Revista Espírita - Décimo Ano (1867)
Agosto
REVISTA ESPIRITA
JORNAL
DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
10o ANO NO. 8 AGOSTO 1867
FERNANDE.
NOVELA ESPÍRITA
Tal é o título de um romance folhetim, pelo Sr. Jules Doinel (d'Aurillac), publicado no Moniteurdu Cantai, de 23 a 30 de maio, 6,13 e 20 de junho de 1866. Como se vê, o nome do Espiritismo não está dissimulado, e, por isto, deve-se felicitar tanto mais o autor, que essa coragem de opinião é mais rara nos escritores de província, onde as influências contrárias exercem uma pressão maior do que em Paris.
Lamentamos que, depois de ter sido publicada em folhetim, forma sobre a qual uma idéia se propaga mais facilmente nas massas, esta novela não tenha sido posta em volume, e que nossos leitores estejam privados do prazer de a si a proporcionar. Embora esta seja uma obra sem pretensões e circunscrita num pequeno quadro, é uma pintura verdadeira e interessante das relações do mundo espiritual e do mundo corpóreo, que traz seu contingente à vulgarização da idéia espírita do ponto de vista sério e moral. Ela mostra os puros e nobres sentimentos que esta crença pode desenvolver no coração do homem, a serenidade que ela dá nas aflições, pela certeza de um futuro respondendo a todas as aspirações da alma, e dando plena satisfação à razão. Para pintar essas aspirações com verdade, como o faz o autor, é preciso ter a fé naquilo que se diz; um escritor, para que um semelhante assunto não fosse senão um quadro banal, sem convicção, creria que para fazer o Espiritismo basta acumular o fantástico, o maravilhoso e as aventuras estranhas, como certos pintores crêem que basta exibir cores vistosas para fazer um quadro. O Espiritismo verdadeiro é simples; ele toca o coração e não fere a imaginação a golpes de martelo. Foi o que compreendeu o autor.
O assunto de Fernande é muito simples. É uma jovem ternamente amada por sua mãe, arrancada na flor da idade à sua ternura e ao amor de seu noivo, e que revelou sua coragem em se manifestando à sua visão, e ditando ao seu amado, que deve logo reencontrá-la, o quadro do mundo que o espera. Citaremos alguns dos pensamentos que ali observamos.
"Tinha me tornado, desde a aparição de Fernande, um adepto resoluto da ciência de além-túmulo. Por que, de resto, disso teria duvidado? O homem tem o direito de marcar os limites ao pensamento, e de dizer a Deus: Tu não irás mais longe?"
"Uma vez que estamos perto dele e que pisamos uma terra que é santa, vou, meu caro amigo, falar-te de coração aberto, tomando a Deus como testemunha da sinceridade de tudo o que vais ouvir. Tu crês nos Espíritos, eu o sei, e mais de uma vez me pediste para precisar tua crença neste ponto. Eu não o fiz, e é preciso bem dize-lo, sem as manifestações estranhas que tu tiveste, eu não o teria jamais feito. Meu amigo, creio que Deus deu a certas almas uma força de simpatia de tal modo grande que ela pode se propagar nas regiões desconhecidas da outra vida. É sobre esse fundamento que
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repousa toda a minha doutrina. O charlatanismo e a hipocrisia de certos adeptos me fazem mal, porque não compreendo que se possa profanar uma coisa tão santa."
"Oh! Stephen Stany (o noivo) tinhas muita razão em dizer que o charlatanismo e a hipocrisia profanam as coisas mais santas. A crença nos Espíritos deve tornar a alma serena; de onde vem, pois, que, na obscuridade, o menor barulho me espanta? Vi se desenhar, às vezes, na penumbra de minha alcova, seja o fantasma de Fernande de Moeris, seja o perfil vago de sua mãe. Àquelas eu sorri. Mas, muito freqüentemente também, minha vista se desviou com medo da face careteira de alguns Espíritos maus, vindos lá para me afastarem do bem e me desviarem de Deus."
"Stany, em me falando, estava calmo. Não notei em sua face nenhum traço de exaltação. Mas, perto dessa pedra, sua diafaneidade se tornava mais visível ainda. A alma de meu amigo se mostrava inteiramente aos meus olhares. Essa bela alma não tinha nada a esconder. Eu compreendia que o laço que a prendia ao seu corpo de lama era bem fraco, e que não estava longe a hora em que ela voaria para o outro mundo"
"Ela me havia dito: "Vá à casa de minha mãe."- Isto me custou, eu o confesso; embora noivo de Fernande, não estava muito bem com sua prima. Sabes o quanto ela era ciumenta de tudo o que lhe retinha uma parte da afeição de sua filha. Dir-te-ei, ela me recebeu com os braços abertos e me disse chorando: "O gelo está quebrado; vamos nos compreender pela primeira vez. - Meu caro Stephen, acrescentou ela, creio ter sonhado! mas enfim a revi, e eis o que ela me disse: "Mãe, tu pedirás a Stephen Stany para permanecer oito dias no quarto que foi meu. Durante esses oito dias tu não permitirás que o perturbem. Durante esse retiro Deus lhe revelará muitas coisas."- Fui imediatamente conduzido ao quarto da prima; e desde aquele dia até ontem, dia em que a revi, sua alma esteve sem interrupção comigo mesmo. Eu a vi, e bem vi, com os olhos do meu Espírito e não os de meu corpo, se bem que estivessem abertos. Ela me falou. Quando digo que ela me falou, quero dizer que houve entre nós transmissão de pensamento. Sei agora tudo o que me era preciso saber. Sei que este globo não tem mais nada para mim, e que uma existência melhor me espera."
"Aprendi a estimar o mundo em seu justo valor. Retenha estas palavras, meu amigo: Todo Espírito que quer chegar à felicidade superior deve guardar seu corpo casto, seu coração puro, sua alma livre. Felizes os que sabem perceber a forma imaterial de Deus através das sombras do que se passa!"
"Não esqueçamos jamais, ó irmãos, que Deus é Espírito, e que quanto mais se torna Espírito, mais se aproxima de Deus. Não é permitido ao homem quebrar violentamente os laços da matéria, da carne e do sangue. Esses laços supõem deveres; mas lhe é permitido deles se desligar pouco a pouco pelo idealismo de suas aspirações, pela pureza de suas intenções, pela irradiação de sua alma, reflexo sagrado do qual o dever é o foco, até que, pomba livre, seu Espírito desligado das cadeias mortais voe e plane nos espaços sublimados."
O manuscrito ditado pelo Espírito de Fernande, durante os oito dias do retiro de Stephen, contém as passagens seguintes:
"Morri na perturbação, despertei na alegria. Eu vi meu corpo, apenas esfriado, se estender sobre o leito fúnebre e me senti como descarregada de um pesado fardo. Foi então que te percebi, meu bem amado, e que, pela permissão de Deus, unida ao livre exercício de minha vontade, te percebi junto de meu cadáver.
"Enquanto os vermes prosseguiam em sua obra de corrupção, eu penetrei, curiosa, os mistérios do mundo novo que habitava. Eu pensava, sentia, amava como sobre a Terra; mas meu pensamento, minha sensação, meu amor estavam aumentados. Compreendia melhor os desígnios de Deus, aspirava sua vontade divina. Vivemos de uma vida quase imaterial, e somos superiores a vós tanto quanto os anjos o são a nós. Vemos Deus, mas não claramente; nós o vemos como se vê o sol de vossa Terra, através
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de uma nuvem espessa. Mas essa visão imperfeita basta à nossa alma, que não está ainda purificada.
"Os homens nos aparecem como fantasmas errando numa bruma crepuscular. Deus deu, a alguns entre nós, a graça de ver mais claramente aqueles que amam de preferência. Vejo-te assim, caro amor, e minha vontade te cerca de uma simpatia amorosa a todo momento. É assim que teus pensamentos vêm de mim, que teus atos te são inspirados por mim, que tua vida, em uma palavra, não é senão um reflexo de minha vida. Do mesmo modo que podemos comunicar convosco, os Espíritos superiores podem se revelar aos nossos olhares. Por vezes, na transparência imaterial, vemos passar a silhueta augusta e luminosa de algum Espírito. É-me impossível pintar-te o respeito que essa visão nos inspira. Felizes aqueles entre nós que são honrados com essas visitas divinas. Admira a vontade de Deus! os mundos se correspondem todos. Nós nos mostramos a vós; eles se mostram a nós: é a escada simbólica de Jacob."
"Ocorre que, de um só golpe de asa, se elevaram até Deus. Mas estes são raros. Outros sofrem longas provas em existências sucessivas. É a virtude que dá as posições, e o mendigo curvado para a terra, às vezes, é aos olhos do Deus justo e severo, maior do que o rei soberbo ou o conquistador invencível. Nada vale senão para a alma; é o único peso que ela leva na balança de Deus."
Agora que fizemos a parte do elogio, façamos a da crítica; ela não será longa, porque não cai senão sobre dois ou três pensamentos. No início, num diálogo entre os dois amigos, encontramos a passagem seguinte:
"Temos existências anteriores? Não o creio: Deus nada nos tira; mas do que estou seguro, é que depois do que chamamos a morte, começamos, - e quando digo nós, falo da alma, - nós começamos, digo eu, uma série de novas existências. No dia em que estivermos bastante puros para ver, compreender e amar Deus inteiramente, só nesse dia morreremos. Note bem que naquele dia não amaremos mais do que Deus e nada senão Deus. Se, pois, Fernande estivesse purificada, ela não sonharia, não poderia sonhar comigo. Do fato de que ela se manifestou, concluo que ela vive. Onde? logo o saberei! Ela é feliz de sua vida, eu creio, porque enquanto o Espírito não estiver completamente depurado, ele não pode compreender que a felicidade não está senão em Deus. Ele pode ser relativamente feliz. À medida que subimos, a idéia de Deus se engrandece em nós cada vez mais, e nós estamos, por isso mesmo, cada vez mais felizes. Mas essa felicidade não é senão uma felicidade relativa. Assim minha noiva vive. Qual é sua vida? eu o ignoro: só Deus pode dizer aos Espíritos para revelarem aos homens esses mistérios."
Depois das idéias como aquelas que encerram as passagens citadas, espanta-se de encontrar uma doutrina como aquela que faz da felicidade perfeita uma felicidade egoísta. O encanto da Doutrina Espírita, o que dela faz uma suprema consolação, é precisamente o pensamento da perpetuidade das afeições se depurando e se estreitando à medida que o Espírito se depura e se educa; aqui, ao contrário, quando o Espírito é perfeito, esquece aqueles que amou, para não pensar senão nele; ele está morto para todo outro sentimento que não seja o de sua felicidade; a perfeição lhe tiraria a possibilidade, o desejo mesmo de vir consolar aqueles que deixa na aflição. Isso seria lá, é preciso convir, uma triste perfeição, ou, melhor dizendo, seria uma imperfeição. A felicidade eterna, assim concebida, não seria mais invejável do que a da contemplação perpétua, cuja reclusão claustral nos dá imagem pela morte antecipada das mais santas afeições da família. Se fosse assim, uma mãe nisso seria reduzida a temer, em lugar de desejar, a completa depuração dos seres que lhe são mais caros. Jamais a generalidade dos Espíritos ensinou semelhante coisa; dir-se-ia uma transação entre o Espiritismo e a crença vulgar. Mas esta transação não é feliz, porque não satisfazendo as aspirações íntimas da alma, não tem nenhuma chance de prevalecer na opinião.
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Quando o autor diz que não crê nas existências anteriores, mas que está seguro que, depois da morte, começamos uma série de novas existências, ele não percebeu que cometeu uma contradição flagrante; se admite, como coisa lógica e necessária ao progresso, a pluralidade das existências posteriores, sobre o que se funda para não admitir as existências anteriores? Ele não disse como explica de uma maneira conforme à justiça de Deus, a desigualdade nata, intelectual e moral, que existe entre os homens. Se essa existência é a primeira, e se todos saíram do nada, cai-se na doutrina absurda, inconciliável com a soberana justiça, de um Deus parcial, que favorece certas de suas criaturas, criando almas de todas as qualidades. Poder-se-ia igualmente nisso ver uma transação com as idéias novas, mas que não é mais feliz do que a precedente.
Espanta-se, enfim, de ver Fernande, Espírito avançado, sustentar esta proposição de um outro tempo: "Laura se torna mãe; Deus teve piedade dela, e chamou a ele essa criança. Às vezes ela vem revela. Ela é triste, porque estando morta sem batismo, não gozará jamais da contemplação divina." Assim, eis um Espírito que Deus chama a ele, e que é para sempre infeliz e privado da contemplação de Deus, porque não recebeu o batismo, quando não dependeu dele recebê-lo, e que a falta é do próprio Deus que o chamou muito cedo. Foram essas doutrinas que fizeram tantos incrédulos, e se esperam fazê-las passar com o favor das idéias espíritas que tomam raízes, enganam; aceitar-se-ão as idéias espíritas do que é racional e sancionado pela universalidade do ensino dos Espíritos. Se há ainda aí da transação, ela é inábil. Colocamos a esse respeito que, sobre mil centros espíritas onde as proporções que acabamos de criticar seriam submetidas aos Espíritos, delas novecentos e noventa serão resolvidas em sentido contrário.
Foi a universalidade do ensino, sancionada, além disso, pela lógica, que fez e que completará a Doutrina Espírita. Esta doutrina haure, nessa universalidade do ensino dado sobre todos pontos do globo, por Espíritos diferentes, e em centros completamente estranhos uns aos outros, e que não sofrem nenhuma pressão comum, uma força contra a qual lutariam em vão as opiniões individuais, seja dos Espíritos, seja dos homens. A aliança que se pretendia estabelecer das idéias espíritas com idéias contraditórias, não podem ser senão efêmeras e localizadas. As opiniões individuais podem ligar alguns indivíduos, mas forçosamente circunscritas, elas não podem ligar a maioria, a menos de ter a sanção dessa maioria. Repelidas pelo maior número, são sem vitalidade, e se extinguem com os seus representantes.
Isto é o resultado de um cálculo todo matemático. Se, sobre mil centros, há 990 deles onde se ensina a mesma lição, e dez de uma facção contrária, é evidente que a opinião dominante será a de 990 sobre 1000, quer dizer, a quase unanimidade. Pois bem! estamos certos de fazer uma parte muito ampla nas idéias divergentes, levando-as a um centésimo. Não formulando um princípio antes de estar assegurado pelo consentimento geral, estamos sempre de acordo com a opinião da maioria.
O Espiritismo está hoje de posse de uma soma de verdades de tal modo demonstradas pela experiência, que satisfazem ao mesmo tempo tão completamente a razão, que passaram em artigos de fé na opinião da imensa maioria dos adeptos. Ora, colocar-se em hostilidade aberta com esta maioria, machucar suas aspirações e suas convicções mais caras, é se preparar um fracasso inevitável. Tal é a causa do insucesso de certas publicações.
Mas, dir-se-á, é proibido, pois, àquele que não partilha as idéias da maioria publicar as suas opiniões? Seguramente não; é mesmo útil que o faça; mas, então, deve fazê-lo com os seus riscos e perigos, e não contar com o apoio moral e material daqueles a quem quer atacar vivamente as crenças.
Para retornara Fernande, os pontos de doutrina que combatemos parecem ser opiniões pessoais do autor, das quais parece não ter sentido o lado fraco. Endereçando-nos a sua obra, início de um homem jovem, nos disse que quando tinha escrito essa novela, não tinha senão um conhecimento superficial da Doutrina Espírita, e que, sem
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dúvida, nele encontraríamos várias coisas a censurar sobre as quais solicitava a nossa opinião; que, mais esclarecido hoje, há princípios que formularia de outro modo. Felicitando-o pela sua franqueza e pela sua modéstia, informamo-lo que, se houvesse lugar de refutação, nós o faríamos na Revista, para instrução de todos.
À parte os pontos que acabamos de citar, não há nenhum que a Doutrina Espírita não possa aceitar; felicitamos o autor do ponto de vista moral e filosófico em que se colocou, e temos seu trabalho por eminentemente útil à difusão da idéia, porque a faz considerar sob sua verdadeira luz, que é o ponto de vista sério. (Ver no número precedente, página 213, a peça de poesia do mesmo autor, intitulada: Aos Espíritos protetores.)
SIMONET,
MÉDIUM CURADOR EM BORDEAUX.
O Figaro, de 5 de julho último, dava conta, nestes termos, de um julgamento feito pelo tribunal de Bordeaux:
"Nestes últimos tempos, o furor em Bordeaux era ir consultar o feiticeiro de Cauderan. Avaliou-se em mil ou mil e duzentas o número das visitas que recebia cada dia. A polícia, que faz profissão de ceticismo, se emocionou com semelhante sucesso, e quis operar uma descida no castelo de Bel-Air, onde o feiticeiro tinha eleito seu domicílio. Em torno da morada do feiticeiro encontrava-se uma multidão de pessoas se dizendo atingidas de toda espécie de doenças; grandes senhoras ali iam também em seges para consultar o iluminado.
"Os magistrados, desde que interrogaram o feiticeiro, não duvidaram que não tivesse negócio com um pobre louco que era explorado por esses mesmos que lhe davam a hospitalidade; também o feiticeiro Simonet não foi compreendido na perseguição que se contentou de dirigir contra os irmãos Barbier, ágeis compadres que recolheram todos os proveitos da credulidade gascã.
"Sua casa, que verdadeiros Gascões que são, decoraram com o nome de castelo, tinha sido convertida em albergue; somente os vinhos que ali vendiam não tinham nada de comum com o que se chama em Languedoc os vinhos de Château; depois tinham se esquecido de se prover de uma licença, se bem que a administração das contribuições indiretas fazia-lhes um processo.
"O feiticeiro Simonet era citado como testemunha.
- "Onde aprendestes a medicina, vós que sois um simples caldeireiro?
- "E que pensais da revelação? Que eram, pois, os discípulos do Cristo? Que faziam esses pobres pecadores que converteram o mundo? Deus me apareceu; deu-me sua ciência; não tenho mesmo necessidade dos remédios, sou um médico curador.
- "Onde aprendestes tudo isso?
-"Em Allan Kardec... e mesmo, Senhor presidente, eu vo-lo digo com todo o respeito possível, não pareceis conhecer a ciência do Espiritismo e vos convido fortemente a estudá-lo. (Hilaridade à qual não resistem os próprios juizes.)
- "Abusais da credulidade pública. Assim, para não citar senão um exemplo, há um pobre cego que toda Bordeaux conhece. Ele teve a fraqueza de ir em vossa casa, e vos levar os óbolos que recebia da caridade pública. Restituístes-lhe a vista?
-"Eu não curei todo o mundo, mas é preciso crer que eu fiz curas, uma vez que no dia em que a justiça veio, havia mais de 1500 pessoas que esperavam a sua vez.
-"É infelizmente verdadeiro.
"O Sr. procurador imperial. - E se isto continua, tomaremos uma dessas duas medidas: ou vos intimaremos aqui por espoliação fraudulenta, e a justiça apreciará se sois
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louco, ou faremos tomar uma medida administrativa contra vós. É preciso proteger as pessoas honestas contra a sua incredulidade.
"No castelo de Bel-Air não se pedia dinheiro aos consulentes; distribuíam-lhes somente um número de ordem, que se fazia pagar vinte centavos; depois havia os que traficavam com esses números, revendendo-os até a quinze francos. Enfim, dava-se de comer aos pobres camponeses vindos algumas vezes das extremidades do departamento. Enfim, havia ali um tronco para os pobres; não há necessidade de dizer que os hóspedes do feiticeiro aplicavam o dinheiro dos pobres.
"O tribunal condenou os senhores Barbier em dois meses e um mês de prisão e 300 fr. através de contribuições indiretas.
"Ad. ROCHER."
Eis a verdade sobre Simonet, e de que maneira sua faculdade se revelou.
Os senhores Barbier foram construir em Cauderan, subúrbio de Bordeaux, um vasto estabelecimento, como deles há no quarteirão, destinado aos bailes, núpcias e repastos de corpos, ao qual deram o nome de Château du Bel-Air, o que não é mais gascão do que o Château-Rouge ou oChâteau dês Fleursde Paris. Simonetali trabalhava como marceneiro e não como caudeireiro. Durante os trabalhos de construção, ocorria muito freqüentemente que os operários estivessem feridos ou doentes; Simonet, Espírita há muito tempo e conhecendo um pouco o magnetismo, foi levado instintivamente, e sem desígnio premeditado, a cuidar deles pela influência fluídica, e curou a muitos. A fama dessas curas se espalhou, e logo viu uma multidão de doentes acorrer a ele, tanto é verdadeiro que, o que quer que se faça, não se tirará dos doentes o desejo de serem curados, não importa por quem. Temos testemunhas oculares de que a média daqueles que ali se apresentavam era mais de mil por dia. O caminho estava atravancado de viaturas de todas as espécies, vindas de várias léguas na redondeza, de charretes ao lado de carros de luxo. Havia pessoas que passavam a noite para esperarem a sua vez.
Mas nesta multidão se achavam pessoas que tinham necessidade de beber e de comer; os empreendedores do estabelecimento nisso investiram, o que se tomou para eles um negócio muito bom. Quanto a Simonet, que era uma fonte de proveitos indiretos, estava instalado e alimentado, era bem o menos, e não se poderia lhe fazer por isto uma censura. Como se acotovelavam à porta, para evitar a confusão, tomou-se a sábia decisão de dar um número de ordem aos que chegavam; mas teve-se a idéia menos feliz de fazer pagar dez centavos por esse número, e mais tarde vinte centavos; o que, tendo em vista a afluência, fazia por dia uma soma bem recheada. Por mínima que fosse essa retribuição, todos os Espíritas, e o próprio Simonet que nisso não estava por nada, a viram com pesar, pressentindo o mau efeito que isso produziria. Quanto ao tráfico de bilhetes, parece certo que certas pessoas mais apressadas, para passar mais cedo, compraram o lugar de pessoas pobres que estavam ali antes delas, muito contentes com esse ganho inesperado; nisto não havia grande mal, mas poderia e deveria necessariamente resultar em abuso. Foram esses abusos que motivaram a instância judicial, dirigida contra os senhores Barbier, como tendo aberto um estabelecimento de consumação antes de estarem providos de uma patente. Quanto a Simonet, ele não foi colocado em causa, mas simplesmente citado como testemunha.
A reprovação geral que se dá à exploração, nos casos análogos ao de Simonet, é digna de nota; parece que um sentimento instintivo leva os próprios incrédulos a ver no desinteresse absoluto uma prova de sinceridade que inspira uma espécie de respeito involuntário; eles não crêem na faculdade; zombam dela, mas alguma coisa lhes diz que, se ela existe, deve ser uma coisa santa que não pode, sem profanação, se tornar um ofício; limitam-se a dizer: É um pobre louco que é de boa fé; mas todas as vezes que a especulação, sob qualquer forma que isto seja, se mistura a uma mediunidade qualquer, a crítica se crê dispensada de toda reserva.
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Simonet cura realmente? Pessoas dignas de fé, muito honradas, e que tinham antes o interesse em desmascarar a fraude do que preconizá-la, nos citaram numerosos casos de curas perfeitamente autênticas. Aliás, nos parece que, se não tivesse curado ninguém, já teria perdido todo o crédito. De resto, não há a pretensão de curar todo o mundo; ele não promete nada; diz que a cura não depende dele, mas de Deus, do qual não é senão o instrumento, e cuja assistência é preciso ser implorada; recomenda a prece e ele mesmo ora. Lamentamos muito não ter podido vê-lo durante nossa estada em Bordeaux; mas todos aqueles que o conhecem estão de acordo em dizer que é um homem afável, simples, modesto, sem jactância nem fanfarrice, que não procura se prevalecer de uma faculdade que sabe poder lhe ser retirada. Ele é benevolente para os enfermos, que encoraja com boas palavras; o interesse que lhes dá não se baseia sobre a classe que ocupam; tem tanta solicitude para o mais miserável quanto para o mais rico; se a cura não é instantânea, o que ocorre mais freqüentemente, coloca-lhe toda a continuação necessária.
Eis o que nos foi dito. Ignoramos quais serão para ele as conseqüências desse processo, mas é certo que, se for sincero, e perseverar nos sentimentos dos quais parece animado, a assistência e a proteção dos bons Espíritos não lhe faltarão; ele verá a sua faculdade se desenvolver e engrandecer, ao passo que ve-la-á declinar e se perder, se entrar no mau caminho, sobretudo se pensar em tirar dela vá idade.
Nota. - No momento de colocar no prelo, soubemos que, em conseqüência da fadiga que resultou para ele do longo e penoso exercício de sua faculdade, mais ainda para escapardos tormentos dos quais foi objeto, Simonet resolveu suspender toda recepção até nova ordem. Se os doentes sofrem por essa abstenção, um grande efeito não foi menos produzido por ela.
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ENTRADA DE INCRÉDULOS NO MUNDO DOS ESPÍRITOS.
O DOUTOR CLAUDIUS.
Sociedade de Paris. Méd. Sr. Morin em sonambulismo espontâneo.
Um médico, que designaremos sob o nome de doutor Claudius, conhecido de alguns de nossos colegas, e cuja vida tinha sido uma profissão de fé materialista, morreu há algum tempo de uma afecção orgânica, que sabia ser incurável. Chamado, sem dúvida, pelo pensamento daqueles que o haviam conhecido e que desejavam conhecera sua posição, manifestou-se espontaneamente por intermédio do Sr. Morin, um dos médiuns da Sociedade, em estado de sonambulismo espontâneo. Já várias vezes esse fenômeno se produziu por esse médium e outras adormecido com o sono espiritual.
O Espírito que assim se manifestou se apodera da pessoa do médium, serve-se de seus órgãos como se estivesse ainda vivo. Não é, então, mais uma fria comunicação escrita; é a expressão, a pantomima, a inflexão de voz do indivíduo que se tem diante dos olhos. Foi nessas condições que se manifestou o doutor Claudius, sem ter sido evocado. Sua comunicação, que reportamos textualmente adiante, é instrutiva a mais de um título, principalmente naquilo que ela pinta os sentimentos que o agitam; a dúvida é ainda o seu tormento; a incerteza de sua situação mergulha-o numa terrível perplexidade, e é a sua punição. É uma exemplo a mais que vem confirmar aquilo que se viu muitas vezes em semelhante caso.
Depois de uma dissertação sobre um outro assunto, o médium absorvido se recolhe alguns instantes, depois, como se despertasse penosamente, assim se exprime, falando consigo mesmo:
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Ah! ainda um sistema!... O que há de verdadeiro e de falso na existência humana, na criação, na criatura, no criador?... A coisa, ela é?... A matéria é bem verdadeira?... A ciência, é uma verdade?... O saber, uma aquisição?... a alma... a alma existe?
O criador, a divindade, não é um mito?.., Mas, que digo eu?... por que estas blasfêmias multiplicadas?... Por que, em face da matéria, não posso crer, ó meu Deus, não posso ver, sentir, compreender?... Matéria!...matéria!...mas, sim, tudo é matéria...Tudo é matéria!!!... e, no entanto, a invocação a Deus chegou à minha boca!... Por que, pois, eu disse: ó meu Deus?... Porque esta palavra, uma vez que tudo é matéria?...Eu sou?...Não é um eco de meu pensamento que ressoa e que se escuta?... Não são as últimas badaladas do sino que eu agito? Matéria!... Sim, a matéria existe, eu o sinto!... A matéria existe; eu a toquei!... mas!...tudo não é matéria, e, no entanto, no entanto, tudo foi auscultado, apalpado, tocado, analisado, dissecado fibra por fibra, e nada!... Nada senão a carne, a matéria sempre, que, desde o instante em que o grande movimento foi detido, se deteve também!... O movimento pára, o ar não chega mais... Mas!... se tudo é matéria, por que não se coloca mais em movimento, uma vez que tudo que existia quando ela se agitava, existe ainda?... E, no entanto... ela não existe mais!...
Mas se, eu sou!... tudo não acabou com o corpo!... em verdade... estou bem morto?... no entanto, esse roedor que alimentei, que cuidei com minhas mãos, não me perdoou!... É verdade; estou morto!... mas essa doença que vi nascer... crescer... tinha uma alma?
Ah! a dúvida! sempre a dúvida!... em resposta às minhas secretas aspirações!... Mas, se eu sou, ó meu Deus, se eu sou,... ah! fazei-me reconhecer-me!... fazei-me vos pressentir!... porque, se eu sou, que longa sucessão de blasfêmias!... que longa negação de vossa sabedoria, de vossa bondade, de vossa justiça!... Que imensa responsabilidade de orgulho assumi sobre minha cabeça, ó meu Deus!... Mas se, tenho ainda um eu, eu que não queria nada admitir fora o que pode ser tocado... Duvidei de vossa sabedoria, ó meu Deus! é justo que eu duvide!... Sim, eu duvidei; a dúvida me perseguiu e me pune.
Oh! mil mortes antes do que a dúvida na qual vivo!... Eu vejo, reencontrei antigos amigos... e, no entanto, todos morreram antes!... Méry! meu pobre louco!... mas não o sou eu antes, eu?... o epíteto de louco se adapta à sua personalidade? - Vejamos, pois; o que é a loucura?...
A loucura!... a loucura!... decididamente, a loucura é universal!!! todos os homens são loucos num grau mais ou menos grande... mas sua loucura, nele, não era a sabedoria ao lado de minha loucura em mim?... Nele, os sonhos, as imagens, as aspirações do além... mas, é a justiça!... Conhecia eu este desconhecido que se apresenta inopinadamente a mim?... Não, não, o nada não existe, porque se existisse essa encarnação de negação, de crimes, de infâmias, não me torturaria assim!... Eu vejo, mas vejo muito tarde, todo o mal que fiz!... Vendo-o hoje, e reparando-o pouco a pouco, talvez um dia eu seja digno de ver e de fazer o bem!...
Sistemas!...sistemas orgulhosos, produtos dos cérebros humanos, eis onde nos conduzis!... Num é a divindade; noutro, a divindade material e sensual; em um outro, o nada, nada!... Nada, divindade material, divindade espiritual, são palavras?... Oh! eu peço para ver, meu Deus!... e se existo, se existis, concedei-me o favor que vos peço; aceitai minha prece, porque eu vos peço, ó meu Deus, de me fazer ver se existo, se eu sou!... (Estas últimas palavras são ditas com um acento dilacerante.)
Nota. Se o Sr. Claudius perseverou até o fim em sua incredulidade, não foram os meios de se esclarecer que lhe faltaram; como médico, ele tinha necessariamente o espírito cultivado, a inteligência desenvolvida, um saber acima do vulgo, e, no entanto, isto não lhe bastou. Em suas minuciosas investigações da natureza morta e da natureza viva, ele não entreviu Deus, não entreviu a alma! Vendo os efeitos, não remontou à causa! ou, melhor dizendo, se fez uma causa à sua maneira, e seu orgulho de sábio impedia-o de confessar-se a si mesmo, de confessar, sobretudo, à face do mundo que
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poderia estar enganado. Circunstância digna de nota, ele morreu de um mal orgânico que ele sabia, por sua própria ciência, ser incurável: esse mal que ele tratava era uma advertência permanente; a dor que lhe causava era uma voz que lhe gritava, sem cessar, para pensar no futuro. No entanto nada pôde triunfar de sua obstinação; ele fechou os olhos até o último momento. É que esse homem jamais teria podido se tornar Espírita? seguramente não; nem fatos, nem raciocínios teriam podido vencer uma opinião tomada antes, e da qual estava resolvido não se desviar. Era desses homens que não querem se entregar à evidência, porque neles a incredulidade é inata, como em outros a crença; o sentido pelo qual poderão um dia assimilar os princípios espirituais não eclodiu ainda; são para a espiritualidade o que são os cegos para a luz: não a compreendem.
A inteligência não basta, pois, para conduzir ao caminho da verdade; ela é como um cavalo que nos conduz, e que segue o caminho sobre o qual se o lançou; se esse caminho conduz a um lamaçal, ali ele precipita o cavaleiro; mas, ao mesmo tempo, lhe dá os meios de se levantar.
O Sr. Claudius tendo morrido voluntariamente em cegueira, não é de se admirar que não tenha visto logo a luz; que não se reconhecesse num mundo que não quis estudar; que, morto com a idéia do nada, duvida de sua própria existência; incerteza pungente que faz o seu tormento. Ele caiu no precipício onde impeliu seu corcel-inteligência. Mas pode se levantar dessa queda, e já parece entrever um clarão que, se o seguir, o conduzirá ao porto. É nesses louváveis esforços que é preciso sustentá-lo pela prece; quando uma vez tiver gozado dos benefícios da luz espiritual, terá horror das trevas do materialismo; e, se retornar um dia à Terra, será com intuições e aspirações diferentes daquelas que tinha em sua última existência.
UM OPERÁRIO DE MARSEILLE.
Num grupo Espírita de Marseille, a Sra. T..., um dos médiuns, escreveu espontaneamente a comunicação seguinte:
Escutai um infeliz que foi arrancado violentamente do meio de sua família, e que não sabe onde está... No meio das trevas em que me encontro, pude seguir o raio luminoso de um Espírito, ao que se me diz; mas não creio nos Espíritos. Bem sei que é uma fábula inventada pelas cabeças de vento e crédulas... De minha parte, disso não compreendo mais nada... Vejo-me duplo; um corpo mutilado jaz ao meu lado, e, no entanto, estou vivo... Vejo os meus que me lamentam, sem contar meus companheiros de infortúnio, que não vêem tão claro quanto eu; também aproveitei da luz que me conduziu aqui para vir haurir informações junto a vós.
Parece-me que não é a primeira vez que vos vejo; minhas idéias estão ainda perturbadas... será permitem-me retornar uma outra vez quando estiver mais habituado à minha posição atual... É indiferente, vou-me daqui lamentando; encontrava-me em meu centro... mas senti que era preciso obedecer; esse Espírito me parece bom, mas severo. Vou me esforçar para ganhar a sua boa graça para poder falar mais freqüentemente convosco.
UM OPERÁRIO DA CORTE LIEUTAUD.
No desmoronamento de uma ponte que teve lugar poucos dias antes, seis operários tinham perecido; foi um deles que se manifestou.
Depois dessa comunicação, o guia do médium lhe ditou a que segue:
Cara irmã, esse infeliz Espírito foi a ti conduzido para exercer a caridade. Como nós a praticamos para com os encarnados, a vossa deve se exercer para com os desencarnados.
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Se bem que esse infeliz esteja sustentado por seu anjo guardião, esse deve lhe permanecer invisível, até que se reconheça bem em sua situação. Por isto, cara irmã, tome-o sob tua proteção, que é ainda fraco, nisto convenho; mas, sustentado pela fé, este Espírito logo verá reluzir a aurora de um novo dia, e o que recusou reconhecer desde sua catástrofe, se tornará logo para ele um motivo de paz e de alegria. Tua tarefa não será muito difícil, porque ele tem o essencial para te compreender: a bondade do coração.
Escuta, cara irmã, os impulsos de teu coração, e sairás vitoriosamente da prova que tua nova missão te impõe.
Sustentai-vos mutuamente, caros irmãos e bem amadas irmãs, e a nova Jerusalém, que estais a ponto de alcançar, vos será aberta com cantos de triunfo, porque o cortejo que vos seguirá os tornará vitoriosos. Mas para bem conhecer os obstáculos exteriores, é preciso antes de tudo ter vencido a si mesmo. Deveis manter uma disciplina severa para com o vosso coração; a menor infração deve ser reprimida, sem procurar atenuar a falta, senão jamais sereis vencedores dos outros; entre vós, vos é preciso rivalizar em virtudes e em vigilância.
Coragem, amigos; não estais sós; estais sustentados e protegidos pelos combatentes espirituais que operam em vós, e chamam sobre vós a bênção do Altíssimo.
Vosso Guia.
Este fato, como se vê, tem alguma analogia de situação com o precedente; é igualmente um Espírito que não se reconhece, que não compreende a sua situação, mas é fácil saber qual dos dois sairá primeiro da incerteza. Na linguagem de um, se reconhece o sábio orgulhoso, que raciocinou sua incredulidade, que, parece, nem sempre fez de sua inteligência e de seu saber o melhor uso possível; o outro é uma natureza inculta, mas boa, à qual, sem dúvida, não faltou senão uma boa direção. A incredulidade nele não é um sistema, mas uma conseqüência da falta de ensino conveniente. Aquele que, quando vivo, talvez tenha tomado o outro em piedade, poderia bem vê-lo antes numa posição mais feliz que ele. Possa Deus colocá-los em presença para a sua instrução mútua, e o sábio poderia bem ser muito feliz por receber as lições do ignorante.
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VARIEDADES
A LIGA DO ENSINO.
Lê-se no Siécle de 10 de julho de 1867:
"Uma sessão da associação fundada por Jean Mace vem de ser autorizada, em Metz, pela prefeitura, sob o nome de "Cercle messin de Ia Ligue de l'enseignement."
"Lê-se, a esse respeito, em Moselle'.
"A comissão diretora eleita do círculo entrou em função e decidiu começar seus trabalhos pela fundação de uma biblioteca popular, do modelo daquelas que prestavam tão grandes serviços em Alsace.
"Para esta obra, o círculo de Metz reclama o concurso de todos e solicita a adesão de quem se interesse pelo desenvolvimento da instrução e da educação em nossa cidade. Essas adesões, acompanhadas de uma cotização, cujo valor e o modo de pagamento são facultativos e as doações de livros, serão recebidos por qualquer um dos membros da comissão."
Assim, como dissemos, quando falamos da Liga do ensino (Revista de março e abril de 1867, páginas 79 e 110), nossas simpatias foram adquiridas de todas as idéias progressistas nesse projeto, não criticamos senão o modo de execução. Estaremos, pois, felizes em ver as aplicações práticas desse belo pensamento.
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SENHORA WALKER, DOUTORA EM CIRURGIA.
Os médicos e os internos do hospital do Charité receberam sábado, durante a visita matinal, um de seus confrades americanos, e que, na última guerra da América, fez uma certa reputação.
Esse doutorem cirurgia não era outro senão a senhora Walker que, durante a guerra da secessão, nos Estados Unidos, dirigiu um importante serviço de ambulâncias. Pequena, de um temperamento delicado, posta com a elegante simplicidade que distingue as senhoras do mundo, a senhora Walker foi recebida muito simpaticamente e muito respeitosamente. Ela se interessou vivamente em dois grande serviços, um cirúrgico, o outro médico.
Sua presença no Charité proclamava um princípio novo que recebeu sua consagração no novo mundo: a igualdade da mulher diante da ciência.
(Opinion nationale.)
(VeraRewsfadejunhode 1867, p. 161; janeiro de 1866, p. 1, sobre a emancipação das mulheres.)
OIMAN, GRANDE CAPELÃO DO SULTÃO.
Sábado (6 de julho), disse a Presse, o iman, ou grande capelão do sultão, Hairoulah-Effendi, retribuiu visita ao Mons. Chigi, núncio, e ao Mons. arcebispo de Paris."
A viagem do sultão a Paris é mais do que um acontecimento político, é um sinal dos tempos, o prelúdio do desaparecimento dos preconceitos religiosos que, portão longo tempo, levantaram uma barreira entre os povos e ensangüentaram o mundo. O sucessor de Maomé vindo, por sua plena vontade, visitar um país cristão, confraternizando com um soberano cristão, teria sido de sua parte, não há muito tempo, um ato audacioso; hoje, esse fato parece muito natural. O que é mais significativo ainda é a visita do iman, seu grande capelão, aos chefes da Igreja. A iniciativa que tomou nessa circunstância, porque a etiqueta não o obrigava a isso, é uma prova do progresso das idéias. Os ódios religiosos são anomalias no século em que estamos, e é um bom augúrio para o futuro, ver um dos príncipes da religião muçulmana dar o exemplo da tolerância e abjurar prevenções seculares.
Uma das conseqüências do progresso moral, certamente, será um dia a unificação das crenças; ela ocorrerá quando os diferentes cultos reconhecerem que não há senão um único Deus para todos os homens, e que é absurdo indigno dele lançar-lhe o anátema porque não se o adorar da mesma maneira.
JEAN RYZAK. O PODER DO REMORSO.
ESTUDO MORAL.
Escreve-se de Winschoten, a 2 de maio de 1867, ao Journal de Bruxelles:
Sábado passado chegou a nossa comuna um trabalhador em aterros que se apresentou à moradia do guarda campestre, onde notificou esse funcionário para detê-lo
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e entregá-lo à justiça, diante da qual, dizia, tinha que confessar um crime cometido por ele há vários anos. Levado diante do burgomestre, esse operário, que declarou chamar-se J. Ryzak, fez o relato seguinte:
"Há mais ou menos doze anos, eu estava empregado nos trabalhos de dessecamento do lago de Harlem, quando um dia o brigadeiro, pagando a minha quinzena, entregou-me o soldo a um de meus camaradas, com ordem de passá-lo a este último. Gastei o dinheiro, e querendo me evitar o desgosto das procuras, resolvi matar o amigo a quem vinha de roubar. Para esse efeito, precipitei-o num dos sorvedouros do lago, e vendo-o retornar à superfície e fazer esforços para nadar até a margem, dei-lhe dois golpes de faca na nuca.
"Logo que meu crime se consumou, o remorso começou a se fazer sentir; logo tornou-se intolerável, e me foi impossível continuar a trabalhar. Comecei fugindo do teatro de meu crime enorme, não encontrando em nenhuma parte do país nem paz nem trégua, embarquei para as índias, onde empreguei-me no exército colonial. Mas lá também o espectro de minha vítima me perseguia noite e dia; minhas torturas foram incessantes e estranhas, e logo que meu tempo de serviço terminou, uma força irresistível me impeliu para retornar a Winschoten e pedir à justiça a paz de minha consciência. Ela mo dará impondo tal expiação que julgar conveniente; e se ordenar que eu morra, prefiro esse suplício àquele que me fez sentir há doze anos, a toda hora do dia e da noite, o carrasco que carrego dentro de mim." Depois desta declaração, e sobre a segurança adquirida pelo burgomestre de que o homem que tinha diante dele estava são de espírito, esse magistrado o remeteu à policia, que deteve Ryzak e comunicou imediatamente o fato ao oficial de justiça.
Espera-se aqui, com emoção, as conseqüências que poderão ter esse estranho acontecimento.
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS SOBRE ESTE ASSUNTO.
Sociedade de Paris, 10 de maio de 1867; Méd. Senhorita Lateltin.
Cada ser tem, como o sabeis, a liberdade do bem e do mal, o que chamais o livre arbítrio. O homem tem em si a consciência que o adverte quando faz o bem ou o mal, comete uma má ação, ou negligencia de fazer o bem; sua consciência que, como vigilante guardiã encarregada de velar por ele, aprova ou desaprova sua conduta. Freqüentemente ocorre que se mostre rebelde à sua voz, que repila suas inspirações; quer-se abafar para esquecer; mas jamais ela é muito completamente aniquilada para que, num momento dado, não se revele mais forte e mais poderosa, e não faça um controle severo de vossas ações.
A consciência produz dois efeitos diferentes: a satisfação de ter agido bem, a paz que deixa o sentimento do dever cumprido, e o remorso que penetra e tortura quando se faz uma ação reprovada por Deus, os homens ou a honra; propriamente falando, é o senso moral. O remorso é como uma serpente de mil pregas, que circula ao redor do coração e o devasta; é o remorso que sempre faz ouvir os mesmos acentos e vos grita: Tu fizeste uma ação má; nela deveras ser punido: teu castigo não cessará senão depois da reparação. E quando, a esse suplício de uma consciência atormentada, vem se juntar a visão constante da vítima, da pessoa a quem se fez mal; quando, sem repouso nem trégua, sua presença censura ao culpado sua conduta indigna, repete-lhe, sem cessar, que sofrerá enquanto não tiver expiado e reparado o mal que fez, o suplício se torna intolerável; é então que, para pôr fim às suas torturas, seu orgulho se dobra, e confessa seus crimes. O mal leva consigo sua pena pelo remorso que deixa e pelas censuras que faz unicamente a presença daqueles contra os quais se agiu mal.
Crede-me, escutai sempre essa voz que vos adverte quando estais prestes a falir; não a abafeis pela revolta de vosso orgulho, e se falirdes, apressai-vos em reparar o mal,
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de outro modo o remorso será a vossa punição; quanto mais tardardes, mais a reparação será penosa e o suplício prolongado.
UM ESPÍRITO.
(Mesma sessão; médium Sra. B...).
Tendes hoje um exemplo notável da punição que sofrem, mesmo sobre a Terra, aqueles que se tornaram culpados de uma má ação. Não é somente no mundo invisível que a visão de uma vítima vem atormentar o assassino para forçá-lo ao arrependimento; ali onde a justiça dos homens não começou a expiação, a justiça divina faz começar, com o desconhecimento de todos, o mais lento e o mais terrível dos suplícios, o mais temido castigo.
Há certas pessoas que dizem que a punição infligida ao criminoso, no mundo dos Espíritos, e que consiste na visão continuada de seu crime, não pode ser muito eficaz, e que em nenhum caso, não é essa punição que determina, só ela, o arrependimento. Elas dizem que um perverso natural, como o é o de um criminoso, não pode senão se exasperar cada vez mais por essa visão, e se tornar, assim, pior. Aquelas que assim falam não fazem uma idéia do que pode se tornar um tal castigo; elas não sabem o quanto é cruel esse espetáculo contínuo de uma ação que se gostaria de não ter jamais cometido. Certamente, vemos alguns criminosos se endurecerem, mas, freqüentemente, isto não é senão pelo orgulho, e por querer parecer mais forte do que a mão que os castiga; é para fazer crer que não se deixa abater pela visão de vãs imagens; mas essa falsa coragem não é de longa duração; logo os vemos enfraquecer em presença desse suplício, que deve muito de seus efeitos à sua lentidão e à sua persistência. Não há orgulho que possa resistira essa ação semelhante à da gota d'água sobre a pedra; tão dura que possa ser a pedra, ela é inevitavelmente atacada, desagregada, reduzida a pó. É assim que o orgulho que faz enrijecer esses infelizes contra o seu soberano senhor, é cedo ou tarde abatido, e que o arrependimento possa, enfim, ter acesso em sua alma; como eles sabem que a origem de seus sofrimentos está em sua falta, pedem para reparar essa falta, a fim de trazer um abrandamento aos seus males.
Àqueles que poderiam disto duvidar, não tendes senão que citar o fato que vos foi assinalado esta noite; ali, não é apenas a hipótese, não é mais unicamente o ensino dos Espíritos, é um exemplo de alguma sorte palpável que se vos apresenta; neste exemplo, o castigo seguiu de perto a falta, e foi tal que, ao cabo de vários anos, forçou o culpado a pedir a expiação de seu crime à justiça humana, e disse a si mesmo que todas as penas, a própria morte, lhe pareceriam menos cruéis do que aquilo que sofria no momento em que se entregou à justiça.
UM ESPÍRITO.
Nota. Sem ir procurar aplicações do remorso entre os grandes criminosos, que são exceções na sociedade, são encontradas nas circunstâncias mais comuns da vida. É esse sentimento que leva todo indivíduo a se afastar daqueles para os quais sente que tem censuras a se fazer; em sua presença, ela fica constrangida; se sua falta não for conhecida, teme ser adivínhada; parece-lhe que um olhar pode penetrar ofundo de sua consciência; ele vê em toda palavra, em todo gesto, uma alusão à sua pessoa; é porque, desde que se sente desmascarado, se retira. O ingrato, ele também, foge de seu benfeitor, porque sua visão é uma censura incessante da qual procura em vão se desembaraçar, porque uma voz íntima lhe grita, no fundo de sua consciência, que é culpado.
Se o remorso já é um suplício sobre a Terra, quanto esse suplício será maior no mundo dos Espíritos, onde não se pode subtrair-se à visão daqueles que se ofendeu!
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Felizes aqueles que tenham reparado, desde esta vida, poderão sem medo afrontar todos os olhares no mundo onde nada está escondido.
O remorso é uma conseqüência do desenvolvimento do senso moral; ele não existe ali onde o senso moral está ainda no estado latente; é por isto que os povos selvagens e bárbaros cometem, sem remorso, as piores ações. Aquele, pois, que se pretendesse inacessível ao remorso, se assemelharia ao animal. À medida que o homem progride, o senso moral se torna mais delicado; ofusca-se com o menor desvio do caminho reto; daí o remorso que é um primeiro passo para o retorno ao bem.
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DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS.
PLANO DE CAMPANHA. -A ERA NOVA.
CONSIDERAÇÕES SOBRE O SONAMBULISMO ESPONTÂNEO.
(Paris, 10 de fevereiro de 1867. Médium Sr. T..., em sono espontâneo.) Nota. Nesta sessão, nenhuma questão preliminar havia provocado o assunto que foi tratado. O médium estava de início ocupado de saúde, depois, cada vez mais, se achou conduzido às reflexões das quais daremos adiante análise. Falou quase uma hora sem interrupção.
Os progressos do Espiritismo causam a seus inimigos um pavor que não podem dissimular. No começo brincaram com as mesas girantes, sem sonharem que acariciavam uma criança que deveria crescer;... a criança cresceu... então pressentiram o seu futuro, e se disseram que nisso teriam logo razão... Mas a criança tinha, como se disse, a vida duradoura. Ela resistiu a todos os ataques, aos anátemas, às perseguições, mesmo à zombaria. Semelhante a certos grãos que o vento carrega, produziu inumeráveis rebentos;... por um que se lhe destruísse, produzia cem outros deles.
De início, empregou-se contra ele as armas de uma outra época, as que se reuniam outrora contra as idéias novas, porque essas idéias não eram senão clarões esparsos a se fazer luz através da ignorância, e que elas não tinha ainda tomado raiz nas massas,... hoje é outra coisa; tudo mudou; os costumes, as idéias, o caráter, as crenças; a Humanidade não se emociona mais com as ameaças que atemorizavam as crianças; o diabo, tão temido por nossos avós, não faz mais medo: dele se ri.
Sim, as armas antigas se enfraqueceram com a couraça do progresso. É como se, em nossos dias, um exército quisesse atacar uma praça forte guarnecida de canhões, com as flechas, os aríetes e as catapultas de nossos ancestrais.
Os inimigos do Espiritismo viram, pela experiência, a inutilidade das armas carcomidas do passado contra a idéia regeneradora; longe de prejudicá-lo, seus esforços serviram para acreditá-lo.
Para lutar com vantagem contra as idéias do século, seria preciso estar à altura do século; às doutrinas progressistas, seria preciso opor doutrinas mais progressistas ainda...; mas o menos não pode se impor sobre o mais.
Não podendo, pois, triunfar pela violência, recorreram à astúcia, a arma daqueles que têm consciência de sua fraqueza... os lobos se fizeram ovelhas para se introduzirem no curral, ali semeara desordem, a divisão, a confusão. Porque chegaram a lançar a perturbação em algumas fileiras, se acreditaram muito cedo senhores da praça. Os adeptos isolados com isto não continuaram menos a sua obra, e a idéia faz cada dia seu caminho sem muito ruído... Foram eles que fizeram o ruído... Não a vedes penetrar por toda a parte! Nos jornais, nos livros, no teatro, e mesmo no púlpito das igrejas? Ela trabalha todas as consciências; arrasta os espíritos para novos horizontes; é encontrada no estado de intuição naqueles mesmos que dela nunca ouviram falar. Está aí um fato que ninguém pode negar, e que se torna cada dia mais evidente; não é a prova de que a idéia é irresistível, e que é um sinal do tempo?
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Aniquilá-la é, pois, coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-la não sobre um ponto, mas sobre o globo inteiro; e depois, as idéias não são levadas sobre a asa dos ventos, e como as alcançar?
Pegam-se os pacotes de mercadorias na alfândega; mas as idéias! elas são inapreensíveis.
Que fazer então? Tentar delas se apoderar para acomodá-las à sua maneira... Pois bem! é o partido pelo qual se decidiram. Disse a si mesmo: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ele não esteja inteiramente realizado, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que ela não seja daquelas como certas revoluções políticas; desnaturando-lhe o espírito, poder-se-ia lhe imprimir uma outra corrente.
O plano de campanha está, pois, mudado... vereis se formarem reuniões espíritas, cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns terão as comunicações de comando apropriadas ao objetivo que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, se esforçarão por demoli-lo; doutrinas que lhe emprestarão algumas idéias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta a ser sustentada, e que será perseguida com obstinação, mas da qual sairá vitorioso o mais forte. Que podem os homens contra a vontade de Deus? É possível desconhecê-la em presença do que se passa? Seu dedo não está visível nesse progresso que desafia todos os ataques? nesses fenômenos que surgem de todas as partes como um protesto, como um desmentido dado a todas as negações?... A vida dos homens, a sorte da Humanidade não estão em suas mãos?... os cegos!... Eles contam sem a nova geração que se levanta, e que cada dia domina a geração que se vai... ainda alguns anos, e esta terá desaparecido, não deixando depois dela senão a lembrança de suas tentativas insensatas para deter o impulso do espírito humano que caminha, quando mesmo... Eles contam sem os acontecimentos que vão apressar a eclosão do novo período humanitário... sem os apoios que vão se levantar em favor da nova Doutrina e cuja voz possante imporá silêncio a seus detratores pela sua autoridade.
Oh! quanto a face do mundo será mudada para aqueles que verão o começo do século próximo!...Quantas ruínas verão atrás de si, e que horizontes esplêndidos se abrirão diante deles!... isso será como a aurora pisoteando as sombras da noite;... aos ruídos, aos tumultos, aos rugidos da tempestade sucederão os cantos de alegria; após as angústias, os homens renascerão para a esperança... Sim! o vigésimo século será um século bendito, porque verá a era nova anunciada pelo Cristo.
Nota. Aqui o médium pára, dominado por uma emoção indizível, e como esgotado de fadiga. Depois de alguns minutos de repouso, durante o qual parece retornar ao grau de sonambulismo comum, ele retoma:
O que vos dizia, pois? - Faláveis do novo plano de campanha dos adversários do Espiritismo; depois considerastes a era nova. - Nisso estou.
Esperando, eles disputam o terreno pé a pé. Aproximadamente renunciaram às armas de uma outra época, cuja ineficácia foi reconhecida; tenta-se agora aquelas que são onipotentes neste século de egoísmo, de orgulho e de cupidez: o ouro, a sedução do amor-próprio. Ao lado daqueles que são inacessíveis ao medo, exploram-se a vaidade, as necessidades terrestres. Tal que resiste contra a ameaça, presta ouvido complacente à adulação, ao engodo do bem-estar material... Promete-se pão àquele que não o tem, trabalho ao artesão, práticas ao negociante, melhoria ao empregado, honras ao ambicioso se renunciarem às suas crenças; são atingidos em suas posições, em seus meios de existência, em suas afeições, se forem indóceis; depois a miragem do ouro produz sobre alguns seu efeito comum. Entre eles, necessariamente, se encontram alguns caracteres
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fracos que sucumbem à tentação. Há os que caem na armadilha da boa-fé, porque a mão que o levanta se esconde... Há-os também, e muitos, que cedem à dura necessidade, mas que nele não pensam menos; sua renúncia não é senão aparente; eles se dobram, mas para se levantar na primeira ocasião... Outros, aqueles que têm no mais alto grau a verdadeira coragem da fé, desafiam resolutamente o perigo; estes se reúnem sempre porque são sustentados pelos bons Espíritos... Alguns, ai!... mas estes jamais foram Espíritas de coração...preferem o ouro da Terra ao ouro do céu; ficam, pela forma, ligados à Doutrina e, sob este manto, nisto não servem senão à causa de seus inimigos... é uma triste troca que aí fazem, e que pagarão bem caro!
Nos tempos das cruéis provas que ireis atravessar, felizes aqueles sobre os quais se estender a proteção dos bons Espíritos, porque jamais ela terá sido tão necessária!... Orai pelos irmãos desgarrados, a fim de que aproveitem os curtos instantes de descanso que lhes são concedidos antes que a justiça do Altíssimo pese sobre eles...
Quando virem arrebentar a tempestade, mais de um gritará por graça! Mas lhe será respondido: Que fizestes de nossos ensinamentos? Vossos médiuns não escreveram cem vezes a vossa própria condenação?... Tivestes a luz, e não a aproveitastes; tínhamos vos dado um abrigo, porque o desertastes? Sofreis, pois, a sorte daqueles que preferistes. Se vosso coração tivesse sido tocado pelas nossas palavras, teríeis permanecido firmes no caminho do bem, que vos foi traçado; se tivésseis tido a fé, teríeis resistido às seduções tendentes ao vosso amor-próprio e à vossa vaidade. Acreditastes poder, pois, se nos impor, como aos homens, por falsas aparências? Sabei, se disto tiverdes dúvida, que não há um único movimento da alma que não tenha seu contragolpe no mundo dos Espíritos.
Credes que seja por nada que se desenvolve a faculdade vidente em um tão grande número de pessoas? que seja para oferecer um novo alimento à curiosidade que tantos médiuns hoje dormem espontaneamente o sono do êxtase? Não, desenganai-vos. Essa faculdade que vos foi anunciada há muito tempo, é um sinal característico dos tempos que se cumprem; é um prelúdio da transformação, porque, como vos foi dito, esse deve ser um dos atributos da nova geração. Essa geração, mais depurada moralmente, também o será fisicamente; a mediunidade, sob todas as formas, será quase geral, e a comunhão com os Espíritos um estado por assim dizer normal.
Deus envia essa faculdade vidente, nesses momento de crise e de transição, para dar aos seus fiéis servidores um meio para desfazer as tramas de seus inimigos, porque os maus pensamentos que se crêem escondidos na sombra das dobras da consciência, repercutem nessas almas sensitivas, como num espelho, e se descobrem por si mesmas. Aquele que não exale senão bons pensamentos, não teme que sejam conhecidos. Feliz aquele que pode dizer: Lede em minha alma como num livro aberto.
Nota. O sonambulismo espontâneo, do qual já falamos, com efeito, não é senão uma forma da mediunidade vidente cujo desenvolvimento foi anunciado há algum tempo, do mesmo modo que o aparecimento de novas aptidões medianímicas. É notável que, em todos os momentos de crise geral ou de perseguição, as pessoas dotadas dessa faculdade são mais numerosas do que nos tempos comuns; houve muitas delas no momento da revolução; os Camísards dês Cévènes, perseguidos como feras, tinham numerosos videntes que os advertiram o que se passava ao longe; por esse fato, e por ironia, foram qualificados de iluminados; hoje começa-se a compreender que a visão à distância, e independente dos órgãos da visão, pode bem ser um dos atributos da natureza humana, e o Espiritismo o explica pela faculdade expansiva e as propriedades da alma. Os fatos desse gênero estão de tal modo multiplicados, que não se admira menos deles; o que parecia a alguns, outrora, milagre ou sortilégio, é hoje considerado como efeito natural. É um dos mil caminhos pelos quais penetra o Espiritismo, de sorte que, detido numa fonte, brilha por outras saídas.
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Essa faculdade não é, pois, nova, mas tende a se generalizar, sem dúvida, pelo motivo indicado na comunicação acima, mas também como meio de provar, aos incrédulos, a existência do princípio espiritual. No dizer dos Espíritos, ela se tornará mesmo endêmica, o que se explicaria naturalmente pela transformação moral da Humanidade, esta transformação devendo levar no organismo modificações que facilitarão a expansão da alma.
Como outras faculdades medianímicas, esta pode ser explorada pelo charlatanismo; é, pois, bom manter-se em guarda contra a fraude que poderia, por um motivo qualquer, procurar simulá-la, e de se assegurar, por todos os meios possíveis, da boa-fé daqueles que dizem possuí-la. Além do desinteresse material e moral, e a honradez notória da pessoa, que são as primeiras garantias, convém observar com cuidado as condições e as circunstâncias nas quais o fenômeno se produz, e de ver se elas não oferecem nada de suspeito.
OS ESPIÕES.
Sociedade de Paris, 12 de julho de 1867; méd. Sr. Morin, em sono espontâneo.
Quando, em conseqüência de uma terrível convulsão humanitária, a sociedade inteira se movia lentamente, oprimida, esmagada, e ignorando a causa de sua opressão, alguns seres privilegiados, alguns velhos veteranos do bem, trazendo em comum sua experiência da dificuldade em reproduzi-la, e acrescentando a isto o respeito que deveria provocar sua conduta e sua posição, resolveram procurar aprofundar as causas dessa crise geral, da qual cada um foi tocado em particular.
A era nova começa, e com ela o Espiritismo (este nome foi criado; não resta mais senão fazê-lo compreender e aprender-lhe em si mesmo o significado. O tempo impassível caminha sempre, e o Espiritismo, que não é mais somente uma palavra, não tem mais a se fazer compreender: ele é compreendido!... mas, alguns veteranos espíritas, essas criaturas, esses missionários, estão sempre à frente do movimento... Seu pequeno batalhão é bem fraco quanto ao número; mas paciência!... cada vez mais ele ganha adeptos, e logo será um exército: o exército dos veteranos do bem! Porque, em geral, o Espiritismo, em seu início, em seus primeiros anos, quase sempre não tem tocado senão corações já estragados pelos atritos da vida, os corações que sofreram e pagaram, corações que trazem em germe os princípios do belo, do bem, do bom, do grande.
Descendo sucessivamente da velhice à idade madura, da idade madura à idade viril e da idade viril à adolescência, o Espiritismo está infiltrado em todas as idades, como em todos os corações, em todas as religiões, em todas as seitas, por toda a parte! A assimilação foi lenta, mas segura!... E hoje não temais que caia essa bandeira espírita, levada desde o início por uma mão firme e segura; porque hoje, as jovens falanges dos batalhões espíritas não exclamam como seus adversários: "Lugar aos jovens. "Não, não dizem: "Saí, os velhos, para deixar subir os jovens." Eles não pedem senão um lugar no banquete da inteligência, senão o direito de se sentar ao lado de seus predecessores e trazer seu óbolo ao grande todo. Hoje, a juventude se viriliza; ela traz sua aquisição à idade madura em troca da experiência desta última, em razão da grande lei de reciprocidade e das conseqüências do trabalho coletivo para a ciência, a moralidade, o bem; porque, em definitivo, se a ciência progride, em benefício de quem progride? não são os corpos humanos que aproveitam de todas as elucidações, de todos os problemas resolvidos, de todas as invenções realizadas? e isto aproveita a todos, do mesmo modo que, se progredis em moralidade, isto aproveita a todos os Espíritos. Portanto, hoje, as pessoas jovens e os velhos são iguais diante do progresso e devem combater, lado a lado, pela sua realização.
O batalhão tornou-se um exército, exército invulnerável, mas que tem a combater, não um, mas milhares de adversários coligados contra ele. Portanto, pessoas jovens,
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trazei com confiança o ímpeto de vossas convicções, e vós, velhos, vossa sabedoria, vosso conhecimento dos homens e das coisas, vossa experiência sem ilusão.
O exército está em frente de batalha. Vossos inimigos são numerosos, mas não são, em face de vós, frente contra frente, peito contra peito; estão por toda a parte ao vosso lado, adiante, atrás, no vosso meio, no próprio seio de vosso coração, e não tendes para combatê-los senão vossa boa vontade, vossas consciências leais e vossas tendências ao bem. Desses exércitos coligados, um tem nome: o orgulho; os outros: a ignorância, o fanatismo, a superstição, a preguiça, os vícios de toda a natureza.
E o vosso exército que deve combater de frente, deve também saber lutarem particular, porque não estareis um contra um, mas um contra dez!... A bela vitória a conquistar!... pois bem! se combateis todos em massa, com a esperança de triunfar, combatei-vos primeiro a vós mesmos, domai as vossas más tendências; hipócritas, adquiri a sinceridade; preguiçosos, tornai-vos trabalhadores; orgulhosos, sede humildes, estendei a mão à lealdade vestida com uma blusa em farrapos, e todos, solidariamente, tomai e tende o compromisso de fazer a outrem o que quereríeis que vos fosse feito. Portanto, exclamemos, não mais: Lugar aos jovens, mas lugar a tudo que é belo, ou bem, a tudo que tende a se aproximar da Divindade.
Hoje, começa-se a tomá-lo em consideração esse pobre Espiritismo que se dizia natimorto; vê-se nele um inimigo sério, e porque, pois?... Temiam, em seus inícios, essa criança débil; riam-se de seus esforços impotentes; mas hoje que a criança se tornou homem, se a teme porque ela tem a força da idade viril; é que ela reuniu ao seu redor homens de todas as idades, de todas as posições sociais, de todos os graus de inteligência, que compreendem que a sabedoria, a ciência adquirida, pode também residir no coração de um jovem de vinte anos quanto no cérebro de um homem de sessenta.
Portanto, hoje, esse pobre Espiritismo é receado, temido; não se ousa rirem face, medir-se com ele; tomam-se os caminhos de desvio, o caminho dos frouxos!... Não se vem, à luz do dia, dizer-lhe: Tu não és; vêm no meio de seus partidários, dizer como eles, fazer como eles, aplaudir e aprovar todo o que fazem quando está com eles, para combatê-los e traí-los quando se voltam as costas. Sim, eis o que se faz hoje! No princípio, lhe diziam em face o que se pensava da criança fraca, mas hoje não se ousa mais, porque cresceu, e, no entanto, jamais mostrou os dentes.
Se me disseram para vos dizer isto, se bem que isto me seja sempre penoso, é que tinha a sua utilidade; nada, nenhuma palavra, nenhum gesto, nenhuma entonação de voz se efetuam sem que tenham a sua razão de ser e que não tragam seu contingente ao equilíbrio geral. A administração dos correios do Alto é bem mais inteligente e mais completa do que a de vossa Terra; toda palavra vai ao seu objetivo, ao seu endereço, sem subscrição, ao passo que entre vós a carta que não a leva jamais chega.
Nota. A comunicação acima é, como se vê, uma aplicação daquilo que foi dito na precedente sobre o efeito da faculdade vidente, e não é a única vez que nos foi dado constatar os serviços que essa faculdade está chamada a prestar. Não é dizer que falte acrescentar uma fé cega a tudo que pode ser dito em semelhante caso; haveria tanta imprudência em crer sem reserva em qualquer um, quanto desprezar as advertências que podem ser dadas por essa via. O grau de confiança que se pode a isso juntar depende das circunstâncias; essa faculdade pede para ser estudada; antes de tudo, é preciso agir com circunspecção, e guardar-se de um julgamento precipitado.
Quanto ao fundo da comunicação, sua coincidência com aquela que foi dada cinco meses antes, por um outro médium, e em outro meio, é um fato digno de nota, e sabemos que instruções análogas são dadas em diferentes centros. É, pois, prudente manter-se sobre a reserva com as pessoas sobre a sinceridade das quais não se tem toda razão para estar edificado. Os Espíritas, sem dúvida, não têm senão princípios altamente louváveis; não têm nada a esconder; mas o que têm a temer, é de ver suas palavras desnaturadas e suas instruções travestidas; são as armadilhas estendidas à sua boa-fé
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por pessoas que demandam o falso para saber o verdadeiro; que, sob as aparências de um zelo muito exagerado para ser sincero, tendem a arrastar os grupos por um caminho comprometedor, seja para lhes suscitar embaraços, seja para lançar o desfavor sobre a Doutrina.
A RESPONSABILIDADE MORAL.
Sociedade de Paris, 9 de julho de 1867. Méd. Sr. Nivard.
Assisto a todas as tuas conversas mentais, mas sem dirigi-las: teus pensamentos são emitidos em minha presença, mas não os provoco. É o pressentimento dos casos que têm alguma chance de se apresentar, que faz nascer em ti os pensamentos próprios para resolver as dificuldades que poderiam te suscitar. Aí está o livre arbítrio; é o exercício do Espírito encarnado, tentando resolveres problemas que ele mesmo se coloca.
Com efeito, se os homens não tivessem senão as idéias que os Espíritos lhes inspiram, teriam pouco de responsabilidade e pouco de mérito; não teriam senão a responsabilidade de ter escutado maus conselhos, ou o mérito de ter seguido os bons. Ora, essa responsabilidade e esse mérito, evidentemente, seriam menores se fossem o resultado do inteiro livre arbítrio, quer dizer, atos cumpridos na plenitude do exercício das faculdades do Espírito que, neste caso, age sem nenhuma solicitação.
Resulta do que eu disse que, muito freqüentemente, os homens têm pensamentos que lhe são essencialmente próprios, e que os cálculos aos quais se entregam, os raciocínios que têm, as conclusões às quais chegam, são o resultado do exercício intelectual, ao mesmo título que o trabalho manual é o resultado do exercício corpóreo. Não seria preciso concluir daí, que o homem não é assistido em seus pensamentos e em seus atos pelos Espíritos que o cercam, muito ao contrário; os Espíritos, sejam benevolentes ou malévolos, freqüentemente, são a causa provocadora de vossos atos e de vossos pensamentos; mas ignorais completamente em que circunstância essa influência se produz, de sorte que agindo, credes fazê-lo em virtude de vosso próprio movimento: vosso livre arbítrio permanece intacto; não há diferença entre os atos que cumpris sem a eles serdes impelidos, e aqueles que cumpris sob a influência dos Espíritos, senão no grau do mérito ou nas responsabilidades.
Nume noutro caso, a responsabilidade e o mérito existem, mas, eu o repito, não existem no mesmo grau. Este princípio que anuncio, creio, não tem necessidade de demonstração; bastar-me-á, para prová-lo, fazendo uma comparação no que existe entre vós.
Se um homem cometer um crime, seduzido pelos conselhos perigosos de um homem que exerce sobre ele muita influência, a justiça humana saberá reconhecê-lo, concedendo-lhe o benefício das circunstâncias atenuantes; ela irá mais longe: punirá o homem cujos conselhos perniciosos provocaram o crime, e sem nele ter de outro modo contribuído, esse homem será mais severamente punido do que aquele que não foi senão o instrumento, porque foi seu pensamento que concebeu o crime, e sua influência sobre um ser mais fraco que o fez executar. Pois bem! o que fazem os homem neste caso diminuindo a responsabilidade do criminoso e partilhando-a com o infame que o levou a cometer o crime, como quereríeis que Deus, que é a própria justiça, não o faria tanto, uma vez que a vossa razão vos diz que é justo agir assim?
Para o que concerne o mérito das boas ações, que eu disse ser menor se o homem foi solicitado a fazê-las, é a contrapartida daquilo que venho de dizer a respeito da responsabilidade, e pode-se demonstrar invertendo a proposição.
Assim, pois, quando te ocorre refletir e passear as idéias de um assunto a um outro; quando discutes mentalmente sobre os fatos que prevês ou que já se cumpriram; quando tu analisas, quando raciocinas e quando julgas, não creia que sejam os Espíritos que te ditam teus pensamentos ou que te dirigem; eles estão lá, perto de ti, te escutam; vêem
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com prazer esse exercício intelectual ao qual tu te entregas; seu prazer é duplo, quando vêem que tuas conclusões estão conformes à verdade.
Ocorre-lhes, algumas vezes, evidentemente, de se misturar a esse exercício, seja para facilitá-lo, seja para dar ao Espírito alguns alimentos, ou lhe criar algumas dificuldades, a fim de tornar essa ginástica intelectual mais proveitosa para aquele que a pratica; mas, em geral, o homem que procura, quando está entregue às suas reflexões, age quase sempre sozinho, sob o olhar vigilante de seu Espírito protetor, que intervém se o caso é bastante grave para tornar sua intervenção necessária.
Teu pai, que vela sobre ti, e que está feliz de te ver quase restabelecido. (O médium saía de uma doença grave.)
LOUISNIVARD.
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RECLAMAÇÃO AO JORNAL LA MARIONNETTE.
La Marionnette, novo jornal de Lyon, havia publicado o artigo em seguida, em seu número de 30 de junho último:
"Assinalamos a chegada a Lyon do museu antropológico e etnológico do Sr. Neger, sucessor do Sr. Th. Petersen.
"Entre outras coisas extraordinárias, vêem-se nesse museu de cera: 1° uma infortunada princesa da corte de Coromandel que, casada com um grande chefe de tribo, teve a infâmia de esquecer seus deveres conjugais com um Europeu muito sedutor, e é morta em Londres de uma doença de apatia;
"2° Tênias vinte vezes mais grossas, do que a natural, em todas as fases de sua existência, desde a mais tenra infância até a mais extrema velhice;
"3° A célebre Mexicana Julia Pastrana morta na cama, em Moscou no ano de graça 1860.
"Não foi sem uma admiração legítima que soubemos dessa morte prematura, -tendo em vista que, em 1865, Julia Pastrana se entregava a exercícios eqüestres num circo, cujas representações se davam na corte de Napoleão.
"Como uma morta em 1860 pode rebentar círculos de papel em 1865? Isto faz sonhar!
"ALLAN KARDEC"
Este número nos tendo sido comunicado, dirigimos ao diretor a reclamação seguinte:
Senhor,
Comunicaram-me o número 6 de vosso jornal, onde se encontra um artigo assinado: Allan Kardec. Não penso ter homônimo; em todos os casos, como não respondo senão pelo que escrevo, peco-vos consentir em inserira presente carta em vosso próximo número, a fim de informar vossos leitores que o Sr. Allan Kardec, o autor de O Livro dos Espíritos, é estranho ao artigo que leva seu nome e que não autoriza ninguém a dele se servir.
Recebei, senhor, minhas atenciosas saudações.
ALLAN KARDEC.
O diretor do jornal, imediatamente, nos respondeu o que segue:
Senhor,
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Nosso amigo Acariâtre, autor do artigo assinado por engano com o vosso nome, já lamenta pela negligência do revisor de provas. Eis a frase Ce/a fait rever Allan Kardec, alusão ao Espiritismo. As belezas de Lyon estão todas assinadas Acariâtre. Em nosso próximo número, retificaremos este engano.
Recebei, senhor, minhas atenciosas saudações.
E.B.LABAUME.
Nota. Esse jornal aparece todos os domingos, 5, passeio Lafayette, em Lyon.
ALLAN KARDEC.
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