Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Allan Kardec · Capítulo 6 de 13

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Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Maio

REVISTA ESPIRITA

 

JORNAL

 

DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

10o ANO NO. 5 MAIO 1867

 

ATMOSFERA ESPIRITUAL.

O Espiritismo nos ensina que os Espíritos constituem a população invisível do globo, que estão no espaço e entre nós, nos vendo e nos acotovelando sem cessar, de tal sorte que, quando nos acreditamos sós, temos constantemente testemunhas secretas de nossas ações e de nossos pensamentos. Isto pode parecer incômodo para certas pessoas, mas uma vez que assim é, não se pode impedir que o seja; cabe a cada um fazer como o sábio que não tinha medo de que sua casa fosse de vidro. Sem dúvida nenhuma, é a esta causa que é preciso atribuir a revelação de tantas torpezas e más ações que se cria enterradas na sombra.

Além disso sabemos que, além dos assistentes corpóreos, há sempre ouvintes invisíveis; que sendo a permeabilidade uma das propriedades do organismo dos Espíritos, estes podem se encontrar em número ilimitado num espaço dado. Freqüentemente, nos foi dito que, em certas sessões, estavam em quantidades inumeráveis. Na explicação dada ao Sr. Bertrand a propósito das comunicações coletivas que obteve, foi dito que o número dos Espíritos presentes era tão grande, que a atmosfera estava, por assim dizer, saturada de seus fluidos. Isto não é novo para os Espíritas, mas não se deduziu disto talvez todas as conseqüências.

Sabe-se que os fluidos emanado dos Espíritos são mais ou menos salutares segundo o grau de sua depuração; conhece-se o seu poder curativo em certos casos, e também seus efeitos mórbidos de indivíduo a indivíduo. Ora, uma vez que o ar pode estar saturado desses fluidos, não é evidente que. segundo a natureza dos Espíritos que proliferam em um lugar determinado, o ar ambiente se acha carregado de elementos salutares ou malsãos, que devem exercer uma influência sobre a saúde física tão bem quando sobre a saúde moral? Quando se pensa na energia da ação que um Espírito pode exercer sobre um homem, pode-se admirar daquela que deve resultar de uma aglomeração de centenas ou de milhares de Espíritos? Esta ação será boa ou má conforme os Espíritos derramem no meio dado um fluido benfazejo ou malfazejo, agindo à maneira das emanações fortificantes ou dos miasmas deletérios, que se esparramam no ar. Assim podem se explicar certos efeitos coletivos produzidos sobre as massas de indivíduos, o sentimento de bem-estar ou de mal-estar que se sente em certos meios, e que não têm nenhuma causa aparente conhecida, o arrastamento coletivo para o bem ou o mal, os impulsos gerais, o entusiasmo ou o desencorajamento, por vezes espécie de vertigem que se apodera de toda uma assembléia, de todo um povo mesmo. Cada indivíduo, em razão do grau de sua sensibilidade, sofre a influência dessa atmosfera viciada ou vivificante. Por este fato, que parece fora de dúvida, e que confirmam, ao mesmo tempo, a teoria e a experiência, encontramos nas relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo, um novo princípio de higiene que a ciência, sem dúvida um dia fará entrar em linha de conta. Podemos, pois, subtrair-nos a essas influências emanando

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de uma fonte inacessível aos meios materiais? Sem nenhuma dúvida; porque do mesmo modo que saneamos os lugares insalubres destruindo-lhes a fonte dos miasmas pestilentos, podemos saneara atmosfera moral que nos cerca, subtraindo-nos às influências perniciosas dos fluidos espirituais malsãos, e isto mais facilmente do que não podemos escapar às exalações pantanosas, porque isto depende unicamente de nossa vontade, e ali não estará um dos menores benefícios do Espiritismo quando for universalmente compreendido e sobretudo praticado.

Um princípio perfeitamente averiguado por todo Espírita, é que as qualidades do fluido perispiritual estão em razão direta das qualidades do Espírito encarnado ou desencarnado; quanto mais seus sentimentos são elevados e livres das influências da matéria, mais seu fluido é depurado. Segundo os pensamentos que dominam num encarnado, ele irradia raios impregnados desses mesmos pensamentos que os viciam ou os saneiam, fluidos realmente materiais, embora impalpáveis, invisíveis para os olhos do corpo, mas perceptíveis para os sentidos perispirituais, e visíveis para os olhos da alma, uma vez que impressionam fisicamente e tomam aparências muito diferentes para aqueles que estão dotados da visão espiritual.

Unicamente pelo fato da presença dos encarnados numa assembléia, osfluidos ambientes serão, pois, salubres ou insalubres, segundo os pensamentos dominantes sejam bons ou maus. Quem traz consigo pensamentos de ódio, de inveja, de ciúme, de orgulho, de egoísmo, de animosidade, de cupidez, de falsidade, de hipocrisia, de maledicência, de malevolência, em uma palavra, pensamentos hauridos na fonte das más paixões, espalha ao seu redor eflúvios fluídicos malsãos, que reagem sobre aqueles que o cercam. Numa assembléia, ao contrário, onde todos não trouxessem senão sentimentos de bondade, de caridade, de humildade, de devotamento desinteressado, de benevolência e de amor ao próximo, o ar estará impregnado de emanações saudáveis no meio das quais sente-se viver mais comodamente.

Se se considera agora que os pensamentos atraem os pensamentos da mesma natureza, que os fluidos atraem os fluidos similares, compreende-se que cada indivíduo conduz consigo um cortejo de Espíritos simpáticos, bons ou maus, e que assim o ar está saturado de fluidos em relação com os pensamentos predominantes. Se os maus pensamentos estão em minoria, eles não impedirão as boas influências de se produzirem, mas as paralisam. Se eles dominam, enfraquecem a irradiação fluídica dos bons Espíritos, ou mesmo por vezes, impedem os bons fluídos de penetrar nesse meio, como o nevoeiro enfraquece ou detém os raios do sol.

Qual é, pois, o meio de se subtrair à influência dos maus fluidos? Este meio ressalta da própria causa que produz o mal. Que se faz quando se reconheceu que um alimento é contrário à saúde? É rejeitado, e se os substitui por um alimento mais sadio. Uma vez que são os maus pensamentos que engendram os maus fluidos e os atraem, é preciso se esforçar de deles não ter senão bons, repelindo tudo o que é mau, como se repele um alimento que pode nos tornar doentes, em uma palavra, trabalhar pela sua melhoria moral, e, para nos servir de uma comparação do Evangelho, "não só limpar o vaso por fora, mas limpá-lo, sobretudo, por dentro."

A Humanidade, em se melhorando, verá se depurar a atmosfera fluídica no meio da qual ela vive, porque não a rodeará senão de bons fluidos, e que estes últimos oporão uma barreira à invasão dos maus. Se um dia a Terra chegar a não ser povoada senão por homens praticando entre eles as leis divinas, de amor e de caridade, ninguém duvida que não se encontrem nas condições de higiene física e moral diferentes daquelas que existem hoje.

Esse tempo está ainda longe, sem dúvida, mas em esperando-o, estas condições podem existir parcialmente, e é nas assembléias espíritas que cabe dar-lhe o exemplo. Aqueles que tiverem possuído a luz, serão um tanto mais repreensíveis quanto terão tido

 

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entre as mãos os meios de se esclarecer; incorrerão na responsabilidade dos atrasos que seu exemplo e sua má vontade terão levado na melhoria geral.

Isto é uma utopia, uma má declamação? Não; é uma dedução lógica dos próprios fatos que o Espiritismo nos revela a cada dia. Com efeito, o Espiritismo nos prova que o elemento espiritual, que, até o presente, foi considerado como antítese do elemento material, tem, com este último, uma conexão íntima, de onde resulta uma multidão de fenômenos inobservados ou incompreendidos. Quando a ciência tiver assimilado os elementos fornecidos pelo Espiritismo, ela nele haurirá novos e importantes recursos para apropria melhoria material da Humanidade. Assim, cada dia vemos se estender o círculo das aplicações da doutrina que está longe, como alguns o crêem ainda, de estar restrita ao pueril fenômeno das mesas girantes ou outros efeitos de pura curiosidade. O Espiritismo, realmente, não foi tomado em seu vôo, senão do momento em que entrou na via filosófica; é menos divertido para certas pessoas, que nele não procuravam senão uma distração, mas é melhor apreciado pelas pessoas sérias, e o será ainda mais, à medida que for melhor compreendido em suas conseqüências.

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O EMPREGO DA PALAVRA MILAGRE.

O jornal Ia Vérité, de Lyon, de 16 de setembro de 1866, num artigo intitulado Renan et son école, continha as reflexões seguintes, a propósito da palavra milagre.

"Renan e sua escola não se dão ao trabalho de discutir os fatos, os rejeitam todos à priori; qualificando-os erroneamente de sobrenaturais, e, portanto, impossíveis e absurdos; opõe-lhes um fim de não receber absoluto, e um desdém transcedente. Renan disse lá em cima uma palavra eminentemente verdadeira e profunda: "O sobrenatural não seria outra coisa do qu o sobre divino" Aderimos com toda a nossa energia a esta grande verdade, mas fazemos observar que a própria palavra milagre (mirum, coisa admirável e até então inexplicável) não quer dizer, tanto que lhe seja preciso, intervenção das leis da Natureza, mas bem antes flexibilidade dessas mesmas leis ainda desconhecidas do espírito humano. Diremos mesmo que haverá sempre milagres, porque a ascensão da Humanidade para o conhecimento cada vez mais perfeito, sendo sempre progressiva, este conhecimento terá necessidade constantemente de ser precedido e aguilhoado por fatos que parecerão maravilhosos à época em que se produzirão e não serão compreendidos e explicados senão mais tarde. Um escritor muito acreditado de nossa escola deixou se prendera esta objeção; (Allan Kardec) repete, em muitas passagens de suas obras, que não há nem maravilhoso, nem milagres; é uma advertência resultante do falso sentido de sobrenatural, completamente repelido pela etimologia da palavra. Dizemos nós que se a palavra milagre não existisse, para qualificar os fenômenos ainda em estudo e saindo da ciência vulgar, seria preciso inventá-la, como a mais apropriada e a mais lógica.

"Nada é sobrenatural, nós o repetimos, porque fora da natureza criada e da natureza incriada, não há absolutamente nada concebível; mas há do sobre-humano, quer dizer, dos fenômenos que podem ser produzidos por outros seres inteligentes senão os homens, segundo as leis de sua natureza ou bem produzidos, seja mediatamente, seja imediatamente por Deus, segundo a sua natureza ainda e segundo as suas relações naturais com suas criaturas."

PHILALETHÈS.

Nisto não estamos, graças a Deus, ignorando o sentido etimológico da palavra milagre; nós o provamos em muitos artigos, e notadamente no da Revista do mês de setembro de 1860, página 267. Não é, pois, nem por desprezo nem por inadvertência que

 

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repelimos a sua explicação aos fenômenos Espíritas, por extraordinários que possam parecer à primeira vista, mas bem com conhecimento de causa e com intenção.

Em sua acepção usual, a palavra milagre perdeu seu significado primitivo como tantas outras, a começar pela palavra filosofia (amor da sabedoria), da qual se serve hoje para exprimir as idéias mais diametralmente opostas, desde o mais puro espiritualismo até o materialismo mais absoluto. Não é duvidoso para ninguém que, no pensamento das massas, milagre implica a idéia de um fato extranatural. Perguntai a todos aqueles que crêem nos milagres se os consideram como efeitos naturais. A Igreja está de tal modo fixada sobre este ponto que ela anatematiza aqueles que pretendem explicar os milagres pelas leis da Natureza. A própria Academia define esta palavra: Ato do poder divino, contrário às leis conhecidas da natureza. ~ Verdadeiro, falso milagre.-Milagre averiguado.-Operar milagres. - O dom dos milagres.

Para ser compreendido por todos, é preciso falar como todo o mundo; ora, é evidente que. se tivéssemos qualificado os fenômenos Espíritas de miraculosos, o público teria desprezado o seu verdadeiro caráter, a menos de empregar, cada vez, uma circunlocução e de dizer que, se são milagres, não são milagres como se os entendem geralmente. Uma vez que a generalidade liga-lhe a idéia de uma derrogação às leis naturais, e que os fenômenos espíritas não são senão a aplicação dessas mesmas leis, é bem mais simples e sobretudo mais lógico dizer sem cerimônia: Não, o Espiritismo não faz milagres. Desta maneira, não há nem desprezo, nem falsa interpretação. Do mesmo modo que os progressos das ciências físicas destruiu uma multidão de preconceitos, e fez entrar na ordem dos fatos naturais um grande número de efeitos outrora considerados como miraculosos, o Espiritismo, pela revelação de novas leis, vem restringir ainda o domínio do maravilhoso; dizemos mais: dá-lhe o último golpe, é porque não está por toda a parte em odor de santidade, não mais do que a astronomia e a geologia.

Se aqueles que crêem em milagres entendessem esta palavra em sua acepção etimológica (coisa admirável), admirariam o Espiritismo em lugar de lhe lançar o anátema; em lugar de pôr Galileu na prisão por ter demonstrado que Josué não pôde deter o sol, ter-lhe-iam trançado coroas por ter revelado ao mundo coisas também admiráveis, e que atestam infinitamente melhor a grandeza e o poder de Deus.

Pelos mesmos motivos, repelimos a palavra sobrenatural do vocabulário espírita. Milagre teria ainda sua razão de ser em sua etimologia, salvo em determinar-lhe a acepção; sobrenatural é um contra-senso do ponto de vista do Espiritismo.

A palavra sobre-humano que propõe Philatéthès é igualmente imprópria, em nossa opinião, porque os seres que são os agentes primitivos dos fenômenos Espíritas se bem que no estado de Espírito, não pertencem menos por isto à Humanidade. A palavra sobre-humano tenderia a sancionara opinião há muito tempo acreditada, e destruída pelo Espiritismo, de que os Espíritos são criaturas à parte, fora da Humanidade. Uma outra razão peremptória é que muitos destes fenômenos são o produto direto dos Espíritos encarnados, por conseqüência dos homens, e

em todos os casos, requerem quase sempre o concurso de um encarnado; portanto, não são mais sobre-humanos do que sobrenaturais.

Uma palavra que está também completamente afastada de seu significado primitivo é a de demônio. Sabe-se que daimôn se dizia, entre os Antigos, dos Espíritos de uma certa ordem, intermediários entre os homens e aqueles que se chamavam ctei/ses. Est designação não implicava, na origem, nenhuma má qualidade; ao contrário, era tomada em boa parte; o demônio de Sócrates, certamente, não era um mau Espírito; ao passo que segundo a opinião moderna, proveniente da teologia católica, os demônios são anjos decaídos, seres à parte, essencialmente e perpetuamente votado ao mal.

Para ser conseqüente com a opinião de Philatéthès, seria preciso que, em respeito à etimologia, o Espiritismo conservasse também a qualificação de demônios. O Espiritismo chamando seus fenômenos de milagres, e os Espíritos demônios, seus adversários teriam

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tido sorte! Teria sido repelido por três quartas partes que o aceitam hoje, porque nele teriam visto um retorno a crenças que não são mais de nosso tempo. Vestir o Espiritismo com roupas usadas teria sido uma imperícia; teria sido levar um funesto golpe à doutrina que teria tido dificuldade em dissipar as prevenções que as apelações impróprias teriam mantido.

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REVISTA RETROSPECTIVA DAS IDÉIAS ESPÍRITAS

PUNIÇÃO DO ATEU.

"Viagem pitoresca e sentimental ao Campo de repouso em Montmartre e no Père-Lachaise; por Ans. Caillote, autor da Enciclopédia das senhoritas, e novas lições elementares da história da França." Tal é o título de um livro publicado em Paris, em 1808, e que deve ser muito raro hoje. O Autor, depois de ter dado a história e a descrição desses dois cemitérios, cita um grande número de inscrições dos túmulos sobre cada uma das quais faz reflexões filosóficas, cheias de um profundo sentimento religioso, provocadas pelo pensamento que as ditou. Nele primeiro notamos a passagem seguinte, onde se encontra claramente expressa a idéia da reencarnação:

"Que sábio e que homem profundamente religioso chamou o primeiro Campo de repouso o último asilo deste ser cuja existência, até seu último suspiro, é atormentada pelos seres que o cercam e por ele mesmo! Aqui todos repousam no seio da mãe comum, e num sono que não é senão o precursor do despertar, quer dizer, de uma nova existência. Esses restos veneráveis a terra os conserva como um depósito sagrado; e se ela se apressa em dissolvê-los, é para depurar-lhes os elementos, e torná-los mais dignos da inteligência que os reanimará um dia para novos destinos."

Mais longe, diz ele: "Oh! quanto o cego e audacioso mortal que ousa te expulsar de seu espírito e de seu coração (o ateu que nega a Deus), ficou admirado quando sua alma compareceu diante da Majestade infinita! Como não viu seu despojo se agitar e tremer de surpresa e de terror? Como sua língua gelada não se reanima para exprimir o pavor do qual foi tomada quando a carne não se achou mais entre ela e teus divinos olhares! Grande Deus! causa universal, alma da natureza! todos os seres te reconhecem e te celebram como seu único autor: só o homem afastaria de ti o espírito inteligente e razoável que lhe dás para te glorificar! Ah! sem dúvida, e eu gosto de crê-lo, não houve um único dos quarenta mil mortais, cujos corpos jazem aqui no pó, que não tivesse a convicção de tua existência e o sentimento de tuas adoráveis perfeições.

"Enquanto eu acabava de pronunciar com emoção estas últimas palavras, um ruído se fez ouvirão meu lado. Lancei os olhos para o lugar de onde ele vinha e percebi, coisa admirável e inaudita! um espectro que, envolvido em seu lençol, tinha saído de um túmulo, e avançava seriamente para mim, para falar-me. Esta aparição não foi senão um jogo de minha imaginação? É o que me é impossível assegurar; mas o diálogo seguinte, que retive bem, me faz crer que eu não era o único interlocutor para dois papéis ao mesmo tempo."

Aqui faremos uma pequena observação crítica, primeiro sobre a qualificação de espectro dada pelo autor à aparição, real ou suposta; esta palavra lembra muito as idéias lúgubres que a superstição liga ao fenômenos das aparições, hoje perfeitamente explicado segundo o conhecimento que se tem da constituição dos seres espirituais. Em segundo lugar, sobre o que faz sair essa aparição do túmulo, como se a alma nele fizesse a sua habitação. Mas este não é senão um detalhe de forma que se prende a preconceitos há muito tempo enraizados; o essencial está no quadro que ele apresenta da situação moral dessa alma, situação idêntica àquela que nos revelam hoje as comunicações com os Espíritos.

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O autor reporta, assim como segue, o diálogo que teve com o ser que lhe tinha aparecido.

"Quando o espectro foi se aproximando de mim, me fez ouvir estas palavras uma voz tal que me é impossível especificar-lhe o som, não tendo jamais ouvido uma outra semelhante entre os homens:

"Fazes bem em adorar a Deus; guarda-te de jamais me imitar, porque fui um ateu."

EU. Não acreditavas, pois, que existia um Deus?

O ESPECTRO. Não; ou antes, fiz parecer de não crer nele.

EU. Que razões tinhas para não acreditar que o Universo foi produzido e que é governado por uma suprema inteligência?

O ESPECTRO. Nenhuma. Eu o tinha inutilmente procurado, não encontrava nele pontos sólidos, e estava reduzido a não repetir senão vãos sofismas que tinha lido nas obras de alguns pretensos filósofos.

EU. Se não tinhas boas razões para ser ateu, tinhas, pois, motivos para parecê-lo?

O ESPECTRO. Sem dúvida. Vendo todos os meus semelhantes penetrados da idéia de um Deus e do sentimento de sua existência, o orgulho que me cegava me levou a me distinguir da multidão, sustentando, a quem quisesse me ouvir, que Deus não existia, e que o Universo era obra do acaso, ou mesmo que tenha sempre existido. Eu considerava como uma glória pensar sobre esse grande assunto diferentemente do que todos os humanos, e não achava nada de mais lisonjeador do que ser considerado no mundo como um Espírito bastante forte para se elevar contra a crença comum de todos os homens e de todos os séculos.

EU. Não tinhas um outro motivo senão o orgulho, para abraçar o ateísmo?

O ESPECTRO. Sim.

EU. Qual era esse motivo? Dize a verdade.

O ESPECTRO. A verdade!!... Sem dúvida, eu a diria; porque me é impossível na ordem de coisas onde existo de combatê-la ou de dissimulá-la.

Como todos os meus semelhantes, nasci com o sentimento da existência de um Deus, autor e princípio de todos os seres. Este sentimento, que não era de início senão um germe, onde meu Espírito não descobria nada, se desenvolveu pouco a pouco, e quando atingi a idade da razão, e adquiria faculdade de refletir, não tive que fazer nenhum esforço para me livrar disto. Quanto as lições de meus pais e de meus mestres me agradavam, quando Deus e suas perfeições íntimas lhe eram o assunto! Como o espetáculo da Natureza me encantava, e que doce satisfação sentia quando se me falava desse grande Deus que a tudo criou pelo seu poder, sustenta, governa e conserva tudo por sua sabedoria!

No entanto, cheguei à adolescência, e as paixões começaram a me fazer ouvir sua voz sedutora. Formei ligações com as pessoas jovens de minha idade; segui seus funestos conselhos e me conformava aos seus perigosos exemplos. Entrei no mundo com essas culposas disposições, e não pensava mais senão em lhe fazer o sacrifício de todos

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os exemplos de virtude e de sabedoria que se me tinham primeiro inspirado. Estes princípios, cada dia atacados por minhas paixões, se refugiaram no fundo de minha consciência e ali se mudaram em remorsos. Estes remorsos, não me deixando nenhum repouso, resolvi aniquilá-los, tanto quanto estava em mim a causa que os havia feito nascer. Achei que esta causa não era outra senão a idéia de um Deus remunerador da virtude e vingativo do crime; eu o ataquei com todos os sofismas que o meu Espírito pôde inventar ou descobrir nas obras destinadas a estender a doutrina do ateísmo.

EU. Ficaste mais tranqüilo quando amontoaste sofismas sobre sofismas contra a existência de Deus?

O ESPECTRO. Agi inutilmente, o repouso me fugia sem cessar; estava convencido, apesar de mim, embora a minha boca não pronunciasse uma palavra que não fosse uma blasfêmia, eu não tinha um sentimento que não combatesse contra mim, em favor de Deus.

EU. Que se passou em ti durante a doença da qual morreste?

O ESPECTRO. Eu quis sustentar até o fim o caráter de espírito forte; o orgulho me impedia de fazê-lo confessor de meu erro, embora disto sentisse interiormente a premente necessidade. Foi nessa criminosa e falsa disposição que deixei de existir.

EU. Que te aconteceu quando teus olhos foram para sempre fechados à luz?

O ESPECTRO. Achei-me todo investido da majestade de Deus, e fui tomado de um terror tão profundo que não tenho nenhuma palavra que dele possa te dar uma justa idéia. Eu esperava muito ser rigorosamente punido; mas o soberano juiz, cuja misericórdia abranda a sua justiça, relegou-me numa tenebrosa região habitada pelos Espíritos que tinham mãos inocentes e um cérebro enfermo.

EU. Qual é a sorte dos ateus que cometem crime contra a sociedade e seus semelhantes?

O ESPECTRO. O Ser dos seres os pune por ter sido maus e não por estarem enganados; porque ele despreza as opiniões e não recompensa ou não pune senão as ações.

EU. Não és, pois, punido na morada tenebrosa onde estás exilado?

O ESPECTRO. Ali sofri uma pena mais cruel que não podes imaginar. Deus, depois de me ter condenado, se afastou de mim; e logo, perdi toda a idéia de sua existência, e o nada se apresentou diante de mim em todo o seu horror.

EU. O quê! perdeste inteiramente a idéia da existência de Deus?

O ESPECTRO. Sim. É o maior suplício que um Espírito imortal possa sofrer, e nada pode fazer conceber o estado de abandono, de dor e de desordem no qual ele se encontra.

EU. Qual é, pois, a tua ocupação com os Espíritos entregues ao mesmo suplício?

O ESPECTRO. Disputamos sem cessar, sem poder nos entender; o disparate e a loucura presidem a todos os nossos debates; e, na profunda obscuridade onde nossa

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inteligência se acha enterrada, e não há nenhuma opinião, nenhum sistema que ela não adote, para logo rejeitá-los e conceber novas extravagâncias. É, pois, a agitação perpétua desse fluxo e desse ref luxo de idéias sem fundamento, sem continuidade, sem ligação, que consiste o castigo dos filósofos que foram ateus.

EU. Todavia, raciocinas neste momento aqui.

O ESPECTRO. É porque o meu suplício vai logo acabar. Foi muito longo este suplício; porque, embora não se conte sobre a Terra senão dois anos depois de minha morte, sofri de tal modo de todas essas loucuras, que disse e ouvi que me parece ter já passado dois milhares de séculos na região dos sistemas e das disputas.

Quando o Espectro assim falou, inclinou-se, adorou a Deus e desapareceu.

Quando fui liberto da emoção, que o que vinha de ver e de ouvir me tinha causado, meus pensamentos se reportaram para as coisas espantosas que o espectro me havia ensinado. O que me disse do primeiro Ser responde à idéia que um tão grande número de homens dele formaram? Que venho de ouvir? O quê! o próprio ateu, o horror de seus semelhantes, acaba por encontrar graça aos olhos dessa Divindade que se me representa como uma natureza vingativa e ciumenta! Pois bem! quem ousará agora dizer-me: Se tu não adotas tal ou tal opinião, serás condenado a suplícios eternos? Que bárbaro ousará dizer: Fora de minha comunhão, não há salvação? Ser incompreensível e todo misericordioso, encarregaste alguém do cuidado de te vingar? É a uma vil criatura que cabe dizer a os seus semelhantes: pensai como eu, ou sereis sempre infelizes! Que limites, grande Deus! podemos nós seres limitados que somos, fixar à tua clemência e à tua justiça? e com que direito dir-te-ei: Aqui recompensarás, lá punirás! Respondei, ó mortos que jazeis neste pó! possível vos foi ter todas as crenças nas quais nasci? Vossas inteligências foram todas igualmente feridas pelas provas que estabelecem os mistérios que adoram e os dogmas nos quais creio? Oh! como os graus de uma crença seriam por toda a parte os mesmos, assim como os graus de convicção? Homem intolerante e cruel, vem, se tens essa coragem, sentar-te ao meu lado, e ousa dizer às vítimas da morte, das quais vim escutar as lições, ousa dizer-lhes: "Sois aqui quarenta mil; pois bem! não há de vós senão dez, cinqüenta, cem entre vós, que o Deus vingador não devotou às chamas eternas!"

Se este discurso não fosse de um insensato, de que serviria a religião dos túmulos? Por que deveria eu respeitar as cinzas daqueles que não adoram o grande Ser à minha maneira? É neste círculo, onde os inimigos de minha crença repousam, confundidos com seus seguidores, que poderei ouvir as lições da verdadeira sabedoria? E de que impiedade me tornaria culpado em me comunicando com inteligências reprovadas, aos despejos das quais venho prestar uma homenagem inspirada pela religião, como pela Humanidade?

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UM A EXPIAÇÃO TERRESTRE.

O JOVEM FRANÇOIS.

As pessoas que leram O Céu e o Inferno, sem dúvida, se lembram da tocante história de Mareei, a criança do no 4, reportada no capítulo VIM, Expiações terrestres. O fato seguinte apresenta um caso quase análogo e não menos instrutivo, como aplicação da soberana justiça, e como explicação daquilo que, freqüentemente, parece inexplicável em certas posições da vida.

Numa boa e honesta família, morreu no mês de outubro de 1866, um jovem de doze anos, cuja vida, durante nove anos, não havia sido senão um sofrimento contínuo que

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nem os cuidados afetuosos dos quais estava cercado, nem os recursos da ciência não tinham podido mesmo abrandar. Estava atingido de paralisia e de hidropsia; seu corpo estava coberto de feridas invadidas pela gangrena e suas carnes caíam em pedaços. Freqüentemente, no paroxismo da dor, ele gritava: "Que fiz, pois, meu Deus, para merecer sofrer tanto! Desde que estou no mundo, não fiz mal a ninguém!" Instintivamente, essa criança compreendia que o sofrimento deveria ser uma expiação, mas na ignorância da lei de solidariedade das existências sucessivas, seu pensamento não remontava além da vida presente, não se dava conta da causa que poderia justificar nele um tão cruel castigo.

Uma particularidade digna de nota foi o nascimento de uma irmã, quando tinha em torno de três anos. Foi nessa época que se declararam os primeiros sintomas da terrível doença à qual deveria sucumbir. Desde esse momento também, concebeu pela recém-chegada uma repulsa tal que não podia suportar a sua presença, e que sua visão parecia redobrar seu sofrimento. Freqüentemente, se censurava esse sentimento que nada justificava, porque a pequenina não o partilhava; ao contrário, ela era para ele doce e amável. Ele dizia à sua mãe: "Por que, pois, a visão de minha pequena irmã me é tão penosa? Ela é boa para mim, e apesar de mim não posso me impedir de detestá-la." No entanto, não podia sentir que se lhe fizesse o menor mal, nem que se a atormentasse; longe de se alegrar com suas penas, afligia-se quando a via chorar. Era evidente que dois sentimentos se combatiam nele; compreendia a injustiça de sua antipatia, mas seus esforços para superá-la eram impotentes.

Que tais enfermidades sejam, numa certa idade, as conseqüências da má conduta, isto seria uma coisa toda natural; mas que faltas bastante graves uma criança desta idade pode ter se tornado culpada para suportar um semelhante martírio? Além disto, de onde poderia provir essa repulsa por um ser inofensivo? Aí estão os problemas que se apresentavam a cada instante, e que levam uma multidão de pessoas a duvidar da existência de Deus, porque para isto não encontram solução em nenhuma religião; essas anomalias aparentes encontram, ao contrário, sua completa justificativa na solidariedade das existências. Um observador espírita poderia, pois, dizer com toda a aparência de razão, que esses dois seres eram conhecidos, e foram colocados um ao lado do outro, na existência atual, para alguma expiação e a reparação de algum erro. Do estado de sofrimento do irmão, poder-se-ia concluir que ele era o culpado, e que os laços de parentes próximos que o uniam ao objeto de sua antipatia lhe eram impostos para preparar, entre eles, os caminhos de uma aproximação; assim se vê já no irmão uma tendência e esforços para superar o seu afastamento que reconhece injusto. Essa antipatia não tinha os caracteres do ciúme que se notam, às vezes, nas crianças de um mesmo sangue; ele provinha, pois, segundo toda a probabilidade, de lembranças penosas, e talvez de remorsos que a presença da jovenzinha despertava. Tais são as deduções que se podem racionalmente tirar, por analogia, da observação dos fatos, e que foram confirmados pelo Espírito da criança.

Evocado quase imediatamente depois de sua morte, por uma amiga da família à qual levava muita afeição, ele não pode de início se explicar de maneira completa, e prometeu dar ulteriormente os detalhes mais circunstanciados. Entre as diversas comunicações que deu, eis as duas que se reportam mais particularmente à questão.

"Esperais de mim o relato, que vos prometi, do que fui numa existência anterior e a explicação da causa de meus grandes sofrimentos; isto será para todos um ensinamento. Estes ensinamentos estão por toda a parte, eu o sei; encontram-se de todos os lados, mas o relato de fatos dos quais se viram as conseqüências, é sempre, para aqueles que existem, uma prova mais tocante.

"Eu pequei, sim eu pequei! Sabeis o que é ter sido assassino, ter atentado à vida de seu semelhante? Eu não o fiz da maneira que os assassinos empregam, matando em seguida, seja com uma corda, seja com uma faca, ou qualquer outro instrumento; não,

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não foi desta maneira. Eu matei, mas matei lentamente, fazendo sofrer um ser que eu detestava! Sim, eu o detestava, essa criança que acreditava não me pertencer! Pobre inocente! tinha merecido essa triste sorte! Não, meus pobres amigos, ela não tinha merecido, ou pelo menos não cabia a mim lhe fazer suportar esses tormentos. Eu o fiz, no entanto, e eis porque fui obrigado a sofrer como vistes.

"Eu sofri, meu Deus! e bastante? vós sois muito bom, Senhor! sim, em presença de meu crime e da expiação, acho que fostes muito misericordioso.

Orai por mim, caros pais, caros amigos; agora meus sofrimentos passaram. Pobre senhora D..., eu vos fiz sofrer! e que era muito penoso para mim vir fazer a confissão desse crime imenso!

"Esperança, meus bons amigos, Deus remiu a minha falta; estou agora na alegria, e, no entanto, também na pena; vede! é bom estar num estado melhor, ter expiado: o pensamento, a lembrança de seus crimes deixam uma tal impressão, que é impossível que não se lhe ressinta, por muito tempo ainda, todo o horror, porque não foi só sobre a Terra que sofri, mas antes, na vida espiritual! e, que dificuldade tive para me decidir vir sofrer essa expiação terrível! não posso vos narrar tudo isto, seria muito horrível! A visão constante de sua vítima, e a outra, a pobre mãe! Enfim, meus amigos: preces para mim e graças ao Senhor! Eu vos tinha prometido este relato; era preciso até o fim que eu quitasse a minha dívida, o que pudesse me custar.

(Até aqui o médium tinha escrito sob o domínio de uma viva emoção; continuou com mais calma.)

E agora, meus bons pais, uma palavra de consolação. Obrigado, oh obrigado! avós que me ajudastes nesta expiação, e que dela levastes uma parte; vós abrandastes, tanto quanto dependia de vós, o que eu tinha de amargo em meu estado. Não vos atormenteis, é uma coisa passada; eu sou feliz, eu vo-lo disse, sobretudo em comparando o estado passado e o estado presente. Eu vos amo a todos; agradeço-vos; abraço-vos; amai-me sempre. Nós nos reencontraremos, e, todos juntos, continuaremos esta vida eterna, esforçando-nos para que a vida futura resgate inteiramente a vida passada.

Vosso filho, FRANÇOIS E.

Numa outra comunicação, o Espírito do jovem François completou as informações acima.

Pergunta. Cara criança, não disseste de onde vinha a tua antipatia por tua pequena irmã.

Resposta. Não o adivinhais? Essa pobre e inocente criatura era minha vítima que Deus havia ligado à minha última existência como um remorso vivo; eis porque a sua visão me fazia tanto sofrer.

Pergunta. No entanto, não sabias que era ela.

Resposta. Eu não o sabia no estado de vigília, sem isto meus tormentos teriam sido cem vezes mais terríveis; tão terríveis quanto o havia sido na vida espiritual onde eu a via sem cessar; mas credes que meu Espírito, nos momentos em que estava desligado, não o sabia? Era a causa da minha repulsa, e se eu me esforçava por combatê-la, é que, instintivamente, sentia que ela era injusta. Não estava ainda bastante forte para fazer o bem àquela que eu não podia me impedir de detestar, mas não queria que se lhe fizesse mal: era um começo de reparação. Deus me teve em conta esse sentimento, por isso permitiu que fosse livre em boa hora de minha vida de sofrimento, sem isso teria podido viver ainda muitos anos na horrível situação em que me vistes.

Bendizei, pois, minha morte que pôs termo à expiação, porque ela foi a garantia de minha reabilitação.

 

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Pergunta (ao guia do médium). Por que a expiação e o arrependimento na vida espiritual não bastam para a reabilitação, sem que sejam necessários a eles acrescentar os sofrimentos corporais?

Resposta. Sofrer num mundo ou num outro, é sempre sofrer, e sofre-se tão longo tempo quanto a reabilitação não seja completa. Esta criança sofreu muito sobre a Terra; pois bem! isso não foi nada em comparação com o que ela sofreu no mundo dos Espíritos. Aqui tinha, em compensação, os cuidados e a afeição dos quais estava cercado. Há ainda esta diferença entre o sofrimento corporal e o sofrimento espiritual, que o primeiro é quase sempre voluntariamente aceito como complemento de expiação, ou como prova para avançar mais rapidamente, ao passo que o outro é imposto.

Mas há outros motivos para o sofrimento corporal: primeiro, é para que a reparação tenha lugar nas mesmas condições em que o mal foi feito; depois, para servir de exemplo aos encarnados. Vendo seus semelhantes sofrerem e disto sabendo a razão, são bem de outro modo impressionados do que saber que são infelizes como Espíritos; podem explicar melhor a causa de seus próprios sofrimentos; a justiça divina se mostra, de alguma sorte, palpável aos seus olhos. Enfim, o sofrimento corporal é uma ocasião, para os encarnados, de exercerem, entre eles, a caridade, uma prova para seus sentimentos de comiseração, e, freqüentemente, um meio de reparar os erros anteriores; porque, crede-o bem, quando um infortunado se encontra sobre vosso caminho, não é o efeito do acaso. Para os pais do jovem François era uma grande prova ter um filho nessa triste posição; pois bem! eles cumpriram dignamente seu mandato, e disso serão tanto mais recompensados quanto agiram espontaneamente, pelo próprio impulso de seu coração. Se os Espíritos não sofressem na encarnação, é que não haveria senão Espíritos perfeitos sobre a Terra.

 

GALILEU

FRAGMENTOS DO DRAMA DO SR. PONSARD.

(Ver o no precedente.)

Um século antes de Galileu, Copérnico tinha concebido o sistema astronômico que leva o seu nome (1-(1) Copérnico, astrônomo polonês, nascido em Thorn (Estado prussiano) em 1473, morto em 1543. -Galileu, nascido em Florençaem 1564, condenado em 1633, morreu cego em 1644. O sistema de Copérnico era já condenado pela Igreja.)

Galileu, com a ajuda do telescópio que ele tinha inventado, juntou a observação direta à teoria, completou as idéias de Copérnico demonstrando-lhe a verdade pelo cálculo. Com seu instrumento, pôde estudara natureza dos planetas, e de sua semelhança com a Terra concluiu a sua habitabilidade. Havia igualmente reconhecido que as estrelas são tantos sóis disseminados no espaço sem limites, e pensou que cada um deveria ser o centro de movimento de um sistema planetário. Vinha de descobrir os quatro satélites de Júpiter, e este acontecimento emocionou o mundo sábio e o mundo religioso. O poeta se põe a pintar, em seu drama, a diversidade dos sentimentos que ele excita, conforme o caráter e os preconceitos dos indivíduos.

Dois estudantes da Universidade conversam sobre a descoberta de Galileu, e como não estão de acordo, se aconselham com um professor de renome.

ALBERT.

Sobre certos pontos, doutor, estamos em disputa, E queríamos saber o que disso pensais.

POMPÉE.

Ele pensa pedir conselho às pessoas sensatas - Aqui, do que se trata?

VIVIAM.

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De quatro satélites

Ao redor de Júpiter, descrevendo suas órbitas.

POMPÉE.

Eles não existem.

VIVIAM.

Mas....

POMPÉE.

Não poderiam existir.

VIVIAM.

No entanto podem ser vistos e podem ser contados.

POMPÉE.

Não se podem ser contados, uma vez que não poderiam existir.

ALBERT.

Tu o ouves, Vivian?

VIVIAM.

E por que isto, mestre?

POMPÉE.

Porque sustentar que Deus pode haver feito

Quatro globos em seus sete globos que se sabe

É um propósito mau, um temaquimérico,

Anti-religioso, anti-filosófico.

(Percebendo Galileu escoltado de um grande número de estudantes.)

Papa-moscas palermas! e charlatão infame!

ALBERT A VIVIAN

Tu vês que o doutor Pompée está contra ti.

VIVIAN

Tanto melhor para a doutrina na qual tenho fé;

De toda verdade o caminho natural

É amotinar primeiro todos os convencidos contra ela.

Está bem aí a força de raciocínio de certos negadores das idéias novas: isto não é, porque isto não pode ser. Perguntou-se a um sábio: Que diríeis se vísseis uma mesa se levantar sem ponto de apoio? - Nisto não creria, respondeu, porque eu sei que isto não pode ser.

UM MONGE, discursando para a multidão.

Escutai o que disse o Apóstolo: Nos céus

Por que, Galilenos, passeais vossos olhos?

É assim que, antes, lançava o anátema

Contra ti, Galileu, e contra o teu sistema.

Nós mesmos, hoje, vemos claramente,

Em que horror o céu tem este ensinamento,

E o Arno transbordado, o granizo sobre nossas videiras,

São da cólera divina os lamentáveis sinais.

- Meus irmãos, desprezai essas mentiras grosseiras;

Porque a Terra caminha, é que ela tem pés?

Se a lua se move, é que um anjo a guia;

Porque a cada planeta um condutor preside;

Mas a Terra, onde estaria seu anjo? - Sobre os montes?

Onde se o veria. - No centro? A cabana dos demônios.

 

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Livie, mulher de Galileu, é o tipo das pessoas com espírito limitado, mais cuidadosas com a vida material do que com a glória e a verdade.

LIVIE, a Galileu.

Porque, aqueceis os miolos,

Vendendo um montão de máximas novas?

Todas essas novidades são, para cortar a palavra,

invenção do diabo suspeitas de heresia.

Já da maneira, da qual cada um vos olha,

Isto acabará mal, se dela não vos guardais.

Oh! que não imiteis esses dignos professores

Que dizem o que disseram todos os seus predecessores?

Eis pessoas nas quais a ordem e o bom senso reinam;

Elas ensinam sem ruído o que se quer que ensine,

E, sem fermentar debatendo em público

Se é preciso crer em Aristóteles ou crer em Copémico,

Eles têm sabiamente que a opinião verdadeira

Deve ser aquela pela qual se lhes paga,

E que, uma vez que Aristóteles abre o cofre forte,

Aristóteles tem razão, e Copémico está errado.

Também não se fazem negócios com ninguém;

Embolsam em paz os florins que lhes dão;

Prosperam; são bem alojados, bem nutridos;

Suas filhas têm dotes e encontram maridos;

Seu auditório é doce e jamais se ajuntam;

Reentram em casa nas horas em que se ceia;

Mas vós, vós fazeis raiva, e se vos aplaude,

E, durante esse tempo, o jantar resfria.

Fragmentos do monólogo de Galileu no começo do segundo ato:

Não, os tempos não são mais em que, rainha solitária,

Sobre seu trono imóvel assentava-se a Terra;

Não, o rápido carro, levando o astro do dia,

Da aurora ao poente não descreve mais seu giro;

O firmamento não é mais a abóbada cristalina,

Que, como um teto azul, de lustres se ilumina;

Não é mais só para nós que Deus fez o universo;

Mas longe de nos manter humilhados, sejamos altivos!

Porque se abdicamos uma realeza falsa,

Até ao reino da verdade a ciência nos eleva;

Mais o corpo se diminui, mais o Espírito se toma grande;

Nossa nobreza crê ou descrê a nossa classe.

É mais belo para o homem, ínfima criatura,

Compreender os segredos velados pela Natureza,

E de ousar abarcar em sua concepção

A universal lei da criação,

Do que ser, como nos dias de uma vaidosa mentira,

Rei de uma ilusão e possuidor de um sonho.

Centro ignorante de um todo que acreditava feito para si,

E que pelo pensamento conquista hoje.

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Sol, globo de fogo, gigantesca fornalha,

Caos incandescente onde termina uma gênese,

Oceano furioso onde flutuam desvairados

Os líquidos graníticos e os metais fundidos,

Chocando, quebrando, misturando suas vagas inflamadas

Sob os negros furacões carregados de fumaça,

Onda ardente, onde, às vezes, nada uma vaga vermelha,

Mancha hoje, amanhã crosta do sol;

Em tomo de ti se move, ó fecundo incêndio,

A Terra, nossa mãe, apenas resfriada,

E, resfriados como ela, e, como ela habitados,

Marte sangrento, e Vênus, o astro das brancas claridades;

Em teus próximos esplendores, Mercúrio que se banha,

E Saturno em exílio nos confins de teu reino,

E por Deus, depois por mim, coroado no éter

De uma quádrupla venda de luas, Júpiter.

Mas, astro soberano, centro de todos esses mundos,

Para além de teu império aos limites profundos,

Dos milhares de sóis, tão numerosos, tão densos,

Que não se pode contá-los em seus grupos confusos,

Prolongam, como tu, suas imensas crateras,

Fazem mover, como tu, os mundos satélites,

Que giram ao redor deles, que compõem a sua corte,

E têm de seu rei o calor e a luz.

Oh! sim, sóis melhores do que lâmpadas noturnas,

Que clareiam para vós os velhos taciturnos,

Inumeráveis luzes, estrelas que polvilhais,

De vossa areia de ouro os caminhos azulados;

Em vós palpita também a vida universal,

Grandes lares, onde nosso olho não vê senão uma centelha.

.........................................................................

E, por toda a parte, a ação, o movimento e a alma!

Por toda a parte, rolando em tomo de seus centros em chama,

Os globos habitados, cujos seres pensantes

Vivem como eu vivo, sentem o que eu sinto,

Uns mais abaixados, e os outros talvez

Mais elevados que nós sobre os degraus do ser!

Quanto é grande! quanto é belo!

Em que culto profundo

O Espírito, cheio de estupor, se estraga e se confunde!

Inesgotável autor, que tua onipotência

Ali se mostra em sua glória e sua magnificência!

Que a vida, derramada em abundância no infinito,

Proclame vastamente teu nome, por toda a parte abençoado!

Ide, perseguidores! lançai vossos anátemas!

Eu sou religioso muito mais que vós mesmos.

Deus, que invocais, melhor do que vós eu o sirvo:

Esta pequena taça de lama é para vós o universo;

Para mim sobre todos os pontos a obra divina brilha;

Vós a encolheis, e eu, eu a dilato;

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Como se punham os reis no carro triunfante,

Coloco os universos aos pés do Criador.

 

Fragmentos do diálogo entre o inquisidor e Galileu.

O INQUISIDOR

Não há verdade senão nas Escrituras;

Tudo o mais é erro, visão, imposturas

O que se crê de contrário ao seu ensino

Não é uma claridade, é uma cegueira.

GALILEU

Sim, a fé do cristão para sua regra é regia;

Só a sua autoridade reina em teologia,

E a adoração deve curvar nossos espíritos

Sob os dogmas divinos que nela se vêem escritos;

Mas o mundo físico escapa ao seu domínio;

Deus o entrega por inteiro à disputa humana;

Como se trata de objetos que caem sob os sentidos,

Os sentidos e a razão neles se mostram todo-poderosos;

A autoridade se cala; nenhuma ordem se pode fazer

Os raios desiguais no centro da esfera,

Ninguém pode de heresia acusar o compasso,

Nem decretar que um corpo girando não gire mais.

O olhar é juiz, em uma palavra, do universo visível.

Seu dogma imutável está fixado pela Bíblia,

A ciência repugna à imobilidade,

E, agonizante nos ferros, vive para a liberdade.

............................................................................... ..................................................

O INQUISIDOR

................................................... ...............................................................................

Ora, não vês, pois, que o teu novo sistema,

Perturbando a astronomia, abala a própria fé?

O erro material, admitido sobre um ponto.

Em todo o Testamento toma suspeita a testemunha;

Quem pode ter falido não é, pois, mais infalível;

A dúvida ó, pois, permitida, o exame é possível,

E se o conclui logo, desde que se ouse julgar,

Da falsa física ao dogma enganoso.

GALILEU

Eu, destruir a fé, quando engrandeço o culto!

Mostrar Deus em sua obra, é lhe fazer insulto?

Ah! compreende-a melhor, é adorada melhor,

E é mal honrá-lo que a desfigurar.

Os céus, segundo a Bíblia em que devemos crer,

Os céus de seu autor nos contam a glória;

Pois bem, melhor do que um outro escutei seu relato,

E o repeti como os céus o disseram.

...............................................................................

 

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Pode-se barrar o curso de uma verdade nova?

Deter uma gota, e se deter um rio?

Crede-me, respeitai essas aspirações,

Elas têm muito de impulso e muito de expansão

Para sofrer que um carcereiro as tenha prisioneiras;

Deixai-lhe o campo livre, ou infelicidade às barreiras*.

- Ah! Roma, aos primeiros dias de teu culto prescrito,

Dizias não opor ao gládio senão o espírito;

Não triunfaste senão por mudar de papel,

E tu mesmo opor o gládio à palavra?

Antônia, filha de Galileu, vendo seu pai prescrito, lhe diz:

Eis a tua Antígona. Sim, meu amor piedoso

Conduzirá o prescrito, vencedor da esfinge dos céus.

Dirigindo teu bastão de vale em vale,

Eu direi: "Dai-me pão para Galileu,

Para aquele que, privado de um teto pelos cristãos,

Teria tido altares entre os povos pagãos."

Galileu sonda as profundezas dos céus e revela a pluralidade dos mundos. Isso foi, como dissemos, toda uma revolução nas idéias; um campo novo de exploração foi aberto à ciência. O Espiritismo vem lhe operar uma não menos grande em revelando a existência do mundo espiritual que nos cerca; graças a ele o homem conhece seu passado e seu verdadeiro destino. Galileu derrubou as barreiras que circunscreviam o universo: o Espiritismo o povoa e enche o vazio dos espaços infinitos. Embora mais de dois séculos nos separem das descobertas de Galileu, muitos dos preconceitos estão ainda vivazes; a nova doutrina emancipadora encontra os mesmos obstáculos; é atacada com as mesmas armas, se lhe opõem os mesmos argumentos. Lendo o drama do Sr. Ponsard, poder-se-ia colocar nomes próprios modernos a cada um de seus personagens. No entanto, a má vontade e a perseguição não impediram a doutrina de Galileu de triunfar, porque ela era a verdade; sê-lo-á do mesmo modo com o Espiritismo, porque é também uma verdade. Seus detratores serão olhados, pela geração futura, com o mesmo olhar que olhamos os de Galileu.

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LUMEN

POR CAMILLE FLAMMARION.

(2- artigo. Ver o número de março, página 93.)

Deixamos Lumen em Capela, ocupado em considerar a Terra que acabava de deixar. Esse mundo, estando situado a 170 trilhões, 392 bilhões de léguas da Terra, e a luz percorrendo 70.000 léguas por segundo, esta não pode chegar de um ao outro senão em 71 anos, 8 meses e 24 dias, seja em torno de 72 anos. Disto resulta que o raio luminoso que leva a impressão da imagem da Terra não chega aos habitantes de Capela senão ao cabo de 72 anos. Lumen, tendo morrido em 1864, e levando sua visão sobre Paris, ele viu tal qual era 72 anos antes, quer dizer, em 93, ano de seu nascimento.

De início, ficou muito surpreso de encontrá-la muito diferente daquilo que tinha visto, de ver as ruelas, os conventos, os jardins, os campos em lugardas avenidas, novos bulevares, estações de estrada de ferro, etc. Ele viu a praça da Concórdia ocupada por uma multidão imensa, efoitestemunhaoculardoacontecimentode21 de janeiro. Ateoria da

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luz lhe deu a chave desse estranho fenômeno. Eis a solução de algumas das dificuldades que levanta. (1-1) Segundo o cálculo, e em razão da distância do Sol, que é de 38 milhões 230 mil léguas, de 4 quilômetros, a luz desse astro nos alcança em 8 minutos 13 segundos. Disto resulta que um fenômeno que se passou em sua superfície não nos aparecerá senão 8 m. 13 s. mais tarde, e que se o fenômeno fosse instantâneo já não existiria mais quando o víssemos. A distancia da Lua não sendo senão de 85 mil léguas, sua luz nos alcança quase em um segundo, e um quarto, as perturbações que poderiam ali se produzimos apareceriam, conseqüentemente, pouca coisa depois do momento em que ocorressem. Se Lumen se encontrasse na Lua, teria visto a Paris de 1864 não de 93; se tivesse estado num mundo duas vezes mais distante que Capela, teria visto a Regência.)

Sitiens. Mas então, se o passado pode se confundir assim no presente; se a realidade e a visão se casam; se os personagens mortos há muito tempo podem ainda ser vistos atuando na cena; se as construções novas e as metamorfoses de uma cidade como Paris podem desaparecer e deixar ver em seu lugar a cidade de outrora; se, enfim, o presente pode se desvanecer para a ressurreição do passado, sobre que certeza podemos doravante confiar? Em que se tornam a ciência e a observação? Em que se tornam as deduções e as teorias? Sobre que estão fundados nossos conhecimentos que nos parecem os mais sólidos? E, se estas coisas são verdadeiras, não deveremos doravante duvidar de tudo ou crer em tudo?

Lumen. Essas considerações e muitas outras, meu amigo, me absorveram e atormentaram; mas elas não impediram de ser a realidade que eu observava. Quando tive a certeza de que tínhamos presente sob os olhos o ano de 1793, pensei em seguida que a própria ciência, em lugar de combater essa realidade (porque duas verdades não podem ser opostas uma à outra), devia disso me dar a explicação. Interroguei, pois, a física, e esperei a sua resposta. (Segue a demonstração científica do fenômeno.)

Sitiens. Assim, o raio luminoso é como um correio que nos traz as novidades do estado da região que o envia, e que, se gasta setenta e dois anos para nos alcançar, nos dá o estado desse país no momento de sua partida, quer dizer, perto de 72 anos antes do momento em que nos chega.

Lumen. Adivinhastes o mistério. Para falar mais exatamente ainda, o raio luminoso seria um correio que nos traria não as novidades escritas, mas a fotografia, ou mais rigorosamente ainda, o próprio aspecto da região de onde ele saiu. Quando, pois, examinamos num telescópio a superfície de um astro, não vemos ainda essa superfície tal qual ela é no próprio momento em que a observamos, mas tal qual ela era no momento em que a luz que nos chega foi emitida por essa superfície.

Sitiens. De sorte que se uma estrela cuja luz leva, suponho, dez anos para nos chegar, fosse subitamente aniquilada hoje, nós a veríamos ainda durante dez anos, uma vez que o seu último raio não nos chegaria senão em dez anos.

Lumen. É precisamente isso. Há, pois, aí uma surpreendente transformação do passado ao presente. Para o astro observado, é o passado, já desaparecido; para o observador é o presente, o atual. O passado do astro é, rigorosamente e positivamente, o presente do observador.

Lumen vê a si mesmo mais tarde, criança, com a idade de seis anos, brincando e disputando com uma grupo de outras crianças na praça do Panthéon.

Sitiens. Eu vos confesso que me parece impossível que se possa se ver assim a si mesmo. Não podeis ser duas pessoas. Uma vez que tínheis 72 anos quando morrestes,

 

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vosso estado de infância era passado, desapareceu, desvaneceu-se há muito tempo. Não podíeis ver uma coisa que não mais existe. Não pode se ver em duplo, criança e velho.

Lumen. Não refletis bastante, meu amigo. Compreendestes bem o fato geral para admiti-lo; mas não observastes suficientemente que este último fato particular entra absolutamente no primeiro. Admitis que o aspecto da Terra emprega 72 anos para vir a mim, não é ? que os acontecimentos não me alcançam senão nesse intervalo de tempo depois de sua atualidade? Pois bem! Uma vez que eu vejo esse grupo de crianças, e que fazia então parte desse grupo, por que quereis que não me veja tão bem quanto vejo ou outros?

Sitiens. Mas não estais mais nesse grupo?

Lumen. Ainda uma vez, esse próprio grupo não existe mais agora, mas eu o vejo tal quanto existia no instante em que partiu o raio luminoso que me chega hoje, e, uma vez que distingo as quinze ou dezoito crianças que o componham, não há razão para que a criança, que era eu, desapareça, porque sou eu que a olha. Outros observadores a veriam em companhia de seus companheiros. Porque quereis que haja exceção quando sou eu que olho? Eu os vejo todos, e me vejo com eles.

Lumen passa em revista a série dos principais acontecimentos políticos, ocorridos desde 1793até 1864, onde vê a si mesmo num leito de morte.

Sitiens. É que esses acontecimentos passaram rapidamente sob vossos olhares?

Lumen. Eu não saberia apreciara medida do tempo; mas todo esse panorama retrospectivo sucede certamente em menos de um dia... em algumas horas talvez.

Sitiens. Então não compreendo mais. Se 72 anos terrestres passaram sob vossos olhos, eles teriam de colocar exatamente 72 anos para vos aparecer, e não em algumas horas. Se o ano de 1793 vos aparece somente em 1864, o ano de 1864, em retorno, não deveria conseqüentemente vos aparecer senão em 1936.

Lumen. Vossa objeção é fundada, e me prova que compreendestes bem a teoria do fato. Também vou vos explicar como não me foi necessário esperar 72 novos anos para rever a minha vida, e como, sob o impulso de uma força inconsciente, efetivamente eu o revi em menos de um dia.

Continuando a seguir a minha existência, cheguei aos últimos anos notáveis pela transformação radical que Paris sofreu; vi meus últimos amigos e vós mesmo; minha família e meu círculo de conhecimentos; e, enfim, o momento chegou em que me vi deitar em meu leito de morte e onde eu assisti à minha última cena. É vos dizer que eu tinha retornado sobre a Terra.

Atraído pela contemplação que a absorvia, minha lama tinha depressa esquecido a montanha dos velhos e Capela. Como se sente, às vezes, em sonho, ela voava para o objetivo de seus olhares. Disso não me apercebi de início, tanto a estranha visão cativava todas as minhas faculdades. Não posso vos dizer nem por qual lei, nem por qual força as almas podem se transportar tão rapidamente de um lugar a um outro; mas a verdade é que eu tinha retornado à Terra, em menos de um dia, e penetrei no quarto no próprio momento de meu enterro.

Uma vez que nessa viagem de retorno eu ia adiante dos raios luminosos, eu diminuía sem cessar a distância que me separava da Terra, a luz tinha cada vez menos caminho a percorrer, ela imitava assim a sucessão dos acontecimentos. No meio do caminho, me chegando somente de 36 anos, não me mostrava mais a Terra de 72 anos

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antes, mas de 36. As três quartas partes do caminho, os aspectos não tinham mais do que um atraso de 18 anos. A metade do último quarto me chegando somente nove anos depois de ter se passado, e assim em continuação; de sorte que a série inteira de minha existência se encontra condensada em menos de um dia em conseqüência do retorno rápido de minha alma, indo adiante dos raios luminosos.

Quando Lumen chegou à Capela, viu um grupo de velhos ocupados em considerar a Terra, e dissertando sobre o acontecimento de 93; um deles disse aos seus companheiros:

"De joelhos! meus irmãos; pecamos a indulgência ao Deus universal. Esse mundo, essa nação, essa cidade está manchada de um grande crime; a cabeça de um rei inocente acaba de tombar." Eu me aproximei do ancião, disse Lumen, e lhe pedi para me fazer um relato de suas observações.

"Aprendi que, pela intuição da qual estão dotados os Espíritos do grau daqueles que habitam esse mundo, e pela faculdade íntima da percepção que receberam em partilha, possuem uma espécie de relação magnética com as estrelas vizinhas. Essas estrelas são em número de doze ou quinze; são as mais próximas; fora dessa região, a percepção se torna confusa. Nosso Sol é uma dessas estrelas vizinhas. (1-(1) 170 trilhões, 392 milhões de léguas! Pela distância que nos separa, as estrelas vizinhas pode-se julgar a extensão ocupada pelo conjunto daquelas que nos parecem, no entanto, à visão tão perto uma das outras, sem contar o número infinitamente maior daquelas que não são perceptíveis senão com a ajuda do telescópio, e que não são, elas mesmas, senão uma infinita fração daquelas que, perdidas nas profundezas do infinito, escapam a todos os nossos meios de investigação. Considerando-se que cada estrela é um sol, centro de um turbilhão planetário, compreender-se-á que o nosso próprio turbilhão não é senão um ponto nessa imensidade. Que é, pois, nosso globo de 3.000 léguas de diâmetro entre esses bilhões de mundos? Que são seus habitantes que acreditaram por muito tempo o seu pequeno mundo o ponto central do universo, e que se acreditaram a si próprios como os únicos seres vivos da criação, concentrando só neles as preocupações e a solicitude do Eterno, e crendo de boa fé que o espetáculo dos céus não era feito senão para recreara sua visão? Todo esse sistema egoísta e mesquinho, que fez durante muitos séculos o fundamento da fé religiosa, desmoronou-se diante das descobertas de Galileu.).

Eles conhecem, pois, vagamente, mas sensivelmente, o estado das Humanidades que habitam os planetas dependentes desse Sol, e seu grau relativo de elevação intelectual e moral.

"Além disto, quando uma grande perturbação atravessa uma dessas Humanidades, seja na ordem física, seja na ordem moral, dela sofrem uma espécie de comoção íntima, como se vê uma corda vibrante fazer entrar em vibração uma outra corda situada à distância.

"Há um ano (o ano desse mundo é igual a dez dos nossos), estavam se sentindo atraídos por uma emoção particular para o planeta terrestre; e os observadores tinham seguido com interesse e inquietação a marcha desse mundo."

Estar-se-ia em erro se se induzisse do que precede, que os habitantes das diferentes esferas levem, do ponto onde estão, um olhar investigador sobre o que se passa nos outros mundos, e que os acontecimentos que nestes se cumprem passem sob seus olhos como num campo de uma luneta. Aliás, cada mundo tem as suas preocupações especiais que cativam a atenção de seus habitantes, segundo suas próprias necessidades, seus costumes todos diferentes, e seu grau de adiantamento. Quando os Espíritos encarnados em um planeta têm motivos pessoais para se interessarem com o que se passa num outro mundo, ou com alguns daqueles que o habita, sua alma para lá se transporta, como o fez a de Lumen, no estado de desligamento, e então retornam, momentaneamente, por assim dizer, habitantes espirituais desse mundo, ou bem nele se encarnam em missão. Eis, pelo menos o que resulta do ensino dos Espíritos.

 

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Esta última parte do relato de Lumen, portanto, carece de exatidão, mas não é preciso perder de vista que esta história não é senão uma hipótese destinada a tornar mais acessível à inteligência, e de alguma sorte palpável pela colocação em ação, da demonstração de uma teoria científica, assim como o fizemos observar em nosso artigo precedente.

Chamamos a atenção sobre o parágrafo acima onde está dito que: "As grandes perturbações físicas e morais de um mundo produzem sobre os mundos vizinhos uma espécie de comoção íntima, como uma corda vibrante faz vibrar uma outra corda colocada à distância." O autor, que em matéria de ciência não fala levianamente, enuncia aí um princípio que poderá bem um dia ser convertido em lei. Já a ciência admite, como resultado da observação, a ação recíproca material dos astros. Se, como se começa supor, essa ação, aumentada pelo fato de certas circunstância, pode ocasionar perturbações e cataclismos, não seria nada impossível que essas mesmas perturbações tivessem seu contra-golpe. Até o presente a ciência não considerou senão o princípio material; mas levando-se em conta o princípio espiritual como elemento ativo do universo, e pensando-se que esse princípio também é todo geral, e todo também essencial quanto o princípio material, concebe-se que uma grande efervescência desse elemento e as modificações que ele sofre sobre um ponto dado possam ter sua reação, em conseqüência da correlação necessária que existe entre a matéria e o espírito. Certamente, há nesta idéia o germe de um princípio fecundo e de um estudo sério para o qual o Espiritismo abre o caminho.

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DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

A VIDA ESPIRITUAL.

(Grupo Lampérière, 9 de janeiro de 1867. Médium, Sr. Delanne.)

Estou aqui, feliz em vir vos saudar, vos encorajar e vos dizer:

Irmãos, Deus vos enche de seus benefícios, em vos permitindo, nestes tempos de incredulidade, respirar a plenos pulmões o ar da vida espiritual, que sopra com vigor através das massas compactas.

Crede em vosso antigo associado, crede em vosso amigo íntimo, vosso irmão pelo coração, pelo pensamento, pela fé; crede nas verdades ensinadas: elas são tão seguras quanto lógicas; crede em mim que, há alguns dias, me contentava, como vós, em crer e esperar, ao passo que hoje a doce ficção é para mim uma imensa e profunda verdade. Eu toco, vejo, sou, possuo, portanto, isto é; eu analiso as minhas impressões hoje e as comparo com aquelas ainda todas frescas da véspera.

Não só me é permitido comparar, sintetizar, pesar minhas ações, meus pensamentos, minhas reflexões, julgá-las pelo critério de meu bom senso, mas eu as vejo, as sinto, sou testemunha ocular, sou a coisa realizada; não são mais consoladoras hipóteses, sonhos dourados, esperanças, é mais do que uma certeza moral: é o fato real, palpável, o fato material que se toca, que agarrais sob sua forma tangível, e que nos diz: isto é.

Aqui tudo respira a calma, a sabedoria, a felicidade; tudo é harmonia, tudo diz: Eis o auge do sentido íntimo; não mais quimeras, falsas alegrias, não mais medos pueris, não mais falsa vergonha, não mais de dúvidas, não mais de angústias, não mais de perjúrios, nada desse desagradável cortejo de fabulosas dores, de grosseiros erros, como se vê diariamente sobre a Terra.

Aqui se é penetrado de uma quietude inefável; admira-se, pede-se, adora-se, se dá ações de graça ao sublime autor de tantos benefícios, estuda-se, e se lhe entrevê todos os poderes infinitos; vê-se o movimento das leis que regem a Natureza. Cada obra tem um objetivo que conduz ao amor, diapasão da harmonia geral. Vê-se o progresso

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presidira todas as transformações físicas e morais, porque oprogresso é infinito como Deus que o criou. Tudo é compreensível; tudo é limpo, preciso; não mais abstrações: toca-se com o dedo e a razão o porquê das coisas humanas. As legiões espirituais avançadas não têm senão um objetivo, o de se tornarem úteis aos seus irmãos atrasados para elevá-los até elas.

Trabalhai, pois, sem cessar, conforme as vossas forças, meus bons irmãos, para vos melhorar, para serdes úteis aos vossos semelhantes; não só fareis um passo na Doutrina que faz a vossa alegria, mas tereis poderosamente contribuído ao progresso de vosso planeta; a exemplo do grande legislador cristão, sereis homens, homens de amor, e concorrereis para implantar o reino de Deus sobre a Terra.

Aquele que é ainda e mais do que nunca vosso condiscípulo.

LECLERC.

Nota. Tal é, com efeito, o caráter da vida espiritual, mas seria um erro crer que basta ser Espírito para encará-la desse ponto de vista. Ocorre no mundo espiritual como no mundo corpóreo: para apreciar as coisas de uma ordem elevada, é preciso um desenvolvimento intelectual e moral que não é próprio senão dos Espíritos avançados; os Espíritos atrasados são estranhos ao que se passa nas altas esferas espirituais, como o são sobre a Terra àquilo que faz a admiração dos homens esclarecidos, porque não podem compreendê-lo; seu pensamento circunscrito num horizonte limitado, não pode abarcar o infinito, não pode ter os gozos que resultam da expansão da esfera de atividade espiritual. A soma da felicidade, no mundo dos Espíritos, ali é, pois, pela própria força das coisas, em razão do desenvolvimento do senso moral; donde resulta que, trabalhando neste mundo pela nossa melhoria e nossa instrução, aumentamos as fontes de felicidade para a vida futura. Para o materialista, o trabalho não é senão um resultado limitado à vida presente que pode acabar de uma instante para outra; o Espírita, ao contrário, sabe que nada do que adquire, mesmo na última hora, não é em pura perda, e que todo progresso realizado lhe será proveitoso.

As profundas considerações de nosso antigo colega, Sr. Leclerc, sobre a vida espiritual, são, pois, uma prova de seu adiantamento na hierarquia dos Espíritos, e disto o felicitamos.

PROVAS TERRESTRES DOS HOMENS EM MISSÃO.

(Douay, 9 de março de 1867. Med, Senhora M...)

... É preciso, meus filhos, que o sangue depure a Terra; terrível luta, mais horrível ainda pelo esplendor da civilização no meio da qual ela se manifesta. O que, Senhor! quando tudo se prepara para apertar os laços dos povos de um canto do mundo ao outro! quando na aurora da fraternidade material se vêem linhas de demarcação de raças, de costumes, de linguagem tender à unidade, a guerra chega, a guerra e seu cortejo de ruínas, de incêndios, de divisões profundas, de ódios religiosos; sim, tudo isto porque nada, em nosso progresso, não foi segundo o Espírito de Deus; porque vossos laços não foram apertados nem pela bondade, nem pela lealdade, mas somente pelo interesse; porque não é a verdadeira caridade que impõe silêncio aos ódios religiosos, mas a indiferença; porque as barreiras não foram abaixadas em vossas fronteiras para o amor de todos, mas pelos cálculos mercantis; enfim, porque os objetivos são humanos e instintivos e não espirituais e caridosos; porque os governantes não procuram senão seus proveitos e que cada um entre os povos isso faz também.

Sublime desinteresse de Jesus e de seus apóstolos, onde estás? - Estais tristes, meus filhos, pensando algumas vezes na rude missão desses Espíritos sublimes que vêm levantara coragem da Humanidade e morrer na tarefa depois de ter esvaziado até o fim a taça das ingratidões humanas. Gemei sem ver que o Senhor, que os envia, parece

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abandoná-los no momento em que a sua proteção parece mais necessária; não falastes das provas que sofremos Espíritos elevados no momento de passarem para um degrau mais alto na iniciativa espiritual? Não se vos disseque cada grau de hierarquia celeste se conquista pelo mérito, pelo devotamento, como entre vós, no exército, pelo sangue derramado e pelos serviços realizados? Pois bem! é o caso em que se encontram os Messias sobre esta Terra de dores; são sustentados. Enquanto dura a sua obra humanitária, enquanto trabalham pelo homem e por Deus, mas, quando só eles estão em jogo. Quando a sua prova se torna individual, o recurso visível se afasta, a luta se mostra áspera e rude, como o homem deve sofrê-la.

Eis a explicação desse abandono aparente que vos aflige na vida dos missionários de todos os graus de vossa Humanidade. Não penseis que Deus abandone jamais sua criatura por capricho ou impossibilidade; não, mas no interesse de seu adiantamento a deixa às suas próprias forças, ao uso inteiro de seu livre arbítrio.

CURAD'ARS.

O GÊNIO.

(Douai, 13 de março de 11867. Médium, Sr...)

Pergunta. O gênio é distribuído a cada Espírito segundo sua aquisição, ou segundo uma lei divina em relação com as necessidades de um povo ou de uma Humanidade?

Resposta. O gênio, caros filhos, é a irradiação das aquisições anteriores. Essa irradiação é o estado de Espírito no desligamento ou nas encarnações superiores: há, pois, duas distinções afazer. O gênio, o mais comum entre vós, é simplesmente o estado de um Espírito do qual uma ou duas faculdades permaneceram abertas e em estado de agir livremente; ele recebeu um corpo que permite seu desabrochar em sua plenitude adquirida. A outra espécie de gênio é o Espírito que vem dos mundos felizes e avançados, onde a aquisição é universal sobre todos os pontos; onde todas as faculdades da alma chegaram a um grau eminente, desconhecido sobre a Terra. Estas espécies de gênios se distinguem dos primeiros por uma aptidão fora do comum a todos os talentos, a todos os estudos. Eles concebem todas as coisas por uma intuição segura e que confunde a ciência adquirida dos mais sábios. Eles excedem em bondade, em grandeza de alma, em verdadeira nobreza, em obras excelentes. Eles são as luzes, os iniciadores, os exemplos. São os homens de outras terras, vindos para fazer resplandecer a luz do alto num mundo obscuro, do mesmo modo que se enviam, entre os bárbaros para instrui-los alguns sábios de uma capital civilizada; tais foram entre vós, os homens que, em diversas épocas, fizeram a Humanidade avançar, os sábios que recuaram os limites dos conhecimentos e dissiparam as trevas da ignorância. Eles viram e pressentiram o destino terrestre, tão longe que estivessem do cumprimento desse destino; todos lançaram os fundamentos de alguma ciência, ou dela foram o ponto culminante.

O gênio não é, pois, gratuito, e não está subordinado a uma lei; ele sai do próprio homem e de seus antecedentes. Refleti que os antecedentes são inteiramente o homem. O criminoso o é por seus antecedentes; o homem de mérito, o homem de gênio são superiores pela mesma causa. Tudo não está velado na encarnação ao ponto que não transpareça nada de nosso ser anterior. A inteligência e a bondade são luzes muito vivas, focos muito ardentes para que a vida terrestre os reduzisse à obscuridade.

As provas a sofrer podem bem velar, atenuar algumas de vossas faculdades, adormecê-las, mas, se elas chegaram a um alto grau, o Espírito não pode delas perder inteiramente a posse e o exercício; há nele a segurança de que as tem sempre à sua disposição; freqüentemente mesmo, ele não pode consentir em delas se privar. Está aí o que causa as vidas tão dolorosas de certos homens avançados que gostaram mais de sofrer pelas suas altas faculdades do que deixá-las se desvanecer por um tempo.

 

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Sim, todos nós somos pela esperança, e alguns pela lembrança, cidadãos dessas altas esferas celestes onde o pensamento irradia puro e poderoso. Sim, todos seremos Platões, Aristóteles, Erasmos; nosso Espírito não verá mais empalidecer as suas aquisições sob o peso da vida do corpo, onde se apaga sob o peso da velhice e das enfermidades.

Amigos, eis verdadeiramente a mais sublime esperança; que estão junto de tudo isto as dignidades e os tesouros que se colocam aos pés desses homens; os soberanos esmolam suas obras, se separam de sua presença. - Crede que essas honras vãs os bajulam? não; a lembrança de sua gloriosa pátria é muito viva. Eles remontam felizes sobre o raio de sua glória, a esses mundos que seu Espírito lamenta sem cessar.

Terra! terra! região f ria, escura, agitada; terra cega, ingrata e rebelde! não podias lhes fazer esquecer a pátria celeste onde tinham vivido, onde voltarão a viver.

Adeus, amigos, estejais seguros que todo homem de bem tornar-se-á cidadão desses mundos felizes, dessas Jerusaléns esplêndidas, onde o Espírito vive livre em seu corpo etéreo, possuindo, sem nuvens e sem véus, todas suas aquisições; então, conhecereis tudo o que aspirais conhecer, compreendereis tudo o que procurais compreender, mesmo meu nome, caro médium, que não quero dizer-te.

UM ESPÍRITO.

ALLANKARDEC.

 

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