Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
4 - Referencial de análise para repensar as políticas e futuras estratégias de intervenção
4 - Referencial de análise para
repensar as políticas e futuras
estratégias de intervenção
A finalidade deste capítulo é oferecer um referencial de análise
para a distribuição e a fixação de médicos, construído a partir de cinco eixos analíticos para repensar as políticas e futuras
estratégias de intervenção, aqui entendidas como mecanismos para
desenvolver as relações de cooperação, promover a distribuição de
poder, organizar o uso de recursos e transformar a situação
dominante que se deseja modificar, de forma a realmente
concretizar seu valor estratégico.
O objetivo é evidenciar os fatores e condicionantes que interferem
na distribuição e fixação de médicos e identificar possíveis estratégias de intervenção que podem ser aplicadas à realidade
brasileira, no contexto das políticas públicas.
O mote para essa discussão é a compreensão de que a forte
concentração geográfica dos profissionais e dos serviços impede a
concretização dos princípios que regem o Sistema Único de Saúde
(SUS), particularmente no que se refere à universalização, à
integralidade e à própria descentralização.
A gestão do SUS impõe o enfrentamento do problema da má
distribuição e fixação de médicos, o que exige que as questões
referentes à condução do trabalho e da educação na saúde sejam
colocadas no mesmo grau de importância da descentralização, do
financiamento e do controle social.
A dimensão política
A Política Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na
Saúde é recente, e seu processo de implantação ainda é incipiente. Construída coletivamente e aprovada pelo Conselho Nacional de
Saúde e pela 12ª Conferência Nacional de Saúde, em 2003, e
considerada um instrumento indispensável para a consolidação do
SUS, essa política se fundamenta na aplicação dos Princípios e Diretrizes para a Gestão do Trabalho no SUS (NOB/RH-SUS),
conjunto de orientações políticas e gerenciais referentes à Gestão
do Trabalho, ao Desenvolvimento dos Trabalhadores, à Saúde
Ocupacional para o Trabalhador da Saúde e ao Controle Social na
Gestão do Trabalho no SUS (Brasil, 2005a).
Como instrumento para assegurar sua implantação, foi criada, no
âmbito do Ministério da Saúde, no mesmo ano, a Secretaria de
Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), que desde então vem promovendo, paulatinamente, ações, iniciativas e
intervenções orientadas por esses princípios e diretrizes, que visam
ao alcance de propósitos como a implantação de Plano de Carreira,
Cargos e Salários (PCCS), educação permanente em saúde e
reconhecimento das Mesas de Negociação do Trabalho (Brasil,
2005b).
Ainda que todos os pontos contemplados sejam essenciais e
atendam a necessidades antigas, a política de recursos humanos em saúde deve não apenas ser coerente com a política nacional de
saúde, mas deve refletir também o espírito e as expectativas da
política de desenvolvimento geral do país.
As necessidades e prioridades de saúde, as tendências
demográficas, o desenvolvimento social e econômico, os perfis
epidemiológicos, as previsões financeiras de curto, médio e longo
prazo são fatores que precisam ser considerados na definição dessa
política. Afinal, o avanço nas condições de saúde de uma população só se torna permanente quando está alicerçado em medidas mais
profundas e consistentes, que enfrentam as restrições impostas pelo
contexto econômico e social.
O país não alcançará resultados duradouros e consistentes no
que se refere à distribuição e fixação de médicos se o problema
continuar sendo tratado como atinente apenas ao campo da política
de saúde e, conseqüentemente, da política de recursos humanos
em saúde. Mesmo considerando, como o fazem Dussault e Franceschini (2006), que as intervenções que podem alterar a base econômica, política e social inerente ao problema e levar a
resultados sustentáveis são de longo prazo, não se pode usar esse
argumento para justificar um eterno imobilismo.
A evidente dimensão política e multissetorial do problema da
distribuição geográfica de médicos e da fixação desses profissionais
ressalta sua forte relação com a necessidade de mudanças
culturais, sociais e econômicas, que precisam contemplar desde as
dificuldades de acesso da população aos serviços de saúde até a
formação dos profissionais, a realidade socioeconômica, o
corporativismo, a política governamental, o processo educacional,
os referenciais socioculturais, dentre outros aspectos. Tais aspectos
ao mesmo tempo em que interferem na falta de resultados da política de saúde para lidar com a má distribuição e fixação de
médicos também podem ser considerados norteadores da
necessidade de ações políticas mais abrangentes que insiram o
problema no contexto devido, deixando de tratá-lo como restrito ao
campo da saúde.
Como já visto, há clara relação entre os fenômenos macrossociais
da intervenção estatal na atenção médica, no mercado de trabalho
para os médicos e nas formas específicas de organização da prática médica e do ensino da medicina.
Além disso, como também já discutido, a alta concentração de
médicos nos centros urbanos e sua má distribuição pelo restante do
território nacional estão diretamente ligadas às desigualdades
socioeconômicas e regionais, conseqüências diretas do baixo
investimento público e privado nas áreas mais carentes.
A grande concentração regional do Produto Interno Bruto (PIB) e
os demais fatores políticos, sociais e econômicos que determinam o subdesenvolvimento dessas regiões exigem estratégias inseridas
não apenas na política de saúde, mas nos planos de
desenvolvimento econômico do país.
Para facilitar a integração da política de saúde e, mais
especificamente, da política de recursos humanos, aos planos de
desenvolvimento socioeconômico de um país, Nogueira e Brito
(1986), já há duas décadas, chamam a atenção para algumas
medidas que devem ser consideradas: 1) desenvolver a capacidade de diagnosticar e analisar a situação atual e as tendências de médio e longo prazo; 2) estabelecer mecanismos para acompanhar e
prever o comportamento dos recursos humanos em saúde; 3)
considerar tanto os fatores da produção (formação) quanto da
utilização no mercado de trabalho (emprego); 4) atentar para a demanda gerada pela estrutura dos serviços de saúde; 5) criar
sistemas de informação em recursos humanos, como parte dos
sistemas de informação em saúde, que considerem a oferta e a
demanda de pessoal; 6) utilizar a informação para alimentar estudos
de análise conjuntural e de tipo prospectivo.
Isso permitiria que os governos efetuassem avaliações
estratégicas para contemplar não apenas os objetivos da política de
saúde, mas as prioridades de alocação de recursos dentro e fora do setor saúde, em função das necessidades sociais e de saúde da
população.
As políticas públicas devem ser criadas como resposta do Estado
às demandas da sociedade e expressar compromissos da atuação
governamental, por meio de uma linha de ação coletiva, destinada à
concretização de direitos sociais. É necessário que o problema da
distribuição e da fixação de médicos seja inserido na agenda e
tratado no âmbito de uma política de Estado, devendo ser objeto de políticas e intervenções, de caráter multi e intersetorial, que
integrem os diversos ministérios.
Dada a própria intersetorialidade da política social, quando se
almejam determinadas metas para um setor, pode ser preferível
investir em outro, o que em alguns casos tende a acarretar maior
impacto e melhores resultados (Cohen & Franco, 2004). Seria o
caso, por exemplo, de investir na redução dos fatores que acarretam
má qualidade de vida para a população dessas regiões e que não proporcionam as condições adequadas para o exercício profissional
da medicina, desestimulando a opção do profissional em atuar
nessas áreas. Uma das possíveis estratégias seria criar incentivos
para estimular empreendimentos em diversos setores da economia,
nas áreas mais carentes e desfavorecidas.
Vale lembrar que o Projeto Rondon14 – em que pesem as críticas
que possam ser feitas a diversos de seus aspectos – contemplou
diferentes operações e programas, vinculados a um grande eixo
denominado ‘desenvolvimento’, não restringindo suas estratégias de intervenção à interiorização de profissionais. O próprio Piass
também não se restringiu a esse aspecto, tendo surgido como parte
de um plano nacional de desenvolvimento, que estipulava a
integração das ações de saúde aos programas de desenvolvimento como condição necessária para o crescimento econômico e social
do país. Deve-se recordar que a execução do Piass esteve a cargo
das secretarias estaduais de saúde, com a participação das
companhias estaduais de saneamento, das secretarias de obras,
das prefeituras e de organizações comunitárias.
Por sua vez, o Pisus e o Pits foram concebidos como programas
restritos de interiorização, com gestão limitada ao Ministério da
Saúde, características estas que se mostraram determinantes para o rumo, também restrito, limitado, pouco consistente e duradouro,
dessas duas iniciativas.
Além disso, como já discutido nos capítulos iniciais, as
intervenções do Estado no campo mais geral da economia
acarretam conseqüências para o próprio mercado de trabalho
médico.15 A ação do Estado produz
repercussões na contenção ou ampliação do emprego no setor saúde,
bem como nas políticas de saúde e na organização dos serviços. (…) No
caso do mercado de trabalho em saúde, vários estudos indicam a sua
dependência quanto às formas de intervenção estatal no setor e aos ciclos
de expansão econômica. (Paim, 1994: 6-10)
Especialmente porque, além do modelo de atenção à saúde atuar
decisivamente sobre a demanda e a composição da força de
trabalho, é o setor público que ocupa hoje, no país, o primeiro lugar
como empregador na área da saúde. E essa influência não se dá apenas no que se refere a maior ou menor oferta de postos de
trabalho, mas também quando políticas de contenção de gastos
públicos acarretam piora das condições de trabalho e de
remuneração (Paim, 1994).
O mercado de trabalho médico não se define a partir de variáveis
estritamente econômicas, como oferta, demanda, preços,
quantidades, produtividade e outras. Trata-se de um mercado
atípico, ou ainda de vários mercados atípicos, diferenciados pelo mecanismo financiador do processo de produção de atenção
médica no qual o profissional está inserido.
Um exemplo das possibilidades de intervenção do Estado no
mercado de trabalho e que diz respeito especificamente ao enfrentamento da má distribuição geográfica de médicos é a
estratégia implementada em British Columbia, Canadá. A Comissão
de Serviços Médicos (Medical Services Commission) limitou o
número de médicos autorizados a trabalhar nos centros urbanos,
autorizando, em contrapartida e prontamente, solicitações para
atuar em áreas rurais. A medida gerou muita oposição, inclusive no
poder Judiciário, e criou grande relutância nos profissionais em se
candidatar às áreas rurais por receio de não poderem retornar depois para as cidades de maior porte (Gilmore, 1985; Page et al.,
1992).
Em nosso país, é o PSF que tem sido estimulado pelos governos
como um novo mercado de trabalho, com potencial para reduzir a
má distribuição de médicos e ampliar a fixação desses profissionais.
No entanto, embora, atualmente, possamos dizer que não há
crise de oferta de postos de trabalho para a categoria médica,
havendo até um crescimento, em especial no setor público, com a expansão da atenção básica via implantação do PSF, essa
expansão do mercado, por si só, não conseguirá reverter os
desequilíbrios regionais historicamente acumulados (Maciel Filho &
Pierantoni, 2004).
Sem dúvida, o PSF se apresenta como uma modalidade de
intervenção com grande potencial de ampliar o acesso à atenção
básica nas diversas regiões do país, causar impacto na
configuração do mercado de trabalho e na própria formação de profissionais para o setor. Mas, como foi possível observar no
estudo realizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM, 2004),
comentado no capítulo 1, grande parte dos médicos avalia que, com
a implantação do PSF, não se alteraram as condições de trabalho
(54,2%), a qualidade dos serviços (44,6%) e a organização dos
serviços (44,1%). Da mesma forma, ainda no estudo do CFM, os
três primeiros fatores citados pelos médicos como indispensáveis
para assegurar a eficácia do PSF foram as condições de trabalho (81,8%), a remuneração (77,7%) e a infra-estrutura (77,1%).
Entende-se que o PSF é uma estratégia bem estruturada e bem
aceita tanto pela população quanto pelos profissionais de saúde e
pelos gestores, sendo, inclusive, atrativa como mercado de trabalho
para os médicos que se propõem a participar de iniciativas de interiorização, como mostram os diversos depoimentos de
participantes do Pits. Contudo, há inúmeros municípios que não
conseguem oferecer as condições mínimas para o bom
funcionamento do Programa ou, em muitos casos, sequer para sua
implantação. Dados de estudos como o do CFM (2004) e da
pesquisa Perfil dos Médicos e Enfermeiros do Programa Saúde da
Família no Brasil (Machado, 2000), segundo a qual o tempo médio
de permanência de grande parte dos médicos no PSF é de menos de um ano, reforçam essa constatação.
A diversidade de vínculos, níveis salariais e direitos trabalhistas
que se verifica no PSF estimula essa alta rotatividade e dificulta a
fixação dos médicos. Para que esse cenário possa ser efetivamente
enfrentado deve-se ter em mente que as peculiaridades da gestão
do trabalho em saúde
exigem ações governamentais intersetoriais mais ampliadas envolvendo
o Legislativo, o Judiciário e o financiamento do setor, entre outros, que
permitam, para além da expansão do mercado, o estabelecimento de
condições adequadas de trabalho e emprego para os profissionais de
saúde. (Maciel Filho & Pierantoni, 2004: 159)
Nesse sentido, três importantes estratégias indispensáveis para
alterar este quadro já integram a recente Política Nacional de
Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, que são: 1) o
Programa Nacional de Desprecarização do Trabalho no SUS; 2) a
Comissão Especial para a Elaboração de Diretrizes para um Plano
de Carreira, Cargos e Salários para o SUS; 3) as Mesas de
Negociação Permanente do Trabalho no SUS. Por serem extensivas
a todo o SUS, tais estratégias dependem, inevitavelmente, da
articulação política e técnica entre as esferas federal, estadual e municipal. Sua implantação poderá funcionar como um verdadeiro
‘divisor de águas’ no encaminhamento dos principais problemas
hoje existentes na gestão do trabalho no SUS.
Pensando na questão da má distribuição e da fixação de médicos,
defende-se aqui que a Comissão Especial para a Elaboração de
Diretrizes para um Plano de Carreira, Cargos e Salários para o SUS
caminhe na direção apontada pelo representante e ex-presidente do Conasems na formulação do Pits, que, ao ser entrevistado para o
estudo da Rede Observatório de Recursos Humanos em Saúde,
propõe um plano de carreira nacional, mas com base local, ou seja,
com ingresso por concurso público na instância municipal (Maciel
Filho, 2007: 211). Isso possibilitaria que municípios menos atrativos
também pudessem funcionar como porta de entrada para o
profissional que deseje ingressar na carreira pública do SUS. Pode-
se acrescentar a essa proposta a definição de faixas salariais compensatórias e ascenção funcional diferenciada para médicos e
demais profissionais de saúde concursados nessas localidades.
Fica claro que a implantação do plano de carreira único do SUS e
a incorporação de dispositivos nesse plano que contribuam para
minimizar a má distribuição de médicos e ampliar a fixação desses
profissionais dependem de acertos jurídicos e legais que os tornem
viáveis no plano executivo. Isso só reitera a visão aqui defendida de
que o enfrentamento do problema da má distribuição e fixação de médicos extrapola a política de recursos humanos em saúde e a
própria política de saúde, devendo ser inserido na agenda do
Estado e tratado no âmbito dos poderes Executivo, Legislativo e
Judiciário, como parte do plano de desenvolvimento econômico e
social do país. Tal inserção é indispensável para que possamos
ultrapassar a lógica da ‘atuação por programas’ em direção à
institucionalização de políticas consistentes, efetivas e de maior
permanência.
A capacidade de gestão dos
municípios
Capacidade de gestão pública pode ser entendida como “a
capacidade de realização, mediante estratégias e mecanismos
descentralizados e democráticos voltados à provisão, manutenção e administração dos recursos e serviços públicos, com vistas ao
desenvolvimento social (…)” (Lubambo, 1998: 4). Por sua natureza
estrutural, a capacidade de gestão pública está relacionada a
fatores de ordem econômico-fiscal e político-administrativa, que dizem respeito não apenas à capacidade de o gestor assumir os
custos financeiros das funções sob sua responsabilidade, mas
também à capacidade técnica de alcançar um bom desempenho.
“Seguindo esta lógica, a variedade de situações municipais no que
diz respeito à condição fiscal e à habilidade administrativa dos
governos seria determinante da extensão e natureza da capacidade
de gestão pública” (Lubambo, 1998: 4).
Na área da saúde, se por um lado foram ampliadas as
responsabilidades sanitárias dos municípios, por outro ainda não foi
oferecida, em níveis satisfatórios, contrapartida financeira e técnica
que permita cumprir plenamente essas responsabilidades, nem
houve completa delegação de autonomia gerencial e política: “tanto
os governos locais quanto o chamado poder local têm dificuldades e
constrangimentos impostos pela legislação nacional, que limitam o
seu poder na condução das políticas de saúde” (Silva, 2001: 91).
Além disso, a própria autonomia administrativa do governo municipal está “(…) claramente tolhida por determinantes
econômico-estruturais, apesar da maior liberdade, formal, que
passou a ter em relação ao governo central” (Silva, 2001: 107).
A descentralização da saúde no país não resultou,
automaticamente, na transferência de capacidade gestora para a
esfera municipal (Brasil, 2005b), sendo possível constatar que “(…)
habitualmente os municípios não têm capacidade de implementar as
ações de governo condizentes com todas as responsabilidades que assumem” (Silva, 2001: 263).
Embora admitindo que a criação do SUS trouxe, efetivamente,
uma ampliação do poder municipal, também se percebe que “o
processo de descentralização implementado no Brasil a partir de
1987 é pleno de ambigüidades” (Campos, 1992: 97). A autonomia
atribuída aos municípios pela legislação do SUS possibilitaria,
teoricamente, que cada município pudesse compor o seu próprio
modelo assistencial, desde que respeitadas algumas normas gerais. Mas essa ‘autonomia relativa’ acabou criando condições para a construção de distintas experiências locais, que variam conforme a
linha política de cada governo, o quadro epidemiológico, a
disponibilidade financeira e o grau de controle político que cada
comunidade consegue impor à direção do sistema local, gerando um desenvolvimento heterogêneo entre os vários municípios
(Campos, 1992).
Essa heterogeneidade pode ser atribuída, em grande parte, ao
que Campos (1992: 99) identifica como “principal fator limitante do
avanço da descentralização”, que é “a dependência financeira do
poder local dos governos dos estados e da União, já que vem se
constatando que os recursos próprios dos municípios são
insuficientes mesmo para o custeio do conjunto de serviços que lhes cabe executar”. Basta lembrar que mais de 50% dos municípios
brasileiros não arrecadam o suficiente para arcar com as despesas
de suas estruturas administrativas e legislativas, e cerca de 2.000
municípios não arrecadam impostos federais (Mendes, 1998; Silva,
2001).
“É corrente no Brasil a noção de que, nas regiões mais pobres do
país, esta pobreza econômica, estaria expressa numa forma de
reduzida capacidade de gasto público” (Lubambo, 1998: 5). Isso significa entender que o gasto governamental é diretamente afetado
pela base econômica, ou seja, pelo volume de riqueza a ser taxada,
que representa a base fiscal da respectiva esfera de governo.
“Associa-se, portanto, diretamente, possibilidades de bom
desempenho na gestão à capacidade de gasto dos governos locais”
(Lubambo, 1998: 5).
O que se tem hoje no Brasil são municípios alçados à condição de
entes gestores autônomos, sem que ainda hoje o Estado brasileiro tenha conseguido promover, na maioria deles, as condições
mínimas de infra-estrutura econômica e social para garantir o direito
à saúde. Silva (2001: 86) lembra que
a municipalização da saúde no Brasil sofreu influências, também, da
pletora de municípios que foram criados após a Constituição de 1988. O
expressivo aumento de municípios na década de 90, determinado na
maioria das vezes por interesses de grupos e facções políticas, transfere
responsabilidades de gestão para muitos governos locais despreparados
para cumprir seus deveres constitucionais.
Com isso, involuntariamente, a descentralização potencializou
problemas crônicos e desencadeou a utilização de soluções
gerenciais irregulares, a que os municípios recorrem não apenas em
função de aspectos da própria política local, mas também por restrições legais, como, por exemplo, as definidas pela Lei de
Responsabilidade Fiscal (Brasil, 2005b).
As dificuldades que os gestores municipais e de saúde enfrentam
e que afetam sua capacidade de gestão geram problemas na
relação com os profissionais, como atraso ou falta de pagamento de
salários e precárias condições de trabalho.
Apesar de os municípios terem se constituído em atores
relevantes na gestão do sistema de saúde, este movimento não foi suficiente para gerar mudanças significativas nas definições de
política de recursos humanos neste nível. É impressionante a
dissonância entre o dito e o praticado, entre as intenções professas
e as realizações corriqueiras, produzindo muitas vezes o descrédito
(Dal Poz, 1996: 134).
Esse cenário explica porque a coordenação nacional do Pits, ao
comunicar que o Programa deixaria de existir e suas equipes seriam
incorporadas aos sistemas municipais de saúde, viu imediatamente os profissionais reagirem e revelarem descrédito acerca da
seriedade e capacidade de gestão dos municípios. Os profissionais
referiram o receio de não mais receberem os seus salários em dia e
de perderem o que denominaram ‘imunidade política’ contra as
injunções do governo municipal, entre outras coisas. Esse receio
parecia justificado quando, em muitos municípios, os profissionais
do Pits verificavam as relações precárias de trabalho estabelecidas
entre as prefeituras e os profissionais contratados para o sistema municipal de saúde e, ainda, atrasos no pagamento dos salários.
No entanto, não se pode ignorar a advertência feita pelo
representante e ex-presidente do Conasems, no estudo da Rede
Observatório, de que se por um lado um programa federal para fixar
profissionais, como o Pits, garante essa ‘imunidade’; por outro,
funciona como um elemento de distanciamento entre os
profissionais e o gestor municipal, tornando-se uma estrutura
paralela à Secretaria Municipal de Saúde (Maciel Filho, 2007: 199). Daí a compreensão de que a fixação de médicos nessas localidades não pode estar subordinada a uma lógica de programa federal, mas
sim consolidar-se como parte da estrutura do sistema municipal de
saúde a partir de uma política permanente e global na solução do
problema, por meio de estratégias indutoras.
O fato de alguns municípios com esse perfil não conseguirem
oferecer uma boa remuneração, cumprir os acordos trabalhistas,
manter o pagamento dos salários em dia e proporcionar condições
de trabalho adequadas justifica o descrédito e praticamente impede
que sejam vistos pelos profissionais como locais onde construir uma
carreira e se fixar. Por exemplo, as condições de trabalho oferecidas
pelos gestores municipais aos profissionais do Pits, como
cumprimento da contrapartida, foram, em muitos casos, insatisfatórias. Quase 70% dos profissionais que responderam à
avaliação do Ministério informaram não haver material, nem
equipamentos suficientes para atendimento à população (Brasil,
2002e).
Esses fatores são conseqüência da baixa capacidade de gestão
desses municípios, que, por sua vez, é causada pela deficiência
técnica, pelas restrições financeiras e jurídicas e, por vezes, pelo
que um dos formuladores do Pits denominou, como já referido, “visão política estreita de grande parte desses gestores, que
administram os municípios como extensão de suas casas” (Maciel
filho, 2007: 214). Isso é possível porque é “notório o predomínio do
Poder Executivo nos sistemas locais. O arbítrio dos secretários e do
prefeito é grande. Raramente outros sujeitos sociais conseguem
contra-arrestar as políticas deliberadas pelo governo” (Campos,
1992: 106).
Por menos significativo que seja o município (em termos econômicos ou
políticos), o poder do seu governante é expressivo, na medida em que
este concentra em suas mãos a capacidade decisória sobre os mais
importantes aspectos da produção e reprodução das atividades municipais
(…) Articulados geralmente com as forças hegemônicas e controlando o
legislativo local, os prefeitos exercem o seu poder praticamente sem
contrapesos (principalmente nas pequenas cidades), o que lhes permite o
controle e a centralidade das decisões, comumente apenas
contrabalançada por restrições financeiras. (Lubambo, 1998: 10-11)
Além disso, verifica-se, ainda, que em muitos desses municípios
os conselhos de saúde, quando existentes, “são uma extensão do
Executivo, já que até mesmo os representantes dos usuários são de
escolha das autoridades constituídas” (Campos, 1992: 105).
Mesmo os baixos salários e as insatisfatórias condições de
trabalho – citadas freqüentemente como principais razões para que
o profissional não queira trabalhar nesses municípios – são, em
geral, considerados conseqüências diretas das deficiências
políticas, organizacionais, sociais e econômicas, que incluem a
cultura de clientelismo político (Dussault & Franceschini, 2006).
Todos esses fatores, como visto, geram conflitos na relação entre
os profissionais e os gestores municipais. Tais conflitos foram apontados pelos médicos do Pits como um dos principais motivos
de desistências e desligamentos, aliados à dificuldade de adaptação
às condições adversas dos municípios e à desorganização na
condução do Programa.
A reversão desse quadro passa pelo investimento dos governos
federal e estaduais no aperfeiçoamento da capacidade gestora
desses municípios e pela ampliação e fortalecimento do controle
social. Daí a importância da atuação efetiva dos conselhos de saúde, com acompanhamento mais sistemático por parte do
Conselho Nacional de Saúde. Os melhores índices de desempenho
de gestão pública tendem a ser encontrados nas esferas
governamentais em que a tradição de participação política é mais
forte e, contrariamente, quanto mais verticalizadas sejam as
relações políticas, piores tendem a ser os índices de desempenho
encontrados: “dito de outro modo, variações nos graus de
desempenho da gestão estariam diretamente associadas a variações nos indicadores de participação política” (Lubambo, 1998:
7).
Sabe-se que, em um Estado federalista, a ação dos governos
locais depende em grande parte da ação do governo federal, que
pode induzir decisões e políticas públicas na esfera local. A
habilidade político-administrativa, o desempenho de gasto e as
relações e estratégias de articulação entre as esferas de governo
são decisivas no desempenho da gestão. Nenhuma política que pretenda melhorar a distribuição de profissionais de saúde e ampliar sua fixação nessas localidades poderá ser bem-sucedida se os
gestores municipais não forem capacitados para o exercício de suas
funções, não contarem com investimento público e privado que
proporcione maior aporte de recursos e se não forem ampliadas suas relações com a sociedade, por meio das instâncias de controle
social, que podem tornar a gestão mais eficaz.
A formação dos médicos
As dificuldades de adaptação dos profissionais em atuar e viver
nesses municípios podem ser, em grande medida, atribuídas ao
distanciamento entre a educação médica e a realidade
socioeconômica e sanitária do país.
O diagnóstico dessa cisão entre ensino médico e realidade social
vem sendo reiterado há décadas. O modelo tradicional de ensino
com base no hospital como locus privilegiado do processo de
aprendizagem, muitas vezes desarticulado do sistema de saúde,
não responde às necessidades de uma formação em que o princípio
da integralidade da atenção é o alicerce das práticas de saúde
(Maciel Filho, 2001). Este modelo é resumido por Silva (1986: 9-10)
como acrítico, a-histórico e cientificista, no qual a “(…) falta de
formação científica sólida, aliada à mitificação tecnológica e ao descompromisso social, transformam o médico formado num elo
fundamental na cadeia do consumo de produtos (medicamentos) e
equipamentos”.
Atualmente, contudo, os ministérios da Saúde e da Educação vêm
estudando critérios de atuação conjunta no credenciamento de
cursos que considerem o papel regulador do Estado, a
regionalização, a ampliação da rede pública de ensino e novas
propostas pedagógicas.
Essas iniciativas, que deverão servir como subsídio para a
proposta de Lei Orgânica da Reforma da Educação Superior, a ser
apreciada pelo Congresso Nacional, “apontam a construção de
processos regulatórios que podem reverter de fato as tendências
observadas, que caracterizam o sistema de ensino no país como
desordenado, desigual e privatizado” (Vieira et al., 2004: 200).
Já foi visto, no capítulo 1, que o governo federal tem investido
nessa direção, com iniciativas como a política de avaliação do
funcionamento das escolas médicas, a criação do exame nacional
para os graduandos, maior autonomia para as escolas na definição do currículo médico e a criação do Programa de Incentivo para
Mudanças Curriculares para Faculdades de Medicina (Promed).
Criado com a finalidade de incentivar transformações nos processos
de formação, geração de conhecimentos e prestação de serviços à
comunidade, por meio de inovações curriculares, de modo a
propiciar profissionais habilitados para responder às necessidades
do sistema de saúde brasileiro, o Promed estabelece mecanismos
de cooperação entre os gestores do SUS e as escolas médicas; incorpora no processo de formação médica noções integralizadas
do processo saúde-doença e da promoção de saúde; amplia a
duração da prática educacional na rede de serviços básicos de
saúde e favorece a adoção de metodologias pedagógicas,
centradas nos estudantes, visando a prepará-los para a auto-
educação continuada (Brasil, 2002a):
O que se busca é a intervenção no processo formativo para que os
programas de graduação possam deslocar o eixo da formação – centrado
na assistência individual prestada em unidades hospitalares – para um
outro processo em que a formação esteja sintonizada com o SUS, em
especial com a atenção básica, e que leve em conta as dimensões sociais,
econômicas e culturais da população, instrumentalizando os profissionais
para enfrentar os problemas do binômio saúde-doença da população na
esfera familiar e comunitária e não apenas na instância hospitalar. (Brasil,
2002d: 13-14)
Essas mudanças são imprescindíveis, porque, embora haja uma
interação recíproca entre o sistema de educação médica e o
sistema prestador de serviços, há razoável consenso acerca da
existência de uma determinação mais forte da prática médica sobre
a formação do recurso humano. Essa determinação se dá: 1) por
meio da adoção de um determinado currículo em resposta à
demanda do sistema de saúde por certo tipo de médico – como
ocorre agora com o PSF e a criação do Promed; 2) na capacidade
do sistema de saúde para tornar ou não viáveis as reformas propostas pelo sistema formador; 3) no fato de o sistema de saúde
imprimir suas modalidades específicas aos programas educativos,
ao prover espaços de prática para os educandos.
E se dessa vez as mudanças realmente parecem ter possibilidade
de se efetivarem é devido ao fato de que o Promed é uma iniciativa
que “pela primeira vez aponta não apenas uma direção concreta
para as mudanças, respeitando as peculiaridades, idiossincrasias e
autonomia de cada faculdade, mas também oferecendo recursos
financeiros e consultorias para o processo (…)” (Rego, 2005: 43).
No entanto, mesmo considerando que o Promed possa vir a obter
sucesso, não se pode ignorar que a mudança da formação médica é
um processo bastante complexo, subordinado à estrutura econômica e social da sociedade onde está inserido. Nesse sentido,
ainda que esse movimento para transformar a graduação médica
cresça e se consolide – e em que pese a conformação do PSF
como um novo mercado de trabalho –, há que considerar que
por um período de tempo significativo a grande maioria dos estudantes
seguirá buscando especializar-se. Isso porque ainda não se transformou a
imagem-objetivo de profissional bem-sucedido que a corporação e os
estudantes de medicina têm: médico especialista, trabalhando meio tempo
em um grande hospital privado e meio tempo em seu consultório
particular. (Feuerwerker, 2001: 52)
Mesmo entendendo que o Promed pretende que a formação do
médico seja adequada às necessidades de ampliação da atenção
básica e da estratégia de saúde da família, abrindo mercado para o
médico generalista, deve-se, contudo, destacar que a própria
população não reconhece o médico não especialista, o mesmo
ocorrendo com a corporação médica e mesmo com o CFM, que não
tem registrada a prática do clínico geral, sendo a medicina interna a formação mais próxima do que propõem as novas diretrizes
curriculares (Lampert, 2001). Em função disso, para que a mudança
seja bem-sucedida, a população deve ser considerada e, portanto,
instruída, para contribuir e prestigiar a iniciativa, e, para isso, o uso
dos veículos de comunicação é fundamental (Lampert, 2001).
Estratégias para ampliar o reconhecimento e status social dos
médicos generalistas que trabalham em áreas carentes e remotas têm sido implantadas em alguns países (Dussault & Franceschini,
2006). Elas ajudam a levantar o moral desses profissionais e os
estimulam a permanecer nessas áreas.
Na Austrália, há os clubes de saúde rurais, que funcionam nas
universidades, sendo destinados aos alunos que possuam interesse
em atuar posteriormente como profissionais nas áreas rurais e mais
remotas (Cameron, 2002). Os clubes têm por objetivo proporcionar
uma base social e de atividades profissionais para esses estudantes
e o apoio mútuo.
Na Tailândia, os médicos rurais criaram sua própria sociedade
(The Rural Doctor Society), que proporciona programas inovadores
para suporte ao trabalho nessas localidades. A sociedade foi muito bem recebida pelo público e pela corporação médica, tendo sido
criada, inclusive, uma premiação por reconhecimento público, que
elege o ‘melhor médico rural do ano’ e o ‘melhor médico da área
mais remota’. Alguns médicos recebem títulos honorários de mestre
ou doutor, emitidos por universidades. Em nível nacional, os
médicos rurais têm sido indicados à premiação como ‘personalidade
tailandesa do ano’ (Wibulpolprasert, 1999, 2002).
Esse tipo de estratégia realmente parece surtir efeito, como visto
na experiência do Pits, em que vários profissionais ressaltaram a
relevância que atribuem ao Diploma de Serviços Prestados à Nação
por terem participado do Programa e o orgulho em recebê-lo.
No Brasil, a crescente complexificação e tecnificação da prática
médica e as notórias deficiências da graduação têm feito com que a
formação de pós-gaduação seja encarada, tanto pela população
quanto pelos próprios médicos, como um requisito indispensável
para que o profissional conclua sua formação. O tipo de carreira a que o médico almeja e a conseqüente especialidade que irá
escolher se converteram em elementos diferenciadores de sua
posterior incorporação ao mercado de trabalho.
Isso leva a questionar se a formação em Saúde da Família deve
ter também o caráter de uma especialização. Há mais de vinte anos,
Ferreira (1983: 60) já alertava para os riscos aí embutidos e
argumentava que esse poderia não ser o caminho mais adequado
para se alcançar a desejável formação generalista para o médico:
É injustificável preparar um médico de família como especialista em
nível de pós-graduação. Isto constitui, além de um contra-senso, uma
falácia que pode conduzir a soluções contraproducentes. (…). se o
excesso de especialização é criticado, não se pode reverter este excesso
com a criação da medicina geral ou de família também em nível de
especialidade.16
Ao invés da criação de mais uma especialidade, o autor propunha
que o médico de família fosse formado como resultado do próprio
curso de graduação:
O nome que se dê a este profissional, seja médico de família, médico
geral, ou qualquer outro, teria pouca importância, mas o que seria sim
necessário assegurar é que sua preparação correspondesse ao próprio
curso médico, a fim de poder ingressar no serviço imediatamente após sua
graduação.17 (Ferreira, 1983: 60)
O autor entende que:
Ante a dificuldade de competir como médico geral desde o início da
carreira na condição de profissional liberal, a opção não terá que ser
necessariamente a da especialização precoce, mas o ingresso no sistema
de serviços de saúde para prestar atenção primária. Eventualmente,
inclusive, deveriam ser criados incentivos especiais para promover esta
solução, com a possibilidade de emprego único e de sua oferta a todos os
graduados de medicina geral, e o estabelecimento de mecanismos e graus
de ascenção na carreira, sem necessidade de alijar-se desta orientação
geral.18 (Ferreira, 1983: 60)
As ponderações de Ferreira nos remetem à experiência do Chile,
onde foi criada uma carreira específica para médicos que se propunham a trabalhar nas áreas mais carentes e distantes. No
entanto, quando o governo militar descentralizou o Sistema Nacional
de Saúde chileno e transferiu para os municípios a responsabilidade
pela atenção básica, esses médicos tornaram-se funcionários
municipais, sendo desvinculados da estrutura hospitalar do
Ministério, que lhes garantia educação continuada. O cargo tornou-
se menos atrativo, aumentando o número de vagas não
preenchidas, o que fez com que se estudasse a criação de um novo regime administrativo, para os profissionais de saúde municipais,
que garantisse a educação de pós-graduação e uma carreira em
atenção básica (Herrera & Corral, 1995; Opas/OMS, 1998).
Em um modelo em que, ao término da graduação, o médico
esteja apto a atuar na atenção básica, como se espera com as
novas diretrizes curriculares, as especialidades
devem ficar definidas em função da divisão racional das áreas de
ampliação científica e desenvolvimento de tecnologias médicas de ponta,
com vistas ao suporte e referência dos serviços de baixa e média
complexidade. Nesta lógica, o bom generalista, especialista e
superespecialista, são igualmente imprescindíveis, desde que
adequadamente distribuídos e articulados no processo de trabalho e de
oferta das ações de saúde à população de cada região. (Santos, 2001:
143)
A tendência à especialização pode anular o impacto dos
processos de mudança na graduação, como os que têm sido
implantados por meio do Promed (Padilha & Feuerwerker, 2002).
Em consonância com esse conjunto de argumentos, o que aqui se
defende é a formação do médico de família como resultado do
próprio curso de graduação, entendendo que o Promed e as novas
diretrizes curriculares representam, efetivamente, a possibilidade de
que o curso de medicina assegure terminalidade para a formação do
profissional médico.
Isso significa formar médicos, que, ao término do curso, estejam
aptos para ingressar no mercado de trabalho de saúde da família, e
que, pela competência adquirida na graduação, sejam prestigiados
e respeitados pela corporação e por todos os demais segmentos da
sociedade.
A distribuição das escolas médicas
A formação de recursos humanos para a saúde e a criação de
instituições formadoras devem ser responsabilidade dos governos, como resultado de políticas de saúde e de educação explícitas.
Todavia, no que se refere ao modelo de ensino médico, se por um lado, o Promed vem atender a uma expectativa e a uma
necessidade antigas; por outro, no que diz respeito à criação de
novas escolas médicas, o cenário ainda é preocupante. O que se
tem verificado é o aumento do número de escolas médicas e o crescimento desordenado dos programas de residência, sem que
ambos estejam efetivamente orientados pelas necessidades do
sistema de saúde e do modelo de atenção.
Como já discutido no primeiro capítulo, as escolas médicas estão
fortemente concentradas nas regiões Sudeste e Sul, e a expansão
de cursos médicos nessas áreas “obedeceu muito mais ao
desenvolvimento econômico e ao poder de compra dessas regiões
do que às reais necessidades de acesso ao ensino superior nas regiões desprovidas de infra-estrutura como o Norte e o Nordeste”
(Vieira et al., 2004: 192).
O tema tem preocupado os formuladores de políticas, gestores do
setor e demais atores. E não apenas no que se refere à má
distribuição da oferta de cursos de graduação de medicina, mas de
toda a área da saúde. Recentemente, o documento preparatório
para a 3ª Conferência Nacional de Gestão do Trabalho e da
Educação na Saúde, publicado em 2005, destacou “a necessidade de formular critérios nacionais para a abertura de cursos e de vagas
nas escolas, a serem respeitados por todas as instâncias do setor
da educação”, entendendo que “não se pode concordar que sejam
abertos cursos em regiões carentes sem um processo seletivo que
conceda elevada prioridade aos candidatos locais” (Brasil, 2005b:
48).
Não fica claro, no documento, o que se entende por “um processo
seletivo que conceda elevada prioridade aos candidatos locais”. Entretanto, já há várias décadas, diversos estudos internacionais
têm demonstrado que candidatos ao curso de medicina
provenientes de áreas rurais têm maior tendência a se interessarem
por atuar nessas áreas, comparativamente àqueles oriundos de
áreas metropolitanas, desde que estimulados por uma política de
admissão à graduação, por incentivos curriculares durante o curso
etc. (Carter, 1987; Cullison, Reid & Colwill, 1976; Johnson, Baeumler
& Carter, 1973; Kassebaum & Szenas, 1993; Leonardson, Lapierre & Hollingsworth, 1985; Rabinowitz, 1993; Rabinowitz et al., 1999).
Cullison, Reid e Colwill (1976: 504), por exemplo, afirmam que
apesar da escolha do local de prática ter muitos determinantes, muito
poucos deles podem ser influenciados pela escola médica. (…) No que se
refere à admissão à escola médica, a ênfase crescente na seleção de
pretendentes qualificados com origens rurais pode incrementar a
porcentagem de graduados da escola médica que estejam interessados
em atuar em área não metropolitana ou metropolitana de pequeno porte
(…). 19
A fim de aumentar o número de estudantes de medicina oriundos
das áreas rurais, esses autores propõem que as escolas médicas
não apenas incrementem o grau de aceitação de candidatos dessas
áreas que possuam qualificação, mas também implementem
programas de recrutamento de estudantes das áreas rurais. Vários
países têm adotado essa estratégia, como Austrália, Estados
Unidos e Tailândia (Wibulpolprasert, 2002).
Por fim, os autores concluem que:
Os dados de diversos estudos sugerem que programas comuns que
aumentam o número de estudantes médicos originários dos condados não
metropolitanos e incrementam oportunidades para esses estudantes na
medicina de família podem propiciar um impacto importante sobre a
carência de médicos rurais.20 (Cullison, Reid & Colwill, 1976: 505)
Rabinowitz (1993) avaliou os resultados de um desses
programas, desenvolvido na Pensilvânia, Estados Unidos. O Programa, denominado “Physician Shortage Area Program” (PSAP),
foi implantado em 1974, pelo Jefferson Medical College of Thomas
Jefferson University, uma universidade privada, e se propõe a
recrutar e admitir candidatos à escola médica, oriundos de áreas
rurais, que pretendam atuar como médicos de família em
localidades rurais ou desprovidas de atendimento médico. Além de
apoio financeiro, os estudantes contam com um programa curricular
específico em medicina de família, incluindo um supervisor, atividades obrigatórias no terceiro ano em uma ou duas localidades
não metropolitanas e um semi-internato em medicina de família com
preceptoria de um médico de família.
Rabinowitz analisou, por meio de dois estudos, os resultados
obtidos pelo PSAP após 18 anos de sua implantação (Rabinowitz,
1993), e, posteriormente, após 22 anos da implantação (Rabinowitz
et al., 1999). O autor se reporta a outros estudos, como o de Pathman, Konrad e Ricketts III, (1992), que já mostravam que os
médicos graduados pelo PSAP registram um ingresso em medicina
de família cinco vezes superior ao daqueles que não se graduaram
pelo Programa e que sete em cada dez graduados do PSAP aliam a
prática em medicina da família com a atuação em áreas não
metropolitanas ou desprovidas de médicos. Os dois estudos de
Rabinowitz confirmam e estendem esses resultados, mostrando que
os graduados do PSAP continuam ingressando muito mais na medicina de família em áreas rurais ou carentes do que seus pares.
Registram, além disso, alto grau de retenção nessas áreas em
comparação com outros programas vigentes nos Estados Unidos,
como o National Health Service Corps (NHSC), que oferece bolsas
de estudo ou crédito educativo a estudantes que se proponham a
atuar em áreas, designadas pelo governo, com carência de
médicos. Concluem tratar-se de um Programa muito bem-sucedido
e com resultados de longo prazo, que deve ser implementado por outros estados norte-americanos (Rabinowitz, 1993; Rabinowitz et
al.,1999).
Rabinowitz (1993) observa, ainda, que, embora não tenham sido
avaliados isoladamente os vários componentes do PSAP (admissão,
ajuda financeira, supervisão, currículo e locais de prática), a
admissão seletiva parece ser o fator mais poderoso para o sucesso
do Programa,
uma vez que dados nacionais indicam que estudantes com origem rural
ou interesse em medicina de família que entram para a escola médica
estão muitas vezes mais próximos do que seus pares de se tornarem
médicos de família ou atuarem em áreas rurais (e aqueles não
interessados em medicina de família ou na prática rural são altamente
improváveis de mudar sua escolha de carreira para a medicina de
família).21 (Rabinowitz, 1993: 938)
Além disso, Rabinowitz e seus colaboradores argumentam que
mais de 2/3 dos graduados pelo PSAP não haviam sido aceitos por nenhuma outra escola médica além da Jefferson Medical College.
Os dados da revisão de todos os matriculados da Jefferson Medical
College, durante os 22 anos analisados pelo estudo, mostram que
uma proporção similar de alunos não teria sido aceita pela própria Jefferson Medical College se o Programa não existisse. No entanto,
verifica-se que o desempenho desses estudantes durante o curso
foi semelhante a de seus colegas de classe não participantes do
PSAP (Rabinowitz et al., 1999).
O autor acrescenta que outros programas têm alcançado metas
semelhantes, o que sugere que as “escolas médicas podem ter uma
influência substancial na distribuição geográfica e de especialidades
de seus graduandos”. Rabinowitz adverte, no entanto, que as
escolas médicas não podem solucionar o problema nacional da má
distribuição de médicos, por si sós. Mudanças são também necessárias na
abordagem da educação superior médica, na remuneração dos médicos
da atenção primária, no processo de crédito educativo e nas condições de
exercício profissional.22 (Rabinowitz, 1993: 939)
De qualquer forma, em outro estudo que discute os fatores
críticos a serem considerados para o desenho de programas que
tenham como objetivo aumentar a oferta e retenção de médicos na
atenção primária em áreas rurais, Rabinowitz et al. (2001) reiteram a conclusão de que os educadores médicos e os formuladores de
políticas podem obter um grande impacto se implantarem
programas que incrementem o número de estudantes médicos de
origem rural e planos de carreira na medicina de família. Estudos
desenvolvidos por outros autores reforçam essa conclusão (Curran
& Rourke, 2004; Dunbabin & Levitt, 2003; Jackson & Jackson, 1991;
Kamien & Buttfield, 1990; Vaneslow, 1990).
Curran e Rourke (2004: 266) também entendem que:
A educação médica tem um importante papel a desempenhar no
recrutamento de médicos rurais. A organização, localização e missão das
escolas médicas têm se mostrado relacionadas com a propensão dos
graduandos a selecionarem a prática rural. Escolas médicas que são
descentralizadas, localizadas em áreas rurais, possuem um foco rural,
encorajam a admissão de estudantes rurais, facilitam o currículo médico
voltado para a atuação rural e que proporcionam desde cedo experiências
de aprendizado em medicina rural, são as mais bem-sucedidas em
graduar médicos que irão escolher a prática rural como carreira. 23
Os autores reportam três exemplos internacionais de escolas
médicas com essas características e orientações: Tromso, no
nordeste da Noruega; Jichi Medical School, no Japão; e Memorial
University, em St John’s, Canadá.
Na Tailândia, o recrutamento de estudantes rurais tem sido feito
por algumas escolas médicas, com relativo sucesso. Tais escolas, espalhadas pelo país e subsidiadas, formam, anualmente, cerca de
300 médicos especificamente para atuar nas áreas rurais. Uma rede
de hospitais e clínicas locais onde os estudantes podem praticar foi
montada para dar suporte ao Programa. Os estudantes
desenvolvem essa prática nas localidades onde irão trabalhar após
a graduação, o que é definido em contrato quando são recrutados,
com vigência de dois a quatro anos. O Programa tem aumentado,
consideravelmente, a proporção de alunos de medicina de origem rural (Wibulpolprasert, 1999, 2002).
Os estudantes de origem rural estão sub-representados nas
escolas médicas relativamente à população rural total, o que
caracteriza a dificuldade de acesso dessa população ao ensino
médico (Curran & Rourke, 2004). Diversos estudos confirmam esse
cenário (Head & Harris, 1989; Hutten-Czapski & Thurber, 2002;
Kamien & Buttfield, 1990; Kassebaum & Szenas, 1993; Rourke,
2005).
Com freqüência, as comunidades rurais possuem menor nível
educacional do que as urbanas. Dessa forma, por falta de modelos,
os jovens que residem nas áreas rurais têm menos incentivo e
experimentam menos aceitação à idéia de cursar uma faculdade,
incluindo a escola médica, do que seus pares urbanos (Dhalla et al.,
2002). Além disso, a renda familiar nas regiões rurais é
significativamente mais baixa do que a verificada nos centros
urbanos, o que faz com que o alto custo da escola médica se configure como uma barreira real para os estudantes dessas áreas.
A conclusão a que se chega é que há um viés no processo de
admissão à escola médica que, não intencionalmente, dificulta a
entrada de estudantes das áreas rurais (Rourke, 2005).
Variadas estratégias têm sido utilizadas para ampliar esse acesso.
Na Austrália e nos Estados Unidos foram implementadas políticas
que incluem criação de vagas, pontuação diferenciada nos
processos seletivos, bolsas de estudo e apoio financeiro (Rourke, 2005). Recentemente, a Sociedade de Médicos Rurais do Canadá
divulgou um relatório com recomendações de políticas e estratégias
para ampliar o acesso dos estudantes rurais à formação médica,
que inclui iniciativas destinadas a fomentar, desde o ensino básico,
o interesse pelo estudo da medicina (Rourke, 2005). No México e na
Tailândia, os estudantes que recorrem ao crédito educativo para
cursar medicina podem pagar seus estudos por meio do trabalho,
após a graduação, em áreas rurais com carência de médicos, definidas pelo governo (Dussault & Franceschini, 2006).
Os jovens das áreas rurais que conseguem ultrapassar essas
dificuldades ainda precisam arcar com elevados custos de
deslocamento em função das grandes distâncias que, em geral,
separam essas localidades dos centros urbanos onde estão
localizadas as escolas médicas (Rourke, 2005). Dussault e
Franceschini (2006) mostram que a localização da escola médica
está associada com a escolha do local de prática e da especialidade.
No Brasil, o cenário não é diferente e se estende à formação em
nível de pós-graduação. Feuerwerker (2001: 51), por exemplo,
lembra que “o fato de o médico recém-formado fazer residência fora
do seu local de origem é um importante fator de concentração dos
médicos nos principais centros urbanos e especialmente na região
Sudeste”. Afirmação confirmada pelo estudo de Machado (1997),
que mostra que 60% dos médicos que migram para fazer residência médica não retornam ao seu local de origem. Estudos
internacionais, já há algumas décadas, também demonstram o
mesmo (Holmes & Miller, 1986; Johnson, Baeumler & Carter, 1973;
Leonardson, Lapierre & Hollingsworth, 1985; Yett & Sloan, 1974).
O estudo de Machado (1997) permite observar também que a
localização de escolas de medicina em municípios do interior
contribui para que os profissionais que ali se graduam acabem
fixando residência em localidades do interior do país. Somente para o estado do Rio de Janeiro essa tendência não se revelou válida, uma vez que independentemente da localização do estabelecimento
de ensino, os médicos formados terminam por se fixar nas capitais.
As conclusões da autora confirmam a literatura internacional, que
mostra a tendência dos médicos em permanecerem nas áreas onde se graduaram ou se especializaram (Burfield, Hough & Marder,
1986; Cooper, Heald & Samuels, 1977; Kristiansen & Førde, 1992;
Leonardson, Lapierre & Hollingsworth, 1985; Scheffler, 1971;
Watson, 1980). Recentes estudos nacionais também chegam às
mesmas conclusões (CFM, 2004; Pinto, 1999; Póvoa & Andrade,
2006), o que deixa clara a importância da distribuição espacial das
escolas de medicina para uma distribuição mais equânime de
médicos no país.
Conforme demonstrou a experiência do Pits, foi a Região
Nordeste que se destacou como região de graduação da maioria
dos médicos lotados no Programa, dos que concluíram um ano de
participação e dos que renovaram por mais um ano. Já o Sudeste
apresentou um índice como região de graduação dos médicos
desistentes ou desligados (37,4%) bastante superior à sua
participação como região de graduação dos que concluíram um ano
(25,6%) ou renovaram (16,2%). Além disso, também foi expressivo o percentual de médicos que concluíram um ano no Pits e haviam
se formado em instituições de ensino superior da Região Norte
(19,7%), que foi o local de origem de 19,8% dos médicos lotados,
levando à conclusão de que os médicos oriundos da Região Norte
ali se graduaram. Deve-se relembrar, ainda, que a maioria dos
médicos que concluíram um ano no Pits ou renovaram sua
participação era proveniente das regiões Nordeste e Norte (68,7% e
73%, respectivamente).
Vale, portanto, destacar a conclusão obtida por meio desses e de
outros dados do Pits: há maior interesse, por parte dos médicos que
já residem e se graduaram nas regiões Nordeste e Norte, de fixação
nessas localidades consideradas menos atrativas para aqueles do
Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Desde que, é claro, sejam oferecidas
condições adequadas de contratação, remuneração, capacitação e
incentivos compensatórios. Além do maior interesse, esses
profissionais revelaram particular sensibilização com as condições de vida e de saúde da população dos estados e regiões em que vivem, mostrando-se mais conhecedores dos problemas e
limitações existentes e mais conscientes e mobilizados em reverter
o quadro de saúde que afeta as comunidades dessas áreas.
Esses resultados são convergentes com os de estudos
internacionais que mostram que graduados oriundos de escolas
médicas localizadas fora dos grandes centros urbanos são mais
propensos a atuar em áreas rurais e a escolher especialidades
ligadas à atenção básica, tais como a medicina de família
(Rosenblatt et al., 1992).
No caso do Brasil, a possibilidade de que esses estudantes
possam graduar-se em universidades em seus próprios estados de
origem e dar continuidade a sua formação nessas localidades vem se tornando factível apenas há alguns poucos anos. Como visto no
capítulo 1, até pouco tempo, a maioria desses profissionais
precisaria deslocar-se para as demais regiões do país –
particularmente para o Sudeste e o Sul – para se graduar em
medicina. Hoje, o Norte e o Nordeste contam com cerca de 31% das
escolas médicas do país, sendo que mais da metade delas (54%)
foram criadas nos últimos seis anos, ou seja, a partir do ano 2000. O
impacto que a criação dessas escolas poderá ter sobre a má distribuição e a maior fixação de médicos nessas regiões só poderá
ser avaliado dentro de mais alguns anos. Mas, de qualquer forma, a
abertura de vagas para medicina nessas áreas parece indispensável
como uma das estratégias para enfrentar o problema e se mostra
compatível com o que aponta a literatura internacional. Isso não
significa defender uma visão expansionista de formação de
médicos, mas ao contrário, visa a estimular a reflexão acerca da
reversão dessa tendência, em favor de políticas que: 1) reorientem a criação de escolas médicas num sentido que favoreça a distribuição
geográfica e a fixação desses profissionais em localidades de menor
porte; 2) estabeleçam processos seletivos que incentivem o
ingresso de estudantes rurais; 3) criem oportunidades de educação
continuada e atualização profissional em localidades próximas a
essas áreas.
O movimento migratório dos médicos
A distribuição geográfica de médicos está fortemente
condicionada pelo processo de escolha da localidade em que esse
profissional pretende atuar, que, por sua vez é influenciada por
diversos fatores, alguns específicos desta categoria profissional; outros inerentes ao próprio movimento migratório em geral.
Os fatores envolvidos na decisão que leva os indivíduos a
migrarem de uma área para outra estão vinculados à identificação
de aspectos positivos e negativos nas áreas de origem e de destino,
conhecidos como fatores de atração ou de expulsão (Lavinas,
Carleial & Nabuco, 1994; Patarra, 1997; Santos, Levy &
Szmrecsányi, 1991; Singer, 1972). É, portanto, uma decisão seletiva
que cria correntes e contracorrentes de fluxo migratório, com especificidades por escolaridade, sexo, idade, ocupação etc
(Pacheco & Patarra, 1997; Pinto, 2000).
O fenômeno migratório é parte de um processo mais amplo de
transformação global da própria sociedade, sendo possível
diferenciar os fatores de atração ou expulsão segundo seu caráter
de ‘causas’ – entendidas como condições estruturais – ou de
‘motivos’ – entendidos como condições individuais ou familiares
(Singer, 1972).
Póvoa e Andrade (2006), com base em modelo teórico proposto
por Maier e Weiss (1991), realizaram um estudo de modelagem
considerando diversas variáveis que funcionam como ‘causas’ ou
‘motivos’ para a migração de médicos no Brasil. O estudo confirma
os achados de Rosko e Broyles (1988), para quem os médicos são
atraídos para as regiões onde os ganhos líquidos sejam altos.
Segundo esses autores, o maior número de médicos em uma
localidade aumenta a competitividade e diminui os ganhos líquidos, tornando-a menos atrativa, segundo este critério.
No entanto, como foi possível observar na experiência do Pits,
mesmo com a boa remuneração oferecida e acrescida do incentivo
financeiro criado pelo Ministério da Saúde para este fim, poucos
profissionais optaram por renovar sua participação no Programa.
Isso parece indicar que, em se tratando de interiorização, não é o
atrativo financeiro que tem maior peso na decisão dos médicos de
aceitarem trabalhar nessas localidades.
Dentre os fatores que podem ser classificados como ‘motivos’, a
literatura revela que a influência do cônjuge tem papel de destaque
na escolha dos médicos por uma cidade para migrar (Holmes &
Miller, 1986; Kazanjian & Pagliccia, 1996; Leonardson, Lapierre & Hollingsworth, 1985; Póvoa & Andrade, 2006; Szafran, Crutcher &
Chaytors, 2001). São estudos que mostram que as localidades com
mercado de trabalho restrito e com poucas oportunidades são
preteridas pelos parceiros conjugais dos médicos – particularmente
quando possuem bom nível de escolaridade – por verem suas
próprias perspectivas profissionais reduzidas. Em recente trabalho,
Pinto (2000) mostra que 26,9% do total de médicos em atividade no
país migram por motivos familiares; 25,7% em busca de formação profissional e 24,4% por melhores condições de trabalho.
A modelagem de Póvoa e Andrade (2006) também aponta nessa
direção, além de revelar que os médicos mais jovens são mais
propensos a migrar, reduzindo-se a partir dos 50 anos o interesse
em se deslocar. No entanto, no caso do Pits, o expressivo
percentual de 23,2% dos lotados tinham mais de 50 anos, e parte
desses profissionais optaram por atuar no Programa em busca de
um estilo de vida mais interiorano e distante do estresse das grandes cidades. Foram também os médicos mais velhos que, em
geral, optaram por continuar no Programa por pelo menos mais um
ano.
Outros estudos apontam que as mulheres demonstram menos
interesse em atuar nas áreas rurais do que os homens (Bowman &
Gross, 1986; Doescher, Ellsbury & Hart, 2000). Dessa vez o caso do
Pits confirma o achado, revelando que tanto os médicos que se
inscreveram para participar do Programa quanto os que desistiram antes da lotação e os efetivamente lotados eram, em sua maioria,
do sexo masculino. Além disso, o maior percentual de desistências
e desligamentos foi registrado entre as mulheres. São necessários
estudos mais detalhados e específicos para identificar as causas
desse fenômeno.
Leonardson, Lapierre e Hollingsworth (1985), utilizando técnicas
de regressão múltipla, pesquisaram 29 variáveis que podem
interferir na escolha do local de atuação dos médicos, destacando como principais: o tamanho da cidade onde o profissional cresceu; o tamanho da cidade onde o(a) esposo(a) ou companheiro(a) cresceu;
o contato com outros médicos; a importância que o profissional
atribui à educação médica continuada; as oportunidades de
crescimento profissional. Os autores concluem que as percepções e preferências de estilo de vida dos médicos são os principais fatores
para determinar o local de atuação.
Com relação ao quarto fator anteriormente apontado, a educação
médica continuada –, foi possível observar, na experiência do Pits,
que, em sua maioria, os médicos que se inscreveram no Programa
não haviam feito nenhum curso de pós-graduação, e que o curso de
especialização em saúde da família foi considerado por eles como o
fator mais atrativo do Programa. Foram exatamente profissionais sem pós-graduação que, majoritariamente, renovaram sua
participação por mais um ano Além disso, a quase totalidade dos
médicos que participaram do Pits declarou necessidade de
aprimoramento profissional.
Page et al. (1992) também se dedicaram à pesquisa de fatores
que interferem na escolha dos médicos pelo local de atuação. Os
autores identificaram fatores atrativos e negativos em relação às
áreas rurais. Como fatores negativos, foram citados pelos profissionais: a ausência de outros médicos com quem possam
interagir; a inexistência de supervisores; a falta de especialistas de
referência para onde encaminhar os pacientes; a falta de
equipamentos e de recursos para manutenção; a falta de apoio
laboratorial; as longas distâncias dos centros urbanos; as
dificuldades de transporte; a escassez de opções de lazer. Mas o
fator mais referido como motivo para não haver interesse pela
escolha de áreas rurais foi a falta de oportunidades de pós-graduação. Como aspectos atrativos que mobilizam os profissionais
para atuar nessas áreas foram identificados: menor taxa de
violência; menos poluição; desejo de mudança; sentimentos
altruístas. Em relação aos ‘sentimentos altruístas’, no caso do Pits,
‘a atuação profissional junto às comunidades carentes’ foi
considerada pelos médicos como o fator mais satisfatório do
Programa.
Szafran, Crutcher e Chaytors (2001), por sua vez, encontraram
resultados semelhantes aos estudos de Leonardson, Lapierre e Hollingsworth (1985) e Page et al. (1992), destacando ainda as
condições de remuneração, incentivos financeiros, a disponibilidade
de educação médica continuada, as oportunidades educacionais
para os filhos e a proximidade da família e dos amigos.
No Brasil, o crescente processo de industrialização e urbanização,
intensificado a partir da década de 1950, tornou as regiões Sudeste
e Sul pólos de atração de profissionais dos mais variados
segmentos, não apenas pela maior oferta de trabalho, mas também
pelas oportunidades educacionais.
Analisando a origem geográfica dos médicos que trabalham nas
diversas regiões brasileiras, Machado (1997), a partir do já citado
“Perfil dos médicos no Brasil”, realizado em 1995, aponta as especificidades do movimento migratório desses profissionais. As
regiões Nordeste, Sudeste e Sul comportam-se como mercados de
trabalho mais fechados regionalmente, com mais de 73% de seus
médicos sendo oriundos da própria região. O Centro-Oeste revela-
se como o mercado mais dependente de profissionais de outras
regiões (68,8%), seguido da Região Norte (39%). A análise por
Unidade da Federação (UF) mostra que, com exceção do Pará, os
demais estados da Região Norte dependem fortemente do aporte de médicos vindos de outros estados do país. Já o Rio Grande do Sul e
Minas Gerais são os que possuem a menor participação de médicos
migrantes – 5,7% e 13,1%, respectivamente –, acentuando a
característica de mercados fechados, constituídos de profissionais
nascidos na própria localidade.
Machado (1997: 42), com base em mapas migratórios entre as
UFs, elaborados a partir do estudo que coordenou, resume assim as
principais características observadas no movimento migratório dos médicos entre os diversos estados brasileiros:
Minas Gerais se destaca como um ‘estado migrador’, seguido de Rio de
Janeiro e São Paulo, fato explicado em parte pela alta concentração de
escolas médicas nesses estados. Apenas um estado nordestino –
Pernambuco – figura entre os estados de maior volume migratório, mesmo
assim localizado apenas no movimento de migração Pernambuco-
Roraima. Paradoxalmente, a totalidade dos estados que compõem a
região Nordeste apresenta as menores taxas de migração de todo o país,
o que sugere um mercado fechado e tipicamente nordestino, onde as
trocas de serviços e profissionais especializados são realizadas no interior
da própria região.
Pinto (2000: 54), por sua vez, sintetiza as principais
características do movimento migratório desses profissionais:
Médicos tendem a se especializar e em boa medida acabam buscando
centros urbanos desenvolvidos a fim de se ‘re-qualificarem’ para os novos
desafios e perspectivas profissionais; médicos consideram os ‘fatores de
atração’ que um determinado município de um estado possa oferecer e
isso influencia sua decisão de migrar; médicos formam movimentos
migratórios de correntes e contracorrentes diferenciados por
especialidade, faixa etária e gênero; médicos analisam, no plano
individual, os custos e benefícios de migrar, levando em consideração, por
exemplo, os rendimentos que irão auferir, estando estes situados, de
maneira geral, acima da média salarial dos demais profissionais não-
migrantes.
De qualquer forma, ainda é muito reduzido o contingente de
médicos que optam por atuar no interior. No caso dos egressos de
universidades federais, por exemplo, apenas 14% dos que se
graduaram no estado do Rio de Janeiro, 8% no Pará, 7% em
Pernambuco, 4% no Ceará e no Rio Grande do Norte e 2% em
Alagoas, se deslocaram para o interior (Machado, 1997). Mas a competitividade cada vez maior do mercado de trabalho nos
grandes centros urbanos tende a acarretar, gradativamente, maior
movimento migratório para cidades do interior que ofereçam
condições para o exercício da medicina, conforme demonstra a
experiência de outros países (Newhouse et al., 1982; Nocera &
Wanzenried, 2002; Schwartz et al., 1980; Williams et al., 1983).
Entende-se aqui que a diversidade de ‘causas’ e ‘motivos’ que
interferem nesse cenário mostra o quanto é complexo e multifacetado o problema da má distribuição de médicos. Para
enfrentá-lo, sugere-se que além de políticas que contemplem as
considerações e recomendações defendidas nos eixos analíticos
anteriores, sejam adaptadas iniciativas como as que foram
implementadas na Austrália. O governo e alguns estados
australianos têm fundado organizações não-governamentais,
conhecidas como Agências de Força de Trabalho Rural, para incrementar o recrutamento de médicos rurais e estimular sua
permanência nessas localidades (Cameron, 2002). A principal
estratégia adotada é a garantia de educação continuada, aliada a
gratificações financeiras, sistema de referência e contra-referência, manutenção de uma rede de comunicação e de troca permanente
de experiências entre esses profissionais e mediação em caso de
atritos entre colegas ou com as autoridades locais. Além disso,
reconhecendo a importância da influência e satisfação da família
para que os médicos se fixem nessas localidades, foram
implementadas estratégias de apoio às suas famílias, incluindo a
criação da Rede de Famílias de Médicos Rurais, que proporciona
suporte para as possíveis dificuldades de adaptação.