Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Allan Kardec · Capítulo 12 de 13

Páginas do PDF

Revista Espírita - Décimo Ano (1867)

Novembro

REVISTA ESPIRITA

 

JORNAL

 

DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS

10o ANO NO. 11 NOVEMBRO 1867

 

IMPRESSÕES DE UM MÉDIUM INCONSCIENTE

A PROPÓSITO DO ROMANCE DO FUTURO

Pelo Sr. Eug. Bonnemère.

O Sr. Bonnemère consentiu nos transmitir, sobre o jovem bretão, o qual é assunto no prefácio do interessante livro que publicou sob o título de Romance do Futuro, detalhes circunstanciados que completam aqueles que demos a esse respeito na Revista de julho de 1867, página 215. Estas novas informações são do mais alto interesse, e nossos leitores ficarão gratos ao autor, como nós mesmos lhe agradecemos, por tê-los posto à nossa disposição. Nós o faremos seguir de algumas observações.

Senhor,

Um amigo me envia muito tardiamente o número da Revista Espírita, no qual dais conta do Romance do Futuro, que assinei com o meu nome. Permiti-me vos dar alguns esclarecimentos a respeito de uma passagem desse artigo, onde se encontra esta reflexão: "Nos foi dito que, quando escreveu este livro, o autor não conhecia o Espiritismo; isto parecia difícil, etc."

No entanto, isto é rigorosamente verdadeiro. Eu o confesso com toda sinceridade e humildade, Senhor, tive o erro de não vos oferecer esse volume; jamais fui até a vossa casa; não conhecia mesmo o título da Revista Espírita, e a minha biblioteca não possuía nenhuma obra sobre as questões que ali tratam; foi porque chamei meu jovem bretão um extático natural, ao passo que ele é para vós um médium.

Contei, no prefácio úo Romance do Futuro em conseqüência daquela aventura estranha, eu que me fiz um historiador na maturidade de minha vida, ia tornar-me um romancista depois de ultrapassar os cinqüenta anos. Os leitores não viram ali senão um desses procedimentos familiares aos autores, para dar algo picante ao seu relato. Atesto sobre a honra que, com exceção de um detalhe que não tem nada com o assunto, e que não é permitido revelar ainda, tudo o que adianto neste prefácio é verdadeiro, e, bem longe de exagerar, eu não digo tudo.

Meu jovem bretão explica, em vinte passagens desses volumosos manuscritos (quase 18.000 páginas) as causas e os efeitos dessa espécie de condenação aos trabalhos forçados que sofre em a maldizendo.

"Cada noite, escreveu em data de 24 de agosto de 1864, eu me deito muito fatigado depois de uma jornada de trabalho; durmo; uma hora depois desperto; estou triste, um crepe negro parece me envolver; fico sem falar, mas não sofro. Alguma coisa de vago está em meu cérebro; é sob esta impressão que meus olhos se fecham, freqüentemente, com lágrimas no coração. Depois, pela manhã, desperto com um mutismo persistente,

1

quer dizer, com intoleráveis sofrimentos no lado esquerdo e no coração, que não me permitem reencontrar o sono. Sinto um estado de angústia intolerável, que me força a levantar-me. Eu sufoco; há o muito cheio em mim que é preciso derramar. Então, vou ao meu escritório, e lá sou constrangido a trabalhar.

"Quanto mais eu sofro, mais e melhor eu trabalho. Tenho, então, um transbordamento de imaginação extremo. Quando uma obra está composta, e que ela não tem mais necessidade do que ser lançada sobre o papel, invento uma outra, sem procurá-la jamais, e tudo escrevendo mecanicamente aquela que chegou à maturidade.

"Quando devo servir de instrumento a algum de meus amigos desaparecidos, seu nome ressoa em meu ouvido. Quando escrevo, esse nome não me deixa e sinto, mesmo no meio de meus sofrimentos físicos, às vezes agudos, sobretudo no coração, uma espécie de doçura a escrever o que coloca em mim. É como uma inspiração, mas muito involuntária. Todas as fibras de meu ser moral são postas em aviso. Então sinto mais vivamente; parece-me que vibro; todos os ruídos são mais fortes, mais perceptíveis; vejo as vibrações intelectuais e morais ao mesmo tempo.

"Quando estou nesse estado de mutismo, sinto-me como envolvido numa rede que estabelece uma separação entre meu ser intelectual e a massa dos objetos materiais ou de pessoas que me cercam. É um isolamento absoluto em meio da multidão; minha palavra e meu Espírito estão em outra parte. O ser inspirador que vem em mim não me deixa mais; é uma espécie de penetração íntima dele em mim; sou como uma esponja embebida de seu pensamento. Eu o pressiono, e dele sai a quintessência de sua inteligência, livre de todas mesquinharias de nossa vida neste mundo.

"Às vezes, mesmo sem mutismo, que eu esteja só ou com outros, pouco importa, converso, rio, apareço na conversa dos outros, e, no entanto, eu trabalho; as idéias se acumulam, mas fugitivas; eu aí sou e aí não sou mais; retorno a mim, e não tenho mais lembrança de nada; mas o estado de mutismo faz reviver as imagens apagadas.

Se for um romance que devo escrever, o título me vem primeiro, os acontecimentos chegam em seguida; algumas vezes, é o trabalho de um ou dois dias para compô-lo inteiro. Tratando-se de coisas mais sérias, o título igualmente me é ditado, depois os pensamentos super abundam, e até mesmo quando pareço mais fortemente distraído. A elaboração se faz em sua hora até o instante em que o muito cheio extravasa sobre o papel.

"Freqüentemente, me ocorre, depois de um longo romance terminado, e quando não tinha nenhuma outra coisa pronta para ser lançada sobre meus cadernos, de sentir essa estranha sensação, como se, em meu cérebro, houvesse um compartimento vazio. Sofro muito mais então; é um estado de fraqueza completo até o momento em que a minha cabeça se enche de outra coisa.

"Geralmente, desde a própria noite, ou na manhã em minha cama, eu combino algum plano novo. Às vezes, no entanto, levanto-me sem pensarem nada do que vou fazer e sem ter nada antes elaborado. Minha vela acesa, coloco-a diante do meu papel. Ouço, então, do lado esquerdo, no ouvido esquerdo, um nome, uma palavra, um assunto de romance em duas ou três palavras. Isto basta; as palavras se sucedem sem interrupção; os acontecimentos vêm se alinhar por si mesmos sob minha pena sem um instante de parada, até que a história esteja terminada. Quando as coisas se passam assim, é que não se trata senão de uma novela muito curta, que será terminada em uma sessão.

"Há, ainda, em meu estado, uma particularidade muito singular, é quando estou inquieto com a saúde de alguém que amo. Isto se torna verdadeiramente para mim uma atroz doença, e creio que sofro mais do que a própria pessoa. Durante alguns instantes, sou tomado na cabeça, no estômago, no coração e nas entranhas, de uma pressão cheia de angústias que vai até uma dor extrema. Vem o momento em que só a cabeça sofre. Então, um nome de remédio, ou vários nomes estão em mim. Eu não quero falar, porque

2

duvido e temo fazer mal, quando tanto queria aliviar! Mas essas palavras retornam sem cessar; sou vencido, cedo e as digo com esforço, ou as escrevo. Então está acabado, não penso mais nisso, e tudo está apagado."

Não sei se me engano, mas me parece encontrar aí todos os caracteres da possessão de outrora, e creio bem que se queimaram outrora muitos possessos que não eram mais feiticeiros do que o meu jovem extático. Evidentemente, ele vive uma vida dupla, da qual ambas não têm nenhuma relação uma com a outra. Freqüentemente eu o vi, quando uma das pessoas que se confiavam a ele, vinha lhe dizer que sofria; olhar fixo, pálpebras abertas, a pupila dilatada, ele parecia escutar, procurar. - "Sim, sim!" murmurava, como se repetisse a si mesmo o que uma voz interior lhe dizia. Ele indicava, então, o remédio necessário, conversava um momento sobre a natureza e a causa do mal, depois, pouco a pouco, tudo isto se dissipava, e ele não tinha consciência nem do instante em que o êxtase viera, nem daquele em que havia cessado. Este rápido momento de ausência não existia para ele, e evitava-se de lhe falar dele.

"Eu quero e devo viver na sombra, escreveu em outra parte. Dizem-me: Estais numa sociedade desviada em conseqüência de má direção. O bem que se faz sem interesse, emanando de uma fonte natural, mas um pouco extraordinária, parece culpável, ridículo, indiscreto pelo menos. Não é preciso se expor à zombaria, às vezes ao desprezo por uma boa ação. Segundo um velho provérbio: "Falta confessada é pela metade perdoada", pode-se dizer que uma boa ação oculta é pela metade perdoada. É preciso, pois, fazer aos outros o bem sem que disto desconfiem. É a verdadeira caridade, que dá sem esperar que se lhe restitua."

Tudo isto não se realizou sem lutas. Às vezes ele se revolta contra essa obsessão tirânica. Eu o vi resistir, se debater com cólera, depois, domado por uma vontade superior à sua, se pôs a trabalhar.

Ele havia anunciado um grande e longo trabalho sobre a liberdade. Declarava-se incapaz de fazê-lo, e protestava que não o faria. Uma manhã escreveu:

"Não, eu quero lutar ainda hoje. Sinto que a forma não veio ainda muito clara... Quando, pois, me deixarei sem repouso?... Eu estou quebrado!... Ah! chamais isto uma liberdade de pensamento que introduzis em mim! É a servidão de vossos pensamentos que é preciso dizer! Pretendeis que dela tenho hoje o germe, e que é me prestar um imenso serviço desenvolvê-la, acrescentando-lhe o que podeis nela colocar!

"Começarei por esta pergunta já tratada: O que é a vida?"

Uma espécie de anúncio de programa a cumprir continuou assim durante dez páginas de sua escrita e tinha escrito em quarenta minutos.

Todas essas coisas, que me pareceram muito estranhas, talvez o serão menos para vós, Senhor. Em suma, tenho fé em seu poder misterioso, porque ele me curou de mais de uma afecção que talvez tivesse embaraçado a Faculdade. Jamais alguém fica doente junto dele sem que escreva a sua pequena receita. Freqüentemente, ele o faz a seu malgrado, sentindo bem que não se dará conta de suas prescrições. Ele terminou um dia, por estas linhas, uma consulta a respeito de uma pessoa doente do peito, da qual pensava-se mal, na sua opinião, e que acreditava poder salvar ainda:

"Eis as coisas que posso dizer. Que se lhe faça o que se julgar conveniente; são minhas observações, eis tudo. Não terei a me censurar de tê-las deixado dormir em mim. Não é preciso fazer nada sem o conselho do médico. Com naturezas como são todos, isto não pode servir senão como indicação. Que disso se não me fale jamais; que se não me agradeça. Eu não sou um homem, mas uma alma que desperta ao grito do sofrimento, e que não se lembra mais depois que o alívio chegou."

Quando não tinha doentes sob a mão, ele escrevia remédios gerais para as afecções que a ciência oficial não sabia ainda curar. Que valem essas prescrições? Eu o ignoro. No entanto, o que vi, o que pude experimentar, me leva a crer que elas poderão talvez colocar no caminho de procedimentos curativos novos.

3

Se o indivíduo que jamais abriu um livro de medicina escreve, sem disto ter consciência, remédios que podem curar, em muitos casos, a maioria dos males declarados hoje incuráveis, parece-me incontestável que estas coisas lhe são reveladas por uma força desconhecida e misteriosa. Em presença de um semelhante fato, a questão me parece nítida. Deve-se aceitar, como demonstrado, que existem sensitivos aos quais é concedido servir de intermediários aos amigos desaparecidos que, não tendo mais órgãos ao serviço de sua vontade, vêm emprestara voz ou a mão desses seres privilegiados, quando querem curar nosso corpo, ou fortalecer nossa alma, esclarecendo-a sobre as coisas que lhes é permitido nos fazer conhecer.

Pode-se arriscar uma experiência in anima vili, sobre os bichos-da-seda, por exemplo, que não são quase nada bons senão para serem lançados, eles mesmos, aos vermes da sepultura, quando estão doentes. A questão é grave, e é por centenas de milhões de francos que é preciso contar a perda que nos faz sofrer, cada ano, a doença que os colhe. O resultado a ser obtido vale a pena que se tente essa primeira experiência que, em todos os casos, se ela fracassar, não poderá agravara situação.

Pode-se se ter aqui um mistério, mas afirmo que não há mistificação. Se eu sou mistificado, me restarão sempre os cento e poucos romances e novelas desse romancista sem o saber, cuja publicação vai ocupar agradavelmente os lazeres dos últimos anos de minha existência, e dos quais deixarei a maior parte a outros depois de mim.

Neste inverno eu darei um novo romance de meu jovem extático bretão. No prefácio, transcreverei textualmente tudo o que escrevi sobre a cura dos bichos-da-seda; e mesmo acrescentarei, querendo-se, suas prescrições para prevenir e curar o cólera e as doenças do peito.

Pouco importa o que seria de mim durante alguns dias; mas importa muito que esses segredos, dos quais o acaso me fez depositário, não morram comigo, se contêm alguma coisa de séria, e que se saiba se existem relações possíveis entre as inteligências superiores, do outro lado da vida, e as inteligências dóceis deste; creio que seria muito importante para nós estabelecer as relações cada vez mais continuadas com esses mortos, de boa vontade, que parecem dispostos a nos dar conta de semelhantes serviços.

Aceitai, etc.

E.BONNEMÈRE.

O quadro das impressões desse jovem, traçado por ele mesmo, é tanto mais notável quanto tendo sido escrito na ausência de todo conhecimento Espírita, não pode ser o reflexo de idéias hauridas num estudo qualquer que teria exaltado a sua imaginação. É a impressão espontânea dessas sensações, de onde ressaltam com a última evidência todos os caracteres de uma mediunidade inconsciente: a intervenção de inteligências ocultas ali está expressada sem ambigüidade; a resistência que opõe, mesmo a contrariedade que disso sentem, provam super abundantemente que se age sob o domínio de uma vontade que não é a sua. Esse jovem é, pois, um médium em toda a acepção da palavra, e, além disto, dotado de faculdades múltiplas, porque é, ao mesmo tempo, médium escrevente, falante, vidente, mecânico, intuitivo, inspirado, impressionável, sonâmbulo, médico, literato, filósofo, moralista, etc. Mas nos fenômenos expostos, não há nenhum dos caracteres do êxtase; é, pois, impropriamente que Sr. Bonnemère o qualifica de extático, porque é precisamente uma das faculdades que lhe faltam. O êxtase é um estado particular bem definido, que não está presente no caso do qual se trata. Ele não parece, não mais, dotado da mediunidade de efeitos físicos, nem da mediunidade curadora.

Há médiuns naturais, como há sonâmbulos naturais, que agem espontaneamente e inconscientemente; nos outros, os fenômenos medianímicos são provocados pela vontade, a faculdade é desenvolvida pelo exercício, como em certos indivíduos o sonambulismo é provocado e desenvolvido pela ação magnética.

4

Há, pois, os médiuns inconscientes e os médiuns conscientes. A primeira categoria, à qual pertence o jovem bretão, é a mais numerosa; ela é quase geral, e pode-se dizer, sem exagero, que sobre 100 indivíduos há deles 90 que são dotados dessa aptidão em graus mais ou menos ostensivos; se todos se estudassem, encontrar-se-ia neste gênero de mediunidade, que reveste as aparências mais múltiplas, a razão de uma multidão de efeitos que não se explicam por nenhuma das leis conhecidas da matéria.

Esses efeitos, quer sejam materiais ou não, aparentes ou ocultos, por ter essa origem, não são menos naturais por isto; o Espiritismo não admite nada de sobrenatural nem de maravilhoso; segundo ele, tudo entra na ordem das leis da Natureza. Quando a causa de um efeito é desconhecida, é preciso procurá-la no cumprimento dessas leis, e não em sua perturbação provocada por ato de uma vontade qualquer, o que seria o verdadeiro milagre; um homem investido do dom de milagres, teria o poder de suspender o curso das leis que Deus estabeleceu, o que não é admissível. Mas o elemento espiritual sendo uma das forças ativas da Natureza, dá lugar a fenômenos especiais que não parecem sobrenaturais senão porque obstina-se em procurar-lhe a causa unicamente nas leis da matéria. Eis porque os Espíritas não fazem milagres, e jamais tiveram a pretenção de fazê-lo. A qualificação de taumaturgos, que lhes dá crítica por ironia, prova de que ela fala de uma coisa da qual não entende rimeira palavra, uma vez que chama fazedores de milagres os mesmos que vêm destruí-los.

Um outro fato ressalta das explicações dadas na carta acima é que Romance do futuro é bem uma obra medianímica do jovem bretão, ao se pode senão estar satisfeito com o Sr. Bonnemère por dele ter declinado a paternidade. Pensamentos tão elevados e tão profundos da tinham que pudessem nos espantar de sua parte, foi porque não hesitamos em lhos atribuir, e com isso não teríamos senão maior :ima por seu caráter, e por seu talento de escritor que nos era conhecido; mas eles emprestam um interesse particular pela fonte de de emanam; por estranha que essa fonte pareça, à primeira vista, ela da tem de surpreendente para quem conhece o Espiritismo. Fatos deste gênero se vêm freqüentemente, e não há um Espírita esclarecido e deles não tenha perfeita conta, sem recorrer aos milagres.

Atribuindo, pois, a obra ao Sr. Bonnemère, e nela encontrando fatos e pensamentos que parecem emprestados à própria Doutrina, nos parece difícil que o autor a ela fosse estranho. Desde que ele afirma o contrário, o cremos sem dificuldade, e achamos na sua própria ignorância a confirmação desse fato muitas vezes repetido nos escri-3, que as idéias Espíritas estão de tal modo na Natureza, que elas germinam fora do ensino do Espiritismo, e que uma multidão de isso as é ou se tornam Espíritas sem o saberem e por intuição; não faIta às suas idéias senão o nome. O Espiritismo é como estas plantas cujas sementes são levadas pelos ventos e que produzem sem cultura; 9 nasce espontaneamente no pensamento, sem estudo preliminar. Que podem, pois, contra ele aqueles que sonham com o seu aniquilamento batendo na cepa mãe?

Assim, eis um médium completo, notável, e um observador que não desconfiam, nem um nem o outro, do que é o Espiritismo, e o observador, por uma dedução lógica daquilo que vê, chega ele mesmo todas as conseqüências do Espiritismo. O que ele constata, de início, que os fatos que tem sob os olhos lhe apresentam, no mesmo indivíduo, uma dupla vida da qual uma não tem nenhuma relação com a outra. Evidentemente, essas duas vidas, onde se manifestam pensamentos divergentes, estão submetidas a condições diferentes; ambas não podem proceder da matéria; é a constatação da vida espiritual; é a alma que se vê agir fora do organismo.

Este fenômeno é muito vulgar; produz-se diariamente durante o sono do corpo, nos sonhos, no sonambulismo natural ou provocado, na catalepsia, na letargia, na dupla vista, no êxtase. O princípio inteligente isolado do organismo é um fato capital, porque é a prova de sua individualidade. A existência, a independência e a individualidade da alma podem, assim, ser o resultado da observação. Se, durante a vida do corpo, a alma pode agir sem

5

o concurso dos órgãos materiais, é que ela tem uma existência própria; a extinção da vida corpórea não arrasta, pois, forçosamente, a da vida espiritual. Vê-se por aí onde, de conseqüência em conseqüência, chega-se a uma dedução lógica.

O Sr. Bonnemère não chegou a esse resultado por uma teoria preconcebida, mas pela observação; o Espiritismo não procedeu de outro modo; o estudo dos fatos precedeu a Doutrina, e os princípios não foram formulados, como em todas as ciências de observação, senão à medida que foram deduzidos da experiência. O Sr. Bonnemère fez o que todo observador sério pode fazer, porque todos os fenômenos espontâneos que ressaltam do mesmo princípio são numerosos e vulgares; somente o Sr. Bonnemère, não tendo visto senão um ponto, não pôde chegar senão a uma conclusão parcial, ao passo que o Espiritismo, tendo abarcado todo o conjunto desses fenômenos, tão complexos e tão variados, pôde analisá-los, compará-los, controlá-los uns pelos outros, e nisto encontrar a solução de um maior número de problemas.

Uma vez que Espiritismo é um resultado da observação, quem tem olhos de ver, julgamento para raciocinar, paciência e perseverança para ir até o fim, poderá chegara constituir o Espiritismo, do mesmo modo que se poderia reconstituir todas as ciências; mas o trabalho estando feito, é tempo ganho e trabalho poupado. Se fosse preciso recomeçar sem parar, não haveria progresso possível.

Como os fenômenos estão na Natureza, produziram-se em todas as épocas; e precisamente porque eles tocam de maneira mais direta à espiritualidade, se encontram misturados a todas as teogonias. O Espiritismo, vindo numa época menos acessível aos preconceitos, esclarecida pelo progresso das ciências naturais que faltaram aos primeiros homens, e por uma razão mais desenvolvidas, pôde observar melhor do que se fazia outrora; ele vem hoje libertar o que é verdadeiro da mistura introduzida pelas crenças supersticiosas, filhas da ignorância.

O Sr. Bonnemère se felicita pelo acaso que lhe colocou nas mãos os documentos fornecidos pelo jovem bretão. O Espiritismo não admite mais o acaso do que o sobrenatural nos acontecimentos da vida. O acaso, que por sua natureza é cego, se mostraria, às vezes, singularmente inteligente. Pensamos, pois, que foi intencionalmente que esses documentos caíram em sua posse depois que ele se colocou no estado de constatar-lhe a origem. Nas mãos do jovem, teriam sido perdidos, e, sem dúvida, era o que não deveria ser. Era preciso, pois, que alguém se encarregasse dê tirá-los da obscuridade, e foi, parece, ao Sr. Bonnemère deferida esta missão.

Quanto aos valores destes documentos, julgando-os pelas amostras dos pensamentos contidos no Romance do futuro, seguramente, deve neles haver excelentes coisas; todas elas são boas? é uma outra questão. Sob esse aspecto, sua origem não é uma garantia de infalibilidade, tendo em vista que os Espíritos, não sendo senão as almas dos homens, não têm soberana ciência. Sendo seu adiantamento relativo, há-os uns mais esclarecidos do que os outros; se há deles que sabem mais do que os homens, há também homens que sabem mais do certos Espíritos. Até hoje consideravam-se os Espíritos como seres fora da Humanidade, e dotados de faculdades excepcionais; aí está um erro capital que engendrou tantas superstições e que o Espiritismo veio retificar. Os Espíritos fazem parte da Humanidade, e até que tenham atingido o ponto culminante da perfeição para a qual gravitam, estão sujeitos a se enganarem. É porque não se deve jamais se desinteressar de seu livre-arbítrio e de seu julgamento, mesmo com respeito àquilo que vem do mundo dos Espíritos; não é preciso aceitar jamais nada de olhos fechados, e sem o controle severo da lógica. Sem nada pre julgar sobre os documentos em questão, poder-se-ia, pois, que ali tivesse do bom e do mau, do verdadeiro e do falso, e que, em conseqüência, deveria ser feita uma escolha judiciosa para a qual os princípios da Doutrina podem fornecer úteis indicações.

Entre esses princípios, há um que importa não perder de vista, é o objetivo providencial da manifestação dos Espíritos. Eles vêm para testarem a sua existência e

6

provar ao homem que tudo não acaba para ele com a vida corpórea; eles vêm instruí-lo sobre a sua condição futura, excitá-lo a adquirir o que é útil ao seu futuro e o que pode levar, quer dizer, as qualidades morais, mas não para lhe dar os meios de se enriquecer. O cuidado de sua fortuna e da melhoria de seu bem-estar material deve ser o fato de sua própria inteligência, de sua atividade, de seu trabalho e de suas pesquisas. Se isto fosse de outro modo, o preguiçoso e o ignorante poderiam se enriquecer sem dificuldade, uma vez que bastaria se dirigir aos Espíritos para obter uma invenção lucrativa, fazer descobrir tesouros, ganhar na bolsa ou na loteria; também todas as esperanças de fortuna fundadas sobre o concurso dos Espíritos fracassaram deploravelmente.

O que nos inspira algumas dúvidas sobre a eficácia dos bichos-da-seda, procedimento que teria por efeito fazer ganhar milhões, e de acreditara idéia de que os Espíritos podem dar meios de enriquecer, idéia que perverteria a própria essência do Espiritismo. Seria, pois, imprudente de se criar quimeras a esse respeito, porque poderia isso ser como certas receitas que deveriam fazer correr fonte de riquezas em certas mãos, e que não chegaram senão a ridículas mistificações. Essa não é, no entanto, uma razão ocultar o procedimento, e para negligenciá-lo; se o sucesso deve ter um resultado mais importante mais sério do que a fortuna, pode-se que uma semelhante revelação seja permitida. Mas, na incerteza, é bom não se embalar de esperanças que poderiam ser frustradas. Aprovamos, pois, o projeto do Sr. Bonnemère de publicar as receitas que foram dadas ao seu jovem bretão, porque, entre elas, podem-se encontrar receitas úteis, sobretudo para as doenças.

________________

O CURA GASSNER

MÉDIUM CURADOR

No jornal a Exposition populaire illustrée, 24° número, encontramos num artigo intitulado: Correspondência sobre os taumaturgos, uma interessante notícia sobre o cura Gassner, quase tanto conhecido, em seu tempo, quanto o príncipe Hohenlohe por seu poder curador.

"Gassner(Jean-Joseph) nasceu em 20 de agosto de 1727, em Bratz perto de Bludens (Souabe); fez seus primeiros estudos em Inspruck e em Prague, recebeu as ordens eclesiásticas e foi provido, em 1758, da paróquia de Kloesterle, na região dos Grisons.

"Depois de quinze anos de uma vida solitária, revelou-se ao mundo como dotado de uma força excepcional, a de curar todas as doenças pela simples aposição das mãos, e isto sem empregar nenhum remédio, e sem exigir nenhuma retribuição. Os doentes afluíram logo de todas as partes, e em tão grande número que, para se colocar mais ao alcance de socorrê-los, Gassner solicitou e obteve a permissão de se ausentar de sua paróquia, e foi sucessivamente a Wolfegg, a Wein-garten, a Ravensperg, a Detland, a Kirchberg, a Morspurg e Constan-ce. Os infelizes lhe faziam cortejo; o corpo médico se levantou contra ele. Uns proclamavam as curas maravilhosas, outros as contestavam. "O bispo de Constance o constrangeu a um inquérito feito pelo diretor do seminário. Gassner declarou não ter jamais tido o pensamento de fazer milagres e que se limitou a aplicar o poder que a ordenação confere a iodos os padres de exorcizar, em nome de Jesus Cristo, os demônios que são uma das causas mais freqüentes de nossas doenças. Ele declarou dividir todas as doenças naturais ou lesões, em doenças de obsessões e em doenças complicadas de obsessões. Ele estava, dizia, sem poder sobre as primeiras e fracassava sobre a da terceira categoria, quando a doença natural era superiora doença de obsessão.

"O bispo não ficou convencido e ordenou a Gassner de reentrar em sua paróquia, mas logo depois o autorizou a continuar seus exorcismos; o cura apressou-se em

7

aproveitar a autorização e surpreendeu os habitantes de d'Elwangen, de Sulzbach e de Ratisbonne, por uma multidão imensa de doentes que a sua fama atraiu da Suíça, da Alemanha e da França. O duque de Wurtemberg se declarou abertamente seu admirador e seu protetor; seus sucessos lhe atraíam poderosos adversários. O célebre Haen e o autor Sterzingen o atacaram com perseverança e paixão; vários bispos prestaram seu apoio ao fogoso autor e lhe foi interditado exorcizar em suas dioceses. Enfim, Joseph 11 pronunciou uma decisão que ordenava a Gassner para deixar Ratisbonne; mas, por força da proteção do príncipe bispo daquela cidade, que lhe havia conferido o título de conselheiro eclesiástico, com o cargo de capelão da corte, ele perseverou; essa resistência se prolongou até 1777, época na qual Gassnerfoi provido da paróquia de Bondorf, onde se retirou e morreu em 4 de abril de 1779, com a idade de 52 anos.

Nota.- O Espiritismo protesta contra a qualificação de taumaturgos dada aos curadores, pela razão de que ele não admite que nada se faça fora das leis naturais. Os fenômenos que pertencem à ordem dos fatos espirituais não são mais miraculosos do que os fatos materiais, tendo em vista que o elemento espiritual é uma das forças da Natureza, tão bem quanto o elemento material. O cura Gassner não fazia, pois, mais milagres do que o príncipe de Hohenlohe e do que o zuavo Jacob, e podem-se ver singulares aproximações entre o que se passava então, a esse respeito, e o que se passa hoje.

OS PRESSENTIMENTOS E OS PROGNÓSTICOS.

Emprestamos ao mesmo artigo do jornal pré-citado os fatos adiante que acompanham a notícia sobre o cura Gassner, porque o Espiritismo pode tirar disto um útil assunto de instrução. O autor do artigo os faz seguir de reflexões dignas de nota neste tempo de ceticismo a respeito das causas extra materiais.

"Gassner havia desfrutado de um grande favor junto da imperatriz Marie-Thérèse, e freqüentemente o consultavam, dando crédito às suas inspirações. Conta-se (veras Memórias da Sra. Campan) que na época em que a idéia havia sido concebida de unir a filha de Marie-Thérès e ao filhinho de Louis XV, a grande imperatriz fez vir Gassner e lhe perguntou: "Minha ANTOINETTE deverá ser feliz?"

"Gassner, depois de refletir longo tempo, empalideceu estranhamente e persistiu em guardar o silêncio.

"Pressionado de novo pela imperatriz e procurando, então, dar uma expressão geral à idéia da qual parecia muito ocupado: Senhora, respondeu ele, há cruz para todos os ombros.

"O casamento teve lugar em 16 de maio de 1770; o delfim e Marie-Antoinette receberam a bênção nupcial na capela de Versailles (Marie-Antoniette tinha chegado a Compiègne em 14); três horas depois do meio-dia o céu se cobriu de nuvens, torrentes de chuva inundaram Versailles; o acontecimento imprevisto repercutiu, e a multidão de curiosos que enchia o jardim foi obrigada a se retirar.

"A chegada de Marie-Antoinette no palácio dos reis da França (lemos na vida pública e privada de LouisXVI, pelo Sr. A*** e de Salex; Paris, 1814, p.340), foi assinalada por um desses prognósticos do qual não se lembra comumente senão quando se os vê realizar na seqüência dos tempos.

"No momento em que essa princesa, entrando pela primeira vez nas cortes do castelo de Versailles, pôs o pé no pátio de mármore, um violento acontecimento imprevisto abalou o castelo: Presságio de infelicidade! exclamou o marechal de Richelieu.

"A noite foi triste na cidade, e as iluminações não puderam produzir nenhum efeito.

"Acrescentai a isso o terrível acidente ocorrido em 30 de maio na rua Royale, no dia da festa que deu na praça Louis XV na cidade de Paris pelo casamento do Delfim e da

8

Delfina. ANQUETIL leva a 300 o número de mortos na praça, e a 1.200 o número daqueles que sucumbiram nos hospitais ou no domicílio poucos dias depois, ou bem que ficaram estropiados.

"Em 1757 (veros Cartazes de Tours, 25°ano, n° 14.-quinta-feira, de abril de 1792), a senhora de Pompadour fez vir diante de Louis XV um astrólogo que, depois de ter calculado seu tema de nascimento, disse-lhe: "Senhor, vosso reino é celebre pelos grandes acontecimentos, aquele que o seguirá, o será por grandes desastres."

"No dia da morte de Louis XV houve em Versailles uma tempestade horrível.

"Que acúmulo de prognósticos!

"Durante 8 anos o leito da rainha foi estéril. - Em 19 de dezembro de 1778 nasceu uma filha, Marie-Thérèse-Charlotte (mais tarde chamada pelo título de seu esposo, senhora Dauphine, duquesa de Angoulême). Ainda três anos e em 22 de outubro de 1781, Marie-Antoinette deu um herdeiro à coroa. A cidade de Paris vota, nessa ocasião, à rainha, uma festa na qual fez ostentar a mais suntuosa munificência.

"Essa festa teve lugar em 21 de janeiro de 1782. Onze anos mais tarde a comuna de Paris deu ao povo o ESPETÁCULO DA MORTE DO REI. A rainha estava prisioneira esperando que a visão de Gassner se cumprissem.

"Uma vez que tocamos nessas questões ardentes, escutai ainda as revelações da Sra. Campan. - Estava-se em maio de 1789; os dias 4 e 5 tinham diversamente impressionado os espíritos; quatro velas clareavam o gabinete da rainha, que contava alguns acidentes notáveis que tinham acontecido durante o curso do dia. -"Uma vela se apagou por si mesma; eu a reacendi, disse a senhora Campan; logo a segunda, depois a terceira, se apagaram também; então a rainha, apertando-lhe a mão com movimento de pavor, lhe disse: "A infelicidade pode fazer supersticiosa; se essa quarta vela se apagar como as outras, nada poderá me impedir de considerar esse sinal como um sinistro presságio..." A quarta vela se apagou!!!

"Poucas noites antes, a rainha tinha, dizia ela, tido um sonho medonho do qual ela ficou profundamente afetada.

"Sem dúvida, os espíritos fortes riem de todos esses prognósticos, de todas essas profecias, desse dom de visão anterior. Não crêem nisso ou fingem nisso não crerem! Mas, por que, em todas as épocas, houve personagens de algum valor, de alguma importância, que, sem nenhum interesse qualquer, afirmaram fatos desse gênero, que declararam absolutos, positivos.

"Citemos alguns exemplos:

"Théodore-Agrippa d'Aubigné, avô da Sra. de MAINTENON, relata em suas Memórias tertido ao seu serviço, em Poitou, um surdo-mudo de nascença DOTADO DO DOM DA ADIVINHAÇÃO. "Um dia, dizela, as filhas da casa tinham perguntado quantos anos o rei (Henri IV) viveria ainda, o tempo e as circunstâncias de sua morte, ele lhes marcou três anos e meio, e designou a cidade, a rua e a carruagem com os dois golpes de faca que ele receberia no coração."

"Algumas palavras ainda sobre esse mesmo Henri IV.

"Que julgamento faremos sobre os negros pressentimentos, que não foram muito constantes, que esse infeliz príncipe teve de seu cruel destino?- disse Sully, em suas Memórias, liv. XXVII.- São de uma singularidade que tem alguma coisa de assustador; já relatei com que repugnância ele se deixou levar a permitir que a cerimônia de coroação da rainha se fizesse antes da sua partida; quanto mais via lhe aproximar o momento, mais sentia o pavor e o horror redobrar em seu coração; ele vinha se abrir inteiramente a mim, nesse estado de amargura e de abatimento, dos quais eu o tomava como de uma fraqueza imperdoável. Estas próprias palavras farão uma toda outra impressão, tudo o que eu poderia dizer: - "Ah! meu amigo, dizia-me, que essa sagração me desagrada; não sei o que é, mas o coração me diz que me chegará alguma infelicidade." Ele sentava-se,

9

dizendo-me estas palavras, sobre uma cadeira baixa, que mandei fazer de propósito para ele, e, entregue a todos os negrumes de suas idéias, ele batia os dedos sobre o estojo de seus óculos, sonhando profundamente.

"Se saía desse devaneio, era para se levantar bruscamente batendo as mãos sobre suas coxas e para exclamar: "Por Deus, eu morrerei nesta cidade, dela não sairei jamais; eles me matarão; vejo bem e colocam seu último recurso em minha morte. Ah! maldita sagração, tu serás causa de minha morte!

" Meu Deus, senhor, disse-lhe um dia, a que idéia vos entregais ali? Se ela continuar, sou de opinião que suspendais essa sagração, e coroação, e guerra; vós o quereis? Isto será feito logo.

"-Sim, disse-me ele, enfim, depois que lhe fiz este discurso duas ou três vezes; sim, canceleis essa sagração, e que dela não se ouça mais falar; terei por esse meio curado o espírito das impressões que alguns avisos lhe fizeram; sairei desta cidade e não temerei mais nada."

"A que sinal se reconheceria esse grito secreto e imperioso do coração desconhecendo-se a estes: "Eu não quero vos ocultar, disse-me ainda, que foi dito que eu deveria ser morto na primeira magnificência que eu fizesse e que eu morreria numa carruagem, eéo que faz que eu seja tão medroso."

- Não me tínheis, isto me parece, jamais dito isso, senhor, respondi-lhe; várias vezes me admirei, em vos ouvindo gritar numa carruagem, de vos ver tão sensível a um pequeno perigo, depois de vos ter visto tantas vezes no meio de tiros de canhão e de mosquete, e entre as lanças e espadas nuas; mas, uma vez que essa opinião vos perturba até esse ponto, em vosso lugar, senhor, eu partiria já amanhã: deixaria fazer a sagração sem vós, ou eu a remeteria para uma outra vez, e por muito tempo não reentraria em Paris, nem numa carruagem; quereis que eu envie tudo, nesta hora, a Notre-Dame e a Saint-Denis, fazer tudo cessar e dispensar os operários?

"-Eu muito o <7ue/"o,disse-me ainda o príncipe, mas que dirá minha mulher? porque ela tem na cabeça essa maravilhosa sagração.

"- Ela dirá o que quiser, retomei, vendo o quanto minha proposta havia agradado ao rei. Mas eu não poderia crer que, quando ela soubesse que a inquietação em que estais deve ser a causa de tanto mal, ela nisso não perseveraria mais."

Eu não esperei outra ordem para dar a de interromper os preparativos da coroação; não é senão com verdadeiro pesar que me vejo obrigado a dizer que, qualquer esforço que eu faça, não posso jamais convidar a rainha a dar essa satisfação ao seu esposo.

Eu silenciei quanto às solicitações, às preces, e às contestações que empreguei durante três dias inteiros para tratar de comovê-la; cabia ao príncipe ceder. Mas Henri retornou mais fortemente às suas primeiras apreensões, que ele me expressava comumente por estas palavras que freqüentemente tinha à boca: -Ah! meu amigo, jamais sairei desta cidade; eles me matarão aqui. Ó maldita sagração, tu serás a causa de minha morte!"

"A sagração se fez em Saint-Denis na quinta-feira, 13 de maio, e a rainha deveria, no domingo, dia 16 do mesmo mês, fazer sua entrada em Paris.

"No dia 14, o rei quis visitar a Sully, visita que lhe havia anunciado no sábado, 15, de manhã; ele tomou sua carruagem e saiu, modificando várias vezes seu itinerário em caminho, etc., etc.

"Péréfixe, seu historiador, faz observar que "o céu e a terra não tinham dado senão muitos prognósticos daquilo que lhe aconteceu."

O BISPO DE RODEZ coloca entre esses prognósticos um eclipse do sol, o aparecimento de um terrível cometa, tremores de terra, monstros nascidos em diversas regiões da França, chuvas de sangue que caíram em alguns lugares, uma grande peste que havia afligido Paris em 1606, aparições de fantasmas e vários outros prodígios (ver a

 

10

História de Henri o Grande, por Hardouin de Péréfixe, bispo de Rhodez, Vida do duque de Epernon, Mercúrio francês, Mathieu, l'Estoile, etc.)

"Detenhamo-nos! escreveremos um volume, os volumes, tanto os fatos são abundantes. Mas é, pois, tão necessário ter recursos nos relatos dos outros? Que cada um questione a si mesmo; que cada um deles apele às suas próprias lembranças e se responda com lealdade e franqueza e cada um dirá: Há em mim um desconhecido que somos nós, que ao mesmo tempo comanda minha matéria e lhe obedece. -Esse desconhecido, espírito, alma, que é ele? como ele é? porque ele é? Mistério; série de mistérios; inexplicável mistério. Como tudo na Natureza, no organismo, na vida, a vida e a morte não são dois impenetráveis mistérios? O sono, esse ensaio da morte, não é um inexplicável mistério? A assimilação dos alimentos, que se nos tornam: inexplicável, incompreensível mistério1 A geração: misteriosa obscuridade! Essa obediência passiva de meus dedos que traçam essas linhas e obedecem à minha vontade: trevas das quais só Deus sonda as profundezas e que se iluminam, por si só, da luz da verdade!

"Baixai a cabeça, filhos da ignorância e da dúvida; humilhai essa orgulhosa que chamais a razão; livres pensadores, sofrei a dependência que estreita a vossa inteligência; dobrai o joelho: só Deus sabe!"

Nesses fatos há duas coisas bem distintas a considerar: os pressentimentos e os fenômenos considerados como os prognósticos de acontecimentos futuros.

Não se poderia negar os pressentimentos dos quais poucas pessoas não tenham tido exemplos. É desses fenômenos dos quais só a matéria é impotente para dar a explicação, porque se a matéria não pensa, ela não pode, não mais, pressentir. É assim quer o materialismo se choca a cada passo contra as coisas mais vulgares que vêm desmenti--lo.

Para ser advertido, de maneira oculta, do que se passa ao longe e cujo conhecimento não podemos ter senão num futuro mais ou menos próximo pelos meios comuns, é preciso que alguma coisa se desembarace de vós, veja e ouça o que não podemos perceber pelos olhos e pelos ouvidos, para dela reportar a intuição ao nosso cérebro. Essa alguma coisa deve ser inteligente, uma vez que compreende, e que, freqüentemente, de um fato atual prevê as conseqüências futuras; é assim que temos, às vezes o pressentimento do futuro. Essa alguma coisa não é outra do que nós mesmos, nosso ser espiritual, que não está confinado no corpo como um pássaro numa gaiola, mas que, semelhante a um balão cativo, se afasta momentaneamente da terra, sem deixar de a ela estar ligado.

É sobretudo nesses momentos em que o corpo repousa, durante o sono, e o Espírito, aproveitando o repouso, que ele deixa o cuidado de seu envoltório, recobra em parte a sua liberdade e vai haurir, no espaço, entre outros Espíritos, encarnados como ele ou desencarnados, e naquilo que vê, as idéias das quais traz a intuição ao despertar.

Essa emancipação da alma, freqüentemente, tem lugar no estado de vigília, nos momentos de absorção, de meditação e de devaneio, onde a alma parece não estar mais preocupada com a Terra; sobretudo, ela ocorre, de maneira mais efetiva e mais ostensiva, nas pessoas dotadas do que se chama dupla vista ou visão espiritual.

Ao lado das intuições pessoais do Espírito, é preciso colocar as que lhe são sugeridas por outros Espíritos, seja durante a vigília, seja durante o sono, pela transmissão do pensamento de alma a alma. É assim que, freqüentemente, se é advertido de um perigo, solicitado para tomar tal ou tal direção, sem por isto que o Espírito deixe de ter seu livre-arbítrio. São conselhos, e não ordens, porque ele permanece sempre senhor para agir à sua vontade.

Os pressentimentos têm, pois, sua razão de ser, e acham a sua explicação natural na vida espiritual, da qual não deixamos um instante de viver, porque é a vida normal.

Não ocorre o mesmo com os fenômenos físicos considerados como prognósticos de acontecimentos felizes ou infelizes. Esses fenômenos, em geral, não têm nenhuma

11

ligação com as coisas que parecem pressagiar. Eles podem ser os precursores de efeitos físicos que lhes são a conseqüência, como um ponto negro no horizonte pode pressagiar, ao marinheiro, a tempestade, ou certas nuvens anunciarem o granizo, mas o significado desses fenômenos para as coisas de ordem moral deve ser alinhado entre as crenças supersticiosas que não se poderia combater com mais energia.

Essa crença, que não repousa absolutamente sobre nada de racional, faz que, quando um acontecimento chegue, lembre-se de algum fenômeno que o precedeu, e ao qual o espírito tocado o prende, sem se inquietar com a impossibilidade de relações que não existem senão na imaginação. Não se pensa que os mesmos fenômenos se repetem diariamente sem que disso resulte nada de deplorável, e que os mesmos acontecimentos chegam, a cada instante, sem serem precedidos de nenhum pretenso sinal precursor. Tratando-se de acontecimentos que tocam aos interesses gerais, os narradores crédulos, ou mais freqüentemente, oficiosos, para exaltar-lhes a importância aos olhos da posteridade, ampliam nos prognósticos que se esforçam de tornar mais sinistros e mais terríveis, ajuntando-lhes pretensas perturbações da Natureza, cujos tremores de terra e os eclipses são acessórios obrigatórios, assim como o faz o bispo de Rodez a propósito da morte de Henri IV. Esses relatos fantásticos, que, freqüentemente, têm sua fonte nos interesses dos partidos, foram aceitos sem exame pela credulidade popular que viu, ou à qual queria fazer ver, milagres nesses fenômenos estranhos.

Quanto aos acontecimentos vulgares, o homem é, o mais freqüentemente, ele próprio a sua causa primeira; não querendo confessar as suas próprias fraquezas, procura uma desculpa colocando por conta da Natureza as vicissitudes que são quase sempre o resultado de sua imprevidência e de sua imperícia. É em suas paixões, em seus defeitos pessoais que é preciso procurar os verdadeiros prognósticos de suas misérias, e não na Natureza, que não se desvia da rota que Deus lhe traçou de toda a eternidade.

O Espiritismo, explicando por uma lei natural a verdadeira causa dos pressentimentos, demostra, por isto mesmo, o que há de absurdo na crença nos prognósticos. Longe de acreditar a superstição, tira-lhe seu último refúgio: o sobrenatural.

________________

OZUAVO JACOB

(Segundo artigo, ver o número de outubro).

O Sr. Jacob é um charlatão? Seu desinteresse pessoal é um fato constante, e pode ser um daqueles que mais desorientaram a crítica. Como acusar de charlatanismo um homem que não pede nada e que não quer nada, mesmo agradecimentos?

Qual seria, pois, seu móvel? O amor-próprio, diz-se. O desinteresse moral absoluto, sendo o sublime da abnegação, seria preciso ter a virtude dos anjos para não sentir uma certa satisfação quando se vê a multidão se pressionar subitamente ao seu redor, quando na véspera se era desconhecido. Ora, como o Sr. Jacob não tem as pretensões de ser um anjo, isto supondo-lhe, o que ignoramos, que seja um pouco exaltada sua importância aos seus próprios olhos, não se poderia disto lhe fazer um grande crime, e isto não destruiria os fatos se os há. Gostamos de crer que aqueles que lhe imputam esses defeitos estão muito acima das coisas terrestres para ver, sob esse aspecto, a menor censura a se fazer. Mas, em todos os casos, esse sentimento não poderia ser senão consecutivo e não preconcebido. Se o Sr. Jacob tivesse premeditado o desejo de se popularizar, dando-se por curador emérito sem poder provar outra coisa que a sua impossibilidade, em lugar do aplauso, não teria recolhido, desde o primeiro dia, senão vaias, o que não teria sido muito lisonjeiro para ele. Para se orgulhar de alguma coisa é preciso uma causa preexistente; seria preciso, pois, que ele curasse antes de lhe tirar vaidade.

12

Ele queria, acrescenta-se, fazer falar dele, seja; se tal foi seu objetivo, é preciso convir que, graças à imprensa, ele foi servido a gosto. Mas qual é o jornal que pode dizer que o Sr. Jacob haja querido procurar a menor propaganda, o menor artigo, que haja pago uma única linha? Ele foi ver um único jornalista? Não, foram os jornalista que foram a ele, e que não puderam vê-lo sempre facilmente. A imprensa falou espontaneamente dele quando ela viu a multidão, e a multidão não veio senão quando houver os fatos. Ele fez sua corte aos grandes personagens? Ele se se mostrou para eles mas acessível, mais amável? Todo o mundo sabe que ele levou, sob esse aspecto, o rigorismo até o excesso. Seu amor-próprio, no entanto, teria encontrado mais elementos de satisfação no grande mundo, do que entre os obscuros indigentes. É preciso, pois, afastar qualquer imputação de intriga e de charlatanismo.

Ele cura todas as doenças? Não só não as cura todas, mas de dois indivíduos atingidos do mesmo mal, freqüentemente, ele curará um e não fará nada no outro. Ele não sabe antecipadamente se curará um doente, eis porque jamais promete; ora sabe-se que os charlatães não são avaros de promessas. Acura prende-se à afinidades fluídicas que se manifestam instantaneamente, como um abalo elétrico, e que não podem ser pre julgados.

Ele é dotado de um poder sobrenatural? Somos - nós retornamos ao tempo dos milagres? Interrogai-o, e ele vos responderá que não há nessas curas nada de sobrenatural nem de miraculoso; que ele está dotado de uma força fluídica independente de sua vontade, que se manifesta com mais ou menos energia, segundo as circunstâncias e o meio onde se encontrem; que o fluido que emite cura certas doenças em certas pessoas, sem que saiba nem porquê, nem como.

Quanto àqueles que pretendem que essa faculdade seja um presente do diabo, pode-se responder que, uma vez que não se exerce senão para o bem, é preciso admitir que o diabo tem bons momentos dos quais se faz bem aproveitar. Pode-se, também, lhe perguntar que diferença há entre as curas do príncipe de Hohenlohe e as do zuavo Jacob, porque umas são reputadas santas e miraculosas, e as outras diabólicas? Passemos sobre esta questão que não pode ser tomada a sério nestes tempos.

A questão do charlatanismo prejudica todas as outras, é porque nela insistimos; esta questão estando afastada, vejamos que conclusões se podem tirar da observação.

O Sr. Jacob curou instantaneamente doentes reputados incuráveis, é um fato positivo. A questão do número dos doentes curados é aqui secundária; que deles não houvesse senão um em cem, o fato não subsistiria menos, por isso; ora, esse fato tem uma causa.

A faculdade curadora levada a esse grau de poder, achando-se num soldado que, por homem honesto que seja, não tem nem o caráter, nem os hábitos, nem a linguagem, nem as maneiras dos santos; exercida fora de toda forma ou aparelho místico, nas condições mais vulgares e mais prosaicas; aliás, encontrando-se em diferentes graus numa multidão de outras pessoas, entre os heréticos como entre os Muçulmanos, os Indus, os Budistas, etc., exclui a idéia de milagres no sentido litúrgico da palavra. É, pois, uma faculdade inerente ao indivíduo; e, uma vez que ela não é um fato isolado, é que ela depende de uma lei como todo efeito natural.

Acura é obtida sem o emprego de nenhum medicamento, portanto, ela é devida a uma influência oculta; e tendo em vista que se trata de um resultado efetivo, material, e que nada pode produzir alguma coisa, é preciso que essa influência seja alguma coisa de material; isso não pode, pois, ser senão um fluido material, embora impalpável e invisível. O Sr. Jacob não tocando o doente, não fazendo mesmo nenhum passe magnético, o fluido não pode ter por motor e propulsor senão a vontade; ora, a vontade não sendo um atributo da matéria, não pode emanar senão do espírito; é, pois, o fluido que age sem o impulso do espírito. A maioria dos doenças curadas por esse meio sendo daquelas contra as quais a ciência é impotente, há, pois, agentes curativos mais poderosos do que

13

aqueles da medicina comum; esses fenômenos são, conseqüentemente, a revelação de leis desconhecidas da ciência; em presença de fatos patentes é mais prudente duvidar do que negar. Tais são as conclusões às quais chega forçosamente todo observador imparcial.

Qual é a natureza desse fluido? É da eletricidade ou do magnetismo? Provavelmente, há de um e de outro, e talvez alguma coisa a mais; em todos os casos, deles é uma modificação, uma vez que os efeitos são diferentes. A ação magnética é evidente embora mais poderosa do que a do magnetismo comum, do qual esses fatos são a confirmação, e ao mesmo tempo a prova, de que não disse a sua última palavra.

Não entra no quadro desse artigo explicar o modo de ação desse agente curativo, já descrito na teoria da mediunidade curadora; basta ter demostrado que o exame dos fatos leva a reconhecer a existência de um princípio novo, e que este princípio, por estranhos que sejam os efeitos, não sai do domínio das leis naturais.

Nos fatos concernentes ao Sr. Jacob, por assim dizer, ele não fez menção do Espiritismo, ao passo que toda atenção se concentrou sobre o magnetismo; isto tinha sua razão de ser e sua utilidade. Se bem que o concurso de Espíritos desencarnados nessas espécies de fenômenos seja uma fato constatado, sua ação não é aqui evidente, é porque disso fazemos abstração. Pouco importa que os fatos sejam explicados com ou sem a intervenção de Espíritos estranhos; o magnetismo e o Espiritismo se dão a mão; são duas partes de um mesmo todo, dois ramos de uma mesma ciência que se completam e se explicam um pelo outro. Acreditar o magnetismo é abrir o caminho ao Espiritismo, e reciprocamente.

A crítica não tem poupado o Sr. Jacob; na falta de boas razões, ela lhe tem, como de hábito, prodigalizado a zombaria e as injúrias grosseiras, da qual não se emociona de modo nenhum; ele desprezou uns e outros, e as pessoas sensatas lhe ficaram gratas por sua moderação. Alguns foram até solicitar sua prisão como impostor abusando da credulidade pública: mas um impostor é aquele que promete e não tem; ora, como o Sr. Jacob jamais prometeu nada, ninguém pode se lamentar de ter sido enganado. Que se poderia lhe censurar? Em que estava em contravenção legal? Ele não exercia a medicina, nem mesmo ostensivamente o magnetismo. Qual é a lei que proíbe curar as pessoas em as olhando?

Fizeram-lhe uma queixa de que a multidão de doentes que vinha a ele dificultava a circulação; mas foi ele que chamou a multidão? Convocou-a com anúncios? Qual é o médico que se lamentaria se tivesse uma semelhante à sua porta? E se um deles tivesse essa boa fortuna, mesmo ao preço de anúncios caramente pagos, que se diria querendo-se inquietá-lo por este fato? Foi dito que houve mil e quinhentas pessoas por dia durante um mês, isto faz quarenta e cinco mil doentes que se apresentaram, e que nessa conta, se os tivesse curado, não deveria mais deles haver coxos nem estropiados nas ruas de Paris. Seria supérfluo revelar essa singular objeção, mas diremos que quanto mais aumenta o número dos doentes que, curados ou não, se pressionam no beco na rua da Roquette, mais se prova o quanto é grande o número daqueles que a medicina não pode curar, porque é evidente que, se esses doentes tivessem sido curados pelos médicos, eles não teriam vindo ao Sr. Jacob.

Como, apesar das negações, havia fatos patentes de curas extraordinárias, quiseram explicá-las dizendo que o Sr. Jacob agia, pela própria rudeza de suas palavras, sobre a imaginação dos doentes; seja, mas, então, se reconheceis à influência da imaginação um tal poder sobre as paralisias, as epilepsias, os membros anquilosados, porque não empregais esse meio, em lugar de deixar sofrer tantos infelizes e enfermos, ou de lhes dar drogas que sabeis inúteis?

A prova, foi dito, de que o Sr. Jacob não tinha o poder que se atribuía, foi que se recusou ir curar num hospital sob os olhos de pessoas competentes para apreciara realidade das curas.

14

Duas razões deveram motivar essa recusa. Primeiro não se podia dissimular que a oferta que lhe era feita não era ditada pela simpatia, mas um desafio que se lhe propunha. Se, numa sala de trinta doentes, se não tivesse posto de pé ou aliviado senão três ou quatro, não teria faltado de dizer que isso não provava nada e que havia fracassado.

Em segundo lugar, é levar em conta as circunstâncias que podem favorecer ou paralisar sua ação fluídica. Quando está cercado de doentes, que vêm a ele voluntariamente, a confiança que ele dá os predispõem. Não admitindo nenhum estranho atraído pela curiosidade, encontra-se num meio simpático que predispõe a ele mesmo; está tudo para ele; seu espírito se concentra livremente, e sua ação tem toda a sua força. Numa sala de hospital, desconhecido dos doentes habituados aos cuidados de seus médicos, dos quais seria suspeitar da habilidade tendo fé em outra coisa do que em sua medicação, sob os olhares inquisidores e zombadores de pessoas prevenidas, interessadas em denegri-lo; que em lugar de secundá-lo pelo concurso de intenções benevolentes, suspeitando mais que não desejavam vê-lo ter sucesso, porque o sucesso de um zuavo ignorante seria um desmentido dado ao seu saber, é evidente que, sob o império dessas impressões e desses eflúvios antipáticos, sua faculdade se encontraria neutralizada. O erro desses senhores, nisto como quando se trata do sonambulismo, sempre foi o de crer que essas espécies de fenômenos se manobram à vontade, como uma pilha elétrica.

As curas desse gênero são espontâneas, imprevistas e não podem ser premeditadas, nem postas em concurso. Acrescentamos a isto que o poder curador não é permanente; quem o possui hoje, pode vê-lo cessar no momento em que menos espera; essas intermitências provam que ele depende de uma causa independente da vontade do curador, e frustam os cálculos do charlatanismo.

Nota. O Sr. Jacob não retomou ainda o curso de suas curas; nós disto ignoramos o motivo, e parece que não há nada fixado sobre a época em que as recomeçará, se isto deve ocorrer. À espera, informamos que a mediunidade curadora se propaga em diferentes localidades, com aptidões diversas.

_________________

NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A RAZÃO DO ESPIRITISMO

POR MICHEL BONNAMY (1-(1) Um volume in-12; preço 3 francos, pelo correio, 3 fr. 35 c.

Librairie intemational, 15, bulevarde Montmartre, em Paris. )

Juiz de instrução; membro dos congressos científicos da França; antigo membro do conselho geral de Tarn-et-Garonne.

Quando apareceu o romance de Mirette, os Espíritos disseram estas palavras notáveis à Sociedade de Paris:

"O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as suas formas; mas é ainda o caule verde que encerra a espiga de trigo, e espera para mostrá-lo que o calor da primavera a faz amadurecer e se entreabrir. 1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano se abre sob os auspícios de Mirette e ele não se escoará sem ver aparecer novas publicações do mesmo gênero, e mais sérias ainda, no sentido de que o romance se fará filosofia e que a filosofia se fará história." (Revista de fevereiro de 1867, página 64.)

Precedentemente, eles já haviam dito que se preparavam várias obras sérias sobre a filosofia do Espiritismo, onde o nome da Doutrina não seria timidamente dissimulado, mas altamente confessado e proclamado, por homens cujo nome e posição social dariam peso à sua opinião; e eles acrescentaram que o primeiro apareceria provavelmente pelo fim do presente ano.

15

A obra que anunciamos realiza completamente essa previsão. É a primeira publicação desse gênero onde a questão está encarada em todas as suas partes e de toda a sua altura; pode-se, pois, dizer que ela inaugura uma das fases da existência do Espiritismo. O que o caracteriza, é que não é uma adesão banal aos princípios da Doutrina, uma simples profissão de fé, mas uma demonstração rigorosa, onde os próprios adeptos encontrarão resumos novos. Lendo essa argumentação cerrada, levada, podendo-se assim dizer, até a minúcia, e por um encadeamento metódico das idéias, perguntar-se-á, sem dúvida, por qual estranha extensão da palavra poder-se-ia aplicar aoautoroepíteto de louco. Se é um louco que discute assim, poder-se-á dizer que os loucos, às vezes, fecham a boca às pessoas supostamente sensatas. É um discurso de defesa em regra, onde se reconhece o advogado que quer reduzir a réplica aos seus últimos limites; mas ali se reconhece também aquele que estudou sua causa seriamente e a escrutou em seus mais minuciosos detalhes. O autor não se limita a emitir a sua opinião: ele a motiva e dá a razão de ser de cada coisa; foi por isto que justamente intitulou o seu livro: A Razão do Espiritismo.

Publicando esta obra, sem cobrira sua personalidade com o menor véu, o autor prova que tem a verdadeira coragem de sua opinião, e o exemplo que dá é um título ao reconhecimento de todos os Espíritas. O ponto de vista em que se colocou é principalmente aquele das conseqüências filosóficas, morais e religiosas, as que constituem o objetivo essencial do Espiritismo e dele fazem uma obra humanitária.

Eis, de resto, como se expressa em seu prefácio.

"Está nas vicissitudes das coisas humanas, ou antes, parece fatalmente reservado a toda idéia nova, ser mal acolhida em seu aparecimento. Como tem ela por missão, o mais freqüentemente, transtornar as idéias que a precederam, encontra uma resistência muito grande da parte do juízo humano.

"O homem que viveu com os preconceitos, não acolhe senão com desconfiança a novidade que chega, que tende a modificar, a destruir mesmo as combinações e as idéias atrasadas em seu espírito, a forçá-lo, em uma palavra, a se colocar de novo à obra, para correr atrás da verdade. Aliás, ele se sente humilhado em seu orgulho, por ter vivido no erro.

"A repulsa que a idéia nova inspira é muito mais acentuada ainda, quando ela traz consigo obrigações, deveres; quando ela impõe uma linha de conduta mais severa.

"Ela encontra, enfim, ataques sistemáticos, ardentes, obstinados, quando ameaça as posições adquiridas, e, sobretudo, quando ela se acha em face do fanatismo ou de opiniões profundamente enraizadas na tradição dos séculos.

"As doutrinas novas têm, pois, sempre numerosos detratores; freqüentemente, têm mesmo perseguição a sofrer, o que fez Fontenelle dizer: "Que se tivesse todas as verdades em sua mão, se guardaria muito de abri-la."

"Tais eram o desfavor e os perigos que esperavam o Espiritismo em seu aparecimento no mundo das idéias. Os insultos, as zombarias a calúnia não lhe foram poupados; e, talvez, virá também o dia da perseguição. Os adeptos do Espiritismo foram tratados de iluminados, alucinados, ingênuos, loucos, e nesse fluxo de epítetos que parecem, no entanto, se contradizer e se excluir, acrescentam-se as de impostores, de charlatães, e, enfim, de cúmplices de Satã.

"A qualificação de louco é a que parece mais especialmente reservada a todo promotor ou propagador de idéias novas. Foi assim que se tratou de louco aquele que, o primeiro, achou de dizer que a Terra gira em torno do Sol.

"Era louco também o celebre navegador que descobriu um mundo novo. Era ainda um louco, para o areópago da ciência, aquele que encontrou a força do vapor; e a douta assembléia acolheu, com um desdenhoso sorriso, a sábia dissertação de Franklin sobre a propriedade da eletricidade e a teoria do pára-raios.

 

16

"Ele também não foi tratado de louco, o divino regenerador da Humanidade, o reformador autorizado da lei de Moisés? Não espiou ele, por um suplício ignominioso, a inoculação à Terra dos benefícios da moral divina?

"Galileu não expiou como herético, num cruel isolamento e pelas mais amargas perseguições morais, a glória de ter a primeira iniciativa do sistema planetário do qual Newton deveria promulgar as leis?

"São João Batista, o precursor do Cristo, foi também sacrificado à vingança dos culpados, dos quais marcava os crimes.

"Os apóstolos, depositários dos ensinos do divino Messias, deveram selar com seu sangue a santidade de sua missão. E a religião reformada não foi perseguida, a seu turno, e depois dos massacres de São Bartolomeu, não teve que sofrer as perseguições aos protestantes?

"Enfim, remontando até o ostracismo inspirado por outras paixões, vemos Aristides exilado, e Sócrates condenado a beber cicuta.

"Sem dúvida, graças aos costumes brandos que caracterizam o nosso século, sob o domínio de nossas instituições e às luzes que põem freio à intolerância fanática, as fogueiras não se levantaram para purificar pelas chamas as doutrinas espíritas, das quais se pretendem fazer remontar a paternidade a Satã. Mas elas devem esperar, elas também, um levante geral dos mais hostis, e os ataques de ardentes adversários.

"No entanto, esse estado militante não poderia enfraquecer a coragem daquele que estão animados de uma conviccão profunda, daqueles que têm a certeza de ter, em suas mãos, uma dessas verdades fecundas que constituem, em seus desenvolvimentos, um grande benefício para a Humanidade.

"Mas, qualquer que seja o antagonismo das idéias ou das doutrinas que o Espiritismo suscitará; quaisquer que sejam os perigos que ele deve abrir sob os passos dos adeptos, o Espírita não poderia deixar essa luz sob o alqueire, e se recusar a lhe dar todo o brilho que ela comporta, o apoio de suas convicções e o testemunho sincero de sua consciência.

"O Espiritismo, revelando ao homem a economia de seu organismo, iniciando-o no conhecimento de seus destinos, abre um campo imenso às sua mediações. Assim a filosofia espírita, chamada a trazer suas investigações para esses novos e esplêndidos horizontes, não tem por limite senão o infinito. Ele assiste, de alguma sorte, ao conselho supremo do Criador. Mas o entusiasmo é o obstáculo que deve evitar, sobretudo quando lança seus olhares sobre o homem, tornado tão grande, e que, no entanto, se faz orgulhosamente tão pequeno. Não é, pois, senão esclarecido pelas luzes de uma prudente razão, e que tomando por guia a fria e severa lógica, que ele deve dirigir suas peregrinações no domínio da ciência divina, cujo véu foi levantado pelos Espíritos.

"O livro é o resultado de nossos próprios estudos e de nossas mediações sobre este assunto que, desde o início, nos pareceu de uma importância capital, e ter conseqüências da mais alta gravidade. Nós reconhecemos que essas idéias são raízes profundas, e nelas entrevemos a aurora de uma era nova para a sociedade; a rapidez com a qual elas se propagam é um indício de sua admissão entre as crenças recebidas. Em razão de sua própria importância, não nos contentamos com afirmações e argumentos da doutrina; não só estamos assegurados da realidade dos fatos, mas escrutamos, com uma atenção minuciosa, os princípios que se fazem dela decorrer; dela temos procurado a razão com uma fria imparcialidade, sem negligenciar o estudo não menos consciencioso das objeções opostas pelos antagonistas; como um juiz que escuta as duas partes adversas, pesamos maduramente o pró e o contra. Foi, pois, depois de ter adquirido a convicção que as alegações contrárias nada destroem; que a doutrina repousa sobre bases sérias, sobre uma lógica rigorosa, e não sobre sonhos quiméricos; que ela contém o germe de uma renovação salutar do estado social surdamente minado pela incredulidade; que é, enfim, uma barreira poderosa contra a invasão do materialismo e da desmoralização, que

17

acreditamos dever dar a nossa apreciação pessoal, e as deduções que tiramos de um estudo atento.

Tendo, pois, encontrado uma razão de ser nos princípios desta ciência nova que vem tomar lugar entre os conhecimentos humanos, intitulamos o nosso livro: A Razão do Espiritismo. Este título é justificado pelo ponto de vista sob o qual encaramos o assunto, e aqueles que nos lerão reconhecerão, sem dificuldades, que este trabalho não é o produto de um entusiasmo inconsiderado, mas de um exame maduramente e friamente refletido.

Estamos convencidos de que quem, sem tomar a oposição sistemática, fizer, como nós o fizemos, um estudo consciencioso da Doutrina Espírita, considerá-la-á como uma das coisas que interessam, no mais alto grau, ao futuro da Humanidade.

"Dando a nossa adesão a esta doutrina, usamos do direito de liberdade de consciência que não pode ser contestado a ninguém, qualquer que seja sua crença; com mais forte razão, essa liberdade deve ser respeitada quando tem por objetivo os princípios da mais alta moralidade e conduzem os homens à prática dos ensinos do Cristo, e por isso mesmo são a salvaguarda da ordem social.

"O escritor que consagra sua pena a retratar a impressão que tais ensinos deixaram no santuário de sua consciência, deve bem se guardar de confundir as elucubrações eclodidas em seu horizonte terrestre com os traços luminosos partidos do céu. Se restam pontos obscuros ou ocultos em suas explicações, pontos que não lhe são dados ainda conhecer, é que nos objetivos da sabedoria divina ficam reservados para um grau superior na escala ascendente de sua depuração progressiva e de sua perfectibilidade.

"No entanto, apressemo-nos em dizer, todo homem convencido e consciencioso, consagrando suas meditações à difusão de uma verdade fecunda para a felicidade da Humanidade, tempera a sua pena na atmosfera celeste onde o nosso globo está imerso, e recebe incontestavelmente a centelha da inspiração."

A indicação do título dos capítulos fará conhecer o quadro abarcado pelo autor.

I.Definiçãodo Espiritismo.-2. Princípiodo bem e do mal.-3. União da alma com o corpo. - 4. Reencarnação. - 5. Frenologia. - 6. Do pecado original.-7.0 inferno.-8. Missão do Cristo.-9.0 purgatório. -10.0 céu. -11. Pluralidade dos globos habitados. -12. A caridade. - 13. Deveres do homem. - 14. Perispírito. - 15. Necessidade da revelação. - 16. Oportunidade da revelação. - 17. Os anjos e os demônios. - 18. Os tempos preditos. - 19. A prece. - 20. A fé. - 21. Resposta aos insultadores. - 22. Resposta aos incrédulos, ateus ou materialistas. - 23. Apelo ao clero.

Lamentamos que a falta de espaço não nos permita reproduzir tantas passagens quanto tínhamos desejado. Limitar-nos-emos a algumas citações.

Cap. III, página 41. - "A utilidade recíproca e indispensável da alma e do corpo para a sua cooperação respectiva constitui, pois, a razão de ser dessa união. Além disto, ela constitui, para o Espírito, as condições militantes no caminho do progresso onde ele é chamado a conquistar a sua personalidade intelectual e moral.

"Como esses dois princípios cumprem, normalmente, no homem, o objetivo de sua destinação? Quando o espírito é fiel às suas aspirações divinas, ele restringe os instintos animais e sensuais do corpo e os reduz à sua ação providencial na obra do Criador; ele se desenvolve, cresce. É a própria perfeição da obra que se cumpre. Ele chega à felicidade, cujo último termo é inerente ao grau supremo de sua perfectibilidade.

"Se, ao contrário, abdicando o domínio que ele está chamado a exercer sobre o corpo, cede ao arrastamento dos sentidos, e se aceita sua condição de prazeres terrestres como único objetivo de suas aspirações, ele falseia a razão de ser de sua existência, e, longe de cumprir seus destinos, permanece estacionário; amarrado a esta vida terrestre que, no entanto, não teria devido ser para ele senão uma condição acessória, uma vez que não poderia ser seu fim, o Espírito, de chefe que era, torna-se subordinado; ele aceita insensatamente a felicidade terrestre que seus sentidos lhe fazem

 

18

sentir e que lhe propõem satisfazer, abafando assim nele a intuição da felicidade verdadeira que lhe está reservada. Ai está a sua primeira punição."

No capítulo XII, do inferno, página 99, encontramos esta notável apreciação da morte e dos flagelos destruidores:

"Seria enumerando os flagelos que passam sobre a terra o terror e o pavor, o sofrimento e a morte, que se creria poder dar a prova das manifestações da cólera divina?

"Sabei, pois, temerários evocadores das vinganças celestes, que os cataclismos que assinalais, longe de terem o caráter exclusivo de um castigo infligido à Humanidade, são, ao contrário, um ato da misericórdia divina, que fecha a esía o abismo onde a precipitariam a sua desordem, e lhe abre os caminhos do progresso que devem levá-la ao caminho que deve seguir para assegurar a sua regeneração.

"Que são os cataclismos, senão uma nova fase na existência do homem, uma era feliz marcando para os povos e para a Humanidade inteira, o ponto providencial de seu adiantamento?

"Sabei, pois, que a morte não é um mal; farol da existência do Espírito, aquele é sempre, quando vem de Deus, o sinal de sua misericórdia e de sua assistência benevolente. A morte não é senão o fim do corpo, o termo de uma encarnação, e nas mãos de Deus, é o aniquilamento de um meio corruptor e vicioso, a interrupção de uma corrente funesta, à qual, num momento solene, a Providência arranca o homem e os povos.

"A morte não é senão um tempo de parada na prova terrestre; longe de prejudicar o homem, ou antes o Espírito, ele o chama a se recolher num mundo invisível, seja para reconhecer suas faltas e lamentá-las, seja para se esclarecer e se preparar, por firmes e salutares resoluções, a retomar a prova da vida terrestre.

"A morte não gela o homem de frio senão porque, muito identificado à Terra, ele não tem fé em seu augusto destino, do qual a Terra não é senão a dolorosa oficina onde deve se cumprir a sua depuração.

"Cessai, pois, de crer que a morte seja um instrumento de cólera e de vingança nas mãos de Deus; sabei, ao contrário, que ela é, ao mesmo tempo, a expressão de sua misericórdia e de sua justiça, seja detendo o mal no caminho da iniqüidade, seja abreviando o tempo de provas ou de exílio do justo sobre a Terra.

"E vós, ministros do Cristo, que do alto do púlpito de verdade proclamais a cólera e a vingança de Deus, e pareceis, por vossas eloqüentes descrições da fantástica fornalha, atiçando as chamas inextinguíveis para devorar o infeliz pecador; vós que, de vossos lábios tão autorizados, deixais cair essa terrificante epígrafe: "Jamais! -Sempre!" esquecestes, pois, as instruções de vosso divino Mestre?"

Citaremos ainda as passagens seguintes, extraídas do capítulo sobre o pecado original.

"Em lugar de criara alma perfeita, Deus quis que não fosse senão por longos e constantes esforços que ela chega a se libertar desse estado de inferioridade inata, e gravitar para seus augustos destinos.

"Para chegar a esses fins, ela tem, pois, que romper os laços que a prendem à matéria, resistir aos arrastamentos dos sentidos, com a alternativa de sua supremacia sobre o corpo, ou da obsessão exercida sobre ela pelos instintos animais.

"São estes laços terrestres, dos quais lhe importa se libertar e que constituem nela as próprias condições de sua inferioridade; eles não são outro senão o pretenso pecado original, o alvéolo que vela sua essência divina. O pecado original constitui, assim, o ascendente primitivo que os instintos animais deveram exercer de início sobre as aspirações da alma. Tal é o estado do homem que a Gênese quis representar sobre a figura ingênua da árvore da ciência do bem e do mal. A intervenção da serpente tentadora não é outra senão os desejos da carne e a solicitação dos sentidos; o cristianismo

 

19

consagrou esta alegoria como um fato real ligando-se à existência do primeiro homem; foi sobre esse fato que se baseou o dogma da redenção.

"Colocado neste ponto de vista, é preciso reconhecê-lo, o pecado original deveu ser, e foi, com efeito, o de toda a posteridade do primeiro homem, e assim será durante uma longa seqüência de séculos, até a libertação completa do Espírito dos constrangimentos da matéria; libertação que, sem dúvida, tende a se realizar, mas que não se cumpriu ainda em nossos dias.

"Em uma palavra, o pecado original constitui as condições da natureza humana, portanto, os primeiros elementos de sua existência, com todos os vícios que ela engendrou.

"O pecado original é o egoísmo, é o orgulho que presidem a todos os atos da vida do homem;

"É o demônio da inveja e do ciúme que roem seu coração;

"É a ambição, que perturba o seu sono;

"É a cupidez que não pode saciar a sua avidez ao lucro;

"É o amor e a sede de ouro, esse elemento indispensável para dar satisfação a todas as exigências do luxo, do confortável e do bem-estar, que persegue o século com tanto ardor.

"Eis o pecado original proclamado pela Gênese, e que o homem sempre escondeu nele; não será apagado senão no dia em que, penetrado de seus altos destinos, o homem abandonar, de conformidade com a lição do bom La Fontaine, a sombra pela presa; no dia em que renunciar à miragem da felicidade terrestre, para voltar as suas aspirações para a felicidade real que lhe está reservada.

"Que o homem aprenda, pois, a se tornar digno de seu título de chefe entre todos os seres criados, e da essência etérea emanada do próprio seio de seu Criador e da qual está cheio. Que seja forte para lutar contra as tendências de seu envoltório terrestre, cujos instintos são estranhos às suas aspirações divinas e não poderiam constituirá sua personalidade espiritual; que o seu objetivo único seja sempre de gravitar para a perfeição de seu último fim, e o pecado original não existirá mais para ele."

O Sr. Bonnamy já é conhecido de nossos leitores que puderam apreciar a firmeza, a independência de seu caráter, e a elevação de seus sentimentos, pela carta notável que publicamos dele na Revista de março de 1866, página 76, no artigo intitulado: O Espiritismo e a magistratura. Ele vem hoje, por um trabalho de alta importância, emprestar resolutamente o apoio e a autoridade de seu nome a uma causa que, em sua consciência, considera como a da Humanidade.

Entre os adeptos já numerosos que o Espiritismo conta na magistratura, o Sr. Jaubert, vice-presidente do tribunal de Carcassonne, e o Sr. Bonnamy, juiz de instrução em Villeneuve-sur-Lot, foram os primeiros que arvoraram a sua bandeira abertamente; e o fizeram, não no dia seguinte à vitória, mas no momento da luta, quando a doutrina era o alvo dos ataques de seus adversários, e onde de seus adeptos estão ainda sob o golpe da perseguição. Os Espíritas presentes e os do futuro saberão apreciá-lo e não o esquecerão. Quando uma doutrina recebe os votos de homens tão justamente considerados, é a melhor resposta às diatribes das quais pode ser o objeto. A obra do Sr. Bonnamy marcará, nos anais do Espiritismo, não só como primeira em data em seu gênero, mas, sobretudo, por sua importância filosófica. O autor nela examina a Doutrina em si mesma, e nela discute os princípios dos quais tira a quintessência, fazendo abstração completa de toda personalidade, o que exclui todo pensamento de associação.

____________________

NO PRELO PARA APARECER EM DEZEMBRO

 

20

LA GÊNESE, LÊS MIRACLES ET LÊS PRÉDICTIONS

SEGUNDO O ESPIRITISMO

por ALLANKARDEC

1 vol. in-12 de 500 páginas.

__________________

AVISO

Resposta ao Sr. S. B. de Marseille.

Não se tem nenhuma conta das cartas que não são ostensivamente assinadas, ou que são sem endereço certo, quando o nome é desconhecido. Elas são postas de lado.

Esta resposta se dirige igualmente a uma série de cartas trazendo o timbre de route de Besançon e vindas cotidianamente durante um certo tempo. Se este aviso chegar ao seu autor, ele será informado que, pelo motivo acima, e tendo em vista a sua extensão, não foram mesmo lidas à medida de sua chegada, a pessoa encarregada do exame da correspondência as colocou de lado, como todas as que são cercadas de mistério, e que, por esta razão, não se consideram como bastante sérias para lhe dar o tempo em prejuízo dos trabalhos de uma importância real, e aos quais se bastam com dificuldade.

ALLAN KARDEC

 

21