr. Ah! muito tentei para consolá-los; soprei-lhes meus me-lhores pensamentos, e vi como uma certa alegria alguns cérebros refratários pender pou-co a pouco do lado da crença que fez toda a minha força nestes últimos anos, à qual devo tanto de bons momentos. Se venci um pouco o velho homem, a quem o devo, senão ao nosso caro ensinamento, aos conselhos reinterados de meus guias? E, no entanto, com isto enrubesci, se bem que em Espírito, deixei-me ainda dominar por esse maldito defeito: a impaciência. Também nisto fui punido, porque estava tão apressado em me comunicar para vos contar mil detalhes, que sou obrigado a adiá-los. Oh! serei paciente, mas com pesar. Sou tão feliz aqui, que me custa vos deixar. No entanto, bons amigos estão junto a mim, e eles mesmos se uniram para me acolher: Sanson, Baluze, Sonnez, o jovem Son-nez do qual gostava muitíssimo da verve satírica, depois Jobard, o bravo Costeau e tan-tos outros. Em último lugar, a senhora Dozon; depois um pobre infeliz muito a lamentar, e cujo arrependimento me toca. Orai por ele como por todos aqueles que se deixaram do-minar pela prova.

Logo voltarei a conversar de novo, e estejais bem persuadidos de que não serei me-nos assíduo às nossas caras reuniões como Espírito, do que o era como encarnado.

LECLERC.

_________________

NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS

POESIAS DIVERSAS DO MUNDO INVISÍVEL

Obtidas pelo Sr. Vavasseur.

Esta coletânea, que anunciamos em nosso último número como no prelo, aparecerá na primeira quinzena de janeiro. Nossos leitores puderam julgar o gênero e o valor das poesias obtidas pelo Sr. Vavasseur, como médium, seja no estado de vigília, seja no es-tado sonambúlico espontâneo, pelos fragmentos que delas publicamos. Limitamo-nos, pois, a dizer que, ao mérito da versificação, elas juntam o de refletir, sob a graciosa forma poética, as consoladoras verdades da Doutrina, e que a este título elas terão um lugar honrado em toda biblioteca espírita. Acreditamos dever acrescentar-lhe uma introdução, ou melhor, uma instrução sobre a poesia medianímica em geral, destinada a respondera certas objeções da crítica sobre este gênero de produções.

As modificações ocasionadas na impressão permitirão de dar-lhe o preço de 1fr.; pe-lo correio 1 f r. 15 c.

 

20

RETRATO DO SR. ALLAN KARDEC

Desenhado e litografado pelo Sr. BERTRAND, artista pintor.

Dimensão: papel chinês, 35 c. sobre 28, e com a moldura, 45 c. sobre 38. - Preço: 2 f r. 50; pelo correio, para a França e a Argélia, porte e estojo de embalagem 50 c. a mais. - Casa do autor, rue dês Dames, n9 99, em Paris - Batignolles, e escritório da Revista.

O Sr. Bertand é um dos muito bons médiuns escreventes da Sociedade Espírita de Paris, e que dá suas provas de zelo e de devotamento pela Doutrina. Esta consideração, unida ao desejo de lhe ser útil em lhe fazendo conhecer como artista de talento, fez calar o escrúpulo que tínhamos até aqui de anunciar a colocação em venda de nosso retrato, com medo de que se visse nisto uma presunção ridícula. Apressamo-nos, pois, em decla-rar que somos completamente estranho a esta publicação, como à dos retratos editados por vários fotógrafos.

_______________

O Union Spiriteàe Bordeaux, redigido pelo Sr. A. Bez, momentaneamente interrom-pido por uma grave doença do diretor, e de circunstâncias independentes de sua vontade, retomou o curso de suas publicações, assim como tínhamos anunciado, e deve ajeitar-se de maneira que seus associados não tenham nenhum prejuízo dessa interrupção. Felici-tamos sinceramente o Sr. Bez e fazemos votos sinceros para que nada entrave no futuro a útil publicação que ele empreendeu e que deve ser encorajada.

______________

O diretor da Você di Dio, jornal espírita italiano que se publica na Sicilia, nos informa que, em conseqüência dos acontecimentos sobrevindos nesse país, e sobretudo os es-tragos causados pelo cólera, a cidade de Catane, estando quase deserta, se vê forçado a interromper a sua publicação. Ele conta retomá-la desde que as circunstâncias o permi-tam.

_______________

O Sr. Roustaing, de Bordeaux, dirigiu-nos a carta seguinte com pedido de inseri-la:

Senhor Diretor da Revista Espírita,

Na obra que anunciastes no número da Revista Espírita, do mês de junho último, e intitulado: "Espiritismo Cristão, ou Revelação da Revelação; - os quatro evangelhos se-guidos dos preceitos explicados em Espírito e em verdade, pelos evangelistas assistidos pelos apóstolos; Moisés, recolhidas e postas em ordem por J.-B. Roustaing, advogado na Corte imperial de Bordeaux, antigo chefe da ordem dos advogados, 3 vol., Paris, Livraria central, no 24, 1866;" da qual fiz homenagem nos meses de abril e maio últimos à direção da Revista Espírita de Paris, que a aceitou, e omitiu na impressão, o que escapou à cor-reção das provas, uma passagem do manuscrito. Esta passagem omitida, e que está as-sim concebida, em seu lugar em continuação da última linha, página 111, IIIo vol.

"E esta hipótese da parte dos Espíritas: - Que o corpo de Jesus teria sido um corpo terrestre, - e que os anjos ou Espíritos superiores teriam podido torná-lo invisível, levantá-lo, e o teriam tirado, - no próprio momento em que a pedra foi desprendida e tombada, A PRIORI, inadmissível e falsa; ela deve, com efeito, ser descartada como tal, - em presen-ça da revelação feita pelo anjo à Maria, depois a José; revelação que seria então mentiro-sa, que não pode sê-lo, emanando de um enviado de Deus, e que deve ser interpretada, explicada segundo o espírito que vivifica, em espírito e em verdade, segundo o curso de leis da Natureza e não rejeitada." (Ver o o supra, lll vol., páginas 23-24; - l vol., p. 27 a 44; 67 a 86; 122 a 129;165a193;226a266;-lllovol.,p.139a145;161a163;168a175.)

21

Para levar, pela publicidade da qual vosso jornal dispõe, ao conhecimento daqueles que leram, que lêem e que lerão esta obra, esta omissão que teve lugar na impressão, e a fim de que aqueles que têm esta obra possam acrescentar à mão, e isto na página indi-cada, o parágrafo acima mencionado, - venho solicitar de vossa cortesia a inserção da presente carta no mais próximo número da Revista Espírita de Paris, disto vos agrade-cendo antecipadamente.

Admiti, Senhor Diretor, aceitar, etc.,

ROUSTAING,

Advogado na Corte imperial de Bordeaux, antigo chefe da Ordem dos Advogados, rua Saint-Siméon, 17.

 

AVISO AOS SRS. ASSINANTES

Para evitar a obstrução das distribuições de 1o de janeiro, a Revista deste mês é ex-pedida em 25 de dezembro. Além disso, ela é endereçada a todos os antigos Assinantes, com exceção daqueles que o são por intermediários, e cujos nomes não nos são conhe-cidos. Os números seguintes não serão expedidos senão à medida das renovações.

Se bem que a Revista tenha a liberdade de aparecer de 1 a 5, não ocorreu uma úni-ca vez neste ano que ela tenha aparecido senão em 5. Uma verificação muito minuciosa tendo sido feita antes de cada envio, os atrasos na recepção não podem ser o fato da di-reção. Foi várias vezes reconhecido que se prendiam a causas locais, ou à má vontade de certas pessoas pelas mãos das quais passa a Revista antes de chegar ao seu destina-tário.

ALLAN KARDEC.

 

22