Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
Apresentação
O setor saúde tem progressivamente se tornado um importante
gerador de empregos na economia brasileira e mundial. Somente no Brasil, é responsável por quase cem mil estabelecimentos de saúde,
gerencia mais de meio milhão de leitos hospitalares e gera
aproximadamente dois milhões de empregos diretos.
Por sua vez, as transformações por que vem passando a
categoria médica no Brasil intensificaram-se a partir da década de
1970, como resultado das mudanças políticas e socioeconômicas do
mundo contemporâneo, com impactos na formação, no mercado de
trabalho, na organização dos serviços, na distribuição e no perfil desses profissionais, entre outros aspectos.
Essas transformações trouxeram importantes conseqüências.
Uma delas foi a distribuição geográfica heterogênea desses
profissionais. O número de escolas médicas, de vagas para o
primeiro ano de residência médica e de médicos concentra-se
fortemente nas regiões Sul e Sudeste, especialmente nesta última,
seguindo a concentração da população e do Produto Interno Bruto
(PIB). Mesmo nos locais onde há oferta desses profissionais, essa distribuição se dá de forma também heterogênea, com diferenciais
intra-urbanos, em especial nas áreas mais violentas.
A distribuição geográfica de médicos é um problema com que se
defrontam diversos sistemas nacionais de saúde e, no Brasil, tem-se
tornado, cada vez mais, um grande desafio para a consolidação do
Sistema Único de Saúde (SUS). A forte concentração geográfica
dos profissionais e dos serviços impede a concretização dos
princípios que regem o SUS, particularmente no que se refere à universalização, à integralidade e à própria descentralização.
A compreensão da complexidade de todo esse cenário não deve
conduzir à perplexidade e ao imobilismo. Ao contrário, deve
estimular a revisão de experiências e políticas, a crítica e o desenho
de estratégias que permitam o enfrentamento do problema. É com
essa finalidade que aqui são evidenciados os fatores e
condicionantes que interferem na distribuição e fixação de médicos, de forma a contribuir para identificar possíveis estratégias de
intervenção que podem ser aplicadas à realidade brasileira, no
contexto das políticas públicas.
Organizado em quatro capítulos, este livro inicia-se com a
discussão dos fatores determinantes que conformaram o atual
cenário da distribuição de médicos no Brasil. São abordados
aspectos sobre a inserção dos médicos no mercado de trabalho em
saúde e os determinantes históricos da oferta desses profissionais.
O capítulo 1 ainda revela os encontros e desencontros entre o
mercado de trabalho e a oferta de médicos nas regiões brasileiras,
colocando em evidência a extensão do problema da má distribuição
geográfica dessa categoria profissional.
As tentativas de enfrentamento da má distribuição geográfica em
nosso país são discutidas no capítulo seguinte, no qual são
identificados os programas implantados pelo governo federal que
tiveram a interiorização de profissionais dentre suas metas.
Entre essas estratégias, o Programa de Interiorização do Trabalho
em Saúde (Pits), iniciativa mais recente do Ministério da Saúde
nesse campo e com características inéditas, é analisado em
profundidade, no capítulo 3, como resultado de estudo desenvolvido pela Rede Observatório de Recursos Humanos em Saúde
(Observarh), na Estação de Trabalho do Centro de Pesquisas
Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz). Por ser a iniciativa
governamental mais recente, criada especificamente para intervir
sobre a má distribuição geográfica de médicos, e ter sido
efetivamente implantada, contando com expressiva participação
desses profissionais, o Pits se torna, sem dúvida, um caso decisivo
para os que pretendem aprofundar o conhecimento sobre o tema.
No capítulo 4, é oferecida uma contribuição teórica com o objetivo
de repensar as políticas e estratégias direcionadas para a
distribuição e fixação de médicos no Brasil. Uma contribuição
produzida como uma abordagem que enfatiza o processo político,
que entende que as propostas devem emergir da própria realidade
que se quer transformar, enquanto locus de conscientização e
organização das forças institucionais e sociais comprometidas com
a democratização da saúde.